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domingo, 24 de junho de 2018

Mais de cem mil marcham em Londres por referendo sobre Brexit

Mais de 100 mil pessoas marcharam no Centro de Londres ontem, dois anos depois do plebiscito que aprovou a retirada do Reino Unido da União Europeia, para exigir a realização de uma segunda consulta popular quando estiver definido o acordo de separação do bloco europeu. A saída britânica (Brexit) terá de acontecer até 31 de março de 2019.

Com a economia em marcha lenta, a libra em queda e grandes empresas anunciando a intenção de deixar o país, vários deputados do Partido Trabalhista, um ex-assessor da primeira-ministra conservadora Margaret Thatcher e ativistas favoráveis à integração europeia se juntaram à multidão.

Militantes dos três maiores partidos britânicos, conservadores, trabalhistas e sociais-democratas, caminharam juntos pela avenida Whitehall. Houve gritos de "onde está Jeremy Corbyn?"

O líder trabalhista nunca foi um grande fã da UE. Acusado de omissão na campanha do plebiscito de 2016, Corbyn está no Oriente Médio visitando campos de refugiados palestinos, enquanto os judeus do Reino Unido denunciam o antissemitismo do partido.

A insatisfação popular com o andamento das negociações do divórcio da UE se soma à crescente pressão do empresariado para que o Reino Unido continue tendo acesso ao mercado comum europeu. Na semana passada, duas grandes empresas, a Airbus e a BMW, advertiram que vão reconsiderar seus investimentos no país dependendo do acesso que terão à Europa.

"Grandes companhias europeias que colocaram o Reino Unido em suas cadeias produtivas foram claras", observou o lorde conservador Michael Glendon. "Num mundo competitivo, qualquer movimento de bens que vá sofrer qualquer tipo de tarifação terá o custo cuidadosamente reavaliado."

Ao mesmo tempo, a ala antieuropeia mais linha-dura do Partido Conservador pressiona a primeira-ministra Theresa May a fazer planos de contingência para o caso de não haver acordo com a UE.

Seis ex-ministros, inclusive o ex-ministro das Finanças Nigel Lawson, deputados, economistas e líderes empresariais enviaram carta a May sob o argumento de que , "para ter uma alavancagem real nas negociações da Brexit", o Reino Unido deveria se reservar o direito de abandonar o diálogo sem um acerto e "pagar os 39 bilhões de libras que se ofereceu para pagar como parte do acordo de divórcio".

Neste sentido, o governo britânico deveria preparar sua máquina administrativa para operar o comércio exterior com base nas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), dando um sinal claro de estar pronto para manter suas relações comerciais mesmo fora do bloco europeu, segundo maior mercado do mundo, depois dos Estados Unidos.

A carta insiste que a economia britânica pode "florescer" mesmo sem um acordo de livre comércio por causa dos "benefícios" de sair da UE: "Isto vai dar ao ministro das Finanças ampla margem para aumentar o gasto público em serviços públicos prioritários como o NHS (Serviço Nacional de Saúde) enquanto reduz a elevada carga fiscal do Reino Unido."

O governo May afirma estar "confiante de conseguir um bom acordo que nos permita reassumir o controle sobre nosso dinheiro, nossas regras e nossas fronteiras".

Talvez esta seja a questão central. Para ficar no mercado comum europeu, o Reino Unido tem de aceitar a livre circulação de capitais, mercadorias e pessoas. Uma das principais causas da vitória da Brexit foi o repúdio à imigração de europeus de outros países do bloco, especialmente da Europa Oriental, a partir da adesão dos antigos países comunistas do Bloco Soviético, em 2004. Foi explorado numa campanha ultranacionalista com uma forte carga racista.

As regiões mais cosmopolitas, como Londres, Cambridge e Oxford, onde vivem mais estrangeiros proporcionalmente, votaram há dois anos a favor de ficar na UE. Os setores mais atrasados e retrógrados ganharam explorando o medo e fazendo falsas promessas, como aumentar substancialmente o orçamento para a saúde pública.

Agora, os defensores da participação do Reino Unido na UE exigem um segundo plebiscito ou um referendo sobre o acordo final do divórcio. Alegam que a campanha a favor da Brexit foi mentirosa, cheia de notícias falsas e que o verdadeiro impacto sobre o futuro do país só poderá ser avaliado quando os termos do acordo negociado com a Europa unida foram revelados.

domingo, 29 de abril de 2018

Total de mortos na revolta contra Ortega chega a 42 na Nicarágua

Centenas de milhares de pessoas marcharam hoje na capital da Nicarágua em protesto contra o presidente Daniel Ortega convocado pelo bispo auxiliar de Manágua, Silvio Báez. Com a morte de 42 pessoas nas manifestações iniciadas em 18 de abril, de acordo com o Centro Nicaraguense de Direitos Humanos, o movimento exige agora o fim do governo assassino, noticiou o jornal El País.

"Queremos paz! Queremos paz!", bradava a multidão ao seguir pela estrada para Masaya rumo à catedral metropolitana, onde houve um ato público. Além dos fiéis, participaram feministas, homossexuais, familiares de vítimas da repressão e camponeses que são contra a construção de um canal interoceânico pelo magnata chinês Wang Jing, que recebeu uma concessão do governo.

Os protestos começaram quando o governo anunciou um aumento das contribuições para a Previdência Social e uma redução de 5% nas pensões e aposentadorias. Quatro dias depois, no domingo, 22 de abril, Ortega recuou e revogou a reforma, mas, diante da violência repressão, o governo perdeu sua escassa legitimidade.

A cúpula da Igreja Católica critica o discurso oficial da vice-presidente Rosario Murillo, mulher de Ortega, acusando-a de manipular a religião com um discurso que se apresenta como "cristão, socialista e solidário", mas para a Igreja é uma mensagem "demoníaca, baseada na inveja e em todo o tipo de maldade".

Um dos nove de los nueve fidelitos, os comandantes da Revolução Sandinista, que derrubou o ditador Anastasio Somoza Debayle em 1979, Daniel Ortega Saavedra comandou a Nicarágua como líder da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) até ser derrotado por Violeta Chamorro em 1990, viúva do jornalista Pedro Joaquín Chamorro, assassinado por Somoza.

Desde que voltou ao poder pelo voto em 2007, em aliança com a velha oligarquia somozista e a Venezuela de Hugo Chavez, Ortega tratou de tomar conta da máquina do Estado para se eternizar no poder. Nas ruas hoje, é comparado a Somoza. É mais um líder da esquerda radical latino-americana que cai em desgraça.

"Bem-aventurados os que têm sede de justiça porque serão saciados!", declarou o cardeal Leopoldo Brenes ao iniciar a cerimônia. O ato foi sobretudo uma homenagem aos jovens assassinados nas últimas semanas pela polícia e por grupos paramilitares governistas.

O jornalista Miguel Angel Gahona foi morto com um tiro na cabeça quando transmitia uma manifestação ao vivo via Facebook na cidade litorânea de Bluefields, na costa atlântica.

A Igreja Católica convocou a manifestação deste domingo "para mostrar nossa fé e nosso amor pela Nicarágua", escreveu no Twitter o bispo auxiliar de Manágua. Num sinal de que rejeita concessões a Ortega, Silvio Báez acredita que "o caminho está aberto para construir de forma pacífica e cívica um novo país".

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Militares da Bolívia marcham contra baixos salários

Numa onda de transportes sem precedentes, militares do Exército, da Marinha e da Força Aérea da Bolívia protestaram hoje pelo terceiro dia consecutivo nas ruas de La Paz exigindo aumentos salariais e benefícios sociais. O movimento ainda é pequeno, mas revela desunião e insatisfação nas Forças Armadas seis meses antes da eleição presidencial de outubro de 2014.

Várias centenas de militares fizeram as primeiras marchas no dia 22 de abril em La Paz e Santa Cruz de la Sierra, e grupos menores nos departamentos (equivalentes aos estados no Brasil) de Beni, Chuquisaca, Potosí, Oruro e Tarija.

Os manifestantes exigem a reabilitação de quatro oficiais removidos de seus postos há três por liderar o movimento por salários maiores e melhoria nas condições de habitação, assistência médica, além de oportunidades para estudar e ascender dentro da carreira militar. Também querem uma lei para proibir a discriminação racial nas Forças Armadas da Bolívia.

A Bolívia tem uma história trágica marcada por 192 tentativas de golpe de Estado. Depois do sangrento golpe de 1982, naquele mesmo ano, com a redemocratização do país, foi eleito Hernán Siles Suazo, que não conseguiu completar o mandato por causa da quarta maior hiperinflação da história, de 27.000% ao ano.

No início do século 21, o esgotamento das políticas econômicas liberais usadas para controlar a inflação, que não produziram o desenvolvimento social prometido, levaram a uma onda de manifestações de protesto e à queda, em 2003, do presidente Gonzalo Sánchez de Losada, acusado de fazer um acordo com o Chile para vender gás boliviano para os Estados Unidos. O Chile é o inimigo histórico que tomou a saída da Bolívia para o mar, na Guerra do Pacífico (1879-83).

Desde então, o país viveu uma era de instabilidade até a eleição, em dezembro de 2005, de Evo Morales, o primeiro indígena a governar um país da América Latina desde Benito Juárez, no México (1858-64).

Aliado do então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, Morales estatizou o petróleo e o gás natural bolivianos, chegando a ocupar militarmente instalações da Petrobrás para isso, sem maior reação do governo brasileiro. Sem a riqueza do petróleo da Venezuela, Evo faz uma política econômica austera para manter o equilíbrio das contas públicas. Os militares estão cobrando sua parte.

Diante da repressão ao movimento, os manifestantes exigem a demissão do ministro da Defesa e dos comandantes das três armadas e a abertura de uma negociação direta com o presidente. Não há nenhum sinal de ameaça imediata a Morales, mas ele terá de dar uma resposta antes da eleição de outubro, quando será candidato à reeleição. Até agora, o governo se nega a iniciar um diálogo.