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segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Chile lembra 50 anos do golpe em meio a ascensão da extrema direita

Mais um aniversário trágico na história da América Latina: os 50 anos do golpe militar no Chile. Pelo menos 3.216 foram mortas ou desapareceram, 40 mil torturadas e 200 mil fugiram do país. O golpe e a ditadura do general Augusto Pinochet tiveram o apoio dos Estados Unidos e do Brasil, no momento mais sombrio da ditadura militar brasileira.

O presidente Salvador Allende foi eleito em 1970 com a proposta de construir o socialismo pela via pacífica e democrática com apenas 36% dos votos, 39 mil a mais do que um adversário conservador. Sua eleição foi confirmada no Congresso com o apoio do Partido Democrata-Cristão, que não participou do governo.

Allende nunca teve maioria e enfrentou uma visão dentro da Unidade Popular e de seu próprio Partido Socialista, onde correntes revolucionárias defendiam a luta armada. Uma visita de 23 dias do ditador cubano Fidel Castro, no fim de 1971, radicalizou a situação e ajudou a alimentar o golpe.

Por iniciativa da ditadura militar chilena, Argentina, Brasil, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai lançaram a Operação Condor para perseguir inimigos no exterior. Em 1976, a DINA, a polícia política do Chile mata em Washington o ex-chanceler Orlando Letelier. 

Na mesma época, morrem três grandes líderes da Frente Ampla contra a ditadura no Brasil, os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart, e o ex-governador Carlos Lacerda. O ex-governador Leonel Brizola foge do Uruguai e vai para os EUA.

Em 5 de outubro de 1988, Pinochet perde um plebiscito que lhe daria um novo mandato. Ele não concorre à eleição de 1989. Em março de 1990, entrega o poder ao presidente democrata-cristão Patricio Aylwin, mas mantém o comando do Exército por mais oito anos. Quando perde a imunidade, é preso em Londres em 16 de outubro de 1998.

Solto por motivo de saúde, Pinochet volta ao Chile em março de 2000, onde é processado e acusado de corrupção, além de violações dos direitos humanos, mas morre impune. O presidente Gabriel Boric acaba de abrir uma investigação para encontrar os restos mortais de quem está desaparecido até hoje.

Talvez o mais extraordinário nestes 50 anos do golpe seja a ascensão da extrema direita, que conquistou 35% dos votos nas eleições de maio para um Conselho Constitucional para redigir uma nova Constituição. Extrema direita e direita têm mais de 60% dos votos. podem fazer o que quiserem. Meu comentário:

domingo, 16 de outubro de 2022

PC da China vai coroar Xi Jinping como ditador perpétuo

Cerca de 2,3 mil delegados participaram hoje da abertura do 20º Congresso do Partido Comunista da China, que deve consagrar o líder Xi Jinping como ditador perpétuo, acabando com a regra sucessória criada por Deng Xiaoping, o articulador das reformas que transformaram o país na segunda maior economia do mundo.

Até 22 de outubro, os congressistas vão aprovar os nomes escolhidos pela cúpula do partido para o Comitê Central, o Politburo e o Comitê Permanente do Politburo, o seleto grupo de novos imperadores que governam o país. Não são eleições. É um jogo de cartas marcadas.

No discurso de abertura, o ditador destacou a erradicação da pobreza, a luta contra a pandemia, o combate à corrupção e à poluição, e o aumento de 100% no produto interno bruto para US$ 17 trilhões como as grandes conquistas de seus dez anos no poder. 

Mas a política de covid zero e as intervenções no mercado para garantir a supremacia do partido desaceleram o crescimento. Uma ditadura cada vez mais unipessoal numa superpotência em ascensão e o Sonho Chinês de transformar as relações internacionais com base nos princípios e valores do regime comunista criam um mundo mais incerto e perigoso. Meu comentário:

sábado, 26 de dezembro de 2020

Pandemia acelera transição hegemônica dos EUA para a China

 Com o fracasso dos Estados Unidos no combate à doença do coronavírus de 2019, surgida na China, este país deve se tornar a maior economia do mundo pelo valor nominal em dólares do produto interno bruto em 2028, cinco anos antes do esperado anteriormente, previu hoje o Centro para Pesquisas Econômicas e de Negócios da Índia. 

As duas maiores economias do mundo estão a caminho de trocar de posição, enquanto a Índia avança para se tornar a terceira maior. A pandemia começou na China, com o caso mais antigo rastreado até 17 de novembro, mas o país se recuperou rapidamente, a julgar pelas estatísticas oficiais do regime comunista, nem sempre confiáveis. Neste ritmo, a  China deve se tornar uma economia de alta renda em 2023.

No mês passado, o ditador Xi Jinping declarou ser "inteiramente possível" que a China dobre seu PIB até 2035 com o novo plano quinquenal aprovado pelo governo. A meta é chegar ao "socialismo moderno" com "características chinesas" em 15 anos.

Com o declínio do comunismo como ideologia depois das revoluções democráticas na Europa Oriental e da queda do Muro de Berlim, em 1989, e o fim da União Soviética, em 1991, é o crescimento econômico que legitima a manutenção da ditadura de partido único na China.

O grande temor dos dirigentes é uma abertura democrática como a promovida pelo líder soviético Mikhail Gorbachev, considerado um "líder fraco", por Xi, a partir de 1985, e o caos econômico na Rússia pós-comunista durante o governo Boris Yeltsin (1991-99). 

Esta é a justificativa de Xi para reinstaurar uma ditadura personalista e se tornar um novo imperador, acabando com a direção colegiada e o limite de dois mandatos de cinco anos para secretário-geral do PC e presidente da China criados por Deng Xiaoping para administrar a luta pelo poder na cúpula do partido.

Mais cedo ou mais tarde, a crise econômica vai chegar. Aí, a classe média em vai deverá questionar o monopólio de poder do PC e a legitimidade de um governo assentado sobre a força das armas do Exército Popular de Libertação.

A década que começa na próxima semana será o momento decisivo da transição hegemônica entre EIA e Rússia, com grande risco de guerra. O projeto Armadilha de Tucídides, do professor Graham Alisson, da Universidade de Harvard, nos EUA, identificou 16 transições hegemônicas a partir do século 15, quando começou a expansão colonial marítima da Europa. Em 12 casos, houve guerra.

O grande desafio das relações internacionais nas próximas décadas será administrar as relações entre a superpotência ascendente e a superpotência em declínio. O conflito vai muito além da guerra comercial deflagrada pelo presidente Donald Trump. É uma confrontação estratégica, econômica, científica, tecnológica e militar pela supremacia mundial.

Há vários focos de tensão nas relações com os EUA que estarão em pauta no governo Joe Biden:

• as disputas territoriais com os países vizinhos no Mar do Sul da China; 

• a questão de Taiwan, que o regime comunista considera uma província rebelde e ameaça invadir;

• o fim da fórmula "um país, dois sistemas", que prometia manter as liberdades democráticas em Hong Kong pelo menos até 2047, com a imposição de uma Lei de Segurança Nacional;

• a concorrência tecnológica em torno da tecnologia de comunicação móvel de quinta geração (5G);

• e as violações dos direitos humanos em toda a China, e especialmente no Tibete e dos muçulmanos uigures na província de Xinjiang, no Noroeste do país.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Sanders abandona disputa e Biden será candidato democrata contra Trump

Com a retirada hoje do senador socialista Bernie Sanders, o ex-vice-presidente Joe Biden é o virtual candidato do Partido Democrata para enfrentar o presidente Donald Trump na eleição presidencial de 3 de novembro nos Estados Unidos.

Pouco mais de um mês atrás, até a superterça-feira, 3 de março, o senador liderava as eleições primárias do partido. Biden reagiu com grandes vitórias na Carolina do Sul, onde pesou a força do voto negro para o vice do presidente Barack Obama, e na superterça-feira.

Sanders não esperou o resultado da eleição primária realizada ontem no estado de Wisconsin: "Quero expressar a cada um minha profunda gratidão por ajudarem a criar uma campanha política de base sem precedentes com um profundo impacto sobre a mudança em nossa nação."

O senador, que teria grandes dificuldades para derrotar Trump por se apresentar como socialista no maior país capitalista do mundo, também agradeceu a "centenas de milhares de voluntários que bateram em milhões de portas no inverno gelado de Iowa e Novo Hampshire e no calor de Nevada e da Carolina do Sul, e em todo o país."

Cerca de 2,1 milhões de americanos contribuíram para a campanha de Sanders fazendo 10 milhões de doações com a média de US$ 18,50 cada. "Juntos, transformamos a consciência americana sobre o tipo de país que podemos ser e demos um grande passo à frente na luta sem fim por justiça econômica, social, racial e ambiental."

Entre suas propostas, Sanders defendeu a criação de um sistema universal de saúde pública, universidade gratuita, salário mínimo de US$ 15 por hora e taxação das grandes fortunas. Uma das principais acusações a seus adversários na campanha democrata era que recebiam dinheiro de bilionários, bancos e grandes empresas.

Em nota distribuída via Internet, Sanders citou a atual pandemia do novo coronavírus como exemplo da necessidade de ter um sistema público de saúde robusto e cumprimentou o ex-vice-presidente, "um homem decente", pela vitória, destacando a necessidade de união para vender Trump, que descreveu como "o presidente mais perigoso da história dos EUA".

A grande dúvida é se o eleitorado jovem mobilizado pela pregação esquerdista do senador pelo estado de Vermont vai apoiar o moderado Joe Biden, mais identificado com o status quo. Sanders prometeu uma "revolução jovem", mas o eleitorado jovem é o que menos participa de eleições nos EUA, onde o voto não é obrigatório.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Bloomberg deixa corrida à Casa Branca e apoia Biden

Depois de gastar meio bilhão de dólares na sua própria campanha e de um desempenho fraco ontem na superterça-feira, o ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg abandonou hoje a disputa pela candidatura do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos em 3 de novembro. 

Bloomberg anunciou apoio ao ex-vice-presidente Joe Biden, o grande vencedor ontem, para barrar o senador socialista Bernie Sanders, que será um adversário fácil para o presidente Donald Trump.

"Depois dos resultados de ontem, a matemática dos delegados se tornou virtualmente impossível. Um caminho viável para a nomeação não existe mais", declarou Bloomberg.

"Sempre acreditei que a derrota de Donald Trump começa pela união em torno do candidato com melhores condições de fazê-lo. Depois da votação de ontem, está claro que este candidato é meu amigo Joe Biden, um grande americano. Vou trabalhar para que seja o próximo presidente dos EUA", acrescentou.

É o quarto pré-candidato ao deixar a corrida à Casa Branca dos democratas, depois do deputado Beto O'Rourke, do ex-prefeito Pete Buttigieg e da senadora Amy Klobuchar, numa reação da cúpula e da ala moderada do Partido Democrata, que considera Sanders inelegível.

O senador por Vermont parecia estar numa ascensão irresistível. Se tivesse vencido ontem, provavelmente abriria uma vantagem capaz de garantir a maioria dos delegados à Convenção Nacional do Partido Democrata, que vai indicar o candidato de 13 a 16 de julho, em Milwaukee, no estado de Wisconsin.

Sanders se apresenta como um socialista. Seu programa prevê um enorme aumento nos gastos públicos para financiar um sistema de saúde estatal para todos, universidade gratuita e outras propostas que seduzem especialmente os jovens. Mas a participação dos jovens ontem foi fraca. A "revolução jovem" do senador veterano não aconteceu e a coalizão formada por Sanders parece ter chegado ao limite.

Biden ganhou com os votos do eleitorado negro e dos idosos. Ele tem forte apelo junto à classe trabalhadora sem curso superior, um segmento decisivo para a vitória de Trump em 2016.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Senadora Amy Klobuchar deixa disputa democrata e deve apoiar Biden

A senadora moderada Amy Klobuchar abandonou a luta pela candidatura democrata à Presidência dos Estados Unidos e está viajando para o Texas, onde hoje à noite deve anunciar apoio ao ex-vice-presidente Joe Biden e aparecer ao lado dele num comício.

Desde o início da campanha, Klobuchar se apresentava como uma democrata moderada capaz de aglutinar o partido e vencer o presidente Donald Trump em 3 de novembro. Mas, com a exceção da eleição primária de Novo Hampshire, em que chegou em terceiro com 19,7% do voto popular, nunca chegou perto dos líderes.

Sua saída na véspera da superterça-feira, 3 de março, quando haverá eleições prévias em 14 estados, assim como a desistência do ex-prefeito Pete Buttigieg ontem, revelam a intenção da fortalecer a candidatura do ex-vice-presidente Joe Biden, um moderado, e evitar que o senador socialista Bernie Sanders tome uma dianteira insuperável.

No sábado, o bilionário california Tom Steyer saiu fora. Ontem, foi a vez do ex-prefeito Pete Buttigieg, que pretendia ser o primeiro gay assumido a concorrer à Casa Branca. Hoje, Klobuchar desistiu.

A campanha democrata se afunila com a disputa entre Biden e Sanders, com o ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg, um bilionário que financia sua própria campanha, correndo por fora. Sua pré-candidatura toma votos de Biden.

Pete Buttigieg abandona a corrida à Casa Branca

Depois de um mau resultado na eleição primária da Carolina do Sul, o ex-prefeito de South Bend, no estado de Indiana, Pete Buttigieg deixou ontem a disputa pela candidatura do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos na eleição de 3 de novembro.

Ex-veterano de guerra e homossexual assumido, Buttigieg, de 39 anos, fez uma campanha histórica. Ele venceu as convenções regionais do estado de Iowa e ficou em segundo em Novo Hampshire, mas enfrentou problemas como a falta de experiência e a pequena popularidade entre o eleitorado negro, uma base importante do partido.

No sábado, o bilionário californiano Tom Steyer abandonou a campanha.

Com a saída desses dois candidatos, a disputa se concentra em torno do ex-vice-presidente Joe Biden e do senador Bernie Sanders, que se apresenta como socialista, o que preocupa os caciques do partido.

O estigma do socialismo poderia prejudicar outros candidatos do partido à Câmara, ao Senado e aos governos estaduais. Biden pediu apoio a Buttigieg na véspera na superterça-feira, 3 de março, quando 14 estados realizam eleições prévias, inclusive os dois mais populosos, a Califórnia e o Texas, que mandam mais delegados à Convenção Nacional Democrata, que vai escolher o candidato do partido de 13 a 16 de julho em Kilwaukee, no estado de Wisconsin.

A senadora Elizabeth Warren deve sair em breve e tende a apoiar Sanders. O ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg, um bilionário que financia sua própria campanha, corre por fora.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Afinal, o que é o fascismo?

Um dos insultos mais disparados nas discussões redes sociais é a pecha de fascista, esgrimida tanto à direita quanto à esquerda para desqualificar o oponente e vencer o debate com um ataque letal.

A grosso modo, no conceito genérico, o fascismo é o uso da força para fazer política, atropelando os princípios da democracia liberal. Neste sentido, pode ser aplicado aos autoritarismos de direita e de esquerda.

No Dicionário de Política (Brasília: UnB, 1986), Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino identificam “três usos ou significados principais do termo”.

O primeiro é o Fascismo italiano, o movimento liderado por Benito Mussolini, que tomou o poder na Itália em 1922 e levou o país à Segunda Guerra Mundial.

O segundo é a dimensão internacional que o Fascismo alcançou com a ascensão do nacional-socialismo de Adolf Hitler ao poder na Alemanha em 1933. A guerra iniciada pelo ditador nazista matou mais de 50 milhões de pessoas.

O terceiro “estende o termo a todos os movimentos e regimes que compartilham com aquele 'Fascismo histórico' um certo núcleo de características ideológicas e/ou critérios de organização e/ou finalidades políticas”.

Esta última acepção se tornou tão ampla que os autores consideram difícil de usar cientificamente. Assim, os dicionaristas chamam de Fascismo o movimento de Mussolini, de Nazismo o de Hitler e de neofascismo todas as suas derivações mais recentes, pós-Segunda Guerra Mundial.

Em geral, observam os dicionaristas, se entende por Fascismo um sistema autoritário de dominação caracterizado por:
- monopólio da representação política por um grande partido único de massas, hierarquicamente organizado;
- uma ideologia fundada no culto ao líder, na exaltação da coletividade nacional, no desprezo aos valores do individualismo liberal e no ideal da colaboração de classes, em oposição frontal ao socialismo e ao comunismo, dentro de um sistema corporativista;
- objetivos imperialistas em nome da luta dos países pobres contra as grandes potências;
- mobilização das massas e seu enquadramento em organizações controladas pelo regime, pelo partido e pelo governo;
- aniquilamento das oposições através da violência e do terror;
- um aparelho de propaganda que controla as informações e os meios de comunicação de massa;
- um dirigismo estatal na economia, que permanece em mãos do capital privado; e
- integração das estruturas de controle do partido e do Estado, dentro de uma lógica totalitária de dominar todas as relações econômicas, políticas, sociais e culturais.

Para o pensador italiano Umberto Eco, o que banalizou a palavra fascismo é o fato de que bastam algumas dessas características para determinado regime ser declarado fascista. Como um movimento ultranacionalista, o fascismo adquiriu particularidades de acordo com a realidade de cada país.

Assim, o fascismo é, ao mesmo tempo, um fenômeno nacional e supranacional, ao se propagar além das fronteiras. “Na realidade, o Fascismo, como evento histórico, é um fenômeno mais amplo que engloba o autoritarismo na sociedade moderna”, observam Nobbio, Matteucci e Pasquino.

Quando Mussolini tomou o poder e transformou o Estado liberal num Estado totalitário, “poucos souberam ver no Fascismo a antecipação de uma crise mais geral que revolucionaria a Europa e, com a catástrofe da Segunda Guerra Mundial, viria a produzir profundas mudanças na organização interna dos Estados nacionais e na ordem internacional.”

“O atraso do país, a falta de uma autêntica revolução liberal, a incapacidade e a mesquinhez das classes dirigentes, unidas à arrogância de uma pequena burguesia parasitária com a doença da retórica... foram terreno para o cultivo do Fascismo” na Itália, diz o Dicionário de Política.

“Como expressão das aspirações de uma classe média emergente a um papel político autônomo, tanto em confronto com a burguesia quanto com o proletariado, o movimento fascista teria representado um momento de ruptura em relação ao passado, uma proposta de modernização das estruturas da sociedade italiana, com certa carga revolucionária”, notam os autores.

O Fascismo teve origem no Partido Socialista, com que Mussolini rompeu para apoiar a participação da Itália na Primeira Guerra Mundial, e tinha um aspecto revolucionário, em contraste com o Nazismo, que sempre foi essencialmente um movimento radical de direita reacionário.

Ao tomar o poder, o Fascismo fez um acordo com as classes dominantes que freou o impulso subversivo original e manteve as relações tradicionais de poder entre as classes sociais.

Na visão marxista, o fascismo não passa de uma ditadura escancarada da burguesia. “As origens do fascismo como fenômeno internacional estão relacionadas com a crise histórica do capitalismo em seu estádio final, o imperialismo, e com a necessidade que a burguesia tem, em face do agravamento das crises econômicas e da exacerbação dos conflitos de classes, de manter o seu domínio intensificando a exploração das classes subalternas.”

O Estado capitalista se torna uma ditadura aberta da burguesia, sem a intermediação das instituições da democracia parlamentar.

De acordo com esta análise, os partidos e os regimes fascistas são expressões diretas dos interesses do grande capital e sua função é essencialmente contrarrevolucionária. Atacam o proletariado e tentam frear o curso da história.

Essa análise marxista rejeita a descrição do “Fascismo como uma forma de bonapartismo, com a cessão temporária do poder a uma terceira força com relativa autonomia do Executivo em relação às classes dominantes.” Apesar da convergência de interesses, há “uma autonomia relativa dos Estados fascistas em face do grande capital”.

Outra perspectiva situa o Fascismo como totalitarismo, uma vertente que inclui na mesma categoria, do Estado totalitário, regimes fascistas e comunistas.

As características centrais do Estado totalitário são, de acordo com o livro Ditadura Totalitária e Autocracia, de Carl-Joaquim Friedrich e Zbigniew Brzezinski, que seria assessor de Segurança Nacional dos EUA no governo Jimmy Carter (1977-81):
- uma ideologia oficial tendente a cobrir todos os aspectos da existência humana à qual todos devem aderir, ao menos passivamente;
- um partido de massas único, conduzido por um homem só;
- um sistema de controle policial baseado no terror;
- o monopólio quase total dos meios de comunicação de massa;
- o controle quase total do complexo industrial-militar; e
- o controle central da economia.

Os regimes fascistas foram também tentativas de modernização (como processo de transformação global) distintas de democracia liberal e do socialismo, fundadas numa tentativa de acordo entre os setores tradicional e moderno, argumenta outra interpretação do fenômeno.

Os traços econômicos dessa modernização foram:
- na esfera econômica, uma industrialização atrasada, mas intensa, promovida a partir de cima, com notável interferência do Estado a favor da acumulação de capital;
- na esfera política, o desenvolvimento de regimes autoritários e repressivos, expressão da coligação conservadora das elites agrárias e industriais que querem avançar pelo caminho da modernização econômica, mantendo as estruturais sociais tradicionais;
- na esfera social, a tentativa de evitar a desagregação dessas estruturas, impedindo ou reprimindo a mobilização posta em marcha pela industrialização e os movimentos operários.

Ao acentuar o peso do componente tradicional, o conceito do fascismo como força modernizadora “tende a subestimar a importância do embate entre a burguesia e o proletariado, o papel das classes médias, a crise do sistema liberal e das instituições representativas”.

A questão aqui é se o fascismo é apenas uma resposta a crises do capitalismo ou uma terceira via diferente do capitalismo e do socialismo.

O Fascismo também pode ser visto como uma revolta da pequena burguesia, que forneceu os quadros e as massas para sua ascensão.

“Para a teoria liberal, a pequena burguesia era uma das bases do sistema democrático e a garantia do desenvolvimento social pacífico. Para o marxismo, estava impossibilitada de exercer um papel político autônomo por causa de sua posição na estrutura das classes sociais, subalterna no conflito fundamental entre a grande burguesia e o proletariado”.

Assim, a pequena burguesia seria apenas massa de manobra da ditadura das classes dominantes. Estas exploraram a “revolta da pequena burguesia urbana e rural ameaçada em seu status pelos processos de transformação socioeconômica”, de um lado pela concentração do grande capital industrial e do outro pelo fantasma do comunismo depois da Revolução Bolchevique, na Rússia, em outubro de 1917.

“A capacidade de mobilizar a pequena burguesia, com base numa ideologia onde confluíam o irracionalismo e o voluntarismo, o anticapitalismo e o antissocialismo, e vagas aspirações a uma democracia radical com tons fortemente nacionalistas”, é um elemento central do fascismo desde suas origens na Itália.

É aí que a histeria nas redes sociais assusta, com a perspectiva de uma saída irracional de apoio a candidatos populistas e salvadores da pátria na próxima eleição presidencial. Vou reler outros textos sobre o fascismo e voltar ao assunto.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Ex-presidente de Portugal Mario Soares morre aos 92 anos

O ex-presidente Mario Soares, um dos símbolos da redemocratização de Portugal depois da queda da ditadura salazarista na Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, morreu hoje em Lisboa aos 92 anos.

Pai da democracia portuguesa, Soares foi presidente durante dez anos, primeiro-ministro, líder do Partido Socialista e deputado do Parlamento Europeu. Ele estava internado em coma havia 26 dias.

O primeiro-ministro socialista António Costa declarou que Portugal perdeu "aquele que tantas vezes foi o rosto e a voz da nossa liberdade contra a ditadura, e com isso sofreu com a prisão, a deportação e o exílio."

Soares nasceu em 1924 e foi um dos líderes da luta contra a ditadura intaurada por António Oliveira Salazar (1933-. Aos 18 anos, filiou-se ao Partido Comunista Português (PCP), do qual sairia em 1964 para fundar a Ação Socialista, embrião do Partido Socialista que ele encarnou.

Preso 12 vezes, fugiu para o exílio e só voltou a Portugal depois da Revolução dos Cravos. Em 1976, foi eleito primeiro-ministro no primeiro governo constitucional da democracia restaurada e foi um dos principais responsáveis pela adesão do país à Comunidade Europeia, em 1986, marco definitivo da consolidação da democracia e da modernização de Portugal.

sábado, 1 de outubro de 2016

Líder do Partido Socialista Operário Espanhol cai

O secretário-geral do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), Pedro Sánchez, pediu demissão ontem à noite depois que a direção do partido rejeitou, por 132 a 107 votos, sua proposta de convocar um congresso e eleições primárias nas próximas semanas. Ele será substituído por uma direção colegiada até o próximo congresso do partido.

Durante dois anos e três meses, Sánchez liderou o PSOE, que chega dividido e destroçado às próximas eleições, previstas para dezembro, as terceiras desde 20 de dezembro de 2015. Nas duas anteriores, com o Parlamento dividido pelo surgimento de novos partidos nascidos da crise, foi impossível formar um governo de maioria.

Depois das eleições de dezembro do ano passado, Sánchez se recusou a formar uma grande aliança com o Partido Popular, conservador, liderado pelo primeiro-ministro Mariano Rajoy, a quem culpa pelo sofrimento dos espanhóis durante a crise econômica.

O líder do PSOE sonhava em se tornar ele mesmo chefe de governo em aliança com os novos partidos Podemos, de esquerda, e Cidadãos, de centro-direita. Mas o líder do Podemos, Pablo Iglesias, se negou a fazer uma coligação com os Cidadãos.

Diante do impasse, foram realizadas novas eleições em 26 de junho. Sánchez apostou no enfraquecimento dos novos partidos, mas o resultado foi semelhante: PP em primeiro, PSOE em segundo, Podemos em terceiro e Cidadãos em quarto. Com a queda da bancada de 90 para 85 deputados, foi o pior resultado da história do PSOE.

Sem conseguir formar sua própria aliança, Sánchez obrigou os deputados socialistas a votar contra a tentativa de Rajoy de formar um governo minoritário.

A batalha interna na comissão executiva nacional que terminou com sua queda, com a oposição interna liderada pela governadora da região da Andaluzia, Susana Díaz, foi considerada pelo jornal espanhol El País o maior desgaste em 137 anos de existência do PSOE.

domingo, 24 de julho de 2016

Presidente democrata cai após vazamento de e-mails anti-Sanders

A presidente da comissão executiva nacional do Partido Democrata, deputada federal Debbie Wasserman Schultz, renunciou ao cargo diante do vazamento de mensagens reveladoras de favorecimento da cúpula partidária à ex-secretária de Estado Hillary Clinton na disputa com o senador Bernie Sanders pela candidatura à Presidência dos Estados Unidos, informou o jornal The New York Times.

O vazamento do sítio WikiLeaks, que pirateia mensagens de governos, partidos e empresas para revelar sua hipocrisia, aconteceu às véspera do início, amanhã, na Filadélfia, da convenção nacional para consagrar Hillary candidata. Abala a frágil trégua interna do partido com os eleitores de Sanders, mais à esquerda, que não ficaram satisfeitos com a escolha do senador moderado Tim Kaine para vice-presidente.

O coordenador da Rede de Delegados de Bernie, Norman Solomon, protestou contra o vice-presidente "inaceitável": "A secretária Clinton deve saber que a escolha de Kaine só pode inflamar em vez de acalmar a grande maioria dos eleitores de Bernie."

Sanders, socialista assumido, fez campanha denunciando o centro financeiro de Wall Street, a desigualdade social e os acordos de livre comércio. Sempre acusou Hillary de ser uma candidata do sistema que recebe ajuda dos grandes bancos e da cúpula do partido em sua campanha.

"A liderança do partido deve ser sempre imparcial durante o processo de indicação do candidato, algo que não aconteceu em 2016", lamentou Sanders em nota.

Ao anunciar a renúncia, Debbie Schultz deixou claro que vai continuar lutando por Hillary: "Eu sei que eleger Hillary Clinton a próxima presidente é crucial para o futuro dos EUA. Vou servir como militante na campanha na Flórida e ao redor do país para garantir a vitória. No momento, a melhor maneira de atingir este objetivo é deixar a presidência do partido no fim desta convenção."

Em nota, Hillary agradeceu à ex-presidente do partido: "Sou grata a Debbie por trazer o Partido Democrata até a histórica convenção deste ano na Filadélfia, e eu sei que o evento desta semana vai ser um sucesso graças a ela e a sua liderança."

O escândalo atinge a campanha à reeleição da própria Debbie, que disputa a candidatura pelo 23º distrito da Flórida com o professor de direito Tom Canova, aliado de Sanders, numa eleição primária em agosto.

Alguns dirigentes democratas acusaram a Rússia pelo vazamento, sob a alegação de que o presidente Vladimir Putin tem interesse na eleição do candidato republicano, Donald Trump.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Hollande faz visita histórica a Cuba e pede fim do embargo

O presidente da França, François Hollande, faz hoje uma visita histórica a Cuba, com direito a um raro encontro com o comandante Fidel Castro. É o primeiro chefe de Estado de uma potência ocidental a visitar a ilha depois do reatamento do regime comunista com os Estados Unidos e a primeira visita de um presidente francês a Cuba. Mas chega à ilha que era vista pela esquerda europeia como um paraíso socialista mais interessado em fazer negócios, observa o jornal Le Monde.

De olho na abertura econômica do regime e no fim do embargo americano, "a França é a primeira, em nome da Europa e dos países ocidentais, a poder dizer aos cubanos que estamos a seu lado se eles decidirem eles mesmos atravessar as etapas necessárias rumo à abertura", declarou Hollande aos jornalistas que o acompanham. Na agenda, nenhum encontro com dissidentes.

Em Havana, o presidente francês prometeu se empenhar pelo fim do embargo econômico imposto pelos EUA depois da desapropriação de propriedades de americanos pela revolução cubana. Desde 1991, a França vota todos os anos pelo fim do embargo na Assembleia Geral das Nações Unidas.

"Vocês sabem que a França é a favor de suspender o embargo que trava o desenvolvimento cubano", afirmou Hollande diante de uma plateia de estudantes cuidadosamente selecionados pelo regime comunista na Universidade de Havana. Isso depende do Congresso dos EUA, cada vez mais reacionário.

Depois do fim da União Soviética, em 1991, Cuba enfrentou uma situação econômica muito difícil, aliviada pela ascensão de Hugo Chávez ao poder na Venezuela, em 1999. Com a crise econômica venezuelana, o regime comunista cubano iniciou uma abertura econômica sob Raúl Castro, que sucedeu Fidel em 2006.

Hoje há mais de 500 mil microempresas que o governo autorizou a funcionar para poder demitir 1 milhão de funcionários públicos num programa chamado oficialmente de "atualização" da economia. Décima maior parceira comercial de Cuba, a França quer aumentar sua participação no mercado cubano, que se reintegra plenamente ao sistema capitalista.

Ontem, depois de participar das comemorações do Dia da Vitória na Segunda Guerra Mundial em Moscou, o ditador Raúl Castro visitou o Vaticano para agradecer a mediação do papa Francisco e da Igreja Católica no reatamento das relações com os EUA. Educado pelos jesuítas como o irmão Fidel, Raúl disse que com o atual papa pensa até em voltar à igreja.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Socialistas dissidentes não devem apoiar governo Valls

Os deputados rebeldes do Partido Socialista devem se abster durante o voto de confiança a que o novo governo nomeado pelo primeiro-ministro Manuel Valls terá de se submeter na Assembleia Nacional da França, declarou o deputado dissidente Christian Paul ao jornal Le Parisien.

Ao se abster em vez de votar contra, a facção dissidente evita derrubar o governo e mantém sua posição nas negociações com o presidente François Hollande, que bateu na semana passada o recorde de impopularidade para um chefe de Estado francês na 5ª República, fundada em 1958.

Só 13% dos franceses apoiam Hollande, o que enfraqueceria a posição dos socialistas em eleições gerais antecipadas. O primeiro-ministro Valls é mais popular, mas enfrenta resistência interna da esquerda do partido, que o considera "social-liberal".

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Esquerda sem rumo

A esquerda latino-americana não discute. Tem certezas. Tem a História na mão? Não, desde a queda do Muro de Berlim e do colapso do comunismo. É uma realidade que a esquerda latino-americana, que apoia Fidel, Chávez e outros caudilhos que a esquerda europeia rejeita, insiste em ignorar.

Enquanto direita e esquerda forem democráticas, tudo bem, mas o socialismo democrático é a social-democracia. O PT e o lulismo são social-democratas, mas o MST não é. Como vivi sob uma ditadura e prezo minha liberdade, não gostaria de viver sob um governo do MST, nem do camarada Kim Jong Un ou dos irmãos Castro. 

Como sou contra a tirania, posso me identificar com a blogueira cubana Yoani Sánchez, com os intelectuais e artistas dissidentes chineses, com os sindicalistas que vaiaram o enterro de Lady Thatcher, com os líbios que se livraram de Kadafi com a ajuda da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), com os sírios não fundamentalistas que tentam se livrar de Assad, com os egípcios na Praça da Libertação, com as vítimas da ditadura argentina que denunciaram a omissão do novo papa na época e de todas as ditaduras latino-americanas. Na Guatemala, estão julgando o general Efraín Ríos Montt, ditador de plantão quando passei lá, em 1982, mas o Brasil esquece deliberadamente o guarda de banco que o Lamarca matou. Também foi vítima, também merecia reparação e reconhecimento, a família merecia indenização, mas a Comissão é da Meia-Verdade.  

Estou do lado da liberdade individual, da maioria desarmada que não quer se submeter ao poder arbitrário do Estado seja em nome de que ideologia for.

Como o mundo não é preto e branco, só quem é extremista pode ter certezas. Qualquer ideia política que se considere progressista tem de promover a emancipação humana. Para isso, é preciso que as pessoas tenham suas necessidades básicas atendidas e uma educação de qualidade para poder pensar com a própria cabeça e não a do partido.

O marxismo-leninismo se tornou uma doutrina reacionária e autoritária com origem no autoritarismo alemão que pretende falar em nome do povo sem ter delegação para isso. É usada para justificar os mais variados abusos dos direitos humanos e arbitrariedades, corrupção, tortura...

Desde 1989, desde a queda do Muro, as revoluções são feitas para lutar pela liberdade. As pessoas vão para o meio da praça lutar pela liberdade e não gritar slogans socialistas e marxistas, pedir a estatização dos meios de produção, a não ser na América Latina, o continente do atraso, onde as esquerdas são teleguiadas pelo Estado.

Neste sentido, reacionário é quem luta contra as revoluções liberais que fazem parte das últimas ondas de democratização iniciadas pelo fim da Guerra Fria e a queda do Muro de Berlim.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Gérard Depardieu recebe passaporte da Rússia

Numa das pantominas que marcam a política internacional, o ator francês Gérard Depardieu recebeu ontem, na cidade de Sótchi, um passaporte russo das mãos do presidente Vladimir Putin.

O ator não tem a intenção de morar na Rússia, mas acaba de deixar a França, fixando domicílio fiscal na Bélgica para fugir da alíquota máxima do imposto de renda, de 75%, imposta pelo governo socialista do presidente François Hollande para quem ganha um milhão de euros por ano ou mais. A alíquota foi derrubada pelo Tribunal Constitucional da França, mas o que isso importa neste circo.

Na sua ridícula guerrinha fria midiática contra o Ocidente, Putin faz mais um disparo para a plateia enquanto afunda seu país no autoritarismo. Se mudar seu domicílio fiscal para a Rússia, Depardieu pagaria apenas 13% de imposto sobre uma renda de um milhão de euros, observa o jornal The New York Times.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Chile exuma restos mortais de Salvador Allende

Na presença de familiares e políticos, os restos mortais do presidente Salvador Allende foram exumados hoje para tentar esclarecer definitivamente se ele se matou ou foi morto em 11 de setembro de 1973, data do golpe liderado pelo general Augusto Pinochet.

A exumação foi feita a pedido de sua filha, a senadora socialista Isabel Allende.

Pela versão oficial dos golpistas, o primeiro presidente socialista eleito democraticamente se suicidou com um fuzil AK-47 recebido de presente do ditador cubano, Fidel Castro. O próprio Fidel confirmou essa versão.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Raúl quer abertura econômica sem democracia

Em um discurso de duas horas, no fim da sessão da Assembleia Nacional de Cuba, o presidente Raúl Castro prometeu ontem abertura econômica sem abrir mão do regime socialista.

"Temos o dever de corrigir os erros que cometemos em cinco décadas de construção do socialismo", declarou o ditador, irmão de Fidel Castro.

Depois de afirmar que não foi eleito para "restaurar o capitalismo em Cuba", Raúl admitiu que "foi um erro estatizar toda a economia". Tem razão: eleito ele não foi. Mas, ao permitir a criação de pequenas empresas, plantou, ainda que contra sua vontade, a semente do capitalismo.

O objetivo é fazer uma reforma econômica no modelo da China e do Vietnã, sem qualquer reforma democrática. Esses dois países não são democráticos, mas têm economias cada vez mais capitalistas.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Raúl Castro reintroduz empresa privada em Cuba

LONDRES - Diante do colapso tardio do modelo econômico stalinista em Cuba, o presidente Raúl Castro anunciou uma iniciativa para estimular os cubanos a criarem empresas ou trabalharem como autônomos para tentar acabar com a dependência em relação ao Estado.

Em discurso na Assembleia Nacional, Raúl disse que "o governo concordou em ampliar o trabalho por conta própria como alternativa para o excesso de trabalhadores diante do número de empregos". A meta é despachar 1 milhão de ociosos do setor público.

Várias atividades microempresariais serão autorizadas e "a força de trabalho será mais flexível".

No velho jargão do capitalismo, isso significa que os empregados poderão ser demitidos pelas empresas privadas, que  vão pagar impostos sobre a venda e sobre a renda, além de uma contribuição à Previdência Social.

A nova abertura à iniciativa privada, explicou o presidente cubano, "constituti uma mudança conceitual e estrutural no interesse de preservar e desenvolver nosso sistema social, e torná-lo sustentável no futuro".

Cuba começa a seguir tardiamente o caminho trilhado pela China a partir de 1978 para se tornar a maior economia do mundo rumo ao primeiro lugar por causa de seu formidável mercado de 1,3 bilhão de pessoas.

O Vietnã iniciou sua reforma, a Doi Moi (Renovação), em dezembro de 1986, sob a liderança de Nguyen Van Linh.

Para se salvar, o socialismo adotou a economia capitalista, que o Partido Comunista da China chama de "economia de mercado socialista". Até quando pode ser chamada de socialista?

O conceito é de Deng Xiaoping, o pequeno grande líder da reforma econômica chinesa. Em declaração à Enciclopédia Britânica, Deng disse que o mercado era anterior ao capitalismo. Portanto, não era monopólio do capitalismo. Pode, assim, haver uma economia de mercado socialista.

É o teste a que Raúl se submeteu na ânsia de salvar uma economia quebrada e falida, apesar do apoio do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, hoje um dos sustentáculos do regime comunista cubano.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Chávez quer "telenovelas socialistas"

Em mais um de seus arroubos, o presidente Hugo Chávez pediu às televisões da Venezuela nesta domingo que produzam "telenovelas socialistas", alegando que "existe capitalismo demais na TV".

"Estive há pouco em Cuba", disse o caudillho venezuelano durante o programa Alô Presidente!, diante de roteiristas, diretores e produtores, "e lá eles transmitem telenovelas com conteúdo social, telenovelas socialistas".

sábado, 24 de janeiro de 2009

Bolívia deve aprovar nova Constituição amanhã

Os bolivianos votam amanhã para aprovar ou rejeitar a nova Constituição proposta pelo presidente Evo Morales para introduzir o socialismo na Bolívia. As pesquisas indicam a vitória do sim, com cerca de 55% dos votos.

Ao receber hoje uma delegação da Organização dos Estados Americanos (OEA), Morales agradeceu aos países e instituições internacionais que vão fiscalizar a votação.

A consulta popular foi convocada depois de meses de conflito entre o governo e a oposição, que governa cinco dos nove departamentos do país e exige autonomia regional.

Morales cedeu parcialmente à reivindicação de autonomia, em troca da realização do plebiscito.