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sábado, 29 de agosto de 2026

Hoje na História do Mundo: 29 de Agosto

FIM DO IMPÉRIO INCA

    Em 1533, o conquistador espanhol do Peru, Francisco Pizarro, executa o 13º e último imperador inca, Ataualpa, marco do fim de 300 anos da maior civilização pré-colombiana da América do Sul. Os incas ergueram um império com 14 milhões de súditos que, no seu auge, ia do Sul da Colômbia ao Norte do Chile.

Eles constroem sua civilização, o Império Inca ou Tahuantinsuyo, seu nome na língua quêchua, no altiplano da Cordilheira dos Andes, inicialmente no Peru. Não têm escrita, mas criam um governo sofisticado, com método estatístico, um sistema agrícola brilhante, grandes obras públicas e construções monumentais. Até hoje, a engenharia não explica como moveram pedras de toneladas.

Cinco anos antes de chegada dos conquistadores, uma disputa pela sucessão causa uma guerra civil ruinosa. Em 1532, Ataualpa vence o irmão Huáscar numa batalha perto de Cusco, a capital do império. Está consolidando o poder quando Pizarro chega com 180 homens.

Filho da aristocracia espanhola, Pizarro trabalha como criador de porcos quando jovem. Em 1502, se torna um soldado e vai para Hispaniola, a ilha hoje dividida entre Haiti e República Dominicana, onde Cristóvão Colombo começa a colonização da América em 1492.

Pizarro serve ao conquistador Alejandro de Ojeda na expedição à Colômbia, em 1510, e a Vasco Núñez Balboa quando este descobre o Oceano Pacífico, no Panamá, em 1513. 

Ao saber da grande riqueza do Império Inca, Pizarro se une a Diego de Almagro. Em 1524, eles saem do atual Panamá, mas só vão até onde hoje é o Equador. Na segunda expedição, entram no que hoje é território peruano, batizam a terra de Peru e a reivindicam para a coroa espanhola.

De volta ao Panamá, Pizarro planeja conquistar o Peru, mas não tem o apoio do governo colonial espanhol na América. Depois da conquista do México por Hernán Cortez, em 1521, Pizarro vai à Espanha em 1528 e consegue apoio do imperador Carlos I da Espanha e Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico, que sonha em criar uma monarquia universal.

Em 15 de dezembro de 1532, o pequeno exército de Pizarro, com 180 soldados, chega a Cajamarca, onde Ataualpa relaxa em águas termais antes de marchar rumo a Cusco, a capital do irmão. O conquistador convida o imperador para uma festa.

Com um exército de 30 mil homens, logo depois de vencer a maior batalha da história inca, Ataualpa não teme os homens de Pizarro. É alvo de uma emboscada.

Ataualpa vai ao local do encontro com um séquito de milhares de homens aparentemente desarmados. Pizarro envia um padre como emissário e intima Ataualpa a aceitar a soberania do imperador Carlos V e o cristianismo. 

Quando o imperador inca rejeita e joga a Bíblia no chão, Pizarro ordena o ataque com arcabuzes, canhões e cavalaria, armas que os incas desconhecem. Milhares de incas são massacrados e Ataualpa é preso.

Mesmo pagando o maior resgate da história, Ataualpa é processado pela morte do irmão, por conspirar contra a coroa espanhola e outros delitos menores. Amarrado a um poste, tem a última escolha: ser queimado vivo ou se converter ao cristianismo e morrer pelo garrote vil. Na esperança de preservar seu corpo para mumificação, escolhe o garrote.

INÍCIO DA GUERRA DOS SETE ANOS

    Em 1756, a tentativa do Império Austríaco dos Habsburgo de reconquistar a Silésia, uma província oriental alemã tomada por Frederico II, da Prússia, na Guerra da Sucessão Austríaca (1740-48), dá início à Guerra dos Sete Anos (1756-63).

É a última grande guerra na Europa antes da Revolução Francesa. A Áustria, a França, a Rússia, a Saxônia e a Suécia enfrentam a Prússia, o Reino Unido, Portugal e Hanôver, que saem vencedores. Na América do Norte, a Guerra Franco-Indígena (1754-63) começa dois anos antes com uma guerra indígena em que algonquinos e hurões se aliam aos franceses e os iroqueses aos britânicos.

Em consequência da derrota, o Império Francês perde suas possessões na Índia e a maior parte das colônias na América do Norte para o Império Britânico. É uma guerra mundial, assim como a Guerra dos Trinta Anos (1618-48), quando a Holanda invade o Nordeste do Brasil.

A Guerra dos Sete Anos é uma das causas da independência dos Estados Unidos (1776) e da Revolução Francesa de 1789. Quando a coroa britânica aumenta impostos para recuperar as finanças abaladas pela guerra, os colonos norte-americanos, que sustentaram o esforço de guerra do Império Britânico com vidas e recursos materiais, se rebelam. Na França, além do custo econômico da guerra, invernos rigorosos reduzem a produção de alimentos e provocam fome. 

CHINA CEDE HONG KONG

    Em 1842, no fim da Primeira Guerra do Ópio (1839-42), no Tratado de Nanquim, o imperador Dauguang, da Dinastia Ching (manchu), cede Hong Kong e paga indenização de US$ 21 milhões ao Império Britânico pelas vidas perdidas, abre cinco portos ao comércio, limita as tarifas de importação e exportação, e dá aos britânicos que cometam crimes em território chinês o direito de serem julgados por tribunais do Reino Unido.

É a primeira derrota e o primeiro tratado desigual do que os chineses chamam de "século da humilhação" diante dos imperialismos ocidental e japonês.

O tratado é assinado pelos cônsules negociadores Henry Pottinger, Chi Ying e Yi Libu a bordo do navio Cornwallis. As negociações começam depois que os britânicos tomam o porto de Zhenjiang em 23 de junho de 1839. São rápidas por causa da pouca experiência dos chineses em política externa e acordos comerciais. As cidades abertas a súditos da rainha Vitória são Cantão, Fuzhou, Ningbo, Xangai e Xiamei.

A China perde a Segunda Guerra do Ópio (1856-60) e a Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894-95) para o Japão, que invade a Manchúria em 1931 e as principais cidades da China em 1937 na Segunda Guerra Sino-Japonesa. A ocupação vai até o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-45).

O "século da humilhação" termina com a vitória da revolução comunista liderada por Mao Tsé-tung em 1º de outubro de 1949. Mao vai a Moscou assinar o Tratado de Aliança, Cooperação e Amizade com a União Soviética, em 14 de fevereiro de 1950, mas precisa esperar 50 dias no gelado inverno russo para ser recebido por Josef Stalin, que dita os termos do acordo.

Em 1º de julho de 1997, o Reino Unido devolve Hong Kong à China com a promessa de que o regime chinês manteria a autonomia do território durante 50, mas o ditador Xi Jinping rompe o compromisso ao impor uma Lei de Segurança Nacional draconiana em 30 de junho de 2020. Acaba assim com a fórmula "um país, dois sistemas", criada pelo então líder supremo Deng Xiaoping tendo em vista também a reunificação com Taiwan.

BOMBA NUCLEAR SOVIÉTICA

    Em 1949, a União Soviética explode sua primeira bomba atômica, chamada de Primeiro Raio, num remoto campo de testes em Semipalatinisk, no Casaquistão, acabando com o monópolio dos Estados Unidos em armas nucleares.

Desde 1939, o físico soviético Gueorgui Flyorov suspeita que as potências ocidentais estão desenvolvendo uma superbomba. Ele escreve uma carta ao ditador Josef Stalin propondo que a URSS faça a bomba atômica. O projeto é adiado pela invasão da Alemanha Nazista à URSS, em 22 de junho de 1941. No início, se limita a espionagem do Projeto Manhattan nos EUA.

Com a explosão das bombas de Hiroxima e Nagasáki pelos EUA no Japão em 6 a 9 de agosto de 1945, a URSS acelera o projeto com a captura de cientistas ligados ao projeto da bomba atômica da Alemanha e a espionagem nos EUA.

Para avaliar o impacto da explosão atômica de plutônio, feita com base na bomba de Nagasáki (Homem Gordo), os cientistas soviéticos constroem edifícios, pontes e outras estruturas urbanas. Também colocam mamíferos perto do local da explosão para ver o efeito da radiação. 

A bomba tem a força de 20 quilotons (20 mil toneladas de dinamite), mas ou menos a mesma potência da Trinity (Trindade), a primeira bomba detonada experimentalmente pelos EUA, em Alamogordo, no Novo México, em 16 de julho de 1945.

Começa o equilíbrio do terror nuclear.

FURACÃO KATRINA ARRASA

    Em 2005, o furacão de Katrina, de categoria 5 sobre o Oceano Atlântico e 3 ao chegar em terra, arrasa uma região do Sul dos Estados Unidos, especialmente a cidade de Nova Orleans, que é alagada em 80% de sua área, causando a morte de 1.836 pessoas, principalmente nos estados da Louisiana e do Mississípi, e prejuízos de mais de US$ 125 bilhões.

Outras 135 pessoas estão desaparecidas até hoje. Mesmo sendo apenas o terceiro furacão mais forte da temporada, é o terceiro pior da história dos EUA. Com a enchente, Nova Orleans vira uma terra sem lei. Gangues invadem casas abandonadas para roubar e atacam moradores que ficam na cidade.

Diante da omissão do governo George W. Bush com uma população flagelada majoritariamente negra, o jovem senador Barack Obama se destaca na linha de frente da ajuda às vítimas.

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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Hoje na História do Mundo: 1º de Julho

 DIA DO CANADÁ

    Em 1867, o Império Britânico reconhece oficialmente o Canadá, uma confederação das províncias da Nova Escócia, Nova Brunswick e do Canadá, que seria dividida nas províncias de Ontário e do Quebec.

É o Dia do Canadá, a data nacional do país. A partir da união dessas províncias, o Canadá começa a conquistar autonomia dentro do Império Britânico e a ter seu próprio governo. O Parlamento Britânico e o governo do Reino Unido controlam as relações exteriores, a defesa nacional e as mudanças constitucionais.

O Canadá luta ao lado das forças britânicas em duas guerras mundiais, assim como australianos, indianos, paquistaneses e neozelandeses

Em 11 de dezembro de 1931, o Estatuto de Westminster, uma emenda do Parlamento Britânico, dá independência às ex-colônias britânicas da Austrália, do Canadá, da Zona Zelândia e da Irlanda. O governo irlandês ignora o estatuto por entender que o tratado da independência da Irlanda, de 1921, acabara com o direito do Parlamento de Westminster de legislar sobre seu país.

A Terra Nova também não adota o Estatuto de Westminster e se une ao Canadá em 1949, depois de um plebiscito realizado no ano anterior.

Com a aprovação da Lei de Constituição, em 1982, o Canadá se torna totalmente independente. 

INÍCIO DA BATALHA DO SOMME

    Em 1916, começa a Batalha do Somme, uma as maiores e mais importantes da Primeira Guerra Mundial (1914-18), travada pela França e o Império Britânico contra a Alemanha, que termina em 18 de novembro com a vitória dos aliados.


É o dia mais sangrento da história militar britânica, com 19.240 mortes.

Mais de 3 milhões de soldados lutam na Batalha do Somme. Entre mortos e feridos, o total de baixas é de mais de 1,1 milhão de homens, o que a torna uma das batalhas mais sangrentas da história.

NÃO PROLIFERAÇÃO NUCLEAR

    Em 1968, os Estados Unidos, a União Soviética, o Reino Unido e outros 59 países assinam o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) para conter a disseminação de armas atômicas pelo mundo. Entra em vigor em 5 de março de 1970. Hoje, tem 191 países signatários.

O TNP é controvertido desde o início porque cria duas categorias de países: as potências nucleares, que têm a bomba quando o acordo é fechado; e os países não nucleares, que recebem a promessa de receber ajuda para o uso pacífico da energia atômica e de que as potências nucleares se desarmariam, o que não é uma perspectiva realista. A Índia nunca assinou porque, como uma ex-colônia, não aceita acordos internacionais que a coloquem em inferioridade. 

Além das cinco potências nucleares que não por coincidência são os países com direito de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas (China, EUA, França, Reino Unido e Rússia), tem a bomba atômica hoje Israel, a Índia, o Paquistão e a Coreia do Norte. Esses quatro não fazem parte. A África do Sul democrática pós-apartheid abre mão do programa nuclear militar da ditadura da minoria branca. O Brasil e a Argentina aderem quando assinam um acordo nuclear.

Se o tratado tem um vício de origem, o regime de não proliferação nuclear contém até agora a proliferação de armas atômicas. O maior candidato para entrar no clube sem autorização no momento é o Irã, que pode já ter adquirido capacidade nuclear. Se o Irã tiver armas atômicas, isso poderá deflagrar uma corrida armamentista no Oriente Médio. Outros países com ambição a potência regional, a Arábia Saudita, o Egito, a Síria e a Turquia, também vão querer.

MORTE DE PERÓN

    Em 1974, morre em Buenos Aires o político e militar Juan Domingo Perón, figura dominante da política na Argentina, depois de um terceiro e breve governo de menos de 10 meses.

Em 4 de junho de 1943, o Grupo de Oficiais Unidos, uma sociedade secreta nacionalista, derruba o presidente Ramón Castillo a pretexto de acabar com as fraudes eleitorais da “década infame”.

Entre eles, destaca-se o coronel Juan Domingo Perón, que é subsecretário do Ministério da Guerra, vice-presidente e ministro do Trabalho, onde implanta uma legislação trabalhista que lhe dá grande prestígio popular e o apoio dos sindicatos.

Perón melhora as condições de trabalho, consegue um aumento real de 4% nos salários de 1943 e 1946, cria a indenização para acidentes de trabalho, a Justiça do Trabalho, a Previdência Social, o salário mínimo, pagamento de feriados e férias, o 13º salário (conhecido na Argentina como aguinaldo), garante férias e o direito de sindicalização de trabalhadores rurais, limita a jornada de trabalho e congela os preços dos arrendamentos de terras.

DIA DA LEALDADE
Sob pressão da oligarquia e da ala conservadora do Exército, Perón é demitido em 9 de outubro de 1945 e preso quatro dias depois. Uma onda de protestos populares organizados pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) força a sua libertação em 17 de outubro, festejado pelos peronistas como Dia da Lealdade.

Naquele dia, Perón faz seu primeiro discurso triunfante na janela da Casa Rosada diante de uma multidão reunida na Praça de Maio, ao lado de sua segunda mulher, a atriz Maria Eva Duarte de Perón, a Evita, com quem se casa quatro dias depois, formando o casal que até hoje, muito depois de suas mortes, ainda domina a política argentina.

Com os votos de mais de 1,5 milhão de argentinos, 53% do eleitorado, Perón é eleito presidente da Argentina em 24 de fevereiro de 1946.

PERONISMO
Exemplo típico do populismo latino-americano, o peronismo, na definição do cientista político argentino Torcuato di Tella, é “uma aliança de parte da elite, como militares e industriais nacionalistas, com os trabalhadores para enfrentar outro segmento da elite, o mais conservador”, no caso argentino a oligarquia latifundiária exportadora.

Para os militares argentinos, que alimentam o sonho de hegemonia na América do Sul, argumenta Di Tella, os Estados Unidos, a potência hegemônica no continente, não armariam a Argentina para atacar o Brasil, que tinha uma política de alinhamento automático com Washington. A Argentina precisa de um desenvolvimento industrial autônomo.

 PRIMEIRO GOVERNO PERÓN
Ao tomar posse em 4 de junho de 1946, Perón promete justiça social e independência nacional. Entre 1946 e 1949, os salários dos operários da indústria argentina sobem em média 53%. A participação da massa salarial no produto interno bruto passa de 40,1% para 49%.

De 1930-35 a 1945-49, a produção industrial dobra. O número de fábricas passa de 38 mil em 1935 para 86 mil. Nesse período, o operariado cresce de 436 mil para mais de um milhão. O total de sindicalizados pula de 500 mil em 1946 para 2 milhões em 1950, quando a força de trabalho tem 5 milhões.

As greves crescem na mesma medida, de 500 mil dias de trabalho perdidos em 1945 para 2 milhões em 1946 e mais de 3 milhões em 1947.

Nos seus dois primeiros anos de governo, Perón nacionaliza o Banco Central, paga uma dívida bilionária com o Banco da Inglaterra, estatiza as ferrovias, a marinha mercante, as universidades, os serviços e transportes públicos. Em 1949, lança a ideia de uma terceira via entre o capitalismo e o comunismo para manter distância da Guerra Fria.

EVITA
Filha ilegítima de uma cozinheira, a cantora, modelo e atriz de teatro e radioteatro María Eva Duarte era amante do coronel Perón. Eles se conhecem num evento beneficente em 22 de janeiro de 1944 no Luna Park, em Buenos Aires, e se casam quatro dias depois da volta triunfal de Perón ao poder, em 17 de outubro de 1945, formando um casal sem paralelo na história política da América Latina.

Evita cuida das obras sociais do governo. É ministra do Trabalho e do Bem-Estar Social e preside a Fundação Eva Perón, criada em 1948, com orçamento anual de US$ 50 milhões, que distribui generosamente dinheiro, empregos e moradia para os descamisados, os migrantes vindos do interior.

Em entrevista ao escritor Tomás Eloy Martínez, em 1970, Perón declara que “Evita foi uma criação minha”, negando que a imagem de sua segunda mulher tenha se tornado maior do que a dele. Essa posição é defendida hoje por peronistas que acusam a oligarquia argentina de inflar o mito de Evita para torná-la maior do que o caudilho.

A primeira-dama é fundamental na campanha para a introdução do voto feminino, em 1947. Chega a ser cotada como candidata a vice-presidente, mas enfrenta forte resistência dos conservadores e militares. Um grande comício realizado pela CGT em 22 de agosto de 1951 é insuficiente para virar o jogo. Depois de uma tentativa de golpe em 28 de setembro, a candidatura Evita foi abandonada.

SANTA EVITA
Uma espécie de Cinderela vingadora, Eva Perón morre de câncer no útero menos de um ano depois, em 26 de julho de 1952, no auge de sua popularidade. Vira uma santa.

Seu funeral dura quatro dias para que todos possam dar adeus à mãe dos pobres. De maio de 1952 a julho de 1954, dois anos depois de sua morte, o Vaticano recebe mais de 40 mil cartas pedindo a canonização de Evita.

Mais da metade das meninas nascidas em algumas províncias argentinas naquela época são batizadas Eva ou María Eva. As adolescentes pintam o cabelo de louro. Evita dita a moda.

DISPUTA PELO CADÁVER
Quando Evita morre, o plano é construir um memorial em sua homenagem. Ela seria enterrada na base de um monumento aos descamisados. Como o líder da revolução comunista na Rússia, Vladimir Lenin, seu corpo embalsamado ficaria em exposição ao público.

Antes da conclusão da obra, Perón é derrubado pelo golpe militar de 1955 e foge sem se preocupar com a múmia de Evita, que desaparece da sede da CGT, em Buenos Aires, onde ficara. De 1955 a 1971, o peronismo é proscrito na Argentina. É proibido ter fotos de Eva e Juan Perón em casa e até mesmo citar seus nomes.

Em 1957, com a ajuda do Vaticano, o cadáver de Evita é retirado da Argentina e enterrado com nome falso na Itália.

Só em 1971 os militares revelam que a ex-primeira-dama está enterrada numa cripta em Milão, na Itália, com o nome de María Maggi. Naquele ano, o corpo é exumado e entregue ao general Perón no exílio na Espanha.

Depois da morte de Perón, em 1974, a terceira mulher do caudilho, María Estela Martínez de Perón, a Isabelita, assume o governo e repatriou o cadáver de Evita, que fica um tempo ao lado dos restos de Perón na Quinta de Olivos, residência oficial dos presidentes da Argentina.

Com o golpe militar de março de 1976, mais uma vez os peronistas temem pelo destino dos restos mortais da grande líder de massas. Em outubro daquele ano, sob a supervisão da ditadura, o cadáver de Evita é levado de Olivos para o Cemitério da Recoleta, onde estão enterrados os grandes líderes da oligarquia argentina, e sepultado no mausoléu da família Duarte.

QUEDA DE PERÓN
As políticas econômicas de Perón dão certo até 1949 por causa do sucesso das exportações durante e logo após a Segunda Guerra Mundial. Mas o preço dos produtos primários exportados pela Argentina cai e o aumento das importações para suprir a indústria deixam a balança comercial negativa. Há queda nos salários reais.

Reeleito com 62,5% dos votos em 11 de novembro de 1951, Perón tem um segundo governo muito mais difícil. Com a crise econômica e sem a carismática e angelical Evita a seu lado, o caudilho enfrenta oposição crescente dos estudantes e da Igreja Católica. Isso levou ao golpe liderado pelo general Eduardo Lonardi, chamado de Revolução Libertadora, em 16 de setembro de 1955.

Lonardi, reconhecendo a força do peronismo, tenta fazer um acordo. É afastado e substituído pelo general linha-dura Pedro Aramburu por adiar a desperonização. O Partido Justicialista (peronista) é dissolvido e há intervenção nos sindicatos.

SUCESSÃO DE GOLPES
Os peronistas continuaram sendo a maior força política argentina. Em 1958, apoiam a candidatura do radical Arturo Frondizi, que promete trazê-los de volta à legalidade. Frondizi é derrubado em março de 1962.

Até outubro de 1963, a Argentina é governada interinamente pelo Presidente do Senado, José María Guido, enquanto duas facções militares disputam o poder: os vermelhos, favoráveis a adotar mais dureza contra o peronismo, e os azuis, mais moderados, que acabam prevalecendo.

Um novo acordo para tentar reinstitucionalizar o país depois do golpe contra Perón leva à eleição de 7 de julho de 1963, vencida por Arturo Illia, derrubado em junho de 1966 pelo comandante do Exército, general Juan Carlos Onganía, que desfilara com a faixa presidencial no dia da posse de Illia.

Os governos militares de 1966 a 1973 são marcados por uma explosão social, o Cordobazo, em maio de 1969, na segunda maior cidade argentina, e pelas atividades de grupos guerrilheiros como o Exército Revolucionário do Povo (ERP), trotskista, e os Montoneros, peronistas, que capturam a matam o ex-ditador Aramburu.

Onganía é derrubado em junho de 1970 pelo general Roberto Levingston, substituído em 1971 pelo general Alejandro Lanusse, que promete restabelecer a democracia.

Com a volta do peronismo à legalidade, Héctor Cámpora é eleito presidente em março de 1973. Ao assumir, em maio, deixa claro que está apenas preparando a volta de Perón.

BATALHA DE EZEIZA
Depois de 18 anos no exílio, Perón volta definitivamente em 20 de junho de 1973. É recebido com a Batalha de Ezeiza, travada perto do aeroporto internacional de Buenos Aires entre a direita peronista, que incluía a temida Aliança Anticomunista Argentina (AAA), e a extrema esquerda, representada pelos Montoneros.

Da plataforma de onde Perón discursaria, franco-atiradores disparam contra a Juventude Peronista e os Montoneros. Pelo menos 13 pessoas morrem e outras 365 saem feridas do Massacre de Ezeiza. O jornal Clarín diz que na época que os números reais devem ser muito maiores. Não há uma investigação oficial sobre essa suspeita.

Em 23 de setembro de 1973, o velho caudilho é eleito presidente da Argentina pela terceira vez, com 62% dos votos, desta vez tendo a mulher como vice. Só que não era mais Evita. Era María Estela Martínez de Perón, uma bailarina de cabaré que ele conhece no exílio no Panamá.

GUERRA SUJA
Com a morte do general, em 1º de julho de 1974, Isabelita toma posse, tornando-se a primeira mulher presidente no mundo inteiro. Mas a crise do peronismo se aprofunda, o terrorismo de direita e de esquerda piora.

O golpe de 24 de março de 1976, liderado pelo general Jorge Rafael Videla e o almirante Emilio Massera, marca o início do “processo de reorganização nacional”, a guerra suja contra a esquerda argentina. O total de mortos e desaparecidos é estimado entre 12 e 30 mil, o que a torna a pior ditadura da América do Sul durante a Guerra Fria.

A sina macabra da história política argentina volta a se manifestar em 29 de junho de 1987, quando o túmulo de Perón é profanado e suas mãos serradas e roubadas.

DEMOCRATIZAÇÃO
    A democratização vem em 1983 depois da derrota na Guerra das Malvinas (1982). Os peronistas perdem sua primeira eleição para o radical Raúl Alfonsín, em 1983. Voltam ao poder com Carlos Menem (1989-99), Eduardo Duhalde (2002-3), Néstor Kirchner (2003-7), Cristina Kirchner (2007-15) e Alberto Fernández (2019-23).

A corrupção e o fracasso total dos últimos governos do peronismo kirchnerista e a ascensão do anarcocapitalismo do presidente Javier Milei são o maior abalo ao movimento político do general.

PRIMEIRO WALKMAN

    Em 1979, a empresa eletroeletrônica japonesa Sony, a mesma que havia popularizado o rádio de pilha nos anos 1950, lança o primeiro Walkman. 

Os radinhos não tinham a qualidade do som estereofônico que as pessoas ouviam em casa. O Walkman, com uma fita cassete, melhora a qualidade de som e cria a primeira geração de pessoas que andam pelas ruas de fones de ouvido, imersas no seu próprio mundo.

No primeiro mês, a Sony só vende 3 mil aparelhos. Em agosto, a estratégia de marketing muda radicalmente. Agentes da Sony abordam transeuntes nas ruas de Tóquio para que experimentem o novo invento. Antes do fim de agosto, os estoques se esgotam.

A criação do iPod, lançado pela Apple em 23 de outubro de 2001, acaba com a era do Walkman. Permite armazenar mil canções com uma bateria de 10 horas de duração. Hoje a música está integrada aos telefones inteligentes.

DEVOLUÇÃO DE HONG KONG

    Em 1997, mais de um século e meio depois da Primeira Guerra do Ópio (1839-42), o Reino Unido devolve Hong Kong à China, que promete manter o regime político liberal durante pelo menos 50 anos dentro da fórmula "um país, dois sistemas", que o então líder Deng Xiaoping cria pensando também na reunificação com Taiwan.

Com a Lei de Segurança Nacional imposta em 2020 a Hong Kong, o regime comunista chinês acaba, na prática, com as liberdades democráticas no território, quebrando o compromisso de mantê-las durante pelo menos 50 anos.

Ao festejar o aniversário da devolução, o ditador Xi Jinping costuma citar várias vezes "um país, dois sistemas", a fórmula que enterra para submeter a ex-colônia britânica a seu poder absoluto.

TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL

    Em 2002, começa a funcionar em Haia, na Holanda, o Tribunal Penal Internacional (TPI), criado pelo Estatuto de Roma (1998) para investigar e processar indivíduos envolvidos em casos de genocídio, crimes de guerra, crimes de agressão e crimes contra a humanidade quando há omissão da Justiça dos países-membros e assim combater a impunidade. Para instalar o tribunal, pelo menos 60 países precisam ratificar o Estatuto de Roma, o que acontece em 11 de abril de 2002.

Como não tem competência retroativa, o tribunal julga os casos acontecidos a partir desta data. Os Estados Unidos e a Rússia assinam o tratado, mas nunca ratificam. Os EUA queriam submeter o procurador-geral ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. A China e a Índia nem assinam. Em princípio, estes países estão imunes em seus territórios nacionais, mas não seus agentes no exterior ou mesmo seus governantes por crimes cometidos no exterior.

A ideia de criar um tribunal internacional para crimes de guerra surge na Conferência de Paz de Versalhes (1919) depois da Primeira Guerra Mundial (1914-18). A Liga das Nações realiza uma conferência em Genebra em 1937 para criar um tribunal internacional permanente para julgar atos de terrorismo internacional. Treze países assinam a convenção, mas nenhum a ratifica. Ela não entra em vigor.

Depois da Segunda Guerra Mundial, há a criação do Tribunal Militar Internacional de Nurembergue, na Alemanha, para julgar os criminosos nazistas, e o Tribunal Militar Internacional de Tóquio para julgar os japoneses, ambos temporários.

Durante a Guerra Fria entre EUA e União Soviética, a ideia de um tribunal penal internacional é inviável.

Nos anos 1990, há dois tribunais internacionais temporários para os crimes de guerra e contra a humanidade cometidos na Iugoslávia e em Ruanda. Em 1994, a Comissão de Direito Internacional apresenta o projeto do Tribunal Penal Internacional à Assembleia Geral da ONU e recomenda a realização de uma conferência internacional para aprová-lo.

Após várias reuniões preparatórias, a conferência é convocada para Roma. Em 17 de julho de 1998, 120 países aprovam o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional. Sete votam contra (Catar, China, EUA, Iêmen, Iraque, Israel e Líbia) e 21 se abstêm. Hoje 125 países são membros do tribunal.

Em 2009, o TPI decretou a prisão do ditador do Sudão, Omar Bachir, pelo genocídio da Darfur. Ele vai a uma reunião da União Africana na África do Sul. A Suprema Corte sul-africana manda prender, com base no compromisso do país como signatário do Estatuto de Roma, mas o governo não executa a ordem judicial.

Mesmo que a Rússia não seja parte do tribunal, em março de 2022, o tribunal emite uma ordem de prisão contra o ditador da Rússia, Vladimir Putin, por sequestro e deportação de menores ucranianos levados para russificação, o que configura crime de genocídio.

O TPI também investiga possíveis crimes de guerra cometidos por Israel e pelo Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) na Guerra de Gaza mesmo Israel não sendo parte porque a Palestina é e os crimes de que Israel é acusado aconteceram principalmente na Faixa de Gaza. 

Em 2024, o procurador-geral pediu a prisão do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e do ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, e de três dirigentes do Hamas, o líder máximo, Ismail Haniya; o comandante do braço armado do grupo, Mohamed Deif; e do líder em Gaza, Yahya Sinwar, considerado o mentor do ataque terrorista de 7 de outubro de 2023. Um painel de três juízes aceita o pedido, mas os três líderes do Hamas são mortos na guerra.

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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Hoje na História do Mundo: 19 de Dezembro

CONTO DE NATAL

    Em 1843, Um Conto de Natal, de Charles Dickens é publicado pela primeira vez e logo se transforma num clássico da literatura.

Durante uma noite de frio e neve, Londres se prepara para celebrar o Natal, menos o velho Ebenezer Scrooge, um negociante rico, pão-duro, rabugento e solitário. Ele recebe a visita redentora do fantasma de Jacob Marley, seu ex-sócio falecido, que lamenta ter passado a vida inteira se preocupando só com dinheiro.

Depois de receber visitas de outros fantasmas, Scrooge entende o espírito natalino e se torna uma pessoa generosa.

Dickens escreve Um Conto de Natal para chamar a atenção dos britânicos para as condições de vida dos trabalhadores pobres. Seu pai era um trabalhador com um salário razoável que cometia extravagâncias. Em 1824, quando Dickens tem 12 anos, o pai é preso por dívidas e ele vai trabalhar numa fábrica. O episódio marca profundamente a vida do autor.

GUERRA DA INDOCHINA

    Em 1946, o Viet Minh, o movimento nacionalista de esquerda liderado por Ho Chi Minh, inicia a Primeira Guerra da Indochina (1946-54) na luta pela independência da França.

O Império Francês toma a Indochina e a torna um protetorado em 1883. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45), o Império do Japão toma boa parte do Sudeste da Ásia. Quando o Japão se rende oficialmente, em 2 de setembro de 1945, Ho Chi Minh declara independência.

Como a França não aceita, o Viet Minh trava uma guerra de guerrilhas que termina com a vitória na Batalha de Dien Bien Phu, em 7 de maio de 1954. Um acordo de paz assinado em Genebra em 21 de julho de 1954 divide o Vietnã entre o Norte comunista e o Sul, apoiado pelos Estados Unidos.

Em 1955, haveria eleições para unificar o país. Diante da expectativa de vitória comunista, os EUA suspendem as eleições e começa a Segunda Guerra da Indochina ou Guerra do Vietnã (1955-75). Os EUA começam a enviar assessores militares ainda no governo Dwight Eisenhower (1953-61) e entram diretamente na guerra em 1964. Fazem um acordo de paz com o Vietnã do Norte e saem do conflito em 1973.

A guerra termina com a vitória do Vietnã do Norte, comunista, em 30 de abril de 1975.

PAZ NO ESPAÇO EXTERIOR

    Em 1966, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprova o Tratado do Espaço Sideral ou do Espaço Exterior, um acordo internacional para proibir a militarização do espaço.

Os Estados Unidos e a União Soviética, as duas superpotências que dominam o mundo durante a Guerra Fria, encaminham suas propostas, que são conciliadas no texto aprovado pela Assembleia Geral. 

O Tratado sobre os Princípios que Regem a Atividade dos Estados na Exploração e Uso do Espaço Exterior, inclusive na Lua e outros corpos celestes, é aberto para assinatura em 27 de janeiro de 1967. Entra em vigor em 10 de outubro do mesmo ano.

REINO UNIDO ACEITA DEVOLVER HONG KONG

    Em 1984, a primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, e o líder chinês Deng Xiaoping chegam a um acordo para que o Reino Unido devolva Hong Kong à China em 1º de julho de 1997.

No início das negociações, a primeira-ministra britânica chegou a falar em prorrogar o Tratado de Nanquim (1842) e a Convenção de Beijim (1860), pelos quais o Império Britânico tomou a colônia no fim das Guerras do Ópio (1839-42 e 1856-60) sob o pretexto da abrir a China ao livre comércio, inclusive de ópio.

Depois de 22 rodadas de negociações ao longo de dois anos, Thatcher aceita ceder a que era considerada a última joia do Império Britânico. Em troca, Deng cria a fórmula "um país com dois sistemas", prometendo manter o sistema capitalista e as liberdades democráticas em Hong Kong durante pelo menos 50 anos.

Thatcher está entusiasmada com as reformas lançadas por Deng em 13 de dezembro de 1978 na esperança de que a abertura econômica e a adesão da China ao capitalismo levem a uma liberalização do regime comunista chinês. Mas o massacre do movimento dos estudantes pela paz e a democracia na Praça da Paz Celestial, em Beijim, em 4 de junho, acaba com a chance de uma abertura política.

Diante de ondas de protestos no território, que tem status de região administrativa especial da República Popular da China, o ditador Xi Jinping, no poder desde 2012, impôs uma Lei de Segurança Nacional que na prática acaba com a autonomia de Hong Kong e enterra a fórmula "um país com dois sistemas", criada também tendo em vista a reintegração de Taiwan, que Xi ameaça fazer à força.

MULHER NO PODER NA COREIA DO SUL

    Em 2012, Park Geun Hye é a primeira mulher eleita presidente da Coreia do Sul. Ela também se torna, em 2017, a primeira líder do país eleita democraticamente afastada num processo de impeachment.

Ela nasce em Daegu, na Coreia do Sul, em 2 de fevereiro de 1952, filha do ditador Park Chung Hee, que governa o país de 1961 até a morte, em 1979. Vai com a família para Seul nos anos 1950. Cresce na Casa Azul, o palácio presidencial sul-coreano.

Em 1974, ela vira primeira-dama depois que a mãe morre numa tentativa de assassinato do pai por um agente da Coreia do Norte. Cinco anos depois, o pai é assassinado pelo diretor da Agência Central de Inteligência da Coreia (KCIA), Kim Jae Kyu.

Park Geun Hye é eleita em 1998  deputada da Assembleia Nacional pelo conservador Grande Partido Nacional. É reeleita quatro vezes antes de se candidatar à Presidência. Na campanha, ela resgata o lema do pai, "vamos viver bem", pede desculpas aos que sofreram sob seu regime e promete retomar os altos índices de crescimento econômico.

Seu governo é marcado pelo naufrágio do ferryboat Sewol, com mais de 300 mortes, em abril de 3024, em que a guarda costeira é acusada de negligência no socorro às vítimas.

O escândalo que a derruba estoura em 2016. O maior jornal sul-coreano, Chosun Ilbo, revela que o governo ameaça grandes empresas com auditorias se não contribuírem para duas fundações, supostamente instituições beneficentes, sem fins lucrativos, ligadas a Choi Soon Sil, amiga, confidente, guia espiritual da presidente e líder de uma seita chamada Igreja da Vida Eterna. As empresas doam US$ 70 milhões às fundações.

Choi é presa em novembro de 2016. Em 9 de dezembro do mesmo ano, a Assembleia Nacional aprova o impeachment. Pela Constituição da Coreia do Sul, a Corte Suprema tem de confirmar o impeachment por dois terços dos votos. Em 10 de março de 2017, por unanimidade, o Supremo confirma a decisão dos deputados.

A ex-presidente é presa, processada e condenada a 24 anos de prisão e multa de US$ 17 milhões em 6 de abril de 2018. A sentença depois é ampliada para 33 anos de prisão. Em novo julgamento, em 2020, a pena é reduzida para 20 anos. Em 2021, o presidente Moon Jae In lhe dá o indulto presidencial. Park sai da cadeia em 31 de dezembro daquele ano.

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sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Hoje na História do Mundo: 29 de Agosto

 FIM DO IMPÉRIO INCA

    Em 1533, o conquistador espanhol do Peru, Francisco Pizarro, executa o 13º e último imperador inca, Ataualpa, marco do fim de 300 anos da maior civilização pré-colombiana da América do Sul. Os incas ergueram um império com 14 milhões de súditos que, no seu auge, ia do Sul da Colômbia ao Norte do Chile.

Eles constroem sua civilização, o Império Inca ou Tahuantinsuyo, seu nome na língua quêchua, no altiplano da Cordilheira dos Andes, inicialmente no Peru. Não têm escrita, mas criam um governo sofisticado, com método estatístico, um sistema agrícola brilhante, grandes obras públicas e construções monumentais. Até hoje, a engenharia não explica como moveram pedras de toneladas.

Cinco anos antes de chegada dos conquistadores, uma disputa pela sucessão causa uma guerra civil ruinosa. Em 1532, Ataualpa vence o irmão Huáscar numa batalha perto de Cusco, a capital do império. Está consolidando o poder quando Pizarro chega com 180 homens.

Filho da aristocracia espanhola, Pizarro trabalha como criador de porcos quando jovem. Em 1502, se torna um soldado e vai para Hispaniola, a ilha hoje dividida entre Haiti e República Dominicana, onde Cristóvão Colombo começa a colonização da América em 1492.

Pizarro serve ao conquistador Alejandro de Ojeda na expedição à Colômbia, em 1510, e a Vasco Núñez Balboa quando este descobre o Oceano Pacífico, no Panamá, em 1513. 

Ao saber da grande riqueza do Império Inca, Pizarro se une a Diego de Almagro. Em 1524, eles saem do atual Panamá, mas só vão até onde hoje é o Equador. Na segunda expedição, entram no que hoje é território peruano, batizam a terra de Peru e a reivindicam para a coroa espanhola.

De volta ao Panamá, Pizarro planeja conquistar o Peru, mas não tem o apoio do governo colonial espanhol na América. Depois da conquista do México por Hernán Cortez, em 1521, Pizarro vai à Espanha em 1528 e consegue apoio do imperador Carlos V, do Sacro Império Romano-Germânico, que sonha em criar uma monarquia universal.

Em 15 de dezembro de 1532, o pequeno exército de Pizarro, com 180 soldados, chega a Cajamarca, onde Ataualpa relaxa em águas termais antes de marchar rumo a Cusco, a capital do irmão. O conquistador convida o imperador para uma festa.

Com um exército de 30 mil homens, logo depois de vencer a maior batalha da história inca, Ataualpa não teme os homens de Pizarro. É alvo de uma emboscada.

Ataualpa vai ao local do encontro com um séquito de milhares de homens aparentemente desarmados. Pizarro envia um padre como emissário e intima Ataualpa a aceitar a soberania do imperador Carlos V e o cristianismo. 

Quando o imperador inca rejeita e joga a Bíblia no chão, Pizarro ordena o ataque com arcabuzes, canhões e cavalaria, armas que os incas desconhecem. Milhares de incas são massacrados e Ataualpa é preso.

Mesmo pagando o maior resgate da história, Ataualpa é processado pela morte do irmão, por conspirar contra a coroa espanhola e outros delitos menores. Amarrado a um poste, tem a última escolha: ser queimado vivo ou se converter ao cristianismo e morrer pelo garrote vil. Na esperança de preservar seu corpo para mumificação, escolhe o garrote.

INÍCIO DA GUERRA DOS SETE ANOS

    Em 1756, a tentativa do Império Austríaco dos Habsburgo de reconquistar a Silésia, uma província oriental alemã tomada por Frederico II, da Prússia, na Guerra da Sucessão Austríaca (1740-48), dá início à Guerra dos Sete Anos (1756-63).

É a última grande guerra na Europa antes da Revolução Francesa. A Áustria, a França, a Rússia, a Saxônia e a Suécia enfrentam a Prússia, o Reino Unido, Portugal e Hanôver, que saem vencedores. Na América do Norte, a Guerra Franco-Indígena (1754-63) começa dois anos antes com uma guerra indígena em que algonquinos e hurões se aliam aos franceses e os iroqueses aos britânicos.

Em consequência da derrota, o Império Francês perde suas possessões na Índia e a maior parte das colônias na América do Norte para o Império Britânico. É uma guerra mundial, assim como a Guerra dos Trinta Anos (1618-48), quando a Holanda invade o Nordeste do Brasil.

A Guerra dos Sete Anos é uma das causas da independência dos Estados Unidos (1776) e da Revolução Francesa de 1789. Quando a coroa britânica aumenta impostos para recuperar as finanças abaladas pela guerra, os colonos norte-americanos, que sustentaram o esforço de guerra do Império Britânico com vidas e recursos materiais, se rebelam. Na França, além do custo econômico da guerra, invernos rigorosos reduzem a produção de alimentos e provocam a fome. 

CHINA CEDE HONG KONG

    Em 1842, no fim da Primeira Guerra do Ópio (1839-42), no Tratado de Nanquim, o imperador Dauguang, da Dinastia Ching (manchu), cede Hong Kong e paga indenização de US$ 21 milhões ao Império Britânico pelas vidas perdidas, abre cinco portos ao comércio, limita as tarifas de importação e exportação, e dá aos britânicos que cometam crimes em território chinês o direito de serem julgados por tribunais do Reino Unido.

É a primeira derrota e o primeiro tratado desigual do que os chineses chamam de "século da humilhação" diante dos imperialismos ocidental e japonês.

O tratado é assinado pelos cônsules negociadores Henry Pottinger, Chi Ying e Yi Libu a bordo do navio Cornwallis. As negociações começam depois que os britânicos tomam o porto de Zhenjiang em 23 de junho de 1839. São rápidas por causa da pouca experiência dos chineses em política externa e acordos comerciais. As cidades abertas a súditos da rainha Vitória são Cantão, Fuzhou, Ningbo, Xangai e Xiamei.

A China perde a Segunda Guerra do Ópio (1856-60) e a Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894-95) para o Japão, que invade a Manchúria em 1931 e as principais cidades da China em 1937 na Segunda Guerra Sino-Japonesa. A ocupação vai até o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-45).

O "século da humilhação" termina com a vitória da revolução comunista liderada por Mao Tsé-tung em 1º de outubro de 1949. Mao vai a Moscou assinar o Tratado de Aliança, Cooperação e Amizade com a União Soviética, em 14 de fevereiro de 1950, mas precisa esperar 50 dias no gelado inverno russo para ser recebido por Josef Stalin, que dita os termos do acordo.

Em 1º de julho de 1997, o Reino Unido devolve Hong Kong à China com a promessa de que o regime chinês manteria a autonomia do território durante 50, mas o ditador Xi Jinping rompe o compromisso ao impor uma Lei de Segurança Nacional draconiana em 30 de junho de 2020. Acaba assim com a fórmula "um país, dois sistemas", criada pelo então líder supremo Deng Xiaoping tendo em vista também a reunificação com Taiwan.

BOMBA NUCLEAR SOVIÉTICA

    Em 1949, a União Soviética explode sua primeira bomba atômica, chamada de Primeiro Raio, num remoto campo de testes em Semipalatinisk, no Casaquistão, acabando com o monópolio dos Estados Unidos em armas nucleares.

Desde 1939, o físico soviético Gueorgui Flyorov suspeita que as potências ocidentais estão desenvolvendo uma superbomba. Ele escreve uma carta ao ditador Josef Stalin propondo que a URSS faça a bomba atômica. O projeto é adiado pela invasão da Alemanha Nazista à URSS, em 22 de junho de 1941. No início, se limita a espionagem do Projeto Manhattan nos EUA.

Com a explosão das bombas de Hiroxima e Nagasáki pelos EUA no Japão em 6 a 9 de agosto de 1945, a URSS acelera o projeto com a captura de cientistas ligados ao projeto da bomba atômica da Alemanha e a espionagem nos EUA.

Para avaliar o impacto da explosão atômica de plutônio, feita com base na bomba de Nagasáki (Homem Gordo), os cientistas soviéticos constroem edifícios, pontes e outras estruturas urbanas. Também colocam mamíferos perto do local da explosão para ver o efeito da radiação. 

A bomba tem a força de 20 quilotons (20 mil toneladas de dinamite), mas ou menos a mesma potência da Trinity (Trindade), a primeira bomba detonada experimentalmente pelos EUA, em Alamogordo, no Novo México, em 16 de julho de 1945.

Começa o equilíbrio do terror nuclear.

FURACÃO KATRINA ARRASA

    Em 2005, o furacão de Katrina, de categoria 5 sobre o Oceano Atlântico e 3 ao chegar em terra, arrasa uma região do Sul dos Estados Unidos, especialmente a cidade de Nova Orleans, que é alagada em 80% de sua área, causando a morte de 1.836 pessoas, principalmente nos estados da Louisiana e do Mississípi, e prejuízos de mais de US$ 125 bilhões.

Outras 135 pessoas estão desaparecidas até hoje. Mesmo sendo apenas o terceiro furacão mais forte da temporada, é o terceiro pior da história dos EUA. Com a enchente, Nova Orleans vira uma terra sem lei. Gangues invadem casas abandonadas para roubar e atacam moradores que ficam na cidade.

Diante da omissão do governo George W. Bush com uma população flagelada majoritariamente negra, o jovem senador Barack Obama se destaca na linha de frente da ajuda às vítimas.

terça-feira, 1 de julho de 2025

Hoje na História do Mundo: 1º de Julho

 DIA DO CANADÁ

    Em 1867, o Império Britânico reconhece oficialmente o Canadá, uma confederação das províncias da Nova Escócia, Nova Brunswick e do Canadá, que seria dividida nas províncias de Ontário e do Quebec.

É o Dia do Canadá, a data nacional do país. A partir da união dessas províncias, o Canadá começa a conquistar autonomia dentro do Império Britânico e a ter seu próprio governo. O Parlamento Britânico e o governo do Reino Unido controlam as relações exteriores, a defesa nacional e as mudanças constitucionais.

O Canadá luta ao lado das forças britânicas em duas guerras mundiais, assim como australianos, indianos, paquistaneses e neozelandeses

Em 11 de dezembro de 1931, o Estatuto de Westminster, uma emenda do Parlamento Britânico, dá independência às ex-colônias britânicas da Austrália, do Canadá, da Zona Zelândia e da Irlanda. O governo irlandês ignora o estatuto por entender que o tratado da independência da Irlanda, de 1921, acabara com o direito do Parlamento de Westminster de legislar sobre seu país.

A Terra Nova também não adota o Estatuto de Westminster e se une ao Canadá em 1949, depois de um plebiscito realizado no ano anterior.

Com a aprovação da Lei de Constituição, em 1982, o Canadá se torna totalmente independente. 

INÍCIO DA BATALHA DO SOMME

    Em 1916, começa a Batalha do Somme, uma as maiores e mais importantes da Primeira Guerra Mundial (1914-18), travada pela França e o Império Britânico contra a Alemanha, que termina em 18 de novembro com a vitória dos aliados.


É o dia mais sangrento da história militar britânica, com 19.240 mortes.

Mais de 3 milhões de soldados lutam na Batalha do Somme. Entre mortos e feridos, o total de baixas é de mais de 1,1 milhão de homens, o que a torna uma das batalhas mais sangrentas da história.

NÃO PROLIFERAÇÃO NUCLEAR

    Em 1968, os Estados Unidos, a União Soviética, o Reino Unido e outros 59 países assinam o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) para conter a disseminação de armas atômicas pelo mundo. Entra em vigor em 5 de março de 1970. Hoje, tem 191 países signatários.

O TNP é controvertido desde o início porque cria duas categorias de países: as potências nucleares, que têm a bomba quando o acordo é fechado; e os países não nucleares, que recebem a promessa de receber ajuda para o uso pacífico da energia atômica e de que as potências nucleares se desarmariam, o que não é uma perspectiva realista. A Índia nunca assinou porque, como uma ex-colônia, não aceita acordos internacionais que a coloquem em inferioridade. 

Além das cinco potências nucleares que não por coincidência são os países com direito de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas (China, EUA, França, Reino Unido e Rússia), tem a bomba atômica hoje Israel, a Índia, o Paquistão e a Coreia do Norte. Esses quatro não fazem parte. A África do Sul democrática pós-apartheid abriu mão do programa nuclear militar da ditadura da minoria branca. O Brasil e a Argentina aderem quando assinam um acordo nuclear.

Se o tratado tem um vício de origem, o regime de não proliferação nuclear contém até agora a proliferação de armas atômicas. O maior candidato para entrar no clube sem autorização no momento é o Irã, que pode já ter adquirido capacidade nuclear. Se o Irã tiver armas atômicas, isso poderá deflagrar uma corrida armamentista no Oriente Médio. Outros países com ambição a potência regional, a Arábia Saudita, o Egito, a Síria e a Turquia, também vão querer.

MORTE DE PERÓN

    Em 1974, morre em Buenos Aires o político e militar Juan Domingo Perón, figura dominante da política na Argentina, depois de um terceiro e breve governo de menos de 10 meses.

Em 4 de junho de 1943, o Grupo de Oficiais Unidos, uma sociedade secreta nacionalista, derruba o presidente Ramón Castillo a pretexto de acabar com as fraudes eleitorais da “década infame”.

Entre eles, destaca-se o coronel Juan Domingo Perón, que é subsecretário do Ministério da Guerra, vice-presidente e ministro do Trabalho, onde implanta uma legislação trabalhista que lhe dá grande prestígio popular e o apoio dos sindicatos.

Perón melhora as condições de trabalho, consegue um aumento real de 4% nos salários de 1943 e 1946, cria a indenização para acidentes de trabalho, a Justiça do Trabalho, a Previdência Social, o salário mínimo, pagamento de feriados e férias, o 13º salário (conhecido na Argentina como aguinaldo), garante férias e o direito de sindicalização de trabalhadores rurais, limita a jornada de trabalho e congela os preços dos arrendamentos de terras.

DIA DA LEALDADE
Sob pressão da oligarquia e da ala conservadora do Exército, Perón é demitido em 9 de outubro de 1945 e preso quatro dias depois. Uma onda de protestos populares organizados pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) força a sua libertação em 17 de outubro, festejado pelos peronistas como Dia da Lealdade.

Naquele dia, Perón faz seu primeiro discurso triunfante na janela da Casa Rosada diante de uma multidão reunida na Praça de Maio, ao lado de sua segunda mulher, a atriz Maria Eva Duarte de Perón, a Evita, com quem se casa quatro dias depois, formando o casal que até hoje, muito depois de suas mortes, ainda domina a política argentina.

Com os votos de mais de 1,5 milhão de argentinos, 53% do eleitorado, Perón é eleito presidente da Argentina em 24 de fevereiro de 1946.

PERONISMO
Exemplo típico do populismo latino-americano, o peronismo, na definição do cientista político argentino Torcuato di Tella, é “uma aliança de parte da elite, como militares e industriais nacionalistas, com os trabalhadores para enfrentar outro segmento da elite, o mais conservador”, no caso argentino a oligarquia latifundiária exportadora.

Para os militares argentinos, que alimentam o sonho de hegemonia na América do Sul, argumenta Di Tella, os Estados Unidos, a potência hegemônica no continente, não armariam a Argentina para atacar o Brasil, que tinha uma política de alinhamento automático com Washington. A Argentina precisa de um desenvolvimento industrial autônomo.

 PRIMEIRO GOVERNO PERÓN
Ao tomar posse em 4 de junho de 1946, Perón promete justiça social e independência nacional. Entre 1946 e 1949, os salários dos operários da indústria argentina sobem em média 53%. A participação da massa salarial no produto interno bruto passa de 40,1% para 49%.

De 1930-35 a 1945-49, a produção industrial dobra. O número de fábricas passa de 38 mil em 1935 para 86 mil. Nesse período, o operariado cresce de 436 mil para mais de um milhão. O total de sindicalizados pula de 500 mil em 1946 para 2 milhões em 1950, quando a força de trabalho tem 5 milhões.

As greves crescem na mesma medida, de 500 mil dias de trabalho perdidos em 1945 para 2 milhões em 1946 e mais de 3 milhões em 1947.

Nos seus dois primeiros anos de governo, Perón nacionaliza o Banco Central, paga uma dívida bilionária com o Banco da Inglaterra, estatiza as ferrovias, a marinha mercante, as universidades, os serviços e transportes públicos. Em 1949, lança a ideia de uma terceira via entre o capitalismo e o comunismo para manter distância da Guerra Fria.

EVITA
Filha ilegítima de uma cozinheira, a cantora, modelo e atriz de teatro e radioteatro María Eva Duarte era amante do coronel Perón. Eles se conhecem num evento beneficente em 22 de janeiro de 1944 no Luna Park, em Buenos Aires, e se casam quatro dias depois da volta triunfal de Perón ao poder, em 17 de outubro de 1945, formando um casal sem paralelo na história política da América Latina.

Evita cuida das obras sociais do governo. É ministra do Trabalho e do Bem-Estar Social e preside a Fundação Eva Perón, criada em 1948, com orçamento anual de US$ 50 milhões, que distribui generosamente dinheiro, empregos e moradia para os descamisados, os migrantes vindos do interior.

Em entrevista ao escritor Tomás Eloy Martínez, em 1970, Perón declara que “Evita foi uma criação minha”, negando que a imagem de sua segunda mulher tenha se tornado maior do que a dele. Essa posição é defendida hoje por peronistas que acusam a oligarquia argentina de inflar o mito de Evita para torná-la maior do que o caudilho.

A primeira-dama é fundamental na campanha para a introdução do voto feminino, em 1947. Chega a ser cotada como candidata a vice-presidente, mas enfrenta forte resistência dos conservadores e militares. Um grande comício realizado pela CGT em 22 de agosto de 1951 é insuficiente para virar o jogo. Depois de uma tentativa de golpe em 28 de setembro, a candidatura Evita foi abandonada.

SANTA EVITA
Uma espécie de Cinderela vingadora, Eva Perón morre de câncer no útero menos de um ano depois, em 26 de julho de 1952, no auge de sua popularidade. Vira uma santa.

Seu funeral dura quatro dias para que todos possam dar adeus à mãe dos pobres. De maio de 1952 a julho de 1954, dois anos depois de sua morte, o Vaticano recebe mais de 40 mil cartas pedindo a canonização de Evita.

Mais da metade das meninas nascidas em algumas províncias argentinas naquela época são batizadas Eva ou María Eva. As adolescentes pintam o cabelo de louro. Evita dita a moda.

DISPUTA PELO CADÁVER
Quando Evita morre, o plano é construir um memorial em sua homenagem. Ela seria enterrada na base de um monumento aos descamisados. Como o líder da revolução comunista na Rússia, Vladimir Lenin, seu corpo embalsamado ficaria em exposição ao público.

Antes da conclusão da obra, Perón é derrubado pelo golpe militar de 1955 e foge sem se preocupar com a múmia de Evita, que desaparece da sede da CGT, em Buenos Aires, onde ficara. De 1955 a 1971, o peronismo é proscrito na Argentina. É proibido ter fotos de Eva e Juan Perón em casa e até mesmo citar seus nomes.

Em 1957, com a ajuda do Vaticano, o cadáver de Evita é retirado da Argentina e enterrado com nome falso na Itália.

Só em 1971 os militares revelam que a ex-primeira-dama está enterrada numa cripta em Milão, na Itália, com o nome de María Maggi. Naquele ano, o corpo é exumado e entregue ao general Perón no exílio na Espanha.

Depois da morte de Perón, em 1974, a terceira mulher do caudilho, María Estela Martínez de Perón, a Isabelita, assume o governo e repatriou o cadáver de Evita, que fica um tempo ao lado dos restos de Perón na Quinta de Olivos, residência oficial dos presidentes da Argentina.

Com o golpe militar de março de 1976, mais uma vez os peronistas temem pelo destino dos restos mortais da grande líder de massas. Em outubro daquele ano, sob a supervisão da ditadura, o cadáver de Evita é levado de Olivos para o Cemitério da Recoleta, onde estão enterrados os grandes líderes da oligarquia argentina, e sepultado no mausoléu da família Duarte.

QUEDA DE PERÓN
As políticas econômicas de Perón dão certo até 1949 por causa do sucesso das exportações durante e logo após a Segunda Guerra Mundial. Mas o preço dos produtos primários exportados pela Argentina cai e o aumento das importações para suprir a indústria deixam a balança comercial negativa. Há queda nos salários reais.

Reeleito com 62,5% dos votos em 11 de novembro de 1951, Perón tem um segundo governo muito mais difícil. Com a crise econômica e sem a carismática e angelical Evita a seu lado, o caudilho enfrenta oposição crescente dos estudantes e da Igreja Católica. Isso levou ao golpe liderado pelo general Eduardo Lonardi, chamado de Revolução Libertadora, em 16 de setembro de 1955.

Lonardi, reconhecendo a força do peronismo, tenta fazer um acordo. É afastado e substituído pelo general linha-dura Pedro Aramburu por adiar a desperonização. O Partido Justicialista (peronista) é dissolvido e há intervenção nos sindicatos.

SUCESSÃO DE GOLPES
Os peronistas continuaram sendo a maior força política argentina. Em 1958, apoiam a candidatura do radical Arturo Frondizi, que promete trazê-los de volta à legalidade. Frondizi é derrubado em março de 1962.

Até outubro de 1963, a Argentina é governada interinamente pelo Presidente do Senado, José María Guido, enquanto duas facções militares disputam o poder: os vermelhos, favoráveis a adotar mais dureza contra o peronismo, e os azuis, mais moderados, que acabam prevalecendo.

Um novo acordo para tentar reinstitucionalizar o país depois do golpe contra Perón leva à eleição de 7 de julho de 1963, vencida por Arturo Illia, derrubado em junho de 1966 pelo comandante do Exército, general Juan Carlos Onganía, que desfilara com a faixa presidencial no dia da posse de Illia.

Os governos militares de 1966 a 1973 são marcados por uma explosão social, o Cordobazo, em maio de 1969, na segunda maior cidade argentina, e pelas atividades de grupos guerrilheiros como o Exército Revolucionário do Povo (ERP), trotskista, e os Montoneros, peronistas, que capturam a matam o ex-ditador Aramburu.

Onganía é derrubado em junho de 1970 pelo general Roberto Levingston, substituído em 1971 pelo general Alejandro Lanusse, que promete restabelecer a democracia.

Com a volta do peronismo à legalidade, Héctor Cámpora é eleito presidente em março de 1973. Ao assumir, em maio, deixa claro que está apenas preparando a volta de Perón.

BATALHA DE EZEIZA
Depois de 18 anos no exílio, Perón volta definitivamente em 20 de junho de 1973. É recebido com a Batalha de Ezeiza, travada perto do aeroporto internacional de Buenos Aires entre a direita peronista, que incluía a temida Aliança Anticomunista Argentina (AAA), e a extrema esquerda, representada pelos Montoneros.

Da plataforma de onde Perón discursaria, franco-atiradores disparam contra a Juventude Peronista e os Montoneros. Pelo menos 13 pessoas morrem e outras 365 saem feridas do Massacre de Ezeiza. O jornal Clarín diz que na época que os números reais devem ser muito maiores. Não há uma investigação oficial sobre essa suspeita.

Em 23 de setembro de 1973, o velho caudilho é eleito presidente da Argentina pela terceira vez, com 62% dos votos, desta vez tendo a mulher como vice. Só que não era mais Evita. Era María Estela Martínez de Perón, uma bailarina de cabaré que ele conhece no exílio no Panamá.

GUERRA SUJA
Com a morte do general, em 1º de julho de 1974, Isabelita toma posse, tornando-se a primeira mulher presidente no mundo inteiro. Mas a crise do peronismo se aprofunda, o terrorismo de direita e de esquerda piora.

O golpe de 24 de março de 1976, liderado pelo general Jorge Rafael Videla e o almirante Emilio Massera, marca o início do “processo de reorganização nacional”, a guerra suja contra a esquerda argentina. O total de mortos e desaparecidos é estimado entre 12 e 30 mil, o que a torna a pior ditadura da América do Sul durante a Guerra Fria.

A sina macabra da história política argentina volta a se manifestar em 29 de junho de 1987, quando o túmulo de Perón é profanado e suas mãos serradas e roubadas.

DEMOCRATIZAÇÃO
    A democratização vem em 1983 depois da derrota na Guerra das Malvinas (1982). Os peronistas perdem sua primeira eleição para o radical Raúl Alfonsín, em 1983. Voltam ao poder com Carlos Menem (1989-99), Eduardo Duhalde (2002-3), Néstor Kirchner (2003-7), Cristina Kirchner (2007-15) e Alberto Fernández (2019-23).

A corrupção e o fracasso total dos últimos governos do peronismo kirchnerista e a ascensão do anarcocapitalismo do presidente Javier Milei são o maior abalo ao movimento político do general.

PRIMEIRO WALKMAN

    Em 1979, a empresa eletroeletrônica japonesa Sony, a mesma que havia popularizado o rádio de pilha nos anos 1950, lança o primeiro Walkman. 

Os radinhos não tinham a qualidade do som estereofônico que as pessoas ouviam em casa. O Walkman, com uma fita cassete, melhora a qualidade de som e cria a primeira geração de pessoas que andam pelas ruas de fones de ouvido, imersas no seu próprio mundo.

No primeiro mês, a Sony só vende 3 mil aparelhos. Em agosto, a estratégia de marketing muda radicalmente. Agentes da Sony abordam transeuntes nas ruas de Tóquio para que experimentem o novo invento. Antes do fim de agosto, os estoques se esgotam.

A criação do iPod, lançado pela Apple em 23 de outubro de 2001, acaba com a era do Walkman. Permite armazenar mil canções com uma bateria de 10 horas de duração. Hoje a música está integrada aos telefones inteligentes.

DEVOLUÇÃO DE HONG KONG

    Em 1997, mais de um século e meio depois da Primeira Guerra do Ópio (1839-42), o Reino Unido devolve Hong Kong à China, que promete manter o regime político liberal durante pelo menos 50 anos dentro da fórmula "um país, dois sistemas", que o então líder Deng Xiaoping cria pensando também na reunificação com Taiwan.

Com a Lei de Segurança Nacional imposta em 2020 a Hong Kong, o regime comunista chinês acaba, na prática, com as liberdades democráticas no território, quebrando o compromisso de mantê-las durante pelo menos 50 anos.

Ao festejar o aniversário da devolução, o ditador Xi Jinping costuma citar várias vezes "um país, dois sistemas", a fórmula que enterra para submeter a ex-colônia britânica a seu poder absoluto.

TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL

    Em 2002, começa a funcionar em Haia, na Holanda, o Tribunal Penal Internacional (TPI), criado pelo Estatuto de Roma (1998) para investigar e processar indivíduos envolvidos em casos de genocídio, crimes de guerra, crimes de agressão e crimes contra a humanidade quando há omissão da Justiça dos países-membros e assim combater a impunidade. Para instalar o tribunal, pelo menos 60 países precisam ratificar o Estatuto de Roma, o que acontece em 11 de abril de 2002.

Como não tem competência retroativa, o tribunal julga os casos acontecidos a partir desta data. Os Estados Unidos e a Rússia assinam o tratado, mas nunca ratificam. Os EUA queriam submeter o procurador-geral ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. A China e a Índia nem assinam. Em princípio, estes países estão imunes em seus territórios nacionais, mas não seus agentes no exterior ou mesmo seus governantes por crimes cometidos no exterior.

A ideia de criar um tribunal internacional para crimes de guerra surge na Conferência de Paz de Versalhes (1919) depois da Primeira Guerra Mundial (1914-18). A Liga das Nações realiza uma conferência em Genebra em 1937 para criar um tribunal internacional permanente para julgar atos de terrorismo internacional. Treze países assinam a convenção, mas nenhum a ratifica. Ela não entra em vigor.

Depois da Segunda Guerra Mundial, há a criação do Tribunal Militar Internacional de Nurembergue, na Alemanha, para julgar os criminosos nazistas, e o Tribunal Militar Internacional de Tóquio para julgar os japoneses, ambos temporários.

Durante a Guerra Fria entre EUA e União Soviética, a ideia de um tribunal penal internacional é inviável.

Nos anos 1990, há dois tribunais internacionais temporários para os crimes de guerra e contra a humanidade cometidos na Iugoslávia e em Ruanda. Em 1994, a Comissão de Direito Internacional apresenta o projeto do Tribunal Penal Internacional à Assembleia Geral da ONU e recomenda a realização de uma conferência internacional para aprová-lo.

Após várias reuniões preparatórias, a conferência é convocada para Roma. Em 17 de julho de 1998, 120 países aprovam o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional. Sete votam contra (Catar, China, EUA, Iêmen, Iraque, Israel e Líbia) e 21 se abstêm. Hoje 125 países são membros do tribunal.

Em 2009, o TPI decretou a prisão do ditador do Sudão, Omar Bachir, pelo genocídio da Darfur. Mesmo que a Rússia não seja parte do tribunal, em março de 2022, o tribunal emite uma ordem de prisão contra o ditador da Rússia, Vladimir Putin, por sequestro e deportação de menores ucranianos levados para russificação, o que configura crime de genocídio.

O TPI também investiga possíveis crimes de guerra cometidos por Israel e pelo Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) na Guerra de Gaza mesmo Israel não sendo parte porque a Palestina é e os crimes de que Israel é acusado aconteceram principalmente na Faixa de Gaza. 

Em maio, o procurador-geral pediu a prisão do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e do ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, e de três dirigentes do Hamas, o líder máximo, Ismail Haniya; o comandante do braço armado do grupo, Mohamed Deif; e do líder em Gaza, Yahya Sinwar, considerado o mentor do ataque terrorista de 7 de outubro de 2023. Um painel de três juízes aceita o pedido, mas os três líderes do Hamas são mortos na guerra.