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sábado, 3 de dezembro de 2016

Força-tarefa da Lava Jato ganha Prêmio Anticorrupção 2016

A Força-Tarefa da Operação Lava Jato recebeu hoje o Prêmio Anticorrupção 2016, concedido pela organização não governamental de combate à corrupção Transparência Internacional. A investigação sobre lavagem de dinheiro desvendou um megaescândalo de corrupção na Petrobrás e em outras empresas estatais.

Desde 2014, os procuradores federais estão na linha de frente das investigações sobre um dos maiores escândalos de corrupção no mundo inteiro. Foram mais de 240 denúncias que levaram a 118 condenações somando 1.256 anos de prisão, inclusive de membros da elite política e econômica, justifica a Transparência.

"Bilhões de dólares foram perdidos com a corrupção no Brasil. Os brasileiros estão fartos com a corrupção que está arrasando seu país. A Força-Tarefa da Operação Lava Jato está fazendo um grande trabalho para garantir que os corruptos, não importa quão poderosos sejam, sejam responsabilizados e  que seja feita justiça", declarou a presidente do Comitê do Prêmio Anticorrupção da Transparência Internacional, Mercedes de Freitas.

E acrescentou: "Temos a satisfação de dar aos procuradores brasileiros da Força-Tarefa da Lava Jato o Prêmio Anticorrupção de 2016 por seu esforço incansável para acabar com a corrupção endêmica no Brasil."

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Bolívia vai retirar embaixador do Brasil se Dilma for impedida

Em nota no Twitter, o presidente Evo Morales escreveu hoje que, "se prospera o golpe parlamentar contra o governo democrático de Dilma Rousseff, a Bolívia convocará seu embaixador. Defendamos a democracia e a paz", informou o jornal boliviano La Razón.

A retirada do embaixador José Kinn Franco seria um gesto usado com frequência para manifestar descontentamento nas relações diplomáticas. Morales também pode pedir explicações ao embaixador brasileiro em La Paz.

Uma resposta mais dura seria rebaixar as relações bilaterais, retirando o embaixador permanentemente, um passo antes do rompimento de relações diplomáticas.

Morales já havia se manifestado ontem contra o processo de impeachment: "O único juiz que pode sancionar sua conduta política é o povo, os outros cumprem o vergonhoso encargo do Império. Força, Dilma!"

Morales faz parte da ala mais radical do chavismo, que vê todos os problemas da América Latina como conspirações do imperialismo americano. Como o Partido dos Trabalhadores, está preso na armadilha ideológica da Guerra Fria.

Nas relações com o Brasil, além de ocupar militarmente a estatizar instalações da Petrobrás na Bolívia, Morales negou salvo-conduto ao senador boliviano Roger Pinto Molina, refugiado na embaixada brasileira em La Paz. Um diplomata brasileiro retirou pessoalmente o senador do país e o trouxe para o Brasil, gerando uma crise entre os dois países.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Tunga considerava a política cultural uma farsa

Um dos artistas plásticos brasileiros mais bem-sucedidos internacionalmente, o pernambucano Antonio José Barros de Carvalho e Mello Mourão, mais conhecido como Tunga, morreu hoje aos 64 anos no Rio de Janeiro, onde morava. Seu trabalho tinha a marca do inusitado. Reproduzo aqui uma entrevista feita com Tunga em maio de 2006.

Para a pesquisadora Katia Canton, Tunga mescla vida e arte, e desfetichiza a obra de arte. Foi o que se viu na instalação Laminadas Almas, apresentada no Centro Tom Jobim, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, de 13 de maio a 3 de junho.

Tunga, que já expôs nos principais centros de arte de vanguarda do mundo – como o Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova Iorque; os museus do Louvre e o Jeu de Paume, em Paris; e a galeria Whitechapel, em Londres –, voltou ao Rio depois de 14 anos de sua última mostra importante na cidade.

A instalação espalhada em três salas tinha 400 mil moscas, 600 rãs, 2mil girinos, milhares de larvas e dois irmãos gêmeos posando como cientistas ao microscópio, grandes lâminas de vidros, luzes e tecidos imitando peles de ràs gigantes. Ficou ainda mais espetacular com a performance realizada pelos bailarinos da coreógrafa Lia Rodrigues, em 20 de maio. E a própria presença do público caminhando entre aquelas formas de vida lhe dava um caráter muito diferente do que se sentia ao visitar o local sem ninguém ao redor.

Nesta entrevista exclusiva, Tunga fala da obra, de sua decisão de optar pelo Jardim Botânico e critica a política cultural do país, que chamou de farsa, a censura e o dirigismo cultural, e a tentativa de forjar uma identidade cultural oficial.

JOBIM - Estou com o Tunga na instalação Almas Laminadas, no Jardim Botânico. Eu queria lhe perguntar inicialmente qual é a concepção deste trabalho, a vida, a metamorfose, o que você representa?

TUNGA - Antes de mais nada é Laminadas Almas, a ordem é inversa. É meio gótico, mas é assim.

A pergunta é um pouco vasta. Eu acho que se eu tivesse uma resposta imediata, espontânea, para ela, talvez eu não fizesse a obra desse jeito. Eu acho que o pensamento plástico é um pensamento dentro desse campo, dentro das artes plásticas, é um modo de pensar em si, e essa tradução que eu venha a fazer pode indicar algumas alusões, algumas referências à complexidade que aí se estabelece, não só visualmente mas através de outras manifestações que estão aí implícitas, como a própria existência desses animais, desses seres vivos, o som, o cheiro que você sente, as transparências, enfim, uma plêiade de recursos, de linguagens diversas
que se configuram nessa obra para tentar falar de alguma coisa.

Que coisa pode vir a ser essa coisa que está implícita? Toda vez que você inscreve uma obra em algum campo ela ressoa em vários territórios onde esse campo acolhe.

Eu acho que hoje o campo das artes plásticas é um campo de ressonância bastante intenso, bastante amplo e bastante generoso na medida em que a partir do século 20 ele começou a acolher de um modo generoso, conforme eu disse, manifestações das áreas mais diversas que se encontravam como que reduzidas a seu campo de ação, dada a natureza e o desejo de inscrição um pouco mais além daquilo que as instituições, o universo das instituições, considerando instituições como o lugar das coisas não só as relações da instituição com o Estado, o mercado. Passou a não acolher as manifestações dada uma certa radicalidade. E as artes plásticas pouco a pouco vão ocupando esse território de acolher essas outras manifestações tais e quais a dança, a música, a poesia etc. que, dado a fenômenos do mercado, fenômenos de Estados que não viabilizavam um tipo de investimento em certas direções, as artes plásticas generosamente acolheram isso. E essa complexidade veio a aumentar o trabalho das artes.

J - As artes plásticas hoje não têm aquele sentido de ficar somente observando uma pintura maravilhosa num museu, quer dizer, precisam de uma interatividade? Eu estava me lembrando da sua instalação no dia da abertura da exposição e depois quando teve a performance. Estava cheio de gente e então era outra coisa do que chegar aí e a sala estar completamente vazia, só com o som e os bichos.

T - Primeiro acho que ainda há lugar e sempre haverá lugar para uma pintura na parede. Eu não acho que um tipo de manifestação, um gênero, se é que a gente pode tentar inquirir que gênero é esse vá substituir outro nesse campo. Eu acho exatamente que a fertilidade das artes plásticas é o fato delas assumirem a diversidade de manifestações desse mesmo campo. Então esse campo se ampliou nessa medida. Pode ser tanto no espaço pictórico, com as suas convenções, quanto um pensamento que expande esse campo além do visual. É óbvio e é notório que a uma pintura se imprime o olhar do observador.

Quer dizer, não há esse território límpido, neutro e natural onde a pintura exista sem um olhar impregnado de uma cultura que se manifesta sobre ele. E acredito ainda que esses olhares se inscrevam nessas pinturas. Mesmo sendo apenas pinturas sobre telas, considerando essa superfície plana etc. e etc. com toda a intensidade dos princípios pictóricos.

Isso de um olhar se imprimir, se expressar e se tornar presente em uma obra pictórica, imagine-se numa obra escultórica ou numa obra que vá mais além disso.

Já não é só mais o olhar que se expressa, que se imprime, que se impregna nessa obra, mas todo o testemunho, uma vivência, uma experiência no sentido da palavra que transforma essa obra assim como essa obra transforma essa experiência, essa vivência desse sujeito que ali está presente. Ou seja, há que se contar, eu conto, nesse gênero de coisa que eu faço (a pensar que gênero será esse) que a presença do observador, a experiência do sujeito que ali passa mais ou menos aculturado, ou mais ou menos intencional na sua passagem faz parte dessa obra, se constitui com essa obra.

Essa obra não é só os seus elementos e a disposição dos seus elementos na heterogeneidade das linguagens ali abordadas mas também a lembrança, a memória, a perseverança, o testemunho daqueles que a viram.

J – É uma obra de arte para ser apreciada com todos os sentidos...

T - Não poderia te dizer todos os sentidos... Nos sentidos convencionais...

J – Com o corpo inteiro...

T - Ser testemunhada. Acho que a noção de testemunho...

J - Tem som, além de todo o aspecto visual, tem a ideia de que você caminha ali no meio de uma forma participativa, havia crianças brincando e pulando ali...

T - Tudo isso eu acho bastante excitante. Mas é preciso não esquecer que não há grande novidade nisso. Se a gente pensar, Píndaro, o poeta grego, não só dizia aqueles poemas quase que incompreensíveis e enigmáticos até hoje, mas ele os dizia improvisando, dançando, cantando, tocando a lira e ébrio. Quer dizer, isso não é novo no Ocidente, não. É apenas retomar uma complexidade que sempre existiu e que passou por um momento histórico onde houve a necessidade de idealização dessa complexidade, de simplificação...

J - E aquela performance dos bailarinos, o pessoal nu. O nu ainda é transgressor?

T - Não, de jeito nenhum. O nu nunca foi transgressor. Eu acho que essa nudez aí é apenas um signo  de uma postura talvez limpa, ideal com outro corpo. Essa obra fala do corpo  e a presença dessa nudez denota um tipo de corpo, um tipo de atitude, a ser assumida pelo olhar da obra, pela presença da obra.

Eu acho que, a rigor, todos nós ficamos nus frente a alguma coisa que nos deixa perplexos. É dessa nudez que se estava sendo explícita ali e talvez também desse contato com o corpo mais direto, essa
experiência tátil que o corpo nu imprime à diferença de um corpo vestido.

Mas, curiosamente, trata-se exatamente em um dos temas presentes... É essa mudança de pele, essa reencarnação, essa superfície a que se pode atribuir uma transformação do sujeito, a superfície da pele, que pode ser uma roupa, que pode ser a pele, que pode ser a própria pele fantasmática aqui presente como essas peles de rãs aumentadas. Rãs gigantes.

Quer dizer, eu acho que essa pele dessa nudez falou diretamente a que a viu de um modo diferente da nudez que a gente tá habituado nos outdoors da vida, nas Playboys da vida, né? Eu acho que é outro tipo de nudez. Não é uma nudez cujo erotismo seja codificado. Não é uma nudez casta tampouco. Enfim, é uma nudez bastante peculiar, particular e que se constrói, se constitui junto com a obra.

Quer dizer, você observando a presença desses bailarinos nessa primeira sala, o corpo deles, cada um
deles era como se fosse uma das partes de cada um desses elementos que constituem uma das peças. Então, eles ali estavam se integrando a essas peças, o corpo dele se integrava nas peças para formar um terceiro corpo, que era o corpo constituído do corpo deles, desse corpo aí presente, e o terceiro era essa mistura dessas coisas. Era um metamorfose nova, um novo sujeito,um novo, um nova espécie ali colocada.

J - Agora você tinha as moscas, os girinos, as rãs. Tem essa idéia da cadeia alimentar. Até alguém falou que iria fazer um jantar de rãs depois. Para os homens comerem as rãs e fecharem o ciclo.

T - (Riso) Espero que o tempero não seja mosca...

Há uma intenção no uso dessas duas espécies, pelo fato de ter uma cadeia alimentar, de ter uma pulsão, um impulso animal de um em direção ao outro. Já a fase de metamorfose realizada nos dois, quer dizer, a rigor a rã não comia a mosca, sequer, ela comia a larva da mosca. Quer dizer, existia a larva e o girino, a mosca e a rã. Mas enfim, o negócio da fantasia infantil e no conhecimento geral parece que o antagonista da mosca é a rã.

Então acho que é essa coisa polar, essa estrutura espectral que está aqui presente, mais patológica na medida em que um dos lados que se expele é complementar ao outro, diz mais alguma coisa dessa estrutura. O fato de haver uma simetria, haver uma dupla simetria, e nessa simetria um dos lados não simétrico mas é complementar ao outro, acho que diz respeito a gente, diz respeito a essa obra.

N - Por que aqui no Jardim Botânico? Tem a ver com a natureza? Ou é um espaço alternativo?

T - Para a natureza, é melhor a gente ler Virgílio, antes de qualquer coisa. A minha noção de natureza não é tão simplória de achar que a natureza no Jardim Botânico é tudo menos natureza. Quer dizer, há de ser uma natureza mas quando você olhar há uma árvore, uma planta, um inseto. Mas evidentemente é uma construção um jardim botânico, uma coisa cultural, uma construção marcada com todos os signos de uma cultura, de uma sociedade. E é lógico que essa inscrição leva em conta
isso.

Assim como o museu tem todo um conjunto de signos da sociedade, o Jardim Botânico também os tem acho que são várias...

Essa atitude, essa escolha, essa opção, carrega vários sentidos, várias significações.

Por um lado há - óbvio - um desconforto em relação ao campo das  instituições culturais voltadas  àquilo que tradicionalmente a gente chama cultura em artes plásticas. Estão os museus em geral.

Há uma atitude clara em relação aos museus e às instituições que tenderiam a abrigar esse tipo de
trabalho. Não porque haja uma incompatibilidade de qualquer natureza dessa obra com o museu, mas talvez mais por uma questão da gestão, da política cultural que tem se exercido no Brasil ultimamente.

Eu acho que há uma certa... um certo desejo de mostrar a coisa de um jeito diferente, mostrar essa obra de um jeito diferente. É evidente que eu não acredito que uma inscrição seja uma crítica negativa.

Acho que era necessário agregar a esse desejo de não estar presente no museu aqui no Brasil a uma outra postura positiva que era a de aproximar essa obra a essa situação que é a de um jardim botânico, que é um lugar de cultura, que é uma construção cultural mas que leva para um lado diverso e que, pelo que eu sei, me parece  uma instituição exemplar aqui no Rio de
Janeiro. Se não é exemplar, se eu estiver equivocado por desinformação, pelo menos no meu imaginário e na minha trajetória, na minha existência, tem sido um lugar de grande grande importância. O Jardim Botânico... Então eu acho que tem um lado até afetivo se você quiser considerar .

J - Você se manifestou, a classe artística em geral se manifestou contra a censura do  quadro da Márcia X, no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB).

T - Veja bem, eu acho que isso é uma pontinha de um iceberg bem maior do que isso. Eu  acho que há uma gestão de cultura intencional no Brasil. Não à toa que os órgãos do governo que não estão ligados ao Ministério da Cultura exercem um papel cultural no Brasil de extrema força, com extrema violência com determinação oculta, mas muito clara.

Você olha tanto no CCBB ou os patrocínios dados pela Finep ou a política cultural da Petrobrás há uma opção clara e um perfil cutural claro nisso. Então é uma farsa,  há ali funcionários públicos atrás do Banco do Brasil, de carreira, que vão escolher os artistas. Há toda uma complexidade, há um sistema complexo, um cultura brasileira muito bem subvencionada, muito bem paga com valores fora dos valores do mercado. Há um dirigismo cultural nisso e isso é gravíssimo porque em vez disso ser explícito que é a política cultural, aparece de um modo escamoteado.

J - Que perfil é esse de que você fala?

T - Veja o currículo dessas instituições  e veja o que nos representa tanto nacional como internacionalmente pelo que recebe patrocínio, subsídios vindos da isenção fiscal, vindo de leis que são nosso dinheiro...

J - É tudo renúncia fiscal...

T - Essa lei de renúncia fiscal, não estou só falando da lei, precisamente. Estou falando de como essa lei é utilizada por estes centros culturais dessas companhias que se têm, enfim, como a Petrobrás, que
tem um lado do Estado e um lado de empresa...

N - ...privada, o que a torna de economia mista.

T - Economia mista, exato. Quer dizer, eu acho que essas empresas que são de economia mista, que têm esse pé no Estado, e que são geridas, funcionam com isenção fiscal, têm uma responsabilidade cultural que não é só fazer o bem ou fazer publicidade ou dizer como nós somos bonitos.

Eles estão traçando milionariamente o perfil da cultura brasileira. E ninguém é capaz de mostrar isso e dizer isso claramente. Isso termina nos dando um confronto com o mercado espontâneo muito curioso. Eu acho que é isso é que se deveria ver. Quando há uma coisa arbitrária como uma censura exercida...

Não é a primeira vez que isso acontece no Banco do Brasil. Aconteceu no Museu de Arte Moderna. Deve acontecer freqüentemente nas escolhas que essas instituições  fazem. É evidente que eles escolhem aquilo que os apraz e aquilo que os apraz tem um perfil ideológico, privado, do cidadão que está ali por trás.

Quero que seja claro, quero que seja dito, porque eu quero ver com quem estou lidando, com quem estou mexendo. Sou um agente cultural, sou um poeta antes de mais nada. Mas como poeta me inscrevo como tal nessa sociedade.

Então quero saber que lugar é esse e isso nunca é dito. Isso é apresentado anualmente,  esse ano vamos fazer tal qual e tal. Eu não nego a qualidade de muitas dessas coisas que são apresentadas. O que nego é a ausência total de uma responsabilidade cultural. Um museu é um lugar que deve ter e pede-se dele uma responsabilidade cultural.

O papel do museu é sedimentar, sedimentar as referências, os paradigmas, que são aqueles onde se
deve espelhar, se deve pensar a cultura que está construindo.

Qual é o papel de um centro cultural? O centro cultural, o papel dele é fazer agir as obras, as
manifestações de uma cultura  presente, uma cultura que se faz a cada dia.

Ou seja, nem um nem outro estão funcionando como tal. Há uma anomalia, uma anomalia que me parece grave devido ao fato disso não ser claro, devido ao fato disso ser feito como laissez-faire e todos os artistas em geral, a classe em geral  está muito feliz por poder ter acesso ao catálogo de uma exposição de um ou outro artista. Não quero um catálogo, não quero uma exposição. Eu quero um perfil cultural. Eu quero um programa para transformar essa sociedade. Um programa
cultural explícito.

J - Quer dizer que os órgãos oficiais, as instituições, não estão dando a liberdade que você
gostaria para os artistas fazerem, produzirem a identidade cultural brasileira, que é uma coisa tão
importante?

T - Eu não acho que eles estejam dando ou não. Eu quero saber ao que eles vieram. Vieram para justificar a isenção fiscal? Vieram para trazer pão e circo? Vieram para trazer uma audiência pública? Vieram para fazer publicidade de seus eventos? Vieram para ser bonzinhos ou vieram com propósitos de melhorar a sociedade? Melhorar a vida das pessoas naquilo que diz
respeito a uma cultura?

Depois a questão da identidade cultural não parece um questão tão simples também. Eu acho que o Brasil deveria procurar mais a obra dos seus artistas, poetas, músicos aquilo que falam da identidade
cultural do que tentar essa formulação de um projeto de identidade cultural.

Identidade cultural é um problema que me parece bastante europeu, quer dizer, eu vejo na modernidade o enunciado da vontade da dissolução da identidade. E isso é um enunciado que funda o Estado moderno e que dá cultura. Isso sempre foi muito claro para aqueles que fundaram a coisa moderna.

Curiosamente o Brasil pode levar a diante por condições adversas que são de flutuação da identidade
que bastante me interessa, que bastante foi refletida na obra de grandes autores como Oswald de Andrade, como Flávio de Carvalho, como Hélio Oiticica etc.

Eu acho que caberia uma reflexão maior do que é essa identidade, o que é a vontade de identidade, para não se cair num nacionalismo que, em geral, essa questão da identidade nos leva e que parece uma posição bastante retrógrada.

J - Na era da globalização, como há uma pressão enorme para homogeneizar diversos processos, o que diferencia um país do outro é a sua cultura, a diferença é a identidade cultural de um povo?

T - O que me interessa mais, nesse caso, é  a dinâmica cultural. No Brasil se anunciou claramente a
capacidade de ingestão da cultura do outro e eu acho que essa reflexão nos leva, no momento atual, a
compreender que talvez a identidade brasileira seja a identidade da própria transformação contínua da
identidade. E isso me parece ser muito mais um quadro progressista em relação a essa nossa noção de
identidade, atual, do que a busca das diferenças.

Talvez seja a busca da dinâmica das possíveis diferenças e não da diferenças em si. Você se transformar a cada dia, você diz: você é igual a quem? É idêntico a quem?

Você é idêntico à própria dinâmica da transformação. Eu acho que esta é uma questão brasileira. Eu acho que esta é uma questão sugerida no manifesto do Oswald, é uma questão pensada claramente na obra do Hélio, eu acho que essa é uma questão que nos cabe.

Então a gente vai procurar se identificar como sendo o povo do futebol e do samba? É um equívoco. O povo da dinâmica da transformação de uma estrutura musical como o samba em outra coisa que não o samba, já é outro samba mais complexo etc. etc. O que eu acho que é preciso pensar é na estrutura que nos permite ser  idênticos e diferentes de si mesmos. Quer dizer, é um mutação contínua.

J - Agora, nessa questão do quadro da Márcia X há também intolerância religiosa. Depois o pessoal
espalhou os cartazes pela cidade, o prefeito César Maia mandou recolher. Obviamente o prefeito mandou recolher num gesto demagógico para agradar às igrejas.

T - Não vejo tanto a questão das igrejas. O que me interessa ali é o instrumento da pressão que foi
exercida. Pelo que eu sei do jornal, daquilo que foi dito, é que correntistas de um banco público-privado iriam tirar as suas contas caso aquela obra estivesse ali. Então é preciso ficar atento à letra das coisas. É um volume de dinheiro depositado que iria sair se caso aquela imagem continuasse ali. Ponto. Essa é a pressão que foi exercida.

J - É uma pressão econômica, mas é uma forma de censura e, segundo consta, eram pessoas ligadas a uma seita dessas da Igreja Católica mais conservadora, a Opus Dei.

T - Poderia ser qualquer grupo. Qualquer grupo de depositantes poderia exercer isso. O que me interessa é a dinâmica disso. Não é essa identidade de um ou outro ser muçulmano, cristão ou judeu. O que me interessa foi o exercício da pressão que foi feita a partir de um volume de dinheiro de correntistas.

Então é preciso saber que os correntistas têm o poder de interferência na direção do banco que tem o poder de ingerência sobre aquilo que eles pretendem autônomo do banco. Até na isenção fiscal eles têm uma autonomia do banco que é o centro cultural. Ou seja, o centro cultural, ficou claro que o centro cultural dependia diretamente da ordem do presidente do banco, da diretoria do banco que sofreria pressão direta desses acionistas, ou seus correntistas, sequer acionistas.

Quer dizer, a rigor, o Banco do Brasil pode muito bem ser dirigido pelos acionistas do Banco do Brasil. E eles vão dizer o perfil cultural que nós vamos passar a viver. Porque a visitação é imensa, os fundos são imensos, os recursos que eles têm são enormes. E eles estão sendo usados dessa jeito. Pela vontade, pelo desejo de algumas pessoas. Quer dizer, um desvio perverso da finalidade e da vocação dessa instituição, nesse caso.

J - Falei em intolerância religiosa. Não citei muçulmanos, cristãos. Porque há uma radicalização, nem
tanto aqui no Brasil.

T - O grave não é que esse ou aquele grupinho. No caso da retirada de uma obra do artista Nelson Leirner do Museu de Arte Moderna, foi um juiz, Siro Darlan. Resolveu que a presença do falus desenhado sobre a imagem de um bebê era atentatório aos menores. Aquilo poderia desviar a formação dos menores que tanto visitam o Museu de Arte Moderna. E a obra foi tirada,
independente dos seus curadores ou diretores do museu. Por ordem judicial. Há uma lei que permite isso. Eu acho que há buracos que a gente pode observar e alguns desses buracos podem se tornar mais ou menos graves.

J - Uma última pergunta: a questão da crítica. Ferreira Gullar andou criticando seu trabalho. Você
perguntou: Ferreira quem? Como é a relação do artista com o crítico? Não interessa a opinião deles para o seu trabalho criativo?

T- Veja bem, eu acho que há um equívoco aí. Eu não vi nenhuma crítica do Ferreira Gullar ao meu trabalho. Eu vi uma crítica do Ferreira Gullar ao meu nome. Só. Ele se referiu ao meu nome, não se referiu ao meutrabalho. Então não posso dizer nada sobre essa... Aliás, Ferreira quem? Mais uma vez. Eu vou lhe dizer a nota que foi mandada ao jornal e que não foi publicada.

Eu não me defendo porque não foi feita crítica nenhuma. Agora eu estive no MoMA (Museum of Modern Art), de Nova Iorque; no Museu do Louvre e no Jeu de Paume, em Paris, na Whitechapel, de Londres; na Kuntzhalle, em Berlim; nos maiores museus do mundo e nunca ouvi falar
nesse cidadão...

Todos expuseram minha obra e sabem quem eu sou. Eu acho que esses são os lugares onde se faz arte contemporânea, talvez não na Casa do Saber. Eu acho que eu estou nesses lugares; ele, não.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Governo de Portugal aceita pedido de extradição da Lava Jato

O Ministério da Justiça de Portugal aceitou o pedido de extradição da Raul Schmidt, um cidadão luso-brasileiro sócio de um ex-diretor da Petrobrás, detido em Lisboa em 21 de março dentro da Operação Lava Jato a pedido do Ministério Público Federal do Brasil, noticiou hoje o jornal português Público.

A decisão será tomada pelo Tribunal de Relação de Lisboa, um tribunal de apelações, de segunda instância. Raul Schmidt, de 55 anos, será ouvido em 12 de maio. Se rejeitar a extradição, terá dez dias para apresentar suas alegações.

Quando foi preso, Schmidt tinha centenas de obras de arte valiosas escondidas numa casa em Lisboa avaliada em 3 milhões de euros registrada em nome de uma empresa offshore. Ele era dono de uma galeria de arte em Londres e estava foragido desde 2015. A Polícia Judiciária de Portugal apreendeu os quadros e esculturas, provavelmente comprados para lavar o dinheiro sujo da corrupção.

"A ministra da Justiça decidiu pela admissibilidade do pedido de extradição do pedido de extradição do cidadão luso-brasileiro Raul Schmidt pelos factos anteriores à data em que obteve a nacionalidade portuguesa", declarou o ministério.

Com o despacho da ministra Francisca Van Dunem, o processo passa da parte administrativa à judicial. As autoridades portuguesas suspeitam que Schmidt fugiu para Lisboa em 2014, quando estourou o escândalo de corrupção na Petrobrás.

Sua prisão preventiva foi pedida pelo Ministério Público Federal em 17 de dezembro de 2015 e autorizada pelo juiz Sérgio Moro, de onde seguiu para a Interpol, a polícia internacional.

Como a lei portuguesa proíbe a extradição de cidadãos do país, Schmidt tem um argumento para recorrer, mas a ministra deixou claro que aceitou pedido por se tratarem de fatos delituosos ocorridos antes do suspeito virar cidadão português.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Grandes produtores congelam produção de petróleo

A Arábia Saudita, a Rússia, o Catar e a Venezuela concordaram em não aumentar sua produção de petróleo acima dos níveis de janeiro de 2016 numa tentativa de reverter a queda de 70% nos preços do produto desde junho de 2014.

Os preços do petróleo estavam em alta de 5% no dia. Com a notícia, voltaram a cair. No momento, o petróleo do tipo West Texas Intermediate, do Golfo do México, padrão do mercado americano, está em queda de 1,15%, sendo cotado a US$ 29,11.

Para ter sucesso, o acordo precisa ser apoiado pelo Irã, que está voltando ao mercado depois do fim das sanções internacionais a seu programa nuclear, e o Iraque, que precisa de dinheiro para enfrentar a organização terrorista Estado Islâmico do Iraque e do Levante. O regime fundamentalista iraniano prometeu aumentar a produção em 1 milhão de barris por dia até o fim do ano.

"O congelamento agora nos níveis de janeiro é adequado ao mercado", declarou o ministro do Petróleo saudita, Ali al-Naimi. "Não queremos grandes variações de preços, queremos atender à demanda. Queremos um preço do petróleo estável.""

A queda nos preços é atribuída à Arábia Saudita e às outras monarquias petroleiras do Golfo Pérsico, interessada em tirar do mercado produtores de alto custo como os do óleo de xisto betuminoso nos Estados Unidos.

No nível atual, a exploração do pré-sal brasileiro é deficitária. A presidente Dilma Rousseff admitiu nos últimos dias mudar a regra do jogo e permitir maior participação da empresas estrangeiras. Pela lei atual, a Petrobrás, que acumula dívidas de US$ 500 bilhões, precisa ter uma participação de pelo menos 40% em todos os poços.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Preço do barril de petróleo cai para US$ 30

Em um mês, a cotação do barril de petróleo do tipo West Texas Intermediate, padrão para o mercado dos Estados Unidos, caiu de US$ 40 para US$ 30. Hoje, chegou a US$ 29,93, mas teve uma leve recuperação, fechando em US$ 30,21.

Os preços do petróleo caem há 19 meses. Em junho de 2014, estavam acima de US$ 100, depois de atingirem o recorde de US$ 147,50 em julho de 2008, antes da crise financeira internacional deflagrada pela falência do banco Lehman Brothers. Já acumulam uma queda de 70%.

A queda agrava ainda mais a crise da Petrobrás, que tem custo de produção elevado para explorar a camada pré-sal.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Bolsa de Nova York recupera perdas da semana

NOVA YORK - Com a revisão do crescimento do produto interno bruto nos Estados Unidos no segundo trimestre para 3,7%, a possibilidade de que o banco central americano não aumente os juros em setembro e de que as autoridades da China controlem a crise no mercado financeiro chinês, a Bolsa de Valores de Nova York fechou em alta pelo segundo dia seguido, recuperando as perdas da semana.

O Índice Dow Jones subiu 369 pontos (2,3%) para 16.654,77, fechando a semana em alta de 1,2%, enquanto tanto o índice amplo S&P 500 e a bolsa de alta tecnologia Nasdaq avançam mais de 2%, terminando a semana com ganhos.

Depois de cair abaixo de US$ 38 com as oscilações selvagens da semana, os preços do petróleo subiram 10%, na maior alta em seis anos, liderando uma alta nos preços dos produtos primários que beneficiou diretamente a Bolsa de São Paulo. As ações da Petrobrás e da Vale tiveram valorizações de 8% a 11%.

Antes, as bolsas da Europa avançaram 3,5% e a Bolsa de Xangai, 5,34%, na primeira alta depois de cinco sessões consecutivas de perdas.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

China aproveita fragilidade de países em crise

Ao emprestar US$ 3,5 bilhões à Petrobrás, a exemplo do que fez com a Argentina, a Venezuela e a Rússia, a China, aproveita-se da fragilidade de países em crise para garantir a longo prazo o suprimento das matérias-primas essenciais a seu desenvolvimento. No domingo passado, O Globo publicou matéria de Eliane Oliveira sobre o assunto em que fui citado.

Queria ampliar mais meus pontos de vista:

Quando Deng Xiaoping lançou seu programa de reformas para modernizar a China, em 1978, recomendou aos chineses e ao partido: trabalhem muito, sejam discretos, não mostrem sinais de riqueza e não se metam em conflitos externos. 

Depois do caos da Grande Revolução Cultural Proletária (1966-76) e da morte de Mao Tsé-tung, a China precisava de estabilidade interna e externa para tocar adiante seu projeto de desenvolvimento. Na época, em 1978, a China e o Brasil tinham PIBs do mesmo tamanho, cerca de US$ 200 bilhões. O desenvolvimentismo chinês deu mais certo. Foi o mais rápido e extraordinário da história.

O objetivo era claro: crescer, se fortalecer e ganhar massa crítica até tornar a China o país incontornável que é hoje. No fim da Guerra Fria, a China era um aliado não membro da OTAN. A Argentina de Carlos Menem chegou a ter o mesmo status, mas nunca teve o peso da China.

Logo que o presidente George W. Bush (2001-9) chegou à Casa Branca com a arrogância do Partido Republicano de que "nós ganhamos a Guerra Fria, mas ainda não tiramos partido isso", hostilizou os inimigos históricos, Rússia e China, antes de encontrar um novo inimigo no extremismo muçulmano. Em abril de 2001, houve o incidente na ilha de Hainã. 

Um caça chinês tentou interceptar um avião-espião americano, que derrubou o avião chinês, matou o piloto e ainda fez um pouso de emergência na China em Hainã. As autoridades chinesas interrogaram a tripulação e libertaram os americanos. A China ainda se submetia aos EUA.

Ao mesmo tempo, a China tratou de fortalecer suas defesas. No governo anterior, de Bill Clinton (1993-2001), quando a China ameaçou Taiwan por causa da possível vitória do partido a favor da independência da ilha, os EUA mandaram duas fragatas para o Estreito de Taiwan. 

NEUTRALIZANDO A SUPERIORIDADE AMERICANA
Logo a China tratou de instalar mísseis para evitar que isso se repetisse. Desde então, fez mísseis capazes de destruir satélites-espiões, porta-aviões e submarinos, neutralizando na prática a superioridade estratégica dos EUA.

Afinal, a revolução comunista na China foi feita com o objetivo de reparar injustiças e humilhações históricas que o país sofreu a partir das Guerras do Ópio (1839-42 e 1856-60), quando o Império Britânico tomou Hong Kong, para que o antigo Império do Meio, que era o centro do mundo na Ásia, volte a exercer um papel de protagonista nas relações internacionais. 

Até o início do século 19, China e Índia eram responsáveis por 20% da produção industrial, mas perderam a corrida tecnológica. Já haviam perdido a Revolução Comercial. Também ficaram para trás na Primeira Revolução Industrial (máquina a vapor, locomotiva, navio a vapor) e na Segunda Revolução Industrial (eletricidade, automóvel, rádio), e entraram tardiamente na Terceira Revolução Industrial (automação, TV e computadores), mas com força total.

A grande virada nas relações China-EUA vem com a Grande Recessão de 2008-9, que derrubou o mito de invencibilidade do capitalismo americano. A partir daí, a China passa a exigir tratamento de igual para igual dos EUA. 

Hu Jintao foi o último líder a se ajoelhar diante dos EUA. Xi Jinping, que está longe de ser um liberal e se preocupa em manter o liberalismo à distância, quer propor um modelo alternativo ao poder americano em todas as áreas.

Se uma superpotência é um país capaz de projetar seu poderio pelo mundo inteiro, a China já é uma superpotência econômica. Tem uma relação de interdependência com os EUA. 

Deng sempre se afastou de propostas terceiro-mundistas como a feita por Sarney em 1988 de criar um Clube dos Cinco (Brasil, Argentina, México, China e Índia) para se opor ao G-7, formado pelas maiores potências industriais da época. Sabia que precisava de capital e tecnologia para o desenvolvimento. Hoje a China é interdependente e trata de fortalecer suas relações econômicas com todo o resto do mundo.

REORIENTANDO A ECONOMIA
A crise na Europa e nos EUA está obrigando a China a orientar sua economia do mercado externo para o consumo interno, uma transição delicada. Com a derrota do comunismo na Guerra Fria, o extraordinário desenvolvimento econômico legitima o monopólio de poder do PC chinês. Quando a crise vier, a classe média e os ricos vão querer mais poder para decidir seu próprio destino.

No mercado financeiro, se fala de uma bolha chinesa no mercado imobiliário. A economia foi movida a investimento e haveria um excesso de imóveis. Quando a crise das hipotecas de segunda linha estourou nos EUA, o mercado imobiliário representaria 16% das dívidas do sistema financeiro americano; na China, seriam 50% hoje.

Na China, será feito o teste definitivo da hipótese de que o desenvolvimento econômico e social leva à democracia. O modelo chinês é uma mistura do desenvolvimentismo japonês com o modelo empresarial sul-coreano de megacorporações (chaebol) e o regime político que o chinês (de origem) Lee Kuan Yew criou em Cingapura, a ditadura perfeita, um Estado policial que funciona.

A política externa chinesa está a serviço do seu projeto de desenvolvimento econômico. Um dos objetivos centrais é garantir o suprimento de matérias-primas para a indústria. Isso orienta as relações com a África, a América Latina e o Oriente Médio, onde navios da Marinha chinesa resgataram nas últimas semanas diplomatas estrangeiros do porto de Áden, no Iêmen. Foi a primeira vez, sinal de que a China está disposta a assumir suas obrigações como grande potência do bem.

Porque o problema central das relações com a China é este: não existe uma superpotência benigna, como observou o historiador britânico Jonathan Spence. 

IMPERIALISMO
O poder existe para ser exercido. Quem não o exerce, perde. As relações econômicas da China com a América Latina são neocoloniais: exportamos matérias-primas e importamos produtos industrializados. 

A indústria chinesa está tomando os mercados de manufaturados da indústria brasileira na América Latina. Os EUA compram muito mais produtos manufaturados da América Latina do que a China. Nosso problema é como negociar com a China, que tem um peso hoje equivalente ao dos EUA.

O acordo da China com a Argentina foi uma clara violação das regras do Mercosul, que cada vez mais se torna irrelevante. O Uruguai, que sempre quis fazer um acordo com os EUA mas não fez porque seria punido como sócio menor, alegou mais uma vez que é preciso mudar a regra que proíbe acordos isolados de um só país com outros de fora do bloco.

A Rússia negociava há dez anos um acordo de gás com a China. Sob pressão internacional por causa de intervenção militar na Ucrânia, fechou negócio, certamente a preços de barganha.

A China já tinha feito isso com o Zimbábue, desgovernado pelo ditador Robert Mugabe, alvo de sanções do Ocidente por perseguir a oposição, e com outros países da África. Agora, chega a vez de Argentina, Brasil e Venezuela, o eixo da América do Sul, que enfrenta crises econômicas e políticas.

Na minha opinião, está fazendo negócios da China, conquistando mercados e garantindo matérias-primas para o futuro.

O grande desafio de qualquer país hoje é como negociar com a China e com os EUA, como se equilibrar neste mundo em que há uma transição hegemônica, talvez não dos EUA para a China, mas para um grupo de grande potências em que a China será a maior.

SUPERPOTÊNCIA EM ASCENSÃO
A história ensina que a ascensão de grandes potências sempre provoca guerras no sistema internacional. A China afirma ter aprendido as lições da Alemanha, do Japão e da União Soviética. Mas flexiona seus músculos contra os países com os quais têm disputas territoriais: Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Brunei, Camboja, Filipinas, Indonésia, Malásia e Vietnã.

Uma aliança tácita entre EUA, Índia e Japão se forma para contrabalançar o poderio da China, que como superpotência econômica não pode ser contida como foi a URSS. Todo o mundo quer fazer negócios da China.

O presidente Barack Obama manifestou a intenção de concentrar a maior parte do poderio militar dos EUA na Ásia e no Pacífico. Mas a Doutrina Obama, de usar a diplomacia em vez da força, e a decisão de não bombardear a Síria quando o governo Assad atacou com armas químicas, apesar das ameaças, convenceram os chineses de que os EUA não vão entrar em guerra com a China para defender seus aliados asiáticos, possivelmente com a exceção da Coreia do Sul e do Japão.

Em junho de 2014, escrevi aqui:

Ao comentar as críticas de Washington à agressividade chinesa nas disputas territoriais com países vizinhos no Mar da China Meridional, durante o Diálogo de Xangrilá, realizado em Cingapura no último fim de semana, o general Zhu Chenghu, professor da Universidade da Defesa Nacional, disse em tom provocativo que os Estados Unidos sofrem de "disfunção erétil".

"À medida que o poder dos EUA declina, Washington precisa confiar nos aliados para conter o desenvolvimento da China", declarou o general a uma televisão de língua chinesa. "Mas se vão se envolver ou intervir militarmente numa disputa territorial entre a China e seus vizinhos é outra história."

Em seguida, disparou: "Podemos ver na situação da Ucrânia uma espécie de disfunção erétil."

A Síria é um exemplo melhor da hesitação do governo Obama de usar a força. Os EUA não entrariam em guerra com uma potência nuclear como a Rússia por causa da Ucrânia. A mesma lógica se aplica aos vizinhos da China, com a exceção do Japão e da Coreia do Sul.

Na corrida tecnológica, ataques de saturação com mísseis de cruzeiro podem se tornar a maior ameaça a grupos navais dos EUA liderados por porta-aviões, adverte um ensaio Centro Chinês para Estudo de Assuntos Militares e a Universidade da Defesa Nacional.


A China não sofre de "disfunção erétil" nas relações econômicas com a América Latina.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

EUA intimam Petrobrás a apresentar documentos sobre escândalo

CAMBRIDGE-MA, EUA - A Comissão de Valores Mobiliários (SEC, do inglês) dos Estados Unidos intimou a Petrobrás para ter acesso aos documentos relativos ao escândalo de corrupção envolvendo a maior empresa brasileira, noticia hoje o jornal inglês Financial Times, principal diário econômico-financeiro da Europa.

A companhia admitiu ter recebido a intimação, sem entrar em detalhes. Limitou-se a dizer que vai "colaborar com as autoridades públicas americanas da mesma forma que está atendendo às autoridades brasileiras".

No início do mês, o FT informara que o Departamento da Justiça dos EUA está investigando a Petrobrás. Como a empresa vende ações na Bolsa de Valores de Nova York, está sujeita à legislação americana.

O jornal cita as acusações de que políticos do Partido dos Trabalhadores e de outros partidos aliados do governo brasileiro receberiam comissões ilegais de 3% de todos os contratos firmados pela empresa estatal brasileira. Registra ainda que o PT nega tudo, assim como a presidente Dilma Rousseff, presidente do Conselho de Administração da Petrobrás de 2003 a 2010, que promete não obstruir as investigações. Também cita o atraso na divulgação do último balancete trimestral da companhia depois que a empresa de auditoria PricewaterhouseCoopers se negou a assiná-lo.

Esse atraso pode dificultar o financiamento da Petrobrás no mercado até a solução do problema. De acordo com o banco americano Morgan Stanley, se o balanço não for divulgado até 30 de abril de 2015, os compradores de bônus da empresa podem cobrar US$ 57 bilhões e os bancos credores outros US$ 66 bilhões.

Em outra reportagem, o FT observa que, se as empreiteiras envolvidas forem declaradas inidôneas, obras e projetos no valor de R$ 871 bilhões podem ser paralisados, a não ser que o país contrate empresas estrangeiras. Nota ainda que o Tribunal de Contas da União sugeriu a renegociação dos contratos, mas isso pode não ser suficiente para os investidores estrangeiros.

A infraestrutura deficiente é um dos maiores problemas para o desenvolvimento do Brasil e uma das maiores oportunidades para investidores estrangeiros, comenta um analista internacional.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Vitória de Dilma derruba ações brasileiras nos EUA e na Europa

A reeleição da presidente Dilma Rousseff por margem estreita derrubou a cotação das empresas brasileiras com ações negociadas na Bolsa de Valores de Nova York.

As ações da Petrobrás caíram hoje 14,23%, enquanto a Vale perdeu 6,18% e um fundo de ações brasileiras (EWZ.P) 4,97%, noticiou, a agência Reuters.

Na Europa, o fundo Lyxor ETF Brazil, vendido na Bolsa de Paris, chegou a cair 10,4%, atingindo o menor nível em sete meses. Na Bolsa de Milão, na Itália, o mesmo fundo baixou 11,6%, enquanto o iShares MSCI Brazil ETF, negociado em Frankfurt, na Alemanha, recuou 8,8%, informou o Financial Times, principal diário econômico-financeiro do continente.

O real foi a moeda mais desvalorizada no mundo hoje. Baixou a seu menor valor em 10 anos. No mercado internacional, chegou a cair 3,1% em relação ao dólar, que fechou em R$ 2,52. No fim do dia, o jornal americano The Wall St. Journal anunciou uma alta do dólar de 2,07% em relação ao real.

terça-feira, 25 de março de 2014

S&P rebaixa nota de crédito do Brasil

Por causa do baixo crescimento e da deterioração das contas públicas e da balança comercial, a agência de classficação de risco Standard & Poor's rebaixou ontem a nota de crédito da dívida soberana do Brasil em um grau, de BBB para BBB-, deixando-a apenas um nível acima do limite entre grau de investimento e investimento especulativo.

A S&P ainda manifestou preocupações com a inflação e a crise energética. As empresas estatais Petrobrás e Eletrobrás também foram rebaixados.

Quando os títulos da dívida pública de um país são rebaixados, os juros cobrados para emprestar dinheiro para e o governo e as empresas sobem. Se não tem grau de investimento, os fundos de pensão, que aplicam dinheiro para aposentadoria, são proibidos pelas legislações de vários países de aplicar nesses fundos.

Como observou o economista americano Paul Krugman em palestra recente no Brasil, a situação econômica do país não pode ser comparada com a crise permanente anterior ao Plano Real. O Brasil passou bem pela Grande Recessão de 2008-9. Mas houve uma grande deterioração das expectativas quanto ao futuro imediato da economia brasileira.

Na década passada, embalado pelo extraordinário crescimento da China, no governo Lula, o Brasil cresceu numa taxa média superior a 4% ao ano, aliás, a meta prometida pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, nos primeiros anos do governo Dilma Rousseff.

A revista inglesa The Economist já pediu várias vezes a cabeça do ministro Mantega. Dilma se nega a demiti-lo porque diz não aceitar pressões de uma publicação estrangeira. Na verdade, a verdadeira ministra da Economia é a presidente, que incluiu no seu Currículo Lattes um doutorado que não completou.

Foi Dilma quem decidiu baixar a taxa básica de juros na marra, apesar do risco inflacionário, e ainda disse que estava mais preocupada com o desemprego do que com os preços, mostrando leniência com a inflação. Foi Dilma quem reduziu as tarifas de energia elétrica deixando um rombo de R$ 18 bilhões que será pago pelo consumidor.

Agora, sabemos também que Dilma não se manifestou contra negócios ruinosos da Petrobrás, cujo conselho presidia como ministra-chefe da Casa Civil de Lula. Sob os governos petistas, a Petrobrás e a Eletrobrás perderam US$ 100 bilhões. O país ficou mais pobre. A empresa estatal de petróleo caiu de 12ª para 120ª maior empresa do mundo.

O Brasil não vai tão mal assim, mas as expectativas de desenvolvimento pioraram muito. Bastou boato de que os candidatos da oposição cresceriam na última pesquisa do Ibope para a Bolsa de Valores de São Paulo ter forte alta. Em outras palavras, na visão de empresários e investidores, a crise é Dilma.

Para gerar os empregos necessários para absorver os milhões de jovens que entram a cada ano no mercado de trabalho e resgatar a dívida social com a população carente, o Brasil precisa crescer a taxas de 5% ao ano. Com a economia dilmista, foi continuar se arrastando, perdendo competitividade e se desindustrializando.

Mas, como o povo vota com a mão no bolso, enquanto a maioria da população não sentir os efeitos da crise na inflação, no salário e no emprego, a presidente será favorita à reeleição.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Morales dá ultimato a Petrobrás, BP e Repsol-YPF

O presidente Evo Morales deu um ultimato das empresas esstrangeiras de petróleo e gás para que aumentem seus investimentos na Bolívia, sob pena de perderem as áreas de exploração que lhes foram concedidas. Estão na mira a companhia brasileira Petrobrás, a britânica British Petroleum e a espanhola Repsol-YPF.

"Pedi aos meus ministros que preparem um decreto dando às companhias um ultimato para investir", ameaçou Morales ontem. "Se eles não investirem nas áreas onde a exploração mostrou haver petróleo e gás natural em um determinado período, vamos tomar de volta essas áreas para a [estatal] YPFB."

quinta-feira, 13 de março de 2008

Argentina multa Petrobrás por falta de gasolina

Diante da escassez de combustíveis na Argentina, o governo Cristina Kirchner iniciou uma campanha para punir as companhias de petróleo. Começou pela estatal brasileira Petrobrás, multada cinco vezes na terça-feira, 12 de março de 2008.

Para o jornal liberal argentino La Nación, a causa foi a declaração do presidente da Petrobrás de que "é impossível renunciar a uma molécula do gás importado da Bolívia".

Brasil, Argentina e Bolívia discutiram no mês passado a questão provocada pela incapacidade da Bolívia de cumprir os compromissos assumidos por causa da estatização imposta pelo presidente socialista boliviano Evo Morales.

Com medo do desabastecimento de gás no próximo inverno - e o último foi o mais rigoroso em décadas na Argentina - o governo de Cristina pressiona as empresas de energia.

A Petrobrás não confirmou nem desmentiu a informação.

Leia mais no jornal argentino La Nación.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Lula leva US$ 1 bi e conselho a Morales

Além de um investimento de US$ 1 bilhão que o presidente Evo Morales não merecia depois de ocupar militarmente instalações da Petrobrás em 1º de maio do ano passado, o presidente Lula aproveitou sua visita à Bolívia para aconselhar paciência e prudência ao líder boliviano, acossado por declarações de autonomia dos departamentos mais ricos de seu pobre país.

Mais uma vez, Lula foi conciliador e magnânimo, entre outras razões para conter a expansão do chavismo na região da Cordilheira dos Andes. Usou a Petrobrás como instrumento de política externa, mas isso é natural nesta época de ascensão do nacionalismo energético.

Há poucos meses, um cientista político boliviano disse no Rio de Janeiro que o Brasil tinha três políticas externa para a Bolívia, "da Petrobrás, do [assessor presidencial para política externa] Marco Aurélio Garcia e do Itamaraty".

As presenças de Lula e do ministro das Relações Exteriores, embaixador Celso Amorim, em La Paz, anunciando investimentos de US$ 1 bilhão da Petrobrás na Bolívia unificam o discurso e mostram a Morales quem é dependente.

Depois de sérios equívocos - especialmente a ocupação militar de instalações da Petrobrás e a expectativa do governo brasileiro de que a Petrobrás seria tratada de forma diferente na nacionalização do petróleo e do gás da Bolívia -, as relações bilaterais voltam á normalidade.

Também é uma vitória do modelo de integração latino-americana defendido pelo Brasil, o chamado regionalismo aberto. É uma integração com claros objetivos políticos mas baseada no mercado e na economia. Visa a aumentar o poder de barganha dos países-membros nas grandes negociações internacionais.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Brasil pode ter décima reserva mundial de petróleo

Com a descoberta de uma jazida estimada entre 5 e 8 bilhões de barris de petróleo e gás na Bacia de Santos, o Brasil passa a ter a décima maior reserva mundial de petróleo, ultrapassando a Nigéria, maior produtor da África.

O petróleo descoberto é do tipo leve, que facilita o refino. Se for confirmado o tamanho do campo Tupi, será um aumento de 62% nas reservas comprovadas brasileiras, que até agora eram de 14,4 bilhões.

Nos últimos 20 anos, só houve duas descobertas de campos maiores, ambas na Rússia.

As ações da Petrobrás subiram 14,2%.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Equador ameaça expulsar Petrobrás

O governo chavista do Equador ameaça a companhia estatal brasileira Petrobrás de violar os termos de seu contrato, e ameaça expulsá-la do país, informa hoje o jornal inglês Financial Times.

A advertência acontece um ano depois que a empresa americana Occidental foi expulsa e seus bens, avaliados em US$ 1 bilhão, seqüestrados.

Leia mais no FT.com.

domingo, 24 de junho de 2007

La Nación elogia economia brasileira

Desde o lançamento do Plano Real, em 1994, apesar das crises e escândalos de corrupção, a economia brasileira está cada vez mais sólida. O Brasil acumula recordes e é uma das 10 maiores economias do mundo, auto-suficiente em petróleo e líder mundial em biocombustíveis, afirma neste domingo o jornal argentino La Nación.

Com um produto interno bruto de US$ 1,17 trilhão, o Brasil está na frente da Rússia e da Índia, entre as grandes potências emergentes, embora cresça a taxas menores.

Entre os problemas nacionais, o jornal argentino cita a violência (115 homicídios por dia), que explica o fato de ter a segunda maior frota do mundo de carros blindados, a corrupção, a concentração da riqueza, a educação deficiente, a burocracia e a carga tributária.

Por outro lado, "o Brasil tem hoje uma democracia com um sistema de votação eletrônica exemplar, as pessoas pagam impostos via Internet, a liberdade de imprensa é irrepreensível e as instituições do Estado avançam, na medida do possível, com um projeto de país e não de governo".

"Ficaram na História as corridas para as casas de câmbio, a fuga desaforada de capitais, as falências de bancos e as temidas visitas de missões do Fundo Monetário Internacional. Ao FMI, o país já não deve nada; saldou sua dívida em 2005. O risco-país, que superou 2.300 pontos em 2002, agora é de apenas 145, e o país avança em todas as classificações de risco.

"As reservas, que durante a crise de 1998 se aproximaram perigosamente dos US$ 10 bilhões, hoje chegam a US$ 122 bilhões. O índice da Bolsa de Valores de São Paulo se valorizou quase 300% em cinco anos, e o mercado de ações atraiu a classe média, que se beneficia dos resultados de ações da Vale do Rio Doce ou Petrobrás - se antes seus impostos iam cobrir o passivo dessas empresas, agora obtém lucros como acionista. O país também atrai a atenção do mundo por uma agenda de políticas humanistas e ecológicas.

"Possui uma política antiaids respeitadas no mundo, lançada no governo Fernando Henrique Cardoso pelo ministro José Serra, um dos presidenciáveis mais fortes para suceder Lula em 2010. E o país, que já tem uma matriz energética quase completamente hídrica, renovável e não-contaminante, se converte numa referência mundial para o etanol, o combustível biológico que pode mudar a matriz energética do mundo."

Essa retomada do dinamismo perdido desde a crise da dívida externa, nos anos 80, teria começado com a abertura comercial do início dos anos 90, que obrigou as empresas privadas a se modernizarem, seguida pela implantação do real e as privatizações.

Leia a íntegra em La Nación.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Japão quer garantia de suprimento de álcool

Enquanto os Estados Unidos acenam com uma parceria estratégica em biocombustíveis mas sobretaxam o álcool importado do Brasil, o Japão está fechando um acordo com a Petrobrás para importar etanol que exige garantia de suprimento, o que pode significar o comprometimento da maior parte das exportações brasileiras do produto, adverte o jornal The Wall Street Journal desta terça-feira.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Lula quer impedir acordo comercial EUA-Uruguai

Uma semana antes da visita do presidente George Walker Bush a Montevidéu, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou hoje ao Uruguai numa tentativa de revitalizar o Mercosul e evitar que o país vizinho inicie negociações de livre comércio com os Estados Unidos, o que contraria as regras internas do bloco regional.

Lula foi armado de propostas de investimentos da Petrobrás, financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e concessões para produtos uruguaios. O BNDES poderia flexibilizar suas regras para financiar empresas do Uruguai e a Petrobrás poderia investir numa usina termoelétrica e linhas de transmissão.

Com seu crescimento medíocre, o Brasil não consegue impulsionar a expansão econômica da América do Sul. Isto daria legitimidade a seu projeto de integração regional. Dados da Comissão Econômica para a América Latina indicam que a região cresceu em médio 4,5% em 2006, em contraste com 8,7% das economias asiáticas.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Correa ameaça anular contrato da Petrobrás

Enquanto o presidente Evo Morales recusa-se a vir ao Brasil se o país não pagar o "preço político" que exige pelo gás da Bolívia, o recém-empossado presidente do Equador, Rafael Correa, ameaça romper um contrato que permite à estatal brasileira explorar petróleo em seu país, se for confirmado que a empresa violou a legislação ambiental equatoriana.

"Se foram cometidas graves irregularidades, seja pela Petrobrás ou quem quer que seja, se poderá declarar a caducidade do contrato", advertiu o novo presidente equatoriano, alinhado ideologicamente com o caudilho venezuelano Hugo Chávez, no programa de rádio O Presidente Dialoga com o Povo, que vai ao ar todos os sábados.

"Qualquer empresa", acrescentou Correa, "seja do Brasil, China, privada ou pública, que comete um atentado contra o meio ambiente no Equador, desnecessário porque sempre a exploração petrolífera terá um impacto ambiental, sofrerá as sanções da lei. A pátria não está a venda".