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sábado, 8 de fevereiro de 2020

Morte de médico que deu alerta abala regime comunista da China

Em 30 de dezembro, o médico Li Wenliang deu o alerta sobre o risco de uma epidemia do novo coronavírus. Em 3 de janeiro, foi preso, interrogado e acusado de "propagar rumores falsos". Só em 20 de janeiro, o regime comunista da China admitiu que a doença se transmite de pessoa para pessoa. Sua morte ontem aos 34 anos provocou uma revolta nas redes sociais.

Agora, o ditador Xi Jinping fala numa "guerra popular", uma "guerra contra o demônio", e mobiliza todos os quadros do partido para combater o vírus. Mas, como é comum em ditaduras, no primeiro momento o governo tentou conter a má notícia. Até 24 de janeiro, a mídia oficial do Partido Comunista minimiza a gravidade do problema.

Quando o prefeito de Wuhan foi cobrado em entrevista de rádio por não avisar a população imediatamente, ele alegou que é contra a lei. Num regime em que tudo funciona de cima para baixo, a partir das ordens da cúpula, o tempo perdido significou que cerca de 5 milhões de pessoas saíram da província de Hubei, onde o surto começou, no mercado da capital, que vende carnes de 114 espécies animais, inclusive ratos, morcegos, iguanas e coalas.

Hoje, os cientistas acreditam que o novo coronavírus saiu de um morcego. Depois de infectar seres humanos, sofreu uma mutação que permite a transmissão de pessoa para pessoa.

A propagação está sendo muito mais rápida do que da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), também conhecida como gripe asiática, que matou quase 10% dos doentes em 2002 e 2003. Mas a letalidade do novo coronavírus é bem menor, 2,2% dos pacientes morreram até agora.

A morte do Dr. Li adquiriu uma dimensão política. Em 10 de janeiro, ele sentiu os primeiros sintomas. No dia 28, as autoridades reconheceram o erro o reabilitaram. Ao dar o alerta, ser punido e morrer da doença, Li virou um herói popular, causando embaraço ao regime que o perseguiu.

Centenas de milhões de chineses criticaram o regime e manifestaram sua frustração nas redes sociais. Muitos pediram o fim da censura, a liberdade de expressão.

Na manhã de domingo pelo horário chinês, as autoridades do país deram um novo balanço. Ontem, morreram 89 pessoas na China, mais do que as 86 da sexta-feira. O total de casos no mundo subiu para 37.047, com 813 mortes no mundo inteiro, sendo uma en Hong Kong e outra nas Filipinas. Já superou o número de mortes da SARS.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Crise das redes sociais ameaça futuro da liberdade na Internet

A desinformação, a censura, a manipulação e a perseguição política nas redes sociais ameaçam o futuro da liberdade de expressão na Internet, adverte um relatório divulgado ontem pela organização não governamental americana Freedom House. Pelo nono ano consecutivo, houve declínio da liberdade na rede mundial de computadores.

Dos 65 países onde a pesquisa foi realizada, em 33 houve declínio da liberdade na Internet. O recuo foi maior no Brasil, em Bangladesh, no Casaquistão e no Zimbábue. 

A revolução tecnológica gerou um autoritarismo digital. Governos autoritários vigiam os cidadãos nas redes sociais. 

Em 47 dos 65 países examinados, houve prisões por divulgar “conteúdo político, social ou religioso” que desagradou aos donos do poder. 

O mundo tem hoje 7 bilhões 742 milhões de pessoas. Quase metade, 3 bilhões e 800 milhões, tem acesso à Internet. Mas isto não as torna mais livres. Do universo da pesquisa:

• 71% vivem em países onde pessoas foram presas por divulgar conteúdo político, social ou religioso;
• 65% vivem em países onde pessoas foram atacadas e até mortas por suas atividades on-line;
• 59% vivem em países onde autoridades usaram comentaristas a favor do governo para manipular as discussões;
• 56% vivem em países onde existe censura na rede;
• 46% vivem em países onde governos desligaram a Internet e cortaram as telecomunicações por telefone por motivos políticos; e
• 46% vivem em países onde o acesso às redes sociais é restrito temporária ou permanentemente.

A desinformação sempre foi uma arma da luta política, mas o impacto hoje é muitíssimo maior. Em 38 dos 65 países estudados, líderes políticos empregam indivíduos para formar sub-repticiamente a opinião na rede. 

Em muitos países, a ascensão do populismo e do extremismo de extrema direita coincidiu com o surgimento de matilhas virtuais hiperpartidárias que incluem tanto usuários autênticos quando contas falsas e robôs, constata o relatório intitulado A Crise das Redes Sociais. Meu comentário:

sábado, 28 de setembro de 2019

Jornais fecham sob pressão de Ortega na Nicarágua

Sob pressão do ditador Daniel Ortega, dois jornais e o website da companhia jornalística Nuevo Diario pararam de circular ontem. Em editorial, El Nuevo Diario disse estar acabando com as edições impressa e digital por "dificuldades econômicas, técnicas e logísticas que tornaram a operação insustentável".

Há mais de um ano, em meio a uma onda de manifestações de protesto contra o governo Ortega, a alfândega da Nicarágua começou a segurar a importação de papel de imprensa e outras matérias-primeiras para El Nuevo Diario e para o Grupo Editorial La Prensa, que publica os jornais La Prensa e Hoy.

"Sem qualquer justificativa legal ou administrativa", parte dos suprimentos foi liberada em julho, contou o diretor executivo da empresa ND Medios. Sem papel, El Nuevo Diario passou a circular apenas cinco dias por semanas e reduziu a edição de 38 para oito páginas. A empresa também fechou o jornal Metro, que era distribuído gratuitamente na capital, Manágua.

Os jornais La Prensa e Hoy também diminuíram o número de páginas estão sob "ameaça permanente", declarou o editor-chefe de La Prensa, Eduardo Enríquez à agência de notícias EFE.

Jornal mais tradicional do país, La Prensa tem 93 anos. Era o jornal de Pedro Joaquín Chamorro, o jornalista cujo assassinato apressou o fim da ditadura da Anastasio Somoza e a vitória da Revolução Sandinista, em 19 de julho de 1979.

Sua mulher, Violeta Chamorro, foi eleita presidente em 1990, vencendo Ortega, que estava no poder desde a vitória da revolução e voltou em 2007 pelo voto popular. Desde então, ficou cada vez mais prepotente e autoritário.

"Hoje é um dia de luto nacional. Um jornal fechou por falta de matéria-prima por causa da ditadura", declarou sua filha, a jornalista Cristiana Chamorro, diretora da Fundação Violeta Barrios de Chamorro.

O escritor e intelectual Sergio Ramírez Mercado, vice-presidente de Ortega de 1985 a 1990, considerou um "golpe na liberdade de imprensa que devemos repudiar e denunciar".

Nos últimos anos, a Nicarágua perdeu a ajuda econômica da Venezuela, que enfrenta um colapso econômico. Desde abril de 2018, quando manifestantes tomaram as ruas para protestar contra uma proposta de reforma da Previdência Social que reduzia benefícios e aumentava a contribuição, a Nicarágua vive em clima de rebelião.

Com a violenta repressão de Ortega, pelo menos 328 pessoas foram mortas, inclusive uma estudante brasileira, de acordo com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, ou 595 pelos cálculos de grupos nicaraguenses de defesa dos direitos humanos.

O que era uma onda de protestos contra a reforma da previdência virou um movimento que exige o fim da repressão, a saída de Ortega e o julgamento dos crimes cometidos pela regime. A Igreja Católica tentou negociar uma solução, mas o ditador se nega a entregar o poder.

Em 21 de setembro, centenas de policiais impediram uma marcha que manifestantes que gritavam: "Ditadura, não! Democracia, sim!"

domingo, 12 de agosto de 2018

Intelectuais se mobilizam para salvar cineasta ucraniano preso na Rússia

Um grupo de cineastas e intelectuais, entre eles a ministra da Cultura da França, Françoise Nyssen, e os diretores Jean-Luc Godard, David Cronenberg e Ken Loach, fez hoje um apelo pela libertação e para salvar a vida do cineasta ucraniano Oleg Sentsov. Condenado a 20 anos de prisão na Rússia, ele está em greve de fome há três meses. Sua vida corre perigo.


Sentsov foi detido em sua casa na península da Crimeia em maio de 2014, dois meses depois da anexação ilegal da região pela Rússia, e denunciado por terrorismo e suposta cumplicidade com o grupo paramilitar neonazista ucraniano Setor de Direita, organização de grupo terrorista e tráfico de armas, acusações forjadas para justificar a prisão. Veja abaixo a nota dos intelectuais:

"Artesãos da imagem e do imaginário, os cineastas nos movem e nos maravilham, capturam nossa época e nos cativam", declarou em nota o grupo. "Através de suas obras, eles compartilham suas visões e despertam as nossas. Eles fazem ouvir suas vozes - vozes às vezes dissidentes: em todo o mundo, constituem contrapesos essenciais ao poder e constroem novos pensamentos. A diversidade de opiniões, os debates, desacordos e discussões que os artistas alimentam são uma chance para a democracia, a liberdade e o progresso.

"Porque a arte não conhece fronteiras, porque a arte é universal, os direitos daqueles que lhe dão vida deve ser igualmente. A liberdade de expressão e a liberdade de criação não devem parar onde começa a dissidência. No entanto, hoje, um cineasta está à morte porque é um dissidente. Ameaçado por causa de suas ideias, como Vassili Grossman, Alexander Soljenitsyn e outros sob o regime comunista.

"Oleg Sentsov está preso na Rússia há mais de quatro anos. Sua condenação a 20 anos de reclusão por um tribunal militar russo, no fim de um processo que manifestamente não respeitou o direito de defesa, é uma violação do direito internacional e das regras fundamentais da justiça. Seu único "erro" real não seria ter exercido sua liberdade de expressão? Seu único crime não seria poder exprimir seu engajamento político através da arte?

"Enfermo, no Norte da Sibéria, em condições horríveis e desumanas, ele perdeu mais de 30 quilos desde o início da greve de fome que faz há quase três meses. Como seu estado de saúde parece se degradar perigosamente dia após dia, é preciso agir. E é preciso agir com rapidez.

"Não agir seria deixar Oleg Sentsov morrer. Seria renunciar a nossos valores e princípios, renunciar ao que defendemos e ao que somos. Seria tolerar que alguém possa ser morto por suas ideias, suas opiniões, suas tomadas de posição. O tratamento de que é objeto é um atentado à liberdade de pensamento e à liberdade de criação.

"Não podemos aceitar. É urgente e necessário que a Rússia encontre uma solução não só humanitária mas política para esta situação. Não somente a França - o presidente Emmanuel Macron fez vários apelos ao presidente Vladimir Putin -, mas o conjunto da comunidade internacional, da União Europeia à ONU, devem se mobilizar por Oleg Sentsov e para obter respostas.

"Os artistas do mundo inteiro sabem que o presidente russo tem o poder de parar com esta tragédia humana e democrática. Em todo o mundo, no mundo do cinema, da cultura e muito além, uma mobilização internacional deve se fazer ouvir em defesa do cineasta. Em nome da liberdade artística e de expressão, nós apelamos de novo pela libertação imediata de Oleg Sentsov", conclui o comunicado.

O texto é assinado pela Sociedade dos Autores e Compositores Dramáticos, a Sociedade Civil dos Autores Multimídia, a Sociedade Civil dos Autores, Realizadores e Produtores, a Sociedade dos Realizadores de Filmes, a Associação dos Realizadores e Realizadoras Francófonos e o Théâtre du Soleil.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Google aceita censura para entrar na China

O Google pretende lançar uma versão de seu mecanismo de busca especial para a China com censura a certos endereços e palavras. Com outras empresas americanas de alta tecnologia, está disposto a aceitar a censura prévia do regime comunista para ter acesso ao lucrativo mercado chinês.

A China bloqueia há muitos anos o acesso a mecanismos de busca e conteúdo produzido por companhias dos Estados Unidos e do Ocidente, como o YouTube. É o único país onde estive em que não pude atualizar meu blog.

Em dezembro de 2017, o Google anunciou a intenção de abrir um centro de pesquisas sobre inteligência artificial na China, que disputa com os EUA a liderança tecnológica do setor.

Ao aceitar a censura, o Google recua em seu compromisso com a liberdade de expressão. Em 2010, saiu da China citando preocupações com a censura e a vigilância do Estado sobre o cidadão. O co-fundador da empresa Sergey Brin, que passou os primeiros seis anos de vida na União Soviética e teria apreço pelas liberdades democráticas, teria influído na decisão. Agora, o dinheiro falou mais alto.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Trump tenta censurar livro sobre bastidores da Casa Branca

Em uma ação inusitada para um presidente dos Estados Unidos, os advogados particulares de Donald Trump tentaram impedir o lançamento do livro Fogo e Fúria: dentro da Casa Branca de Trump, que revela o caos nos bastidores do atual governo. A editora Holt & Co reagiu antecipando o lançamento de terça-feira para hoje, sexta-feira.

O livro afirma que Trump ficou surpreso com a vitória. Melanie Trump não gostou. Não queria a exposição do cargo de primeira-dama. A primeira-filha, Ivanka Trump, virou assessora da Casa Branca para se preparar para ser a primeira mulher a governar os EUA, uma espécie de derrota final de Hillary Clinton.

Também revela detalhes da demissão do diretor-geral do FBI, a polícia federal dos EUA, que investigava um possível conluio da campanha de Trump com o Kremlin durante a campanha eleitoral de 2016.

A reunião de Donald Trump Jr. com uma advogada russa para levantar acusações contra a candidata democrata, Hillary Clinton, foi descrita como "traiçoeira" e "antipatriótica" pelo ex-chefe de campanha e ex-estrategista-chefe da Casa Branca, Steve Bannon.

Bannon é uma das principais fontes do autor, o jornalista Michael Wolff, que agradeceu no Twitter à publicidade extra capaz de multiplicar as vendas do livro: "Vamos nessa. Você vai poder comprá-lo e lê-lo amanhã. Obrigado, Sr. Presidente."

Quando o jornal inglês The Guardian publicou trechos do livro, Trump reagiu furiosamente. Disse que o livro é uma "falsidade", "cheio de mentiras, distorções e fontes que não existem". De Bannon, tentou se desvincular: "Steve Bannon não tem nada a ver comigo nem com minha presidência. Quando foi demitido, ele não apenas perdeu o emprego, perdeu a cabeça."

Sob um bombardeio de perguntas que não podia responder, a porta-voz da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, declarou o que presidente está "furioso e indignado com os ataques pessoais, a seu governo e à sua família".

A expressão "fogo e fúria" foi usada por Trump em resposta a uma das muitas provocações do ditador Kim Jong Un, ameaçando a Coreia do Norte com uma ataque nuclear.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Ideólogo da ditadura militar da China defende censura à Internet

Ele é o cérebro por trás do trono. Sem nunca ter sido líder regional do partido, nem prefeito, nem governador, nem ministro, um obscuro professor virou membro do Comitê Permanente do Politburo do Comitê Central do Partido Comunista da China, um dos sete imperadores que governam o país de fato. Em seu primeiro discurso público, Wang Huning defendeu hoje o rígido controle da informação pela ditadura militar chinesa.

Ao falar na Conferência Mundial da Internet, organizada pela Administração do Ciberespaço da China, em Wuzhen, a 120 quilômetros de Xangai, na China, defendeu cinco princípios para manter a "ordem e a segurança", suas preocupações fundamentais, na rede mundial de computadores, informou o jornal The New York Times.

Diante dos diretores-gerais da Apple, Tim Cook, e do Google Sundar Pixai, e do chinês Jack Ma, dono da maior empresa de comércio eletrônico do mundo, a chinesa Ali Baba, Wang destacou o desenvolvimento tecnológico da China e pediu mais investimentos em setores de ponta como inteligência artificial e computação quântica. O regime ditatorial quer a China na vanguarda tecnológica sem ampliar as liberdades públicas.

Conselheiro dos dois presidentes anteriores, Jiang Zemin e Hu Jintao, e do atual, Xi Jinping, Wang chegou ao Comitê Permanente aos 62 anos. Suas ideias começaram a ser conhecidas nos anos 1990s, quando ele era professor da Universidade Fudan, em Xangai, a maior e mais vibrante cidade chinesa.

Como a China é um país grande e pobre, argumenta Wang, precisa de um governo central forte para promover o desenvolvimento econômico. Sem um regime autoritário, a China não conseguiria superar o século de humilhação diante das potências ocidentais e do Japão, que começa com as Guerras do Ópio, em 1839, e vai até a vitória da Revolução Comunista liderada por Mao Tsé-tung, em 1949.

Seu pensamento segue a tendência de aumento do autoritarismo sob a liderança personalista de Xi Jinping, considerado o dirigente mais forte do PC chinês depois de Mao Tsé-tung e Deng Xiaoping. Xi resgata o culto da personalidade de Mao, que Deng suprimiu impondo uma liderança coletiva e um limite para o exercício dos cargos mais importantes do regime, a Secretaria Geral do PC, a presidência da China e a presidência da Comissão Militar Central.

Neste domingo, Wang exaltou Xi por seu "conhecimento profundo" da governança da Internet, afirmando que as ideias do ditador chinês sobre a Internet foram "recebidas calorosamente" pela sociedade internacional, em especial o conceito de "soberania cibernética" - a expressão usada pelo regime comunista para justificar a censura rígida à rede mundial de computadores.

A China é o único país onde andei em que não pude escrever neste blog. A censura é implacável. Na visão chinesa, comum a ditaduras, cada país tem o direito de criar sua própria rede e censurar tudo, especialmente o que vem de fora, com a chamada Grande Muralha de Fogo da China (Great Firewall of China), praticamente isolando o país.

Nas regiões onde há problemas com minorias étnicas, como no Tibete e na província de Xinjiang, a rede não funciona, para impedir a articulação de oposições ao regime comunista. Na conferência, conexão de altíssima velocidade.

"A governança global do ciberespaço não tem espectadores. Somos todos participantes", argumentou o alto dirigente chinês para alegar que "todas as partes" devem ter direito a dizer como a Internet deve ser administrada.

Suas cinco propostas seguem a orientação ditada por Xi Jinping ao participar da 2ª Conferência Mundial da Internet, em dezembro de 2015:

1. Acelerar a construção da infraestrutura global da rede para aumentar a interconectividade: até 2020, a Internet deve chegar a quase todas as aldeias chinesas.

2. Construir plataforma on-line para intercâmbio cultural e promoção da comunicação mútua: a China quer exportar sua cultura mantendo o controle estatal sobre o fluxo de ideias vindas do exterior.
3. Promover o desenvolvimento inovador da economia da Internet: maior beneficiária hoje da globalização e do comércio internacional, a China quer estar na vanguarda de todos os setores, especial da economia da Internet.

4. Salvaguardar a segurança da Internet para garantir o desenvolvimento de maneira ordena: ao mesmo tempo em que se dá o direito de censurar a rede, o regime chinês quer fortalecer o combate internacional ao terrorismo e ao crime organizado via Internet.

5. Estabelecer um sistema de governança da Internet que promova equidade e justiça: a proposta é criar regras globais de administração da rede. Vindo de uma ditadura, dá para pressupor que seja para aumentar o controle da informação.

A China não quer perder o trem-bala da corrida tecnológica. Quer usar o poder econômico da Internet sem liberar o fluxo de informações para impedir a disseminação de ideias liberais e democráticas capazes de minar o poder absoluto do partido.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Rússia adota novas medidas contra mídia internacional

A Duma do Estado, a câmara baixa do Parlamento da Rússia, aprovou hoje um projeto para enquadrar correspondentes internacionais e empresas de mídia que receberem dinheiro de fora como "agentes estrangeiros", noticiou o jornal britânico Financial Times

É uma resposta à decisão dos Estados Unidos, que exigiram que televisão oficial do Kremlin Russia Today (RT) seja registrada como "agente estrangeiro" por fazer mais propaganda do que jornalismo.

O projeto pode virar lei ainda nesta semana. Dará ao Ministério da Justiça o direito de banir qualquer meio de comunicação que receba dinheiro do exterior. Os principais alvos seriam a rede de televisão americana CNN, a rádio Voz da Alemanha e a Rádio Europa Livre, criada pelos EUA durante a Guerra Fria para combater a propaganda da União Soviética.

Para a presidente do Conselho da Federação, a câmara alta do Parlamento, nomeada diretamente pelo Kremlin, Valentina Matvienko, foi uma reação necessária à "máquina de propaganda do governo americano, que começou a perseguir a mídia russa".

A mídia é um elemento central nas investigações nos Estados Unidos sobre um possível conluio entre o Kremlin e a campanha de Trump para prejudicar sua adversária, a candidata democrata, Hillary Clinton, que adotaria posições muito mais duras em relação à Rússia.

No mês passado, sob pressão do Departamento da Justiça, o Twitter proibiu a RT e sua agência de notícias Sputnik de anunciarem. Mais de 279 mil mensagens atribuídas a agentes russos foram divulgadas pelas mídias sociais como se fossem de americanos conservadores a favor da eleição de Trump e mais tarde foram apagadas.

A medida dos EUA se aplica apenas à empresa responsável pela produção da RT nos EUA, que tem somente um empregado, Mikhail Solodovnikov, com salário mensal de US$ 56 mil. Ontem, ele alegou não saber quem controla a RT.

Embora se apresente como um meio de comunicação independente, a RT é totalmente financiada pelo Kremlin, com um orçamento de US$ 311 milhões para 2017. A produtora nos EUA tinha US$ 6,6 milhões para gastar em agosto e setembro.

A editora-chefe da RT e da Sputnik, Margarita Simonyan, afirmou que seus funcionários estão pedindo demissão "em massa" por causa da pressão e alegou que apenas dá voz a quem é ignorado pela mídia americana. Mas sua mesa tem uma linha telefônica direta com o Kremlin.

Ontem, a primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, acusou a Rússia de "procurar transformar a informação em arma com suas organizações de mídia estatais para plantar notícias falsas e imagens manipuladas numa tentativa de semear a discórdia no Ocidente e de minar nossas instituições." A RT reagiu publicando uma foto de May no Twitter com grandes letras vermelhas sobrepostas dizendo "notícia falsa".

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Jornalistas denunciam censura da Frente Nacional

As associações de jornalistas de 29 meios de comunicação da França, inclusive o jornal Le Monde, protestaram hoje contra a decisão da neonazista Frente Nacional de "escolher as mídias autorizadas a seguir Marine Le Pen", candidata da ultradireita à Presidência da República.

Depois de vários casos em que jornalistas foram impedidos de cobrir eventos da campanha de Marine, os jornalistas divulgaram a seguinte nota:

"Por ocasião da campanha para o segundo turno da eleição presidencial, a Frente Nacional decidiu escolher os meios de comunicação autorizados a seguir Marine Le Pen. Várias publicações viram assim seus representantes ser privado de toda informação e de toda possibilidade de seguir a candidata da Frente Nacional no terreno.

"Assim, depois da Mediapart e do Quotidien (e antes dele, de seu predecessor Le Petit Journal), a Agência France Presse (AFP), a Rádio France, a Rádio France International, France 24, Le Monde, Libération e Marianne foram em algum momento vítimas dessas exclusões. Não se trata portanto de um recurso à prática do pool de jornalistas, quando informações e imagens são compartilhadas.

"Protestamos da maneira mais firme contra este entrave à liberdade de fazer nosso trabalho e cumprir nosso dever de informar. Não cabe a uma formação política, qualquer que seja, de dedicir que meios de comunicação estão habilitados a exercer seu papel democrático na nossa sociedade", concluíram os jornalistas.

O segundo turno da eleição presidencial na França, marcado para 7 de maio, é um duelo entre o liberalismo de Emmanuel Macron e o antiliberalismo neofascista da FN.

domingo, 21 de agosto de 2016

China censura fracasso de atletas chineses no Rio

O regime comunista da China ordenou à mídia oficial que não dê destaque às derrotas dos atletas chineses na Olimpíada do Rio de Janeiro, dando ênfase ao esforço para defender a pátria numa cobertura nacionalista.

A China venceu a Olimpíada de Beijim, que organizou em 2008, com 51 medalhas de ouro e 100 no total, contra 36 ouros e 110 ao todo para os Estados Unidos. Em 2012, em Londres, a China ficou em segundo com 36 ouros contra 46 dos EUA.

Agora, deve terminar em terceiro lugar com 26 ouros, 18 pratas e 26 atrás dos EUA (46, 37 e 38) e da Grã-Bretanha (27, 26 e 17), um desempenho abaixo do que a propaganda nacionalista do ditador Xi Jinping gostaria.

O departamento de propaganda do Partido Comunista determinou então à mídia oficial uma cobertura positiva do esforço e da dedicação dos atletas do país.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Erdogan fecha 16 TVs, 23 rádios e 45 jornais na Turquia

Em sua reação oportunista depois do fracassado golpe militar de 15 de julho de 2016, o presidente Recep Tayyip Erdogan mandou fechar três agências de notícias, 15 revistas, 16 emissoras de televisão, 23 rádios e 45 jornais na Turquia. Quarenta e sete jornalistas foram presos.

Os Estados Unidos e a União Europeia pediram moderação no contragolpe, mas o líder turco ignora seus críticos internos e externos. Desde o golpe, mais de 60 mil militares, policiais, juízes, promotores, professores, intelectuais, jornalistas e outros funcionários públicos foram presos ou demitidos.

Erdogan acusa o clérigo muçulmano autoexilado nos EUA Fethullah Gülen de estar por trás do golpe. Gülen nega tudo. O comando do Estado-Maior das Forças Armadas apontou 8.651 militares ligados ao movimento gulenista, cerca de 1,5% do contingente total.

Os governos ocidentais e organizações de defesa dos direitos humanos manifestaram preocupação com a onda de expurgos e prisões, acusando Erdogan de aproveitar a oportunidade para atacar as oposições, que foram contra o golpe, e ampliar seus poderes.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Irã destrói 100 mil antenas de satélite

Em mais uma campanha contra "desvios culturais e morais", o regime teocrático do Irã destruiu 100 mil antenas de satélite. Um milhão de iranianos concordaram em entregar voluntariamente às autoridades os equipamentos usados para assistir televisão de outros países.

"O que estas televisões realmente fazem é aumentar o divórcio, o vício e a intolerância na sociedade", declarou Mohamed Reza Naghdi, chefe da milícia Bassij, braço paramilitar da Guarda Revolucionária do Irã, justificando a censura.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Trump retira credencias do Washington Post

Em mais um gesto autoritário e fascistoide, o bilionário Donald Trump, virtual candidato do Partido Republicano à Presidência dos Estados Unidos, proibiu o jornal The Washington Post de cobrir sua campanha à Casa Branca. Há uma longa lista de meios de comunicação censurados por Trump.

No Facebook, o magnata imobiliário declarou que, "baseado numa cobertura com reportagens incrivelmente inacuradas da campanha recordista de Trump, nós estamos revogando as credenciais de imprensa do falso e desonesto Washington Post."

O editor executivo do Post, Martin Baron, respondeu: "A decisão de Donald Trump de retirar das credenciais de The Washington Post nada mais é do que o repúdio ao papel de uma imprensa livre e independente. Quando a cobertura não corresponde ao que o candidato gostaria, uma organização jornalística é banida. O Post vai continuar cobrindo Donald Trump como sempre fez - honorável, honesta, acurada, enérgica e inflexivelmente. Temos orgulho de nossa cobertura e vamos mantê-la."

Entre os meios de comunicação banidos por Trump, estão Gawker, BuzzFeed, Foreign Policy, Politico, Fusion, Univisión, Mother Jones, The New Hampshire Union Leader, Des Moines Register, The Daily Beast e The Huffington Post.

The Washington Post se tornou um dos jornais mais famosos do mundo ao revelar o Escândalo de Watergate, uma operação da espionagem da oposição comandada de dentro da Casa Branca pelo presidente Richard Nixon durante a campanha eleitoral de 1972. Reeleito, Nixon renunciou em 1974.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Tunga considerava a política cultural uma farsa

Um dos artistas plásticos brasileiros mais bem-sucedidos internacionalmente, o pernambucano Antonio José Barros de Carvalho e Mello Mourão, mais conhecido como Tunga, morreu hoje aos 64 anos no Rio de Janeiro, onde morava. Seu trabalho tinha a marca do inusitado. Reproduzo aqui uma entrevista feita com Tunga em maio de 2006.

Para a pesquisadora Katia Canton, Tunga mescla vida e arte, e desfetichiza a obra de arte. Foi o que se viu na instalação Laminadas Almas, apresentada no Centro Tom Jobim, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, de 13 de maio a 3 de junho.

Tunga, que já expôs nos principais centros de arte de vanguarda do mundo – como o Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova Iorque; os museus do Louvre e o Jeu de Paume, em Paris; e a galeria Whitechapel, em Londres –, voltou ao Rio depois de 14 anos de sua última mostra importante na cidade.

A instalação espalhada em três salas tinha 400 mil moscas, 600 rãs, 2mil girinos, milhares de larvas e dois irmãos gêmeos posando como cientistas ao microscópio, grandes lâminas de vidros, luzes e tecidos imitando peles de ràs gigantes. Ficou ainda mais espetacular com a performance realizada pelos bailarinos da coreógrafa Lia Rodrigues, em 20 de maio. E a própria presença do público caminhando entre aquelas formas de vida lhe dava um caráter muito diferente do que se sentia ao visitar o local sem ninguém ao redor.

Nesta entrevista exclusiva, Tunga fala da obra, de sua decisão de optar pelo Jardim Botânico e critica a política cultural do país, que chamou de farsa, a censura e o dirigismo cultural, e a tentativa de forjar uma identidade cultural oficial.

JOBIM - Estou com o Tunga na instalação Almas Laminadas, no Jardim Botânico. Eu queria lhe perguntar inicialmente qual é a concepção deste trabalho, a vida, a metamorfose, o que você representa?

TUNGA - Antes de mais nada é Laminadas Almas, a ordem é inversa. É meio gótico, mas é assim.

A pergunta é um pouco vasta. Eu acho que se eu tivesse uma resposta imediata, espontânea, para ela, talvez eu não fizesse a obra desse jeito. Eu acho que o pensamento plástico é um pensamento dentro desse campo, dentro das artes plásticas, é um modo de pensar em si, e essa tradução que eu venha a fazer pode indicar algumas alusões, algumas referências à complexidade que aí se estabelece, não só visualmente mas através de outras manifestações que estão aí implícitas, como a própria existência desses animais, desses seres vivos, o som, o cheiro que você sente, as transparências, enfim, uma plêiade de recursos, de linguagens diversas
que se configuram nessa obra para tentar falar de alguma coisa.

Que coisa pode vir a ser essa coisa que está implícita? Toda vez que você inscreve uma obra em algum campo ela ressoa em vários territórios onde esse campo acolhe.

Eu acho que hoje o campo das artes plásticas é um campo de ressonância bastante intenso, bastante amplo e bastante generoso na medida em que a partir do século 20 ele começou a acolher de um modo generoso, conforme eu disse, manifestações das áreas mais diversas que se encontravam como que reduzidas a seu campo de ação, dada a natureza e o desejo de inscrição um pouco mais além daquilo que as instituições, o universo das instituições, considerando instituições como o lugar das coisas não só as relações da instituição com o Estado, o mercado. Passou a não acolher as manifestações dada uma certa radicalidade. E as artes plásticas pouco a pouco vão ocupando esse território de acolher essas outras manifestações tais e quais a dança, a música, a poesia etc. que, dado a fenômenos do mercado, fenômenos de Estados que não viabilizavam um tipo de investimento em certas direções, as artes plásticas generosamente acolheram isso. E essa complexidade veio a aumentar o trabalho das artes.

J - As artes plásticas hoje não têm aquele sentido de ficar somente observando uma pintura maravilhosa num museu, quer dizer, precisam de uma interatividade? Eu estava me lembrando da sua instalação no dia da abertura da exposição e depois quando teve a performance. Estava cheio de gente e então era outra coisa do que chegar aí e a sala estar completamente vazia, só com o som e os bichos.

T - Primeiro acho que ainda há lugar e sempre haverá lugar para uma pintura na parede. Eu não acho que um tipo de manifestação, um gênero, se é que a gente pode tentar inquirir que gênero é esse vá substituir outro nesse campo. Eu acho exatamente que a fertilidade das artes plásticas é o fato delas assumirem a diversidade de manifestações desse mesmo campo. Então esse campo se ampliou nessa medida. Pode ser tanto no espaço pictórico, com as suas convenções, quanto um pensamento que expande esse campo além do visual. É óbvio e é notório que a uma pintura se imprime o olhar do observador.

Quer dizer, não há esse território límpido, neutro e natural onde a pintura exista sem um olhar impregnado de uma cultura que se manifesta sobre ele. E acredito ainda que esses olhares se inscrevam nessas pinturas. Mesmo sendo apenas pinturas sobre telas, considerando essa superfície plana etc. e etc. com toda a intensidade dos princípios pictóricos.

Isso de um olhar se imprimir, se expressar e se tornar presente em uma obra pictórica, imagine-se numa obra escultórica ou numa obra que vá mais além disso.

Já não é só mais o olhar que se expressa, que se imprime, que se impregna nessa obra, mas todo o testemunho, uma vivência, uma experiência no sentido da palavra que transforma essa obra assim como essa obra transforma essa experiência, essa vivência desse sujeito que ali está presente. Ou seja, há que se contar, eu conto, nesse gênero de coisa que eu faço (a pensar que gênero será esse) que a presença do observador, a experiência do sujeito que ali passa mais ou menos aculturado, ou mais ou menos intencional na sua passagem faz parte dessa obra, se constitui com essa obra.

Essa obra não é só os seus elementos e a disposição dos seus elementos na heterogeneidade das linguagens ali abordadas mas também a lembrança, a memória, a perseverança, o testemunho daqueles que a viram.

J – É uma obra de arte para ser apreciada com todos os sentidos...

T - Não poderia te dizer todos os sentidos... Nos sentidos convencionais...

J – Com o corpo inteiro...

T - Ser testemunhada. Acho que a noção de testemunho...

J - Tem som, além de todo o aspecto visual, tem a ideia de que você caminha ali no meio de uma forma participativa, havia crianças brincando e pulando ali...

T - Tudo isso eu acho bastante excitante. Mas é preciso não esquecer que não há grande novidade nisso. Se a gente pensar, Píndaro, o poeta grego, não só dizia aqueles poemas quase que incompreensíveis e enigmáticos até hoje, mas ele os dizia improvisando, dançando, cantando, tocando a lira e ébrio. Quer dizer, isso não é novo no Ocidente, não. É apenas retomar uma complexidade que sempre existiu e que passou por um momento histórico onde houve a necessidade de idealização dessa complexidade, de simplificação...

J - E aquela performance dos bailarinos, o pessoal nu. O nu ainda é transgressor?

T - Não, de jeito nenhum. O nu nunca foi transgressor. Eu acho que essa nudez aí é apenas um signo  de uma postura talvez limpa, ideal com outro corpo. Essa obra fala do corpo  e a presença dessa nudez denota um tipo de corpo, um tipo de atitude, a ser assumida pelo olhar da obra, pela presença da obra.

Eu acho que, a rigor, todos nós ficamos nus frente a alguma coisa que nos deixa perplexos. É dessa nudez que se estava sendo explícita ali e talvez também desse contato com o corpo mais direto, essa
experiência tátil que o corpo nu imprime à diferença de um corpo vestido.

Mas, curiosamente, trata-se exatamente em um dos temas presentes... É essa mudança de pele, essa reencarnação, essa superfície a que se pode atribuir uma transformação do sujeito, a superfície da pele, que pode ser uma roupa, que pode ser a pele, que pode ser a própria pele fantasmática aqui presente como essas peles de rãs aumentadas. Rãs gigantes.

Quer dizer, eu acho que essa pele dessa nudez falou diretamente a que a viu de um modo diferente da nudez que a gente tá habituado nos outdoors da vida, nas Playboys da vida, né? Eu acho que é outro tipo de nudez. Não é uma nudez cujo erotismo seja codificado. Não é uma nudez casta tampouco. Enfim, é uma nudez bastante peculiar, particular e que se constrói, se constitui junto com a obra.

Quer dizer, você observando a presença desses bailarinos nessa primeira sala, o corpo deles, cada um
deles era como se fosse uma das partes de cada um desses elementos que constituem uma das peças. Então, eles ali estavam se integrando a essas peças, o corpo dele se integrava nas peças para formar um terceiro corpo, que era o corpo constituído do corpo deles, desse corpo aí presente, e o terceiro era essa mistura dessas coisas. Era um metamorfose nova, um novo sujeito,um novo, um nova espécie ali colocada.

J - Agora você tinha as moscas, os girinos, as rãs. Tem essa idéia da cadeia alimentar. Até alguém falou que iria fazer um jantar de rãs depois. Para os homens comerem as rãs e fecharem o ciclo.

T - (Riso) Espero que o tempero não seja mosca...

Há uma intenção no uso dessas duas espécies, pelo fato de ter uma cadeia alimentar, de ter uma pulsão, um impulso animal de um em direção ao outro. Já a fase de metamorfose realizada nos dois, quer dizer, a rigor a rã não comia a mosca, sequer, ela comia a larva da mosca. Quer dizer, existia a larva e o girino, a mosca e a rã. Mas enfim, o negócio da fantasia infantil e no conhecimento geral parece que o antagonista da mosca é a rã.

Então acho que é essa coisa polar, essa estrutura espectral que está aqui presente, mais patológica na medida em que um dos lados que se expele é complementar ao outro, diz mais alguma coisa dessa estrutura. O fato de haver uma simetria, haver uma dupla simetria, e nessa simetria um dos lados não simétrico mas é complementar ao outro, acho que diz respeito a gente, diz respeito a essa obra.

N - Por que aqui no Jardim Botânico? Tem a ver com a natureza? Ou é um espaço alternativo?

T - Para a natureza, é melhor a gente ler Virgílio, antes de qualquer coisa. A minha noção de natureza não é tão simplória de achar que a natureza no Jardim Botânico é tudo menos natureza. Quer dizer, há de ser uma natureza mas quando você olhar há uma árvore, uma planta, um inseto. Mas evidentemente é uma construção um jardim botânico, uma coisa cultural, uma construção marcada com todos os signos de uma cultura, de uma sociedade. E é lógico que essa inscrição leva em conta
isso.

Assim como o museu tem todo um conjunto de signos da sociedade, o Jardim Botânico também os tem acho que são várias...

Essa atitude, essa escolha, essa opção, carrega vários sentidos, várias significações.

Por um lado há - óbvio - um desconforto em relação ao campo das  instituições culturais voltadas  àquilo que tradicionalmente a gente chama cultura em artes plásticas. Estão os museus em geral.

Há uma atitude clara em relação aos museus e às instituições que tenderiam a abrigar esse tipo de
trabalho. Não porque haja uma incompatibilidade de qualquer natureza dessa obra com o museu, mas talvez mais por uma questão da gestão, da política cultural que tem se exercido no Brasil ultimamente.

Eu acho que há uma certa... um certo desejo de mostrar a coisa de um jeito diferente, mostrar essa obra de um jeito diferente. É evidente que eu não acredito que uma inscrição seja uma crítica negativa.

Acho que era necessário agregar a esse desejo de não estar presente no museu aqui no Brasil a uma outra postura positiva que era a de aproximar essa obra a essa situação que é a de um jardim botânico, que é um lugar de cultura, que é uma construção cultural mas que leva para um lado diverso e que, pelo que eu sei, me parece  uma instituição exemplar aqui no Rio de
Janeiro. Se não é exemplar, se eu estiver equivocado por desinformação, pelo menos no meu imaginário e na minha trajetória, na minha existência, tem sido um lugar de grande grande importância. O Jardim Botânico... Então eu acho que tem um lado até afetivo se você quiser considerar .

J - Você se manifestou, a classe artística em geral se manifestou contra a censura do  quadro da Márcia X, no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB).

T - Veja bem, eu acho que isso é uma pontinha de um iceberg bem maior do que isso. Eu  acho que há uma gestão de cultura intencional no Brasil. Não à toa que os órgãos do governo que não estão ligados ao Ministério da Cultura exercem um papel cultural no Brasil de extrema força, com extrema violência com determinação oculta, mas muito clara.

Você olha tanto no CCBB ou os patrocínios dados pela Finep ou a política cultural da Petrobrás há uma opção clara e um perfil cutural claro nisso. Então é uma farsa,  há ali funcionários públicos atrás do Banco do Brasil, de carreira, que vão escolher os artistas. Há toda uma complexidade, há um sistema complexo, um cultura brasileira muito bem subvencionada, muito bem paga com valores fora dos valores do mercado. Há um dirigismo cultural nisso e isso é gravíssimo porque em vez disso ser explícito que é a política cultural, aparece de um modo escamoteado.

J - Que perfil é esse de que você fala?

T - Veja o currículo dessas instituições  e veja o que nos representa tanto nacional como internacionalmente pelo que recebe patrocínio, subsídios vindos da isenção fiscal, vindo de leis que são nosso dinheiro...

J - É tudo renúncia fiscal...

T - Essa lei de renúncia fiscal, não estou só falando da lei, precisamente. Estou falando de como essa lei é utilizada por estes centros culturais dessas companhias que se têm, enfim, como a Petrobrás, que
tem um lado do Estado e um lado de empresa...

N - ...privada, o que a torna de economia mista.

T - Economia mista, exato. Quer dizer, eu acho que essas empresas que são de economia mista, que têm esse pé no Estado, e que são geridas, funcionam com isenção fiscal, têm uma responsabilidade cultural que não é só fazer o bem ou fazer publicidade ou dizer como nós somos bonitos.

Eles estão traçando milionariamente o perfil da cultura brasileira. E ninguém é capaz de mostrar isso e dizer isso claramente. Isso termina nos dando um confronto com o mercado espontâneo muito curioso. Eu acho que é isso é que se deveria ver. Quando há uma coisa arbitrária como uma censura exercida...

Não é a primeira vez que isso acontece no Banco do Brasil. Aconteceu no Museu de Arte Moderna. Deve acontecer freqüentemente nas escolhas que essas instituições  fazem. É evidente que eles escolhem aquilo que os apraz e aquilo que os apraz tem um perfil ideológico, privado, do cidadão que está ali por trás.

Quero que seja claro, quero que seja dito, porque eu quero ver com quem estou lidando, com quem estou mexendo. Sou um agente cultural, sou um poeta antes de mais nada. Mas como poeta me inscrevo como tal nessa sociedade.

Então quero saber que lugar é esse e isso nunca é dito. Isso é apresentado anualmente,  esse ano vamos fazer tal qual e tal. Eu não nego a qualidade de muitas dessas coisas que são apresentadas. O que nego é a ausência total de uma responsabilidade cultural. Um museu é um lugar que deve ter e pede-se dele uma responsabilidade cultural.

O papel do museu é sedimentar, sedimentar as referências, os paradigmas, que são aqueles onde se
deve espelhar, se deve pensar a cultura que está construindo.

Qual é o papel de um centro cultural? O centro cultural, o papel dele é fazer agir as obras, as
manifestações de uma cultura  presente, uma cultura que se faz a cada dia.

Ou seja, nem um nem outro estão funcionando como tal. Há uma anomalia, uma anomalia que me parece grave devido ao fato disso não ser claro, devido ao fato disso ser feito como laissez-faire e todos os artistas em geral, a classe em geral  está muito feliz por poder ter acesso ao catálogo de uma exposição de um ou outro artista. Não quero um catálogo, não quero uma exposição. Eu quero um perfil cultural. Eu quero um programa para transformar essa sociedade. Um programa
cultural explícito.

J - Quer dizer que os órgãos oficiais, as instituições, não estão dando a liberdade que você
gostaria para os artistas fazerem, produzirem a identidade cultural brasileira, que é uma coisa tão
importante?

T - Eu não acho que eles estejam dando ou não. Eu quero saber ao que eles vieram. Vieram para justificar a isenção fiscal? Vieram para trazer pão e circo? Vieram para trazer uma audiência pública? Vieram para fazer publicidade de seus eventos? Vieram para ser bonzinhos ou vieram com propósitos de melhorar a sociedade? Melhorar a vida das pessoas naquilo que diz
respeito a uma cultura?

Depois a questão da identidade cultural não parece um questão tão simples também. Eu acho que o Brasil deveria procurar mais a obra dos seus artistas, poetas, músicos aquilo que falam da identidade
cultural do que tentar essa formulação de um projeto de identidade cultural.

Identidade cultural é um problema que me parece bastante europeu, quer dizer, eu vejo na modernidade o enunciado da vontade da dissolução da identidade. E isso é um enunciado que funda o Estado moderno e que dá cultura. Isso sempre foi muito claro para aqueles que fundaram a coisa moderna.

Curiosamente o Brasil pode levar a diante por condições adversas que são de flutuação da identidade
que bastante me interessa, que bastante foi refletida na obra de grandes autores como Oswald de Andrade, como Flávio de Carvalho, como Hélio Oiticica etc.

Eu acho que caberia uma reflexão maior do que é essa identidade, o que é a vontade de identidade, para não se cair num nacionalismo que, em geral, essa questão da identidade nos leva e que parece uma posição bastante retrógrada.

J - Na era da globalização, como há uma pressão enorme para homogeneizar diversos processos, o que diferencia um país do outro é a sua cultura, a diferença é a identidade cultural de um povo?

T - O que me interessa mais, nesse caso, é  a dinâmica cultural. No Brasil se anunciou claramente a
capacidade de ingestão da cultura do outro e eu acho que essa reflexão nos leva, no momento atual, a
compreender que talvez a identidade brasileira seja a identidade da própria transformação contínua da
identidade. E isso me parece ser muito mais um quadro progressista em relação a essa nossa noção de
identidade, atual, do que a busca das diferenças.

Talvez seja a busca da dinâmica das possíveis diferenças e não da diferenças em si. Você se transformar a cada dia, você diz: você é igual a quem? É idêntico a quem?

Você é idêntico à própria dinâmica da transformação. Eu acho que esta é uma questão brasileira. Eu acho que esta é uma questão sugerida no manifesto do Oswald, é uma questão pensada claramente na obra do Hélio, eu acho que essa é uma questão que nos cabe.

Então a gente vai procurar se identificar como sendo o povo do futebol e do samba? É um equívoco. O povo da dinâmica da transformação de uma estrutura musical como o samba em outra coisa que não o samba, já é outro samba mais complexo etc. etc. O que eu acho que é preciso pensar é na estrutura que nos permite ser  idênticos e diferentes de si mesmos. Quer dizer, é um mutação contínua.

J - Agora, nessa questão do quadro da Márcia X há também intolerância religiosa. Depois o pessoal
espalhou os cartazes pela cidade, o prefeito César Maia mandou recolher. Obviamente o prefeito mandou recolher num gesto demagógico para agradar às igrejas.

T - Não vejo tanto a questão das igrejas. O que me interessa ali é o instrumento da pressão que foi
exercida. Pelo que eu sei do jornal, daquilo que foi dito, é que correntistas de um banco público-privado iriam tirar as suas contas caso aquela obra estivesse ali. Então é preciso ficar atento à letra das coisas. É um volume de dinheiro depositado que iria sair se caso aquela imagem continuasse ali. Ponto. Essa é a pressão que foi exercida.

J - É uma pressão econômica, mas é uma forma de censura e, segundo consta, eram pessoas ligadas a uma seita dessas da Igreja Católica mais conservadora, a Opus Dei.

T - Poderia ser qualquer grupo. Qualquer grupo de depositantes poderia exercer isso. O que me interessa é a dinâmica disso. Não é essa identidade de um ou outro ser muçulmano, cristão ou judeu. O que me interessa foi o exercício da pressão que foi feita a partir de um volume de dinheiro de correntistas.

Então é preciso saber que os correntistas têm o poder de interferência na direção do banco que tem o poder de ingerência sobre aquilo que eles pretendem autônomo do banco. Até na isenção fiscal eles têm uma autonomia do banco que é o centro cultural. Ou seja, o centro cultural, ficou claro que o centro cultural dependia diretamente da ordem do presidente do banco, da diretoria do banco que sofreria pressão direta desses acionistas, ou seus correntistas, sequer acionistas.

Quer dizer, a rigor, o Banco do Brasil pode muito bem ser dirigido pelos acionistas do Banco do Brasil. E eles vão dizer o perfil cultural que nós vamos passar a viver. Porque a visitação é imensa, os fundos são imensos, os recursos que eles têm são enormes. E eles estão sendo usados dessa jeito. Pela vontade, pelo desejo de algumas pessoas. Quer dizer, um desvio perverso da finalidade e da vocação dessa instituição, nesse caso.

J - Falei em intolerância religiosa. Não citei muçulmanos, cristãos. Porque há uma radicalização, nem
tanto aqui no Brasil.

T - O grave não é que esse ou aquele grupinho. No caso da retirada de uma obra do artista Nelson Leirner do Museu de Arte Moderna, foi um juiz, Siro Darlan. Resolveu que a presença do falus desenhado sobre a imagem de um bebê era atentatório aos menores. Aquilo poderia desviar a formação dos menores que tanto visitam o Museu de Arte Moderna. E a obra foi tirada,
independente dos seus curadores ou diretores do museu. Por ordem judicial. Há uma lei que permite isso. Eu acho que há buracos que a gente pode observar e alguns desses buracos podem se tornar mais ou menos graves.

J - Uma última pergunta: a questão da crítica. Ferreira Gullar andou criticando seu trabalho. Você
perguntou: Ferreira quem? Como é a relação do artista com o crítico? Não interessa a opinião deles para o seu trabalho criativo?

T- Veja bem, eu acho que há um equívoco aí. Eu não vi nenhuma crítica do Ferreira Gullar ao meu trabalho. Eu vi uma crítica do Ferreira Gullar ao meu nome. Só. Ele se referiu ao meu nome, não se referiu ao meutrabalho. Então não posso dizer nada sobre essa... Aliás, Ferreira quem? Mais uma vez. Eu vou lhe dizer a nota que foi mandada ao jornal e que não foi publicada.

Eu não me defendo porque não foi feita crítica nenhuma. Agora eu estive no MoMA (Museum of Modern Art), de Nova Iorque; no Museu do Louvre e no Jeu de Paume, em Paris, na Whitechapel, de Londres; na Kuntzhalle, em Berlim; nos maiores museus do mundo e nunca ouvi falar
nesse cidadão...

Todos expuseram minha obra e sabem quem eu sou. Eu acho que esses são os lugares onde se faz arte contemporânea, talvez não na Casa do Saber. Eu acho que eu estou nesses lugares; ele, não.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Mais um blogueiro secularista é assassinado em Bangladesh

O blogueiro Niloy Neel, conhecido por ser ateu, foi assassinado por uma gangue de homens armados com facões na sua cidade natal, Gorã, nesta sexta-feira, informou a televisão pública britânica BBC. É o quarto blogueiro secularista morto em Bangladesh neste ano. Os suspeitos são militantes islamitas.

A polícia contou que seis homens invadiram a casa de Neel alegando que procuravam um apartamento para alugar.

Em maio, o blogueiro Ananta Bijoy Das foi morto com facões por homens mascarados na cidade de Silhete. Ele estava recebendo ameaças de morte de extremistas muçulmanos.

Em março, Washiqur Rahman foi assassinado em Daca, a capital bengalesa. Além de ser ateu, Avijit Roy abordava temas tabus como o homossexualismo até ser morto em fevereiro.

Oficialmente, Bangladesh é uma república secularista. Os críticos acusam o governo de indiferença em relação aos ataques de islamitas radicais.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Turquia bloqueia redes sociais para censurar imagens da morte de procurador

O governo da Turquia bloqueou o acesso ao Facebook, Twitter e YouTube durante oito horas para pressionar esses gigantes da Internet a tirar da rede as imagens do sequestro e assassinato do procurador Mehmet Selim Kiraz, cometido há uma semana por um grupo terrorista de esquerda, o Partido Frente Popular de Libertação, noticiou o jornal turco Hürriyet.

Uma decisão do juiz Bekir Altun, da 1ª Vara Criminal de Istambul, autorizou o governo a bloquear 166 sítios de Internet que reproduziram as fotos, a pedido do procurador-chefe do Escritório de Investigações sobre o Crime Organizado e o Terrorismo. Além das redes sociais, foram censurados meios de comunicação da Turquia.

O porta-voz do presidente Recep Tayyip Erdogan, Ibrahim Kalin, justificou a medida alegando que "estavam fazendo propaganda terrorista".

Quando as empresas atenderam à determinação da Justiça, na tarde desta segunda-feira, o bloqueio das redes sociais foi suspenso na Turquia, informou Tayfun Acarer, diretor da Autoridade de Tecnologias de Telecomunicações e Informação, o órgão regulador.

A Turquia vive um momento de violência antes das eleições parlamentares de 7 de junho de 2015. No sábado, o ônibus do clube de futebol Fenerbahçe foi atingido por um tiro que feriu gravemente o motorista. O campeonato nacional foi suspenso por uma semana.

O procurador investigava a atuação na polícia na morte do jovem adolescente Berkin Elvan durante os protestos contra o governo no Parque Guézi, em Istambul, em 2013.

As próximas eleições parlamentares turcas são especialmente singulares. Depois de três mandatos como primeiro-ministro, de 2003 a 2014, não podendo mais ser reeleito chefe de governo por limitação constitucional, Recep Tayyip Erdogan foi eleito presidente no ano passado. Ele quer aumentar os poderes da Presidência para continuar mandando na Turquia.

Para fazer uma reforma constitucional sozinho, o Partido da Justiça e do Desenvolvimento, islamita moderado, precisa eleger 367 dos 550 deputados da Assembleia Nacional da Turquia. Se quiser fazer a mudança por referendo, o partido do governo precisa de 330 deputados.

Já o primeiro-ministro Ahmet Davutoglu, do mesmo partido, precisa apenas de maioria simples, de 276 deputados, para continuar mandando no país, que vai manter o sistema parlamentarista se Erdogan não conseguir emendar a Constituição.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Terrorista morto em Copenhague era dinamarquês

A Dinamarca revelou que o suspeito de dois ataques terroristas cometidos ontem em Copenhague, morto pela polícia na manhã de hoje, era Omar Abdel Hamid el-Hussein, um jovem muçulmano de 22 anos de origem palestina nascido no país.

Hussein era conhecido das autoridades. Tinha antecedentes criminais por violência, mas nenhuma ligação aparentemente com grupos terroristas. Há duas semanas, saiu da cadeia, onde teria aderido ao jihadismo.

A investigação tenta descobrir se ele agiu sozinho, noticiou o jornal inglês The Guardian. Dois suspeitos de colaborar com o criminoso foram presos.

Por volta das três e meia da tarde de ontem, ele invadiu um café onde havia um debate sobre liberdade de imprensa depois do ataque terrorista contra o jornal satírico francês Charlie Hebdo, em que 12 pessoas foram mortas, no mês passado, em Paris, e saiu atirando. Seu alvo seria o cartunista sueco Lars Vilks, autor de uma caricatura do profeta Maomé como um cachorro.

O cineasta Finn Norgaard, de 55 anos, que participava da discussão, foi morto. Três policiais foram feridos. Vilks saiu ileso.

Dez horas depois, já na madrugada deste domingo, o terrorista abriu fogo diante da principal Sinagoga da capital dinamarquesa, matando um civil e ferindo dois policiais.

A Europa enfrenta uma onda de atentados terroristas, vários deles contra alvos israelitas. Em 24 de maio do ano passado, o Museu Judaico foi atacado em Bruxelas. No mês passado, dois dias depois do atentado ao Charlie Hebdo, um terrorista ocupou um supermercado judaico em Paris e matou quatro pessoas. Ontem e hoje, os alvos estavam na capital da Dinamarca. Também hoje, a cidade alemã de Braunschweig suspendeu o desfile de carnaval diante de "uma ameaça terrorista específica".

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Milhares protestam contra primeiro-ministro na Hungria

Na véspera da chegada à Hungria da chanceler (primeira-ministra) da Alemanha, Angela Merkel, cerca de 4 mil pessoas marcharam ontem nas ruas de Budapeste em uma manifestação de protesto contra o primeiro-ministro direitista Viktor Orban.

Os manifestantes acusam o governo Orban de censor, reacionário e antissemita. Também se opõem à reaproximação com a Rússia. Eles querem que Merkel pressione Orban a se aproximar da União Europeia, da qual a Hungria faz parte desde 2004, e a cumprir as regras democráticas do bloco.

Além da capital, houve protestos em outras 11 cidades húngaras e mais seis cidades europeias.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Arábia Saudita condena terroristas e chicoteia blogueiro liberal

Enquanto condenava o atentado terrorista contra o jornal francês Charlie Hedo, em 9 de janeiro de 2015, o que governo da Arábia Saudita aplicava a primeira de 20 doses de 50 chibatadas em público, num total de mil, imposta ao blogueiro liberal Raif Badawi, além de dez anos de prisão e multa de US$ 250 mil.

Badawi foi condenado por difundir ideias liberais como a separação entre religião e Estado, e por criticar a elite política e religiosa saudita.

Os poucos artistas, satiristas e escritores que ousam desafiar seus governos e fanáticos religiosos no mundo árabe temem a cada um ataque no estilo do que fuzilou a redação do jornal francês Charlie Hebdo na semana passada.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Rússia censura blogueiros e Internet

O Parlamento da Rússia aprovou três leis que censuram a divulgação de notícias na rede mundial de computadores, especialmente blogueiros, provocando críticas de vários setores da sociedade, especialmente de empresas de alta tecnologia e de ativistas que lutam pela democracia no reino de Vladimir Putin.

É mais uma ofensiva do Kremlin, no momento em que a virtual intervenção militar da Rússia na Ucrânia gera protestos e críticas sufocados pelo delírio de grandeza nacionalista pela anexação da Ucrânia. A nova regulamentação entra em vigor em agosto.

"Será mais um passo para aumentar o controle do governo sobre a Internet", lamenta um porta-voz do Yandex, maior sítio de busca russo. "Vai ter um impacto negativo sobre o setor." A empresa antecipou o fechamento de um serviç de avaliação de blogues "por causa das recentes iniciativas legislativas".

As novas leis impõem um controle estrito sobre a divulgação de informação e nos sistemas de pagamento via Internet. Endurecem as punições por extremismo e terrorismo. A maior preocupação é com uma lei que equipara os blogueiros a empresas de comunicação, submetendo-os à mesma regulamentação e às mesmas responsabilidade legais, como pagar pesadas indenizações a quem se sinta ofendido.

Quem tiver 3 mil ou mais páginas lidas por dia terá de revelar a identidade, revisar o conteúdo para ter a certeza de que os fatos estão corretos, não disseminar informações extremistas nem que violem a privacidade dos cidadãos, e respeitar o período de silêncio antes das eleições.

Os grupos de defesa dos direitos humanos não acreditam que os blogueiros críticos ao governo tenham condições financeiras para enfrentar processos.

"Hoje a Internet é a última ilha de livre expressão na Rússia", lamenta Hugh Williamson, diretor da organização não governamental Human Rights Watch (Observatório dos Direitos Humanos) para a Europa e Ásia Central. "Esta regulamentação draconiana tem como objetivo controlá-la."

Há pouco tempo, Putin disse que a Internet era "um projeto especial" da CIA (Agência Central de Inteligência) e "é o que está se tornando". As declarações foram interpretadas como uma ameaça de bloquear o acesso à Internet na Rússia e criar sua própria rede, a exemplo do que faz a China.