quarta-feira, 13 de junho de 2018

RÚSSIA: um país de origem viking nascido em Kiev

Duas particularidades marcam a história da Rússia e desafiam o discurso ultranacionalista da extrema direita: o país tem origem viking, escandinava, e nasceu em Kiev, hoje a capital da Ucrânia - o que ao mesmo tempo reforça a visão nacionalista de que a Ucrânia é parte da Rússia.

Na Pré-História, as enormes estepes do Sul da Rússia era habitadas por tribos nômades pastoris.
Os primeiros vestígios humanos encontrados em território da Rússia foram restos do Homem de Denissova, encontrados na caverna de Denissova, na Sibéria, onde ele viveu há 41 mil anos.
Outras ossadas, de 35 mil anos atrás, foram descobertas no vale do Rio Don.
Na Antiguidade clássica, a região oeste das estepes era conhecida como Cítia, onde moravam os citas, um povo de origem iraniana mencionado pela primeira vez em 700 antes de Cristo. Os comerciantes gregos chegavam até seus limites.
O Império Romano, em sua maior extensão, sob o imperador Trajano, em 119 depois de Cristo, chegou à margem ocidental do Mar Cáspio.
Com a queda do Império Romano do Ocidente, em 476 DC, entre os séculos 3 e 6, o Reino do Bósforo  sucedeu às colônias gregas, mas foi esmagado pela invasão de tribos bárbaras como os hunos, os ávaros, os godos e os magiares.
A partir do século 7, os casares, um povo de origem turca, penetraram na bacia do Rio Volga e ocuparam as estepes entre os mares Negro e Cáspio, dominando a região até o século 10.
Os russos, os bielorrussos e os ucranianos são descendentes das tribos eslavas do Leste que se espalharam pela vasta região que vai do Mar Báltico, no Norte, até o Mar Negro, no Sul, entre os século 3 e 9 DC. 

RUS

O nome Rússia vem de Rus, nome de um povo e de um principado medieval fundado pelos eslavos do Leste, também conhecido como Rus de Kiev, Rússia Kievana ou Principado de Kiev. Em latim, na Idade Média, usava-se Rutênia, aplicada às regiões oeste e sul da Rússia Kievana.
Rus vem do povo rus, nome que os varegues, vikings de origem sueca, davam aos povos que combatiam e aos quais acabaram se integrando. Quando venciam seus inimigos e os escravizavam, os chamavam de slavs, escravos, Assim, as palavras russo e eslavo teriam sido criadas pelos escandinavos.

VIKINGS

Durante séculos, historiadores nacionalistas russos tentaram negar que a Rússia Kievana tenha sido fundada por vikings da Escandinávia. Seria um insulto e uma admissão de incapacidade de criar seu próprio governo.
O povo rus teria encaminhado uma petição a um líder varegue: “Nossa terra é rica, mas não tem ordem”.  Esse apelo foi lembrado muitas vezes para justificar a necessidade de autoritarismo para governar um país tão grande como a Rússia.
A luta para apresentar o Principado de Kiev como um Estado de origem eslava é uma manifestação do complexo de inferioridade da Rússia em relação ao Ocidente, o medo de ser vista como bárbara, capaz de se impor somente pela força.
Esta é uma das grandes controvérsias históricas da fundação da Rússia: o primeiro Estado russo foi criado por vikings da Escandinávia.

UCRÂNIA

A segunda é a relação entre a Rússia e a Ucrânia, que se tornou importante na era pós-soviética, quando a Ucrânia se tornou independente depois de 337 anos de uma união formal com a Rússia, desde 1654. 
Se a Rússia Kievana era um Estado russo, com capital em Kiev, a Ucrânia deveria ser parte da Rússia e não um país independente, alegam os nacionalistas russos e os saudosistas que não se conformam com o fim da URSS. 
Isso foi decisivo para a decisão de Putin de anexar a Península da Crimeia e de fomentar uma rebelião no Leste da Ucrânia, em 2014. A Crimeia foi cedida pela Rússia à Ucrânia em 1954, no aniversário de 300 anos da união dos dois países, pelo então secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, o ucraniano Nikita Kruschev. Ninguém imaginava na época que a URSS se dissolveria.

RÚSSIA KIEVANA

A Rússia Kievana ficava na rota comercial entre a Escandinávia e o Mar Negro.
De acordo com A Crônica Primária, um livro da época, em 862, o chefe varegue Rurik foi indicado príncipe de Novgorod. Em 882, seu sucessor, Oleg, marchou para o sul e conquistou Kiev.

CRISTIANISMO

Depois de mandar emissários entrar em contato com os líderes de várias religiões, em 987, impressionado com os relatos da viagem a Constantinopla, a capital do Império Bizantino, Vladimir I, o Grande, príncipe de Kiev, decidiu aderir à Igreja Cristã Ortodoxa.
Vladimir teria rejeitado o judaísmo sob o argumento de que Deus não gostava dos judeus e o islamismo porque os russos não conseguiriam viver sem álcool. 
De volta a Kiev, já em 988, Vladimir promoveu um batismo coletivo no Rio Dniestre que marca a conversão da Rússia Kievana ao cristianismo, declarado religião oficial do principado no primeiro documento escrito da História da Rússia. 
Os reinados de Vladimir I, o Grande (980-1015), e de seu filho Yaroslav I, o Sábio (1019-54) foram a idade de ouro da Rússia Kievana. Sua decadência começa com a 1ª Cruzada (1096-99) dos reinos católicos europeus para tomar Jerusalém, ocupada pelos muçulmanos, o que altera as rotas comerciais.
Nos séculos 11 e 12, os constantes ataques de tribos turcas pressionaram as populações eslavas, que migraram para regiões mais densamente florestadas ao norte.
O feudalismo e a descentralização foram fontes de conflitos seguidos da Dinastia Rurik, que reinou sobre partes da Rússia até 1598.

HORDA DOURADA  

Antes, a Rússia Kievana se desintegrou diante da invasão mongol, que começa com a Batalha do Rio Kalka, em 1223, contra um destacamento avançado do exército de Gengis Khan, e se completa com uma ação em grande escala de 1236 a 1240, com 150 mil arqueiros montados sob o comando de Batu Khan.
O guerreiro mongol era o mais formidável combatente da época, um excelente cavaleiro armado com uma lança, um sabre, uma adaga, um arco e duas bolsas para carregar flechas. 
Kiev foi destruída e a metade da população russa morreu. Só Novgorod e Piskov escaparam. Todos os Estados russos se submeteram ao Império Mongol. Em 1241, a Horda Dourada, como era chamado o exército mongol, baseado na cavalaria, invadiu a Polônia, a Romênia e a Hungria.

IMPÉRIO MONGOL

Os mongóis estabeleceram sua capital em Sarai, no baixo Volga, perto do Mar Cáspio. Ao contrário do que fizeram na China e na Pérsia, o domínio mongol sobre os principados russos foi indireto.
Os príncipes eram responsáveis pela administração local e pagavam impostos ao Império Mongol. Fizeram uma aliança defensiva com a Horda para repetir os ataques dos suecos e dos Cavaleiros Teutônicos.
Em 1240, Alexandre Nevsky, príncipe de Novgorod, derrotou uma invasão de suecos e, em 1241, derrotou a Ordem dos Cavaleiros Teutônicosna Batalha do Gelo, impedindo-os de colonizar o Norte da Rússia Kievana. Essas guerras são tema do filme Alexander Nevsky, do cineasta revolucionário Serguei Eisenstein.
Ao mesmo tempo, a proximidade da Horda era sempre um risco de invasões esmagadoras, com destruição, saques e um sofrimento incalculável. 
O Império Mongol foi o segundo maior da História, depois do Império Britânico , dominando sob Kublai Khan, o quinto Grande Khan, uma área de 24 milhões de quilômetros quadrados, quase três vezes o tamanho do Brasil.

GRÃO-DUCADO DE MOSCOU

A destruição de Kiev empurrou a Rússia mais para o norte. O principal sucessor da Rússia Kievana foi o Grão-Ducado de Moscou, novo centro de gravidade da cultura russa.
O príncipe Daniel I, filho de Alexandre Nevski,herdou a cidade em 1283. Em 1300, eram 20 mil km2; em 1533, 2,8 milhões de km2 e, em 1584, 5,4 milhões.
Moscou foi subordinada ao Império Mongol até 1480. Em 1478, derrotou e anexou Novgorod. Em 1485, absorveu o Grão-Ducado de Tver.

3 comentários:

Ricardo pereira da costa disse...

Legal! Aprendi um pouco mais lendo este post.

Júlio César Pedrosa disse...

Muito bom artigo! :)

Nelson Franco Jobim disse...

Obrigado!