Mostrando postagens com marcador transição hegemônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador transição hegemônica. Mostrar todas as postagens

sábado, 26 de dezembro de 2020

Pandemia acelera transição hegemônica dos EUA para a China

 Com o fracasso dos Estados Unidos no combate à doença do coronavírus de 2019, surgida na China, este país deve se tornar a maior economia do mundo pelo valor nominal em dólares do produto interno bruto em 2028, cinco anos antes do esperado anteriormente, previu hoje o Centro para Pesquisas Econômicas e de Negócios da Índia. 

As duas maiores economias do mundo estão a caminho de trocar de posição, enquanto a Índia avança para se tornar a terceira maior. A pandemia começou na China, com o caso mais antigo rastreado até 17 de novembro, mas o país se recuperou rapidamente, a julgar pelas estatísticas oficiais do regime comunista, nem sempre confiáveis. Neste ritmo, a  China deve se tornar uma economia de alta renda em 2023.

No mês passado, o ditador Xi Jinping declarou ser "inteiramente possível" que a China dobre seu PIB até 2035 com o novo plano quinquenal aprovado pelo governo. A meta é chegar ao "socialismo moderno" com "características chinesas" em 15 anos.

Com o declínio do comunismo como ideologia depois das revoluções democráticas na Europa Oriental e da queda do Muro de Berlim, em 1989, e o fim da União Soviética, em 1991, é o crescimento econômico que legitima a manutenção da ditadura de partido único na China.

O grande temor dos dirigentes é uma abertura democrática como a promovida pelo líder soviético Mikhail Gorbachev, considerado um "líder fraco", por Xi, a partir de 1985, e o caos econômico na Rússia pós-comunista durante o governo Boris Yeltsin (1991-99). 

Esta é a justificativa de Xi para reinstaurar uma ditadura personalista e se tornar um novo imperador, acabando com a direção colegiada e o limite de dois mandatos de cinco anos para secretário-geral do PC e presidente da China criados por Deng Xiaoping para administrar a luta pelo poder na cúpula do partido.

Mais cedo ou mais tarde, a crise econômica vai chegar. Aí, a classe média em vai deverá questionar o monopólio de poder do PC e a legitimidade de um governo assentado sobre a força das armas do Exército Popular de Libertação.

A década que começa na próxima semana será o momento decisivo da transição hegemônica entre EIA e Rússia, com grande risco de guerra. O projeto Armadilha de Tucídides, do professor Graham Alisson, da Universidade de Harvard, nos EUA, identificou 16 transições hegemônicas a partir do século 15, quando começou a expansão colonial marítima da Europa. Em 12 casos, houve guerra.

O grande desafio das relações internacionais nas próximas décadas será administrar as relações entre a superpotência ascendente e a superpotência em declínio. O conflito vai muito além da guerra comercial deflagrada pelo presidente Donald Trump. É uma confrontação estratégica, econômica, científica, tecnológica e militar pela supremacia mundial.

Há vários focos de tensão nas relações com os EUA que estarão em pauta no governo Joe Biden:

• as disputas territoriais com os países vizinhos no Mar do Sul da China; 

• a questão de Taiwan, que o regime comunista considera uma província rebelde e ameaça invadir;

• o fim da fórmula "um país, dois sistemas", que prometia manter as liberdades democráticas em Hong Kong pelo menos até 2047, com a imposição de uma Lei de Segurança Nacional;

• a concorrência tecnológica em torno da tecnologia de comunicação móvel de quinta geração (5G);

• e as violações dos direitos humanos em toda a China, e especialmente no Tibete e dos muçulmanos uigures na província de Xinjiang, no Noroeste do país.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Mundo esquece lições das grandes guerras do século 20

Oitenta anos depois do início da Segunda Guerra Mundial com a invasão da Polônia pela Alemanha nazista, em 1º de setembro de 1939, o mundo parece ter esquecido as lições dos grandes conflitos do século passado. 

A democracia liberal está em crise. Há uma ascensão do nacionalismo de extrema direita como não se via desde os anos 1930s. O sistema multilateral e a ordem mundial do pós-guerra estão sob ameaça. 

Os acordos de controle de armas e desarmamento estão sendo abandonados justamente no momento da transição hegemônica entre os Estados Unidos e a China.

Mais uma vez, o mundo corre o risco de cair na armadilha de Tucídides. A expressão foi criada pelo professor de relações internacionais Graham Allison, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. 

Na História da Guerra do Peloponeso, um conflito que aconteceu há quase 2 mil e 500 anos, na Grécia, Tucídides diz que “foi a ascensão de Atenas que instilou o medo em Esparta que tornou a guerra inevitável."

Quando uma grande potência em ascensão, ameaça a supremacia da potência dominante, na transição hegemônica, o resultado na maior parte das vezes é a guerra. Nos últimos 500 anos, houve 16 casos e 12 guerras. 

Não houve guerra na transição de Portugal para a Espanha, no fim do século 15, do Império Britânico para os Estados Unidos, no início do século 20, na Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética e na ascensão da Alemanha reunificada para se tornar a maior potência europeia. Meu comentário:

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

China e EUA prorrogam negociações comerciais na expectativa de acordo

A China e dos Estados Unidos estenderam por um terceiro dia não previsto as negociações para chegar a um acordo e desarmar a guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo. Mesmo que as diferenças ainda sejam enormes, a reunião de Beijim fez progresso em questões como o aumento da importação de bens e serviços americanos pelos chineses.

Depois da imposição de tarifas punitivas sobre dezenas de bilhões de dólares do comércio bilateral, o presidente Donald Trump e o ditador Xi Jinping decidiram retomar negociações num jantar em 30 de novembro em Buenos Aires, no fim da reunião de cúpula do Grupo dos Vinte (G-20). O prazo para um acordo vai até 1º de março.

Os EUA exigem a redução de um déficit comercial que chegou a US$ 375 bilhões em 2017, respeito à propriedade intelectual e fim da transferência forçada de tecnologia.

A delegação chinesa, chefiada pelo vice-primeiro-ministro Liu He, um indicador da importância desta etapa de negociações, concordou em retomar as importações de soja, reduzir as tarifas de importação sobre carros e autopeças e adotar uma estratégia menos agressiva no programa Fabricado na China 2025, através do qual pretende alcançar independência tecnológica.

Ao mesmo tempo, o governo da China prometeu fortalecer a legislação para proteger a propriedade intelectual e aprovar uma nova lei de investimentos estrangeiros para dar melhores condições de concorrência para empresas de outros países no imenso mercado chinês.

Independentemente de um possível acordo comercial, a competição estratégica entre os EUA e a China será o elemento dominante das relações internacionais nos próximos anos. Com a China marchando para se tornar a maior economia do mundo até 2030, os EUA temem perder a superioridade tecnológica e militar.

A transição hegemônica de uma grande potência para outra foi causa de inúmeras guerras na história das relações internacionais. As grandes guerras mundiais foram causadas pela ascensão da Alemanha. A ascensão da União Soviética levou à Guerra Fria. A China afirma ter aprendido a lição. Mas os EUA enfrentam o desafio de lidar com seu próprio declínio.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

China aproveita fragilidade de países em crise

Ao emprestar US$ 3,5 bilhões à Petrobrás, a exemplo do que fez com a Argentina, a Venezuela e a Rússia, a China, aproveita-se da fragilidade de países em crise para garantir a longo prazo o suprimento das matérias-primas essenciais a seu desenvolvimento. No domingo passado, O Globo publicou matéria de Eliane Oliveira sobre o assunto em que fui citado.

Queria ampliar mais meus pontos de vista:

Quando Deng Xiaoping lançou seu programa de reformas para modernizar a China, em 1978, recomendou aos chineses e ao partido: trabalhem muito, sejam discretos, não mostrem sinais de riqueza e não se metam em conflitos externos. 

Depois do caos da Grande Revolução Cultural Proletária (1966-76) e da morte de Mao Tsé-tung, a China precisava de estabilidade interna e externa para tocar adiante seu projeto de desenvolvimento. Na época, em 1978, a China e o Brasil tinham PIBs do mesmo tamanho, cerca de US$ 200 bilhões. O desenvolvimentismo chinês deu mais certo. Foi o mais rápido e extraordinário da história.

O objetivo era claro: crescer, se fortalecer e ganhar massa crítica até tornar a China o país incontornável que é hoje. No fim da Guerra Fria, a China era um aliado não membro da OTAN. A Argentina de Carlos Menem chegou a ter o mesmo status, mas nunca teve o peso da China.

Logo que o presidente George W. Bush (2001-9) chegou à Casa Branca com a arrogância do Partido Republicano de que "nós ganhamos a Guerra Fria, mas ainda não tiramos partido isso", hostilizou os inimigos históricos, Rússia e China, antes de encontrar um novo inimigo no extremismo muçulmano. Em abril de 2001, houve o incidente na ilha de Hainã. 

Um caça chinês tentou interceptar um avião-espião americano, que derrubou o avião chinês, matou o piloto e ainda fez um pouso de emergência na China em Hainã. As autoridades chinesas interrogaram a tripulação e libertaram os americanos. A China ainda se submetia aos EUA.

Ao mesmo tempo, a China tratou de fortalecer suas defesas. No governo anterior, de Bill Clinton (1993-2001), quando a China ameaçou Taiwan por causa da possível vitória do partido a favor da independência da ilha, os EUA mandaram duas fragatas para o Estreito de Taiwan. 

NEUTRALIZANDO A SUPERIORIDADE AMERICANA
Logo a China tratou de instalar mísseis para evitar que isso se repetisse. Desde então, fez mísseis capazes de destruir satélites-espiões, porta-aviões e submarinos, neutralizando na prática a superioridade estratégica dos EUA.

Afinal, a revolução comunista na China foi feita com o objetivo de reparar injustiças e humilhações históricas que o país sofreu a partir das Guerras do Ópio (1839-42 e 1856-60), quando o Império Britânico tomou Hong Kong, para que o antigo Império do Meio, que era o centro do mundo na Ásia, volte a exercer um papel de protagonista nas relações internacionais. 

Até o início do século 19, China e Índia eram responsáveis por 20% da produção industrial, mas perderam a corrida tecnológica. Já haviam perdido a Revolução Comercial. Também ficaram para trás na Primeira Revolução Industrial (máquina a vapor, locomotiva, navio a vapor) e na Segunda Revolução Industrial (eletricidade, automóvel, rádio), e entraram tardiamente na Terceira Revolução Industrial (automação, TV e computadores), mas com força total.

A grande virada nas relações China-EUA vem com a Grande Recessão de 2008-9, que derrubou o mito de invencibilidade do capitalismo americano. A partir daí, a China passa a exigir tratamento de igual para igual dos EUA. 

Hu Jintao foi o último líder a se ajoelhar diante dos EUA. Xi Jinping, que está longe de ser um liberal e se preocupa em manter o liberalismo à distância, quer propor um modelo alternativo ao poder americano em todas as áreas.

Se uma superpotência é um país capaz de projetar seu poderio pelo mundo inteiro, a China já é uma superpotência econômica. Tem uma relação de interdependência com os EUA. 

Deng sempre se afastou de propostas terceiro-mundistas como a feita por Sarney em 1988 de criar um Clube dos Cinco (Brasil, Argentina, México, China e Índia) para se opor ao G-7, formado pelas maiores potências industriais da época. Sabia que precisava de capital e tecnologia para o desenvolvimento. Hoje a China é interdependente e trata de fortalecer suas relações econômicas com todo o resto do mundo.

REORIENTANDO A ECONOMIA
A crise na Europa e nos EUA está obrigando a China a orientar sua economia do mercado externo para o consumo interno, uma transição delicada. Com a derrota do comunismo na Guerra Fria, o extraordinário desenvolvimento econômico legitima o monopólio de poder do PC chinês. Quando a crise vier, a classe média e os ricos vão querer mais poder para decidir seu próprio destino.

No mercado financeiro, se fala de uma bolha chinesa no mercado imobiliário. A economia foi movida a investimento e haveria um excesso de imóveis. Quando a crise das hipotecas de segunda linha estourou nos EUA, o mercado imobiliário representaria 16% das dívidas do sistema financeiro americano; na China, seriam 50% hoje.

Na China, será feito o teste definitivo da hipótese de que o desenvolvimento econômico e social leva à democracia. O modelo chinês é uma mistura do desenvolvimentismo japonês com o modelo empresarial sul-coreano de megacorporações (chaebol) e o regime político que o chinês (de origem) Lee Kuan Yew criou em Cingapura, a ditadura perfeita, um Estado policial que funciona.

A política externa chinesa está a serviço do seu projeto de desenvolvimento econômico. Um dos objetivos centrais é garantir o suprimento de matérias-primas para a indústria. Isso orienta as relações com a África, a América Latina e o Oriente Médio, onde navios da Marinha chinesa resgataram nas últimas semanas diplomatas estrangeiros do porto de Áden, no Iêmen. Foi a primeira vez, sinal de que a China está disposta a assumir suas obrigações como grande potência do bem.

Porque o problema central das relações com a China é este: não existe uma superpotência benigna, como observou o historiador britânico Jonathan Spence. 

IMPERIALISMO
O poder existe para ser exercido. Quem não o exerce, perde. As relações econômicas da China com a América Latina são neocoloniais: exportamos matérias-primas e importamos produtos industrializados. 

A indústria chinesa está tomando os mercados de manufaturados da indústria brasileira na América Latina. Os EUA compram muito mais produtos manufaturados da América Latina do que a China. Nosso problema é como negociar com a China, que tem um peso hoje equivalente ao dos EUA.

O acordo da China com a Argentina foi uma clara violação das regras do Mercosul, que cada vez mais se torna irrelevante. O Uruguai, que sempre quis fazer um acordo com os EUA mas não fez porque seria punido como sócio menor, alegou mais uma vez que é preciso mudar a regra que proíbe acordos isolados de um só país com outros de fora do bloco.

A Rússia negociava há dez anos um acordo de gás com a China. Sob pressão internacional por causa de intervenção militar na Ucrânia, fechou negócio, certamente a preços de barganha.

A China já tinha feito isso com o Zimbábue, desgovernado pelo ditador Robert Mugabe, alvo de sanções do Ocidente por perseguir a oposição, e com outros países da África. Agora, chega a vez de Argentina, Brasil e Venezuela, o eixo da América do Sul, que enfrenta crises econômicas e políticas.

Na minha opinião, está fazendo negócios da China, conquistando mercados e garantindo matérias-primas para o futuro.

O grande desafio de qualquer país hoje é como negociar com a China e com os EUA, como se equilibrar neste mundo em que há uma transição hegemônica, talvez não dos EUA para a China, mas para um grupo de grande potências em que a China será a maior.

SUPERPOTÊNCIA EM ASCENSÃO
A história ensina que a ascensão de grandes potências sempre provoca guerras no sistema internacional. A China afirma ter aprendido as lições da Alemanha, do Japão e da União Soviética. Mas flexiona seus músculos contra os países com os quais têm disputas territoriais: Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Brunei, Camboja, Filipinas, Indonésia, Malásia e Vietnã.

Uma aliança tácita entre EUA, Índia e Japão se forma para contrabalançar o poderio da China, que como superpotência econômica não pode ser contida como foi a URSS. Todo o mundo quer fazer negócios da China.

O presidente Barack Obama manifestou a intenção de concentrar a maior parte do poderio militar dos EUA na Ásia e no Pacífico. Mas a Doutrina Obama, de usar a diplomacia em vez da força, e a decisão de não bombardear a Síria quando o governo Assad atacou com armas químicas, apesar das ameaças, convenceram os chineses de que os EUA não vão entrar em guerra com a China para defender seus aliados asiáticos, possivelmente com a exceção da Coreia do Sul e do Japão.

Em junho de 2014, escrevi aqui:

Ao comentar as críticas de Washington à agressividade chinesa nas disputas territoriais com países vizinhos no Mar da China Meridional, durante o Diálogo de Xangrilá, realizado em Cingapura no último fim de semana, o general Zhu Chenghu, professor da Universidade da Defesa Nacional, disse em tom provocativo que os Estados Unidos sofrem de "disfunção erétil".

"À medida que o poder dos EUA declina, Washington precisa confiar nos aliados para conter o desenvolvimento da China", declarou o general a uma televisão de língua chinesa. "Mas se vão se envolver ou intervir militarmente numa disputa territorial entre a China e seus vizinhos é outra história."

Em seguida, disparou: "Podemos ver na situação da Ucrânia uma espécie de disfunção erétil."

A Síria é um exemplo melhor da hesitação do governo Obama de usar a força. Os EUA não entrariam em guerra com uma potência nuclear como a Rússia por causa da Ucrânia. A mesma lógica se aplica aos vizinhos da China, com a exceção do Japão e da Coreia do Sul.

Na corrida tecnológica, ataques de saturação com mísseis de cruzeiro podem se tornar a maior ameaça a grupos navais dos EUA liderados por porta-aviões, adverte um ensaio Centro Chinês para Estudo de Assuntos Militares e a Universidade da Defesa Nacional.


A China não sofre de "disfunção erétil" nas relações econômicas com a América Latina.