sábado, 30 de junho de 2018

Coreia do Norte aumentou produção de combustível nuclear

Em um sinal de que não pretende abandonar suas armas atômicas, a Coreia do Norte aumentou a produção de combustível nuclear e fez reformas importantes para melhorar um centro de pesquisas, revelaram imagens de satélites-espiões dos Estados Unidos.

Quando for a Pyongyang nesta semana, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, vai deixar claro que os EUA conhecem as reais dimensões do programa nuclear norte-coreano. Não estão dispostos a aceitar que algo seja escondido.

No encontro de cúpula histórico de 12 de junho em Cingapura, o presidente Donald Trump e o ditador Kim Jong Un assinaram uma carta de intenções. O regime comunista norte-coreano se comprometeu com a desnuclearização em troca de garantias de segurança e de ajuda ao desenvolvimento econômico.

Apesar das promessas, dos sorrisos e das juras de melhora nas relações entre os dois países, o que está sendo aperfeiçoado é a Central Nuclear de Yongbion, revelou o boletim de notícias 38 North, especializado em Coreia do Norte. Seu nome vem do paralelo 38º Norte, que divide as duas Coreias.

"De jeito nenhum, a Coreia do Norte vai abandonar algum dia suas armas nucleares", observou o diretor do Centro para o Interesse Nacional, Harry Kazianis, ao comentar as últimas notícias. "Desde a cúpula, aprendemos que a Coreia do Norte está querendo uma coisa do governo Trump: a aceitação do status nuclear, não o desarmamento."

A reunião com Trump foi uma vitória diplomática de Kim, que saiu de seu isolamento histórico e ainda conseguiu do presidente americano uma concessão importante: a suspensão das manobras militares conjuntas dos EUA com a Coreia do Sul.

Trump ganhou prestígio, mas está sendo criticado por dizer que a ameaça nuclear norte-coreana acabou. Na quarta-feira, o secretário de Estado, Mike Pompeo, declarou ao Senado que o risco ainda existe. O presidente estaria falando numa redução da ameaça. "Não existe nenhuma dúvida a esse respeito", concluiu Pompeo.

O documento assinado em Cingapura é vago. Todos os detalhes do programa de desnuclearização da Coreia do Norte serão definidos em negociações longas e complexas.

Kazianis acredita que Kim vai usar a mesma tática de seu avô e de seu pai, de quem herdou o poder num comunismo dinástico: "Negociar durante meses ou anos enquanto consolida Pyongyang como uma potência nuclear.

Outros analistas têm mais esperanças. Jonathan Schanzer, da Fundação para a Defesa das Democracias, vê nas imagens de satélite "inegavelmente um sinal de que a Coreia do Norte não será uma parceira confiável neste esforço de desnuclearização. Espero um misto de barganhas e ameaças de parte dos EUA para descobrir se a Coreia do Norte é séria no compromisso de concluir o processo."

Os EUA terão de mostrar seriedade, fazer pressão, talvez aumentar sua presença militar na região, o que incomodará a China. No senado, o secretário Pompeo considerou "inapropriado e, francamente, contraproducente" revelar "detalhes das discussões em andamento".

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Departamento de Estado pede fuzileiros navais em Taiwan

O Departamento de Estado solicitou o envio de fuzileiros navais para proteger a representação diplomática dos Estados Unidos em Taiwan, a ilha que a República Popular da China considera uma província rebelde, revelou hoje a rede de televisão americana CNN.

A presença de fuzileiros navais americanos em Taiwan certamente será considerada em Beijim como um desafio ao regime comunista chinês. Será mais um ponto de atrito entre a China e os EUA, ao lado dos conflitos comerciais, da Coreia do Norte e do Mar do Sul da China.

Taiwan é a ilha para onde os nacionalistas comandados por Chiang Kai-shek fugiram quando a revolução comunista liderada por Mao Tsé-tung tomou o poder, em 1º de outubro de 1949, criando na prática duas chinas com a República da China em Taiwan.

O regime comunista sempre adotou a política de que só existe uma China. Quando os EUA se reaproximaram da China com as visitas do assessor de segurança nacional Henry Kissinger, em 1971, e do presidente Richard Nixon, em 1972, Mao condicionou o estabelecimento de relações diplomáticas com os EUA ao rompimento dos EUA com Taiwan. O regime exige o mesmo de todo país que quiser manter relações com a China.

A República Popular da China também tomou de Taiwan a vaga da China como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, em 1971.

Quando um partido favorável à independência estava prestes a vencer a eleição presidencial de 1996 em Taiwan, a China fez testes de mísseis ameaçadores. O então presidente americano, Bill Clinton, mandou uma força-tarefa de porta-aviões para o Estreito de Taiwan, de 180 quilômetros, que separa a ilha da China continental.

A China considerou uma humilhação. Desde aquela época, desenvolveu sistemas de mísseis, satélites e porta-aviões para desafiar a supremacia militar dos EUA no Leste de Ásia, que vem desde a Segunda Guerra Mundial.

Em Taiwan, com a democratização do país, as novas gerações têm um desejo crescente pela independência, considerada totalmente inaceitável pela ditadura comunista chinesa.

O Kuomintang (KMT), o partido de Chiang Kai-shek, que governou Taiwan na maior parte de sua história de relativa independência adota a política dos três nãos: não à unificação, não à independência e não à guerra. Defende a manutenção do status quo ambíguo, como quer a o regime comunista chinês, apostando numa reunificação até 2050.

Com a volta do Partido Democrático Progressista (PDP) ao poder, em 2016, aumenta a inquietação em Beijim sobre a independência de Taiwan. Há décadas, o regime comunista tenta controlar a ilha rebelde com um misto de intimidação militar e incentivos econômicos. Recentemente, aumentou a pressão militar.

Ao chegar à Casa Branca, o presidente Donald Trump, que não respeita protocolos nem políticas que não lhe agradem, recebeu cumprimentos pelo telefone da presidente taiwanesa, Tsai Ing-wen, para revolta da China. Foi a primeira vez que isto aconteceu desde o reatamento oficial entre os dois países, em 1978.

Como a estratégia de negociações de Trump é desestabilizar a outra parte, Taiwan volta a ser uma carta importante na disputa geopolítica entre os EUA e a China, que cada vez mais constrói uma máquina de guerra à altura do seu crescente poderio econômico e quer acabar com a hegemonia americana no Leste da Ásia.

Os EUA têm vários aliados ao redor da China, o Japão, a Coreia do Sul, as Filipinas e a Tailândia. Com Taiwan, assumiu o compromisso de garantir a segurança da ilha. Está reforçando a cooperação militar com a Índia, a Indonésia e o Vietnã. Se tivesse o controle de Taiwan, o regime comunista chinês teria acesso desimpedido ao Oceano Pacífico.

Sem uma declaração de independência de Taiwan, é improvável que a China invada Taiwan antes de 2030, quando terá acumulado grande poderio militar. A reunificação continuará sendo um objetivo central do regime comunista, mas ele deve seguir, ao menos por enquanto, as lições de Sun Tzu no clássico  A Arte da Guerra: a maior vitória é derrotar o inimigo fora do campo de batalha, sem disparar um tiro.

Desemprego no Japão cai ao menor nível em 25 anos

A taxa de desemprego no Japão caiu para 2,2% em maio e o número de vagas disponíveis supera a oferta de mão de obra, chamando a atenção mais uma vez para a redução na força de trabalho da terceira maior economia do mundo. É o menor nível desde outubro de 1992.

A maioria dos economistas ouvidos pela agência Reuters esperava a manutenção da taxa de 2,5%, registrada em abril. O número de vagas para candidatos a emprego subiu para 1,6. Está um pouco abaixo do 1,64  de janeiro de 1974.

O envelhecimento da população e a contração do mercado de trabalho estão entre as principais causas da estagnação da economia japonesa. Em 2018, o país deve ter a menor taxa de crescimento das grandes potências capitalistas do Grupo dos Sete (EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá).

Pelos cálculos do Fundo Monetário Internacional (FMI), "o impacto do envelhecimento pode custar uma queda de um ponto percentual por ano no crescimento do produto interno bruto do Japão nas próximas três décadas."

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Atirador ataca jornal local e mata cinco pessoas nos EUA

No maior ataque a jornalistas em décadas nos Estados Unidos, um homem armado com uma espingarda e granadas invadiu a sala de redação de um jornal de Anápolis, capital do estado de Maryland, e disparou, matando cinco pessoas e ferindo outras duas. A polícia o identificou com Jarrod Ramos, de 38 anos, que foi preso na hora.

Há anos, Ramos tinha uma relação de conflitos com a Capital Gazette, que publica vários jornais na região de Maryland. Ele processou jornalistas por difamação e fazia campanha contra a companhia jornalística nas redes sociais.

"Este foi um ataque visando a Capital Gazette", declarou o delegado William Krampf, chefe interino do Departamento de Polícia do Condado de Arundel. "Esta pessoa estava preparada para atirar em pessoas. Sua intenção era fazer o mal."

Pelo Twitter, um estágio identificado como Anthony Messenger pediu socorro e deu o endereço do prédio atacado. Phil Davis, repórter de polícia, contou que Ramos "atirou na porta de vidro" da entrada da sala de redação.

A empresa, do século 18, se orgulha de ter lutado contra o imposto do selo, uma das causas da    revolta que levou à independência dos EUA, em 4 de julho de 1776. The Capital Gazette foi fundado em 1884.

Em julho de 2011, o jornal publicou uma reportagem sob o título: "Jarrod quer ser seu amigo", contando que ele pediu amizade no Facebook para uma ex-colega de escola e ao longo de vários meses "alternava pedidos de ajuda, a chamava com palavras vulgares e a mandava se matar".

Depois de mais de um ano de assédio, Ramos confessou a culpa e foi condenado a um ano e meio com direito a liberdade condicional sob supervisão, com a obrigação de fazer psicoterapia. Engenheiro eletrônico, ele não tinha antecedentes criminais. Tinha trabalho durante seis anos para o Escritório de Estatísticas do Trabalho dos EUA.

Ramos processou a companhia, o diretor responsável e o editor-chefe em julho de 2012, acusando-os de abalar sua reputação por causa da notícia. Três meses depois, entrou com uma segunda ação, por invasão de privacidade.

"Jarrod Ramos tinha uma longa história de raiva e de ações contra o jornal", declarou o ex-diretor Tom Marquandt. "Eu disse uma vez a meus advogados que esse cara viria um dia para atirar em nós. Estava preocupado comigo e com minha equipe que ele fosse ir além das ações legais."

Os mortos eram Gerald Fischman, de 61 anos, editor da página de opinião; Rob Hiaasen, de 59 anos, colunista e editor de reportagens especiais; John McNamara, de 56 anos, repórter esportivo e editor de jornais locais semanais; Wendi Winters, de 65 anos, repórter de cidade e colunista de jornais comunitários; e Rebecca Smith, contato do setor de vendas.

O ataque levou as polícias de todos os EUA a tomarem medidas para proteger jornalistas numa época de ataques diários à imprensa partindo do presidente Donald Trump.

Trump vai pedir a Putin retirada total das forças iranianas da Síria

Quando encontrar o ditador Vladimir Putin, em Helsinque, na Finlândia, em 16 de julho, entre as muitas questões de segurança, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vai exigir da Rússia que pressione o Irã a retirar todas as suas forças militares e milícias aliadas da Síria, revelou a imprensa israelense.

As relações bilaterais estão deterioradas desde que os EUA e a União Europeia impuseram sanções à Rússia em retaliação contra a anexação ilegal da península da Crimeia, que pertencia à ex-república soviética da Ucrânia.

Desde a campanha, Trump acena com a possibilidade de melhorar as relações através do contato direto com Putin, mas a interferência indevida do Kremlin na eleição presidencial americana, supostamente em conluio com a campanha de Trump para prejudicar a candidatura democrata da ex-secretária de Estado Hillary Clinton, impediu uma maior aproximação.

Ao comentar a realização do encontro de cúpula, Trump tentou mais uma vez negar a interferência russa nas eleições de 2016. Na manhã de hoje, afirmou: "A Rússia continua a dizer que não teve nada a ver com a interferência em nossas eleições", como se Moscou fosse admitir publicamente ações de espionagem e sabotagem.

A Rússia rejeita a acusação, mas interfere sistematicamente nas eleições na Europa e nas ex-repúblicas soviéticas.

Crescimento dos EUA no primeiro trimestre é revisado para baixo

A maior economia do mundo cresceu nos primeiros três meses de 2018 num ritmo inferior ao estimado anteriormente, de 2% ao ano, com redução nos números sobre consumo pessoal e acumulação de estoques, anunciou hoje o Departamento do Comércio dos Estados Unidos. As leituras anteriores foram de 2,3% e 2,2% ao ano.

De qualquer jeito, houve uma desaceleração do crescimento, que foi de 2,9% ao ano no último trimestre de 2017, para o ritmo mais fraco em um ano.

"A desaceleração no crescimento real do produto interno bruto no primeiro trimestre reflete desacelerações no consumo pessoal, nas exportações, nos investimentos em imóveis residenciais e nos gastos públicos dos governos municipais, estaduais e federal

O principal motivo da queda no crescimento foi uma baixa no avanço do consumo pessoal de 4% ao ano no fim do ano passado para 0,9% ao ano entre janeiro e março. A acumulação de estoques caiu de US$ 20,2 bilhões na estimativa anterior para US$ 13,9 bilhões.

Apesar do mau resultado, a expectativa é de uma expansão maior no segundo trimestre, de até 4%, em função do aumento do consumo pessoal e da queda no déficit comercial por causa das políticas protecionistas do governo Donald Trump. A longo prazo, a previsão é de um impacto negativo do protecionismo sobre o crescimento americano, com risco de recessão.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Aposentadoria de juiz dá chance a Trump de nomear conservador para Suprema Corte

O ministro Anthony Kennedy anunciou hoje aos 81 anos que vai se aposentar, dando ao presidente Donald Trump a oportunidade de nomear mais um juiz para a Suprema Corte, alterando o atual equilíbrio para garantir uma maioria conservadora.

Desde que foi indicado pelo presidente republicano Ronald Reagan, em 1987, Kennedy tem sido uma espécie de fiel da balança numa série de votações apertadas divididas em 5-4. Votou com os conservadores para proteger a liberdade religiosa e manter o resultado da eleição presidencial do ano 2000. Ficou com a ala progressista em temas como o casamento e o direito ao aborto.

Trump prometeu começar imediatamente a examinar nomes para o supremo tribunal americano de uma lista já preparada de 25 juristas: "Será alguém daquela lista", antecipou o presidente, elogiando Kennedy como um "grande juiz", com uma "grande visão" e um "tremendo coração".

O líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell, declarou que o substituto poderá ser aprovado antes das eleições de meio de mandato, em novembro, quando o Partido Republicano pode perder a maioria nas duas casas do Congresso.

Na rede de televisão CNN, o analista de assuntos jurídicos Jeffrey Toobin, autor de um livro sobre a Suprema Corte, previu que o direito ao aborto será revogado dentro de um ano e meio.

Suprema Corte proíbe sindicatos do setor público de fazer cobrança obrigatória

Num duro golpe nos sindicatos do serviço público, por 5 a 4, a maioria conservadora da Suprema Corte dos Estados Unidos proibiu a cobrança de mensalidades e taxas obrigatórias, decidindo que só deve pagar quem quiser.

"Os empregados devem escolher apoiar o sindicato antes de qualquer coisa ser cobrada deles", escreveu o relator, ministro Samuel Alito. Caso contrário, estariam financiando as mensagens oficiais do sindicato mesmo sem concordar com elas, numa violação dos direitos de liberdade de expressão e de livre associação para fins pacíficos garantidos na Emenda nº 1 à Constituição dos EUA.

Na Casa Branca, o presidente Donald Trump festejou "uma grande perda para os cofres do Partido Democrata".

A decisão deve abalar ainda mais o movimento sindical americano, que está em declínio há décadas, com queda no número de trabalhadores associados, especialmente no setor privado.

"O caso é uma manobra política para eliminar o poder das pessoas que trabalham de sustentar suas famílias e o poder de seus sindicatos", protestou Harold Schaitberger, presidente da Associação Internacional de Bombeiros, que representa 85% dos bombeiros e paramédicos dos EUA.

Os atuais ministros revogaram uma decisão da Suprema Corte de 1977, que autorizava os sindicatos do setor público a cobrar taxas. Esse dinheiro poderia cobrir despesas administrativas, mas não ser empregado em atividades políticas dos sindicatos.

terça-feira, 26 de junho de 2018

EUA pressionam aliados a parar de importar petróleo do Irã

Depois de abandonar o acordo nuclear assinado em 2015, o governo Donald Trump está pressionando os aliados dos Estados Unidos a suspender todas as importações de petróleo do Irã a partir de 4 de novembro, noticiou hoje a agência Bloomberg.

Desde a ruptura do acordo negociado no governo Barack Obama, o cancelamento de projetos de investimento acentuou os problemas da economia iraniana, com aumento de preços e uma desvalorização do real que provocaram uma greve na última segunda-feira no Grande Bazar de Teerã.

Ao deixar o acordo firmado entre o Irã, as grandes potências do Conselho de Segurança das Nações Unidas (EUA, China, França, Reino Unido e Rússia) e a Alemanha, o governo Trump não impôs sanções só à República Islâmica. Toda empresa que fizer negócios com o Irã deve ser excluída do mercado americano e proibida de operar em dólares.

Os EUA tentam aumentar o cerco ao regime fundamentalista iraniano. A volta das sanções terá forte impacto sobre a frágil economia do Irã. Foi a expectativa de aproximação com o Ocidente e de consequente recuperação da economia que levou o presidente Hassan Rouhani, considerado um moderado na república dos aiatolás, a negociar um congelamento do programa nuclear por dez anos.

Trump rompeu o acordo, ignorando o próprio Departamento da Defesa dos EUA, que considerava o regime de inspeções suficientemente rigoroso. O secretário de Estado, Mike Pompeo, fez exigências inaceitáveis para Teerã com o fim da interferência em outros países do Oriente Médio e do apoio a grupos extremistas muçulmanos que lutam contra Israel, como o libanês Hesbolá (Partido de Deus) e o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) palestino.

Para os analistas, os EUA de Trump adotaram a posição do governo linha-dura de Benjamin Netanyahu em Israel. Não consideram o Irã confiável em qualquer negociação. Querem a mudança de regime, com o fim da república islâmica.

Por outro lado, o vice-presidente iraniano, Mohamed Javad Zarif, exigiu em contrapartida o fim do apoio a Israel e das intervenções militares dos EUA no Oriente Médio e a retirada total das forças americanas do Afeganistão.

A expectativa é de acirramento do conflito e agravamento das sanções e da crise econômica do Irã.

UE impõe sanções a nove altos funcionários da Venezuela

Enquanto o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, viaja pela América Latina para articular a oposição à ditadura de Nicolás Maduro, o Conselho de Ministros da União Europeia anunciou ontem sanções contra nove novos altos funcionários da Venezuela, inclusive o congelamento de bens e a proibição de entrar em território comunitário.

Um dos alvos é a vice-presidente Delcy Eloína Rodríguez, que recentemente cedeu a presidente da Assembleia Nacional Constituinte a Diosdado Cabello, considerado o número dois do regime chavista.

Pelo Twitter, Delcy Rodríguez repudiou as sanções: "Nenhuma ameaça, extorsão, medida arbitrária ou chantagem me desviarão do meu compromisso com a história de liberdade, dignidade e soberania que nos legou [o libertador Simón] Bolívar. Jamais o velho mundo imperial nem poder nenhum dobrará minha determinação como venezuelana de amar a terra onde nasci."

Em tom de ironia, a vice-presidente da Venezuela "autorizou" a comissária de Relações Exteriores da UE, Federica Mogherini, a dispor dos "supostos bens, que não existem, e os destine à crise migratória  que geraram com suas políticas belicistas, racistas e xenófobas."

Suprema Corte mantém vetos à entrada nos EUA impostos por Trump

Numa vitória do presidente Donald Trump, por 5 a 4, a Suprema Corte manteve hoje a proibição de entrada nos Estados Unidos de cidadãos de cinco países de maioria muçulmana (Iêmen, Irã, Líbia, Síria e Somália) mais Coreia do Norte e Venezuela.

Foi o segundo decreto de Trump sobre o assunto. O primeiro foi derrubado por discriminação religiosa ao visar apenas países muçulmanos. O Iraque foi excluído na segunda versão por causa dos iraquianos que atuaram e atuam junto às forças dos EUA no país.

O Chade fazia parte da primeira versão do segundo decreto. Foi retirado em abril por ser outro país onde há tropas dos EUA para combater o terrorismo na região do Sahel, ao sul do Deserto do Saara, na África.

A sentença, apoiada pela maioria conservadora e redigida pelo ministro Anthony Kennedy, rejeita o argumento de discriminação e estabelece que o presidente tem autoridade, nos termos da Constituição dos EUA, para impor vetos à entrada no país de cidadãos de determinados países, supostamente considerados inimigos dos EUA.

Para o jornal Los Angeles Times, foi a maior vitória jurídica de Trump. A proibição é mais uma face de sua tortuosa política de imigração.

Maduro triplica salário mínimo para menos de um dólar

Para combater o que chama de "guerra econômica" da oposição e do empresariado, o ditador Nicolás Maduro anunciou na semana passada que vai aumentar em três vezes o salário mínimo da Venezuela, que passará a valer 3 milhões de bolívares, menos do que o valor de um dólar, que chegou hoje a 3,3 milhões de bolívares no mercado paralelo.

A Venezuela vive a pior crise econômica de sua história, com queda à quase metade do produto interno bruto desde que Maduro substituiu o finado caudilho Hugo Chávez, em 2013, e hiperinflação que pode chegar a 13.000% ao ano em 2018, depois de ficar em 2.700% no ano passado. Em dois anos, pode chegar a 1.800.000%.

"Os primeiros elementos do programa econômico incluem a proteção ao ingresso, por isso vou decretar um aumento do salário mínimo para 3 milhões de bolívares", revelou Maduro num comício na quarta-feira passada.

Em março, o regime chavista anunciou um corte de três zeros na moeda nacional. No câmbio oficial, um dólar vale 80 mil bolívares.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Greve e protestos indicam agravamento da crise econômica no Irã

Muitas lojas do Grande Bazar de Teerã não abriram ontem numa greve de protesto e uma nova onda de manifestações sinalizaram um agravamento da crise econômica do Irã, com a desvalorização da moeda e o aumento dos juros desde que o governo Donald Trump retirou os Estados Unidos do acordo nuclear para desarmar o programa nuclear do país.

Se o fim das sanções e a volta do Irã ao mercado internacional não tiveram o impacto positivo esperado sobre a economia do país, a volta das sanções e a suspensão de investimentos externos trouxeram de volta o fantasma da crise que levou o regime dos aiatolás às negociações com as cinco grandes potências do Conselho de Segurança das Nações Unidas (EUA, China, França, Reino Unido e Rússia) e a Alemanha.

Os protestos são destaque do noticiário iraniano, inquietando as autoridades da República Islâmica, que costumam responder com repressão e manifestações paralelas a favor do regime.

Como os EUA aplicam sanções cruzadas, as empresas de outros países que fizerem negócios com a Irã poderão ser penalizadas e perder o direito de acesso ao mercado americano e a transações em dólar dentro sistema financeiro.

Pelas exigências feitas pelo secretário de Estado americano, Mike Pompeo, para reabrir o diálogo, retirada de forças iranianas de outros países e fim do apoio a grupos extremistas e da interferência em outros países do Oriente Médio,   parece claro que a política do governo Trump para o Irã é mudança de regime.

O Irã também fez demandas inaceitáveis para Washington, como a retirada dos EUA do Afeganistão e o fim do apoio a Israel. Não há perspectiva de reaproximação entre os dois governos enquanto Trump estiver no poder.

domingo, 24 de junho de 2018

Turquia anuncia a reeleição do presidente Recep Tayyip Erdogan

Apesar do autoritarismo crescente desde o golpe militar fracassado de 15 de julho de 2016, com 50 mil mil presos e 160 mil expurgados de empregos públicos, o presidente Recep Tayyip Erdogan declarou vitória na eleição presidencial de hoje. Com 97,7% dos votos apurados, o Supremo Conselho Eleitoral anunciou a reeleição de Erdogan para um novo mandato de cinco anos,  com 53%. A oposição denuncia fraude.

Em segundo lugar, com 31%, ficou o social-democrata Muharrem Inge, do Partido Popular Republicano (CHP), o partido laico criado por Mustafá Kemal Ataturk, o fundador da República Turca, em 1923, depois da dissolução do Império Otomano, derrotado na Primeira Guerra Mundial.

A seguir, vieram Sehalattin Demirtes, do majoritariamente curdo Partido Democrático Popular (HDP), com 8%, que está preso sob a acusação de conspiração e apoio ao terrorismo, e Meral Aksener, da Aliança Nacional, a mulher mais votada, com 7,4%.

No poder desde 2003, Erdogan foi primeiro-ministro por três mandatos, o limite constitucional. Em 2014, depois de aumentar os poderes do Executivo, foi eleito presidente.

Líder do Partido da Justiça e do Desenvolvimento, islamista moderado, Erdogan foi se tornando cada vez mais autoritário, aumentou a influência da religião na política e resgatou símbolos do Império Otomano, o que lhe valeu o apelido de Sultão.

O golpe de 2016 foi deflagrado em protesto contra a erosão do secularismo e da democracia, o desrespeito aos direitos humanos e a perda de credibilidade internacional do país. Erdogan atribuiu o golpe ao Movimento Gulenista, liderado por Fethullah Gülen, um clérigo turco que foi seu aliado e hoje exilado nos Estados Unidos.

Desde então, a Turquia pede a extradição de Gülen, negada pelos EUA pela falta de provas convincentes da ligação do clérigo com a conspiração. A tentativa de golpe foi um sinal da disputa de poder entre os islamistas turcos.

Numa guinada autoritária, por causa do atrito com os EUA, com cada vez menos esperança de levar a Turquia à União Europeia, Erdogan se aproximou da Rússia e do Irã, em parte por causa do apoio americano a uma milícia curda que atuou como força terrestre na guerra dos EUA e aliados contra a organização terrorista Estado Islâmico do Iraque e do Levante.

Mais de cem mil marcham em Londres por referendo sobre Brexit

Mais de 100 mil pessoas marcharam no Centro de Londres ontem, dois anos depois do plebiscito que aprovou a retirada do Reino Unido da União Europeia, para exigir a realização de uma segunda consulta popular quando estiver definido o acordo de separação do bloco europeu. A saída britânica (Brexit) terá de acontecer até 31 de março de 2019.

Com a economia em marcha lenta, a libra em queda e grandes empresas anunciando a intenção de deixar o país, vários deputados do Partido Trabalhista, um ex-assessor da primeira-ministra conservadora Margaret Thatcher e ativistas favoráveis à integração europeia se juntaram à multidão.

Militantes dos três maiores partidos britânicos, conservadores, trabalhistas e sociais-democratas, caminharam juntos pela avenida Whitehall. Houve gritos de "onde está Jeremy Corbyn?"

O líder trabalhista nunca foi um grande fã da UE. Acusado de omissão na campanha do plebiscito de 2016, Corbyn está no Oriente Médio visitando campos de refugiados palestinos, enquanto os judeus do Reino Unido denunciam o antissemitismo do partido.

A insatisfação popular com o andamento das negociações do divórcio da UE se soma à crescente pressão do empresariado para que o Reino Unido continue tendo acesso ao mercado comum europeu. Na semana passada, duas grandes empresas, a Airbus e a BMW, advertiram que vão reconsiderar seus investimentos no país dependendo do acesso que terão à Europa.

"Grandes companhias europeias que colocaram o Reino Unido em suas cadeias produtivas foram claras", observou o lorde conservador Michael Glendon. "Num mundo competitivo, qualquer movimento de bens que vá sofrer qualquer tipo de tarifação terá o custo cuidadosamente reavaliado."

Ao mesmo tempo, a ala antieuropeia mais linha-dura do Partido Conservador pressiona a primeira-ministra Theresa May a fazer planos de contingência para o caso de não haver acordo com a UE.

Seis ex-ministros, inclusive o ex-ministro das Finanças Nigel Lawson, deputados, economistas e líderes empresariais enviaram carta a May sob o argumento de que , "para ter uma alavancagem real nas negociações da Brexit", o Reino Unido deveria se reservar o direito de abandonar o diálogo sem um acerto e "pagar os 39 bilhões de libras que se ofereceu para pagar como parte do acordo de divórcio".

Neste sentido, o governo britânico deveria preparar sua máquina administrativa para operar o comércio exterior com base nas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), dando um sinal claro de estar pronto para manter suas relações comerciais mesmo fora do bloco europeu, segundo maior mercado do mundo, depois dos Estados Unidos.

A carta insiste que a economia britânica pode "florescer" mesmo sem um acordo de livre comércio por causa dos "benefícios" de sair da UE: "Isto vai dar ao ministro das Finanças ampla margem para aumentar o gasto público em serviços públicos prioritários como o NHS (Serviço Nacional de Saúde) enquanto reduz a elevada carga fiscal do Reino Unido."

O governo May afirma estar "confiante de conseguir um bom acordo que nos permita reassumir o controle sobre nosso dinheiro, nossas regras e nossas fronteiras".

Talvez esta seja a questão central. Para ficar no mercado comum europeu, o Reino Unido tem de aceitar a livre circulação de capitais, mercadorias e pessoas. Uma das principais causas da vitória da Brexit foi o repúdio à imigração de europeus de outros países do bloco, especialmente da Europa Oriental, a partir da adesão dos antigos países comunistas do Bloco Soviético, em 2004. Foi explorado numa campanha ultranacionalista com uma forte carga racista.

As regiões mais cosmopolitas, como Londres, Cambridge e Oxford, onde vivem mais estrangeiros proporcionalmente, votaram há dois anos a favor de ficar na UE. Os setores mais atrasados e retrógrados ganharam explorando o medo e fazendo falsas promessas, como aumentar substancialmente o orçamento para a saúde pública.

Agora, os defensores da participação do Reino Unido na UE exigem um segundo plebiscito ou um referendo sobre o acordo final do divórcio. Alegam que a campanha a favor da Brexit foi mentirosa, cheia de notícias falsas e que o verdadeiro impacto sobre o futuro do país só poderá ser avaliado quando os termos do acordo negociado com a Europa unida foram revelados.

López Obrador está perto da vitória com maioria no Congresso

A uma semana das eleições para 3 mil cargos, as maiores da história do México, o candidato esquerdista Andrés Manuel López Obrador, do Movimento de Renovação Nacional (Morena) é o franco favorito para presidente. 

AMLO aumentou para 23 pontos sua vantagem sobre o direitista Ricardo Anaya, do Partido de Ação Nacional (PAN). A aliança que o apoia pode obter maioria absoluta na Câmara e no Senado.

Na média das pesquisas, López Obrador tem 49,6% das preferências do eleitorado, com 27% para Anaya e 20,4% para José Antonio Meade, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou o México desde sua fundação, em 1929, até o ano 2000 e voltou ao poder com o atual presidente Ernesto Peña Nieto.

Como no México não há segundo turno, o jornal espanhol El País dá a AMLO, como é conhecido popularmente, 95% de chance de conquistar a Presidência.

Em aliança com o Partido do Trabalho (PT) e o Partido do Encontro Social (PES), o Morena pode ter maioria absoluta na Câmara e no Senado. Isso daria a AMLO o direito de aplicar seu programa de reformas radicais.

Com 159 deputados do Morena, 51 do PT e 47 do PES, a aliança governista teria, na média das pesquisas, 258 das 500 cadeiras da Câmara dos Deputados. Por causa da imprecisão de pesquisas anteriores e do sistema eleitoral, a margem de erro é de mais ou menos 40 deputados.

Dos 500 deputados, 300 são eleitos por maioria relativa em distritos uninominais, o que leva as coalizões a apresentar um candidato único. Os outros 200 são eleitos pelo voto proporcional.

Pelo artigo 54 da Constituição do México, para evitar o poder exagerado que o PRI teve no passado, nenhum partido pode ter mais de 300 deputados na Câmara nem uma porcentagem de deputados oito pontos percentuais maior do que o percentual de votos.

Para o Senado, a aliança de esquerda tem 46% dos votos contra 33% do PAN e 21% do PRI.

sábado, 23 de junho de 2018

México bate novo recorde de assassinatos

A oito dias da eleição presidencial, o México fica sabendo que bateu mais um triste recorde. Em maio, o total de homicídios dolosos, com a intenção de matar, chegou a 2.890, uma média de 93 assassinatos por dia e quatro mortos por hora, revelou ontem o Sistema Nacional de Segurança Pública.

Maio foi o mês com o maior número de homicídios desde que as autoridades federais começaram a compilar estatísticas. Até agora, era março de 2017, com 2.746 assassinatos.

De janeiro a maio de 2018, o total de assassinatos foi de 13.298 mortes, 21% a mais do que no mesmo período no ano passado. Os estados mexicanos com as maiores índice de homicídios são Colima, Baixa Califórnia, Guerreiro, Chihuahua e Guanajuato.

No ritmo atual de violência assassina, este ano deve superar o recorde de 28.710 de 2017. A expectativa do diretor-geral do Observatório Nacional Cidadão, Francisco Rivas, é e um aumento de 5,5% nos homicídios e de 15% nos casos de feminicídio em 2018.

O aumento da violência no México nas últimas décadas está ligado ao poder crescente das máfias do tráfico de drogas para os Estados Unidos, que agem com grande impunidade. "Há uma série de negócios ilícitos que seguem prosperando, uma falta de ações contundentes e uma carência importante de Estado. Um delito que não se pune é um delito destinado a crescer", afirmou Rivas.

Ele não vê no líder das pesquisas, o esquerdista Andrés Manuel López Obrador, do Movimento de Regeneração Nacional (Morena), que hoje tem uma vantagem de 23 pontos percentuais sobre o segundo colocado, Ricardo Anaya, do Partido de Ação Nacional (PAN), "clareza em uma proposta de segurança pública. Sua proposta é extremamente ingênua e contraditória que não leva a pensar que vá melhorar as condições de segurança."

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Suprema Corte dos EUA exige ordem judicial para polícia rastrear celulares

Em uma vitória do direito à privacidade, por 5 a 4, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que a polícia precisa de um mandado judicial para rastrear o registro de informações sobre a localização de telefones celulares.

Na sentença, o presidente do supremo tribunal americano, ministro John Roberts, declarou que a decisão reflete a realidade de que as novas tecnologias criaram novos meios para a polícia vigiar os cidadãos. Seu voto se baseou na 4ª Emenda à Constituição dos EUA, que protege os cidadãos contra buscas e apreensões arbitrárias como as feitas pelo governo colonial britânico.

"A tecnologia fortaleceu a capacidade do governo de invadir áreas normalmente guardadas de olhos inquisidores", notou, acrescentando que os registros de telefonia celular permitem ao governo fazer "uma vigilância quase perfeita, como se tivesse colocado uma tornozeleira eletrônica no usuário do telefone."

Para a Fundação Fronteira Eletrônica, foi uma "grande vitória" e fez outra leitura da sentença: "Igualmente importante, eles rejeitaram o surrado argumento do governo de que dados sensíveis guardados por terceiros como empresas privadas estão automaticamente fora da proteção constitucional."

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Irã exige fim do apoio a Israel e retirada do Afeganistão para negociar com EUA

Diante das 12 exigências dos Estados Unidos, inclusive abandonar o programa nuclear e parar de influenciar outros países do Oriente Médio, o primeiro-ministro Mohamed Javad Zarif apresentou uma lista de 15 demandas do Irã para reabrir as negociações entre os dois países. A República Islâmica exige o fim da venda de armas à região, do apoio a Israel e a retirada das tropas americanas do Afeganistão.

O presidente Donald Trump retirou em 8 de maio os EUA do acordo negociado pelos grandes potências do Conselho de Segurança e a Alemanha para congelar por 10 anos programa nuclear militar do Irã, evitando que a República Islâmica faça a bomba atômica.

Tanto os EUA quanto o Irã afirmam que as novas exigências são inaceitáveis. Trump alegou que o acordo não era suficientemente amplo por não limitar o programa de mísseis e a interferência iraniana em outros países do Oriente Médio

Deputados dos EUA pedem ao Google fim da parceria com a chinesa Huawei

Em carta ao diretor-geral do Google, Sundar Pichai, cinco deputados da Câmara dos Representantes pressionaram a empresa a romper a parceria com a companhia chinesa de equipamentos de telecomunicações Huawei Tecnologias, considerada uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos, noticiou ontem a agência Reuters.

O Google e a Huawei têm fazer projetos conjuntos importantes. A Huawei é hoje a terceira maior fabricante de telefones inteligentes, depois da Apple e da Samsung. Os telefones da marca Nexus foram desenvolvidos em parceria.

A Huawei está sob investigação do Departamento da Justiça dos EUA por violar as sanções que proíbem a exportação de produtos americanos para o Irã. Em 2016, os EUA vetaram as exportações para a maior rival da Huawei na China, a ZTE.

O presidente Donald Trump suspendeu o veto a pedido do ditador da China, Xi Jinping, com quem acredita haver estabelecido boas relações pessoais, mas há resistência no Congresso dos EUA por causa da ligação das empresas de alta tecnologia com o Exército Popular de Libertação da China.

Trump fez um apelo aos deputados e senadores americanos, alegando que a ajuda à ZTE faz parte de sua estratégia global de negociações comerciais. Sem componentes e equipamentos importados dos EUA, a ZTE seria inviável.

Este é um dos problemas do protecionismo de Trump. No mundo globalizado, a fabricação às vezes se estende por vários países. Os microchips fabricados nos EUA são testados e embalados na China. Se a guerra comercial de Trump começar para valer, os chips serão sobretaxados na volta aos EUA.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Masaya se declara "cidade livre da ditadura" de Ortega na Nicarágua

A cidade de Masaya, berço da revolução que levou ao poder em julho de 1979 a Frente Sandinista de Libertação Nacional e seu comandante, Daniel Ortega, agora lidera a luta para se livrar de sua ditadura na Nicarágua. 

Há dois meses, a cidade resiste à reação do governo contra a onda de manifestações de protesto contra seu autoritarismo. Agora, proclamou-se "cidade livre da ditadura".

A chefe da polícia de Masaya, comissário Ramón Avellán, chegou a ficar encurralado na chefiatura de polícia durante 13 dias. Todas as noites a população ia até lá às 22h e pressionava o comissário a se entregar. Foi resgatado ontem numa operação policial que deixou pelo menos três mortos e mais de 30 feridos.

Pelo menos 180 pessoas foram mortas desde abril, quando os nicaraguenses se revoltaram contra uma reforma da Previdência Social que aumentava as contribuições e reduzia pensões e aposentadorias. É a pior crise do país.

"Estamos armados com a razão", declarou a Resistência Cívica de Masaya. "Estamos nos auxiliando com barricadas, pedras e morteiros, em desigualdade evidente e notória com as tropas covardes e assassinas da ditadura", explicou a nota.

"O ditador Ortega e [a vice-presidente e sua mulher Rosario] Murillo não cumpriram a promessa de desarmar as forças parapoliciais, ao contrário, convocou velhos combatentes, ex-reservistas e sua militância sandinista, que fortemente armados impõe o terror e a morte em todo o território nacional",  acrescentam os rebeldes.

A Resistência Cívica de Masaya exige o fim do regime: "A única maneira de recuperar a confiança e a  segurança dos cidadãos é com a renúncia do casal presidencial, que exigimos imediatamente. Exigimos também que se forme uma junta de salvação nacional de cinco membros dos setores beligerantes e representativos da nação que faça reformas institucionais e legislativas que permitam organizar eleições livres e transparentes em 180 dias."

Ontem, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), o ex-chanceler uruguaio Luis Almagro, deu sua solidariedade aos rebeldes: "O povo de Masaya demonstrou seu heroísmo nas páginas mais escuras da história da Nicarágua. Condenamos qualquer tipo de ataque que atente contra a vida e a segurança dos habitantes de Masaya."

Ortega governou a Nicarágua, primeiro como um dos nove comandantes, em 1979, depois da vitória da revolução. Foi eleito presidente em 1984 em eleição boicotada pela oposição sob pressão do então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, e derrotado por Violeta Chamorro em 1990.

Voltou ao poder pelo voto em 2007 em aliança com a oligarquia somozista que um dia combateu, mudou as leis e a composição do supremo tribunal para aprovar a reeleição sem limites e se eternizar no poder. Por alguns anos, contou com o petróleo subsidiado da Venezuela de Hugo Chávez. Com o colapso econômico sob Nicolás Maduro, a fonte secou.

A repressão violenta desde abril suscitou comparações com o ditador Anastasio Somoza Debayle, derrubado pela FSLN em 17 de julho de 1979. Mais uma vez, não será suficiente para sustentar o ditador da vez.

O diálogo nacional intermediado pela Igreja Católica entrou em crise na segunda-feira, quando a Aliança Cívica, que reúne estudantes, acadêmicos, camponeses, empresários e representantes da sociedade civil, denunciou que o governo não enviou cartas convidando a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), o Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos e a União Europeia para investigar os crimes cometidos na repressão às manifestações de protesto.

Enquanto as cartas não forem enviadas, o diálogo nacional está suspenso.

Trump recua e decreta fim da separação de famílias de imigrantes ilegais

Sob intensa pressão externa e interna, inclusive dentro do próprio Partido Republicano, o presidente Donald Trump recuou hoje pela primeira vez e baixou um decreto suspendendo a separação de menores dos pais que entram ilegalmente nos Estados Unidos. As famílias terão o direito de ficar juntas mesmo quando os pais forem presos por entrar no país sem autorização.

Nos últimos dias, o mundo ouviu o choro de bebês e de crianças de dois, quatro anos ou mais anos de idade aterrorizadas por serem separadas de seus pais por uma política desumana e cruel de "tolerância zero" do governo Trump contra a imigração ilegal. Como os imigrantes ilegais devem ser processados e a lei dos EUA não permite a prisão de crianças inocentes, o governo alegou os filhos não poderiam ficar juntos com os país.

A separação de filhos dos pais, a não ser em casos de condenação destes, é um princípio fundamental da democracia liberal. As imagens da fronteira com o México lembraram os regimes nazistas e comunistas.

Desde abril, cerca de 2,3 mil crianças foram separadas dos pais, o que causar danos psicológicos permanentes. Trump faz chantagem para pressionar o Congresso a aprovar uma lei de imigração linha-dura e destinar US$ 20 bilhões para construir um muro na fronteira com o México. No fundo, está de olho nas eleições de meio de mandato, em novembro deste ano, quando o Partido Republicano corre o risco de perder a maioria na Câmara e no Senado.

Por que Trump voltou atrás pela primeira vez sob pressão da opinião pública? O jornal The Washington Post aponta três razões. Quando perdeu o apoio do senador ultraconservador Ted Cruz, o presidente sentiu que ficaria isolado. Os deputados e senadores republicanos estavam envergonhados e constrangidos com o choro de bebês.

A demonização dos imigrantes faz parte da estratégia eleitoral de Trump para novembro, aliás desde o lançamento da candidatura, quando chamou os mexicanos de traficantes, assassinos e estupradores. Mas a prisão de crianças enfrentou forte oposição do eleitorado, a começar pelas mulheres.

Cerca de 70% das mulheres repudiam a separação de mães e filhos. É uma parcela muito importante do eleitorado. A própria mulher do presidente, Melania Trump, e a primeira-filha, Ivanka Trump, passaram os últimos dias tentando persuadir Trump a recuar, acrescenta The Washington Post.

Melania Trump e a ex-primeira-dama Laura Bush, moradora do Texas, protestaram publicamente. Ivanka se manifestou hoje, agradecendo ao pai por "resolver o problema". É um problema que ele próprio criou.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Trump retira EUA do Conselho de Direitos Humanos da ONU

Os Estados Unidos anunciaram hoje em Washington sua saída do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, que acusa de discriminação contra Israel e de ter entre os atuais países-membros violadores contumazes dos direitos humanos. É mais um sinal do crescente isolacionismo americano no governo Donald Trump.

Há duas semanas, a embaixadora americana na ONU, Nikki Haley, deu um ultimato. Ameaçou com a retirada dos EUA se o conselho admitisse regimes autoritários que não respeitam os direitos humanos. Ela citou Arábia Saudita, China, Cuba e Venezuela como países que não merecem um assento no Conselho de Direitos Humanos.

Ao lado do secretário de Estado, Mike Pompeo, Haley acusou o órgão da ONU de haver se tornado "protetor de violadores dos direitos humanos e uma fossa de distorções políticas". A embaixadora citou a admissão da República Democrática do Congo e o erro de não coibir os abusos dos direitos humanos no Irã e na Venezuela.

"Quero deixar claro que este passo não é uma retirada do nosso compromisso com os direitos humanos", afirmou Haley. "Ao contrário, damos este passo porque nosso compromisso nos nos permite fazer parte da uma organização hipócrita e egoísta que despreza os direitos humanos."

Suas tentativas de reformar o conselho foram inúteis: "Quando deixamos claro que iríamos procurar com firmeza fazer uma reforma do conselho, alguns países se opuseram", acrescentou a embaixadora. "A Rússia, a China, Cuba e o Egito tentaram minar nossos esforços nos últimos 12 meses."

É mais uma retirada dos EUA de um acordo ou órgão internacional. Trump retirou os EUA do Acordo do Clima, em 1º de junho de 2017. Em 8 de maio de 2018, abandonou o acordo nuclear com  o Irã. Também ataca a ONU, o sistema multilateral de comércio e a ordem internacional liberal criada pelos EUA no pós-guerra.

Na questão dos direitos humanos, Trump não toca no assunto com seus líderes autoritários favoritos, os ditadores da China, Xi Jinping, da Rússia, Vladimir Putin, e agora da Coreia do Norte, Kim Jong Un. Os EUA sempre defenderam regimes autoritários aliados, como a monarquia absolutista da Arábia Saudita, mas não é um dos temas favoritos do presidente, que no momento separa famílias e tortura crianças na fronteira com o México para pressionar o Congresso e ganhar votos nas eleições de novembro.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Trump ameaça impor tarifas sobre US$ 200 bilhões em importações da China

Numa ameaça de escalada rumo a uma guerra comercial, o presidente Donald Trump pediu a assessores que identifiquem uma lista de produtos chineses importados no valor de US$ 200 bilhões para aplicar tarifas de 10%, se a China não aceitar sua exigência de reduzir o déficit dos Estados Unidos no comércio bilateral, de US$ 375 bilhões no ano passado.

O governo Trump anunciou em 15 junho que os EUA passarão a cobrar tarifas de 25% sobre produtos chineses importados no valor de US$ 34 bilhões por ano a partir de 6 de julho e que estudam uma lista com produtos no valor US$ 16 bilhões. Prometeu assim sobretaxar um total de US$ 50 bilhões em importações anuais da China.

Imediatamente, a China prometeu fazer exatamente o mesmo nos mesmos valores e nas mesmas datas, para fúria de Trump: "Desafortunadamente, a China decidiu aumentar as tarifas sobre US$ 50 bilhões em importações dos EUA", declarou o presidente na mensagem em que pediu ao representante comercial do país, Robert Lighthizer, a nova lista de US$ 200 bilhões.

"Se a China aumentar suas tarifas de novo, vamos responder com tarifas adicionais sobre US$ 200 bilhões em bens", advertiu Trump. Mais uma vez, o governo chinês alerta: vai responder na mesma moeda.

domingo, 17 de junho de 2018

Conservador Iván Duque é eleito presidente da Colômbia

Com 99,93% dos votos apurados, o candidato conservador Iván Duque foi eleito presidente da Colômbia no segundo turno com 10,37 milhões (54%) contra 8,031 milhões (41,8%) para o ex-prefeito esquerdista de Bogotá Gustavo Petro. Houve 808 mil votos (4,2%) em branco e. 266  mil (1,36%) nulos, informou o jornal colombiano El Espectador.

Duque, do Centro Democrático, faz 42 anos em 1º de agosto. Será o presidente mais jovem da história moderna da Colômbia. Discípulo do ex-presidente Álvaro Uribe, sua vitória instala no Palácio de Nariño a direita contrária ao acordo de paz do atual presidente, Juan Manuel Santos, ministro da Defesa de Uribe, com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

Advogado e mestre em economia, Duque representa os "indignados" com as concessões feitas à guerrilha esquerda para lograr o acordo de paz, especialmente a anistia a quem cometeu crimes violentos. Promete "mudanças estruturais".

"Queremos que quem cometeu crimes de lesa humanidade recebe sanções proporcionais que sejam incompatíveis coma representação política", declarou Duque.

Pelo acordo negociado em Havana, assinado em 24 de novembro de 2016 em Bogotá, os guerrilheiros que confessaram seus crimes e oferecerem reparações têm direito à anistia e inclusive a concorrer em eleições em que a guerrilha teve uma reserva de vagas. O uribismo rejeita tanto a anistia quanto a reserva de vagas no Congresso para ex-rebeldes. 

sábado, 16 de junho de 2018

Duque lidera com 51% e deve ser eleito presidente da Colômbia

O candidato conservador Iván Duque, apoiado pelo ex-presidente Álvaro Uribe, é o favorito em todas as pesquisas, com uma média de 51%, e deve ser eleito neste domingo presidente da Colômbia. Seu rival, Gustavo Petro, ex-guerrilheiro e ex-prefeito verde de Bogotá, tem 37% das preferências. Os outros 12% pretendem votar em branco, anular o voto ou não votar.

No primeiro turno, Duque, do Centro Democrático, teve 39% dos votos contra 25% para Petro, da aliança Colômbia Humana. A boa votação de outros candidatos de esquerda não se transferiu para o ex-prefeito da capital colombiana.

Ontem, Antanas Mockus e Claudia López, do partido Aliança Verde, que apoiou Sergio Fajardo no primeiro turno, anunciaram o voto em Petro. A ex-senadora e ex-candidata a presidente Íngrid Betancour, sequestrada pelas FARC de 2002 a 2008, veio da França para manifestar seu apoio.

Uma projeção das pesquisas feita pelo jornal espanhol El País deu a Duque 80% de chance de vitória contra 20% para Petro. Como as pesquisas de opinião na Colômbia costumam apresentar erros, o esquerdista ainda tem alguma chance.

A margem de erro pode chegar a 9% para mais ou para menos. Se a margem de erro foi igual à do primeiro turno, de 3,3 pontos percentuais em média, Duque tem 90% de chances

Esta é a primeira eleição presidencial depois da assinatura do acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), em 24 de novembro de 2016. O Exército de Libertação Nacional, que negocia a paz, declarou uma trégua no primeiro e no segundo turnos.

O candidato do governo Juan Manuel Santos, o grande negociador da paz, ficou fora do segundo turno. Duque e seu patrono Uribe são grandes críticos do acordo, especialmente da anistia aos guerrilheiros que cometeram crimes de sangue. Pode mexer na anistia, mas não vai revogar o acordo nem deve abandonar o diálogo com o ELN.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Preso chefe da campanha de Trump

A pedido do procurador especial Robert Mueller, a Justiça dos Estados Unidos ordenou hoje a prisão do ex-chefe da campanha eleitoral do presidente Donald Trump.

Paul Manafort foi denunciado por coagir testemunhas a mentir sob juramento enquanto estava em liberdade sob fiança. Ele vai responder na prisão ao processo por lavagem de dinheiro e conspiração contra a lei federal.

"Não podia virar os olhos para isso", explicou a juíza federal de primeira instância Amy Berman Jackson. "Você abusou de confiança que lhe foi dada seis meses atrás." O julgamento deve começar em setembro.

No início do mês, Mueller denunciou Manafort por "perjúrio mediante suborno" ao manter contato com uma testemunha através de um programa de mensagens codificadas, de acordo com uma testemunha de acusação. O procurador especial investiga um possível conluio da campanha de Trump com o Kremlin.

A juíza admitiu que era "uma decisão extremamente difícil", mas entendeu que o réu não lhe deu outra opção. "Esta audiência não é sobre política. Não é sobre a conduta do escritório do procurador especial. É sobre a conduta do réu."

Ao comentar o caso no Twitter, o presidente Donald Trump declarou que Manafort foi tratado de maneira "muito injusta": "Uau! Que sentença dura para Paul Manafort, que representou Ronald Reagan, Bob Dole e outros grandes políticos e campanhas. Não sabia que Manafort era parte da máfia. O que dizer de Come e da Hillary Cafajeste? Muito injusto."

Manafort abanou para a mulher e foi diretamente do tribunal para a cadeia. Pouco antes das 20h30 (21h30 em Brasília) desta sexta-feira, deu entrada na prisão regional de Varsóvia, no estado da Virgínia, a cerca de 140 quilômetros a sudoeste de Washington, como o prisioneiro nº 45343.

EUA sobretaxam importações e China anuncia retaliação

As duas maiores economias do mundo estão mais perto de uma guerra comercial capaz de abalar toda a economia mundial, com queda na produção e no comércio e aumento de preços.

Os Estados Unidos anunciaram hoje o aumento para 25% da tarifa de importação sobre produtos chineses, no valor total de US$ 50 bilhões, com foco no setor de alta tecnologia. 

A China prometeu responder na mesma medida. Vai cobrar uma taxa de 25% sobre produtos agropecuários, pesqueiros, automobilísticos e energéticos dos EUA.

"Minha grande amizade com o presidente Xi [Jinping], da China, e o relacionamento do nosso país com a China são ambos muito importantes para mim", declarou o presidente americano, Donald Trump. "O comércio entre nossas nações, no entanto, tem sido muito injusto por um tempo muito longo. Esta situação não é mais sustentável."

Desde a campanha eleitoral, Trump acusa a China de roubo de propriedade intelectual, de manipular o câmbio e de ter um mercado muito mais fechado do que os EUA. Depois de chegar à Casa Branca, parou de falar na manipulação do câmbio, mas exige uma forte queda no saldo comercial da China no comércio bilateral, que no ano passado foi de US$ 375 bilhões.

"Os EUA não podem mais tolerar a perda de tecnologia e propriedade intelectual através de práticas econômicas injustas", afirmou Trump, acrescentando as sobretaxas "serviriam como um passo inicial rumo ao equilíbrio nas relações comerciais entre os EUA e a China".

As sobretaxas americanas visam retardar desenvolvimento do setor de alta tecnologia da China e punir o alegado roubo de propriedade intelectual dos EUA. Um dos principais alvos do governo Trump é o programa Made in China 2025 (Fabricado na China 2025). A meta é atingir independência tecnológica até 2025. Seria uma ameaça à superioridade militar dos EUA.

A partir de 6 de julho, serão aplicadas tarifas de 25% a 818 linhas de produtos importados chineses, inclusive carros, tratadores, retroescavadeiras, helicópteros, máquinas e ferramentas industriais, no valor de US$ 34 bilhões de exportações anuais para os EUA.

Outras 284 linhas de produtos, cuja importação anual soma US$ 16 bilhões, serão objeto de consulta pública antes da aplicação das tarifas, entre eles máquinas industriais, plásticos e semicondutores chineses.

Em 24 de julho, o representante comercial dos EUA vai se reunir com representantes da indústria, que devem pedir a exclusão de produtos intermediários de suas cadeias produtivas. Os chips produzidos nos EUA, por exemplo, são enviados à China para embalagem e testes. Podem ser sobretaxados na volta.

"Tarifas sobre semicondutores vão prejudicar mais do que ajudar as companhias de semicondutores dos EUA, seus trabalhadores e os consumidores americanos", afirmou um porta-voz do setor. A proteção pressionaria as empresas americanas de alta tecnologia a tirar suas fábricas de China.

Neste caso, parte da produção pode voltar para os EUA, mas é provável que a maior parte vá para outros países de baixo custo de produção, com salários menores, onde as empresas estariam menos sujeitas a pressões para transferir tecnologia.

"Vamos parar, espero, a transferência de tecnologia, a transferência forçada de tecnologia", afirmou o representante comercial dos EUA, Robert Lighthizer, entrevista à televisão Fox News.

A Associação Americana da Indústria Têxtil e de Calçados agradeceu que as máquinas industrias do setor não foram sobretaxadas e observou que "quaisquer novas tarifas representam um peso enorme para o povo americano".

Depois de acusar os EUA de "provocar uma guerra comercial", o Ministério do Comércio da China prometeu impor "imediatamente medidas contrárias na mesma escala e força". O governo chinês vai ampliar de 106 para 653 a lista de tipos de produtos americanos visados.

Para manter a reciprocidade, a China vai dividir a retaliação em duas fases. Como os EUA, a partir de  6 de julho, o governo chinês vai impor tarifas de 25% sobre, no caso chinês 545 tipos de produtos americanos cuja importação soma US$ 34 bilhões por ano. Entre eles, estão soja, carnes de porco e de aves, pescados, veículos utilitários esportivos e carros elétricos.

Na segunda etapa, em data a ser definida dependendo da iniciativa do governo Trump, serão sobretaxadas pela China as importações de produtos químicos, carvão, petróleo bruto e equipamentos médicos. Aviões, motores de aviões e outros equipamentos aeronáuticos ficaram fora da lista.

Antes desta nova rodada de tarifaços, a China se ofereceu para comprar mais US$ 70 bilhões em produtos agropecuários e energia por ano dos EUA para evitar um conflito comercial. O presidente americano preferiu manter sua estratégia agressiva de negociações.

Trump ameaçou responder a qualquer retaliação da China com imposição de tarifas sobre US$ 100 bilhões de exportações chinesas. "A guerra comercial foi iniciada há muitos anos pela China e por outros", alegou o presidente americano, rejeitando as críticas de que o protecionismo vá aumentar preços e prejudicar a economia.

A economia já está bombando, disse Trump, e "depois que fizermos nossos acordos comerciais, espere para ver nossos números".

O problema é abrir conflitos em várias frentes. Os EUA acabam de sobretaxar as importações de aço e alumínio de aliados, o Canadá, o México e a União Europeia, em nome da "segurança nacional". Isso irritou aliados históricos isolou Trump na recente reunião de cúpula do Grupo dos Sete (EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá) quando ele deveria formar uma grande aliança contra a China.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Putin convida ditador da Coreia do Norte a visitar a Rússia

O presidente Vladimir Putin convidou hoje o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong Un, a visitar a Rússia em setembro, durante a realização do Fórum Econômico Oriental, noticiou a agência Reuters. O primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, poderá aproveitar a ocasião para também manter contato direto com Kim.

Diante da abertura de negociações diretas entre os Estados Unidos e o regime comunista norte-coreano, a Rússia, como país vizinho, não quer ficar de fora do processo, assim como a China, a Coreia do Sul e o Japão. Kim se encontrou duas vezes neste ano com o ditador chinês, Xi Jinping, e outras duas com o presidente sul-coreano, Moon Jae In.

A Rússia tem relações históricas com a Coreia do Norte. Na verdade, o ditador soviético Josef Stalin criou o país ao invadir o Norte da Península Coreana no fim da Segunda Guerra Mundial. O regime comunista norte-coreano foi fundado com o modelo stalinista e o culto da personalidade dos seus líderes.

Nos anos 1970s e 1980s, a União Soviética era responsável pela metade do comércio exterior norte-coreano. Projetos conjuntos responderam por 70% da energia elétrica, 50% dos fertilizantes químicos e 40% dos metais ferrosos produzidos na Coreia do Norte, que pagou em parte mandando prisioneiros fazer trabalhos forçados na Sibéria. O país perdeu seu maior patrono com o fim da URSS, em 1991.

Com a ascensão da China, que lutou ao lado da Coreia do Norte na Guerra da Coreia (1950-53), o regime comunista chinês tornou-se o maior aliado da ditadura stalinista de Pyongyang e nos últimos anos praticamente o único. A China é hoje responsável por 90% do comércio exterior norte-coreano.

Como o grande sonho de Putin é restaurar o poder imperial da URSS, a Rússia não pode ficar totalmente fora das negociações. Entre seus maiores objetivos, está minar a democracia ocidental e esvaziar o poder dos EUA.

Assim como a China, com a redução da ameaça de confrontação nuclear entre EUA e a Coreia do Norte, a Rússia defende o alívio das sanções impostas ao regime norte-coreano, enquanto os EUA só admitem suspendê-las quando o país abandonar as armas nucleares. Mas as trapalhadas e a agressividade de Kim no ano passado incomodaram os chineses, que não aceitam o risco de uma guerra na sua fronteira.

Putin está pronto para aproveitar oportunidades surgidas de possíveis divergências entre a China e a Coreia do Norte. A Rússia tem capacidade de superar a influência da China sobre Pyongyang, mas pode diminuir a pressão chinesa sobre Kim.

A entrada de jogadores de peso como a Rússia é um indicador de como será difícil a tarefa dos EUA de chegar a um acordo para desnuclearizar a Península Coreana e chegar a um acordo de paz definitivo na Guerra da Coreia.

Vietnã amplia presença no Mar do Sul da China

É uma expansão modesta perto do agressivo militarismo da China, mas o Vietnã aumenta continuamente sua presença nas Ilhas Spratly, no Mar do Sul da China. Fotos de satélite mostram a abertura de um novo canal junto ao Recife Ladd e a ampliação das instalações na área.

O regime comunista chinês reivindica a soberania sobre 90% do Mar do Sul da China. Tem disputas territoriais na região com Brunei, as Filipinas, a Indonésia, a Malásia, Taiwan e o Vietnã. Em 12 de junho de 2016, o Tribunal Internacional de Justiça das Nações Unidas negou validade à linha de nove traços que demarca o mar territorial reivindicado pela China.

Em 18 de março, uma foto revelou um canal recém-dragado a sudoeste do recife, com uma draga e dois grandes navios, levando a uma lagoa onde havia 21 embarcações menores, provavelmente barcos pesqueiros vietnamitas.

Ao aproximar a imagem, dá para ver a draga depositando areia numa barcaça ao lado. As Filipinas usam o mesmo método nas Ilha Thitu. A China prefere dragas de sucção, mais rápidas e agressivas, com um dano muito maior à natureza.

As imagem de 3 de junho mostram a ampliação de uma instalação no Norte do recife com os sedimentos dragados no canal e cerca de 80 pequenos barcos pesqueiros vietnamitas. Com esta obra, o Vietnã aumentou 21 das 49 instalações que mantém nas Ilhas Spratly. O novo canal permite o acesso e suprimento de grandes navios dentro da lagoa.

Ladd é o mais ocidental dos recifes e rochedos ocupados das Ilhas Spratly. A sudoeste, há vários bancos de areia totalmente submersos que a China reivindica como parte do arquipélago, assim como campos de petróleo e gás que foram objeto de atrito entre Beijim e Hanói em 2017.

Os Estados Unidos e a maioria da sociedade internacional apoiam a posição vietnamita de que as áreas submersas são parte da plataforma continental do Vietnã. A nova instalação inclui uma plataforma hexagonal com largura máxima de 30 metros.

Nos anos 1980s e 1990s, o Vietnã construiu uma série de pequenas plataformas chamadas de "estações de serviço econômicas, científicas e tecnológicas sobre os bancos de areia submersos". Extremamente vulneráveis, foram ameaçadas de destruição pela China no conflito em torno do petróleo e gás no ano passado.

A ameaça é uma das razões para o Vietnã aumentar sua presença nas Ilhas Spratly. Agora, a lagoa do Recife Ladd pode abrigar barcos de patrulha. A grande quantidade de barcos pesqueiros na região indica que o Vietnã vai adotar a doutrina militar chinesa.

O Exército Popular de Libertação da China usa uma milícia de pescadores como força avançada ou linha de defesa em províncias costeiras ou águas territoriais disputadas. O Vietnã aprendeu com a dificuldade para enfrentar esta tática chinesa num impasse em torno de uma plataforma de petróleo em 2014. A partir daí, passou a recrutar seus próprios pescadores para a luta.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Coalizão saudita ataca importante porto do Iêmen

A aliança sunita liderada pela Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos (EAU) atacou hoje os rebeldes hutis, xiitas zaiditas apoiados pelo Irã, no porto de Hodeida, uma cidade de 60 mil habitantes por onde entra a maior parte da ajuda humanitária internacional para a população civil atingida pela guerra civil do país.

A coalizão sunita apoia o governo do presidente deposto Abed Rabbo Mansur Hadi, exilado na Arábia Saudita, e acusa os rebeldes de usar o porto para contrabandear armas. Quer tomar a cidade.

Os Estados Unidos tinham bases militares no Iêmen para combater a rede terrorista Al Caeda na Península Arábica. Com o avanço dos hutis, retiraram suas tropas do país. Agora, apoiam a aliança sunita.

A Arábia Saudita entrou na guerra em 25 de março de 2015 com bombardeios aéreos aos rebeldes, com a esperança de obter uma vitória rápida sobre os hutis. Ao atacar Hodeida, o objetivo é isolar os rebeldes, cortando o suprimento de armas, munição, comida e outros utensílios necessários.

Em vez de encorajar a volta ao diálogo e à negociação, a batalha vai "aprofundar ainda mais o que já é a pior tragédia humanitária hoje no mundo", advertiu o International Crisis Group, uma organização não governamental dedicada à paz mundial.

A polarização entre sunitas e xiitas, Arábia Saudita e Irã, sempre cria o risco de uma conflagração maior no Oriente Médio.

Fed aumenta taxa de juros dos EUA e indica mais duas altas no ano

O Conselho da Reserva Federal, o banco central dos Estados Unidos, aumentou hoje em 0,25 ponto percentual a taxa básica de juros de curto prazo para uma faixa de 1,75% a 2% ao ano. Como a maior economia do mundo está em crescimento, o Fed indicou que deve haver mais duas altas de juros ainda neste ano.

Na segunda elevação da taxa básica do Fed em 2018, a votação foi unânime. "A decisão de hoje é outro sinal de que a economia dos EUA está em grande forma", declarou em entrevista coletiva o novo presidente do BC americano, Jerome Powell.

O principal índice da Bolsa de Valores de Nova York caiu 0,5%, na expectativa de aumento do custo do dinheiro. Enquanto a taxa de desemprego de 3,8% sugere que a economia americana está perto do pleno emprego, a inflação está subindo.

Com a alta nos preços do petróleo e dos combustíveis, o índice de crescimentos dos preços chegou a 3,1% ao ano. O núcleo do índice, excluídos os preços mais voláteis de energia e alimentos, está perto de 2% ao ano, a meta informal perseguida pelo Fed.

No momento, a expectativa é de duas altas de juros neste ano, três em 2019 e pelo menos mais uma em 2020, quando a taxa básica de juros chegaria a 3,5% ao ano, com a normalização da política monetária dos EUA, depois de uma redução à praticamente zero em dezembro de 2008 para combater a Grande Recessão. Só em dezembro de 2015 o Fed começou a aumentar os juros.

Ortega admite antecipar eleição presidencial na Nicarágua

Depois de quase dois meses de manifestações de protesto em que pelo menos 139 pessoas foram mortas, o presidente Daniel Ortega admitiu diante do enviado especial dos Estados Unidos, Caleb McCarry, antecipar a eleição presidencial da Nicarágua, mas se negou a renunciar, como exige a oposição, noticiou ontem o jornal nicaraguense La Prensa.

Com a decisão do Exército de parar de reprimir os manifestantes, o ex-líder guerrilheiro está sendo obrigado a ceder à pressão das ruas. Se Ortega cair, a revolta contra a corrupção e o autoritarismo tende a se intensificar na Guatemala e em Honduras.

A revolta contra Ortega começou em 18 de abril, em protesto contra o aumento das contribuições previdenciárias e a redução nas pensões e aposentadorias. O governo recuou, mas a repressão violenta inflamou a situação, levando a Igreja Católica a pedir a saída do presidente.

Um dos nove comandantes da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), que tomou o poder em Manágua em 17 de julho de 1979, derrubando a ditadura de Anastasio Somoza, Ortega governou a Nicarágua de até 1990, quando perdeu a eleição presidencial para Violeta Chamorro.

Ortega voltou em 2007, em aliança com a oligarquia somozista, manipulou as instituições, mudou a composição do supremo tribunal, censurou a mídia e é acusado de corrupção e enriquecimento ilícito, ao lado da mulher e vice-presidente Rosario Murillo. Hoje, é comparado a Somoza.

RÚSSIA: Introdução ao gigantesco país da Copa

Gigantesca e fascinante, marcada por grandes tragédias, guerras e a primeira revolução comunista, a Rússia é um país bipolar que oscila entre a euforia das vitórias e a depressão de seu longo e rigoroso inverno. 
Rica em energia e recursos naturais, ainda não criou as instituições capazes de desenvolver o extraordinário talento de um povo de poetas, escritores, músicos, bailarinos, artistas plásticos, cineastas, físicos e engenheiros da melhor qualidade.
Depois de se livrar de décadas de ditadura comunista e de uma década caótica de liberalização econômica e capitalismo selvagem, enfrenta a volta do autoritarismo com o presidente Vladimir Putin.
A Copa de 2018 é mais um teste para um país ficou décadas fechado sob um dos regimes mais repressivos da história da humanidade, mais um momento de se abrir para o mundo sem temer invasões e a perda de sua identidade cultural.
Maior país do mundo em superfície e palco da primeira revolução comunista, a Federação Russa é herdeira da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a superpotência que enfrentou os Estados Unidos na Guerra Fria da segunda metade do século 20.
Desde a desintegração da URSS, a Rússia passou por uma década de transição e liberalização caótica, com enriquecimento extraordinário dos chamados “oligarcas”, que ficaram ricos da noite para o dia com as privatizações,  e empobrecimento da imensa maioria. 
Sob Vladimir Putin, que sonha em restaurar o poder imperial soviético, a Rússia recuou para o autoritarismo em busca de estabilidade, mas precisa de reformas para deslanchar seu imenso potencial econômico. A redução em 20% do orçamento militar de 2017, a primeira em 19 anos, para US$ 63 bilhões é um sinal evidente de fraqueza.

GEOGRAFIA

Na Rússia, tudo é gigantesco. São pouco mais de 17 milhões de quilômetros quadrados, duas vezes o tamanho do Brasil, que se estendem por dois continentes: Europa e Ásia. Cerca de 10 milhões de km2, uma área maior do que qualquer outro país, ficam permanentemente gelados.
São nove fusos-horários e mais de 8 mil quilômetros na maior extensão de leste a oeste por 4 mil km de norte a sul.
A Rússia tem mais de 20 mil quilômetros de fronteiras, com a Noruega, Finlândia, Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, Bielorrússia, Ucrânia, Geórgia, Azerbaijão, Casaquistão, China, Mongólia e Coreia do Norte. Tem fronteira marítima com os Estados Unidos no Estreito de Bering, no Alasca, e com o Japão no Mar de Okhotsk. 
Somando as fronteiras terrestres e a orla marítima, são 60 mil km, equivalentes a uma volta e meia no planeta Terra. A Rússia Europeia vai até os Montes Urais. A Rússia Asiática termina no Oceano Pacífico. 
O Rio Volga é o mais longo da Europa, com 3.688 km. Ladoga, o maior lago. O Lago Baikal é o mais profundo do mundo e a maior fonte de água doce do planeta, com 23,62 quintilhões de litros ou 23,260 mil quilômetros cúbicos, 22% de toda água doce.
Nas planícies da Sibéria, na Ásia, concentram-se as reservas de minérios estratégicos, carvão, petróleo e gás natural que fazem da Rússia o país mais rico do mundo em energia.
Por falta de fronteiras naturais, historicamente o país sempre se sentiu vulnerável, o que levou o ditador soviético Josef Stalin a impor regimes comunistas aos países da Europa Oriental libertados do nazismo para criar uma zona de proteção da URSS depois de 1945.

CLIMA

A Rússia registra as menores temperaturas do mundo fora da Antártida, com recorde de 71,2ºC negativos em 1924 na Yakútia, uma república da Sibéria onde fica o Polo Norte do Frio, em cidades domo Verkhoyansk e Oimiakon.
A menor temperatura natural já medida na Terra foi 89,2ºC abaixo de zero em 21 de julho de 1983 na estação russa de Vostok, na Antártida.
A neve começa em outubro. Quando não chega, provoca ansiedade. Mas como o país é enorme, a temperatura máxima no ano foi de 45,4ºC.

BIODIVERSIDADE

A vasta planície da Eurásia Interior se divide em cinco faixas. É seca e desértica no sul, um pouco mais úmida na região das estepes, território de nômades, seguida por uma faixa de florestas mistas e de latifoliadas, uma de floresta de coníferas (taiga) e pela tundra nas terras geladas e pantanosas cortadas por rios que desaguam no Oceano Ártico. 
A Rússia tem a maior área florestal do mundo. São 40 reservas de biosfera reconhecidas pela Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura), 182 parques nacionais e reservas naturais que cobrem 330 mil km2, 1,4% do território.
O país tem 266 espécies de mamíferos e 780 espécies de pássaros. Um total de 415 estão desde 1997 numa lista de espécies protegidas. O urso é o símbolo nacional.

ATRASO SECULAR

“O traço essencial e o mais constante da História da Rússia é a lentidão com que o país se desenvolveu, apresentando como consequência uma economia atrasada, uma estrutura social primitiva e baixo nível cultural”, analisou Leon Davidovitch Bronstein, mais conhecido como Trotsky, na sua História da Revolução Russa.
“A população da gigantesca planície, com seu clima rigoroso, exposta ao vento leste e às migrações asiáticas, estava destinada pela própria natureza a uma prolongada estagnação”, acrescentou o líder comunista.

GEOPOLÍTICA

A geografia ajuda a moldar a história e a psicologia do povo.
A Eurásia Interior inclui o território da antiga URSS, a Mongólia e a província de Xinjiang, no Noroeste da China.
Os Montes Urais, que dividem a Rússia Europeia da Rússia Asiática, são relativamente baixos e penetráveis. Nunca constituíram uma barreira capaz de deter inimigos, o que deixa o território russo aberto a leste e a oeste, onde não há fronteiras naturais que o separem do resto da Europa Oriental.
As duas faixas de vegetação mais ao sul, especialmente a estepe, são o território clássico de tribos pastoris nômades. Com a vegetação escassa, a falta de chuva e o terreno aberto, era difícil instalar assentamentos agrícolas.
Os rebanhos de gado, cabras, ovelhas e em alguns lugares camelos são parte da história da Eurásia. Seus pastores dependiam deles, mas não conseguiam tirar deles tudo o que precisavam.

CONFEDERAÇÕES

Assim, a Eurásia Interior era obrigada a se relacionar com a Eurásia Exterior. Como os pastores estavam quase sempre em desvantagem na hora de negociar, aumentava a tendência de usar a força. Para defender suas terras e animais, os clãs e tribos se organizaram em confederações.
Desde as invasões bárbaras que acabaram como Império Romano do Ocidente e durante toda a Idade Média, até a invenção da pólvora, o cavalo seria o principal instrumento da guerra. Os nômades eram grandes guerreiros, mas, culturalmente inferiores, absorveram a cultura dominada, como na China. A luta contra os nômades durou até o fim do século 17.
Para o historiador britânico Geoffrey Hosking, professor da Universidade de Londres e autor de Rússia e os Russos: dos tempos antigos até 2001(Londres, 2002), “era natural que o mais duradouro império da Eurásia Interior devesse ser formado em seu extremo oeste. (…) A primeira unidade política dos eslavos orientais foi fundada no extremo sul da região, em Kiev”.

COMÉRCIO

A Rússia Kievana conseguiu se estabelecer graças à rota comercial norte-sul que ligava a Escandinávia a Constantinopla e passava pelo entroncamento de rotas comerciais ligando a Europa à Pérsia, à Índia e à China.
Seu declínio, com as Cruzadas e a alteração das rotas comerciais, deslocou o eixo da civilização dos eslavos orientais mais para o norte do século 11 ao século 13.
Uma vez estabelecido um Estado na região, pondera Hosking, “havia muitas razões para acreditar que fosse duradouro. (…) …seus líderes e súditos poderiam sobreviver quase que indefinidamente. Eles poderiam recuar indefinidamente”.
Ao mesmo tempo, as terras do centro da grande massa continental tinham graves problemas. A maior parte do solo era pouco fértil, distante do mar e portanto de contato fácil com o mundo exterior, além das sérias dificuldades internas de comunicação.

FRAQUEZA

A consequência disso é que, a menos que todo o território e seus principais acessos sejam ocupados, as fronteiras ficarão abertas e vulneráveis.
Essas terras foram ocupadas por numerosos povos com línguas, culturas, costumes, leis e religiões diferentes. Construir um Estado capaz de assimilar e acomodar todos esses povos seria um desafio complexo, caro e às vezes aparentemente inútil.
A combinação paradoxal de uma força colossal com fraquezas e vulnerabilidades foi uma característica essencial do Império Russo, como observou o príncipe Klemens von Metternich, chanceler e primeiro-ministro do Império Austríaco da época das guerras napoleônicas até as revoluções de 1848: “Nunca tão forte quanto parece nem tão fraca como parece.” 

MEDO DO CERCO

Sem fronteiras naturais, a Rússia pode facilmente invadir e ser invadida. Historicamente isso criou a sensação de estar cercada de inimigos, o que levou o ditador soviético Josef Stalin a criar uma zona de segurança formada pelos países da Europa Oriental ocupados pelo Exército Vermelho na Segunda Guerra Mundial: Alemanha Oriental, Polônia, Hungria, Tcheco-Eslováquia, Romênia e Bulgária.
Ao longo da história, com a exceção dos mongóis no século 13, as invasões mais destrutivas vieram do Ocidente.
Durante os séculos 16 a 18, a metade do Exército foi deslocada para defender a fronteira sul, onde até hoje há problemas como a revolta muçulmana nas repúblicas da Chechênia e do Daguestão.

INVADIR, OCUPAR E ANEXAR

A solução histórica foi aproveitar a fraqueza e a desorganização das tribos rebeldes para invadir e tomar suas terras. Basquírios, cossacos, lituanos, poloneses, ucranianos, georgianos foram súditos leais, aliados incertos e inimigos jurados em momentos diferentes.
O Império Russo era um império multinacional, com uma diversidade étnica e religiosa só comparável à do Império Britânico, dominado por uma aristocracia heterogênea. A classe dominante incluía representantes dos vários povos.
Era um império subdesenvolvido, situado numa região de temperaturas extremas e afastado desde o século 15 das rotas comerciais mais importantes. A vulnerabilidade e a pobreza obrigaram o governo a destinar grande parte da riqueza nacional a segurança e defesa.

OCIDENTE X ORIENTE

O Império Russo sempre esteve esparramado entre o Ocidente e o Oriente, dividido entre os europeístas defensores da aproximação com a Europa e os eslavófilos favoráveis a um excepcionalismo russo que às vezes  beira o fascismo. 
A Rússia nasceu como um país cristão ortodoxo, inspirado pelo Império Bizantino. Do jugo do Império Mongol, herdou o “despotismo oriental”.
A influência cultural europeia na Rússia, descrita por um europeu no século 16 como “um reino rude e bárbaro”, tem pelo menos 300 anos. Toda cultura foi reorientada para o Ocidente, mas nunca se livrou dessa bipolaridade.

CLIENTELISMO

Se o tamanho e a vulnerabilidade exigiram governos fortes e autoritários, a falta de recursos para administrar um território tão vasto impediu o império de controlar diretamente a vida de cada cidadão, a não ser na URSS.
Sem condições de criar leis e instituições, o Império Russo distribuía o poder através de redes de relações pessoais. Nesse sentido, se assemelhava à Roma Antiga, um vasto império construído militarmente com um sistema de patronato e clientela que se manifestou na relação entre servos e senhores e na nomenklaturaque orientava as nomeações e promoções na URSS.

TERRORISMO

Um dos grandes desafios de czares e líderes do Partido Comunista foi derrotar grupos criados ao redor de personalidades poderosas. Tanto Ivã, o Terrível, quanto Stalin usaram o terror para tentar controlar e destruir focos de dissidência e oposição. Ambos fracassaram.
O resultado foi a criação de estruturas coercitivas na base e no topo da sociedade, observa Hosking. No meio, na falta de uma sociedade civil, as instituições são frágeis e dependem de personalidades, dos homens-fortes que historicamente governaram a Rússia.
Esse atraso de estrutura social e mentalidade atrelados ao passado atrapalha a introdução de uma economia de mercado, de uma sociedade civil e de uma democracia que funcione.

EXTREMISMO

Alguns sociólogos apontam para a “natureza binária” ou bipolar da sociedade russa por sua tendência histórica de buscar soluções radicais para seus problemas, como a mudança abrupta do paganismo para o cristianismo ortodoxo em 988; as reformas modernizadoras de Pedro, o Grande, no início do século 18; a Revolução Comunista de 1917; e a transição caótica para a economia de mercado da era pós-soviética nos anos 1990s.
Em todos os casos, o novo foi apresentado como a superação completa do passado, a substituição do mal absoluto pelo bem absoluto. “O dualismo e a ausência de uma zona neutra levam o novo a ser visto não como uma continuação, mas como uma substituição total”, comentaram Iuri Lotman e Boris Uspenski.

CONSERVADORISMO

Numa sociedade marcada por descontinuidades extremas, qualquer tentativa reformista da elite tende a esbarrar no conservadorismo da massa, reforçado pelo temor de que num ambiente político e geograficamente difícil qualquer novidade ou experiência pode dar errado e até ser desastrosa.
Nesta sociedade de utopias e distopias, o resultado tem sido um conflito crônico entre as elites e a massa, com a reprodução de velhos padrões e velhos conflitos.

RESPONSABILIDADE CONJUNTA

Na base da sociedade, os camponeses, pressionados pela ausência do Estado, a vulnerabilidade e a inclemência da natureza, se organizaram em torno do conceito de “responsabilidade conjunta”. 
Associada a uma suspeição quanto aos ricos, aversão à propriedade individual e à autopiedade inspirada pela Igreja Ortodoxa, tudo isso ajudou a Rússia a aceitar o regime comunista.

FIBRA MORAL

Como durante seis a sete meses por ano a agricultura é inviável porque a terra está gelada, os camponeses tiveram de partir para outras atividades. “Nenhum outro povo europeu é capaz de resistir a tanta pressão”, sustentou o historiador Vassili Kliuchevski no século 19.
A versatilidade, a tenacidade e a capacidade de se dedicar ao trabalho duro devem explicar por que os russos são bons soldados e bons atletas. Mas, em condições por vezes extremamente adversas, qualquer trabalho, não importa quão intenso e prolongado, pode não render o esperado.

DESESPERANÇA

Isso gera uma sensação de impotência e desesperança que desestimula o planejamento e o investimento de longo prazo, fundamentais para qualquer empresa. A resignação e o fatalismo são outras marcas do caráter nacional.
Assim, a solidariedade comunitária não é necessária apenas em tempos de emergência, crise e escassez. O conflito ameaça a existência da comunidade.
Essa solidariedade se constrói na base de dois princípios fundamentais à vida na sociedade russa: mir (paz) e pravda (verdade). Verdade aqui tem um sentido amplo. Incorpora o correto, a Justiça, a moralidade, a lei de Deus e o comportamento de acordo com a consciência.