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sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Segunda onda da pandemia aumenta agitação social na Europa

A segunda onda da doença do coronavírus de 2019 vai aumentar a agitação social na Europa, prevê a empresa de consultoria e análise estratégica Stratfor. À medida que os países impõem novas restrições ao movimento e às atividades econômicas, crescem as manifestações de protesto contra o reconfinamento.

O ritmo de contaminação é muito mais forte do que na primeira onda. A mortalidade é menor, mas está em alta, assim como as hospitalizações. Se tudo der certo, o contágio cai em 2 a 4 semanas, os sistemas de saúde não serão sobrecarregados e as atividades econômicas serão retomadas gradualmente, com todos os cuidados necessários antes da chegada das vacina.

Se o reconfinamento parcial não der certo, os governos serão forçados a adotar medidas mais rigorosas e a tendência dos protestos será aumentar. Isso também vale para os Estados Unidos, que bateram um novo recorde, com mais de 163 mil casos novos na quinta-feira, dia 12. Meu comentário:

domingo, 25 de outubro de 2020

Chile vota para enterrar Constituição da ditadura militar

Por 78% a 22% dos votos, o Chile decidiu neste domingo redigir uma nova Constituição, enterrando a carta imposta em 1980 pela ditadura do general Augusto Pinochet (1973-90). A ordem econômica será um tema central do debate.

Por 79% a 21%, os eleitores chilenos optaram por uma Assembleia Constituinte exclusiva e paritária entre homens e mulheres, de 155 membros a serem eleitos em 11 de abril de 2021, em vez de uma comissão constitucional com metade dos membros eleita diretamente e outra pelo atual Congresso.

Mais de 7,4% chilenos votaram, cerca de metade do eleitorado apto a votar. Como o voto não é obrigatório no Chile, na última eleição presidencial, em 2017, 46,7% participaram no primeiro turno e 49% no segundo turno. Era, até agora, o maior comparecimento às urnas desde que o voto se tornou facultativo, em 2012.

"Hoje triunfaram a cidadania e a democracia, e a paz prevaleceu sobre a violência", declarou o presidente conservador Sebastián Piñera no Palácio de La Moneda, em Santiago. "Este plebiscito não é o fim, é o começo de um caminho que devemos percorrer todos juntos."

A Assembleia Constituinte terá nove meses para elaborar um projeto de Constituição a ser submetido a um referendo em 2022. Para a televisão pública britânica BBC, "é um passo muito importante para restabelecer o equilíbrio social."

O Chile foi palco de uma onda de manifestações de protesto que começaram em 7 de outubro, um dia depois de um aumento nos preços do metrô de Santiago, e se espalharam por outras 12 cidades importantes. Pelo menos 34 pessoas morreram em choques entre a polícia e manifestantes. Em 19 de outubro, Piñera decretou estado de emergência e toque de recolher noturno na capital.

A revolta popular cresceu com protestos contra a desigualdade social, a privatização dos serviços públicos, inclusive de educação, saúde e previdência, a alta do custo de vida (Santiago é a segunda capital mais cara da América Latina), as baixas aposentadorias,  o custo elevado de remédios e tratamentos de saúde, e o descrédito generalizado dos políticos.

Foram os maiores protestos desde a ditadura do general Pinochet. A maior manifestação reuniu 1,2 milhão de pessoas na capital, Santiago do Chile. Pela primeira vez desde a redemocratização, o Exército saiu às ruas para reprimir manifestações. Era natural que a ordem constitucional imposta pelo ditador em 1980 fosse questionada.

Pinochet chegou ao poder em 11 de setembro de 1973 num golpe militar que levou à morte do presidente socialista Salvador Allende, eleito três anos antes em coligação com os comunistas. Começava uma era de terror em que pelo menos 3.105 pessoas foram mortas, centenas de milhares presas e torturados ou fugiram para o exílio.

Na economia, Pinochet cercou-se de Chicago boys, assessores formados na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, a meca do neoliberalismo, impôs seu modelo econômico ao Chile, privatizou a educação e a previdência social, e tornou o Estado subsidiário. O Estado só atua onde a iniciativa privada não tem interesse. A Constituição de 1980 institucionalizou o pinochetismo.

Outro plebiscito, em 5 de outubro de 1988, derrotou o general Pinochet, que pretendia governar por mais um mandato presidente. A primeira eleição presidencial democrática desde 1970 foi realizadas em 14 de dezembro de 1989 e vencida pelo democrata-cristão Patricio Aylwin, à frente de uma aliança de 16 partidos, a Concertação, liderada pela Democracia Cristã e o Partido Socialista. Ele tomou posse em 11 de março de 1990, pondo fim à ditadura militar.

"Não foram 30 pesos! Foram 30 anos!", gritava a multidão nas ruas de Santiago. A maior manifestação reuniu 1,2 milhão de pessoas na Praça Itália e a até 4 quilômetros de distância em 26 de outubro. 

Sob pressão das ruas, o atual presidente, que no primeiro momento chamara os manifestantes de marginais e inimigos do Chile, convocou um plebiscito constitucional. Em 27 de dezembro, anunciou a data de 26 de abril. 

A pandemia do novo coronavírus obrigou-o a mudar a data. No primeiro momento, o Chile parecia ter controlado a covid-19, mas em abril o número de casos novos voltou a aumentar e a situação saiu de controle. É o quinto país da América do Sul tanto em número de casos confirmados (502 mil) e de mortes, pouco menos de 14 mil.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Que mundo sairá da pandemia: mais extremista ou mais solidário?

Como será o mundo pós-pandemia? Será marcado pela volta do ultranacionalismo, do autoritarismo e do extremismo, pela ascensão do neofascismo, que já mostrou sua cara depois da Grande Depressão de 2008, com forte rejeição à globalização da economia? 

Ou a sociedade internacional será mais solidária, mais confiando na ciência que foi decisiva para combater a peste, mais disposta a enfrentar as desigualdades que afloraram com a doença do coronavírus de 2019 e outros problemas como o aquecimento global? 

A aceleração da revolução tecnológica, com mais comércio eletrônico e mais trabalho em casa vai aumentar o poder do individuo ou fortalecer estados totalitários que hoje coletam até informações sobre a saúde dos cidadãos? A verdade é que não sabemos, como tanta coisa que envolve este vírus novo e desconhecido.

No último balanço mundial, o vírus infectou 3 milhões 324 mil pessoas e matou pelo menos 413 mil 733; 3 milhões 604 mil e 500 pessoas foram curadas. Dez por cento dos casos encerrados terminaram em morte. 

Os Estados Unidos têm o maior número de casos, mais de 2 milhões 45 mil e 500 e o maior número de mortos, mais de 114 mil. 

O Brasil registrou mais Mil 185 mortes em 24 horas. O total de óbitos está em 38 mil 497. Com mais de 31 mil 197 casos novos num dia, os casos confirmados no Brasil agora são 742 mil e 84. Mais de 325 mil pessoas foram curadas. Meu comentário:

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

França faz greve contra a reforma da previdência de Emmanuel Macron

Em mais um enorme desafio às propostas de modernização do presidente Emmanuel Macron, a França parou hoje contra a reforma da previdência. Em todo o país, cerca de 840 mil saíram às ruas, de acordo com o Ministério do Interior, um milhão e meio, segundo a Confederação Geral do Trabalho (CGT), enfrentaram o frio e participaram de 250 manifestações de protesto.

Em Paris, 65 mil estudantes, professores, bombeiros, policiais, enfermeiros e outros trabalhadores marcharam até a Praça da Nação. Uma greve nacional que continua amanhã parou as escolas, os transportes públicos, parte da aviação comercial e as refinarias de petróleo francesas. 

Hoje, 10 por cento dos trens funcionaram. Onze linhas do metrô de Paris ficaram paradas. Nesta sexta-feira, 90 por cento dos trens de alta velocidade e 70 por cento dos trens expressos regionais não devem circular. Em Paris, a expectativa é que 15% dos trens funcionem. Dez linhas do metrô da capital francesa devem ficar paradas. 

Tudo isso é a reação contra a reforma da previdência proposta pelo governo Macron e o primeiro-ministro Edouard Philippe, uma promessa de campanha do presidente. A França tem 42 regimes diferentes de aposentadoria. Meu comentário:

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Primeiro-ministro do Iraque cai em meio a revolta com 350 mortes

Sob pressão do principal líder religioso do Iraque, o grão-aiatolá Ali al-Sistani, por causa de uma revolta popular com 350 mortes, o primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi vai apresentar amanhã sua renúncia à Assembleia Nacional. 

Sua queda atende a uma das exigências dos manifestantes que saem às ruas desde 1º de outubro em protesto contra a corrupção, o desemprego, a miséria, a péssima qualidade dos serviços públicos e a crescente influência do Irã.

Com a repressão violenta das forças de segurança e o grande número de mortos, o governo perdeu toda legitimidade. Depois de mais 35 mortes ontem, a situação se tornou insustentável. 

A declaração do aiatolá foi o empurrão final num governo medíocre que durou um ano e um mês. Ontem, a violência começou com um ataque ao Consulado Iraniano na cidade de Najaf e logo se espalhou pelo Sul do Iraque, onde a grande maioria da população é muçulmana xiita. Meu comentário:

domingo, 24 de novembro de 2019

Candidatos pró-democracia obtêm ampla vitória em Hong Kong

Os candidatos a favor da democracia conquistaram ampla maioria nas eleições distritais em Hong Kong realizadas neste domingo. Antes do final da apuração, tinham 283 cadeiras contra 42 para candidatos apoiados pelo regime comunista da China, de um total de 452 cadeiras em disputa por 1.104 candidatos. Vão controlar 12 das 18 câmaras distritais do território.

As câmaras distritais tratam de questões locais, como poluição sonora e horário de funcionamento de bares e restaurantes. Mesmo assim, este resultado é interpretado como apoio às manifestações de protestos contra a crescente interferência de Beijim no território. que na prática paralisam Hong Kong desde 9 de junho.

Mais de 2,9 milhões de pessoas votaram. O comparecimento às urnas, de 71,2%, foi recorde para todas as eleições em todo o território.

As eleições distritais são as mais democráticas de Hong Kong, um território considerado uma zona administrativa especial dentro da República Popular da China. No Conselho Legislativa, o parlamento de Hong Kong, metade dos deputados são eleitos pelo voto popular e os outros indicados por grupos de interesse, especialmente empresário. O governador é escolhido por uma assembleia de 1,2 mil pessoas, a maioria leal ao regime comunista chinês.

Os protestos começaram contra um projeto de lei para autorizar a extradição de residentes em Hong Kong para responder a processos na China continental. Logo, cresceram e os manifestantes passaram a exigir eleições diretas para governador e para o Conselho Legislativo.

A governadora Carrie Lam, acusada pelos manifestantes por causa da violência policial, ofereceu sua renúncia, mas o governo chinês não aceitou. Entende que a concessão seria uma vitória dos manifestantes. Com mais de 80% de rejeição, Carrie Lam é a governante mais impopular da história de Hong Kong.

sábado, 23 de novembro de 2019

Exército sai às ruas para conter manifestações na Colômbia

O presidente conservador Iván Duque decretou toque de recolher noturno ontem em Bogotá a partir das 21 horas (23h em Brasília), convocou o Exército para patrulhar as ruas junto com a polícia para garantir a ordem pública e anunciou um diálogo social, mas não esclareceu que reformas vai propor.

Na quinta-feira, durante uma greve geral, mais de um milhão de pessoas protestaram nas ruas contra as reformas previdenciária e trabalhista. Houve cenas de vandalismo em Bogotá, Cáli e Barranquilla. Pelo menos 146 pessoas foram presas.

Ontem, houve panelaços em parte da capital e confrontos entre manifestantes e a polícia, saques e vandalismo. Ao todo, 76 estações do Transmilênio, um veículo leve sobre pneus que é o principal meio de transporte público da capital colombiana, foram vandalizadas 79 ônibus foram destruídos.

"Temos uma horda de delinquentes que destroem os bens de todos os cidadãos, que saqueiam e roubam, que querem acabar com a cidade. São uma minoria", afirmou o prefeito verde, liberal e radical de Bogotá, Enrique Peñalosa.

O presidente se reuniu com um gabinete de crise, visitou o posto de comando unificado das forças de segurança e pediu aos prefeitos de toda a Colômbia para manter a ordem com decretação de lei seca e e toque de recolher noturno onde for necessário.

"Devemos rechaçar categoricamente qualquer forma de violência", declarou Duque em pronunciamento na televisão sexta-feira à noite. Desde 1977, o Exército não saía às ruas para garantir a lei e a ordem. Lutava contra grupos guerrilheiros.

Em 2016, o governo Juan Manuel Santos assinou um acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). O Exército de Libertação (ELN) ainda está em atividade. Pode cometer atentados isolados, mas não representa uma grande ameaça.

Com a paz, tão rara na história da Colômbia, afloraram as reivindicações sociais em uma sociedade conservadora e oligárquica, com impressionante histórico de violência.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Repressão a protestos deixa mais de 100 mortos no Irã

A ditadura teocrática do Irã matou pelo menos 106 pessoas para conter uma onda de manifestações de protesto. Centenas de pessoas saíram feridas e mais de mil foram presas, denuncia a organização não governamental de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional.

As manifestações irromperam há cinco dias e se espalharam por 21 cidades de quase todas as províncias iranianas. São mais intensas na capital, Teerã, e nas cidades de Isfahan e Ahvaz. As agências oficiais de notícias da República Islâmica confirmam apenas 12 mortes.

As forças de segurança acusam os manifestantes pelas mortes de dois policiais, cinco membros da Guarda Revolucionária Iraniana e um da força paramilitar Bassij, que costuma fazer o trabalho sujo para a Guarda. Meu comentário:

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Batalha da universidade entra no terceiro dia em Hong Kong

As manifestações pela liberdade e a democracia em Hong Kong tem o dia mais violento em cinco meses de protesto. Desde sábado, a Universidade Politécnica de Hong Kong está cercada pela polícia. 

Depois do segundo dia de confrontos violentos entre a polícia de choque e os manifestantes, cerca de 500 estudantes permanecem entrincheirados dentro do campus. Mais de 400 pessoas foram presas e pelo menos 36 foram feridas. Um carro blindado da polícia foi incendiado.

Todas as rotas de fuga estão bloqueadas. Com coquetéis Molotov, jovens vestidos de preto travaram mais uma batalha feroz com a polícia, que usou gás lacrimogênio e balas de borracha. Depois de ser atacada com arco e flecha no fim de semana, a polícia ameaçou usar munição real para conter os manifestantes. 

Na China, os jornais do regime comunista exigem uma repressão mais dura para acabar com os protestos. A ditadura de Beijim teme que os manifestantes inspirem revoltas da mesma natureza no país.Meu comentário:

sábado, 16 de novembro de 2019

Comissão Interamericana de Direitos Humanos adverte militares da Bolívia

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) alertou o governo interino da Bolívia de que o Decreto Supremo 4.078, que exime de responsabilidade penal os militares que participam da repressão às manifestações de protesto, viola os padrões internacionais de proteção aos direitos humanos, noticiou o jornal boliviano Página Siete.

"O pessoal das Forças Armadas que participar de operações para o restabelecimento da ordem interna e a estabilidade pública está isento de responsabilidade penal quando, no cumprimento de suas funções constitucionais, atue em legitima defesa ou estado de necessidade e proporcionalmente", diz o decreto.

A CIDH também condenou "o uso desproporcional da força policial e militar" e recomendou que "as armas de fogo devem ser eliminadas das operações de controle dos protestos sociais."

O ministro da Defesa, Fernando López, reconheceu que o documento existe: "Tivemos indícios muito sérios de estrangeiros armados no país. E há grupos armados com armas de grosso calibre. Então, isso geraria ações que nos permitam cumprir nossa missão, nada mais." Não apresentou provas de suas alegações.

López acrescentou que o objetivo do governo é "caminhar em direção ao diálogo, à paz e à fé em Deus." O fundamentalismo cristão faz parte de ideologia dos grupos de extrema direita responsáveis por atos de violência antes da renúncia do presidente Evo Morales, no domingo passado.

Embora a Bolívia seja oficialmente um país laico, a vice-presidente do Senado, Jeanine Ánez, levou uma Bíblia e um crucifixo para a cerimônia em que tomou posse como presidente interina do país, depois da renúncia do presidente, do vice, e dos presidentes e vice-presidentes da Câmara e do Senado, todos membros do Movimento ao Socialismo (MaS), partido de Morales.

Esta manobra acabou entregando o poder não ao ex-presidente Carlos Mesa, que seria favorito no segundo turno, mas ao setor mais radical da oposição, branco, racista e fundamentalista cristão. Áñez
nega ter qualquer antepassado indígena. Ela afirma ter 100% de origem europeia. Suas feições sugerem o contrário.

A Bolívia enfrenta sua pior crise política em 14 anos desde que a oposição rejeitou, em 21 de outubro, a proclamação da vitória de Morales no primeiro turno da eleição presidencial do dia anterior. A apuração foi interrompida duas vezes quando tudo indicava que haveria um segundo turno entre Morales e Mesa.

No poder desde 2006, Morales, como fiel discípulo de Fidel Castro e Hugo Chávez, não tinha a menor intenção de entregar o poder. Por força da Constituição aprovada por sua iniciativa, não poderia concorrer a um terceiro mandato, mas alegou, em 2014, que sua primeira eleição, em 2005, fora sob a Constituição anterior.

Em 2016, Evo Morales perdeu um plebiscito para acabar com limites à reeleição. Mesmo assim, recorreu ao Tribunal Constitucional alegando, com base em decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos em outro caso, que ser candidato é um direito humano fundamental.

Como dificilmente venceria no segundo turno, quanto toda a oposição se uniria ao redor de Mesa, Morales fraudou a eleição e gritou golpe quando a população revoltada saiu às ruas. Depois de se negar a fazer qualquer concessão, em 30 de outubro, Morales aceitou uma auditoria da Organização dos Estados Americanos (OEA).

A missão da OEA suspeitou desde a mudança abrupta no resultado depois das interrupções na apuração. A auditoria revelou que houve seções eleitorais sem nenhuma abstenção, urnas em que todas as cédulas foram preenchidas pela mesma pessoa e irregularidades na transmissão dos resultados para o Tribunal Supremo Eleitoral.

Morales aceitou, então, realizar nova eleição com novas autoridades eleitorais, como recomendou a OEA. A oposição exigiu que ele não se candidatasse à reeleição. Diante do impasse e do risco de aumento da violência, os comandantes das Forças Armadas e da Polícia e a poderosa Central Operária Boliviana (COB) sugeriram a renúncia do presidente.

Tecnicamente, foi um golpe de Estado. Na realidade, foi um contragolpe, depois dos golpes de Morales ao forçar mais uma reeleição e roubar a eleição.

A renúncia coletiva foi o terceiro golpe de Evo Morales contra as instituições e a democracia bolivianas. Deixou o Estado totalmente acéfalo, apostando no caos para tentar voltar ao poder como salvador da pátria, e fugiu para o exílio no México.

Com dois terços das cadeiras na Assembleia Legislativa Plurinacional, o Congresso boliviano, o MaS é fundamental para dar quórum a qualquer decisão legislativa. Enquanto deputados e senadores do partido querem voltar ao trabalho e preparar o MaS para a próxima eleição presidencial, do exterior, Morales fomenta os protestos.

Seus partidários indígenas, como os conhecidos ponchos vermelhos, estão nas ruas exigindo a volta do seu líder. Não reconhecem a presidente interina, enquanto Morales declara na Cidade do México que é o presidente da Bolívia enquanto a Assembleia Legislativa não aceitar oficialmente a carta de renúncia.

A repressão às marchas indígenas se tornou mais violenta. Antes da renúncia, parte da Polícia e o Exército se negaram a atacar os manifestantes que protestavam contra a fraude eleitoral. O total de mortos desde o início dos protestos chegou a 23, com mais de 700. Só ontem, houve nove mortes.

Do exílio, Morales culpa o governo provisório, formado pela oposição mais linha-dura. Mas é o principal responsável pelo que está acontecendo hoje na Bolívia.

Chile convoca plebiscito sobre Constituinte para superar a crise

Num acordo histórico, o Congresso do Chile decidiu ontem convocar um plebiscito a ser realizado em abril de 2020 para o eleitorado decidir se quer uma Assembleia Constituinte para substituir a atual Constituição, outorgada em 1980, durante a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-90). 

É a tentativa de superar a pior crise política desde a redemocratização do país, com protestos violentos que já duram quase um mês e uma dura repressão, que levou o Exército às ruas pela primeira vez desde o fim da ditadura. Pelo menos 22 pessoas morreram e 2 mil foram feridas, das quais 197 perderam total ou parcialmente a visão.

"É uma resposta política maiúscula, que pena no Chile, se encarrega do problema e assume a responsabilidade", declarou o presidente do Senado, Jaime Quintana, do Partido pela Democracia, de centro-esquerda, ao lado de líderes dos principais partidos políticos chilenos, menos o Partido Comunista.

Foram necessárias horas de intensas negociações entre os principais partidos de oposição e coalizão de direita que apoia o presidente Sebastián Piñera para firmar o Acordo pela Paz e por uma nova Constituição. O plebiscito é necessário porque a Constituição pinochetista não prevê uma consulta popular para convocar uma Assembleia Constituinte.

Com voto facultativo (não obrigatório), o eleitor chileno terá de responder a duas perguntas: se quer ou não uma nova Constituição e como deveria ser feita a mudança, por uma comissão constitucional mista, com candidatos eleitos especialmente para isso e parlamentares, ou uma Assembleia Nacional Constituinte eleita exclusivamente para redigir uma nova carta magna.

Enquanto a direita prefere uma comissão mista, a esquerda quer uma Constituinte para realizar uma mudança mais profunda. O plebiscito será realizado junto com as eleições municipais e regionais, no fim de abril de 2020.

Se o projeto for aprovado no plebiscito, as eleições para a Constituinte ou a comissão mista ocorrerão em outubro de 2020, com sufrágio universal e voto facultativo.  No referendo para ratificar a nova Constituição, o voto será obrigatório.

As manifestações começaram em protesto contra um aumento de 30 pesos nas passagens do metrô de Santiago, o equivalente a R$ 0,17. Em 17 de outubro, a estação de metrô de San Joaquín foi o primeiro alvo de depredações.

No dia seguinte, dez estações foram incendiadas. As operações do metrô, o principal meio de transporte de Santiago, um local de democratização de uma cidade profundamente dividida, foram suspensas. Milhares de pessoas caminharam pela Alameda, a principal avenida da cidade para voltar para casa.

O presidente Piñera foi à televisão declarar que havia uma guerra contra o Chile, com gangues do crime organizado infiltradas no meio dos protestos para causar tamanha violência: "Estamos em guerra contra um inimigo poderoso e implacável que não respeita nada nem ninguém e está disposto a usar a violência e a delinquência sem nenhum limite."

Piñera decretou estado de emergência e toque de recolher em Santiago e outras cidades, e botou o Exército nas ruas para reprimir os manifestantes junto com a polícia. Nos primeiros nove dias, a resposta do governo foi uma repressão como não se via desde a era Pinochet. A maior manifestação reuniu 1,2 milhão de pessoas nas ruas de Santiago.

Ao todo, houve 5.629 detenções. Pelo menos 283 ações foram movidas contra os Carabineiros, a polícia militar do Chile, sendo cinco por homicídio, seis por tentativa de homicídio, 52 por violência sexual e cerca de 200 por tortura e maus tratos.

Uma frase da primeira-dama, Cecilia Morel, resumiu as causas da crise: "Vamos ter de diminuir nossos privilégios e compartilhar com os outros." Piñera é bilionário.

Outra frase descreve bem a situação: "Não são 30 pesos, são 30 anos." A ditadura de Pinochet terminou em março de 1990 e até hoje sua herança maldita não foi atacada.

Toda previdência no Chile é privada. O trabalhador faz sua própria poupança para a aposentadoria, no modelo de capitalização que o ministro da Economia, Paulo Guedes, queria implantar aqui na reforma da previdência, mas o Congresso não aceitou. Muitos aposentados não ganham o suficiente, provocando muitos suicídios de velhos.

A educação também é paga. Mesmo nas universidades públicas, é preciso pagar. Os estudantes tomam empréstimos bancários. Quando formados, usam até 10% do salário para pagar a dívida, sobre a qual incidem juros.

Há dois sistemas de saúde: só 20% podem pagar o privado; no sistema público, há longas filas de espera e hospitais mal equipados. O preço dos medicamentos pode ser até três vezes maior do que na vizinha Argentina.

O Chile tem a segunda maior renda per capita da América Latina, de pouco mais de US$ 16 mil por ano, mas o custo de vida é altíssimo. As ruas gritam contra a desigualdade social. É um dos países mais desiguais do continente. O Brasil é mais desigual ainda.

"Deixam você na porta do paraíso, mas não te deixam entrar", reclamou Juan Elgueta, um estudante de 23 anos.

domingo, 10 de novembro de 2019

Morales recua e convoca nova eleição na Bolívia

Depois de três semanas de protestos violentos contra uma suposta fraude eleitoral que deixaram três mortos e mais de 300 feridos, o presidente Evo Morales anunciou hoje a realização de nova eleição presidencial e mudanças na autoridade eleitoral da Bolívia.

Morales vinha denunciando um "golpe de Estado". Recuou diante de um pedido de anulação da eleição feito pelo secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), o ex-ministro do Exterior uruguaio Luis Almagro, com base em uma auditoria.

Até ontem, o presidente boliviano propunha um diálogo à oposição, mas seu principal adversário na eleição de 20 de outubro, o ex-presidente Carlos Mesa, declarou "não ter nada a negociar" com Morales.

No sábado, várias unidades policiais se rebelaram em quatro departamentos do país e o Exército da Bolívia alertou que não iria enfrentar os manifestantes.

As conclusões da auditoria da OEA seriam divulgadas no dia 13. Almagro antecipou o resultado "por conta da gravidade das denúncias" e pediu a realização de novo pleito "assim que existam condições", inclusive "uma nova composição do órgão eleitoral".

Pela lei boliviana, vence a eleição presidencial quem conquistar mais da metade dos votos válidos ou 40% e uma vantagem de dez pontos percentuais sobre o segundo colocado.

Em 20 de outubro, com mais de 80% das urnas apuradas, o resultado indicava um segundo turno entre Morales e Mesa quando a contagem preliminar foi suspensa. No dia seguinte, na apuração voto a voto, os dois estavam praticamente empatados.

Então, a apuração voto a voto foi suspensa e retomada a contagem preliminar e Morales conseguiu a vantagem de 10% necessária para evitar um segundo turno, chegando a 47,08% contra 36,51% para Mesa. A interrupção abrupta da apuração suscitou suspeitas de fraude. Foi citada pela OEA como uma das irregularidades.

Morales tenta um quarto mandato, apesar da restrição constitucional e mais de uma reeleição. Na eleição anterior, o presidente alegou que o primeiro mandato havia sido obtido sob a Constituição anterior. Por isso, ele teria direito a mais um.

Em 2016, Morales perdeu um referendo constitucional para aprovar a reeleição sem limites. Para disputar um quarto mandato, recorreu à Corte Suprema invocando uma decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, o Tribunal de São José da Costa Rica, que considerou o direito à candidatura um direito fundamental.

Primeiro presidente indígena da Bolívia, o aimará Morales chegou ao poder em 2006, depois de uma série de governos que não chegaram ao fim, derrubados por revoltas populares liderados por ele. Sob seu governo, o país cresceu em média 5% ao ano. A pobreza caiu de 60% para 34% da população e a extrema pobreza, de 38% para 15%.

A dúvida agora é se a oposição vai aceitar a solução apresentada pelo presidente ou se vai manter o movimento para forçar sua queda.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Revoltas populares contra desigualdade atingem quatro continentes

Uma onda de manifestações de protestos que por fundo o aumento da desigualdade de renda, a miséria e o desemprego, abala governos em quatro continentes. É mais um reflexo da Grande Recessão mundial de 2008 e 2009.

Talvez a situação mais grave no momento seja no Chile, onde pelo menos 11 pessoas morreram, mais de 150 saíram feridas e mil e 500 foram presas desde sexta-feira, quando começou uma violenta onda de protestos contra um aumento de 17 centavos de real no preço do metrô. 

Pela primeira vez desde o fim da ditadura do general Augusto Pinochet, em 1990, o Exército está nas ruas. Sob intensa pressão popular, o presidente conservador Sebastián Piñera cancelou o aumento, decretou estado de emergência e toque de recolher noturno na região metropolitana de Santiago e em mais de dez outras cidades. 

Também houve protestos recentemente no Equador, no Peru, na Nicarágua, na América Central, no Egito, no Iraque, no Líbano, na Catalunha e em Hong Kong. Meu comentário:

Manifestantes atiram coquetéis Molotov em Hong Kong

Pela  20ª semana seguida, milhares de manifestantes do movimento pela democracia protestaram contra a crescente interferência do regime comunista chinês em Hong Kong, que tem status de região administrativa especial dentro da República Popular da China.

O protesto começou pacificamente, mas degenerou em violência, com depredação de lojas, bancos e estações. A polícia usou gás lacrimogênio contra a manifestação, não autorizada. Os manifestantes reagiram com coquetéis Molotov.

Outro sinal de uma escalada na violência foi o uso de um robô para desarmar uma bomba de fabricação caseira. Há uma semana, a polícia anunciou que uma bomba caseira havia sido explodida pelos manifestantes usando um telefone celular como detonador. Ninguém foi ferido.

A manifestação começou num bairro comercial da ponta sul da Península de Kowloon e seguiu pela avenida do porto de Vitória aos gritos de "Glória a Hong Kong!" Algumas estações de metrô na rota da marcha de protesto foram fechadas. Filias de bancos e empresas chinesas foram atacadas.

A Frente dos Direitos Humanos e Civis, organizadora de grandes marchas pacíficas no verão de que participaram até 2 milhões de pessoas, pediu autorização para a manifestação de hoje. A polícia negou, alegando que protestos anteriores degeneraram em vandalismo e violência.

Os protestos começaram contra um projeto de lei para autorizar a extradição de residentes no território para responder a processos criminais na China. Evoluíram para exigir a renúncia da governadora Carrie Lam, vista como subserviente a Beijim, e eleições diretas para governador e para o Conselho de Legislativo, o parlamento do território.

Quando o Reino Unido devolveu Hong Kong à China, em 1º de julho de 1997, o regime comunista chinês se comprometeu a manter as liberdades democráticas no território durante 50 anos,. Era fórmula um país, dois sistemas, idealizada pelo então líder Deng Xiaoping para ser usada também numa possível reintegração da Taiwan.

A linha-dura comunista acusa os manifestantes de quererem a independência de Hong Kong, no que seria uma mutilação da grande e poderosa China. Dentro da paranoia comum aos regimes ditatorias, vê influências externas dos Estados Unidos e do Reino Unido no movimento pela democracia.

Os moradores de Hong Kong veem nas atuais manobras do governo chinês, cada vez mais ditatorial sob Xi Jinping, uma ameaça a esta situação especial.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Protestos contra governo do Iraque resultam em 33 mortes

Pelo quarto dia seguido, milhares de iraquianos protestam contra a corrupção, a miséria, o desemprego e a falta de serviços públicos essenciais. O governo reage com gás lacrimogênio e munição real. Ao menos 33 pessoas foram mortas, 40 de acordo com grupos de defesa dos direitos humanos.

Dezesseis anos depois da invasão ordenada pelo presidente George W. Bush para derrubar o ditador Saddam Hussein, o Iraque ainda sofre as pesadas consequências da invasão americana, feita sob o falso pretexto de que o Iraque possuía armas de destruição em massa. 

Há quatro dias, milhares de pessoas, sobretudo jovens, protestam nas ruas de Bagdá e das principais cidades do Sul do país contra a corrupção, a miséria, que afeta a maioria dos 40 milhões de habitantes, o desemprego, que atinge 25% dos jovens, e a falta de serviços básicos como o fornecimento de água e energia elétrica. 

A infraestrutura já apresentava problemas por causa dos oitos anos da guerra contra o Irã nos anos 1980s e das sanções impostas pelas Nações Unidas depois da Guerra do Golfo de 1991, para expulsar os iraquianos do Kuwait. 

Desde que os bombardeios dos Estados Unidos arrasaram a infraestrutura do Iraque, o país com a quinta maior reserva mundial de petróleo não consegue fornecer energia regularmente nem para a capital. Meu comentário:
No quinto dia de protestos, o total de mortos chegou a 93 pessoas. Mais de 4 mil soldados americanos foram mortos desde a invasão de 2003. O sítio Iraq Body County estimou o total de mortos em 288 mil.

sábado, 28 de setembro de 2019

Jornais fecham sob pressão de Ortega na Nicarágua

Sob pressão do ditador Daniel Ortega, dois jornais e o website da companhia jornalística Nuevo Diario pararam de circular ontem. Em editorial, El Nuevo Diario disse estar acabando com as edições impressa e digital por "dificuldades econômicas, técnicas e logísticas que tornaram a operação insustentável".

Há mais de um ano, em meio a uma onda de manifestações de protesto contra o governo Ortega, a alfândega da Nicarágua começou a segurar a importação de papel de imprensa e outras matérias-primeiras para El Nuevo Diario e para o Grupo Editorial La Prensa, que publica os jornais La Prensa e Hoy.

"Sem qualquer justificativa legal ou administrativa", parte dos suprimentos foi liberada em julho, contou o diretor executivo da empresa ND Medios. Sem papel, El Nuevo Diario passou a circular apenas cinco dias por semanas e reduziu a edição de 38 para oito páginas. A empresa também fechou o jornal Metro, que era distribuído gratuitamente na capital, Manágua.

Os jornais La Prensa e Hoy também diminuíram o número de páginas estão sob "ameaça permanente", declarou o editor-chefe de La Prensa, Eduardo Enríquez à agência de notícias EFE.

Jornal mais tradicional do país, La Prensa tem 93 anos. Era o jornal de Pedro Joaquín Chamorro, o jornalista cujo assassinato apressou o fim da ditadura da Anastasio Somoza e a vitória da Revolução Sandinista, em 19 de julho de 1979.

Sua mulher, Violeta Chamorro, foi eleita presidente em 1990, vencendo Ortega, que estava no poder desde a vitória da revolução e voltou em 2007 pelo voto popular. Desde então, ficou cada vez mais prepotente e autoritário.

"Hoje é um dia de luto nacional. Um jornal fechou por falta de matéria-prima por causa da ditadura", declarou sua filha, a jornalista Cristiana Chamorro, diretora da Fundação Violeta Barrios de Chamorro.

O escritor e intelectual Sergio Ramírez Mercado, vice-presidente de Ortega de 1985 a 1990, considerou um "golpe na liberdade de imprensa que devemos repudiar e denunciar".

Nos últimos anos, a Nicarágua perdeu a ajuda econômica da Venezuela, que enfrenta um colapso econômico. Desde abril de 2018, quando manifestantes tomaram as ruas para protestar contra uma proposta de reforma da Previdência Social que reduzia benefícios e aumentava a contribuição, a Nicarágua vive em clima de rebelião.

Com a violenta repressão de Ortega, pelo menos 328 pessoas foram mortas, inclusive uma estudante brasileira, de acordo com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, ou 595 pelos cálculos de grupos nicaraguenses de defesa dos direitos humanos.

O que era uma onda de protestos contra a reforma da previdência virou um movimento que exige o fim da repressão, a saída de Ortega e o julgamento dos crimes cometidos pela regime. A Igreja Católica tentou negociar uma solução, mas o ditador se nega a entregar o poder.

Em 21 de setembro, centenas de policiais impediram uma marcha que manifestantes que gritavam: "Ditadura, não! Democracia, sim!"

domingo, 18 de agosto de 2019

Manifestantes de Hong Kong mostram força

Cerca de 1,7 milhão de pessoas do movimento pela democracia e a liberdade, 23% da população do território, saíram hoje às ruas de Hong Kong pela 11ª semana consecutiva, desafiando a polícia, a governadora regional e o regime comunista da China. 

A polícia afirmou que eram apenas 128 mil manifestantes. Em contraste com a violência das últimas semanas, o protesto foi pacífico e não houve repressão violenta.

Em dezenas de outras cidades, inclusive Londres, Melbourne, Nova York, Sídnei e Toronto, houve manifestações em apoio aos cidadãos de Hong Kong.

A polícia de Hong Kong tem usado força excessiva, gás lacrimogênio e balas de borracha. Depois que uma menina foi baleada no olho, vários manifestantes passaram a usar uma venda com uma mancha vermelha.

Até mesmo a tropa de choque das máfias locais foi acionada pela ditadura de Beijim para tentar esmagar o movimento. Sem sucesso.

A República Popular da China está aumentando a pressão sobre a classe empresarial para ficar ao lado do regime comunista, sob pena de ser excluído do mercado da China continental.

Na sexta-feira, a ditadura de Xi Jinping ordenou à companhia aérea Cathay Pacific que exclua dos seus voos para a China pilotos, comissários de bordo e aeromoças que participaram dos protestos.

Agora, pressiona as grandes empresas internacionais de contabilidade - PwC, KPMG, Deloitte e Ernst & Young - por causa de um anúncio de jornal publicado por funcionários destas companhias em apoio às manifestações.

O jornal chinês The Global Times, porta-voz da linha dura do regime comunista chinês, exigiu que as empresas "demitam empregados que adotaram uma posição errada diante da situação em Hong Kong".

Quando o Reino Unido devolveu a antiga colônia britânica à China, em 1997, o regime comunista prometeu manter o regime liberal durante 50 anos. A onda de manifestações começou em protesto contra um projeto de lei para autorizar a extradição de cidadãos de Hong Kong para responder a processos criminais na China continental.

A proposta acaba com a independência judiciária da suposta região administrativa especial e com a fórmula "um país, dois sistemas", criada tendo em vista também a reunificação com Taiwan.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Violência tira sindicatos da rua no 1º de Maio em Paris

Os coletes amarelos e os black blocs sequestraram as manifestações do Dia do Trabalho em Paris. Cerca de 165 mil pessoas se manifestaram em toda a França e 40 mil na capital. Houve confrontos com a polícia, que usou gás lacrimogênio para conter os protestos violentos. Representantes sindicais disseram nunca ter visto nada parecido, "nem em maio de 1968".

Sob pressão dos novos militantes e dos anticapitalistas violentos, as centrais sindicais de dividiram. As mais moderadas se concentraram diante do cine-teatro Odeon, o "teatro da Europa", para defender "uma Europa social e ambiental" ameaçada pelos "populismos que ganham terreno", reportou o jornal Le Monde.

O movimento sindical mais à esquerda, inclusive a Confederação Geral do Trabalho (CGT), historicamente ligada ao Partido Comunista Francês (PCF), e a Força Operária (FO), de orientação trotskista, se concentraram diante da Torre de Montparnasse para "ampliar a batalha para que as urgências climáticas e sociais sejam levadas em conta pelo governo e o patronato".

A passeata da esquerda sindical sairia às 14h30 pela hora de Paris (9h30 em Brasília) em direção à Praça da Itália. Mas os coletes amarelos estavam decididos a assumir o protagonismo da manifestação. Perto do meio-dia, contrariando os sindicalistas, o cortejo começou a se mover lentamente.

Alguns coletes amarelos, que protestam todos sábado há 24 semanas e exigem a renúncia do presidente Emmanuel Macron, falavam que "é a guerra, o pessoal lá está em modo de comando" e "estamos aqui pela revolução".

Esta federação de descontentes, de insatisfeitos com as promessas feitas por Macron em entrevista coletiva em 25 de abril, reúne coletes amarelos, sindicalistas, estudantes, ecologistas e radicais de esquerda que se definem como antifascistas, anarquistas ou autonomistas.

Quando os black blocs emergiram do meio da multidão, as forças de segurança estavam prontas para enfrentá-los. Não eram 2 mil vindos de toda a Europa, como temia o Ministério do Interior; no máximo, uns 500.

Mesmo assim, no início da noite, a polícia havia feito 19.785 ações de controle. A passeata principal, rumo à Praça da Itália, estancou diante do Restaurante La Coupole, no Boulevard Montparnasse 102. A avenida foi fechada por uma barreira de policiais.

Aos gritos de "revolução", cerca de 150 militantes faziam ataques esporádicos, atirando garrafas contra a barreira policial. Quando os black blocs passaram a quebrar vitrines e saquear lojas, a polícia avançou.

A multidão recuou em pânico, em meio a uma nuvem irrespirável de gás lacrimogênio, explosão de granadas de efeito moral e tiros de balas de borracha. Do alto de um carro de som, um ativista da CGT pedia à massa que recuasse.

Depois de meia hora de conflito, a polícia reassumiu o controle da brasserie chic e se colocou diante da fachada para proteger o restaurante. Um sindicalista irritado protestava contra a violência: "Que vão quebrar lá onde está o dinheiro ou no Palácio do Eliseu, mas que nos deixem desfilar."

O secretário-geral da CGT, Philippe Martinez, acusou a polícia de atacar os caminhões da central sindical e festejou a mobilização e o número de manifestantes. Alguns militantes de esquerda aplaudiram a violência em nome do combate "de todos os que sofrem". "A violência das manifestações é uma resposta à violência social."

Por volta das 16h, a polícia havia refeito sua barreira perto da Praça da Itália. A multidão recuou e se dispersou no Boulevard do Hospital, onde fica o Hospital Universitário Pitié-Salpêtrière. No fim deste Dia do Trabalho, como observou o jornal Libération, a Praça da Itália estava deserta, com colunas de fumaça ao fundo.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Bouteflika retira candidatura e adia eleição presidencial na Argélia

Depois de semanas de protestos, em carta à população da Argélia, o presidente Abdelaziz Bouteflika desistiu de concorrer a um quinto mandato e adiou a eleição presidencial marcada para 18 de abril, informou há pouco o jornal francês Le Monde.

A eleição presidencial será realizada depois de uma conferência nacional para reformar o sistema político e apresentar um novo projeto de Constituição, anunciou Bouteflika, que sofreu um acidente vascular cerebral em 2013 e desde então não aparece em público. Durante a campanha para a eleição de 2014, não fez nenhum ato público.

Desde 22 de fevereiro, a Argélia enfrenta a maior onda de protestos desde o fim da brutal Guerra Civil Argelina (1991-2002), em que 100 a 150 mil pessoas foram mortas. Bouteflika está no poder desde 1999. Presidiu ao fim da guerra civil.

A Argélia é governada pela Frente de Libertação Nacional (FLN) desde a independência da França, em 1962. Em 1991, o regime anulou as eleições parlamentares que seriam vencidas pela Frente Islâmica de Salvação (FIS), deflagrando o início da guerra civil.

segunda-feira, 4 de março de 2019

Bouteflika promete convocar nova eleição daqui a um ano

Diante de uma onda de protestos contra o anúncio de que será candidato a um quinto mandato na eleição de 18 de abril de 2019, o presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika, anunciou que, se for reeleito, vai convocar nova eleição daqui a um ano, informou a televisão árabe Al Jazira. A oposição afirma que ele fez a mesma proposta no passado e não cumpriu.

Este prazo de um ano daria tempo para o regime escolher um sucessor para Bouteflika com alguma viabilidade eleitoral. Mas a cólera das ruas pressiona para que o presidente não conquista um quinto mandato.

Bouteflika, de 82 anos, está no poder desde 1999. Presidiu assim ao fim da sangrenta Guerra Civil Argelina (1991-2002), iniciada quando o regime da Frente de Libertação Nacional (FLN) anulou as eleições parlamentares que seriam vencidas pela Frente Islâmica de Salvação (FIS).

O próprio Bouteflika estimou o total de mortos em 100 mil no ano 2000 e em 150 mil em 2005. A FLN governa o país desde a independência deste país do Norte da África da França, em 1962.