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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Hoje na História do Mundo: 10 de Novembro

  FUZILEIROS NAVAIS

    Em 1775, durante a Guerra da Independência dos Estados Unidos (1775-83), o Congresso Continental aprova uma resolução para criar "dois batalhões de fuzileiros navais", soldados de infantaria embarcados na recém-criada Marinha para desembarcar em operações de assalto anfíbio.

A data é comemorada como o nascimento do Corpo dos Fuzileiros Navais, uma das armas das Forças Armadas dos EUA. 

Depois do fim da guerra, tanto a Marinha quanto os batalhões de fuzileiros navais são desmobilizados. Mas os conflitos no mar com a França revolucionária levam à recriação da Marinha em maio de 1798. Dois meses depois, em 11 de julho, o Corpo de Fuzileiros Navais torna-se uma força permanente, sob o controle do Departamento da Marinha.

Além da quase guerra com a França, os fuzileiros navais combatem a pirataria no Oceano Atlântico e invadem o Marrocos. Até hoje, os marines participaram de mais de 300 invasões norte-americanas. Os EUA têm hoje cerca de 170 mil fuzileiros navais e mais 33 mil reservistas da arma.

"DR. LIVINGSTONE, EU PRESUMO"

    Em 1871, o jornalista britânico Henry Stanley encontra o Dr. David Livingstone, médico, cientista, missionário e abolicionista escocês, talvez o mais famoso dos exploradores africanos.

O Dr. Livingstone viaja por todo o Deserto do Kalahari, percorre o Rio Zambeze e descobre as espetaculares Cataratas de Vitória, em 16 de novembro de 1855, batizando-as em homenagem à Rainha da Inglaterra.

A área é preservada hoje como Parque Nacional Mosi-oa-Tunya (Fumo que Troveja), o nome local da cachoeira, na Zâmbia. Desde 1989, é patrimônio cultural da humanidade mantido pela Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura).

Ao chegar à foz do Zambeze, no Oceano Índico, em 1842, o Dr. Livingstone se torna o primeiro ocidental a cruzar a África Meridional de costa a costa. Em 15 anos, atravessa duas vezes o Deserto de Kalahari, vai de Angola a Moçambique pelo Zambeze, descobre as cataratas de Vitória e é o primeiro europeu a atravessar o Lago Tanganica. Cruza o Quênia, a Tanzânia e Uganda.

Em 1866, o Dr. Livingstone sai do porto de Zanzibar, no Oceano Índico, para chegar ao Lago Niassa. Abandonado por guias africanos que roubam a comida e os medicamentos, enfraquecido pela malária, chega à aldeia Ujiji, no lago Tanganica.

Desaparecido há anos, é dado como morto na Inglaterra quando quando o jornal nova-iorquino New York Herald encarrega o repórter Henry Stanley de encontrá-lo, em março de 1871. Com um batalhão de 200 guias e carregadores, ele encontra o Dr. Livingstone entre 24 e 28 de outubro, de acordo com o diário do explorador, ou em 10 de novembro de 1871, de acordo com Stanley. 

Ao encontrar o explorador, Stanley diz uma frase que entrou para a história: “Dr. Livingstone, eu presumo?” A resposta: “Sim, eu me sinto muito grato por recebê-lo”. Stanley insiste para que volte para a Inglaterra, mas Livingstone tinha dedicado sua vida à África. Frágil e doente depois de muitas malárias, David Livingstone morre na aldeia do chefe chitambo, na Rodésia do Norte, hoje Zâmbia, em 1º de maio de 1873. 

 ESTADO NOVO

    Em 1937, o presidente Getúlio Vargas dá um golpe de Estado, fecha o Congresso, impõe uma Constituição outorgada e instaura a ditadura do Estado Novo, um período marcado pelo autoritarismo, o nacionalismo, a censura, a tortura e o anticomunismo, sob inspiração do nazifascismo europeu.

A desculpa para o golpe é o Plano Cohen, uma suposta conspiração comunista para tomar o poder no Brasil. Mais tarde, sabe-se que é  forjado pelo capitão Olímpio Mourão Filho, o mesmo que, como coronel, deflagra o golpe militar de 1964 ao marchar da guarnição de Juiz de Fora rumo ao Rio de Janeiro.

Em manifesto à nação, Vargas alega que o golpe visa a "ajustar o organismo político às necessidades econômicas do país".

A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial (1939-45) ao lado dos Estados Unidos e os ataques de submarinos alemães a navios brasileiros no Oceano Atlântico afastam o Brasil do nazifascismo. 

Com o fim da guerra, Vargas cai e o país vive seu primeiro período democrático, sob a Constituição de 1946, até o golpe militar de 31 de março de 1964, início de uma ditadura de 21 anos.

SARO-WIWA ENFORCADO

    Em 1995, a ditadura do general Sani Abacha enforca o escritor e ativista nigeriano Ken Saro-Wiwa e outros oito militantes do Movimento pela Sobrevivência do Povo Ogôni.

O escritor pretexta inocência e afirma estar sendo condenado por criticar a exploração de petróleo nas terras da etnia ogôni pela empresa multinacional Shell, mas Abacha rejeita os pedidos de clemência e até mesmo de adiar a execução.

A ditadura acaba com a morte de Abacha, em 8 de junho de 1998, envenenado, possivelmente com Viagra falsificado, quando se divertia com duas prostitutas. Desde então, a Nigéria vive um período democrático.

RENÚNCIA DE EVO

    Em 2019,  o primeiro presidente indígena da Bolívia, Evo Morales, renuncia e foge para o México sob pressão de uma onda de violência depois que a Organização dos Estados Americanos (OEA) considera sua reeleição fraudulenta. Evo, ex-líder sindical dos produtores de coca, afirma ter sido vítima de um golpe de Estado.

No poder desde 2006, Morales, como fiel discípulo de Fidel Castro e Hugo Chávez, não tem a menor intenção de entregar o poder. Por força da Constituição aprovada por sua iniciativa, não pode concorrer a um terceiro mandato, mas alega, em 2014, que sua primeira eleição, em 2005, fora sob a Constituição anterior.

Em 2016, Evo Morales perde um plebiscito para acabar com limites à reeleição. Mesmo assim, recorre ao Tribunal Constitucional alegando, com base em decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, o Tribunal de São José, em outro caso, que ser candidato é um direito humano fundamental.

Como dificilmente venceria no segundo turno, quanto toda a oposição se uniria ao redor de Mesa, Morales frauda a eleição e grita golpe quando a população revoltada sai às ruas. Depois de se negar a fazer qualquer concessão, em 30 de outubro, Morales aceita uma auditoria da OEA.

A missão da OEA suspeita desde a mudança abrupta no resultado depois de interrupções na apuração. A auditoria revela que houve seções eleitorais sem nenhuma abstenção, urnas em que todas as cédulas foram preenchidas pela mesma pessoa e irregularidades na transmissão dos resultados para o Tribunal Supremo Eleitoral.

Morales aceita, então, realizar nova eleição com novas autoridades eleitorais, como recomenda a OEA. A oposição exige que ele não se candidate à reeleição. Diante do impasse e do risco de aumento da violência, os comandantes das Forças Armadas e da Polícia e a poderosa Central Operária Boliviana (COB) sugerem a renúncia do presidente.

Tecnicamente, é um golpe de Estado porque comandantes militares não podem recomendar a renúncia do presidente. Na realidade, é um contragolpe, depois dos golpes de Morales ao forçar mais uma reeleição e fraudar a eleição.

A renúncia coletiva dele e dos presidentes da Câmara e do Senado é o terceiro golpe de Evo Morales contra as instituições e a democracia bolivianas. Deixa o Estado totalmente acéfalo, apostando no caos para tentar voltar ao poder como salvador da pátria, e fuge para o exílio no México.

Morales regressa do exílio e o MAS volta ao poder em 2020 com a eleição Luis Arce, seu ministro de Economia e Finanças. Hoje Morales trava uma guerra interna dentro do partido contra Arce para ser candidato à Presidência em 2025. 

Com a guerra interna, o MAS recebe apenas 3% dos votos na eleição presidencial deste ano. Rodrigo Paz Pereira, de centro-direita, é eleito no segundo turno.

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segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Candidato de centro-direita vence na Bolívia

 O senador Rodrigo Paz Pereira, do Partido Democrata-Cristão (PDC), de centro-direita, foi eleito presidente da Bolívia no domingo no segundo turno acabando com 20 anos de supremacia do Movimento ao Socialismo (MAS), liderada pelo ex-presidente Evo Morales e pelo atual presidente, Luis Arce, que estão rompidos.

Rodrigo Paz, de 58 anos, filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora (1989-93) e neto do ex-presidente Victor Paz Estenssoro, foi a grande surpresa no primeiro e no segundo turnos. Não era o favorito nas pesquisas. Conquistou 54.5% dos 7,9 milhões de votos ontem contra 45.5% do ex-presidente Jorge Tuto Quiroga, que cumprimentou o adversário por telefone. Paz ganhou em seis dos nove departamentos bolivianos, mas perdeu em Tarija, que representa no Senado.

No discurso da vitória, o presidente eleito fez um apelo à governabilidade, já que não terá maioria absoluta no Congresso. Seu partido elegeu 47 dos 130 deputados da Assembleia Nacional e 16 dos 36 senadores: "O povo boliviano elegeu outros grupos políticos e não se pode trair as decisões do povo. A Bolívia pode ter a certeza de que este será um governo para todos os homens e mulheres que quiserem reconstruir a pátria."

Ele nasceu em Santiago de Compostela, na Espanha, em 22 de setembro de 1967, quando seu pai estava no exílio. Paz Zamora foi fundador e líder do Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR). A familía voltou ao país quando a democracia foi restaurada, em 1982.

O novo presidente foi vereador, presidente da Câmara Municipal e prefeito de Tarija, deputado, senador e vice-presidente do Senado. Rodrigo Paz agradeceu aos presidente do Equador, dos EUA, do Panamá, do Paraguai, do Peru e do Uruguai, que o cumprimentaram pela vitória. 

Seu maior desafio é promover a reconciliação nacional depois de uma radicalização nas últimas décadas e unir o país em torno de um programa para enfrentar a crise econômica. Depois de um crescimento vigoroso nos governos de Morales, a Bolívia está em recessão pela primeira vez em 39 anos. A economia encolheu 2,4% no primeiro semestre. A inflação passa de 20% ao ano. 

O novo governo toma posse em 8 de novembro. Será a primeira vez em 28 anos na Bolívia em que um governo eleito democraticamente passará o poder normalmente a um governo também eleito de oposição.

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segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Direita vence eleição presidencial na Bolívia

Depois de 20 anos de domínio do Movimento ao Socialismo (MAS), liderado pelo ex-presidente Evo Morales, a direita volta ao poder na Bolívia. Dois candidatos de oposição, Rodrigo Paz Pereira (dir.) e o ex-presidente Jorge Tuto Quiroga (esq.), vão disputar o segundo turno, em 19 de outubro. Impedido de se candidatar, Morales fez campanha pelo voto nulo.

Com 92% das urnas apuradas, Paz Pereira, do Partido Democrata Cristão (PDC) liderava com 1.566.744 votos (32,09%) contra 1.314.281 de Quiroga (26,93%), da coalizão Livre. Samuel Doria Medina, da Unidade, é o terceiro com 972.444 (19,9%); seguido por Andrónico Rodríguez, da Aliança Popular, com 396.134 (8,11%); e Manfred Reyes Villa, da AFP Súmate, com 323.884 (6,63%). 

O  MAS, dividido entre as facções de Morales e do atual presidente Luis Arce, ficou em sexto lugar com a candidatura do presidente do Senado, Eduardo Del Castillo, que recebeu 153.538 votos (3,14%). O voto nulo defendido por Morales teve 19%.

A surpresa foi Rodrigo Paz, que aparecia em terceiro lugar nas pesquisas mais favoráveis. Filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora (1989-93), ele nasceu no exterior quando a família estava no exílio durante uma ditadura militar. O favorito era Samuel Doria, que disputa a eleição presidencial pela quarta vez. Ficou em terceiro lugar e anunciou apoio a Rodrigo Paz.

Além da divisão da esquerda, a derrota do governo se deve à crise econômica, com o esgotamento das reservas em dólar, a queda das exportações de gás, que embalaram o crescimento dos governos de Morales, e uma inflação de 25% ao ano.

Em seu primeiro pronunciamento após a vitória no primeiro turno, Paz declarou que os bolivianos "não estão pedindo apenas uma mudança de governo, mas uma mudança do sistema político. É o início de uma grande transformação."

domingo, 10 de novembro de 2024

Hoje na História do Mundo: 10 de Novembro

 FUZILEIROS NAVAIS

    Em 1775, durante a Guerra da Independência dos Estados Unidos (1775-83), o Congresso Continental aprova uma resolução para criar "dois batalhões de fuzileiros navais", soldados de infantaria embarcados na recém-criada Marinha para desembarcar em operações de assalto anfíbio.

A data é comemorada como o nascimento do Corpo dos Fuzileiros Navais, uma das armas das Forças Armadas dos EUA. 

Depois do fim da guerra, tanto a Marinha quanto os batalhões de fuzileiros navais são desmobilizados. Mas os conflitos no mar com a França revolucionária levam à recriação da Marinha em maio de 1798. Dois meses depois, em 11 de julho, o Corpo de Fuzileiros Navais torna-se uma força permanente, sob o controle do Departamento da Marinha.

Além da quase guerra com a França, os fuzileiros navais combatem a pirataria no Oceano Atlântico e invadem o Marrocos. Até hoje, os marines participaram de mais de 300 invasões norte-americanas. Os EUA têm hoje 181,2 mil fuzileiros navais.

"DR. LIVINGSTONE, EU PRESUMO"

    Em 1871, o jornalista britânico Henry Stanley encontra o Dr. David Livingstone, médico, cientista, missionário e abolicionista escocês, talvez o mais famoso dos exploradores africanos.

O Dr. Livingstone viaja por todo o Deserto do Kalahari, percorre o Rio Zambeze e descobre as espetaculares Cataratas de Vitória, em 16 de novembro de 1855, batizando-as em homenagem à Rainha da Inglaterra.

A área é preservada hoje como Parque Nacional Mosi-oa-Tunya (Fumo que Troveja), o nome local da cachoeira, na Zâmbia. Desde 1989, é patrimônio cultural da humanidade mantido pela Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura).

Ao chegar à foz do Zambeze, no Oceano Índico, em 1842, o Dr. Livingstone se torna o primeiro ocidental a cruzar a África Meridional de costa a costa. Em 15 anos, atravessa duas vezes o Deserto de Kalahari, vai de Angola a Moçambique pelo Zambeze, descobre as cataratas de Vitória e é o primeiro europeu a atravessar o Lago Tanganica. Cruza o Quênia, a Tanzânia e Uganda.

Em 1866, o Dr. Livingstone sai do porto de Zanzibar, no Oceano Índico, para chegar ao Lago Niassa. Abandonado por guias africanos que roubam a comida e os medicamentos, enfraquecido pela malária, chega à aldeia Ujiji, no lago Tanganica.

Desaparecido há anos, é dado como morto na Inglaterra quando quando o jornal nova-iorquino New York Herald encarrega o repórter Henry Stanley de encontrá-lo, em março de 1871. Com um batalhão de 200 guias e carregadores, encontra o Dr. Livingstone entre 24 e 28 de outubro, de acordo com o diário do explorador, ou 10 de novembro de 1871. 

Ao encontrar o explorador, Stanley diz uma frase que entrou para a história: “Dr. Livingstone, eu presumo?” A resposta: “Sim, eu me sinto muito grato por recebê-lo”. Stanley insiste para que volte para a Inglaterra, mas Livingstone tinha dedicado sua vida à África. Frágil e doente depois de muitas malárias, David Livingstone morre na aldeia do chefe chitambo, na Rodésia do Norte, hoje Zâmbia, em 1º de maior de 1873. 

 ESTADO NOVO

    Em 1937, o presidente Getúlio Vargas dá um golpe de Estado, impõe uma Constituição outorgada, fecha o Congresso e instaura a ditadura do Estado Novo, um período marcado pelo autoritarismo, o nacionalismo, a censura, a tortura e o anticomunismo, sob inspiração do nazifascismo europeu.

A desculpa para o golpe é o Plano Cohen, uma suposta conspiração comunista para tomar o poder no Brasil. Mais tarde, sabe-se que é  forjado pelo capitão Olímpio Mourão Filho, o mesmo que, como coronel, deflagra o golpe militar de 1964 ao marchar da guarnição de Juiz de Fora rumo ao Rio de Janeiro.

Em manifesto à nação, Vargas alega que o golpe visa a "ajustar o organismo político às necessidades econômicas do país".

A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial (1939-45) ao lado dos Estados Unidos e os ataques de submarinos alemães a navios brasileiros no Oceano Atlântico afastam o Brasil do nazifascismo. 

Com o fim da guerra, Vargas cai e o país vive seu primeiro período democrático, sob a Constituição de 1946, até o golpe militar de 31 de março de 1964, início de uma ditadura de 21 anos.

SARO-WIWA ENFORCADO

    Em 1995, a ditadura do general Sani Abacha enforca o escritor e ativista nigeriano Ken Saro-Wiwa e outros oito militantes do Movimento pela Sobrevivência do Povo Ogôni.

O escritor pretexta inocência e afirma estar sendo condenado por criticar a exploração de petróleo nas terras da etnia ogôni pela empresa multinacional Shell, mas Abacha rejeita os pedidos de clemência e até mesmo de adiar a execução.

A ditadura acaba com a morte de Abacha, em 8 de junho de 1998, envenenado, possivelmente com Viagra falsificado, quando fazia festa com duas prostitutas. Desde então, a Nigéria vive um período democrático.

RENÚNCIA DE EVO

    Em 2019,  o primeiro presidente indígena da Bolívia, Evo Morales, renuncia e foge para o México sob pressão de uma onda de violência depois que a Organização dos Estados Americanos (OEA) considera sua reeleição fraudulenta. Ex-líder sindical dos produtores de coca, afirma ter sido vítima de um golpe de Estado.

No poder desde 2006, Morales, como fiel discípulo de Fidel Castro e Hugo Chávez, não tem a menor intenção de entregar o poder. Por força da Constituição aprovada por sua iniciativa, não pode concorrer a um terceiro mandato, mas alega, em 2014, que sua primeira eleição, em 2005, fora sob a Constituição anterior.

Em 2016, Evo Morales perdeu um plebiscito para acabar com limites à reeleição. Mesmo assim, recorre ao Tribunal Constitucional alegando, com base em decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos em outro caso, que ser candidato é um direito humano fundamental.

Como dificilmente venceria no segundo turno, quanto toda a oposição se uniria ao redor de Mesa, Morales frauda a eleição e grita golpe quando a população revoltada sai às ruas. Depois de se negar a fazer qualquer concessão, em 30 de outubro, Morales aceita uma auditoria da OEA.

A missão da OEA suspeita desde a mudança abrupta no resultado depois das interrupções na apuração. A auditoria revela que houve seções eleitorais sem nenhuma abstenção, urnas em que todas as cédulas foram preenchidas pela mesma pessoa e irregularidades na transmissão dos resultados para o Tribunal Supremo Eleitoral.

Morales aceita, então, realizar nova eleição com novas autoridades eleitorais, como recomenda a OEA. A oposição exige que ele não se candidate à reeleição. Diante do impasse e do risco de aumento da violência, os comandantes das Forças Armadas e da Polícia e a poderosa Central Operária Boliviana (COB) sugerem a renúncia do presidente.

Tecnicamente, é um golpe de Estado. Na realidade, é um contragolpe, depois dos golpes de Morales ao forçar mais uma reeleição e roubar a eleição.

A renúncia coletiva dele e dos presidentes da Câmara e do Senado é o terceiro golpe de Evo Morales contra as instituições e a democracia bolivianas. Deixa o Estado totalmente acéfalo, apostando no caos para tentar voltar ao poder como salvador da pátria, e fuge para o exílio no México.

Morales regressa do exílio e o MaS volta ao poder em 2020 com a eleição Luis Arce, seu ministro de Economia e Finanças. Hoje Morales trava uma guerra interna dentro do partido contra Arce para ser candidato à Presidência em 2025.

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Ex-comandante do Exército tenta dar golpe na Bolívia

O general Juan José Zúñiga, ex-comandante do Exército da Bolívia, foi preso hoje depois de tentar derrubar o governo numa tentativa de golpe fracassada. Zúñiga havia sido demitido ontem por ameaçar prender o ex-presidente Evo Morales se ele se candidatar a presidente.

Um dos países mais pobres da América do Sul, sem saída para o mar, que perdeu para o Chlle na Guerra do Pacífico (1879-83), a Bolívia tem uma longa história de instabilidade política. Foi palco de 194 tentativas de golpe de Estado até hoje. 

Desta vez, os militares rebeldes ocuparam a Praça Murillo, no Centro de La Paz, e invadiram o Palácio Queimado, que tem este nome porque foi incendiado numa revolta popular em 1875. O presidente Luis Arce, do partido Movimento ao Socialismo (MAS), não estava lá. Estava no novo palácio presidencial, a Casa Grande de Governo.

Arce peitou o general golpista, xingado por populares, e ordenou, como seu chefe supremo, que retirasse suas tropas e tanques das ruas. Foi um golpe rápido. Durou cerca de três horas.

Zúñiga exigia que Evo não seja mais candidato a presidente e a libertação da ex-presidente interina Jeanine Áñez e do governador do Departamento de Santa Cruz, Luis Fernando Camacho. Os dois repudiaram o golpe. 

Na segunda-feira, Zúñiga declarou que prenderia Evo se o ex-presidente se candidatasse de novo. O general também queria um novo ministério e declarou que reconhecia Arce como comandante em chefe em chefe "por enquanto". É investigado por corrupção.

Em seguida, o presidente empossou os novos comandantes das Forças Armadas. Ao ser preso, o general golpista alegou que combinara o golpe com o presidente para melhorar a popularidade de Arce, abalada por uma crise econômica. 

O ex-vice-almirante Juan Arnez Salvador também foi detido por participar da conspiração golpista. A Marinha boliviana, alvo de ironia porque o país não tem saída para o mar, também participa de goles.

A inflação em alta, a falta de dólares, o aumento do desemprego e problemas na distribuição de combustíveis abalam a popularidade do governo esquerdista, que ainda enfrenta um conflito interno entre Evo Morales, que quer voltar ao poder, e o presidente Arce, que foi ministro de Economia e Finanças de Evo. Ambos querem se candidatar à Presidência em 2025.

Arce é considerado o arquiteto do crescimento de 344% e na queda da pobreza extrema de 38% para 15% da população nos governos de Morales. 

A Argentina, o Brasil, o Chile, a Colômbia, a Guatemala, Honduras, o México, o Uruguai, a Venezuela e a União Europeia condenaram o golpe. O bilionário Elon Musk já declarou que apoiaria um golpe na Bolívia porque o governo socialista não permite a exploração das grandes reservas de lítio, metal estratégico para fabricação de baterias e carros elétricos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Candidato socialista ganha eleição no primeiro turno na Bolívia

O ex-ministro de Economia e Finanças Luis Alberto Arce Catacora, responsável pelo milagre econômico boliviano, do Movimento ao Socialismo (MAS), partido do ex-presidente Evo Morales, venceu a eleição presidencial na Bolívia no primeiro turno. 

De acordo a pesquisa de boca de urna da empresa Ciesmori para a Unitel (Universal de Televisão), Arce recebeu 52,4% dos votos contra 31,5% para o ex-presidente Carlos Mesa, da Comunidade Cidadã, e 14,1% para Luis Fernando Camacho, da aliança ultradireitista Creemos.

As eleições escolhem um novo presidente e uma nova Assembleia Nacional com legitimidade popular para superar a crise gerada pela anulação da eleição presidencial de 20 de outubro do ano passado e a renúncia do presidente Evo Morales, em 10 de novembro, sob pressão das Forças Armadas, da Polícia e da Central Operária Boliviana (COB), em meio a protestos por fraude eleitoral atestada por missão da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Os resultados oficiais saem daqui a alguns dias, mas a presidente interina, Jeanine Áñez e o ex-presidente Jorge Quiroga, que chegou a se lançar candidato e desistiu, cumprimentaram Arce como presidente eleito. Mesa reconheceu a derrota na manhã desta segunda-feira.

No discurso da vitória, Arce prometeu fazer um governo de união nacional e retomar as reformas econômicas e sociais da era Morales, quando o país cresceu acima de 5% ao ano, o produto interno bruto passou de US$ 9,5 bilhões a US$ 40,8 milhões e a pobreza caiu de 60% para 37% da população, hoje de 11,7 milhões de habitantes. 

Do exílio na Argentina, o ex-presidente festejou o triunfo: "Todos os dados conhecidos até agora sinalizam a vitória do MAS", que também terá maioria na Câmara e no Senado. Ele presidente voltar ao país "cedo ou tarde".

Primeiro índio a presidir a Bolívia, Morales chegou ao poder em janeiro de 2006 como líder do movimento indígena e dos produtores de folha de coca uma cultura tradicional dos nativos da Cordilheira dos Andes depois de um período de instabilidade e queda de presidentes. Convocou uma Assembleia Constituinte para tornar a Bolívia um Estado plurinacional, reconhecendo as nações indígenas. Reelegeu-se em 2009, sob a nova Constituição, e em 2014, ganhando sempre no primeiro turno.

Como a Constituição só permitia uma reeleição, Morales convocou um referendo e perdeu, em fevereiro de 2016, por 51,3% a 48,7%. Mesmo assim, não desistiu. Recorreu ao Tribunal Constitucional Plurinacional com base na Convenção Interamericana de Direitos Humanos, e decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, o Tribunal de São José, na Costa Rica, que considerou o direito de ser candidato um direito fundamental.

Em outubro do ano passado, a apuração preliminar apontava um segundo turno quando o sistema parou de funcionar na noite da eleição. Ao reiniciar a contagem no dia seguinte, Morales disparou na frente e foi declarado vencedor. A missão da OEA apontou várias irregularidades, como urnas com todos os votos no mesmo candidato e urnas com todos os votos preenchidos pela mesma pessoa para favorecer o presidente.

Diante de uma onda de protestos violentos, com mortes, Morales primeiro aceitar realizar nova eleição presidencial e insistiu em ser candidato. No mesmo dia, foi pressionado a renunciar. Com ataques a suas propriedades, refugiou-se em 12 de novembro no México, que denunciou sua queda como um golpe de Estado. Em 12 de dezembro, dois dias depois da posse do presidente peronista Alberto Fernández, foi para a Argentina.

Junto com Morales, renunciaram o vice-presidente Álvaro García Linera e os presidentes e vice-presidentes da Câmara e do Senado, deixando o país acéfalo. Assumiu a presidência a 2ª vice-presidente do Senado, Jeanine Áñez, que prometeu não se candidatar, acabou se candidatando e desistiu para fortalecer a candidatura anti-MAS.

Por causa da pandemia, as eleições foram adiadas duas vezes. Ativistas do MAS e do movimento indígena chegaram a bloquear estradas para pressionar o governo interino. Em julho, o Tribunal Supremo Eleitoral marcou as eleições para este domingo.

A Bolívia é o quarto país do mundo em número de mortes de covid-19 por habitante, excluindo os micropaíses São Marinho e Andorra, atrás apenas do Peru, da Bélgica e da Espanha, logo à frente do Brasil. O fracasso do governo interino da direita no combate à pandemia e o caos dos últimos meses deram a vitória ao MAS. Áñez prometera fazer apenas um governo de transição até novas eleições, mas tentou tomar medidas impopulares como uma reforma trabalhista e a digitalização da educação.

O partido socialista boliviano se mostrou maior do que Morales. Pela análise de um comentarista político boliviano, o eleitor que não votou nele em outubro do ano passado por discordar de uma terceira reeleição voltou ao MAS por causa dos princípios e dos valores do partido, e do sucesso da economia sob a liderança de Arce como ministro.

O presidente eleito é mais moderado do que Morales. Não citou o ex-presidente no discurso da vitória. Prometeu unir o país e governar para todos os bolivianos. O vice-presidente David Choquehuanca é mais radical. É um defensor incondicional da ditadura de Nicolás Maduro na Venezuela. Por isso, foi preterido para a Presidência pelo mais pragmático Arce.

A vitória do MAS é mais uma derrota da política externa do governo Jair Bolsonaro. Depois da queda de Morales, o chanceler Ernesto Araújo chegou a receber Camacho, o candidato da extrema direita nessas eleições bolivianas.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Bolívia expulsa embaixadora do México e diplomatas da Espanha

O governo interino da Bolívia, que tomou o poder depois da renúncia e fuga do presidente Evo Morales, declarou ontem personas non gratas a embaixadora da Espanha, María Teresa Mercado, os diplomatas espanhóis Cristina Borreguero e Álvaro Fernández, e um grupo de policiais. Todos têm de abandonar o país em 72 horas.

A presidente interina Jeanine Áñez acusou a embaixadora mexicana de "lesar gravemente a soberania do povo e do governo constitucional da Bolívia" ao tentar retirar do país vários políticos ligados ao governo anterior que se refugiaram na sede da representação diplomática. A embaixadora rejeita a alegação.

Em resposta, o governo da Espanha expulsou três funcionários da Embaixada da Bolívia em Madri, o encarregado de negócios, Luis Quispe Condori; o adido militar, Marcelo Vargas Barral; e o policial Orso Fernando Oblitas Siles.

Para proteger os 10 mil mexicanos residentes na Bolívia, o governo do México adotou uma posição cautelosa. O presidente Andrés Manuel López Obrador vai manter um encarregado de negócios, o mesmo status diplomático do representante mexicano na Venezuela.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Procuradoria da Bolívia pede prisão de Evo Morales por terrorismo e sedição

O  Ministério Público da Bolívia pediu ontem a prisão do ex-presidente Evo Morales por sedição, terrorismo e financiamento do terrorismo. A denúncia cita uma conversa telefônica de Morales com Faustino Yucra, dirigente do sindicato dos produtores de coca processado por tráfico de drogas, para articular manifestações de protesto e cercos a grandes cidades.

Evo Morales renunciou à Presidência da Bolívia em 10 de novembro sob pressão de uma revolta popular e do comandante das Forças Armadas por causa de uma fraude na eleição presidencial de 20 de outubro, denunciada pela missão observadora da Organização dos Estados Americanos (OEA).

A renúncia coletiva, do presidente, do vice-presidente Álvaro García Linera e dos presidentes da Câmara e do Senado deixaram o país sem liderança, no que pareceu mais um golpe de Morales contra as instituições, depois de forçar uma terceira reeleição, quando a Constituição só admite duas, e fraudar a eleição.

Depois de deixar o cargo, Morales foi para sua região de origem, Chapare, no departamento de Cochabamba, e para o exílio no México, a convite do governo Andrés Manuel López Obrador, denunciando ter sido alvo de um golpe de Estado.

Na semana passada, depois da posse do novo presidente Alberto Fernández, Morales chegou a Buenos Aires. O ex-presidente deve ficar como asilado político na Argentina, de onde vai coordenar seu partido Movimento ao Socialismo na campanha para a eleição presidencial.

O novo governo peronista não reconhece a presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, que era segunda vice-presidente do Senado. Não existe a menor chance de extraditar Morales.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Agitação social tende a aumentar na América Latina em 2020

A expectativa para 2020 é mais protestos e manifestações nos países da América Latina. Com a desaceleração da economia mundial e o impacto sobre os preços dos produtos primários, a desigualdade social e a corrupção, estão criadas as condições para mais revoltas nas ruas.

Desde 21 de novembro, as grandes manifestações de protestos que atingiram vários países da América Latina neste ano, como Venezuela, Equador, Peru, Chile e Bolívia, chegaram à Colômbia.

Como o presidente conservador Iván Duque não mostra a menor intenção de ceder, a expectativa para 2020 é de mais protestos populares e de um aumento da violência política em zonas rurais, uma vez que o atual governo linha-dura não implementa o acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC, e abandou as negociações com o Exército de Libertação Nacional, o ELN, enquanto os antigos grupos paramilitares de direita aderiram ao crime organizado, mas atacam sindicalistas e ativistas de esquerda. Meu comentário:

sábado, 7 de dezembro de 2019

Ex-presidente Evo Morales viaja a Cuba e deve morar na Argentina

O ex-presidente da Bolívia Evo Morales viajou ontem para Cuba e pode deixar o México, onde recebeu asilo político depois de renunciar em 10 de novembro sob pressão de uma revolta popular e das forças de segurança em razão de uma fraude na eleição presidencial de 20 de outubro de 2019, e se instalar na Argentina, noticiou hoje o jornal espanhol El País.

Morales se declara vítima de um golpe de Estado. Ele deixou a Cidade do México num voo comercial e disse ao governo mexicano se tratar de uma viagem temporária. A ex-ministra da Saúde Gabriela Montaño, que acompanha o ex-presidente, informou que Morales vai consultar médicos cubanos que o atenderam na Bolívia.

Com a nova eleição presidencial ainda sem data marcada na Bolívia, Morales pretende ir para a vizinha Argentina, onde terá melhores condições de articular a candidatura do Movimento ao Socialismo (MAS).

Seu plano seria ir para Buenos Aires a tempo de assistir à posse do presidente peronista Alberto Fernández e da vice-presidente Cristina Kirchner em 10 de dezembro. O próprio Fernández teria recomendado a Evo Morales que espere a posse do novo governo para poder lhe dar garantias de segurança.

O ex-vice-presidente Álvaro García Linera, que também obteve asilo do governo esquerdista mexicano de Andrés Manuel López Obrador, recebeu vários convites para dar aulas em universidades. Pode ficar no México.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Presidente da Bolívia envia projeto para convocar nova eleição

A presidente interina Jeanine Áñez enviou ontem à Assembleia Legislativa Plurinacional, o parlamento da Bolívia, um projeto de lei para anular a eleição presidencial de 20 de outubro e preparar uma nova eleição, noticiou o jornal boliviano La Razón

O anúncio foi feito pela própria presidente ao lado do ministro da Justiça, Álvaro Coimbra, no Palácio Queimado, em La Paz. Pela manhã, 26 dos 35 países-membros da Organização dos Estados Americanos (OEA), inclusive o Brasil, haviam recomendado a convocação imediata da eleição para pacificar o país.

A proposta tem três objetivos centrais. Primeiro, anula a eleição presidencial de 20 de outubro de 2019 com base nas denúncias de fraude apresentadas em relatório de auditoria da OEA, como urnas sem abstenções, urnas em que todas as cédulas foram preenchidas pela mesma pessoa e fraude eletrônica na transmissão dos resultados para o Tribunal Supremo Eleitoral.

Em segundo lugar, convoca novas eleições gerais. E, em terceiro lugar, dispõe sobre a escolha de novos juízes para o TSE e os tribunais eleitorais departamentais dentro de 15 dias a partir da aprovação da lei. Caberá, então, às novas autoridades eleitorais, marcar a data da eleição.

"Queremos que se considere um documento-base para gerar um consenso nacional, que seja produto do consenso de todos os bolivianos", declarou a presidente interina.

Jeanine Áñez era segunda vice-presidente do Senado. Com a renúncia coletiva do presidente Evo Morales, do vice-presidente Álvaro García Linera e dos presidentes e vice-presidentes da Câmara e do Senado, em meio a uma revolta popular contra a fraude eleitoral, ela assumiu o poder. Mas a aprovação do projeto depende do Movimento ao Socialismo (MAS), o partido de Morales.

Do exílio na Cidade do México, o ex-presidente foi acusado de incitar à revolta popular e de apoiar um cerco para deixar La Paz sem alimentos e combustíveis, forçando assim sua volta ao poder. Como a Assembleia Legislativa não aceitou oficialmente a carta de renúncia, Morales e García Linera ainda se consideram presidente e vice.

Ambos alegam ter sido vítimas de um golpe porque o comandante das Forças Armadas e a Central Operária Boliviana (COB) "sugeriram" ao presidente que renunciasse para evitar um conflito ainda maior e um banho de sangue.

Desde a eleição de 20 de outubro, pelo menos 26 pessoas foram mortas pela violência política na Bolívia, sendo três ontem, quando o Exército rompeu o bloqueio à refinaria de Senkata, que abastece La Paz, e advertiu que não vai tolerar tentativas de ocupação.

Morales deu três golpes. Primeiro, ignorou a derrota no plebiscito constitucional de 2016 e recorreu a uma Corte Suprema aliada para concorrer a um quarto mandato quando a Constituição aprovada por sua iniciativa só permite dois mandatos.

Depois, fraudou a eleição presidencial. A apuração foi interrompida duas vezes quando tudo indicava que haveria segundo turno contra o ex-presidente Carlos Mesa e a Justiça Eleitoral amiga proclamou a reeleição de Morales.

Se a renúncia sob pressão do general Williams Kaliman pode ser considerada tecnicamente um golpe de Estado, como alegou o ministro do Exterior do México, Marcelo Ebrard, ao conceder asilo a Morales, na prática, foi no máximo um contragolpe.

A renúncia coletiva, não deixando ninguém do partido majoritário para tomar conta das instituições, deixando o Estado boliviano acéfalo, sem qualquer liderança, foi um ataque às instituições democráticas, uma aposta no caos para voltar ao poder nos braços do povo.

Então, se houve golpe, foi em defesa da democracia, que está ameaça do ambiente ultrapolarizado criado por Evo Morales. No balanço geral, ele fez um bom governo, com crescimento econômico de quase 5% ao ano na média desde 2006, mas não formou novos líderes para sucedê-los e não soube deixar o poder democraticamente.

domingo, 17 de novembro de 2019

Partidários de Morales querem cercar La Paz para anular renúncia

O Movimento ao Socialismo, partido do ex-presidente Evo Morales, quer cercar a cidade de La Paz impedindo a chegada de combustíveis e alimentos para forçar a população e as Forças Armadas a pedir a renúncia da presidente interina, Jeanine Áñez, e a volta do seu líder ao poder, noticiou o jornal boliviano Página Siete.

"Queremos que os ricos morram de fome", "que a presidente autoproclamada peça perdão de joelhos" e "queremos a cabeça de Mesa e Camacho" são os gritos de guerra do movimento indígena, principal base eleitoral de Morales. O ex-vice-presidente Carlos Mesa e o presidente do Centro Cívico pró-Santa Cruz, Luis Fernando Macho Camacho, são os principais líderes da oposição.

Esta estratégia estava traçada desde a renúncia coletiva do presidente, do vice-presidente e dos presidentes e primeiros vice-presidentes da Câmara e do Senado. Ao anunciar a renúncia, o vice Álvaro García Linera, citou uma frase do líder indígena Túpac Katari, que chefiou uma revolta contra o Império Espanhol no século 18: "Voltaremos e seremos milhões."

Em 13 de março de 1871, Túpac Katari iniciou um cerco de 11 meses. Agora, os agricultores de Río Abajo, Achocalla, Luribay, Sapahaqui e Patacamaya estão bloqueando estradas para impedir o abastecimento de comida às cidades de La Paz e El Alto.

"A La Paz, não vai chegar um grão de comida. Os produtores estão proibidos de tirar comida de suas granjas. É preferível que a comida apodreça do que ser dada aos brancos", declarou um dos líderes do movimento.

Os rebeldes liderados por Evo Morales, asilo no México, querem deixar a Polícia e as Forças Armadas sem combustível para que não possam reprimir o movimento. O terceiro passo será tomar a Praça Murillo e cercar a "Casa Grande do Povo", o palácio presidencial.

"O povo derrotará este golpe", declarou um dos entrevistados. "Não importa que haja mortes. É preciso recuperar a democracia." Outro dirigente do MaS conclamou os soldados e policiais e se amotinarem e não cumprirem as ordens de seus comandantes.

É uma receita para a guerra civil.

Morales renunciou sob pressão das Forças Armadas, da Polícia e da Central Operária Boliviana (COB) depois de concorrer a um quarto mandato, violando a norma constitucional que só permite uma reeleição, e de fraudar a eleição presidencial de 20 de outubro, como foi constatado pela missão observadora da Organização dos Estados Americanos (OEA).

sábado, 16 de novembro de 2019

Comissão Interamericana de Direitos Humanos adverte militares da Bolívia

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) alertou o governo interino da Bolívia de que o Decreto Supremo 4.078, que exime de responsabilidade penal os militares que participam da repressão às manifestações de protesto, viola os padrões internacionais de proteção aos direitos humanos, noticiou o jornal boliviano Página Siete.

"O pessoal das Forças Armadas que participar de operações para o restabelecimento da ordem interna e a estabilidade pública está isento de responsabilidade penal quando, no cumprimento de suas funções constitucionais, atue em legitima defesa ou estado de necessidade e proporcionalmente", diz o decreto.

A CIDH também condenou "o uso desproporcional da força policial e militar" e recomendou que "as armas de fogo devem ser eliminadas das operações de controle dos protestos sociais."

O ministro da Defesa, Fernando López, reconheceu que o documento existe: "Tivemos indícios muito sérios de estrangeiros armados no país. E há grupos armados com armas de grosso calibre. Então, isso geraria ações que nos permitam cumprir nossa missão, nada mais." Não apresentou provas de suas alegações.

López acrescentou que o objetivo do governo é "caminhar em direção ao diálogo, à paz e à fé em Deus." O fundamentalismo cristão faz parte de ideologia dos grupos de extrema direita responsáveis por atos de violência antes da renúncia do presidente Evo Morales, no domingo passado.

Embora a Bolívia seja oficialmente um país laico, a vice-presidente do Senado, Jeanine Ánez, levou uma Bíblia e um crucifixo para a cerimônia em que tomou posse como presidente interina do país, depois da renúncia do presidente, do vice, e dos presidentes e vice-presidentes da Câmara e do Senado, todos membros do Movimento ao Socialismo (MaS), partido de Morales.

Esta manobra acabou entregando o poder não ao ex-presidente Carlos Mesa, que seria favorito no segundo turno, mas ao setor mais radical da oposição, branco, racista e fundamentalista cristão. Áñez
nega ter qualquer antepassado indígena. Ela afirma ter 100% de origem europeia. Suas feições sugerem o contrário.

A Bolívia enfrenta sua pior crise política em 14 anos desde que a oposição rejeitou, em 21 de outubro, a proclamação da vitória de Morales no primeiro turno da eleição presidencial do dia anterior. A apuração foi interrompida duas vezes quando tudo indicava que haveria um segundo turno entre Morales e Mesa.

No poder desde 2006, Morales, como fiel discípulo de Fidel Castro e Hugo Chávez, não tinha a menor intenção de entregar o poder. Por força da Constituição aprovada por sua iniciativa, não poderia concorrer a um terceiro mandato, mas alegou, em 2014, que sua primeira eleição, em 2005, fora sob a Constituição anterior.

Em 2016, Evo Morales perdeu um plebiscito para acabar com limites à reeleição. Mesmo assim, recorreu ao Tribunal Constitucional alegando, com base em decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos em outro caso, que ser candidato é um direito humano fundamental.

Como dificilmente venceria no segundo turno, quanto toda a oposição se uniria ao redor de Mesa, Morales fraudou a eleição e gritou golpe quando a população revoltada saiu às ruas. Depois de se negar a fazer qualquer concessão, em 30 de outubro, Morales aceitou uma auditoria da Organização dos Estados Americanos (OEA).

A missão da OEA suspeitou desde a mudança abrupta no resultado depois das interrupções na apuração. A auditoria revelou que houve seções eleitorais sem nenhuma abstenção, urnas em que todas as cédulas foram preenchidas pela mesma pessoa e irregularidades na transmissão dos resultados para o Tribunal Supremo Eleitoral.

Morales aceitou, então, realizar nova eleição com novas autoridades eleitorais, como recomendou a OEA. A oposição exigiu que ele não se candidatasse à reeleição. Diante do impasse e do risco de aumento da violência, os comandantes das Forças Armadas e da Polícia e a poderosa Central Operária Boliviana (COB) sugeriram a renúncia do presidente.

Tecnicamente, foi um golpe de Estado. Na realidade, foi um contragolpe, depois dos golpes de Morales ao forçar mais uma reeleição e roubar a eleição.

A renúncia coletiva foi o terceiro golpe de Evo Morales contra as instituições e a democracia bolivianas. Deixou o Estado totalmente acéfalo, apostando no caos para tentar voltar ao poder como salvador da pátria, e fugiu para o exílio no México.

Com dois terços das cadeiras na Assembleia Legislativa Plurinacional, o Congresso boliviano, o MaS é fundamental para dar quórum a qualquer decisão legislativa. Enquanto deputados e senadores do partido querem voltar ao trabalho e preparar o MaS para a próxima eleição presidencial, do exterior, Morales fomenta os protestos.

Seus partidários indígenas, como os conhecidos ponchos vermelhos, estão nas ruas exigindo a volta do seu líder. Não reconhecem a presidente interina, enquanto Morales declara na Cidade do México que é o presidente da Bolívia enquanto a Assembleia Legislativa não aceitar oficialmente a carta de renúncia.

A repressão às marchas indígenas se tornou mais violenta. Antes da renúncia, parte da Polícia e o Exército se negaram a atacar os manifestantes que protestavam contra a fraude eleitoral. O total de mortos desde o início dos protestos chegou a 23, com mais de 700. Só ontem, houve nove mortes.

Do exílio, Morales culpa o governo provisório, formado pela oposição mais linha-dura. Mas é o principal responsável pelo que está acontecendo hoje na Bolívia.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Segunda vice-presidente do Senado assume Presidência da Bolívia

Mesmo sem quórum, a senadora da oposição Jeanine Áñez, vice-presidente do Senado assumiu ontem as presidências do Senado, da Assembleia Legislativa e interina da República da Bolívia, prometendo convocar nova eleição presidencial dentro de três meses para superar a crise que levou à renúncia do presidente Evo Morales depois de quase 14 anos no poder.

A Igreja Católica tenta mediar o conflito, assegura que não haverá perseguições políticas e dá garantias aos deputados e senadores do Movimento ao Socialismo (MaS) para que participem das sessões da Assembleia Legislativa Plurinacional, o parlamento boliviano.

O ex-presidente chegou hoje à Cidade do México com o ex-vice-presidente Álvaro García Linera num voo que se abasteceu no Paraguai depois que o Peru negou acesso e obteve autorização do Brasil e do Peru para passar por seus espaços aéreos. 

Como disse ontem à noite antes de sair da Bolívia, Morales prometeu voltar com mais força. Talvez consiga, especialmente por que o próximo governo dificilmente conseguirá manter a média de crescimento econômico, de quase 5 por cento sob Morales. Mas terá de esperar anos.

Em La Paz, a oposição a Morales tentou reunir a Assembleia Legislativa para aceitar oficialmente a renúncia do presidente e indicar um sucessor. Não houve quórum porque deputados e senadores do Movimento ao Socialismo não apareceram. Os partidários de Morales disseram que pretendiam comparecer, mas não tinham condições de segurança.

O centro de La Paz está tomado por apoiadores de Morales e também da oposição, especialmente do grupo mais extremista, liderado por Luis Fernando Macho Camacho, presidente do Comitê Cívico pró Santa Cruz. Os dois grupos se enfrentaram durante o dia.Meu comentário: 

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Morales vai para o México deixando vácuo de poder na Bolívia

O presidente Evo Morales aceitou asilo político do México e deixou hoje a Bolívia depois de renunciar ontem, junto com o vice-presidente Álvaro García Linera, o presidente da Câmara, Victor Borda, e a presidente do Senado, Adriana Salvatierra. Esta renúncia coletiva deixou o país acéfalo e um vácuo de poder. Foi uma aposta no caos.

Depois de 13 anos e 10 meses no poder, Juan Evo Morales Ayma, o primeiro presidente indígena da história da Bolívia, um país com maioria de índios e mestiços, renunciou ontem sob pressão de 20 dias de manifestações de protestos contra uma fraude eleitoral e um empurrão final do comandante das Forças Armadas, general Williams Kaliman.

Hoje à tarde, o ministro das Relações do Exteriores do México, Marcelo Ebrard, anunciou que o país vai receber Evo Morales como asilado político. O chanceler mexicano justificou a decisão alegando que a vida e a integridade de Morales correm perigo e que ele renunciou para evitar uma guerra civil na Bolívia. 

Ebrard afirmou que “houve um golpe porque o comandante do Exército pediu a renúncia do presidente.” Meu comentário:

México anuncia que Evo Morales pediu asilo político

Um dia depois de renunciar à Presidência da Bolívia sob pressão das Forças Armadas em meio a uma revolta popular contra uma fraude eleitoral, o ex-presidente Evo Morales pediu asilo político ao México, anunciou o ministro mexicano das Relações Exteriores, Marcelo Ebrard.

"Informamos que há alguns momentos recebemos uma chamada do presidente Evo Morales em que respondeu a nosso convite e solicitou verbal e formalmente o asilo em nosso país", declarou o chanceler mexicano em entrevista coletiva.

Ebrard justificou a decisão por "razões humanitárias" alegando que sua vida e sua integridade correm perigo" e acrescentou que "houve um golpe de Estado porque o Exército pediu a renúncia do presidente."

Morales e seus aliados, inclusive o ex-presidente Lula, o presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, sua vice-presidente Cristina Kirchner e o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, denunciam um golpe, enquanto a oposição boliviana fala em revolta popular contra a fraude eleitoral apontada pela Organização dos Estados Americanos (OEA).

A renúncia coletiva do presidente, do vice e dos presidentes da Câmara e do Senado foi uma manobra para criar um vácuo de poder, uma aposta no caos. A segunda vice-presidente do Senado, Jeanine Áñez, deve assumir amanhã a Presidência da Bolívia interinamente até a realização de novas eleições dentro de 90 dias.

O líder rebelde Luis Fernando Macho Camacho, presidente do Comitê Cívico de Santa Cruz, exige a renúncia de todos os deputados do Movimento ao Socialismo (MaS), o partido de Morales. Como eles ocupam dois terços das cadeiras da Assembleia Legislativa Plurinacional, se renunciarem, n!ao haverá quórum para eleger a presidente interina.

A senadora Jeanine Áñez foi levada hoje de helicóptero até a sede da Assembleia, onde convocou a sessão de amanhã e ofereceu garantias aos representantes do MaS. Em seguida, ela foi retirada do local por medo de que os partidários de Morales tomem o centro de La Paz.

Amanhã, a OEA realiza uma reunião de emergência em Washington para discutir a crise boliviana.

domingo, 10 de novembro de 2019

Evo Morales renuncia à Presidência da Bolívia

Depois de quase 14 anos no poder, o líder indígena e sindical Juan Evo Morales Ayma, do Movimento ao Socialismo (MAS), renunciou hoje à Presidência da Bolívia, sob pressão do comandante das Forças Armadas, general Williams Kaliman, em meio a uma onda de três semanas de manifestações de protesto contra uma possível fraude na eleição de 20 de outubro.

"Mandei minha carta de renúncia à Assembleia Legislativa Plurinacional", anunciou Morales em pronunciamento na televisão, alegando ter sido vítima de um "golpe cívico, político e policial": "Houve um golpe", denunciou.

O vice-presidente Álvaro García e os presidentes da Câmara, Victor Borda, e do Senado, Adriana Salvatierra, também renunciaram, deixando um vácuo no poder. A Assembleia Legislativa terá de aceitar a renúncia do presidente e indicar um presidente interino até a realização de eleições, que precisam ocorrer em três meses. O nome mais cotado é da segunda vice-presidente do Senado, Jeanine Áñez.

"Meu pecado foi ser indígena, sindicalista e produtor de coca", lamentou Morales. "Vamos cumprir a promessa de Túpac Katari. Voltaramos e seremos milhões", acrescentou García, referindo-se ao líder aimará que liderou uma revolta contra a dominação espanhola no século 18.

"Quero dizer a meus irmãos e irmãs que a luta não termina aqui. Vamos continuar a luta pela paz e pela igualdade", despediu-se o presidente.

Hoje de manhã, Morales havia anunciado a realização de nova eleição presidencial com novas autoridades eleitorais "para baixar a tensão e pacificar" a Bolívia, como exigiu a Organização dos Estados Americanos (OEA) ao antecipar o resultado de uma auditoria sobre o processo eleitoral "por causa da gravidade das denúncias". A oposição exigiu que Morales não fosse candidato.

Depois disso, as Forças Armadas, a Polícia e a poderosa Central Operária Boliviana (COB) pediram a saída de Morales. O Exército havia avisado que não enfrentaria os manifestantes. Em pronunciamento na televisão, o general Kaliman sugeriu a renúncia "para o bem da Bolívia".

"Diante da escalada no conflito por que passa o país, velando pela vida, a segurança da população e a garantia do império da Constituição Política do Estado, em conformidade com o artigo 20 da Lei Orgânica das Forças Armadas e depois de analisar a situação conflituosa interna, sugerimos ao chefe de Estado que renuncie a seu mandato", declarou o general.

A seu lado, estavam outros comandantes militares e o chefe da Polícia, general Yuri Calderón, que apoiou a recomendação "para pacificar o povo da Bolívia". O comunicado do comandante das Forças Armadas terminou com um pedido "ao povo boliviano e aos setores mobilizados para depor as atitudes de violência e a desordem entre irmãos para não manchar nossas famílias com sangue, dor e luto."

Pelo menos três pessoas foram mortas e 300 saíram feridas durante as três semanas de protestos. Uma greve geral iniciada no departamento de Santa Cruz, dominado pela oposição, já dura 20 dias.

Quando o avião presidencial decolou do aeroporto de El Alto, por volta das 17 horas em Brasília, gerou especulações de que Morales poderia fugir do país. O presidente do México, o esquerdista Andrés Manuel López Obrador, lhe ofereceu asilo político. Pelo menos 20 políticos pediram asilo à embaixada mexicana em La Paz, informou na Cidde do México o chanceler Marcelo Ebrard.

O ex-presidente foi para a região do Chapare, um reduto eleitoral no departamento de Cochabamba onde ele iniciou a carreira política como líder dos cocaleros, os agricultores que cultivam a coca.

Evo Morales era o presidente que estava há mais tempo no poder na América, desde 22 de janeiro de 2006. Fora eleito em dezembro de 2005 com quase 54% dos votos depois de um período turbulento da história da Bolívia em que dois presidentes renunciaram, Gonzalo Sánchez de Losada em 2003 e Carlos Mesa Gisbert em 2005, sob pressão das ruas e do movimento indígena liderado por ele.

Sob seu governo, a Bolívia, um dos países mais pobres do continente, cresceu em média quase 5% ao ano. A pobreza caiu de 60% para 34% e a pobreza absoluta de 38% para 15%. Morales convocou uma Assembleia Constituinte que transformou o país num Estado plurinacional, reconhecendo os direitos povos indígenas.

Em 6 de dezembro de 2009, Morales foi reeleito com 64% dos votos válidos. Como a lei só autoriza uma reeleição, para concorrer a um terceiro mandato, o presidente alegou que a primeira eleição havia sido sob a Constituição anterior. Em 12 de outubro de 2014, ganhou de novo, com 63% dos votos válidos.

Para obter um quarto mandato, Morales convocou um referendo constitucional para acabar com limites à reeleição e perdeu. Em 21 de fevereiro de 2016, 51,3% dos eleitores disseram não à reeleição ilimitada.

Mesmo assim, o presidente recorreu à Corte Suprema com base em decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, o Tribunal de São José da Costa Rica, que considerou em outro caso que votar e ser candidato são direitos fundamentais. E tentou um quarto mandato.

Na noite de 20 de outubro, com 83% das urnas escrutinadas, a contagem preliminar indicava que haveria segundo turno. Morales tinha 45% contra 38% do ex-presidente Carlos Mesa. Pela lei boliviana, ganha quem conquistar mais da metade dos votos válidos ou 40% e uma vantagem de dez pontos percentuais sobre o segundo colocado.

Naquele momento, o Tribunal Supremo Eleitoral suspendeu a apuração preliminar. No dia seguinte, quando a apuração manual voto a voto dava 42% a cada candidato, com ligeira vantagem para Mesa, a Justiça parou com a apuração manual, retomou a contagem rápida e anunciou a vitória de Morales, que no final teria recebido 47,01% dos votos contra 36,51% para Mesa.

O oposicionista rejeitou o resultado e convocou seu eleitorado a sair às ruas para impedir a fraude. A interrupção abrupta da contagem e o reinício com um resultado diferente, como aconteceu na eleição de Carlos Salinas de Gortari no México, em 1988, foi um dos pontos centrais do relatório da auditoria da OEA, que apontou "denúncias de irregularidades graves".

Assim que a OEA denunciou a fraude, o Ministério Público abriu inquérito. A presidente do Tribunal Supremo Eleitoral, María Eugenia Choque, e o vice-presidente, Antonio Costas, foram presos.

As acusações da OEA foram decisivas para minar de vez o poder de Morales. O presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, sua vice, Cristina Kirchner, o ex-presidente Lula e o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, chamam a queda de Morales de golpe de Estado.

A oposição boliviana argumenta que fez apenas uma resistência democrática contra a fraude eleitoral, mas o jornal La Razón noticia de ataques a casas de políticos ligados ao governo socialista, inclusive do ex-presidente.

O presidente da Câmara, Victor Borda, e o ministro das Minas, César Navarro, denunciaram ataques a suas casas e famílias com bombas incendiárias. Eles responsabilizam o ex-presidente Mesa e o presidente do Comitê Cívico de Santa Cruz, Luis Fernando Macho Camacho, pela violência.

Houve saques, violência e depredação de lojas em várias cidades, inclusive à casa de Morales. Em La Paz, pelo menos 64 ônibus foram incendiados por partidários do ex-presidente.

Morales recua e convoca nova eleição na Bolívia

Depois de três semanas de protestos violentos contra uma suposta fraude eleitoral que deixaram três mortos e mais de 300 feridos, o presidente Evo Morales anunciou hoje a realização de nova eleição presidencial e mudanças na autoridade eleitoral da Bolívia.

Morales vinha denunciando um "golpe de Estado". Recuou diante de um pedido de anulação da eleição feito pelo secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), o ex-ministro do Exterior uruguaio Luis Almagro, com base em uma auditoria.

Até ontem, o presidente boliviano propunha um diálogo à oposição, mas seu principal adversário na eleição de 20 de outubro, o ex-presidente Carlos Mesa, declarou "não ter nada a negociar" com Morales.

No sábado, várias unidades policiais se rebelaram em quatro departamentos do país e o Exército da Bolívia alertou que não iria enfrentar os manifestantes.

As conclusões da auditoria da OEA seriam divulgadas no dia 13. Almagro antecipou o resultado "por conta da gravidade das denúncias" e pediu a realização de novo pleito "assim que existam condições", inclusive "uma nova composição do órgão eleitoral".

Pela lei boliviana, vence a eleição presidencial quem conquistar mais da metade dos votos válidos ou 40% e uma vantagem de dez pontos percentuais sobre o segundo colocado.

Em 20 de outubro, com mais de 80% das urnas apuradas, o resultado indicava um segundo turno entre Morales e Mesa quando a contagem preliminar foi suspensa. No dia seguinte, na apuração voto a voto, os dois estavam praticamente empatados.

Então, a apuração voto a voto foi suspensa e retomada a contagem preliminar e Morales conseguiu a vantagem de 10% necessária para evitar um segundo turno, chegando a 47,08% contra 36,51% para Mesa. A interrupção abrupta da apuração suscitou suspeitas de fraude. Foi citada pela OEA como uma das irregularidades.

Morales tenta um quarto mandato, apesar da restrição constitucional e mais de uma reeleição. Na eleição anterior, o presidente alegou que o primeiro mandato havia sido obtido sob a Constituição anterior. Por isso, ele teria direito a mais um.

Em 2016, Morales perdeu um referendo constitucional para aprovar a reeleição sem limites. Para disputar um quarto mandato, recorreu à Corte Suprema invocando uma decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, o Tribunal de São José da Costa Rica, que considerou o direito à candidatura um direito fundamental.

Primeiro presidente indígena da Bolívia, o aimará Morales chegou ao poder em 2006, depois de uma série de governos que não chegaram ao fim, derrubados por revoltas populares liderados por ele. Sob seu governo, o país cresceu em média 5% ao ano. A pobreza caiu de 60% para 34% da população e a extrema pobreza, de 38% para 15%.

A dúvida agora é se a oposição vai aceitar a solução apresentada pelo presidente ou se vai manter o movimento para forçar sua queda.

sábado, 9 de novembro de 2019

Oposição rejeita diálogo e unidades policiais se amotinam na Bolívia

Várias unidades policiais de quatro departamentos da Bolívia aderiram hoje à revolta popular contra o presidente Evo Morales, acusado de fraude eleitoral para se reeleger para um quarto mandato, o que a rigor é proibido pela Constituição. A oposição rejeitou a proposta de diálogo do governo e o Exército avisou que não vai enfrentar a população. Quer uma solução pacífica.

"Não tenho nada a negociar com Evo Morales e seu governo", afirmou o ex-vice-presidente Carlos Mesa, candidato derrotado na apuração oficial das eleições de 20 de outubro e líder da oposição. A declaração acirrou ainda mais os ânimos e as manifestações de rua.

Partidários do governo bloquearam o acesso à cidade de El Alto para impedir que manifestantes de oposição fossem até La Paz, onde fica a sede do governo. Os policiais exigem os mesmos salários e regime de aposentadoria que os militares.

Como a polícia de La Paz aderiu à revolta, o regime militar Colorados de Bolívia estão garantindo a segurança do presidente. Sem acesso ao Palácio Queimado, Morales despacha no aeroporto da cidade vizinha de El Alto.

Milhares de camponeses produtores de coca estão marchando de Cochabamba em direção a La Paz. Eles atendem à convocação de Morales, que denuncia um "golpe de Estado" com o apoio do exterior, que ele não identificou. O presidente iniciou sua carreira política como líder do sindicato dos produtores de coca.

Pela lei boliviana, ganha no primeiro turno quem receber mais de metade dos votos válidos ou mais de 40% e uma vantagem de dez pontos percentuais sobre o segundo colocado. Uma apuração preliminar realizada na noite do dia da eleição indicava que haveria segundo quando foi suspensa sem maiores explicações.

No dia seguinte, a apuração manual voto a voto dava mais ou menos o mesmo percentual aos dois principais candidatos quando foi suspensa. Recomeçou então a contagem preliminar e o presidente obteve a vantagem de dez pontos percentuais, confirmada dias depois pela contagem mais lenta.

A interrupção abrupta da contagem despertou suspeitas, inclusive da missão observadora da Organização dos Estados Americanos (OEA), que defendeu uma recontagem e revisão geral dos votos. Desde o início, Morales alegou que as acusações eram parte de um golpe de Estado. Sua situação é cada vez mais difícil.

Proibido pela Constituição de se reeleger pela segunda vez, o presidente argumentou que o primeiro mandato havia sido sob a Constituição anterior. Depois de perder em 2016 um plebiscito que autorizaria a reeleição sem limites, apelou à Corte Suprema tendo por base uma decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, o Tribunal de São José da Costa Rica, que entende que ser candidato é um direito fundamental.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Evo Morales, acusado de fraude, denuncia tentativa de golpe na Bolívia

Sob suspeita de fraude, depois de violar a Constituição para concorrer à terceira reeleição, o presidente Evo Morales denuncia uma ameaça de golpe e decreta estado de emergência na Bolívia.

No domingo à noite, com 83% das urnas apuradas, os resultados preliminares indicavam que seria necessário um segundo turno, previsto para 15 de dezembro. Morales tinha 45% dos votos válidos contra 38% do ex-presidente Carlos Mesa, derrubado em 2005 por uma onda de protestos liderada por Morales, na época um líder indígena e sindical. 

Pela lei boliviana, vence no primeiro turno quem conseguir mais da metade dos votos válidos ou 40% dos votos e uma vantagem de pelo menos dez pontos percentuais sobre o segundo colocado.


Mas, no fim da noite de domingo, o Tribunal Supremo Eleitoral suspendeu a apuração preliminar. Na segunda-feira, quando a contagem manual voto a voto mostrava os dois candidatos com 42% dos votos e uma pequena vantagem para Mesa, a Justiça parou com a apuração voto a voto, retomou a apuração preliminar e anunciou a vitória do atual presidente com 46,86% dos votos válidos contra 36,73% com 95% das urnas apuradas. 


Imediatamente, Mesa rejeitou o resultado oficial e convocou a população boliviana à “resistência democrática”. Manifestantes oposicionistas saíram às ruas para denunciar uma fraude eleitoral. Meu comentário: