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sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Jornalistas ganham Nobel da Paz por luta pela liberdade de expressão

 A jornalista filipina Maria Ressa e o jornalista russo Dimitri Andreievich Muratov ganharam hoje o Prêmio Nobel da Paz de 2021 "por seus esforços para salvaguardar a liberdade de expressão, precondição para a democracia a uma paz duradoura", anunciou há pouco em Oslo o Comitê Norueguês do Nobel. O prêmio da paz é o único que não é atribuído pela Academia da Suécia.

Os dois jornalistas "ganham o prêmio por sua luta corajosa pela liberdade de expressão nas Filipinas e na Rússia. Ao mesmo tempo, representam todos os jornalistas do mundo que defendem estes ideias em locais onde a imprensa enfrenta condições crescentemente adversas", declarou a presidente do comitê, Berit Reiss-Andersen.

"Maria Ressa usa a liberdade de expressão para expor o abuso de poder e a violência, o uso da força e o crescente autoritarismo nas Filipinas. Em 2012, ela fundou uma empresa de jornalismo digital dedicada ao jornalismo investigativo que chefia até hoje, Rappler", justificou a porta-voz do Nobel, o que lhe rendeu sete processos e acusações de calúnia, sonegação de impostos e financiamento ilegal do exterior.

Hoje, o Rappler recebe 40 milhões de visitas de 12 milhões de leitores diferentes por mês, números que dobram durante campanhas eleitorais. Em entrevista, ela atribuiu o prêmio ao "reconhecimento de como é difícil ser jornalista hoje." Antes, foi correspondente da CNN norte-americana nas Filipinas.

"Como jornalista e diretora-executiva, Ressa mostrou ser uma defensora destemida da liberdade de expressão, com foco na campanha controvertida e assassina de combate às drogas do presidente Rodrigo Duterte", lançada em 2016, explicou a presidente do comitê. É a 18ª mulher a receber o Nobel da Paz. 

"O número de mortes é tão grande", estimado pela organização direitos humanos Human Rights Watch como 8 mil até o ano passado, "que parece uma guerra civil contra seu próprio povo", comentou Reiss-Andersen. "Ressa documenta como as redes sociais são usadas para divulgar notícias falsas, intimidar oposicionistas e manipular a opinião pública.

Na Rússia, "Dimitri Muravot defende a liberdade de expressão em condições cada vez mais desafiadores. Em 1993, foi um dos fundadores do jornal independente Novaya Gazeta, que tem o último líder soviético, Mikhail Gorbachev como um dos donos, ao lado do ex-agente secreto Alexander Lebedev e dos jornalistas. 

Muratov é  editor-chefe há 24 anos do jornal, "o mais independente da Rússia hoje, com uma atitude fundamentalmente crítica diante do poder", elogiou o comitê do Nobel da Paz. 

"O jornalismo baseado em fatos e sua integridade profissional tornaram o jornal numa fonte de informação importante sobre aspectos censurados da sociedade russa raramente mencionados em outros meios. Desde sua fundação, em 1993, Novaya Gazeta publicou artigos críticos sobre temas importantes como corrupção, violência policial, prisões ilegais, fraude eleitoral, fábricas de trolagem e o uso de força militar dentro e fora da Rússia", destacou a norueguesa.

A resposta da ditadura de Vladimir Putin foi violenta: "Os adversários da Novaya Gazeta responderam com intimidações, ameaças de violência e mortes. Seis de seus jornalistas foram mortos, inclusive Anna Politkovskaya, que escreveu reportagens reveladoras sobre a Guerra da Chechênia", observou o comitê norueguês.

O jornalismo resiste, enfatizou Reiss-Andersen: "Apesar das ameaças e das mortes, o editor-chefe Muratov se nega a mudar a política de independência do jornal. Ele defende os direitos de jornalistas de escreverem como quiserem sobre o que quiserem desde que respeitem os padrões éticos e profissionais do jornalismo.

"Um jornalismo livre, independente e baseado em fatos serve para proteger contra abusos de poder, mentiras e propaganda de guerra. O Comitê Norueguês do Nobel está convencido de que a liberdade de expressão e a liberdade de informação ajudam a criar uma opinião pública informada, um pré-requisito essencial à democracia e uma proteção contra a guerra e o conflito", disse sua presidente.

"A concessão do prêmio a Maria Ressa e Dimitri Muratov tem a intenção de proteger e defender estes direitos fundamentais. Sem liberdade de expressão e liberdade de imprensa, será difícil promover com sucesso a fraternidade entre as nações, o desarmamento e uma melhor ordem internacional no nosso tempo", concluiu Reiss-Andersen. 

Na entrevista coletiva, ela sintetizou o espírito da premiação. "Não há democracia sem liberdade de expressão nem liberdade de imprensa." E refletiu sobre o paradoxo do jornalismo atual: "No mundo de hoje, temos mais informação do que nunca. Ao mesmo tempo, vemos o abuso e a manipulação da imprensa livre e do discurso público com notícias falsas."

Maria Ressa e Dimitri Muratov dividem o prêmio de 10 milhões e coroas suecas, cerca de US$ 1,15 milhão ou R$ 6,35 milhões. Na segunda-feira, será anunciado o ganhador do Prêmio Nobel de Economia, que é sempre o último.

domingo, 29 de novembro de 2020

Franceses protestam contra violência policial e "lei de segurança"

Pelo menos 133 mil pessoas, segundo a polícia, 500 mil, dizem os manifestantes, protestaram ontem em várias cidades da França contra o projeto de uma "lei de segurança" que proíbe filmar policiais em ação a pretexto de não identificá-los para grupos criminosos e terroristas. A nova lei, proposta pelo presidente Emmanuel Macron, é considerada autoritária, contra as tradições de liberdade da França. 

As manifestações ganharam força com a divulgação na quinta-feira passada de imagens de câmeras de segurança que mostraram quatro policiais espancando o jovem produtor musical negro Michel Zecler dentro de seu próprio estúdio. Todos foram afastados do serviço e estão sendo investigados. Três foram presos.

Os policiais declararam que interpelaram produtor musical porque estava sem máscara e exalava um cheiro forte de maconha. Apreenderam meio grama da erva no estúdio.

No sábado, pelo menos 46 mil pessoas marcharam pelas ruas de Paris entre a Praça da República e a Praça da Bastilha. A maior parte do protesto foi tranquila, mas houve choques entre manifestantes e a polícia, e 89 policiais saíram feridos.

O principal alvo é o projeto da Lei de Segurança Global, aprovado em primeira votação pela Assembleia Nacional na terça-feira passada. Sob esta lei, a divulgação das imagens de ações policiais seria proibida. Os outros alvos são o racismo e a violência policial.

"É o povo da liberdade que marchou em toda a França para dizer ao governo que não quer esta lei de 'segurança global', que recusa a vigilância generalizada e os drones, que quer poder filmar e divulgar as intervenções das forças da ordem", declarou a coordenação do movimento Pare a Lei de Segurança Global, organizado por jornalistas e entidades de defesa dos direitos humanos.

"Se não pudermos filmar, quem vai nos proteger contra a violência policial", reclamou Camille, uma manifestante de 23 anos.

"Esta é uma lei que se inscreve numa cadeia de constrangimentos liberticidas", afirmou Kathy ao lado de Camille.

"As leis restritivas da liberdade não param de se multiplicar", denunciou Farid Hamel, diretor da ordem dos advogados de Lyon. "Se um ditador tomar ao poder amanhã na França, terá todas as medidas jurídicas à disposição. Sob pretexto de segurança, constroem um regime que pode resvalar a todo momento para o autoritarismo."

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Brasil tem 65 mil casos novos e pandemia está fora de controle

O Imperial College de Londres adverte que a doença do coronavírus de 2019 está fora de controle no Brasil. Com um recorde de 65.339 casos novos e 1.293 mortes em 24 horas, a contaminação bate novo recorde. São quase 2,232 milhões de casos confirmados e 82.890 mortes. 

A taxa de contágio é maior em Minas Gerais e nas regiões Sul e Centro-Oeste. O estado de São Paulo, que tem o maior número de casos e de mortes registrou um recorde de 16.777 infecções num dia.

No mundo inteiro, são 15,39 milhões de casos, mais de 630 mil mortes e 9,367 milhões de pacientes curados.

Os Estados Unidos devem somar mais 1 milhão de casos em duas semanas e registraram hoje 1.127 mortes. Têm agora quase 4,1 milhão de casos confirmados e mais de 146 mil mortes. A Califórnia tem novo recorde de 12.807 casos novos num dia.

A Espanha tem 224 surtos ativos da pandemia. A região da Catalunha, no Nordeste da Espanha, registrou mais 721 casos da covid-19 nesta quarta-feira, quase três quartos em Barcelona. O outro surto é na região agrícola de Segriá, com capital em Lleida.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta para o aumento da contaminação no Sudeste da Europa. A Romênia teve um recorde de 1.030 casos novos em 24 horas, somando mais de 40 mil casos e 2.010 mortes.

Os EUA prometem quase US$ 2 bilhões, quase R$ 10 bilhões, ao laboratório Pfizer e à empresa alemã de biotecnologia CureVac para comprar 600 milhões de doses de uma vacina em desenvolvimento. As primeiras 100 milhões de doses seriam entregues ainda neste ano.

Na sua coluna no jornal britânico Financial Times, Philip Stephens argumenta que a pandemia oferece uma oportunidade para reconstruir a fé na democracia liberal. O custo humano, econômico e social é enorme. O preço será pago em longo prazo.

Os neopopulistas que surfaram na onda da Grande Recessão de 2008 estão prontos para fortalecer o autoritarismo. Mas o fracasso de líderes como Donald Trump, Boris Johnson, Narendra Modi e Jair Bolsonaro e o sucesso de regime democráticos, vários deles em países liderados por mulheres que apostaram na ciência e a razão lançam as bases para o resgage da democracia liberal um novo contrato social. Meu comentário:

terça-feira, 9 de junho de 2020

Que mundo sairá da pandemia: mais extremista ou mais solidário?

Como será o mundo pós-pandemia? Será marcado pela volta do ultranacionalismo, do autoritarismo e do extremismo, pela ascensão do neofascismo, que já mostrou sua cara depois da Grande Depressão de 2008, com forte rejeição à globalização da economia? 

Ou a sociedade internacional será mais solidária, mais confiando na ciência que foi decisiva para combater a peste, mais disposta a enfrentar as desigualdades que afloraram com a doença do coronavírus de 2019 e outros problemas como o aquecimento global? 

A aceleração da revolução tecnológica, com mais comércio eletrônico e mais trabalho em casa vai aumentar o poder do individuo ou fortalecer estados totalitários que hoje coletam até informações sobre a saúde dos cidadãos? A verdade é que não sabemos, como tanta coisa que envolve este vírus novo e desconhecido.

No último balanço mundial, o vírus infectou 3 milhões 324 mil pessoas e matou pelo menos 413 mil 733; 3 milhões 604 mil e 500 pessoas foram curadas. Dez por cento dos casos encerrados terminaram em morte. 

Os Estados Unidos têm o maior número de casos, mais de 2 milhões 45 mil e 500 e o maior número de mortos, mais de 114 mil. 

O Brasil registrou mais Mil 185 mortes em 24 horas. O total de óbitos está em 38 mil 497. Com mais de 31 mil 197 casos novos num dia, os casos confirmados no Brasil agora são 742 mil e 84. Mais de 325 mil pessoas foram curadas. Meu comentário:

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Trump tem fortes características de ditador

Autoritário, vingativo e prepotente, o presidente Donald Trump age cada vez mais como um ditador depois da absolvição no processo de impeachment. Não passa no teste da democracia. 

Quando Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos, em novembro de 2016, o jornalista Stephen Walt, da revista Foreign Policy, fez uma lista de dez perguntar para testar se um presidente eleito democraticamente se tornou um autocrata. 

Ontem, examinei as cinco primeiras questões, liberdade de imprensa, criação de sua própria rede de meios de comunicação, politização do serviço público, das Forças Armadas, da polícia e das agências inteligência, onde acendeu a luz vermelha, uso dos serviços secretos para perseguir adversários políticos, o que Richard Nixon fez e Trump não, e uso do poder do Estado para beneficiar aliados e punir adversários, o que Trump fez claramente nos últimos dias, interferindo em processos criminais para livrar amigos. 

Trump rodou em três dos cinco critérios examinados ontem e em todos hoje. Meu comentário:

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Poder popular desafia ditaduras da China e da Rússia

Apesar da ascensão do populismo e do neofascismo em países com longa tradição democrática, a democracia liberal está viva. As duas grandes potências que desafiam a democracia liberal enfrentam revoltas nas ruas e não tem outra resposta a não ser a repressão violenta.

O grande dilema do século 21 não é mais entre direita e esquerda. Em todas as democracias, o espectro político vai da extrema direita à extrema esquerda. O dilema é entre sociedades abertas e regimes políticos fechados.

Em entrevista recente ao jornal inglês Financial Times, o ditador russo, Vladimir Putin, anunciou a morte da democracia liberal. Mas, enquanto a Rússia moderniza seu arsenal nuclear para manter o status de grande potência, a maior ameaça a Putin vem de seu próprio povo.

Em Hong Kong, são os chineses que lutam para manter o sistema liberal e a sociedade aberta na antiga colônia britânica diante da interferência cada vez maior do regime comunista da China. Meu comentário:

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Sociedade civil luta pela democracia liberal na Europa Central e Oriental

A defesa do liberalismo político vem de onde não se esperava: 30 anos depois da queda do Muro de Berlim e do fim do comunismo, uma nova revolução defende a democracia e a liberdade na Europa Central e Oriental. Movimentos da sociedade civil rejeitam a volta do autoritarismo.

Mesmo quando fracassarem, esses grupos se tornarão uma força política que os governos da região terão de levar em conta. Ao mesmo tempo, a emergência de novas forças de oposição vai contribuir para a instabilidade política crescente e o risco político na região.

Na República Tcheca, na Eslováquia, na Romênia e na Albânia, multidões estão saindo às ruas para exigir transparência dos governos, observa a empresa de consultoria e análise estratégica americana Stratfor.

Os resultados ainda são poucos. Os governos, especialmente da Hungria e da Polônia, adotaram discursos e política ultranacionalistas, de extrema direita, atacam a independência do Poder Judiciário e as liberdades públicas. 

A União Europeia advertiu a Hungria, a Polônia e a Romênia a respeitar as liberdades democráticas, a parar de sufocar a mídia crítica aos governos, e a respeitar a independência do Judiciário – e ameaçou tomar medidas punitivas. 

Enquanto a União Europeia se preocupa, a sociedade civil luta para garantir as conquistas das revoluções liberais que abriram a Cortina de Ferro e derrubaram o comunismo em 1989. Será um elemento importante para evitar o aprofundamento do fosso entre as Europas Ocidental e Oriental. Meu comentário:

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Rússia proíbe participação de menores em manifestações de protesto

Em mais uma medida autoritária, o ditador Vladimir Putin sancionou lei que proíbe a presença de menores de idade em manifestações de protesto não autorizadas na Rússia, noticiou hoje o jornal The Moscow Times. Os responsáveis pelos protestos que envolvam menores podem ser punidos.

O principal alvo da lei é o principal líder da oposição na Rússia, o advogado, blogueiro e militante anticorrupção Alexei Navalny. A maioria de seus seguidores é de jovens, inclusive menores, atraídos por sua pregação nas redes sociais.

Mais de 1,6 mil pessoas, entre elas adolescentes, foram detidas numa manifestação convocada por Navalny para protestar contra a posse de Putin para um quarto mandato presidencial. A reação dos deputados subservientes ao ditador foi proibir a participação da juventude em protestos.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Oposições resistem a nova lei de partidos na Tanzânia

Em protesto contra o autoritarismo do presidente John Mugufuli, os partidos de oposição da Tanzânia, um país do Leste da África, resistem a uma nova lei de partidos políticos que dá imunidade ao responsável pelo registro dos partidos, nomeado pelo chefe de estado, noticiou ontem o boletim Africa News.

O projeto de lei foi apresentado pouco depois que a União Europeia decidiu rever suas relações com a Tanzânia com base numa resolução do Parlamento Europeu de 13 de dezembro de 2018 condenando violações dos direitos humanos cometidas no país.

A UE é a maior aliada da Tanzânia na promoção do desenvolvimento. Qualquer decisão de reduzir os direitos e a autonomia dos partidos políticos será repudiada pelo bloco europeu, agravando a crise nas relações com o país africano.

Desde que chegou ao poder, em 2015, o presidente Mugufuli faz uma campanha de combate à corrupção. Ao mesmo tempo, mostrou-se autoritário. Não aceita o dissenso. As liberdades sexual, de expressão e de imprensa foram reduzidas.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Presidente da Tanzânia elogia China por ajuda incondicional

Sob pressão do Ocidente por violar os direitos humanos, o presidente John Magufuli elogiou a china como um país amigo por fazer investimentos e conceder empréstimos sem impor condições nem interferir nas questões políticas internas da Tanzânia, noticiou hoje a agência Bloomberg.

Depois que vários países suspenderam a ajuda à Tanzânia por causa da sua guinada autoritária, Magufuli declarou que não depende mais da Europa. A localização estratégica  no Leste da África, com litoral no Oceano Índico, torna o país mais atraente e mais suscetível à influência chinesa.

A Dinamarca cortou a ajuda por causa de comentários homofóbicos de um alto funcionário. A União Europeia está reexaminando as relações com o país e o Banco Mundial congelou um empréstimo educacional de US$ 300 milhões depois que meninas grávidas foram proibidas de frequentar a escola. Mas o regime comunista da China vê na Tanzânia um parceiro e ajuda no desenvolvimento do porto de Bagamoyo.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Obama critica Trump em homenagem a Mandela

Ao dar hoje a Aula Anual Nelson Mandela, na véspera do centenário de nascimento do herói negro sul-africano, em Joanesburgo, na África do Sul, o ex-presidente americano Barack Obama criticou indiretamente seu sucessor, Donald Trump, ao citar “aqueles que no poder procuram minar toda norma e instituição que dá sentido à democracia.”

Obama advertiu que, “de repente, a política do homem-forte está em ascensão, em que as eleições e uma pretensa democracia são mantidas, na forma.” Nestes tempos “estranhos e incertos”, acrescentou, “a cada dia, um novo ciclo de notícias traz mais manchetes perturbadoras e de virar a cabeça”.

“A política do medo, do ressentimento e da retração começou a aparecer e está em ação num ritmo que seria inimaginável dois anos atrás”, afirmou Obama. “Não estou sendo alarmista. Estou falando de fatos.”

Sem citar Trump, criticou o protecionismo econômico, a negação da mudança climática e o fechamento da fronteira. É possível cumprir a lei, argumentou Obama, sem desrespeitar e dividir famílias, como o atual governo dos Estados Unidos: “Quando se lida com crianças, temos de pensar nas nossas famílias.”

Outra crítica foi à mentira como forma de fazer política: “Assistimos ao desaparecimento total da vergonha pelos dirigentes políticos. Quando são pegos em flagrante mentira, mentem ainda mais.”

De acordo com o jornal sul-africano Mail & Guardian, Obama citou três lições de Mandela: “a igualdade econômica, o valor do indivíduo e a importância da democracia”. O presidente americano concluiu: “Madiba [Nelson Mandela] nos mostrou que aqueles que acreditam na democracia e na igualdade econômica devem lutar ainda mais.”

terça-feira, 12 de junho de 2018

RÚSSIA: transição pós-comunismo foi caótica

 O maior desafio do governo Boris Yeltsin era fazer a transição para a economia de mercado. A Guerra Fria não acabara com a derrota militar da URSS, mas uma derrota ideológica, econômica e sobretudo tecnológica. A incapacidade das reformas de Gorbachev de mudar levara ao colapso total da pátria do comunismo.
Em 1991, o produto interno bruto caiu em um sexto e o déficit orçamentário chegou a 25% do PIB. O governo Gorbachev tinha imprimido dinheiro para subsidiar a produção num momento de queda na arrecadação.
No início de 1992, Yeltsin anuncia um programa radical de desestatização e liberalização da economia. Os preços disparam. A transição gera inflação, recessão, desemprego e o colapso da máquina do Estado. Grupos mafiosos formados por ex-agentes e policiais vendem proteção a empresários. Burocratas do partido se aproveitam para fazer fortuna com as privatizações.
A terapia de choque causou uma queda de 50% no PIB e na produção industrial de 1990-95. Os serviços públicos entraram em colapso. A taxa de pobreza passou de 1,5% na era soviética para 49% em 1993.
No verão de 1993, em plena crise econômica, Yeltsin tentou reformar a Constituição, mas encontrou resistência do presidente do Soviete Supremo da Rússia, Ruslan Khasbulatov, a Esfinge Chechena.
Por ordem de Yelstin, em 4 de outubro, o Exército bombardeou a Casa Branca, sede do parlamento da Rússia. Vencida a resistência a ferro e fogo, em dezembro de 1993, um referendo aprovou uma nova Constituição.

PRIMEIRA GUERRA DA CHECHÊNIA

Desde o colapso da URSS, em 1991, havia uma revolta nacionalista muçulmana na república russa da Chechênia, no Norte do Cáucaso. Em 31 de dezembro de 1994, o governo Yeltsin decidiu impor o controle sobre a região.
A Primeira Guerra da Chechênia acabou em 31 de agosto de 1996 depois de um ano, oito meses, duas semanas e dois dias com a vitória dos rebeldes, a morte de 5.732 soldados russos, de até 15 mil militantes chechenos e 100 mil civis.

YELTSIN REELEITO

Em 1996, Yeltsin foi reeleito em segundo turno contra o candidato comunista Guenadi Ziuganov. Gorbachev obteve 0,5% no primeiro turno, um final melancólico para a carreira política do principal responsável pelo fim da Guerra Fria.
No ano seguinte, a Rússia faz uma parceria estratégica com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a aliança militar liderada pelos EUA, para permitir a entrada de países do antigo bloco comunista. Em troca, entra para o Grupo dos Oito (EUA, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Canadá e Rússia), de onde seria excluída depois da anexação da Ucrânia.

SEGUNDA GUERRA DA CHECHÊNIA

Uma invasão de guerrilheiros islâmicos na república do Daguestão atribuída a Chamil Bassaiev, um dos senhores da guerra na Chechênia, e atentados mal esclarecidos em Moscou levaram a Rússia a iniciar a Segunda Guerra da Chechênia. O conflito lançou o primeiro-ministro Vladimir Putin, que sucederia Yeltsin.
Os combates foram de 26 de agosto de 1999 até maio de 2000, quando começa uma fase de guerra de guerrilhas que vai até abril de 2009, com total de mortos de pelo menos 7.217 do lado do governo e de 16.299 rebeldes, além de pelo menos 54.402 civis.
É um conflito brutal distante das câmeras porque é território proibido para jornalistas.

ERA PUTIN

Com o prestígio auferido na guerra, Putin é eleito presidente no primeiro turno com 53% dos votos em março de 2000, beneficia-se da recuperação dos preços do petróleo e se dedica a tentar pôr ordem no caos da transição pós-soviética.
Para o novo homem-forte da Rússia, “o fim da URSS foi o maior desastre geopolítico do século 20”. Seu trabalho então é resgatar pelo menos um pouco do poder imperial soviético. 
Putin adotou o hino e vários símbolos do poder soviético. Tratou de restabelecer o controle estatal sobre o setor de energia e estatizou a Gazprom, que usa para pressionar países vizinhos e a União Europeia, que importa da Rússia 25% do gás que consome.

TERRORISMO

Além de ataques terroristas a um teatro e ao metrô de Moscou, em setembro de 2004, extremistas muçulmanos tomaram uma escola primária em Beslã, na Ossétia do Norte, matando 330 pessoas, inclusive 186 crianças. Bassaiev foi acusado. Ele morreu em 2006.
Sem poder concorrer a um terceiro mandato consecutivo, em 2008, Putin indica Dimitri Medvedev. Eleito com 70% dos votos, Medvedev sempre foi considerado o segundo de Putin, que voltou ao poder em maio de 2012, devolvendo o cargo de primeiro-ministro ao fiel aliado.

AUTORITARISMO

A maior crítica a Putin é a volta do autoritarismo. Ele suprimiu as eleições para governadores das 83 unidades administrativas da Federação Russa, censurou a imprensa, perseguiu empresários que financiavam a oposição, como Mikhail Khodorkovsky e Boris Berezovski, que se matou no exílio na Inglaterra, e jornalistas. Ativistas dos direitos humanos foram mortos em casos não esclarecidos.
Um dos casos mais notórios foi da jornalista Anna Politkovskaya, morta ao chegar em casa em 7 de outubro de 2006 depois de fazer inúmeras denúncias sobre violações dos direitos humanos na Chechênia e no livroA Rússia de Putin, extremamente crítico. 
Em 15 de julho de 2009, foi a vez da ativista Natalia Estemirova, principal defensora dos direitos humanos na Chechênia.

GUERRA DE ESPIÕES

Depois de encontrar dois ex-colegas num hotel em Londres, em 1º de novembro de 2006, o ex-espião russo Alexander Litvinenko passou mal, procurou um hospital. Quando contou que acreditava ter sido envenenado, primeiro chamaram um psiquiatra. Em 23 dias, ele agonizou diante das câmeras até morrer intoxicado por Polônio-210, um elemento radioativo que só países com alguma capacidade nuclear são capazes de processar.
Os ex-colegas, Andrei Lugovoi e Dimitri Kovtun, prometiam informações exclusivas sobre o assassinato de Politkvskaya. Litvinenko era ligado ao oligarca Boris Berezovski, que havia caída em desgraça com Putin.
Lugovoi virou deputado da Duma do Estado, a câmara dos deputados do Parlamento da Rússia. Há dois meses, comentou na televisão o caso mais recente.
Em 5 de março de 2018, o ex-agente Serguei Skripal e sua filha foram encontrados desacordados numa praça em Salisbury, no interior da Inglaterra. Eles acabaram sobrevivendo, mas o governo britânico protestou energicamente. Mais de 130 diplomatas russos foram expulsos por mais de 25 países e pelo próprio Reino Unido. A Rússia respondeu na mesma medida, expulsando mais de 120 diplomatas dos mesmos países.

GUERRA COM A GEÓRGIA

No dia de abertura da Olimpíada de Pequim, 8 de agosto de 2008, a ex-república soviética da Geórgia atacou a capital da Ossétia do Sul na expectativa de reassumir o controle de territórios ocupados por rebeldes ligados a Moscou.
A Rússia reagiu com força muito superior e esmagou a Geórgia em nove dias em apoio aos rebeldes das regiões da Abecásia e da Ossétia do Norte. Pelo menos 659 pessoas foram mortas.
O ataque, embora provocado pelo presidente georgiano Miheil Saakachvili, foi uma resposta da Rússia às ex-repúblicas soviéticas que, depois das revoluções Rosa na Geórgia em 2003 e Laranja na Ucrânia em 2004, tentaram se associar à OTAN, a aliança militar liderada pelos EUA. Com o fim da Guerra Fria e do comunismo na Europa Oriental, a OTAN chegou às fronteiras russas, ressuscitando o antigo medo do cerco.
Sob Putin, fortaleceu-se o conceito de “exterior próximo”, referência às ex-repúblicas soviéticas, o antigo império interior soviético, em contraste com o antigo império exterior soviético, o antigo Bloco Soviético. 
A Rússia considera o “exterior próximo” sua esfera de influência política e militar, uma das razões da intervenção na Ucrânia.

SOCIEDADE CIVIL

Desde que as oposições rejeitaram o resultado das eleições parlamentares de dezembro de 2011, Putin tenta esvaziar os movimentos de protestos da sociedade civil. Censurou a Internet, baixou uma lei que acusa o movimento gay de fazer propaganda criminosa do homossexualismo e processou o blogueiro dissidente Alexey Navalny, impedindo-o de se candidatar à Presidência.
Por suspeitar da influência dos EUA na mobilização da sociedade civil russa, Putin responsabilizou a então secretária de Estado americana, Hillary Clinton, pela onda de manifestações e decidiu lutar contra sua ascensão à Casa Branca.
A condenação das roqueiras da banda punk Pussy Riot por gravar um clipe anarquista em tom de arruaça na Catedral de Moscou e a prisão de ativistas do Greenpeace que protestavam contra a exploração de petróleo no Oceano Ártico, inclusive de uma brasileira, fazem parte da estratégia de Putin de sufocar a sociedade civil e qualquer tipo de dissenso, como a Tcheka, o NKVD e o KGB faziam no passado. 
Putin não está preocupado com a opinião pública internacional liberal. Apela ao machismo da cultura nacionalista russa, às gangues que espancam homossexuais e atacam paradas gays, à desconfiança histórica em relação aos estrangeiros e à crueldade da Justiça da Rússia.

REVOLUÇÃO NA PRAÇA

Em 21 de novembro de 2013, multidões saíram às ruas de Kiev em protesto contra a decisão do presidente Viktor Yanukovich de suspender, sob pressão de Moscou, as negociações de um acordo de associação da Ucrânia à União Europeia.
Quando os manifestantes acamparam na Praça Maidã, foram violentamente atacados pela repressão governamental em 30 de novembro. No dia 11 de dezembro, com a temperatura a -13º C, a polícia tentou esvaziar a praça.
Pelo menos 113 pessoas morreram e mais de mil saíram feridas em violentos confrontos até a renúncia e fuga de Yanukovich, em 22 de fevereiro.
A Rússia não aceitou a mudança de governo. Alegou se tratar de um regime ilegítimo. Com os soldados russos da Frota do Mar Negro estacionados em Sebastopol, na Península da Crimeia, iniciou uma rebelião que levou a um plebiscito para aprovar a transferência da Crimeia para a Rússia, realizado em 16 de março de 2014.
No dia seguinte, o Parlamento da Rússia aprovava a anexação da Crimeia. No início de abril, começava uma rebelião de russos étnicos contra o governo central da Ucrânia no Vale do Rio Dom, no Leste do país, com apoio do Kremlin.
Desde então, cerca de 10 mil pessoas morreram e o conflito armado ainda não acabou. Em resposta à anexação ilegal de um território que pertencia à Ucrânia, os EUA e a União Europeia impuseram sanções à Rússia.
O clima entre a Rússia e o Ocidente é o pior desde a Guerra Fria. Bombardeiros russos voltaram a invadir ameaçadoramente o espaço aéreo de países da OTAN. Antes da eleição de março de 2018, Putin anunciou o desenvolvimento de um míssil nuclear “invencível”. Não impressionou os especialistas.

INTERVENÇÃO NA SÍRIA

Quando o então presidente americano Barack Obama hesitou em atacar a Síria, depois do ataque do governo com armas químicas em Guta que matou 1.421 pessoas em 21 de setembro de 2013, Putin propôs o desarmamento das armas químicas da ditadura de Bachar Assad.
Obama aceitou o acordo e Assad voltou a atacar civis com agentes tóxicos. Quando estava ameaçado, a Força Aérea da Rússia entrou na guerra, a partir de 30 de setembro de 2015, a pretexto de “combater o terrorismo”, mudou o rumo da guerra. Hoje, Assad controla as principais cidades e quase todo o território sírio.
A Rússia usa três bases militares na Síria, ajudou Assad a acobertar um ataque de armas químicas à cidade de Duma, na periferia de Damasco, em 7 de abril de 2018, com pelo menos 70 mortes. Estará no centro de qualquer negociação sobre o fim de uma guerra que matou 500 mil pessoas e fez 5,5 milhões fugirem da Síria.
Nas duas vezes em que atacou instalações militares sírias em retaliação e ataques químicos, o atual presidente americano, Donald Trump, avisou os russos. Mas há um novo risco de conflito entre as superpotências por causa da belicosidade crescente entre Israel, apoiada pelos EUA, e o Irã, apoiado pela Rússia.

ELEIÇÕES NOS EUA

Para agravar ainda mais a tensão com os EUA, a Rússia foi acusada de deflagrar uma verdadeira guerra cibernética para influenciar as eleições nos EUA, com a preocupação central de impedir a vitória da candidata democrata, Hillary Clinton.
A Rússia pirateou 44 mil mensagens de correio eletrônico da campanha do Partido Democrata e deixou vazar pelo WikiLeaks. Uma agência de produção de notícias falsas do serviço secreto da Rússia com sede em São Petersburgo.
Em 2014, a Agência de Pesquisas na Internet, um braço de espionagem eletrônica do governo russo com sede em São Petersburgo, iniciou as ações de sabotagem às eleições dos EUA.  Só com propaganda no Facebook, gastou US$ 100 mil, atingindo 126 milhões de americanos. No Twitter, foram identificados cerca de 3,8 mil perfis falsos e 50 mil robôs ligados à operação russa.
O procurador especial Robert Mueller, encarregado de investigar um possível conluio do Kremlin com a campanha de Trump, denunciou 13 cidadãos e três empresas russas, além de vários assessores da campanha de Trump, entre eles o coordenador, Paul Manafort.

MAIS PODEROSO?

No plano internacional, Putin foi considerado o homem mais poderoso do mundo por ter evitado um bombardeio dos EUA à Síria para punir a ditadura de Bachar Assad por usar armas químicas na guerra civil do país, intervir na Ucrânia e na guerra civil síria e dar asilo ao ex-agente americano Edward Snowden, que denunciou um vasto esquema de espionagem eletrônica do governo dos EUA. 
Na época, a revista Forbes o indicou para mostrar a fraqueza do segundo colocado, Barack Obama.
Sob Putin, a Rússia fortaleceu seu poderio militar e voltou a ser grande exportadora de armas, mas o sucesso a longo prazo depende de uma economia moderna, aberta e desenvolvida para a qual o autoritarismo de Putin não ajuda.

ORÇAMENTO MILITAR

A forte redução nos gastos militares, de 20% no ano passado, para US$ 63 bilhões, nove vezes menor do que o dos EUA, indica problemas para cumprir um ambicioso plano de modernização das Forças Armadas.
Com os cortes orçamentários, o Programa de Armamentos do Estado (2018-25)  não conseguirá modernizar 70% das Forças Armadas até 2020.
A Marinha não foi modernizada desde o fim da URSS, em 1991. O único porta-aviões russo, o Almirante Nuznetsov, é de 1985. Em maio do ano passado, o vice-primeiro-ministro Dimitri Rodozin, encarregado da indústria bélica, admitiu que, ao contrário dos EUA, a Rússia não é uma potência naval.
Desde a Guerra Fria, a Marinha de superfície é uma força auxiliar da frota de submarinos, o setor da força naval a ser poupado dos cortes.
O mecanismo de dissuasão nuclear da Rússia se assenta num tripé: mísseis baseados em terra, aviões bombardeiros estratégicos e mísseis balísticos lançados de submarinos.
Na Força Aérea, o Kremlin deve investir em grandes aviões de transporte e caças-bombardeiros, com foco no aperfeiçoamento dos aviões atuais, em vez de comprar modelos de última geração como o avião de combate invisível aos radares T-50.

RELAÇÕES COM O BRASIL

Como um país gelado que sempre sonhou com uma saída para um mar de águas tépidas, o Rio de Janeiro e o Brasil são idealizados no imaginário russo como paraísos tropicais. A expressão “não é um Rio de Janeiro” significa que algo não é o máximo. O Rio de Janeiro é o paraíso tropical sonhado.
No século passado, as relações entre os dois países foram marcadas pela Guerra Fria. O Partido Comunista Brasileiro foi fundado em 1922, pouco depois da Revolução Russa.
A URSS fomentou a Intentona Comunista de 1935, sob a liderança do PCB e de Luiz Carlos Prestes, que serviu de pretexto para o endurecimento do governo de Getúlio Vargas e a implantação da ditadura do Estado Novo, em 1937.
Muitos comunistas brasileiros costumavam fazer cursos ou se exilar na URSS em caso de necessidade.
Atualmente, os dois países têm acordos de cooperação nos setores de tecnologia espacial, militar e de telecomunicações. Ambos integram o grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), um fórum informal que reúne grandes economias emergentes.

COMÉRCIO BILATERAL

Praticamente a metade do que o Brasil exporta para a Rússia é carne, de boi, frango ou porco. Também vende açúcar, café, grãos e preparações alimentícias diversas. 
A Rússia exporta principalmente fertilizantes, produtos petroquímicos, alumínio, ferro fundido e máquinas elétricas. 
Neste ano, de janeiro a maio, o Brasil importou US$ 1,05 bilhão e exportou US$ 1,08 bilhão.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

O que é o fascismo?, na visão de Umberto Eco

O termo fascista pode ser usado genericamente nas mais diferentes situações porque é possível eliminar um ou mais aspectos de um regime fascista e ainda assim caracterizá-lo como tal, afirmou o escritor e filósofo italiano Umberto Eco (1932-2016). 

Os regimes totalitários que dominaram a Europa antes da Segunda Guerra Mundial não devem reaparecer com a mesma forma em circunstâncias históricas diferentes, entende Eco. Mas, com as crises econômica e de refugiados, e o ressurgimento do ultranacionalismo, o fantasma do neofascismo assombra a Europa, os Estados Unidos sob Donald Trump e os debates políticos nas redes sociais no mundo inteiro.

“O fascismo de Benito Mussolini era baseado no líder carismático, no corporativismo e na ideia do ‘destino fatídico de Roma’, na vontade imperialista de conquistar novas terras, no nacionalismo inflamatório, no ideal de uma nação inteira de camisas-pretas mobilizados, na rejeição da democracia parlamentar e no antissemitismo”, descreveu o pensador italiano.

Em Cinco Escritos Morais, publicado no Brasil em 2002, Eco considera os partidos sucessores do fascismo na Itália muito diferentes do Fascismo original: “Admito que a Aliança Nacional, que surgiu do Movimento Social Italiano (MSI), é um partido de direita, mas tem pouco a ver com o velho Fascismo”, comparou o intelectual.

“Da mesma forma, muito embora eu esteja preocupado com os vários movimentos pró-nazistas ativos aqui e ali na Europa, inclusive na Rússia, não penso que o Nazismo, em sua forma original, esteja para reaparecer como um movimento envolvendo uma nação inteira”, observa o escritor, autor de clássicos como O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault.

Esses regimes desapareceram com a derrota na Segunda Guerra Mundial. Suas ideologias foram "criticadas e deslegitimadas”. Mas “atrás de um regime e sua ideologia, há uma maneira de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e impulsos insondáveis”.

O escritor romeno Eugène Ionescu, mestre do teatro do absurdo, dizia que só as palavras contam e o resto é conversa fiada. “Os hábitos linguísticos com frequência são sintomas de sentimentos não expressados”, ponderou o autor.

Eco foi educado na Juventude Fascista. Conheceu o fascismo antes da liberdade. Aos dez anos, em 1942, ganhou um prêmio por escrever uma redação sob o tema Devemos Morrer pela Glória de Mussolini e o Destino Imortal da Itália? Sua resposta foi sim, em estilo exaltação.

No ano seguinte, ele descobriu o sentido da palavra liberdade. O regime fascista caiu em 1943, mas foi restaurado pelos nazistas. “Passei dois anos da minha juventude cercado pelas tropas de elite nazistas das SS, por fascistas e por guerrilheiros da resistência atirando uns nos outros - e aprendi a evitar as balas.”

A vitória na Segunda Guerra Mundial foi definida pelo presidente americano, Franklin Delano Roosevelt, como a derrota do Fascismo e do totalitarismo que encarnava.

Na opinião de Eco, o livro de Hitler “Mein Kampf (Minha Luta) é um manifesto completo e um programa político. O Nazismo tinha uma teoria da raça e do arianismo, uma noção precisa de arte degenerada, uma filosofia da vontade de poder e do Super-Homem.

“O Nazismo era decididamente anticristão e neopagão, assim como o materialismo dialético de Stalin (a ideologia oficial do marxismo soviético) era claramente materialista e ateísta”, acrescentou o pensador.

“Mussolini não tinha filosofia: tudo o que tinha era retórica. Começou como um militante ateísta para depois fazer um acordo com a Igreja e um consórcio com os bispos que benziam bandeiras nazistas", recordou. “O fascismo italiano foi a primeira ditadura de direita a dominar um país europeu, o primeiro a criar uma liturgia militar, um folclore e até um estilo de vestuário.”

Além da Itália e da Alemanha, nos anos 1930s o movimento fascista chegou a Inglaterra, Estônia, Lituânia, Letônia, Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Grécia, Iugoslávia, Portugal, Espanha, Noruega e à America Latina. O fascismo prometeu mudanças sociais capazes de neutralizar a ameaça comunista.

“O fascismo não tem quintessência, não tem mesmo uma simples essência. É uma forma de totalitarismo difusa. Não é uma ideologia monolítica, mas mais uma colagem de diversas ideias políticas e filosóficas, um emaranhado de contradições”, argumentou Eco.

“É possível conceber um movimento totalitário que consiga reconciliar monarquia e revolução, o Exército Real e a milícia privada de Mussolini, os privilégios concedidos à Igreja e um sistema estatal de educação que exaltava a violência, o controle total e o livre mercado?”, pergunta o filósofo. E arremata: “O Partido Fascista nasceu proclamando uma nova ordem revolucionária, mas era financiado pelos proprietários de terras mais conservadores”, temerosos do comunismo.

Na Itália, até uma corrente artística de vanguarda, o futurismo, apoiou o Fascismo e seu culto da juventude. “Isso não significa que o Fascismo italiano fosse tolerante”, ressalva Umberto Eco. O filósofo e intelectual comunista Antonio “Gramsci ficou na prisão até sua morte”. O deputado socialista Giacomo “Matteotti e os irmãos Rosselli foram assassinados, a imprensa livre suprimida, os sindicatos dissolvidos e os presos políticos confinados em ilhas distantes.”

Apesar desta confusão, Eco considera possível fazer uma lista das características do que chama de “fascismo eterno”. Muitas são exclusivas, outras são típicas de outras formas de despotismo e fanatismo.

1.     A primeira característica do fascismo eterno é o culto da tradição. O tradicionalismo é anterior ao fascismo. Foi típico na reação do catolicismo à Revolução Francesa. A verdade já foi divulgada de uma vez por todas. Só cabe aos homens reinterpretar sua mensagem obscura.

2.     O tradicionalismo implica a rejeição ao modernismo. Tanto Nazistas quanto Fascistas cultuavam a tecnologia, mas o Nazismo é baseado em “sangue e solo”. O Iluminismo e a Idade da Razão eram vistos como a origem da depravação do mundo moderno.

3.     A irracionalidade leva ao culto da ação pela ação. A ação é bonita em si mesma. Deve ser implementada antes de qualquer reflexão. O pensamento emascula. A cultura é suspeita. “Quando ouço falar em cultura, puxo meu revólver”, diz uma frase atribuída ao ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels. Outras expressões derrogatórias são “malditos intelectuais”, “cabeças de ovo”, “radicais esnobes”, “as universidades são um antro de comunistas”. A suspeição sobre a vida intelectual sempre foi um sintoma do fascismo eterno. Os intelectuais oficiais fascistas acusavam a cultura moderna e a intelligentsia liberal de abandonar os valores tradicionais.

4.     Nenhum autoritarismo pode aceitar a crítica. O espírito crítico faz distinções, um sinal da modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica vê o dissenso como uma maneira de promover o avanço do conhecimento. Para o fascismo, o dissenso é uma traição.

5.     O dissenso é acima de tudo um sinal de diversidade. O fascismo busca um consenso explorando e exacerbando o medo natural do diferente. Seu primeiro movimento é contra supostos invasores e traidores da tradição. O fascismo é portanto essencialmente racista.

6.     O fascismo nasceu da frustração social e individual. Apela às classes médias frustradas, inquietas por causa de alguma crise econômica, da humilhação política e da ameaça vinda de baixo. “Nos nossos dias, quando os velhos proletários se tornam pequenos burgueses, o fascismo vai encontrar audiência nesta nova maioria.”

7.     ultranacionalismo é um elemento central do fascismo. Para quem não tem uma identidade social, o fascismo vai dizer que único privilégio é ter nascido naquele país. Em muitos casos, a identidade nacional é construída em oposição a um inimigo. Na raiz da psicologia do fascismo, está a obsessão com conspirações, de preferência internacionais. Os militantes devem se sentir como se estivessem cercados. Os judeus foram os bodes expiatórios durante séculos. Com o terrorismo, os muçulmanos viraram o alvo predileto dos neofascistas e, mais recentemente, os refugiados e imigrantes.

8.     Os militantes devem se sentir humilhados pela riqueza e o poder do inimigo. O inimigo é alternadamente muito forte ou muito fraco. Eco acreditava que “os regimes fascistas estão condenados a perder suas guerras porque são constitucionalmente incapazes de avaliar objetivamente a força do inimigo.”

9.     O fascismo não é uma luta pela vida, é “uma vida para a luta”. A vida é uma guerra permanente. Assim, o pacifismo é visto como uma rendição ao inimigo. Como o inimigo precisa ser derrotado, tem de haver uma última batalha ou solução final, o nome que os nazistas deram ao genocídio dos judeus. Depois, viria uma época de paz e prosperidade, o que contradiz o princípio da guerra permanente. Nenhum líder fascista foi capaz de resolver esta contradição e a era dourada nunca chegou.

10.  O elitismo é típico de todas as ideologias reacionárias, constatou Umberto Eco. É aristocrático, o que implica um desprezo pelos fracos. O fascismo criou um “elitismo popular”: cada indivíduo pertence ao melhor povo do mundo, os membros do partido são os melhores cidadãos deste povo e todo cidadão pode se tornar membro do partido. Como não pode haver patrícios sem plebeus e o poder foi conquistado à força, o poder do líder depende da fraqueza das massas, que merecem um “dominador”, argumentou o filósofo. Como o regime e o partido são organizados por hierarquia de inspiração militar, cada subordinado olha de cima para baixo para seus inferiores.

11.  Todos são treinados para virar heróis. Na mitologia, os heróis são seres excepcionais. No fascismo, o heroísmo é a norma. O culto do heroísmo leva ao culto da morte. “Viva a morte!”, como bradavam os falangistas espanhóis liderados pelo generalíssimo Francisco Franco. A morte é a maior recompensa para uma vida heroica.

12.  Como a guerra permanente e o heroísmo são tarefas difíceis demais, os fascistas reorientam sua vontade política para outras questões, como o comportamento sexual. O fascista é intrinsecamente machista. Despreza as mulheres e condena sem qualquer tolerância relações não heterossexuais, da castidade à homossexualidade.

13.  O fascismo se baseia no “populismo quantitativo”. Numa democracia, os cidadãos têm direitos individuais, mas o conjunto dos cidadãos organizados tem um impacto muito maior. No fascismo, os indivíduos não têm direitos. O povo é uma entidade monolítica que expressa uma “vontade coletiva”. Como em grandes coletividades, as opiniões divergem e não há uma vontade comum, cabe ao líder “interpretrar” os desejos do povo, que tem uma presença meramente teatral. Eco advertiu para o risco de “pesquisas qualitativas de TV” e do “populismo via Internet”, em que a reação emocional de um grupo seleto seja apresentada como a “voz do povo”. O Fascismo era contra os “governos parlamentares corruptos”. Toda vez que se coloca em dúvida a legitimidade do Parlamento porque não reflete mais a “voz do povo” há um viés autoritário e antidemocrático do líder que procura o contato direto com as massas.

14.  O fascismo usa a novilíngua. A palavra foi inventada pelo escritor britânico George Orwell no livro 1984. Era a língua oficial de uma ditadura instalada através da televisão, que espionava as casas de todos e mudava o sentido das palavras no "duplipensar", de acordo com a vontade do supremo líder, o Grande Irmão, que inspirou o programa de TV BBB. “Todos os textos acadêmicos fascistas e nazistas são baseados num vocabulário pobre e numa sintaxe elementar, com o objetivo de limitar os instrumentos disponíveis para um raciocínio crítico complexo.” A novilíngua, alertou o pensador italiano, também está em outras linguagens, inclusive na TV.

Quando o fascismo caiu e Mussolini foi preso, em 27 de julho de 1943, Eco começou a descobrir que a Itália tinha vários partidos políticos e voltaram direitos fundamentais: as liberdades de expressão, de imprensa e de associação para fins pacíficos. A Alemanha ainda tirou Mussolini da prisão e instalou um regime-fantoche sob o comando do Duce, a República Social Italiana, em áreas sob o controle nazista no Norte da Itália. Mas a liberdade estava a caminho.

“Renasci como um homem livre ocidental”, lembrava Umberto Eco. Mas, advertiu, “o fascismo eterno ainda ronda, às vezes em trajes civis” e “pode voltar sob os mais inocentes disfarces”. “Não podemos esquecer.”

quarta-feira, 11 de março de 2015

Maduro pede mais poderes para enfrentar "ameaça imperialista"

Sob o pretexto de se defender de uma "ameaça imperialista" depois que o presidente Barack Obama decretou sanções contra sete altos funcionários da Venezuela acusados de violar os direitos humanos, o presidente Nicolás Maduro pediu ontem à Assembleia Nacional que aprove uma "lei habilitante" para governar por decreto.

A medida é totalmente desnecessária porque o governo tem uma maioria dócil no parlamento. É mais uma etapa no endurecimento de um regime político falido que colocou um país que nada em petróleo numa situação econômica crítica, com a maior inflação do mundo, de 70% ao ano, e desabastecimento de produtos básicos, de leite, carne e farinha a medicamentos, fraldas e até papel higiênico.

Em vez de mudar a política econômica fracassado, Maduro, herdeiro do finado caudilho Hugo Chávez, aumenta a repressão a seus adversários políticos. O período de duração deste estado de exceção será definido pela Assembleia Nacional. Em 2013, foi de um ano.

Diante da impopularidade de Maduro, que conta com apenas 20% de aprovação, a ameaça externa pode ser uma boa desculpa para adiar as eleições parlamentares previstas para este ano.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Argentina: autoritarismo frustrou desenvolvimento

Com 2,78 milhões de quilômetros quadrados, a República Argentina é o segundo maior país da América Latina, atrás apenas do Brasil, e o oitavo maior do mundo. Vai das planícies quentes do Chaco e da Mesopotâmia argentina e se estende pelos pampas até as neves eternas da Patagônia, ao sul, e dos Andes, a oeste.

O pico do Aconcágua, maior montanha do mundo fora da Ásia, com 6.960 metros, fica na Argentina. A cidade mais ao sul no mundo inteiro é argentina: Ushuaia.

Um dos dez países mais ricos do mundo no início do século 20, a Argentina foi um dos mais países que mais se subdesenvolveram no século passado por causa da crise política crônica que sofre desde o golpe militar de 1930. Terminou o século exportando os mesmos produtos básicos que vendia ao exterior cem anos antes.

O autoritarismo frustrou o desenvolvimento. Basta comparar a Argentina à Austrália ou ao Canadá, grandes países com enormes recursos e população escassa construídos por imigrantes.

No momento, a Argentina enfrenta uma nova crise da dívida. Uma pequena parcela de credores que não aceitou as renegociações de 2005 e 2010 conseguiu na Justiça dos Estados Unidos o direito de receber o valor de face dos títulos caloteados em 2001. Isso gera o risco de abalar toda a renegociação.

A Argentina precisa pagar os títulos antigos, hoje nas mãos de fundos de investimento que o governo Cristina Kirchner chama de “abutres”, antes de remunerar com juros os novos compradores. Terá de renegociar, mas só oferece trocar por papéis nas mesmas condições das ofertas anteriores. A inflação ronda os 30% ao ano e há escassez de vários produtos.

O impasse criado pela Justiça dos EUA foi criticado até mesmo pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que teme que possa prejudicar outras renegociações de dívidas públicas.

POPULAÇÃO
O número de habitantes da Argentina aumentou mais de 20 vezes desde o primeiro censo, em 1869, quando eram 1,8 milhão.

Mais de 92% dos 41,66 milhões (estimativa de 2013) de argentinos vivem em cidades, com destaque para Buenos Aires, a capital federal, e a Província de Buenos Aires. É uma população menor do que a do estado de São Paulo, estimada em 43 milhões. Cerca de 97% são de origem europeia, 1,5% índios e 1,5% mestiços e outras minorias.

Dois terços dos argentinos moram nas chamadas províncias do Leste (Buenos Aires, Córdoba, Santa Fé, Entre Ríos e La Pampa), que incluem a chamada Mesopotâmia Argentina, entre os rios Paraná e Uruguai.

As outras 17 províncias, que cobrem 70% do território, são escassamente povoadas, com apenas um terço da população total, atrasadas e cronicamente pobres.

O país imenso, com enormes espaços vazios, solo fértil e climas variados, atraiu colonos europeus, principalmente da Itália e da Espanha. Cerca de 52% dos argentinos têm pelo menos um antepassado italiano. É a maior comunidade italiana fora da Itália.

“Esta é uma terra de exilados”, respondia Jorge Luis Borges, o escritor argentino mais universal, quando perguntado sobre a identidade nacional. É um elemento central do mito fundador da Argentina a ideia um país moderno construído no Sul por imigrantes europeus com ideias políticas e sociais liberais ou radicais.

Para um embaixador brasileiro, é uma espécie de Complexo de Austrália ou Nova Zelândia, um país branco europeizado com uma cultura transplantada que se sente isolado num continente mestiço.

Ao lado do Uruguai, a Argentina é o país mais europeizado e alfabetizado da América Latina, o mais urbanizado, com a maior classe média e uma das maiores rendas per capita, com as melhores editoras e livrarias.

GOVERNO
A Argentina é uma república federativa formada por 23 províncias e o distrito federal. O Congresso é formado pelo Senado, com 72 cadeiras, e a Câmara dos Deputados, com 257 cadeiras.

Cada província e a capital federal elegem três senadores com mandato de seis anos. Os deputados são eleitos por listas de partidos e coligações para mandatos de quatro anos.

O mandato presidencial é de quatro anos, com direito a uma reeleição. Em seu segundo mandato, a presidente Cristina Fernández de Kirchner lutou para obter nas eleições parlamentares de outubro de 2013 a maioria necessária para reformar a Constituição e concorrer novamente. Não conseguiu.

A legislação eleitoral exige que pelo menos 30% dos candidatos sejam mulheres. A voto é obrigatório dos 18 aos 70 anos. A partir de 2013, jovens podem votar com 16 e 17 anos, mas não são obrigados.

IDIOMAS
A língua oficial é o castelhano, falado com um sotaque característico atribuído à imigração italiana.

O italiano, o polonês, o inglês, o alemão, o basco, o siciliano, o galês e outras línguas de imigrantes também são faladas.

CARACTERÍSTICAS NACIONAIS
No livro Facundo, sobre o caudilho Facundo Quiroga, da província de La Rioja, que inspirou Carlos Menem com suas suíças largas, na verdade uma crítica ao caudilhismo de Juan Manuel de Rosas, o escritor, jornalista, general e presidente Domingo Sarmiento (1868-74) relaciona as características geográficas do país com o caráter e a psicologia nacionais:

“O mal que oprime a República Argentina é a extensão; o deserto a rodeia e se lhe insinua nas estranhas; a solidão, o despovoado sem uma habitação humana são em regra os limites não contestados entre umas e outras províncias.

IMENSIDÃO
“Ali, a imensidão está em todos os lados: imensa a planície, imensos os bosques, imensos os rios, o horizonte sempre incerto, sempre confundindo-se com a terra entre nuvens e vapores tênues que não permitem, na longínqua perspectiva, assinalar-se o ponto onde termina o mundo e onde começa o céu.

“Ao sul e ao norte, acossam-na os selvagens que aguardam as noites de Lua para cair como enxame de hienas sobre o gado que pasta nos campos e nas povoações indefesas.”

A conquista da Patagônia no século 19 se assemelha à conquista do Oeste dos Estados Unidos por caravanas de carroções, com a diferença de que o avanço era rumo ao Sul frio e gelado.

“Na solitária caravana de carretas que atravessa pesadamente os pampas, e que se detém em repouso por momentos, a tripulação reunida ao redor do escasso fogo volta mecanicamente os olhos para o Sul ao mais ligeiro sussurro do vento que agita as ervas secas para mergulhar seus olhares nas trevas profundas da noite em busca dos vultos sinistos da horda silvícola que a pode surpreender desprevenida de um instante para outro”, escreveu Sarmiento.

BARBÁRIE
Um dos pais da pátria, ele descreve essa epopeia como um duelo entre a civilização ocidental e a barbárie local que marca a história argentina.

“Se o ouvido não escuta nenhum rumor, se a vista não consegue varar o véu obscuro que envolve a calada solidão, volta os seus olhares, para tranquilizar-se de todo, para as orelhas de algum cavalo que esteja próximo ao fogo a fim de ver se estão imóveis e negligentemente inclinadas para trás. Então, prossegue a palestra interrompida ou leva à boca o pedaço de carne chamuscada de que se alimenta.

MORTE TRÁGICA
“Se não é a aproximação do selvagem o que inquieta o homem do campo, é o temor do tigre que o apoquenta ou de uma víbora em que pode pisar. Essa insegurança da vida que é habitual e permanente na campanha imprime, no meu entender, ao caráter argentino certa resignação estoica com a morte violenta que faz dela um dos acessórios inseparáveis da vida, uma maneira de morrer como qualquer outra; e pode, quem sabe, explicar em parte a indiferença com que dão e recebem a morte, sem deixar nos sobreviventes impressões profundas e duradouras.”

Essa banalização da tragédia está presente no tango, a dança nacional.

Neste ambiente hostil, acrescenta Sarmiento, “o capataz é um caudilho como na Ásia o chefe da caravana; são necessários para este mister uma vontade férrea, um caráter arejado até a temeridade para conter a audácia e a turbulência dos flibusteiros da terra, que ele tem de governar e dominar sozinho no desamparo do deserto. Ao menor sinal de insubordinação, o capataz desenrola um chicote de ferro e descarrega sobre o insolente golpes que o ferem e contundem; e se a resistência se prolonga, antes de apelar para as pistolas, cujo auxílio em geral desdenha, salta do cavalo com um formidável cutelo na mão e reivindica prontamente sua autoridade pela destreza superior com que o maneja.

JUSTIÇA SUMÁRIA
“Quem morre nessas execuções do capataz não deixa nenhum direito a reclamações, considerando-se legítima a autoridade que o assassinou. É assim que na vida argentina começa a se estabelecer, por essas peculiaridades, o predomínio da força bruta, a preponderância do mais forte, a autoridade sem limites e sem responsabilidade dos que mandam, a justiça administrada sem formas e sem debate.”

Talvez isso ajude a entender a violência da última ditadura militar argentina, a que mais matou na América do Sul durante a Guerra Fria, com total de mortos e desaparecidos estimado em até 30 mil.

DESCOBRIMENTO
A população indígena do que hoje é a Argentina tinha cerca de 300 mil pessoas quando os europeus chegaram e não foram bem recebidos. Alguns historiadores acreditam que Américo Vespúcio esteve na foz do Rio da Prata em 1502, mas a maioria não.

O primeiro navegador da Europa a chegar comprovadamente ao Rio da Prata foi o português João Dias de Solis, a serviço da coroa espanhola. Chamou-o de Mar Doce. Ele foi morto diante da ilha de Martín García e comido pelos índios em 2 de fevereiro de 1516.

Em 1527, a expedição de Sebastião Cabot fundou um forte, o primeiro assentamento espanhol na região, logo destruído pelos índios, mas se preocupou mais subir os rios Paraná e Uruguai.

BUENOS AIRES
Como um dos objetivos da expedição colonizadora portuguesa de Martim Afonso de Souza de 1530-32 seria reivindicar o Rio da Prata para a coroa portuguesa, o espanhol Pedro de Mendoza fundou em 1536 a cidade de Santa María del Buen Aire, hoje Buenos Aires.

O ambiente hostil, com ataques de índios, e a falta de riquezas minerais fizeram com que em 1541 os últimos habitantes europeus fossem para Assunção, hoje capital do Paraguai, na maior derrota do império de Carlos V na América. Por causa das minas do Peru e da Bolívia, o Norte da Argentina foi ocupado antes.

Buenos Aires foi refundada em 1580 por Juan de Garay.  Sem o ouro e a prata do México e do Peru, a vasta planície que estende a oeste do Rio da Prata era pouco atraente para os colonizadores espanhóis. A maioria de seus habitantes vinha de outras colônias da América e não da Espanha.

No início, a principal atividade econômica era a exploração do gado que se proliferara no pampa depois do abandono da cidade, em 1541. Garay incentivou a criação de gado como vocação natural da região. Antes do fim do século 16, Buenos Aires começou a exportar couro, lã e sebo.

GAÚCHO
Dessa cultura de campo vem o gaúcho, a figura mítica do povo argentino, o cowboy sul-americano, índio ou mestiço criado livre, solto e errante pelos campos, caçando as reses das vacarias, sem se submeter a hierarquias e disciplina.

O gaúcho está eternizado no poema épico Martín Fierro, de José Hernández, um livro importante para decifrar a alma argentina. É corajoso, autoconfiante, indiferente às durezas da vida, para ele parte da existência, e apaixonado pela terra onde vive. Está também na literatura de Borges e tantos outros autores.

DOMÍNIO ESPANHOL
A refundação de Buenos Aires coincide com o início do período da História do Brasil conhecido como Domínio Espanhol (1580-1640). Com a morte do rei Dom Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos, em 1578, a coroa de Portugal foi reivindicada por Felipe II, da Espanha, na União Ibérica, que impôs um regime teocrático.

Durante aquele período, os portugueses aproveitaram para ir muito além do limite estabelecido pelo Tratado de Tordesilhas, em 1494, que cortaria o Brasil da Ilha de Marajó, no Pará, a Laguna, em Santa Catarina, excluindo quase toda a região Sul, o Mato Grosso, o Pantanal e a Amazônia.

COLÔNIA
O Cone Sul da América do Sul foi a única região em que os impérios português e espanhol entraram em conflito na América Latina.

Quarenta anos depois do fim do Domínio Espanhol, em 1680, os portugueses fundaram a Colônia do Sacramento, no Rio da Prata, do outro lado de Buenos Aires, provocando uma reação dos espanhóis, que tomaram a Colônia no ano seguinte. Essa foi considerada a primeira guerra argentina.

Numa contraofensiva, o governador de Buenos Aires, Juan José de Vértiz y Salcedo, avançou em 1732 até onde hoje é o Rio Grande do Sul, sendo repelido pelo brigadeiro Silva Paes, que em 1737 fundou o porto do Rio Grande. No ano seguinte, a região, que incluía também o que hoje é Santa Catarina, foi declarada Capitania d’el Rey de Portugal.

Em 1750, o Tratado de Madri deu ao território brasileiro o contorno que tem hoje, com exceção do Acre, que pertencia ao Alto Peru, possessão espanhola que se transformou na Bolívia, e do Rio Grande do Sul, que voltou a ser invadido de 1763 a 1776. O tratados de Santo Ildefonso (1777) e de Badajoz (1801), redefiniram a fronteira sul, que só seria traçada definitivamente com a independência do Uruguai, em 1828.

VICE-REINO DO PRATA
Politicamente, a atual Argentina fazia parte do Vice-Reino de Nova Castela, com capital em Lima, no Peru, que cobria toda a parte espanhola da América do Sul, enquanto o Vice-Reino da Nova Espanha, com sede na Cidade do México, administrava as colônias espanholas nas Américas Central e do Norte.

Três cidades hoje argentinas se destacavam: Buenos Aires, Córdoba e San Miguel de Tucumán. Em 1622, os jesuítas fundaram a Universidade de Córdoba, a primeira do país.

AUTORITARISMO
Os jesuítas, que criaram nas Missões a chamada República Comunista Cristã dos Guaranis, tiveram papel importante na colônia até serem expulsos, em 1768.

Até então, a colonização espanhola na América tinha sido feita em parceria com a Igreja Católica, que impôs uma “ditadura espiritual”, em detrimento do desenvolvimento econômico, na visão de José Luis Romero, autor de Las Ideas Políticas en Argentina.

“A era do colonizador é assim a era da formação do espírito autoritário em todas as esferas da vida social: autocracia real sustentada pelo Estado; aristocracia dos colonizadores e funcionários reais; autocracia do colono e povoador rural, que só dependiam de si mesmos para se sobrepor a mil elementos hostis”, acrescenta Romero. Nesta ordem imutável, “toda tentativa de inovação é contrária à ordem estabelecida e constitui um fato revolucionário”.

LIBERALISMO
As ideias liberais que fervilhavam na Europa desde a Revolução Gloriosa na Inglaterra, em 1688, começaram a chegar à América no século 18, a Época das Luzes, com as reformas promovidas pela dinastia de Bourbon numa tentativa de modernizar a monarquia espanhola. Tiveram papel fundamental na luta pela independência.

Em 1776, foram criados os vice-reinos do Prata, com capital em Buenos Aires, cobrindo Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, e de Nova Granada, com sede em Santa Fé de Bogotá, com jurisdição sobre o atual território de Colômbia, Venezuela e Equador.

INDEPENDÊNCIA
O movimento pela independência começa depois de Buenos Aires e Montevidéu resistirem a duas invasões britânicas, em 1806 e 1807, quando até azeite fervendo foi usado para combater o inimigo, e ganha força com a invasão napoleônica da Península Ibérica, em 1807 em Portugal e em 1808 na Espanha.

Depois de uma votação em 22 de maio de 1810 que os argentinos citam como exemplo de que o país nasceu republicano e democrático, em 25 de maio, dia da festejada Revolução de Maio, o Cabildo de Buenos Aires criou o primeiro governo autonômo da América espanhola, no caso, para governar o Vice-Reino do Prata até a restauração de Fernando VII.

Quando Fernando VII recuperou o trono em Madri, em 1814, não teve força para impor seu controle sobre as colônias americanas. Em 9 de julho de 1816, uma assembleia reunida em San Miguel de Tucumán declarou a independência das Províncias Unidas do Rio da Pátria.

A guerra da independência começou imediatamente, sob a liderança do general José de San Martín, um dos grandes libertadores da América ao lado do venezuelano Simón Bolívar.

San Martín cruzou os Andes para libertar o Chile, em 1818. Com o apoio da Marinha chilena, investiu contra o Peru, um dos últimos redutos do imperialismo espanhol, com o apoio de Bolívar, com quem se encontrou em 22 de julho de 1822 em Guaiaquil, no Equador.

Os espanhóis ainda resistiram no Norte da Argentina. A libertação da América do Sul só acaba com a vitória na Batalha de Ayacucho, no Peru, em 1824, que marca o fim do império espanhol na América do Sul.

DIVISÃO
As Províncias Unidas do Prata se dividiram com as independências do Paraguai, em 1814, da Bolívia, em 1825, e do Uruguai, em 1828.

A República Argentina, nome que aparece pela primeira vez na Constituição de 1823, mergulha numa guerra civil entre os unitários, que queriam um sistema político centralizado com hegemonia de Buenos Aires, e os federalistas, muitos deles caudilhos de províncias interessados na autonomia regional.

Para conter a anarquia, em 1820, o coronel Manuel Dorrego, governador de Buenos Aires, nomeou Juan Manuel de Rosas, e família tradicional, para chefe da milícia provincial.

Em 1826, a Assembleia Constituinte extrapolou seus poderes e nomeou presidente o liberal portenho (natural de Buenos Aires) Bernardino Rivadavia, provocando a revolta, em 1827, de Facundo Quiroga, caudilho da província de La Rioja.

Rivadavia, considerado o primeiro presidente da Argentina, caiu em 1827, quando o Brasil bloqueou o porto de Buenos Aires na guerra contra a independência do Uruguai, que havia sido anexado por Dom João VI em 1816. O governo nacional foi dissolvido e Dorrego virou governador de Buenos Aires, com o apoio de Rosas.

ROSAS
Quando as tropas voltaram da guerra da independência do Uruguai, em dezembro de 1828, derrubaram o federalista Dorrego e empossaram Juan Lavalle, afastado por Rosas, que reinstalou a assembleia dissolvida por Lavalle e foi eleito, em 1829, governador de Buenos Aires, cargo que ocupou até 1832, voltando em 1835 como ditador com poderes absolutos.

O assassinato de Facundo Quiroga, em 1835, mostrou que a anarquia e a guerra civil persistiam. Como ditador, Rosas criou uma força policial terrorista, a Mazorca, para perseguir seus inimigos e degolar alguns.

No fim dos anos 1830s, os moradores de Buenos Aires eram obrigados a andar com insígnias na lapela que diziam: “Vivan los federales! Mueran los immundos, asquerosos, salvajes, traidores unitários!” Retratos de Rosas estavam em altares nas igrejas.

Em 1839, Lavalle, que estava exilado no Uruguai, invadiu a província de Entre Ríos com o apoio da França, que bloqueou o porto de Buenos Aires, e os bolivianos entraram no Noroeste da Argentina. Com um Exército de 20 mil homens e uma milícia de 15 mil homens, Rosas reafirmou sua condição de força política suprema da confederação.

Em 1845, Rosas fechou o Rio Paraná para controlar o comércio e a navegação. Forças navais da França e da Grã-Bretanha bloquearam mais uma vez o porto de Buenos Aires e enviaram uma esquadra pela Bacia do Prata. Rosas conseguiu impedir os fuzileiros navais de tomar as margens do Rio Paraná.

Em 1847, os britânicos desistiram do bloqueio porque estavam perdendo mais comércio com Buenos Aires do que ganhariam com as províncias. Em 1848, Rosas voltou a bloquear o Rio Paraná em sinal de triunfo sobre as duas grandes potências mundiais.

GUERRA COM BRASIL
O bloqueio irritou o Brasil e também o caudilho-governador da província de Entre Ríos, general Justo José de Urquiza. Em 1851, um exército de 28 mil entrerrianos, unitários, 1,5 mil colorados uruguaios e 3,5 mil brasileiros marchou sobre Buenos Aires. Derrotado na Batalha de Caseros, perto de Buenos Aires, em 3 de fevereiro de 1852, Rosas foi para o exílio na Inglaterra, onde morreu em 1877. O Brasil nunca mais entrou em guerra contra a Argentina.

Na opinião de alguns historiadores, Rosas foi o caudilho mais interessante da América. Até hoje o debate sobre ele não está concluído. Ainda é amado e odiado.

INDEPENDÊNCIA DE BUENOS AIRES
Depois da vitória sobre Rosas, o general Urquiza sancionou a Constituição de 1853, rejeitada pela Província de Buenos Aires, que se separou da Confederação Argentina proclamando-se um independente Estado de Buenos Aires.

Era o início de mais uma guerra civil, que durou quase dez anos. Acabou na Batalha de Pavón, na província de Santa Fé, em 17 de setembro de 1861.

GUERRA DO PARAGUAI
Em 1862, Bartolomé Mitre, o vencedor da batalha, foi eleito o primeiro presidente da Argentina unificada. Durante seu governo (1862-68), o país foi invadido pelo ditador paraguaio Francisco Solano López e começou a Guerra da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai), que deixou 300 mil mortos e arrasou o Paraguai.

Mitre foi sucedido pelo liberal Domingo Faustino Sarmiento (1868-74), o autor de Facundo. Grande incentivador da educação, criador de muitas bibliotecas públicas, é chamado de Professor da América.

Sarmiento acreditava que a educação era o caminho da felicidade e da democracia: “Um povo ignorante vai sempre preferir Rosas”.

O próximo presidente argentino foi Nicolás Avellaneda (1874-80). Em seu governo, a cidade de Buenos Aires foi separada da Província de Buenos e transformada em Distrito Federal e o general Julio Roca comandou a conquista da Patagônia. Roca foi duas vezes presidente, 1880-86 e 1898-1904.

GUERRAS INDÍGENAS
As campanhas militares para submeter os índios no Centro-Sul da Argentina são outro capítulo de uma história trágica. Começam durante a ditadura do general Juan Rosas (1835-52) e vão até o fim do século 19, quando o general Roca colocou todas as terras da Patagônia sob efetivo controle do governo de Buenos Aires, na chamada Conquista do Deserto (1878-9).

Em sua passagem por Bahía Blanca, durante a ditadura de Rosas, o naturalista inglês Charles Darwin manifestou sua indignação com as matanças de índios, que talvez tenham influenciado o desenvolvimento da Teoria da Evolução das Espécies e do princípio da sobrevivência do mais forte e do mais apto.

DARWIN SE INDIGNOU
“Poucos dias depois, vi outra tropa desses soldados com jeito de bandidos iniciar uma nova expedição contra uma tribo de índios numa pequena salina que tinha sido traída por um cacique preso”, escreveu Darwin em seu diário.

“O terreno era montanhoso e selvagem. Devia ser bem para o interior porque de lá se via a cordilheira. Os índios, homens, mulheres e crianças, eram cerca de 110. Todos foram passados na espada. Os sobreviventes ficaram tão aterrorizados que fugiram negando suas famílias e filhos; mas, quando capturados, lutam contra quantos forem até o fim.

“Um índio agonizante cravou os dentes no dedo de um inimigo e deixou que lhe arrancasse um olho para não soltar sua presa. Outro, que estava ferido, fingiu-se de morto, mas manteve a faca em posição para dar um último golpe fatal”, contou Darwin.

BARBÁRIE
“Um homem que perseguia um índio que pediu clemência disse: ‘Aí eu o derrubei com meu sabre, pulei do cavalo e cortei sua garganta’”, registrou o naturalista inglês com indignação. “Esse é um quadro sombrio; mas muito mais chocante é o inquestionável fato de que todas as mulheres acima de 20 anos são massacradas a sangue frio. Quando exclamei que isso é desumano, ele respondeu: ‘Por quê? O que se pode fazer? Elas têm muitos filhos’.”

“Todo o mundo aqui está convencido de que esta é a mais justa das guerras porque é contra bárbaros. Quem acreditaria que nos dias de hoje tais atrocidades fossem cometidas num país cristão e civilizado? As crianças indígenas que são salvas são vendidas ou dadas como servos, ou melhor, escravos”, registrou Darwin.

CONQUISTA DO DESERTO
Pelo menos 1.313 índios foram mortos e outros 15 mil expulsos de suas terras na Conquista do Deserto pelo general Roca em 1878 e 1879. Foi um verdadeiro genocídio. Abriu caminho para a colonização europeia e a transformação da Argentina numa superpotência agrícola, capaz hoje de produzir alimentos para 350 milhões de pessoas.

Nos últimos anos, movimentos de esquerda têm atacado estátuas do general Roca, acusado de genocídio contra os índios na conquista da Patagônia. O próprio conceito de “conquista do deserto” implica que eram terras de ninguém.

IMIGRAÇÃO
Com estabilidade política depois de mais de meio século de guerra civil, a Argentina começou seu desenvolvimento econômico e passou a atrair uma grande leva migratória da Europa.

Em suas Bases e pontos de partida para a organização política da República Argentina, Juan Bautista Alberdi, um dos pais espirituais da pátria, apresenta suas ideias para construir o país. Elas estão na origem da Constituição de 1853.

Para Alberdi, “governar é povoar”, e povoar com imigrantes europeus.

A população argentina passou de 1,1 milhão em 1857 para 3,3 milhões em 1890 e 8 milhões em 1914.  Entre 1871 e 1914, foram 5,9 milhões de migrantes. De 1830 a 1950, a Argentina recebeu 10% dos emigrantes que saíram da Europa para a América.

Cerca de 80% dos imigrantes vieram de países mediterrâneos. A metade era de italianos; um quarto, espanhóis; além de turcos, russos, franceses, poloneses e portugueses.

CRESCIMENTO ECONÔMICO
O grande atrativo era o desenvolvimento da indústria do frio para processar carnes e da agricultura de clima temperado.

Em 1869, só 3% da população de Buenos Aires trabalhavam na agricultura. A Argentina era dependente das importações de trigo do Chile e dos EUA.

No final dos anos 1880s, a Argentina se tornou um grande produtor mundial de milho, trigo, aveia e cevada, e linho.

As exportações de trigo aumentaram 20 vezes de 1880-84 para 1890-94. O comércio exterior pulou de 37 milhões de pesos-ouro, em 1861, para mais de 250 milhões em 1889.

REBANHO
O rebanho de ovelhas cresceu de 7 milhões em 1852 para 87 milhões em 1888. A Província de Buenos Aires tinha 5 milhões de cabeças de gado bovino e 45 milhões de ovinos. A exportação de lã cresceu na mesma medida, de 300 toneladas em 1829 para 111 mil toneladas em 1882.

A alta nas exportações de lã no início dos anos 1860s foi resultado da Guerra da Secessão, nos EUA, e ajudou na pacificação argentina de 1862. Com a guerra civil americana, a imigração para a Argentina aumentou.

FERROVIAS
O sistema ferroviário, inaugurado com uma linha de 10 quilômetros de extensão em 1857, chegou a mais de 9 mil quilômetros de estradas de ferro em 1890, 33,5 mil km em 1914 e 43,9 mil km em 1960, quando chegou ao máximo. Esses dados econômicos são de David Rock, no livro Argentina: 1516-1987: from Spanish colonization to Alfonsín e de Diego Arguindeguy em 365 días para conocer la História Argentina.

Até 1930, a Argentina estava entre as dez maiores economias do mundo. Desde então, criou uma indústria nacional sob o peronismo, que entrou em decadência nos anos 60, sofreu com a hiperinflação, o neoliberalismo da ditadura e a dolarização da era Menem. O produto interno bruto argentino em 2013 foi estimado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em US$ 488 bilhões e a renda média por habitante, em US$ 11,72 mil.

REVOLUÇÃO DO FRIO
No Natal de 1876, um navio francês aportou em Buenos Aires trazendo a novidade no seu próprio nome: La Frigorifique. A degustação dos pratos preparados com carne congelada não agradou muito aos paladares acostumados com carne fresca da melhor qualidade. Mas o país mudou.

A partir daí, as melhores terras da Argentina passaram a criar gado para uma indústria voltada para a exportação de carnes e derivados.

Em 1882, Eugenio Terrasón transformou sua charqueada San Luis no frigorífico Elisa, o primeiro da América do Sul. No ano seguinte, chegou a River Plate Meat Company. Os britânicos e americanos passaram a dominar o negócio com empresas como Swift, Armour e Anglo.

O Censo de 1914 revelou que só os frigoríficos de Buenos Aires empregavam mais de 10 mil trabalhadores, mais de 10% dos operários da cidade mais industrializada da Argentina.

Uma elite política e intelectual tentava criar uma sociedade no modelo europeu e norte-americano nas vastas terras férteis do Cone Sul da América Latina, tentando superar ou ignorar um passado de índios nômades e gaúchos rebeldes.

O crescimento das exportações, os investimentos estrangeiros, sobretudo britânicos, de 157 milhões de libras até 1890, a tecnologia moderna e a oferta de mão de obra imigrante transformaram uma colônia menor do Império Espanhol num dos países mais ricos do mundo em cem anos de independência. O passado de violência e miséria deu lugar à prosperidade, ao progresso e a um estilo de vida cosmopolita.

Impressionado, o poeta nicaraguense Rubén Darío chegou a prever que os argentinos seriam os “ianques do Sul”, capazes de liderar o resto da América Espanhola na trilha do desenvolvimento.

VOTO SECRETO E UNIVERSAL
A primeira revolução pelo sufrágio universal aconteceu em 1893, e a festa do Primeiro Centenário, em 1910, foi sob estado de sítio depois da revolução de 1905 contra a “república conservadora”, em que as eleições eram uma farsa.

Para combater as fraudes e modernizar o sistema político dominado pela oligarquia latifundiária que costumava indicar um general para a presidência, em 1912, a Lei Roque Sáenz Peña, proposta pelo presidente de mesmo nome, introduziu o voto secreto, universal e obrigatório para todos os homem com mais de 18 anos.

O primeiro presidente eleito sem fraude foi Hipólito Yrigoyen (1916-22), da União Cívica Radical, em 1916, o grande responsável pelas campanhas para acabar com a fraude eleitoral. A classe média urbana chegava ao poder.

Yrigoyen fez uma série de reformas sociais: melhorou as condições de trabalho nas fábricas, regulamentou as jornadas de trabalho, criou um sistema de aposentadorias e pensões com contribuições compulsórias, e universalizou o acesso a escolas públicas.

De 1917 a 1922, superadas restrições de crédito e acesso a mercado decorrentes da Primeira Guerra Mundial, a Argentina cresceu 40%. Era o décimo país mais rico do mundo em renda média por habitante.

HORA DA ESPADA
A oposição aos governos radicais de 1916-30 foi “aberta e sem trégua”, observou o ex-embaixador Juan Archibaldo Lanús no livro La Causa Argentina. Entre os maiores críticos da reforma eleitoral e do sufrágio universal que “produz governos cada vez piores”, estava o pensador católico conservador Leopoldo Lugones, que considerava a democracia um “desastre”.

“Ao povo, não interessa a Constituição, essa máquina anglo-saxônica que nunca entendeu”, dizia Lugones. “Não temos por que seguir respeitando um ídolo de papel. Seria um estranho fetichismo”.

Em 1924, ele lançou o manifesto golpista A hora da espada. Diante da ineficiência do sistema político, só restava uma solução: o militarismo.

“O atual estado de coisas não tem solução em eleições, pois, corrompida já a massa eleitoral por demagogos, toda a propaganda para conquistar a maioria faz um excesso de ofertas que só agrava a desordem”, argumentava Lugones.

O movimento contra a reforma eleitoral de Sáenz Peña se apresentava como nacionalista: “Ante a democracia ideológica e sempre falaz dos direitos humanos, ergue-se agora a realidade da nação. Ante a liberdade das formas, o bem-estar dos fatos. Porque livre e justo só pode ser em realidade o são e o forte. A liberdade, a justiça, a cultura, a saúde, são consequências do bem-estar conseguido. Pois só assim se alcança a expressão positiva do direito, que é a organização da liberdade e da justiça.

GOLPE MILITAR
Reeleito em 1928, Yrigoyen enfrentou o início da Grande Depressão e sobreviveu a uma tentativa de assassinato, em 1929. Foi deposto em 6 de setembro  de 1930 numa conspiração com participação da companhia de petróleo Standard Oil of New Jersey, insatisfeita com o combate ao contrabando da província argentina de Salta para a Bolívia.

O golpe de 6 de setembro de 1930 devolveu à oligarquia latifundiária exportadora não o poder real, que ela não perdera, mas o controle da máquina do Estado. Era o fim da aliança entre parte da elite e a classe média que vinha desde o início do movimento pela reforma eleitoral, em 1890. Estava começando o que os argentinos chamam de “década infame”.

A queda de Yrigoyen, derrubado pelo general José Félix Uriburu, foi o primeiro de uma sucessão de golpes militares da História da Argentina. Desde 1930, o primeiro presidente civil eleito democraticamente a concluir o mandato e entregar o poder a outro civil eleito democraticamente foi Carlos Menem para Fernando de la Rúa, em 1999. De la Rúa caiu em dezembro de 2001, na crise gerada pelo colapso da dolarização da era Menem (1989-99).

DITADURA
Ao pisotear as leis e a Constituição em nome da pátria, o general Uriburu lançou as bases do que seriam as ditaduras militares argentinas do século 20. Fechou o Congresso, interveio em todas as províncias, decretou a pena de morte, censurou a imprensa, impôs o estado de sítio, proibiu os partidos políticos, perseguiu a oposição com prisões arbitrárias e tortura, e interferiu nas universidades.

“As casas de estudos deixam de ser estabelecimentos destinados exclusivamente ao cultivo de disciplinas científicas quando se dá guarida nelas a doutrinas filosóficas, sejam o materialismo histórico, o romantismo rousseauniano ou o comunismo russo”, declarou o governo militar para justificar a intervenção.

Em sua defesa, o ditador alegou que 60% dos argentinos eram analfabetos e por isso seriam presas fáceis da demagogia eleitoreira.

A “década infame” foi marcada por fraude eleitoral, corrupção, negociatas, perseguição a oposicionistas, tortura e entrega do país a interesses estrangeiros, afirma o historiador Felipe Pigna no livro Los Mitos de la História Argentina (vol. 3). Durante a Grande Depressão (1929-39), a desocupação e a miséria tomariam conta do “celeiro do mundo” criando as condições para o surgimento do fenômeno político que domina a política argentina até hoje: o peronismo.

Quando estourou a Segunda Guerra Mundial, a Argentina, que flertava com o fascismo, declarou-se neutra para manter suas relações comerciais com as três grandes potências daquela época: os EUA, a Alemanha nazista e a Grã-Bretanha, que ainda era a maior fonte de investimentos externos na Argentina.

Com a entrada dos EUA na guerra depois do ataque japonês a Pearl Harbor, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941, o Brasil rompeu com as potências do Eixo e passou a receber uma ajuda militar americana que preocupava os militares argentinos. Alguns sonhavam com uma vitória alemã sobre os EUA, que faria da Argentina a maior potência do continente.

TENSÃO COM O BRASIL
Enquanto a crise interna do governo argentino se agravava, em maio de 1943, Washington ofereceu ao Brasil equipamento para uma divisão motorizada com base no Rio Grande do Sul.

Um golpe de inspiração nazista do Movimento Nacionalista Revolucionário, na Bolívia, em 1944, apoiado por Buenos Aires, aumentou a decisão americana de pressionar a Argentina. 

Em fevereiro de 1944, boatos de que navios de guerra americanos e brasileiros entravam no Rio da Prata, assustou Buenos Aires, revela uma carta do embaixador José Rodrigues Alves ao presidente Getúlio Vargas, citada por Luiz Alberto Moniz Bandeira no livro Presença dos Estados Unidos no Brasil.

“Não se tratava de mero boato. A esquadra americano-brasileira, sob o comando do almirante Ingram, chegou realmente a penetrar no Rio da Prata, sob o pretexto de uma visita a Montevidéu cujo cancelamento Vargas sugeriu e Roosevelt não aceitou”, nota Moniz Bandeira.  O presidente americano chegou a propor uma “associação continua” das Forças Armadas dos dois países, um pacto de segurança contra agressões de terceiros.

A Argentina só declarou guerra à Alemanha em março de 1945, quando a Segunda Guerra Mundial estava acabando. Por isso, não é convidada para as festas em homenagem à vitória sobre o nazifascismo. O país recebeu vários refugiados nazistas depois da guerra, com o beneplácito do coronel Perón.

GOLPE DE 1943
Em 4 de junho de 1943, o Grupo de Oficiais Unidos, uma sociedade secreta nacionalista, derrubou o presidente Ramón Castillo a pretexto de acabar com as fraudes eleitorais da “década infame”.

Entre eles, destacava-se o coronel Juan Domingo Perón, que foi subsecretário do Ministério da Guerra, vice-presidente e ministro do Trabalho, onde implantou uma legislação trabalhista que lhe deu grande prestígio popular e o apoio dos sindicatos.

Perón melhorou as condições de trabalho, conseguiu um aumento real de 4% nos salários de 1943 e 1946, criou indenização para acidentes de trabalho, a Justiça do Trabalho, a Previdência Social, o salário mínimo, pagamento de feriados e férias, o 13º salário (conhecido na Argentina como aguinaldo), garantiu férias e o direito de sindicalização de trabalhadores rurais, limitou a jornada de trabalho e congelou os preços dos arrendamentos de terras.

DIA DA LEALDADE
Sob pressão da ala conservadora do Exército, Perón foi demitido em 9 de outubro de 1945 e preso quatro dias depois. Uma onda de protestos populares organizados pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) forçou a sua libertação em 17 de outubro, festejado até hoje pelos peronistas como Dia da Lealdade.

Naquele dia, Perón fez seu primeiro discurso triunfante na janela da Casa Rosada diante de uma multidão reunida na Praça de Maio, ao lado de sua segunda mulher, a atriz Maria Eva Duarte de Perón, a Evita, com quem se casaria quatro dias depois, formando o casal que até hoje, muito depois de suas mortes, ainda domina a política argentina.

Com os votos de mais de 1,5 milhão de argentinos, 53% do eleitorado, Perón foi eleito presidente da Argentina em 24 de fevereiro de 1946.

PERONISMO
Exemplo típico do populismo latino-americano, o peronismo, na definição do cientista político argentino Torcuato di Tella, é “uma aliança de parte da elite, como militares e industriais nacionalistas, com os trabalhadores para enfrentar outro segmento da elite, o mais conservador”, no caso argentino a oligarquia latifundiária exportadora.

Para os militares argentinos, que alimentavam o sonho de hegemonia na América do Sul, argumentava Di Tella, os Estados Unidos, a potência realmente hegemônica no continente, não armariam a Argentina para atacar o Brasil, que tinha uma política de aliança automática com Washington. A Argentina precisava de um desenvolvimento industrial autônomo.

 PRIMEIRO GOVERNO PERÓN
Ao tomar posse em 4 de junho de 1946, Perón prometeu justiça social e independência nacional. Entre 1946 e 1949, os salários dos operários da indústria argentina subiram em média 53%. A participação da massa salarial no produto interno bruto passou de 40,1% para 49%.

De 1930-35 a 1945-49, a produção industrial dobrou. O número de fábricas passou de 38 mil em 1935 para 86 mil. Nesse período, o operariado passou de 436 mil para mais de um milhão. O total de sindicalizados pulou de 500 mil em 1946 para 2 milhões em 1950, quando a força de trabalho tinha 5 milhões.

As greves cresceram na mesma medida, de 500 mil dias de trabalho perdidos em 1945 para 2 milhões em 1946 e mais de 3 milhões em 1947.

Nos seus dois primeiros anos de governo, Perón nacionalizou o Banco Central, pagou uma dívida bilionária com o Banco da Inglaterra, estatizou as ferrovias, a marinha mercante, as universidades, os serviços e transportes públicos. Em 1949, lançou a ideia de uma terceira via entre o capitalismo e o comunismo para manter distância da Guerra Fria.

EVITA
Filha ilegítima de uma cozinheira, a cantora, modelo e atriz de teatro e radioteatro María Eva Duarte era amante do coronel Perón. Eles se conheceram num evento beneficente em 22 de janeiro de 1944 no Luna Park, em Buenos Aires, e se casaram quatro dias depois da volta triunfal de Perón ao poder, em 17 de outubro de 1945, formando um casal sem paralelo na história política da América Latina.

Evita cuidava das obras sociais do governo. Era ministra do Trabalho e do Bem-Estar Social e presidia a Fundação Eva Perón, criada em 1948, com orçamento anual de US$ 50 milhões, que distribuía generosamente dinheiro, empregos e moradia para os descamisados, os migrantes vindos do interior.

Em entrevista ao escritor Tomás Eloy Martínez, em 1970, Perón declarou que “Evita foi uma criação minha”, negando que a imagem de sua segunda mulher tenha se tornado maior do que a dele. Essa posição é defendida hoje por peronistas que acusam a oligarquia argentina de inflar o mito de Evita para torná-la maior do que o caudilho.

A primeira-dama foi fundamental na campanha para a introdução do voto feminino, em 1947. Chegou a ser cotada como candidata a vice-presidente, mas enfrentou forte resistência dos conservadores e militares.

Um grande comício realizado pela CGT em 22 de agosto de 1951 foi insuficiente para virar o jogo. Depois de uma tentativa de golpe em 28 de setembro, a candidatura Evita foi abandonada.

SANTA EVITA
Uma espécie de Cinderela vingadora, Eva Perón morreu de câncer no útero menos de um ano depois, em 26 de julho de 1952, no auge de sua popularidade. Foi convertida numa santa.

Seu funeral durou quatro dias para que todos pudessem dar adeus à mãe dos pobres. De maio de 1952 a julho de 1954, dois anos depois de sua morte, o Vaticano recebeu mais de 40 mil cartas pedindo a canonização de Evita.

Mais da metade das meninas nascidas em algumas províncias argentinas naquela época foram batizadas Eva ou María Eva. As adolescentes pintavam o cabelo de louro. Evita ditava a moda.

DISPUTA PELO CADÁVER
Quando Evita morreu, o plano era construir um memorial em sua homenagem. Ela seria enterrada na base de um monumento aos descamisados. Como o líder da revolução comunista na Rússia, Vladimir Lenin, seu corpo embalsamado ficaria em exposição ao público.

Antes da conclusão da obra, Perón foi derrubado pelo golpe militar de 1955 e fugiu sem se preocupar com a múmia de Evita, que desapareceu da sede da CGT, em Buenos Aires, onde ficara. De 1955 a 1971, o peronismo foi proscrito na Argentina. Era proibido ter fotos de Eva e Juan Perón em casa e até mesmo de citar seus nomes.

Em 1957, com a ajuda do Vaticano, o cadáver de Evita foi retirado da Argentina e enterrado com nome falso na Itália.

Só em 1971 os militares revelaram que a ex-primeira-dama estava enterrada numa cripta em Milão, na Itália, com o nome de María Maggi. Naquele ano, o corpo foi exumado e entregue ao general Perón no exílio na Espanha.

Depois da morte de Perón, em 1974, a terceira mulher do caudilho, María Estela Martínez de Perón, a Isabelita, assumiu o governo e repatriou o cadáver de Evita, que ficou um tempo ao lado dos restos de Perón na Quinta de Olivos, residência oficial dos presidentes da Argentina.

 Com o golpe militar de março de 1976, mais uma vez os peronistas temeram pelo destino dos restos mortais da grande líder de massas. Em outubro daquele ano, sob a supervisão da ditadura, o cadáver de Evita foi levado de Olivos para o Cemitério da Recoleta, onde estão enterrados os grandes líderes da oligarquia argentina, e sepultado no mausoléu da família Duarte.

Até hoje, os dois cadáveres assombram e dominam a política argentina.

QUEDA DE PERÓN
As políticas econômicas de Perón deram certo até 1949 por causa do sucesso das exportações durante e logo após a Segunda Guerra Mundial. Mas o preço dos produtos primários exportados pela Argentina caiu e o aumento das importações para suprir a indústria deixaram a balança comercial negativa. Houve queda nos salários reais.

Reeleito com 62,5% dos votos em 11 de novembro de 1951, Perón teve um segundo governo muito mais difícil. Com a crise econômica e sem a carismática e angelical Evita a seu lado, o caudilho enfrentou oposição crescente dos estudantes e da Igreja Católica. Isso levou ao golpe liderado pelo general Eduardo Lonardi, chamado de Revolução Libertadora, em 16 de setembro de 1955.

Lonardi, reconhecendo a força do peronismo, tentou fazer um acordo. Foi afastado e substituído pelo general linha-dura Pedro Aramburu por adiar a desperonização. O Partido Justicialista (peronista) foi dissolvido e houve intervenção nos sindicatos.

SUCESSÃO DE GOLPES
Os peronistas continuaram sendo a maior força política argentina. Em 1958, apoiaram a candidatura do radical Arturo Frondizi, que prometia trazê-los de volta à legalidade. Frondizi foi derrubado em março de 1962.

Até outubro de 1963, a Argentina foi governada interinamente pelo Presidente do Senado, José María Guido, enquanto duas facções militares disputavam o poder: os vermelhos, favoráveis a adotar mais dureza contra o peronismo, e os azuis, mais moderados, que acabaram prevalecendo.

Um novo acordo para tentar reinstitucionalizar o país depois do golpe contra Perón levou à eleição de 7 de julho de 1963, vencida por Arturo Illia, derrubado em junho de 1966 pelo comandante do Exército, general Juan Carlos Onganía, que desfilara com a faixa presidencial no dia da posse de Illia.

Os governos militares de 1966 a 1973 foram marcados por uma explosão social, o Cordobazo, em maio de 1969, na segunda maior cidade argentina, e pelas atividades de grupos guerrilheiros como o Exército Revolucionário do Povo (ERP), trotskista, e os Montoneros, peronistas, que capturaram a mataram o ex-ditador Aramburu.

Onganía foi derrubado em junho de 1970 pelo general Roberto Levingston, substituído em 1991 pelo general Alejandro Lanusse, que prometeu restabelecer a democracia.

Com a volta do peronismo à legalidade, Héctor Cámpora foi eleito presidente em março de 1973. Ao assumir, em maio, deixou claro que estava apenas preparando a volta de Perón.

BATALHA DE EZEIZA
Depois de 18 anos no exílio, Perón foi recebido com a Batalha de Ezeiza, travada no aeroporto internacional de Buenos Aires entre a direita peronista, que incluía a temida Aliança Anticomunista Argentina (AAA), e a extrema esquerda, representada pelos Montoneros.

Da plataforma de onde Perón discursaria, franco-atiradores dispararam contra a Juventude Peronista e os Montoneros. Pelo menos 13 pessoas morreram e outras 365 saíram feridas do Massacre de Ezeiza. O jornal Clarín disse que na época que os números reais deveriam ser muito maiores. Não houve uma investigação oficial sobre essa suspeita.

Em 23 de setembro de 1973, o velho caudilho foi eleito presidente da Argentina pela terceira vez, com 62% dos votos, desta vez tendo a mulher como vice. Só que não era mais Evita. Era María Estela Martínez de Perón, uma bailarina de cabaré que ele conhecera no exílio no Panamá.

GUERRA SUJA
Com a morte do general, em 1º de julho de 1974, Isabelita tomou posse, tornando-se a primeira mulher presidente no mundo inteiro. Mas a crise do peronismo se aprofundou, o terrorismo de direita e de esquerda piorou.

O golpe de 24 de março de 1976, liderado pelo general Jorge Rafael Videla e o almirante Emilio Massera, marca o início do “processo de reorganização nacional”, a guerra suja contra a esquerda argentina. O total de mortos e desaparecidos é estimado entre 12 e 30 mil, o que a torna a pior ditadura da América do Sul durante a Guerra Fria.

Houve uma tentativa de eliminar toda uma corrente de pensamento político, um politicídio. Cerca de 62% dos desaparecidos foram sequestrados em suas casas à noite e 25% nas ruas em plena luz do dia, concluiu a comissão que investigou o desaparecimento de pessoas presidida pelo escritor Ernesto Sábato.

A decadência da economia aprofundou-se ainda mais com o ministro da Economia, José Alfredo Martínez de Hoz, que promoveu uma desregulamentação que favoreceu o setor financeiro, valorizando o peso e reduzindo ainda mais a competitividade da indústria. Os resultados foram inflação alta e déficits comerciais que levaram à crise da dívida externa nos anos 1980s.

MÃES DA PRAÇA DE MAIO
Com o Congresso fechado e a imprensa censurada, em 1977, as mães dos desaparecidos se organizaram a passaram a marchar toda quinta-feira à tarde na praça central de Buenos Aires, diante da Casa Rosada. Na cabeça, levavam lenços brancos com os nomes dos filhos desaparecidos.

As Mães da Praça de Maio se tornaram no maior símbolo da luta contra a ditadura militar argentina. Suas fundadoras foram mortas pela repressão. O presidente da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Buenos Aires, Adolfo Pérez Esquivel, preso e torturado em 1977, ganhou o Prêmio Nobel da Paz 1980.

GUERRA DAS MALVINAS
Para dar um golpe dentro do golpe, derrubar o presidente Roberto Viola, que sucedera Videla, e assumir a presidência, em 1981, o comandante do Exército, general Leopoldo Galtieri, fez um acordo com a Marinha para invadir as Ilhas Malvinas ou Falklands, uma possessão britânica no Sul do Atlântico reivindicada pela primeira vez por Rosas em 1833.

Havia uma negociação em andamento com o Reino Unido nos anos 1970s, semelhante à que acertou a devolução de Hong Kong à China, em 1997. As violações de direitos humanos da ditadura militar argentina inviabilizaram um acordo.

Em 2 de abril de 1982, os argentinos invadiram e ocuparam as Malvinas e no dia seguinte as Geórgias do Sul. Por três semanas, enquanto uma força naval britânica avançava 10 mil quilômetros para retomar as ilhas, não foi possível chegar a uma solução diplomática.

Os britânicos retomaram as Geórgias em 25 de abril e a Argentina se rendeu nas Malvinas em 14 junho, depois da morte de 649 soldados argentinos, 255 soldados britânicos e três britânicos habitantes nas ilhas. A vitória fortaleceu a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher e derrubou a ditadura militar argentina, apressando o fim dos governos militares no continente.

Repressores sanguinários como o capitão da Marinha Alfredo Astiz, o Anjo da Morte, acusado de matar uma menina sueco-argentina de 17 anos pelas costas e duas freiras francesas, se rendeu aos britânicos sem disparar um tiro. Thatcher não quis entregá-lo aos governos europeus interessados em processá-lo.

A Argentina mantém sua reivindicação sobre as ilhas. O Reino Unido alega que qualquer decisão terá de ser referendada pelos moradores das ilhas. Em plebiscito recente, 98% preferiram que ser governados por Londres.

DEMOCRATIZAÇÃO
Galtieri e  sua junta militar caíram quatro dias depois da derrota. Foi sucedido em 1º de julho de 1982 pelo general Reynaldo Bignone, que governou até a realização de eleições democráticas e a posse de Raúl Alfonsín, em 10 de dezembro de 1983.

Alfonsín convocou uma comissão para investigar o desaparecimento de pessoas e abriu processo contra os nove comandantes das três juntas militares que desgovernaram a Argentina de 1976-82. Todos foram condenados, mas foram indultados pelo presidente Carlos Menem (1989-99).

Alvo de três rebeliões militares dos carapintadas, Alfonsín acabou aceitando as Leis Ponto Final e de Obediência Devida, que na prática deixavam os repressores impunes. Foram revogadas no governo Néstor Kirchner (2003-7), que reabriu os processos.

HIPERINFLAÇÃO
O outro desafio de Alfonsín foi a crise econômica. A Argentina decretou a moratória durante a crise das dívidas externas da América Latina. Devia US$ 43 bilhões e sofreu com a hiperinflação. Em 1985, Alfonsín lançou o Plano Austral, mudando a moeda quando a inflação atingiu 1000% ao ano.

A hiperinflação voltou com ainda mais força apressando o fim do governo. Em 1989, chegou a 200% ao mês. Num país com trigo em abundância, o preço do pão era reajustado duas vezes por dia.

O primeiro presidente civil eleito democraticamente desde o golpe de 1930 na Argentina não chegaria ao fim do mandato. Cinco meses e dois dias antes da data marcada para a posse, entregou o poder a Menem, em 8 de julho de 1989, para que o novo presidente enfrentasse a crise econômica.

FIM DA GUERRA CIVIL
Representante da direita do peronismo, Menem se elegeu com 47,5% dos votos prometendo um “salariaço” (aumentos reais como no primeiro governo Perón) e uma “revolução produtiva”.

Ao entregar o Ministério da Economia para o grupo Bunge y Born, a maior empresa privada argentina, Menem acabava, na visão do cientista político Torcuato di Tella, com a longa guerra civil iniciada pelo golpe de 1943. O peronismo buscava se reconciliar com a elite econômica. Para a esquerda peronista, era uma traição.

Menem também indicava a intenção de adotar as políticas liberais propostas pelo Consenso de Washington: redução da participação do Estado na economia, equilíbrio das contas públicas, juros reais positivos, privatização, abertura comercial e para o investimento estrangeiro. Outra traição. A reação a essas políticas está na raiz do kirchnerismo.

O programa de privatizações vendeu companhias de petróleo, gás, telecomunicações, energia elétrica, bancos, aeroportos e canais de televisão.

SATÉLITE PRIVILEGIADO
Como complemento dessa revolução econômica liberal, Menem adotou uma política externa de alinhamento automático com os EUA. Tentava reassumir a condição de “satélite privilegiado” que a Argentina tinha com o Império Britânico no seu momento de maior prosperidade, no fim do século 19 e início do século 20. O ministro do Exterior, Guido di Tella, chegou a falar numa “relação carnal” com os EUA.

Para acabar com as revoltas militares, Menem deu indultos aos comandantes das juntas militares e a guerrilheiros, num total de 220 militares e civis, entre eles o líder montonero Mario Firmenich, preso no Brasil.

DOLARIZAÇÃO
A resistência da inflação levou à nomeação de Domingo Cavallo para ministro da Economia, em 1991. Ele dolarizou a economia do país, criando a paridade dólar-peso, que resolveu o problema da inflação por algum tempo, mas terminou em desastre.

Menem mudou a Constituição para concorrer a um segundo mandato, governando por dez anos, mas não elegeu o sucessor. O candidato peronista, Eduardo Duhalde, seu vice no primeiro governo, perdeu em 1999 para o radical Fernando de la Rúa, que teve 48,5% dos votos.

De la Rúa foi um presidente fraco que herdou uma política de que discordava e que já começava a dar problemas, mas não soube desarmar a bomba-relógio da dolarização, sacramentada pela Lei da Convertibilidade, que só poderia ser transformada pelo Congresso. O simples debate para mudá-la seria capaz de deflagrar uma grande especulação financeira.

COLAPSO
Em março de 2001, De la Rúa nomeou Cavallo para ministro da Economia na esperança de salvar a dolarização. Em 1º de dezembro, o governo decretou estado de emergência financeiro, congelando os depósitos bancários por 90 dias, no chamado corralito, curralzinho, em português.

Diante de violentas manifestações que terminam com 39 mortes, De la Rúa renunciou em 20 de dezembro de 2001 e fugiu da Casa Rosada de helicóptero. Três dias depois, a Argentina suspendeu o pagamento de sua dívida pública de US$ 81,8 bilhões.

Pela segunda vez, uma crise econômica encurtava o mandato de um presidente da União Cívica Radical (UCR). Desaba a credibilidade do partido como alternativa de poder, consolidando a hegemonia peronista.

O presidente do Senado, Ramón Puerta, presidiu o país por dois dias, passando o poder para Adolfo Rodríguez Saá, que durou uma semana no cargo. Em seguida, veio Eduardo Camaño, que ficou três dias na presidência.

ESTABILIZAÇÃO
Em 2 de janeiro de 2002, assumiu a Presidência da Argentina Eduardo Duhalde, o candidato derrotado em 1999, para terminar o mandato de De la Rúa e evitar a realização de eleições em plena crise. Seu maior objetivo era controlar a pior crise da história econômica de um país relativamente desenvolvido.

O governo suspendeu o pagamento da dívida pública de US$ 100 bilhões. As contas em dólares desapareceram. Foram convertidas em pesos com 30% do valor. Cerca de 58% dos argentinos caíram abaixo da linha de pobreza, em comparação com 24% em 1999, quando De la Rúa fora eleito.

O embaixador Roberto Lavagna foi nomeado ministro da Economia, com a função prioritária de renegociar a dívida. O PIB caiu 10,9% em 2002, mas a economia reagiu no início de 2003, crescendo 5% no primeiro trimestre, antes da eleição de abril de 2003.

ERA KIRCHNER
Duhalde indicou o governador da província de Santa Cruz, na Patagônia, Néstor Kirchner, como candidato da esquerda peronista para evitar a volta de Menem. Kirchner ficou em segundo lugar no primeiro turno, com 22% dos votos, atrás de Menem, que teve 24,5% da votação mas desistiu de disputar o segundo turno para negar legitimidade ao rival.

Kirchner se antoinvestiu da missão desmontar o neoliberalismo da era Menem, que julgava responsável pela crise econômica. Entre as realizações de seu governo, estão a redução à metade dos índices de desemprego e miséria, a reabertura dos processos por violações de direitos humanos durante a ditadura militar, o fortalecimento das relações com a América Latina, a rejeição junto com o resto do Mercosul e a Venezuela da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), e a renegociação da maior parte da dívida.

Em 2005, foram revogadas todas as leis de anistia e os processos por violações de direitos humanos durante a ditadura foram retomados. O general Videla, líder do golpe de 1976, foi condenado à prisão perpétua pela morte de 31 prisioneiros e a mais 50 anos pelo sequestro e desaparecimento de crianças, antes de morrer, em 17 de maio de 2013.

Aré 2007, a Argentina viveu um processo econômico virtuoso, com aumento do salário real, crescimento da qualidade e da quantidade de empregos, expansão da indústria e da construção civil, diminuição da pobreza e melhoria na distribuição da riqueza. Mesmo assim, Néstor preferiu não concorrer à reeleição, indicando sua mulher Cristina Fernández de Kirchner como sucessora.

A PRESIDENTA
Cristina Kirchner tornou-se em 28 de outubro de 2007 a primeira mulher eleita presidente da Argentina, com 45% dos votos contra 23% para Elisa Carrió. Na Argentina, basta ter 40% dos votos e ficar 10 pontos percentuais à frente do segundo colocado para ganhar no primeiro turno.

Seu governo começa quando a crise financeira internacional se agravava, complicando a situação da Argentina, que não voltou plenamente ao mercado desde a moratória de 2001. Para garantir o caixa do governo, Cristina aumentou a alíquota do imposto sobre exportação de grãos, que para grandes volumes passou de 35%.

REVOLTA DO CAMPO
O impostaço gerou uma revolta no campo, com uma greve (locaute) de cem dias de produtores rurais que causou desabastecimento e marchas de panelas vazias. Quando a Lei de Retenções foi à votação no Congresso, houve empate no Senado e o vice-presidente Julio Cobos deu o voto de minerva a favor dos ruralistas, deflagrando uma crise no governo.

GUERRA AO CLARÍN
O principal grupo de mídia argentino, liderado pelo jornal Clarín, que apoiara Néstor Kirchner, ficou ao lado dos ruralistas. O casal Kirchner declarou guerra ao jornal. Conseguiu aprovar uma Lei de Meios de Comunicação para obrigar o grupo a devolver mais de 200 licenças de rádio e televisão. O caso se arrastou na Justiça durante anos. O governo ganhou.

MANIPULAÇÃO
Desde a campanha para a eleição de Cristina, o casal Kirchner foi acusado de manipular os índices oficiais de inflação do Indec. Em 2012, a inflação oficial ficou em 10%, enquanto institutos independentes estimam que tenha sido de 25%. O FMI advertiu o governo argentino que não confiaria mais nas estatísticas oficiais argentinas se não houve uma revisão no método de cálculo.

REELEIÇÃO
Quando tudo indicava que Néstor Kirchner preparava uma volta ao poder em 2011, o ex-presidente morreu de um ataque cardíado, em outubro de 2010. Coube a Cristina, embalada pela recuperação pós-crise, defender o poder do clã.

Em 23 de outubro de 2011, ele obteve 54% dos votos, a quarta maior votação da história argentina, com uma diferença de 37,3 pontos para o segundo colocado, a maior da história.

CRISE
Com a falta de investimento externo, escassez de divisas e inflação em alta, Cristina Kirchner apelou para medidas como controle do câmbio e congelamento de preços, sem muito sucesso.

Sua popularidade caiu pela metade desde a reeleição. Sem obter maioria no Congresso nas eleições parlamentares intermediárias de outubro de 2013 para mudar a Constituição, Cristina não pode se candidatar de novo em 2015.

No fim de agosto de 2013, o governador da Província de Buenos Aires, Daniel Scioli, começou a articular a candidatura da Frente pela Vitória, a facção kirchnerista. Defende a realização de eleições prévias para que o peronismo tenha um candidato único, o que não acontece desde 1999.

O candidato da direita peronista pode ser o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, ex-presidente do Boca Juniors, enquanto a União Cívica Radical e o Partido Socialista articulam uma chapa de centro-esquerda.

A grande estrela das eleições de 2013 foi o ex-chefe de gabinete de Cristina, ex-prefeito de Tigre e atualmente deputado Sergio Massa, outro nome que desponta para disputar. Elegeu-se pela Frente Renovadora (do peronismo).

PAPA ARGENTINO
Em 13 de março de 2013, o cardeal Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, foi eleito o primeiro papa latino-americano e adotou o nome de Francisco, indicando a intenção de fazer da humildade a marca de seu pontificado.

Francisco logo se revelou um pastor hábil e um grande diplomata, conseguindo agradar a todos ou quase todos. Grande crítico do kirchnerismo, ele chegou a ser apontado como verdadeiro líder da oposição pelo então presidente Néstor Kirchner, em 2004. Cristina Kirchner logo entendeu que não pode brigar com um papa argentino.

A ala mais radical do movimento das Mães da Praça de Maio acusou Bergoglio de omissão diante dos abusos de direitos humanos cometidos pela ditadura militar, mas o ganhador do Prêmio Nobel da Paz 1980, o ativista Adolfo Pérez Esquivel, o defendeu, negando a cumplicidade do papa com os crimes da guerra suja argentina.

No dia seguinte à sua eleição, diversos repressores da ditadura que estão sendo processados compareceram ao tribunal com insígnias do Vaticano na lapela.

RELAÇÕES COM O BRASIL
Depois de uma história conturbada e de uma rivalidade alimentada pelo fato de que a Argentina, mesmo sendo menor, era mais rica do que o Brasil, os dois países se tornaram sócios no Mercosul e hoje são aliados, embora seja uma parceria incerta, marcada por desconfianças mútuas.

A formação do Mercosul é resultado da democratização da América Latina nos anos 1980s, que acabou com a suspeição mútua, e da adoção de políticas de abertura comercial justificadas em parte pela integração econômica.

Essa reaproximação começa ainda no regime militar, quando o presidente João Figueiredo, que vivera exilado na Argentina quando menino, se empenhou em resolver a questão em torno do aproveitamento energético do Rio Paraná. Quando o Brasil anunciou a construção de Itaipu, a Argentina temia que o potencial energético fosse esgotado. Os dois países chegaram a um acordo em 1979.

INTEGRAÇÃO ECONÔMICA
Com a democratização da Argentina, em 1983, e do Brasil, em 1985, os presidentes José Sarney e Raúl Alfonsín iniciaram o processo de integração econômica do continente. Naquele momento, os dois países estavam marginalizados pelo sistema financeiro internacional por causa da crise da dívida.

Além de um acordo sobre bens de capital e outras iniciativas econômicas, em 1989, os dois países chegaram a um acordo para abandonar seus programas nucleares militares e abrirem suas instalações atômicas a inspeções mútuas e da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

MERCOSUL
Quando Menem e Fernando Collor chegaram ao poder em 1989, com o fim da Guerra Fria e uma nova onda de globalização, a negociação do Acordo de Livre Comércio da América do Norte entre EUA, México e Canadá, em 1990, pressionou Brasil e Argentina a seguirem o mesmo caminho.

Com a integração dos sócios menores, Paraguai e Uruguai, que não poderiam ficar de fora de um acordo entre Brasil e Argentina, o Tratado de Assunção criou o Mercosul em 26 de março de 1991.

Desde então, o bloco enfrentou crises, desvalorização de moedas e, recentemente, o afastamento temporário do Paraguai por causa do golpe contra o presidente Fernando Lugo. Recebeu a adesão da Venezuela e tem agora pedidos de associação da Bolívia e do Equador.

A nova crise da dívida argentina exige um controle ainda maior do câmbio. Como o país absorvia 90% das exportações brasileiras de automóveis, o setor já prevê uma queda de 10% da produção no Brasil.

CULTURA
Com sua cultura transplantada da Europa, Buenos Aires é uma das cidades mais cosmopolitas da América. Tem seus cafés, teatros e restaurantes, uma vida cultural vibrante e a fama de virar a noite com suas danceterias que começam a funcionar a uma da madrugada. Mais de 97% dos argentinos são alfabetizados.

 A Biblioteca Nacional, fundada em 1810, tem mais de 2 milhões de volumes. A capital argentina tem ainda museus de arte moderna, de arte latino-americana, história natural, arqueologia, etnografia, design e um dedicado à memória de Evita. A esquerda peronista o acusa de ser parte de uma conspiração da oligarquia para colocar Evita acima de Perón.

LITERATURA
O país tem grandes escritores, como Domingo Sarmiento, José Hernández, autor do poema épico Martín Fierro, Jorge Luis Borges, Julio Cortazar, Adolfo Bioy Casares, Ernesto Sábato, Manuel Puig, Tomás Eloy Martínez, Alicia Portnoy e Luisa Valenzuela.

CINEMA
A Argentina produz cerca de 80 filmes de longa-metragem por ano. Tem uma das maiores quantidades de salas por habitante da América Latina e o maior índice de frequência ao cinema do continente.

Filmes como La Historia Oficial, de Luis Puenzo, de 1985, falando sobre a adoção de crianças sequestradas pela ditadura e Tangos – o exílio de Gardel, de Fernando Pino Solanas, de 1986, são tentativas de encarar a própria história trágica depois da democratização.

O ator Ricardo Darín, estrela de filmes como Carancho e Una pistola en cada mano, ganhou fama internacional.

MÚSICA
O Teatro Colón, de Buenos Aires, inspirado no Scala, de Milão. Com uma das melhores acústicas do mundo, foi palco para compositores como Alberto Ginestera e Juan Carlos Paz.

No rock argentino, destacam-se Charly García e Fito Páez. Mas a grande contribuição argentina à música está no tango.

TANGO
A música típica argentina tem suas origens nas danças e “reuniões de negros” no começo do século 19 nas margens do Rio da Prata, sustenta Diego Arguindeguy em 365 dias para conocer la historia argentina. Os primeiros registros documentados são de autoridades interessadas em reprimir sua prática.

Para a Enciclopédia Britânica, o tango mistura o tango espanhol, uma variedade do flamenco, com a habanera cubana e a milonga argentina.

Era uma dança de gaúchos, criollos e mestiços, de cabarés, com letras de amor, violência e traição, rejeitada pela aristocracia rural e a elite portenha. Quando começou a fazer sucesso em Paris e convidaram o embaixador argentino para uma apresentação, ele rejeitou o convite. Era uma música e dança para desclassificados.

Quando a delegação da Espanha chegou a Buenos Aires para a festa do centenário da independência da Argentina, em 1910, a princesa Isabel de Bourbon quis fazer o que todo turista faz: ver um espetáculo de tango. Imediatamente, o tango virou moda.

Seu maior nome, Carlos Gardel, não era tão famoso quando morreu num acidente de avião em Medelim, na Colômbia, em 1935, quanto se tornou. Perón promoveu o tango como um elemento importante da identidade cultural argentina.

Até hoje se discute se Gardel era argentino, uruguaio ou francês. Essa névoa reforça a imagem do mito. A julgar pelas fotos que se veem nas bancas de jornais e revistas na Argentina, os grandes ídolos da nacionalidade são Carlos Gardel, Evita Perón e Ernesto Che Guevara, acima de Diego Maradona, Lionel Messi e o general Juan Domingo Perón.

Outros nomes importantes do tango foram Anibal Troilo, Osvaldo Pugliese, Juan d’Arienzo e Astor Piazzolla, que modernizou o tango, dando-lhe um caráter universal.

PICARDIA
Muito associada ao tango e à malícia é a chamada picardia ou viveza criolla, a malandragem ou falsa malandragem argentina, a habilidade para enganar ou passar os outros para trás, o recurso dos gaúchos e deserdados pela vida na luta diária contra os ricos e poderosos.

O princípio básico é que é legítimo para as vítimas subverter a ordem estabelecida, numa distorção do “direito à sedição” do filósofo liberal inglês John Locke, o primeiro a defender a ideia de que os governantes devem ter o consentimento dos governados.

A picardia é um elemento central do futebol argentino, o que explica o orgulho com o gol de mão de Maradona na Copa de 1986.

CULINÁRIA
Outro elemento essencial da cultura argentina é a alimentação baseada na carne e no assado chapa ou parrilla, a parrillada, símbolo da cultura gaúcha. Há também as massas trazidas pelos imigrantes italianos, os embutidos de carne e as sobremesas com receitas importadas da Europa.

Além disso, há as invenções criollas, as empanadas, espécie de pastéis de forno, locro, uma mistura de milho, feijão, carne, bacon e cebola, o choriço, uma linguiça apimentada, o doce de leite, os sanduíches de miga e a erva mate, tomada com açúcar, diferentemente do que acontece no Rio Grande do Sul, onde os gaúchos brasileiros preferem o mate amargo.

A indústria de vinho argentina é uma das maiores e mais importantes do mundo fora da Europa. Os vinhos nobres, de exportação, são produzidos na Província de Mendoza, enquanto os mais populares vêm de La Rioja. A uva Malbec, francesa, produz melhores vinhos na Argentina.

ESPORTE
Por causa de sua cultura da campo e da influência britânica, a Argentina é uma potência mundial no polo, graças à força de seus cavalos e à destreza de seus cavaleiros. As classes média e alta são associadas a clubes que oferecem esportes como tênis, remo, vela.

AUTOMOBILISMO
Em outro esporte de elite, um dos maiores campeões de automobilismo até hoje é o argentino Juan Manuel Fangio, que recebeu ajuda de Perón para correr na Europa e dominou a primeira década da Fórmula Um ganhando cinco campeonatos mundiais.

Até hoje, Fangio tem o maior percentual de vitórias da F-1, 46%. Venceu 24 das 52 corridas que disputou.

Na época de Emerson Fittipaldi, um de seus adversários era o argentino Carlos Reutemann, vice-campeão por um ponto em 1981, que depois fez carreira política levado por Menem e foi governador da província de Santa Fé.

RÚGBI
A Argentina tem uma importante seleção de rugby conhecida como Os Pumas e muitos jogadores atuam na Europa. Como seus jogadores eram de esquerda, a seleção foi dizimada pela última ditadura militar argentina. Em 2007, ficou em terceiro lugar no Mundial da França.

TÊNIS
Com quatro títulos de Grand Slam, o argentino Guillermo Vilas é considerado o maior tenista latino-americano de todos os tempos. De 1974 a 1982, esteve entre os dez melhores do mundo. Há sempre vários tenistas argentinos no circuito mundial. O destaque no momento é Juan Martín del Potro. Recentemente, na era Guga, jogavam Gastón Gaudio, Guillermo Coria e David Nalbandián.

BASQUETE
O segundo esporte mais popular na Argentina é o basquete. A geração de Manu Ginobili, do San Antonio Spurs, na NBA, Luis Scola, Andrés Nocioni, Carlos Delfino e Fabricio Otero ganhou medalha de ouro na Olimpíada de 2004 e bronze em 2008.

FUTEBOL
O futebol é longo o esporte mais popular no país. A seleção argentina tem 25 títulos internacionais, inclusive duas Copas do Mundo, duas medalhas de ouro em Olimpíadas e 14 Copas Américas.

Mais de mil argentinos jogam profissionalmente no exterior, com destaque para o rosarino Lionel Messi, eleito quatro vezes o melhor jogador do mundo. Em 2009, havia 331.881 jogadores registrados na Associação de Futebol de Argentina (AFA). Nos últimos anos, aumentou muito o número de mulheres.

O Club Atlético Boca Juniors é o mais popular da Argentina. Ganhou seis Copas Libertadores e 30 campeonatos nacionais. Seu estádio, La Bombonera, fica na Boca, tradicional bairro operário de imigrantes italianos, uma das atrações de Buenos Aires. Por falta de espaço, é muito verticalizado. Com uma torcida passional e entusiasmada, é um dos maiores, senão o maior, alçapões do futebol mundial.

O Club Atlético Independiente, de Avellaneda, na Grande Buenos Aires, tem um recorde de sete vitórias na Copa Libertadores da América, além de dois títulos mundiais, em 1973 e 1984. De 1972 a 1975, foi teatracampeão. Ganhou 16 campeonatos argentinos, mas foi rebaixado e disputa a temporada 2013-14 na segunda divisão.

Maior campeão nacional, com 35 títulos, o Club Atlético River Plate, conhecido como conjunto milionário, ganhou duas Copas Libertadores e um título mundial. Seu estádio, o Monumental de Núñez, é o maior da Argentina. Foi palco da decisão da Copa de 1978, primeiro título mundial da seleção argentina.

O futebol de praia e o futebol de salão são cada vez mais populares.

COPA ROCA
De 1914 a 1976, as seleções de futebol do Brasil e da Argentina disputaram regularmente um torneio bilateral. A Copa Roca foi uma iniciativa do presidente Julio Argentino Roca, que era embaixador no Brasil em 1913, depois de governar a Argentina por dois mandatos.

A Copa Roca foi disputada onze vezes, com sete vitórias do Brasil, três da Argentina e um empate. Pelé estreou e marcou seu primeiro gol pela seleção brasileira numa Copa Roca, em 7 de julho de 1957, no Maracanã, mas a Argentina venceu a partida por 2-1.

VITÓRIA MORAL?
Em 1978, a FIFA ainda não havia introduzida a regra que obriga a disputar os jogos decisivos do mesmo grupo no mesmo horário.

Quando o Brasil derrotou a Polônia por 3-1, depois de empatar com a Argentina em 0-0, na segunda fase do mundial, que naquela época era disputada em grupos, a seleção argentina entrou em campo para jogar contra o Peru sabendo que precisaria de um saldo de quatro gols e ganhou por 6-0.

O capitão Claudio Coutinho, treinador brasileiro, que levara um time retranqueiro, deixando Falcão no Brasil, alegou que o Brasil era campeão moral porque a Argentina haveria manipulado o jogo contra o Peru.

COPA SOB DITADURA
No livro La Verguenza de Todos:o dedo na chaga do Mundial 78, o jornalista, militante de esquerda e hoje advogado Pablo Llonto fala da importância política do Mundial para a ditadura militar argentina, que sequestrou pelo menos 67 pessoas durante a Copa.

Pelo relato de Llonto, o zagueiro Rodolfo Manso teria recebido na terça-feira 20 de junho de 1978 em telefonema anônimo uma oferta de US$ 50 mil para “deixar a Argentina ganhar por mais de quatro gols. Não te esqueças, negro, são 50 mil verdinhas”, disse a voz grossa e arrogante do outro lado da linha.

BRASIL OFERECEU MIMO
O Brasil já tinha feito sua oferta, afirma Llonto: US$ 6 mil por cabeça mais férias na Ilha de Itaparica.

A delegação peruana estava dividida entre jogadores do Alianza e do Sporting Cristal. A estrela do time, José Muñante, que jogava no México e estava fora dessa briga, se desentendeu com o técnico, que lhe pediu mais empenho no intervalo do jogo com a Polônia.

Eliminado antes do jogo contra a Argentina, o Peru foi aconselhado por seus guarda-costas a passear. Francisco Morales Bermúdez, filho do ditador peruano do mesmo nome, que acompanhava a delegação, se declarava muito amigo dos militares argentinos.

Um ex-militante montonero sequestrado em Lima em 1977 foi entregue na sinista Escola de Mecânica da Armada (Esma), em Buenos Aires. Os regimes militares se associavam.

INTIMIDAÇÃO
Sem polícia para reprimir, a torcida argentina fez festa e soltou foguetes a noite toda junto ao hotel do Peru.

Na manhã seguinte, o motorista de ônibus chegou armado e acompanhado de quatro policiais. O trajeto até o estádio do Rosário Central levou duas horas. Os jogadores peruanos eram xingados e intimidados ao longo do caminho.

Manzo e Velázquez estavam machucados, mas foram escalados pelo técnico Marcos Calderón. Hugo Sotil e La Rosa ficaram no banco.

Havia suspeitas no plantel sobre a lealdade do goleiro Quiroga, argentino naturalizado peruano por influência de Morales Bermúdez, filho.

VIDELA NO VESTIÁRIO
Os peruanos chegaram ao estádio uma hora antes do jogo. Quando a porta do vestiário se abriu, às 18h25, o corredor estava cheio de homens de óculos escuros. Não era a primeira vez que o ditador Jorge Videla ia a um jogo da Copa, mas a primeira em que visitou o vestiário da equipe visitante.

Estava começando o que o jornalista chama de partida mais longa do mundo. O primeiro tempo terminou 2-0. Não classificava a Argentina. Menotti pediu velocidade ao time. Nos primeiros seis minutos do segundo tempo, Kempes e Luque fizeram os 4-0 que classificavam a Argentina para a grande final. O placar final de 6-0 foi estabelecido 20 minutos antes de acabar o jogo.

Enquanto a pequena torcida peruana os chamava de “vendidos” e “traidores”, Héctor Chumpitaz foi um dos poucos que falou, mas seu desejo nunca será realizado: “O que aconteceu hoje é melhor esquecer”.

No vestiário argentino, Videla cumprimentava os heróis da pátria.

SUBORNO?
Em Como roubaram a Copa, o jornalista investigativo inglês David Yallop, autor de Em nome de Deus, alegando que o papa João Paulo I foi assassinado, afirma que a ditadura militar argentina subornou o Peru com 35 mil toneladas de trigo, o descongelamento de uma linha de crédito de US$ 50 milhões e propinas menores para funcionários subalternos peruanos saídas de contas da Marinha argentina.

Cada jogador peruano selecionado para participar do esquema, não teriam sido todos, recebeu US$ 20 mil, alega Yallop. Foi um suborno de alto nível. O dinheiro teria saído da junta militar argentina para a junta militar peruana, que teria se encarregada de fazer a entrega na etapa final da corrupção.

Oito anos depois, na Copa de 86, Oblitas, um dos craques chamuscados nesta história, declarou: “Houve coisas muito estranhas naquela partida. Quatro ou cinco jogadores peruanos se venderam.” Teófilo Cubilas, um dos melhores jogadores peruanos daquela geração, respondeu que tantos anos depois era melhor ficar calado.