O Departamento de Estado solicitou o envio de fuzileiros navais para proteger a representação diplomática dos Estados Unidos em Taiwan, a ilha que a República Popular da China considera uma província rebelde, revelou hoje a rede de televisão americana CNN.
A presença de fuzileiros navais americanos em Taiwan certamente será considerada em Beijim como um desafio ao regime comunista chinês. Será mais um ponto de atrito entre a China e os EUA, ao lado dos conflitos comerciais, da Coreia do Norte e do Mar do Sul da China.
Taiwan é a ilha para onde os nacionalistas comandados por Chiang Kai-shek fugiram quando a revolução comunista liderada por Mao Tsé-tung tomou o poder, em 1º de outubro de 1949, criando na prática duas chinas com a República da China em Taiwan.
O regime comunista sempre adotou a política de que só existe uma China. Quando os EUA se reaproximaram da China com as visitas do assessor de segurança nacional Henry Kissinger, em 1971, e do presidente Richard Nixon, em 1972, Mao condicionou o estabelecimento de relações diplomáticas com os EUA ao rompimento dos EUA com Taiwan. O regime exige o mesmo de todo país que quiser manter relações com a China.
A República Popular da China também tomou de Taiwan a vaga da China como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, em 1971.
Quando um partido favorável à independência estava prestes a vencer a eleição presidencial de 1996 em Taiwan, a China fez testes de mísseis ameaçadores. O então presidente americano, Bill Clinton, mandou uma força-tarefa de porta-aviões para o Estreito de Taiwan, de 180 quilômetros, que separa a ilha da China continental.
A China considerou uma humilhação. Desde aquela época, desenvolveu sistemas de mísseis, satélites e porta-aviões para desafiar a supremacia militar dos EUA no Leste de Ásia, que vem desde a Segunda Guerra Mundial.
Em Taiwan, com a democratização do país, as novas gerações têm um desejo crescente pela independência, considerada totalmente inaceitável pela ditadura comunista chinesa.
O Kuomintang (KMT), o partido de Chiang Kai-shek, que governou Taiwan na maior parte de sua história de relativa independência adota a política dos três nãos: não à unificação, não à independência e não à guerra. Defende a manutenção do status quo ambíguo, como quer a o regime comunista chinês, apostando numa reunificação até 2050.
Com a volta do Partido Democrático Progressista (PDP) ao poder, em 2016, aumenta a inquietação em Beijim sobre a independência de Taiwan. Há décadas, o regime comunista tenta controlar a ilha rebelde com um misto de intimidação militar e incentivos econômicos. Recentemente, aumentou a pressão militar.
Ao chegar à Casa Branca, o presidente Donald Trump, que não respeita protocolos nem políticas que não lhe agradem, recebeu cumprimentos pelo telefone da presidente taiwanesa, Tsai Ing-wen, para revolta da China. Foi a primeira vez que isto aconteceu desde o reatamento oficial entre os dois países, em 1978.
Como a estratégia de negociações de Trump é desestabilizar a outra parte, Taiwan volta a ser uma carta importante na disputa geopolítica entre os EUA e a China, que cada vez mais constrói uma máquina de guerra à altura do seu crescente poderio econômico e quer acabar com a hegemonia americana no Leste da Ásia.
Os EUA têm vários aliados ao redor da China, o Japão, a Coreia do Sul, as Filipinas e a Tailândia. Com Taiwan, assumiu o compromisso de garantir a segurança da ilha. Está reforçando a cooperação militar com a Índia, a Indonésia e o Vietnã. Se tivesse o controle de Taiwan, o regime comunista chinês teria acesso desimpedido ao Oceano Pacífico.
Sem uma declaração de independência de Taiwan, é improvável que a China invada Taiwan antes de 2030, quando terá acumulado grande poderio militar. A reunificação continuará sendo um objetivo central do regime comunista, mas ele deve seguir, ao menos por enquanto, as lições de Sun Tzu no clássico A Arte da Guerra: a maior vitória é derrotar o inimigo fora do campo de batalha, sem disparar um tiro.
Este é o blog do jornalista Nelson Franco Jobim, Mestre em Relações Internacionais pela London School of Economics, ex-correspondente do Jornal do Brasil em Londres, ex-editor internacional do Jornal da Globo, do Jornal Nacional e da TV Brasil, ex-professor de jornalismo e de relações internacionais na UniverCidade, no Rio de Janeiro. Todos os comentários, críticas e sugestões são bem-vindos, mas não serão publicadas mensagens discriminatórias, racistas, sexistas ou com ofensas pessoais.
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sexta-feira, 29 de junho de 2018
Departamento de Estado pede fuzileiros navais em Taiwan
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quarta-feira, 25 de abril de 2012
Crise mudou o mundo mas não há bússola
A economia mundial mudou com a crise, acentuando o declínio relativo do Ocidente rico e do Japão, que marcam passo, enquanto assistimos à ascensão da Ásia. O Brasil surfa na onda do desenvolvimento da China, mas mantém uma relação neocolonial com a superpotência emergente.
Mais cedo ou mais tarde, as maiores economias do mundo, que são União Europeia e Estados Unidos, voltarão a crescer. São os maiores mercados do mundo. Não podem ser desprezados. Basta ver os resultados da Apple.
A inovação e a criatividade, as revoluções industriais em andamento, da informática e da biotecnologia, ainda são lideradas pelos EUA. Os produtos da Apple são projetados em Cupertino, na Califórnia, e montados na China.
Quem fica com a maior parte do dinheiro? A Apple de Cupertino, que faz o design e o software, o segredo do sucesso da empresa. Em segundo lugar, empresas da Coreia do Sul ou de Taiwan que fazem as telas. Depois, a China. Com as margens de lucro cobradas no Brasil, o comércio daqui deve ganhar mais do que os chineses. A Foxconn, acusada de superexplorar seus empregados, é taiwanesa.
A crise colocou em cheque as ideias do internacionalismo liberal que dominou a era de supremacia dos EUA no mundo pós-Guerra Fria, mas não há bússola.
O liberalismo anglo-americano é visto como o grande vilão da crise. A UE, o grande modelo de uma sociedade pós-nacional que decidiu solucionar seus conflitos pacificamente, vive a maior crise de sua história.
O modelo chinês pode agradar ditadores da África ou os últimos regimes comunistas, como Cuba e a Coreia do Norte, em busca de uma saída honrosa. As impressionantes ascensão e queda de Bo Xilai mostraram a verdadeira natureza do regime. Os chamados princepezinhos, filhos de heróis da revolução, tudo podem. Usam suas conexões pessoais e partidárias para subir na vida e acumular fortunas.
A famiglia Bo tinha ou tem ainda US$ 160 milhões. Ele está sendo execrado como uma exceção, mas basta ver a biografia de Xi Jinping, o futuro líder e presidente, para observar que ele subiu na vida graças ao amigos de seu pai. Pode-se dizer o mesmo de George W. Bush, mas devemos lembrar que ele foi uma desgraça para seu país e para o mundo.
Agora, a ditadura chinesa faz uma política de redução e controle dos danos, censurando a discussão na Internet do escândalo político, do maior expurgo desde a queda do secretário-geral Zhao Ziyang por ser contra usar o Exército contra os estudantes acampados na Praça da Paz Celestial. Naquela época, ganhou a linha dura; agora, caiu a estrela em ascensão da linha dura.
Nos blogues de esquerda, há um discurso de que ao resgatar o maoísmo Bo estava se insurgindo contra a expansão do capitalismo na China, contra as reformas necessárias para tornar o yuan moeda conversível, um grande passo na ascensão da China como potência capitalista dentro do que chamam de globalização neoliberal. É o debate interno do PC chinês vazando.
Nenhum país rico, nenhuma classe média ascendente que lutou para chegar onde está, está disposta a ser governada por mafiosos. Sem um mínimo de transparência e regras claras para ascensão ao poder e para as transições, a sociedade é refém dos nove imperadores que compõem o Comitê Permamente do Politburo. Até quando?
Sem democracia, será impossível libertar o potencial de criatividade de uma das culturas mais antigas da humanidade para que a China possa se desenvolver plenamente no século 21. O regime insiste em se perpetuar. Teme, acima de tudo, crises econômicas.
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
O Império contra-ataca?
Muito pobre o argumento do prof. José Luís Fiori em Eleições e escolhas estratégicas (Valor, 7/11/2007) afirmando que “a nova doutrina estratégica, de tipo imperial”, dos Estados Unidos teria sido formulada pelo presidente George Herbert Walker Bush, pai do atual presidente americano, nada tendo a ver com o Bush atual e os atentados de 11 de setembro de 2001.
Já em 1990, Bush, pai, teria adotado “uma política internacional preventiva de contenção universal para impedir o aparecimento de novas potências capazes de rivalizar com os americanos depois do desaparecimento da União Soviética”.
Há um equívoco fundamental nesta alegação. Ela ignora um princípio básico das relações internacionais que vem desde a Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta, na Grécia Antiga: toda potência dominante tenta manter seu diferencial de poder em relação às outras. É da natureza humana que pessoas, empresas ou países que estejam numa posição superior usem seu poder para se manter no topo.
Foi por isso que os EUA ameaçaram invadir Cuba e provocar uma guerra nuclear quando descobriram mísseis soviéticos na ilha, em 14 de outubro de 1962. Os americanos haviam sido surpreendidos pelo vôo espacial do Sputnik, em 4 de outubro de 1957, que mostra que os soviéticos poderiam levar uma bomba atômica ao território americano sem usar aviões que pudessem ser abatidos no caminho.
Com os mísseis em Cuba, a URSS teria condições de lançar um primeiro ataque, neutralizando a superioridade que os EUA haviam conquistado, já em 1962, em mísseis nucleares estratégicos, aqueles capazes de atingir o território inimigo.
GUERRA NAS ESTRELAS
Da mesma forma, por que o presidente Ronald Reagan (1981-89) gastou US$ 2 trilhões em armas e lançou a Iniciativa de Defesa Estratégica, mais conhecida como Guerra nas Estrelas? Para pressionar a URSS, que não tinha mais recursos econômicos e tecnológicos para competir com os EUA.
Se o escudo antimísseis que Bush, filho, tenta implantar agora, sob protesto da Rússia, que acaba de denunciar o Tratado sobre Forças Convencionais na Europa, um dos marcos do fim da Guerra Fria, para reafirmar seu poder imperial, os EUA teriam uma clara superiodade estratégica.
Outro argumento duplamento falacioso é que o bombardeio “teleguiado” a Bagdá na primeira Guerra do Golfo, em 1991, teve papel semelhante ao bombardeio a Hiroxima e Nagasaque em 1945, ao apresentar ao mundo “o novo arsenal e a nova estratégia americana”, definindo “uma nova hierarquia de poder dentro do sistema internacional depois do fim da Guerra Fria”.
Em primeiro lugar, o Iraque foi atacado por ter invadido e anexado o Kuwait, na primeira vez em que um país-membro das Nações Unidas declarou que outro não tinha o direito a uma existência independente, numa guerra de conquista proibida pela Carta da ONU. Quem começou a guerra foi Saddam Hussein, não os EUA.
Os EUA, ainda traumatizados pela derrota no Vietnã, adotaram na época a Doutrina Colin Powell: para limitar a duração da guerra e evitar a morte de soldados americanos, usaram de força máxima, com a exceção de armas nucleares.
Bush, pai, estava mais preocupados com as conseqüências da guerra para sua reeleição do que em comprovar uma superioridade militar incontestável depois do colapso do comunismo.
Em segundo lugar, as bombas de Hiroxima e Nagasaque tiveram como objetivo central forçar a rendição incondicional do Japão, que atacaram a frota americana em Pearl Harbor, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941.
Os EUA não estavam dispostos a aceitar nada além da rendição incondicional do Japão e quem viu os filmes recentes sobre a Batalha de Ivo Jima pode imaginar o custo em vidas americanas de uma invasão do Japão. Mas é mais fácil, num raciocínio simplista e antiamericano, sustentar que tudo não passou de uma demonstração de força.
GLOBALIZAÇÃO
É fácil falar em “utopia da globalização, com sua crença no fim das fronteiras, da guerra e da própria história”. Mas não passa de uma grosseira generalização. Alguém ouviu falar no fim das fronteiras dos EUA?
Bill Clinton (1993-2001) teria levado à frente a doutrina estratégia que Fiori atribui a Bush, pai, apesar da retórica liberal e multilateralista”, quando na verdade é o que toda grande potência tenta fazer desde Atenas e Esparta: manter-se no topo.
Para Clinton, o multilateralismo é a melhor maneira de servir os interesses americanos. Não há nenhum altruísmo nisso. Para Bush, filho, e os conservadores do Partido Republicano, o multilateralismo manietava a política externa americana.
Em seguida, Fiori afirma que, nos oito anos de governo Clinton, os EUA fizeram inúmeras intervenções militares ao redor do mundo”. Onde? Para a Somália, foi o pai de Bush que mandou tropas por razões humanitárias, sem armamento suficiente para se defender dos senhores da guerra somalianos. Os EUA não intervieram no genocídio em Ruanda e só entraram nas guerras que destruíram a antiga Iugoslávia pela absoluta incapacidade da União Européia de resolver a questão.
Na visão de Bush, pai, as guerras nos Bálcãs eram um problema europeu que poderia atrapalhar sua reeleição. Deveria ser resolvido pela UE, que fracassou no primeiro teste da política externa e de segurança comum aprovada no Tratado de Maastricht, em 1991.
Clinton também hesitou em se envolver. Só usou a Otan para romper o bloqueio sérvio a Sarajevo, na Bósnia-Herzegovina, depois de incontáveis massacres e acordos de cessar-fogo violados. A intervenção foi muito mais uma reação do que uma iniciativa dos Estados Unidos.
Fiori diz que foi “um movimento de ocupação que começou pelo Báltico, atravessou a Europa Central, Ucrânia e a Bielorrússia”, e teria chegado até o Paquistão, como se o Paquistão não tivesse sido um dos principais aliados dos EUA no fim da Guerra Fria, especialmente no apoio aos guerrilheiros muçulmanos que fizeram do Afeganistão o Vietnã da Rússia.
A Bielorrússia é a última ditadura stalinista na Europa. Não entrou para a órbita americana. Na Ucrânia, houve uma revolução democrática em 2004, com o apoio da Europa e dos EUA.
Os países bálticos e da Europa Central, historicamente espremidos entre a Alemanha e a Rússia ou União Soviética recorreram aos EUA para proteger sua independência reconquistada. É óbvio que isso era de interesse dos EUA, mas também dos pequenos países interessados na aliança com os EUA, como vimos no apoio que deram à guerra no Iraque.
O autor cita 750 bases e meio milhão de soldados americanos no exterior. Mas o contingente total das Forças Armadas dos EUA diminuiu na era pós-Guerra Fria. Atolados no Iraque, no momento, os EUA teriam dificuldades de travar uma nova guerra regional. Tem problemas mesmo para manter os atuais 160 mil soldados que têm no Iraque até o final do governo Bush, mesmo que os últimos dados sobre o número de mortos sugiram que o reforço ordenado no início do ano está dando resultado.
FIM DA HEGEMONIA
As dificuldades no Iraque e no Afeganistão não são um sinal do fim da hegemonia americana. Essa hegemonia acabou quando o presidente Richard Nixon (1969-74) acabou com o padrão-dólar para deixar o dólar flutuar. Desde então, em questões econômicas, os EUA são obrigados a negociar com a Europa e o Japão, e mais recentemente também com a China.
Houve até uma imagem simbólica, de Bush, pai, desmaiando no colo dos japoneses em 1991. A adesão dos EUA ao regionalismo econômico, ao assinarem um acordo de livre comércio com o Canadá, em 1988, foi outro sinal do fim da hegemonia americana. Uma potência hegemônica quer negociar com o mundo inteiro. Não precisa se proteger atrás de acordos regionais de comércio.
Há uma supremacia militar americana decorrente da vitória na Guerra Fria. Mas não serviu, pelo menos até agora, nem para impor a paz que os EUA queriam no Iraque.
Que hegemonia é essa, se os EUA não podem “mais seguir à frente com sua estratégia global sem contar, pelo menos, com uma parceria chinesa”? Não é hegemonia.
Sob a presidência de Vladimir Putin, a Rússia, enriquecida pela alta nos preços do petróleo, reafirma agressivamente seu poder imperial, tentando recriar o “império interior soviético” através dos laços econômicos que mantinham a dependência das demais repúblicas soviéticas em relação a Moscou.
O projeto alemão, por sua vez, está firmemente ancorado na UE, e inclui o fortalecimento das relações com a Rússia. Desde o fim da Guerra Fria, a Alemanha tornou-se a principal investidora no Leste Europeu. Mas, do ponto de vista geoestratégico, Polônia, República Tcheca e Hungria privilegiam suas relações com os EUA para se proteger dos vizinhos poderosos.
Qual a conclusão do professor de economia da UFRJ ao analisar as políticas externas dos candidatos à Presidência dos EUA em 2008? “A velha estratégia imperial continua de pé.
O que Fiori queria? Que os americanos dissessem: já mandamos no mundo durante muito tempo, agora estamos voltando para casa. A volta de uma diplomacia multilaterialista é reflexo do fracasso do unilateralismo de Bush. Mas o objetivo, como não poderia deixar de ser, é defender os interesses e tentar manter a supremacia dos EUA.
Depois dos atentados de 11 de setembro, não é uma preocupação legítima dos candidatos à Casa Branca se preparar para “guerras assimétricas”. Já a criação de agências e brigadas civis para “reconstruir e administrar os territórios e os governos incorporados ou atingidos pelo poder americano” é uma conseqüência da guerra no Iraque.
Ao derrubar Saddam Hussein, os EUA destruíram o Estado iraquiano, causando caos e anarquia que levaram ao nível de violência a que assistimos nos últimos anos. A conclusão é simples: não basta ganhar a guerra militarmente; é preciso conquistar a paz.
Se a guerra, como disse o estrategista alemão Carl von Clausewitz, “a continuação da política por outros meios”, quando cessam os combates, volta a política tradicional. O país precisa ser pacificado, o que a ONU tem feito por todo o mundo desde 1945.
A realidade é simples: os EUA são o país mais poderoso do mundo mas sua hegemonia está em processo de erosão. Os atentados de 11 de setembro provocaram um renascimento do poder imperial enterrado nos pântanos do Vietnã. Mas o mundo não é regido por uma conspiração americana, a não ser para intelectuais em cujas cabeças o Muro de Berlim ainda não caiu. Eles insistem em ver o mundo sob o prisma do marxismo-leninismo. Só que esse prisma rachou e multiplica as falsas quimeras como numa sala cheia de espelhos.
Já em 1990, Bush, pai, teria adotado “uma política internacional preventiva de contenção universal para impedir o aparecimento de novas potências capazes de rivalizar com os americanos depois do desaparecimento da União Soviética”.
Há um equívoco fundamental nesta alegação. Ela ignora um princípio básico das relações internacionais que vem desde a Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta, na Grécia Antiga: toda potência dominante tenta manter seu diferencial de poder em relação às outras. É da natureza humana que pessoas, empresas ou países que estejam numa posição superior usem seu poder para se manter no topo.
Foi por isso que os EUA ameaçaram invadir Cuba e provocar uma guerra nuclear quando descobriram mísseis soviéticos na ilha, em 14 de outubro de 1962. Os americanos haviam sido surpreendidos pelo vôo espacial do Sputnik, em 4 de outubro de 1957, que mostra que os soviéticos poderiam levar uma bomba atômica ao território americano sem usar aviões que pudessem ser abatidos no caminho.
Com os mísseis em Cuba, a URSS teria condições de lançar um primeiro ataque, neutralizando a superioridade que os EUA haviam conquistado, já em 1962, em mísseis nucleares estratégicos, aqueles capazes de atingir o território inimigo.
GUERRA NAS ESTRELAS
Da mesma forma, por que o presidente Ronald Reagan (1981-89) gastou US$ 2 trilhões em armas e lançou a Iniciativa de Defesa Estratégica, mais conhecida como Guerra nas Estrelas? Para pressionar a URSS, que não tinha mais recursos econômicos e tecnológicos para competir com os EUA.
Se o escudo antimísseis que Bush, filho, tenta implantar agora, sob protesto da Rússia, que acaba de denunciar o Tratado sobre Forças Convencionais na Europa, um dos marcos do fim da Guerra Fria, para reafirmar seu poder imperial, os EUA teriam uma clara superiodade estratégica.
Outro argumento duplamento falacioso é que o bombardeio “teleguiado” a Bagdá na primeira Guerra do Golfo, em 1991, teve papel semelhante ao bombardeio a Hiroxima e Nagasaque em 1945, ao apresentar ao mundo “o novo arsenal e a nova estratégia americana”, definindo “uma nova hierarquia de poder dentro do sistema internacional depois do fim da Guerra Fria”.
Em primeiro lugar, o Iraque foi atacado por ter invadido e anexado o Kuwait, na primeira vez em que um país-membro das Nações Unidas declarou que outro não tinha o direito a uma existência independente, numa guerra de conquista proibida pela Carta da ONU. Quem começou a guerra foi Saddam Hussein, não os EUA.
Os EUA, ainda traumatizados pela derrota no Vietnã, adotaram na época a Doutrina Colin Powell: para limitar a duração da guerra e evitar a morte de soldados americanos, usaram de força máxima, com a exceção de armas nucleares.
Bush, pai, estava mais preocupados com as conseqüências da guerra para sua reeleição do que em comprovar uma superioridade militar incontestável depois do colapso do comunismo.
Em segundo lugar, as bombas de Hiroxima e Nagasaque tiveram como objetivo central forçar a rendição incondicional do Japão, que atacaram a frota americana em Pearl Harbor, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941.
Os EUA não estavam dispostos a aceitar nada além da rendição incondicional do Japão e quem viu os filmes recentes sobre a Batalha de Ivo Jima pode imaginar o custo em vidas americanas de uma invasão do Japão. Mas é mais fácil, num raciocínio simplista e antiamericano, sustentar que tudo não passou de uma demonstração de força.
GLOBALIZAÇÃO
É fácil falar em “utopia da globalização, com sua crença no fim das fronteiras, da guerra e da própria história”. Mas não passa de uma grosseira generalização. Alguém ouviu falar no fim das fronteiras dos EUA?
Bill Clinton (1993-2001) teria levado à frente a doutrina estratégia que Fiori atribui a Bush, pai, apesar da retórica liberal e multilateralista”, quando na verdade é o que toda grande potência tenta fazer desde Atenas e Esparta: manter-se no topo.
Para Clinton, o multilateralismo é a melhor maneira de servir os interesses americanos. Não há nenhum altruísmo nisso. Para Bush, filho, e os conservadores do Partido Republicano, o multilateralismo manietava a política externa americana.
Em seguida, Fiori afirma que, nos oito anos de governo Clinton, os EUA fizeram inúmeras intervenções militares ao redor do mundo”. Onde? Para a Somália, foi o pai de Bush que mandou tropas por razões humanitárias, sem armamento suficiente para se defender dos senhores da guerra somalianos. Os EUA não intervieram no genocídio em Ruanda e só entraram nas guerras que destruíram a antiga Iugoslávia pela absoluta incapacidade da União Européia de resolver a questão.
Na visão de Bush, pai, as guerras nos Bálcãs eram um problema europeu que poderia atrapalhar sua reeleição. Deveria ser resolvido pela UE, que fracassou no primeiro teste da política externa e de segurança comum aprovada no Tratado de Maastricht, em 1991.
Clinton também hesitou em se envolver. Só usou a Otan para romper o bloqueio sérvio a Sarajevo, na Bósnia-Herzegovina, depois de incontáveis massacres e acordos de cessar-fogo violados. A intervenção foi muito mais uma reação do que uma iniciativa dos Estados Unidos.
Fiori diz que foi “um movimento de ocupação que começou pelo Báltico, atravessou a Europa Central, Ucrânia e a Bielorrússia”, e teria chegado até o Paquistão, como se o Paquistão não tivesse sido um dos principais aliados dos EUA no fim da Guerra Fria, especialmente no apoio aos guerrilheiros muçulmanos que fizeram do Afeganistão o Vietnã da Rússia.
A Bielorrússia é a última ditadura stalinista na Europa. Não entrou para a órbita americana. Na Ucrânia, houve uma revolução democrática em 2004, com o apoio da Europa e dos EUA.
Os países bálticos e da Europa Central, historicamente espremidos entre a Alemanha e a Rússia ou União Soviética recorreram aos EUA para proteger sua independência reconquistada. É óbvio que isso era de interesse dos EUA, mas também dos pequenos países interessados na aliança com os EUA, como vimos no apoio que deram à guerra no Iraque.
O autor cita 750 bases e meio milhão de soldados americanos no exterior. Mas o contingente total das Forças Armadas dos EUA diminuiu na era pós-Guerra Fria. Atolados no Iraque, no momento, os EUA teriam dificuldades de travar uma nova guerra regional. Tem problemas mesmo para manter os atuais 160 mil soldados que têm no Iraque até o final do governo Bush, mesmo que os últimos dados sobre o número de mortos sugiram que o reforço ordenado no início do ano está dando resultado.
FIM DA HEGEMONIA
As dificuldades no Iraque e no Afeganistão não são um sinal do fim da hegemonia americana. Essa hegemonia acabou quando o presidente Richard Nixon (1969-74) acabou com o padrão-dólar para deixar o dólar flutuar. Desde então, em questões econômicas, os EUA são obrigados a negociar com a Europa e o Japão, e mais recentemente também com a China.
Houve até uma imagem simbólica, de Bush, pai, desmaiando no colo dos japoneses em 1991. A adesão dos EUA ao regionalismo econômico, ao assinarem um acordo de livre comércio com o Canadá, em 1988, foi outro sinal do fim da hegemonia americana. Uma potência hegemônica quer negociar com o mundo inteiro. Não precisa se proteger atrás de acordos regionais de comércio.
Há uma supremacia militar americana decorrente da vitória na Guerra Fria. Mas não serviu, pelo menos até agora, nem para impor a paz que os EUA queriam no Iraque.
Que hegemonia é essa, se os EUA não podem “mais seguir à frente com sua estratégia global sem contar, pelo menos, com uma parceria chinesa”? Não é hegemonia.
Sob a presidência de Vladimir Putin, a Rússia, enriquecida pela alta nos preços do petróleo, reafirma agressivamente seu poder imperial, tentando recriar o “império interior soviético” através dos laços econômicos que mantinham a dependência das demais repúblicas soviéticas em relação a Moscou.
O projeto alemão, por sua vez, está firmemente ancorado na UE, e inclui o fortalecimento das relações com a Rússia. Desde o fim da Guerra Fria, a Alemanha tornou-se a principal investidora no Leste Europeu. Mas, do ponto de vista geoestratégico, Polônia, República Tcheca e Hungria privilegiam suas relações com os EUA para se proteger dos vizinhos poderosos.
Qual a conclusão do professor de economia da UFRJ ao analisar as políticas externas dos candidatos à Presidência dos EUA em 2008? “A velha estratégia imperial continua de pé.
O que Fiori queria? Que os americanos dissessem: já mandamos no mundo durante muito tempo, agora estamos voltando para casa. A volta de uma diplomacia multilaterialista é reflexo do fracasso do unilateralismo de Bush. Mas o objetivo, como não poderia deixar de ser, é defender os interesses e tentar manter a supremacia dos EUA.
Depois dos atentados de 11 de setembro, não é uma preocupação legítima dos candidatos à Casa Branca se preparar para “guerras assimétricas”. Já a criação de agências e brigadas civis para “reconstruir e administrar os territórios e os governos incorporados ou atingidos pelo poder americano” é uma conseqüência da guerra no Iraque.
Ao derrubar Saddam Hussein, os EUA destruíram o Estado iraquiano, causando caos e anarquia que levaram ao nível de violência a que assistimos nos últimos anos. A conclusão é simples: não basta ganhar a guerra militarmente; é preciso conquistar a paz.
Se a guerra, como disse o estrategista alemão Carl von Clausewitz, “a continuação da política por outros meios”, quando cessam os combates, volta a política tradicional. O país precisa ser pacificado, o que a ONU tem feito por todo o mundo desde 1945.
A realidade é simples: os EUA são o país mais poderoso do mundo mas sua hegemonia está em processo de erosão. Os atentados de 11 de setembro provocaram um renascimento do poder imperial enterrado nos pântanos do Vietnã. Mas o mundo não é regido por uma conspiração americana, a não ser para intelectuais em cujas cabeças o Muro de Berlim ainda não caiu. Eles insistem em ver o mundo sob o prisma do marxismo-leninismo. Só que esse prisma rachou e multiplica as falsas quimeras como numa sala cheia de espelhos.
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