Pela primeira vez desde 1972, não há nenhum acordo nuclear em vigor entre as superpotências. O Novo Tratado de Redução de Armas Estratégicos (Novo START ou START-3), assinado em 2010 pelos presidentes dos Estados Unidos, Barack Obama, e da Rússia, Dimitri Medvedev, expirou hoje.
Este acordo foi prorrogado por cinco anos em 2021, por iniciativa do então presidente norte-americano, Joe Biden, para dar tempo a uma negociação. Agora, o ditador russo, Vladimir Putin, propôs uma extensão informal por mais um ano. O presidente Donald Trump declarou que prefere negociar um acordo "melhor".
O acordo mais antigo era o Tratado sobre Mísseis Antibalísticos (ABM, do inglês), assinado em 1972 pelo presidente Richard Nixon e o líder soviético Leonid Brejnev, para proibir o desenvolvimento e instalação de mísseis antimísseis, de defesa. Era conhecido como MAD, que significa louco em inglês e, no caso, Destruição Mutuamente Assegurada. Criou o equilíbrio do terror nuclear.
Em 2002, o presidente George Walker Bush retirou os EUA do ABM sob a alegação de ameaças a aliados dos EUA, citando o Irã, que acusara de fazer parte de um "eixo do mal" junto com o Iraque e a Coreia do Norte. Quando invadiu o Iraque, em 20 de março de 2003, a Coreia do Norte e o Irã aceleraram seus programas nucleares.
Em 8 de dezembro de 1987, o presidente Ronald Reagan e o líder soviético Mikhail Gorbachev, assinaram o primeiro acordo que abolia toda uma classe de armas atômicas. O Tratado sobre Forças Nucleares Intermediárias (INF) extinguiu os mísseis nucleares baseados em terra com alcance de 500 a 5,5 mil quilômetros.
Trump tirou os EUA do INF em 2 de fevereiro de 2019, sob a alegação de que a Rússia teria violado o acordo ao desenvolver um novo míssil, 9M729, chamado pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a aliança militar ocidental, de SSC-8.
O Tratado sobre Forças Convencionais na Europa (CFE) foi assinado em Paris em 19 de novembro de 1990 entre a OTAN e o Pacto de Varsóvia, a aliança militar do Bloco Soviético.
Putin anunciou que a Rússia não cumpriria mais o acordo em 2007 e saiu formalmente em 7 de novembro de 2023, oito meses e meio depois da invasão da Ucrânia. O acordo não permitiria a concentração de 200 mil soldados russos junto à fronteira ucraniana como Putin ordenou ao preparar a invasão de 24 de fevereiro de 2022, um marco importante no aumento do risco nuclear.
A Rússia e os EUA têm mais de 5 mil ogivas nucleares cada. O START-3 permitia que cada superpotência tivesse até 1.550 ogivas em condições operacionais, mais do que suficientes para extinguir a espécie humana.
Uma das dificuldades para uma nova negociação é que a China, vista hoje pelos EUA como a maior inimiga, precisa ser incluída. O regime comunista chinês tem hoje 600 ogivas nucleares e planos para chegar a mil. É a terceira maior potência nuclear.
Logo atrás, vem a França, com 290 ogivas, e o Reino Unido, com 255, nem todas em condições operacionais. Com a invasão da Ucrânia pela Rússia e a ameaça de Trump de não socorrer os aliados europeus em caso de guerra, a Europa está se rearmando.
Se Trump mantivesse o compromisso com a OTAN, não precisaria tomar a Groenlândia como vem ameaçando. Poderia negociar com a Dinamarca a instalação de bases militares na ilha. A ocupação da Groenlândia destruiria a OTAN, cujo princípio básico é que um ataque contra é um ataque contra todos.
Essas cinco grandes potências com direito de veto na Organização das Nações Unidas são os únicos países com direito de possuir armas atômicas com base no Tratado de Não Proliferação Nuclear (NPT), de 1968. Mas não são as únicas.
A Índia e o Paquistão, inimigos históricos, desenvolvem armas nucleares desde os anos 1970. Em maio de 1998, assumiram o status de potências nucleares ao testar armas atômicas. Cada um tem pouco mais de 150 ogivas nucleares.
Israel nunca admitiu publicamente ser uma potência nuclear, mas tem a bomba atômica desde 1966 ou 1967. Teria hoje cerca de 90 ogivas nucleares.
A Coreia do Norte fez em 2006 seu primeiro teste nuclear de um total de seis até hoje. O ditador Kim Jong Un sucedeu o pai, Kim Jong Il, que explodiu a bomba, em dezembro de 2011, pouco depois da morte do ditador da Líbia, Muamar Kadafi, que abrira mão de suas armas de destruição em massa num acordo com o Ocidente em 2003. O terceiro Kim aposta nas armas nucleares como garantia de sobrevivência de seu regime, um dos mais fechados do mundo.
No seu primeiro governo, Trump encontrou Kim Jong Un três vezes depois de se ameaçarem com bombardeios nucleares, mas as negociações não evoluíram e a Coreia do Norte se aproximou da Rússia, enviando inclusive soldados para lutar ao lado das forças russas na guerra contra a Ucrânia.
O objetivo dessas negociações seria acabar com o programa nuclear da Coreia do Norte, que provavelmente exigiria em troca a retirada das forças que os EUA mantêm na Coreia do Sul desde a Guerra da Coreia (1950-53), na última fronteira da Guerra Fria. Pela estimativa do Instituto Internacional de Estudos da Paz de Estocolmo (SIPRI), a Coreia do Norte tem pelo menos 50 ogivas nucleares e urânio enriquecido e plutônio suficientes para chegar a 70 a 90 ogivas.
Outro foco de tensão nuclear é o Irã, que iniciou o programa nuclear em 1975, durante o regime do xá Reza Pahlevi, em princípio para geração de energia para fins pacíficos. O Supremo Líder da Revolução Iraniana, aiatolá Ruhollah Khomeini, considerava a bomba uma arma não islâmica porque matar inocentes. Em 1987, durante bombardeios a cidades durante a Guerra Irã-Iraque (1980-88).
Em 2015, o governo Barack Obama (2009-17), as grandes potências do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha negociaram o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), um acordo para congelar por 10 anos o programa nuclear iraniano na expectativa de no fim desse prazo o regime iraniano fosse menos extremista.
Sob pressão de Israel, Trump retirou os EUA do acordo em 8 de maio de 2018, ironicamente o Dia da Vitória na Europa na Segunda Guerra Mundial (1939-45) sob o argumento de que o acordo se baseava "numa grande ficção, que um regime assassino desejava um programa nuclear pacífico".
Em 22 de julho de 2025, os EUA fizeram um grande bombardeio às principais instalações nucleares do Irã. Trump declarou que o programa nuclear iraniano estava erradicado, mas ninguém acredito nisso. Caminhões foram vistos ao redor dos alvos antes do ataque, provavelmente para retirar o material nuclear. E a tecnologia, o conhecimento sobre como fazer a bomba, não pode ser destruída com ataques.
Neste momento, os EUA concentram uma grande frota de guerra perto do Irã e pressionam o regime a fazer um novo acordo que inclua o abandono do programa de armas atômicas, limites ao desenvolvimento de mísseis e o fim do apoio a milícias no Oriente Médio. O Irã só aceita negociar a questão nuclear.
A realidade é que o mundo se tornou um lugar mais perigoso desde a invasão da Ucrânia e muito mais a partir de hoje. O Relógio do Juízo Final, criado em 1947 pelo Boletim de Cientistas Nucleares, está mais perto do que nunca da meia-noite, a um minuto e 25 segundos da hora fatal.




























