quarta-feira, 13 de junho de 2018

RÚSSIA: revoluções enterram o czarismo e o Império Russo

    Nicolau II (1894-1917) foi o último imperador da Rússia, rei da Polônia e grão-duque da Finlândia. Ficou conhecido como Nicolau, o Sanguinário, por causa da tragédia de Khodinka, nas festas de sua coroação, quando 1.389 pessoas morreram, da perseguição aos judeus, das execuções de inimigos políticos e do Domingo Sangrento na repressão à Revolução de 1905, precursora das revoluções de 1917.

A czarina Alexandra, a quem Nicolau confiou o governo quando foi comandar pessoalmente o Exército durante a Primeira Guerra Mundial, foi descrita assim pelo embaixador francês Maurice Paléologue: “Ansiedade moral, melancolia crônica, angústia sem limites, oscilando entre a euforia e a depressão, dolorosas meditações sobre o além-mundo e o invisível, superstição – esses traços tão fortemente marcados na czarina não são, por acaso, os mesmos que caracterizam o povo russo?” Trotsky gostou do perfil, mas não da pergunta. 

ALEXANDRA

Na sua análise, o momento que melhor retrata Alexandra é outro. Às vésperas da Revolução de Fevereiro, em 13 de dezembro de 1916, a czarina aconselhou o marido: “Tudo se acalma e vai cada vez melhor, mas todos desejam sentir o teu pulso. Há muito tempo, já há muitos anos, me repetem a mesma coisa: ‘A Rússia gosta de ser acariciada com chicote. Está na natureza desta gente!’”
Trotsky via uma rainha alienada: “A princesa de Hesse, ortodoxa, educada em Windsor, coroada com o diadema bizantino, não somente ‘encarna’ a alma russa: tem por esta alma um desprezo orgânico. Está na natureza dessa gentepedir o chicote, escreve a czarina ao czar da Rússia, falando do povo russo – e isso dez semanas antes do dia em que a monarquia cairia no abismo”.

PARTIDO

Em março de 1898, nasce o Partido Operário Social-Democrata Russo, embrião do Partido Comunista que faria a Revolução de 1917. Lenin, preso por agitação e enviado à Sibéria em 1897, onde se casou com Nádia Krupskaya, fugiu em 1900 para a Europa. Em fevereiro de 1902, publica O Que Fazer?, seu programa para construir o partido e fazer a revolução.
Em 1903, os bolcheviques (comunistas) iriam formar uma facção política separada dos mencheviques (social-democratas). Em 1912, por iniciativa de Lenin, os comunistas criaram seu próprio partido, usando o emblema da foice e o martelo como símbolo da aliança operário-camponesa.

GUERRA DO PACÍFICO

Durante o reinado do último czar, a Rússia foi de uma das grandes potências mundiais para um país em colapso total. Foi humilhada pelo Japão na Guerra do Pacífico (1904-5), a primeira derrota de uma potência branca e europeia para um país não europeu desde que a expansão do Império Otomano foi barrada nos portões de Viena, em 1684. Nicolau II pretendia usar a guerra para revigorar o nacionalismo russo.
A primeira grande guerra do século 20 foi uma disputa pela Coreia e Mandchúria. A Rússia se aliou à China em 1896, logo depois da derrota desta para o Japão na Guerra Sino-Japonesa (1894-95), ganhando o direito de construir a Rodovia Transiberiana passando pela Mandchúria para chegar ao porto russo de Vladivostok.

ATAQUE-SURPRESA

O conflito começou com um ataque de surpresa do Japão contra a frota russa ancorada em Port Arthur na noite de 8 para 9 de fevereiro (pelo calendário juliano) de 1904. Apesar de ter construído a Transiberiana, a Rússia não tinha meios de transporte para reforçar suas posições no Extremo Oriente. Quando a Rússia rejeitou um pedido para retirar suas tropas da Mandchúria, o Japão atacou.
Em março de 1904, o Japão tomou a Coreia. Outro Exército japonês ocupou a Península de Liaotung em maio de 1904, isolando as forças russas em Port Arthur. Os japoneses marcharam então para o Norte, ganhando três batalhas, em Sheniang, Fuhxien e Liaoyang.
Quando chegaram reforços via Transiberiana, em outubro de 1904, a Rússia contra-atacou, sem muito sucesso. A última batalha terrestre da guerra confrontou 330 mil russos e 270 mil japoneses em Mukden; 89 mil russos e 71 mil japoneses foram mortos ou feridos.

DESASTRE EM TSUSHIMA

A vitória decisiva do Japão veio na batalha naval de Tsushima. De 27 a 29 de maio de 1905, a Marinha japonesa destruiu a frota russa do Báltico.
Sob a mediação do então presidente americano Theodore Roosevelt, depois de uma conferência de paz de um mês, os dois países assinaram o Tratado de Portsmouth.
O Japão recebeu o controle da Península de Liaotung e metade da ilha de Sakhalina. A Rússia foi obrigada a se retirar do Sul da Mandchúria, que voltou a ser parte da China, e o controle japonês sobre a Coreia foi reconhecido.

DOMINGO SANGRENTO

Antes mesmo do fim guerra, em 9 de janeiro de 1905 (pelo calendário da época, hoje 22 de janeiro), uma marcha de trabalhadores de São Petersburgo foi até o Palácio de Inverno. 
Os manifestantes queriam entregar uma lista de reivindicações ao czar Nicolau II, pedindo reforma agrária, o fim da censura, tolerância religiosa e a criação de uma assembleia nacional eleita diretamente. Foram recebidos à bala. Pelo menos 130 manifestantes foram mortos.

ENCOURAÇADO POTEMKIN

Esse massacre, conhecido como Domingo Sangrento, provocou uma onda de protestos operários e camponeses, além de motins no Exército e na Marinha, deflagrando a Revolução de 1905. 
O mais famoso foi a rebelião dos marinheiros do Encouraçado Potemkin, em junho de 1905, logo depois da derrota em Tsushima, imortalizada no filme do mesmo nome lançado em 1925, em pleno fervor revolucionário, pelo cineasta Serguei Eisenstein.

REVOLUÇÃO DE 1905

O Domingo Sangrento acabou com o mito de que Nicolau II era um “pai da pátria” bondoso que ignorava a miséria do povo por culpa da aristocracia que o cercava.
Durante a revolução, para coordenar as greves, foram criados comitês operários, os sovietes, o primeiro em São Petersburgo. O Soviete de São Petersburgo, berço da Revolução Comunista, chegou a ter 400 a 500 membros eleitos por cerca de 200 mil trabalhadores, representantes de cinco sindicatos e 96 fábricas.
Quando seu líder foi preso, Leon Davidovitch Bronstein, mais conhecido como Trotsky, que voltara do exílio, assumiu o comando. Houve uma greve geral em outubro, não organizada pelo soviete, que parou de funcionar em 3 de dezembro de 1905, quando Trotsky e outros líderes foram presos e acusados de preparar uma rebelião armada.
Naquela época, Trotsky lançou sua “teoria da revolução permanente” para argumentar que a Rússia poderia passar por várias revoluções seguidas queimando etapas para passar de uma sociedade atrasada ao socialismo sem a necessidade de se tornar antes um país capitalista desenvolvido.

MANIFESTO DE OUTUBRO 

Para tentar conter a revolta, o czar lançou o Manifesto de Outubro, permitindo a criação da Duma (Parlamento) e a existência de partidos políticos, inclusive o Partido Operário Social-Democrata. 
Desde 1903, ele estava dividido entre a facção moderada menchevique (minoria), favorável a uma reforma gradual com o apoio da burguesia, e os radicais bolcheviques (maioria), defensores de uma ação revolucionária. O historiador Orlando Figes afirma que os bolcheviques sempre foram minoria, a pretensa maioria foi um golpe da propaganda leninista.
Na visão de Lênin, a Revolução de 1905 foi um ensaio geral para a de 1917. Deixou lições para evitar a derrota para uma contrarrevolução. Lênin concluiu que num país onde a burguesia era fraca como a Rússia uma aliança operário-camponesa seria capaz de tomar o poder. Também se aproximou de tese trotskista de queimar etapas.

TRÍPLICE ENTENTE

Em 31 de agosto de 1907, a Rússia se associou à Entente Cordiale, formada em 1905 por Reino Unido e França depois de décadas de rivalidade, para criar a Tríplice Entente, que se opunha à Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália) forjada em 1882 pelo então chanceler (primeiro-ministro) alemão, Otto von Bismarck.
A ascensão de novas potências, o militarismo, o imperialismo e o nacionalismo aumentavam a tensão internacional. A causa imediata da guerra foi o conflito na região dos Bálcãs, no Sudeste da Europa, onde houve duas guerras, do Império Otomano contra a Liga dos Bálcãs (Bulgária, Grécia, Montenegro e Sérvia), em 1912, e da Bulgária, insatisfeita com o acordo de paz, contra Grécia, Montenegro, Romênia, Sérvia e o Império Otomano, em 1913.

ARQUIDUQUE ASSASSINADO

O estopim da Primeira Guerra Mundial foi o assassinato, em Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina, em 28 de junho de 1914, do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, e de sua mulher Sofia, cometido pelo estudante radical sérvio Gavrilo Princip, do grupo terrorista Mão Negra.
Com o apoio da Alemanha, a Áustria-Hungria deu em 23 de julho um ultimato de 48 horas à Sérvia, que reivindicava soberania sobre a Bósnia, acusando-a pela conspiração que matara o herdeiro do trono.

ULTIMATO INACEITÁVEL

Seus termos eram inaceitáveis. Para o Primeiro Lorde do Almirantado do Império Britânico, Winston Churchill, foi “o documento deste tipo mais insolente já visto”.
A Sérvia deveria censurar toda publicação crítica ao Império Austro-Húngaro, banir associações nacionalistas sérvias, permitir a presença no país de autoridades austro-húngaras para “suprimir movimentos subversivos”.
Na noite do dia 23, o príncipe Alexander, herdeiro do trono da Sérvia, pediu ajuda à Embaixada da Rússia. Moscou não tinha interesse na guerra, mas a Alemanha estava pronta. 

PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Em 28 de julho de 1914, a Áustria-Hungria iniciou as hostilidades contra a Sérvia. A Alemanha invadiu a Bélgica e Luxemburgo, preparando um ataque à França. Isso levou o Reino Unido e a França a entrar em guerra com a Alemanha, enquanto a Rússia enfrentava a Áustria-Hungria na frente oriental em defesa da Sérvia.
Se abandonasse a Sérvia, a Rússia deixaria de ser uma potência nos Bálcãs. Nicolau II optou pela guerra que destruiria a monarquia e o império.
O resultado imediato da guerra foi o aumento do apoio à monarquia. A Alemanha poderia esmagar a França ou a Rússia isoladamente, mas foi obrigada a lutar em duas frentes. 

INVASÃO FRACASSADA

A invasão da Prússia Oriental pela Rússia em agosto de 1914 foi um fracasso. Em duas batalhas, quase 150 mil soldados russos foram capturados. Mas a Alemanha teve de retirar tropas da frente ocidental, permitindo que a França vencesse a Primeira Batalha do Marne, de 6 a 12 de setembro de 1914.
Com a entrada do Império Otomano na guerra ao lado da Alemanha, em novembro de 1914, abriu-se uma nova frente luta no Cáucaso e fechou uma rota de suprimento para a Rússia. 
A França e o Reino Unido tentaram, sem sucesso, tomar o Estreito de Dardanelos. A entrada da Bulgária na guerra ao lado da Alemanha e da Áustria-Hungria complicou ainda mais a situação da Rússia.

GUERRA INDUSTRIAL

Quando as potências centrais lançaram uma ofensiva na primavera de 1915, o Exército Imperial da Rússia tinha pouca munição. 
A Primeira Guerra Mundial foi a primeira guerra industrial. Os soldados eram enviados de trem às frentes de combate. As trincheiras inimigas eram submetidas a um constante fogo de artilharia. Foram usadas armas químicas. 
O esforço de guerra exigia uma forte retaguarda econômica para continuar alimentando os exércitos. A Rússia não tinha tecnologia nem volume de produção para enfrentar a Alemanha, maior potência industrial europeia da época.

BLOCO PROGRESSISTA

As derrotas tiraram o apoio da opinião pública. Os partidos de centro-esquerda na Duma criaram um Bloco Progressista que propunha uma série de reformas:
      a libertação dos presos políticos;
      o fim da discriminação das minorias religiosas;
      o fim da perseguição aos judeus;
      o fim das últimas discriminações legais aos camponeses remanescentes da servidão;
      o fim das restrições legais à atuação dos sindicatos; e
      a democratização dos governos municipais.
O czar rejeitou as propostas, demitiu oito ministros que eram favoráveis às demandas do Bloco Progressista e assumiu pessoalmente o comando do Exército, no verão de 1915, deixando a administração nas mãos da czarina Alexandra e seus ministros.

FOME E INFLAÇÃO

O impacto econômico da guerra foi forte. No fim de 1916, a indústria tinha sido reorientada para a produção de armas e munições, mas o bloqueio imposto pela Alemanha e o Império Otomano, além da convocação de camponeses para lutar, causaram escassez de alimentos e inflação generalizada.

SOCIALISMO

O socialismo era uma nova proposta de governo para distribuir a riqueza das nações entre toda a população. Na Rússia, vários grupos lutavam para derrubar a monarquia czarista, que consideravam corrupta, maligna e voltada para si mesma.
Os revolucionários que derrubaram Nicolau II viam o socialismo como parte de um movimento internacional. Acreditavam que todos os povos entrariam na onda num levante global anticapitalista. 

CONFUSÃO IDEOLÓGICA

O início da Primeira Guerra Mundial semeou a confusão ideológica entre os partidos socialistas, social-democratas e trabalhistas da Europa, que tinham nascido do movimento operário e hesitaram em aderir à guerra declarada por governos que representavam as elites.
A reação do Partido Operário Social-Democrata da Rússia não foi diferente. Alguns bolcheviques deixaram o partido, passando a se identificar como social-patriotas. Gueorgui Plekhanov, um ideológo bolchevique ligado a Lenin, foi à guerra.

GUERRA IMPERIALISTA

Com o início da guerra, Lenin fugiu da Áustria, onde chegou a ser preso, e para a Suíça, em 5 de setembro de 1914. No outono de 1914, apresentou suas conclusões: era uma guerra imperialista e burguesa. Ele criticou os líderes dos partidos socialistas da Alemanha, Bélgica e França, que apoiaram seus governos.
O único objetivo da guerra, argumentou Lênin, era saquear países e lutar por mercados, enganando, desunindo e matando o proletariado de todos os países, que estava nos campos de batalha defendendo os interesses das burguesias nacionais.
Assim, os soldados não deveriam atirar nos seus irmãos de outros povos, mas voltar suas armas contra seus governos e classes dominantes, transformando “uma guerra imperialista numa guerra de classes”.

ELO MAIS FRACO

Na primavera de 1916, em Zurique, Lênin escreveu seu livro mais importante sobre relações internacionais, Imperialismo: o estágio superior do capitalismo, em que defende a teoria do elo mais fraco, proposta inicialmente por Trotsky, que só acreditava numa revolução mundial.
Ao contrário do que previra o criador do comunismo, Karl Marx, Lenin argumentou que o sistema capitalista não ia começar a se romper no centro, nos países ricos e desenvolvidos, mas, sim, nos elos mais fracos. A tese foi usada para justificar a revolução bolchevique na Rússia. Trotsky esperava que a partir do elo mais fraco todo o sistema capitalista entrasse em colapso.

PROPAGANDA

Os principais alvos da propaganda socialista, propôs Lênin, deveriam ser os soldados, especialmente no campo de batalha, que precisavam ser convencidos a não apontar suas armas contra “os escravos de outros países”, mas contra partidos e governos “burgueses e reacionários”. 
Agentes secretos deveriam se infiltrar nos exércitos de outros países, disseminando a propaganda revolucionária em todas as línguas numa luta constante contra o chauvinismo e o patriotismo das burguesias nacionais.
A guerra radicalizava as posições de Lenin. Apoiado por Rosa Luxemburgo, queria greves gerais, sabotagem e até mesmo uma revolta armada para acabar com a Grande Guerra. Os pacifistas suíços não aprovaram, na Conferência dos Socialistas em Zimmerwald, em 1915; mas, na Rússia, funcionaria.

BAIXAS

A guerra na frente oriental matou mais gente do que nos campos de batalha da França e da Bélgica. Cerca de 2,2 milhões de russos morreram ou desapareceram em ação ou desertaram, 2.715.588 foram feridos e 3,343 milhões foram prisioneiros de guerra.
O total de baixas da Rússia foi estimado em 10 milhões.  Um ano e meio antes da Revolução de Fevereiro (março pelo calendário atual), a disciplina indicava que o Exército czarista estava à beira de um colapso.
Cerca de 15 milhões de camponeses deixaram o trabalho na terra para ir à guerra. A produção agrícola desabou.

ONDA DE GREVES

Uma onda de greves começou em 1915, culminando com uma grande paralisação das fábricas de armas e locomotivas de Petrogrado, rebatizada em agosto de 1914 porque São Petersburgo era um nome de origem alemã.
Primitiva, a indústria russa foi incapaz de fornecer os equipamentos necessários para um grande exército travar uma guerra moderna, da era industrial. Corrupto e ineficiente, o governo não foi capaz de canalizar os recursos necessários à guerra e ao mesmo tempo proteger a população civil das consequências do conflito.

RASPUTIN

Havia no ar denúncias de traição. A monarquia estaria pronta para fazer um acordo com as potências inimigas, no caso a Alemanha e a Áustria. Era cada vez maior a influência na corte do mago Grigori Rasputin, a eminência pardada corte, um camponês e místico siberiano que conseguia estancar as hemorragias do príncipe Alexei, que era hemofílico.
“Era habitual, nas altas esferas, comparar Rasputin a Cristo”, observou Trotsky na História da Revolução Russa. “Em Rasputin, a monarquia condenada e agonizante encontrou um Cristo à sua imagem e semelhança”.
Depois de várias tentativas de assassiná-lo, na noite de 16 para 17 de dezembro de 1916 (29-30 pelo calendário anual), Rasputin foi envenenado e baleado. Conseguiu fugir correndo, mas foi pego e jogado no Rio Neva, em São Petersburgo, através de um buraco aberto no gelo, morrendo afogado.

REVOLUÇÃO DE FEVEREIRO

A Revolução de Fevereiro de 1917 (março pelo calendário atual) começou nas filas para conseguir comida nas grandes cidades. Logo os trabalhadores da maioria das fábricas aderiram às manifestações.
O momento decisivo foi quando cossacos convocados para dispersar as multidões se recusaram a obedecer às ordens e os militares da guarnição de Petrogrado se amotinaram e aderiram à revolução.
Diante da iminência de uma guerra civil capaz de minar o esforço de guerra, o comando militar abandonou Nicolau II na expectativa de que a Duma conseguisse controlar as massas.

FIM DO IMPÉRIO

Por acordo do Soviete de Petrogrado com a Duma, foi formado em março um governo provisório, que enviou emissários até o imperador, obrigando-o a renunciar em 15 de março de 1917. Era o fim de 300 anos de poder da Dinastia Romanov e 200 anos de Império Russo.
O governo provisório era uma aliança de liberais e socialistas reformistas. Conseguiu convocar uma Assembleia Constituinte, mas o Soviete Operários e Soldados de Petrogrado era um polo de poder paralelo. No início, a convivência foi pacífica.

TESES DE ABRIL

Lenin volta do exílio via Alemanha, Suécia e Finlândia, e lança suas Teses de Abril, entre elas, “todo o poder aos sovietes”. Os comitês operário-camponeses (sovietes) deveriam tomar o poder, denunciar os liberais e social-democratas do governo provisório, parar de cooperar com o governo e lutar por políticas comunistas.
NasTeses de Abril, publicadas no jornal Pravda, órgão oficial do Partido Comunista, Lenin lançou as bases do leninismo:
      condenou o governo provisório como democracia burguesa e convocou os militantes a não apoiá-lo porque a “absoluta falsidade de todas as suas promessas deve ser deixada clara”;
      repudiou a “guerra imperialista predatória” e o “defensivismo revolucionário” de partidos social-democratas de outros países que apoiaram a guerra; 
      defendeu um “derrotismo revolucionário” ao dizer que os trabalhadores tinham mais a ganhar com a derrota de seus países no campo de batalha;
      afirmou que a Rússia estava “passando pela primeira etapa da revolução – que, devido à consciência de classe e organização do proletariado insuficientes, deixou o poder nas mãos da burguesa – para a segunda etapa, que deve colocar o poder nas mãos do proletariado e dos camponeses pobres”;
      reconheceu que os bolcheviques era minoria nos sovietes contra “um bloco de elementos oportunistas pequeno-burgueses, dos social-cadetes aos revolucionários socialistas, inclusive o comitê organizador, que teria se transformado num instrumentos de controle do proletariado pela burguesia;
      considerou um “retrocesso” o estabelecimento de uma república parlamentar;
      propôs a criação de uma república de sovietes de operários, trabalhadores agrícolas e camponeses;
      pediu a “abolição da Polícia, do Exército, da burocracia”;
      alegou que “os salários todos os funcionários públicos, que são escolhidos e substituíveis a qualquer momento, não devem exceder o salário médio de um trabalhador competente”;
      exigiu a união imediata de todos os bancos num banco único, a ser colocado sob o controle do Soviete dos Operários;
      convocou para a “tarefa imediata de introduzir o socialismo e colocar a produção social e a distribuição de produtos de uma vez sob o controle do Soviete dos Operários”;
      listou como tarefas para o partido alterar o programa na questão do imperialismo e da guerra imperial, a defesa de um Estado comunitário e a troca do nome do partido de Social-Democrata para Comunista, argumentando que os líderes dos partidos social-democratas no mundo inteiro tinham “traído o socialismo e desertado para a burguesia”;
      proclamou a necessidade de uma nova Internacional Comunista para combater os “social-chauvinistas” que apoiaram a guerra e “contra o centro”. O Comintern ou Terceira Internacional, uma aliança de partidos comunistas liderada pelo russo e depois soviético, foi criado em 2 de março de 1919.

TERCEIRA INTERNACIONAL

A Primeira Internacional foi fundada por Karl Marx e Friedrich Engels, em 1864, em Londres, no primeiro encontro de movimentos trabalhistas de vários países, e durou até 1876.
Engels criou a Segunda Internacional em Paris, em 1889, reunindo partidos socialistas, social-democratas e trabalhistas. É a Internacional Socialista, que existe até hoje, embora tenha sido extinta durante a Primeira Guerra Mundial, em 1916.
A Terceira Internacional, dos partidos comunistas ou marxistas-leninistas, nasceu em Petrogrado. A Quarta seria fundada mais tarde pelos trotskistas depois do racha entre Trotsky e Josef Stalin.
A proposta da Terceira Internacional era “lutar pela superação do capitalismo, o estabelecimento da ditadura do proletariado e de uma República Internacional dos Sovietes, a completa abolição das classes sociais e a implantação do socialismo como uma transição para a sociedade comunista, com a completa abolição do Estado e para isso se utilizando de todos os meios disponíveis, inclusive armados, para derrubar a burguesia internacional”.
O Comintern organizou cinco congressos de PCs, de 1919-23. Depois da morte de Lenin, Stalin esvaziou as reuniões e passou a usar o Comintern como instrumento da política externa da URSS até extingui-lo em 1943.

GOVERNO PROVISÓRIO

Dentro do governo provisório do príncipe Giorgi Lvov e do primeiro-ministro Alexander Kerenski , os mencheviques, moderados, sustentavam que a Rússia precisava passar por um período capitalista para que fosse possível implantar o socialismo.
Sob a liderança radical de Lenin, os bolcheviques queriam queimar etapas. Com um governo fraco que não tinha certeza de poder contar com o Exército, o líder comunista viu uma oportunidade de tomar o poder.
A guerra e o colapso da economia arruinaram o governo provisório. Em setembro, os bolcheviques eram maioria no Soviete de Petrogrado. Num dos momentos decisivos, o general monarquista Lavr Kornilov foi nomeado comandante-em-chefe e tentou acabar com o soviete numa jogada para desestabilizar o governo. 

REVOLUÇÃO DE OUTUBRO

Kerenski o afastou, denunciando Kornilov como um traidor. O próprio Kerenski precipitou a Revolução de Outubro ao mandar fechar dois jornais bolcheviques. Trotsky, o líder dos blocheviques, temia que Kerenski pudesse proibir o Segundo Congresso de Todas as Rússias, que começaria em 25 de outubro, 7 de novembro pelo calendário atual.
Trotsky mandou então os bolcheviques ocuparem os pontos-chaves de comunicações e de transportes em Petrogrado. Lenin, que estava na clandestinidade, ressurgiu e exortou os bolcheviques a derrubar o governo provisório. 

TOMADA DO PALÁCIO

Os revolucionários invadiram o Palácio de Inverno e por volta das 2h da madrugada entraram na sala onde o governo Kerenski realiza uma reunião de emergência e derrubaram o governo. A sala está preservada dentro do Museu Hermitage e pode ser visitada. O relógio está parado na hora da revolução.
A grande narrativa da Revolução de Outubro é o livro Dez Dias que Abalaram o Mundo, do jornalista americano John Reed, que entrou no Palácio de Inverno com os bolcheviques: “Como um rio negro enchendo toda a rua, sem sons ou vivas passamos através do Arco Vermelho, onde um homem bem na minha frente falou em voz baixa: ‘Atenção, camaradas! Não confiem neles! Eles vão atirar, com certeza!’ Nós corremos então no espaço aberto, nos abaixando e nos agrupando, nos escondendo atrás do pedestal da Coluna de Alexandre. ‘Quantos de vocês eles mataram?”, perguntei. ‘Não sei. Uns dez’. (…)”
“De ambos os lados, o portão principal estava totalmente aberto, a luz era fraca e não se ouvia o menor ruído. Empurrados pela onda humana, fomos levados para a entrada da direita, onde havia um grande vão da ala leste, de onde saía um emaranhado de corredores e escadas. No chão havia grandes bagagens que soldados e guardas vermelhos disputavam abrindo-as com o cabo de seus fuzis para pegar tapetes, cortinas, linho, porcelanas, louças e pratarias.
“Um homem carregava um relógio de bronze; outro encontrou uma pena de avestruz para colocar no chapéu. O saque tinha apenas começado quando alguém gritou: ‘Camaradas, não toquem em nada! Não peguem nada! Isto é propriedade do povo. Parem! Devolvam tudo!’”

COMISSÁRIOS DO POVO

 No 2º Congresso dos Sovietes de Todas as Rússias, Lenin formou um governo só do Partido Bolchevique, o Conselho dos Comissários do Povo. Também tinha maioria no Comitê Executivo Central Soviético, que detinha o poder legislativo.
Como a maioria dos bolcheviques era a favor de uma coalizão, os revolucionários socialistas aderiram ao governo, que seria mantido até a convocação da Assembleia Constituinte, em janeiro de 1918. Quando percebeu que os bolcheviques não teriam maioria, Lenin dissolveu a assembleia, abrindo caminho para a guerra civil.

PAZ DE BREST-LITOVSK

O primeiro e último governo soviético de coalizão sobreviveu até março de 1918, quando, fazendo grandes concessões de terras, os bolcheviques fizeram a paz com a Alemanha no Tratado de Brest-Litovsk, tirando a Rússia da Primeira Guerra Mundial.
Quando a Alemanha exigiu a formação de governos independentes na Polônia, nos países bálticos e na Ucrânia, Trotsky, comissário do povo para a guerra e relações exteriores, recuou, defendendo a tese de “nem guerra nem paz”.  Cedeu quando a Alemanha voltou a atacar e, depois de cinco dias de ofensiva, deu um ultimato de dois dias para o reinício das negociações e mais três para concluí-las.
Consciente da fragilidade da Rússia, Lenin cedeu a todas as exigências alemãs. Os sociais-revolucionários deixaram a coalizão. Elementos mais radicais recorreram ao terrorismo contra os líderes bolcheviques.
Os mencheviques ainda predominavam no Cáucaso. Só Moscou, Petrogrado e a região industrializada estavam sob domínio bolchevique. Os sociais-revolucionários predominavam no interior. Como os bolcheviques queriam controlar toda a Rússia e o antigo império czarista, veio a guerra civil de 1918-21.

EXÉRCITO VERMELHO

O Exército Vermelho foi criado em fevereiro de 1918 sob a liderança de Trotsky, comissário do povo para a guerra, que revelou grande capacidade estratégica e militar. Suas forças lutaram em 14 frentes de combate, num total de mais de 11 mil km.
Na época, o então primeiro-ministro da França, Pierre Clemenceau, propôs o isolamento da Rússia bolchevista por um “cordão sanitário”.

GUERRA CIVIL

A Guerra Civil Russa (1918-21) opôs o Exército Branco, anticomunista, apoiado por todas as potências europeias e o Japão, ao Exército Vermelho dos bolcheviques, com um total de pelo menos 300 mil mortos em combate, 450 mil de doenças (houve a epidemia da Gripe Espanhola em 1918) e 5 milhões de feridos. 
O conflito terminou com a independência da Finlândia, da Polônia, da Estônia, da Letônia e da Lituânia – e a brutal repressão à revolta dos marinheiros de Kronstadt, que deixou milhares de mortos e exilou outros milhares na Sibéria. 
A vitória comunista na Bielorrússia, Ucrânia, no Cáucaso, na Ásia Central, em Tuva e na Mongólia levou à formação, em outubro de 1922, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que se tornaria uma superpotência na segunda metade do século 20, quando enfrentou os EUA na Guerra Fria.
Para o historiador britânico Orlando Figes, autor de A Tragédia de um Povo: A Revolução Russa 1891-1924, os bolcheviques ganharam porque convenceram a população de que a vitória do Exército Branco seria a volta do odiado czarismo.

TERROR VERMELHO

Durante o Terror Vermelho (1918-22), estima-se que a polícia política bolchevique, a Tcheca (Comissão Extraordinária de Todas as Rússias para Combater a Contrarrevolução e a Sabotagem), tenha executado sumariamente 250 mil “inimigos do povo”. 
Era o terrorismo de Estado, o banho de sangue purificador inspirado na segunda fase da Revolução Francesa (1792-95), o Período do Terror, em que o rei, a rainha e líderes da revolução foram guilhotinados.
Pelo menos 300 mil cossacos foram mortos ou deportados durante a política comunista de “descossaquização”. Ao mesmo tempo, cerca de 100 mil judeus foram mortos pelo terror do Exército Branco na Ucrânia.

EXECUÇÃO DOS ROMANOV

O czar e a família foram levados primeiro para o Palácio de Alexandre, em Tsarskoye Selo, de lá para a sede do governo regional de Tobolsk e finalmente para a Casa Ipatiev, em Ecaterimburgo.
Durante a Guerra Civil por ordem de Lenin e do líder bolchevique Yakov Svlerdov, o czar Nicolau II, a czarina Alexandra, o príncipe herdeiro Alexis, as quatro filhas, Olga, Tatiana, Maria e Anastácia; o médico da família, Evgueni Botkin; o segurança do czar Alexei Trupp; a dama de companhia da Imperatriz Ana Demivoda; e o cozinheiro da família real, Ivan Kharitonov; foram fuzilados sumariamente.
Na madrugada de 17 de julho de 1918, todos foram levados para o porão da casa, onde o comandante local bolchevique, Yakov Yurovsky, anunciou que eles haviam sido condenados à morte pelo Soviete dos Trabalhadores dos Montes Urais, sob o pretexto de que os russos brancos se aproximavam e poderiam sequestrar ou libertar a família real.

MÁRTIRES

Para os exilados russos, os Romanov viraram mártires.
Os restos mortais foram localizados em 1979, exumados em 1991 e oficialmente identificados em 1998. Em 17 de julho de 1998, 80 anos depois das execuções, que o presidente Boris Yeltsin chamou de “crime monstruoso”, os restos do último czar e da última czarina foram enterrados na Catedral de São Pedro e São Paulo, em São Petersburgo. 

EPIDEMIA E FOME

Para agravar a situação, depois de seis anos de agitação social e violência, com uma guerra, duas revoluções e uma guerra civil, uma epidemia de tifo matou cerca de 3 milhões só em 1920. 
As secas de 1920 e 1921 causaram fome em massa. Pelo menos 2 milhões de pessoas morreram. Em julho de 1921, o escritor Máximo Gorki fez um apelo ao resto do mundo pedindo ajuda.

IMPACTO ECONÔMICO

No fim da guerra civil, a produção de minas e fábricas tinha caído para 20% do nível anterior à Primeira Guerra Mundial. A produção de algodão tinha caído para 5%. A área cultivada caiu para 62% e a colheita baixou para 37% do normal.
O rebanho bovino diminuiu de 58 para 37 milhões de reses em 1920, e o número de cavalos baixou de 35 para 24 milhões. O dólar passou de 2 rublos em 1914 para 1,2 mil em 1920.

NOVA POLÍTICA ECONÔMICA

Para tentar recuperar a economia depois da guerra civil, em 1921, percebendo que não haveria a revolução mundial que os bolcheviques esperavam em outros países, o governo Lenin lançou a Nova Política Econômica, que reintroduziu alguns elementos do mercado para estimular a atividade.
A NPE admitia a livre iniciativa e a pequena propriedade privada, na expectativa de obter investimentos privados. Na opinião de Lenin, era como “dar um passo atrás para dar dois à frente”. Vigorou até Josef Stalin vencer a luta pelo poder com Trotsky, em 1928, depois da morte de Lenin, em 1924.
Quando o secretário-geral do Partido Comunista Mikhail Gorbachev lançou a Perestroika(Reestruturação), seu programa de reformas econômicas, em 1986, a tentativa de recriar uma economia de mercado na URSS foi comparada à NPE de Lenin. 

CENTRALISMO DEMOCRÁTICO

Três meses antes da Revolução de Outubro, o 6º Congresso do Partido Comunista da Rússia definiu o princípio do “centralismo democrático”:
      Todos os órgãos de direção do partido, de alto a baixo, devem ser eleitos.
      Os órgãos dirigentes do partido devem prestar contas de suas atividades às organizações partidárias.
      A disciplina estrita exige a subordinação da minoria à maioria.
      Todas as decisões dos órgãos superiores são de cumprimento obrigatório pelas instâncias inferiores e todos os membros do partido.
Durante a Guerra Civil, no 10º Congresso do PC, em 16 de março de 1921, na Resolução nº 12, Lenin proibiu a existência de facções dentro do partido, acabando com a discussão política interna.
Estava aberto o caminho para a ascensão de Josef Stalin. Sob a ditadura de Stalin, o Soviete Supremo e todos os outros órgãos do Estado e do partido limitavam-se a seguir a orientação do secretário-geral do PC, depois autonomeado primeiro-ministro da URSS.

UNIÃO SOVIÉTICA

A Rússia, a Bielorrússia, a Ucrânia, a Geórgia, a Armênia e o Azerbaijão formaram em 30 de dezembro de 1922 a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
A Turcomênia e o Usbequistão entraram em 1924; o Tajiquistão, em 1929; o Casaquistão e a Quirguízia, em 1936; a Moldávia e as repúblicas bálticas da Estônia, Letônia e Lituânia, em 1940, as três últimas invadidas por Stalin. Na sua extensão máxima, a URSS tinha 22,4 milhões de km2, 11 fusos-horários e 60 mil km de fronteiras marítimas e terrestres.
Em 3 de abril de 1922, Josef Vissarianovitch Djugachvili, mais conhecido como Stalin, assumiu o cargo de secretário-geral do PC, que ocuparia até sua morte, em 5 de março de 1953.

MORTE DE LENIN

A disputa pelo poder entre Trotsky e Stalin foi precipitada pela morte prematura de Lenin, em 21 de janeiro de 1924, aos 53 anos de idade. 
Na primavera de 1922, Lenin ficou gravemente doente. Em abril, os médicos extraíram uma bala alojada no pescoço desde uma tentativa de assassinato em 1918. Em 26 de maio, ele sofreu um acidente vascular cerebral e ficou parcialmente paralisado, sem conseguir falar.
Lenin teve o segundo AVC em 16 de dezembro de 1922. Depois do terceiro, em 10 de março de 1923, perdeu definitivamente a fala e encerrou as atividades políticas. O último AVC foi em 21 de janeiro de 1924, deixando inacabada sua revolução.
Num ambiente revolucionário, cheio de intrigas e conspirações, há suspeitas de que o fundador da URSS tenha sido envenenado.

HERANÇA DE LENIN

Para o historiador marxista Eric Hobsbawm, Lenin foi o personagem mais importante do século 20. Seus críticos o acusam de ter criado um Estado policial autoritário e as bases do stalinismo.
A polícia política Tcheka lembrava o terrorismo de Estado do período imperial. Em maio de 1919, 16 mil pessoas foram confinadas num campo de trabalhos forçados do antigo regime em Katorga. Até setembro de 1921, foram enviadas para lá mais de 70 mil “inimigos de classe”.
A execução sumária de toda a família real e a violenta repressão à revolta dos marinheiros de Kronstadt fortaleceram a imagem negativa do Terror Vermelho.

TESTAMENTO

De 23 de dezembro de 1922 a 4 de janeiro de 1923, Lenin ditou três notas curtas conhecidas como o Testamento de Lenin. Ele defendeu a ampliação do Comitê Central para incluir mais operários e camponeses, e analisou os possíveis sucessores.
Lenin advertiu para o imenso poder concentrado por Stalin como secretário-geral. Considerava Trotsky o mais preparado, mas burocrático e com excesso de confiança. Grigori Zinoviev e Lev Kamenev eram contra a tomada do poder em outubro de 1917, lembrou.
A nota de 4 de janeiro de 1923 é mais forte: “Stalin é demasiado bruto”. Lenin recomendou substituí-lo por um companheiro “mais tolerante, mais leal, mais educado e mais atento aos camaradas”.
Depois da morte, Lenin foi embalsado. Seu cadáver está em exposição num mausoléu na Praça Vermelha, em Moscou. Em 1924, a cidade de Petrogrado foi rebatizada como Leningrado.

PRIMEIRA TROIKA

Com a doença de Lenin, no 12º Congresso do PC, em 1923, é formada a primeira troika, um modelo de liderança tripartite semelhante aos triunviratos da Roma Antiga, desta vez com Stalin, Kamenev e Zinoviev. Os trotskistas tiveram atuação discreta e formaram a Oposição de Esquerda.
Favorável à revolução mundial, Trotsky pediu autorização para participar de uma rebelião na Alemanha no fim de 1923. Stalin negou. Se Trotsky fosse preso ou morto, criaria uma séria crise diplomática para o governo soviético. Se voltasse vitorioso, sua força na disputa política interna se tornaria irresistível.

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