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quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Hoje na História do Mundo: 29 de Dezembro

MASSACRE DE WOUNDED KNEE

    Em 1890, num dos últimos episódios da Guerras Indígenas dos Estados Unidos, um regimento de cavalaria do Exército mata 146 índios sioux na reserva de Pine Ridge, no estado de Dakota do Sul.

Ao longo daquele ano, o governo dos EUA se preocupa com a influência cada vez maior do movimento espiritual Dança Fantasma em Pine Ridge, que diz que os índios haviam sido derrotados e confinados em reservas por abandonar suas tradições.

Muitos sioux acreditam que, se fizerem a Dança Fastasma e rejeitarem o modo de vida do homem branco, o mundo será recriado pelos deuses e todos que não são fiéis vão desaparecer.

Em 15 de dezembro, a polícia da reserva tenta prender o cacique Touro Sentado, líder histórico dos sioux e o mata. No dia 29, os soldados cercam a reserva e intimam os índios a entregar as armas. Quando um índio se desentende com um policial, alguém dá um tiro e começa o massacre. Além dos índios, morrem 25 militares.

MORTE DE PELÉ

    Em 2022, morre de câncer aos 82 anos Edson Arantes do Nascimento, Pelé, o maior jogador de futebol de todos os tempos.

O menino pobre nasceu em Três Corações, em Minas Gerais, e trabalhou como engraxate antes de ir para o Santos aos 15 anos. Aos 16 anos, estreou na seleção brasileira marcando um gol numa derrota de 2-1 para a Argentina no Maracanã. Aos 17 anos, ganhou a primeira de três Copas do Mundo. É o único jogador que conseguiu isso.

Ao longo da carreira, marcou 1.283 gols, elevou a autoestima milhões de jovens de origem africana, parou uma guerra civil na África e tornou-se o maior embaixador do Brasil, reconhecido praticamente em todo o mundo. Morreu o Edson. Pelé será para sempre lembrado.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Equilíbrio da Copa reflete globalização do futebol

 A primeira fase da Copa do Mundo do Catar apresentou um equilíbrio relativo que reflete a globalização do futebol. Nenhuma seleção venceu os três jogos. Só o Catar e o Canadá perderam todos. A maioria dos jogadores atua em grandes liga e conhece os adversários.

Se a globalização é fruto do desenvolvimento das tecnologias de comunicações e de transportes, o futebol se tornou uma paixão global e um grande negócio na era da televisão e do avião, que encurtou as distâncias. 

A Copa do Mundo é o exemplo máximo da globalização do futebol. Nestas oitavas de final, estão representados todos os continentes, menos a Antártida. 

São oito seleções da Europa (Holanda, França, Polônia, Inglaterra, Croácia, Espanha, Portugal e Suíça), três da América (Argentina, Brasil e EUA), duas da África (Marrocos e Senegal) duas da Ásia (Coreia do Sul e Japão) e uma da Oceania (Austrália). Meu comentário:

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Copa tem impacto político e expõe ditaduras

A Copa do Mundo de 2022 está sendo marcada por uma série de controvérsias, a começar pela escolha como país-sede do Catar, uma monarquia absolutista, uma ditadura que não respeita os direitos humanos, discrimina mulheres e gays, e explora os trabalhadores migrantes, que são a maioria da população do país.

A revista inglesa The Economist defendeu a decisão da Fifa (Federação Internacional de Futebol Associativo) sob o argumento de que outras ditaduras também organizam grandes eventos esportivos. A Rússia sediou a Copa de 2018. A China realizou a Olimpíada de Verão em 2008 e a Olimpíada de Inverno em 2022.

Já entrou para a história a foto do time da Alemanha com os jogadores tapando a boca em protesto contra a censura porque várias seleções europeias foram proibidas pela Fifa de usar a braçadeira de capitão nas cores do arco-íris, símbolo do movimento LGBTQIAP+. Meu comentário:

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Não dá mais para tolerar o racismo no país do futebol

 Mais uma página infeliz da nossa história foi traçada no domingo no Maracanã. A pandemia poupou a torcida de presenciar mais um crime de injúria racial quando o colombiano Juan Pablo Índio Ramírez soltou um "cala a boca, negro!" para Gérson, do Flamengo, um novo canhotinha de ouro. O treinador do Bahia, já demitido, tentou tirar proveito da situação. Cobrou do quarto árbitro a expulsão da vítima.

Leia mais em Quarentena News.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

A morte e a morte de Diego Maradona, monstro da história do futebol

 A Argentina, um país tão trágico, chora a morte de um de seus maiores ídolos populares, ao lado de Carlos Gardel, Juan Domingo Perón, Evita, Juan Manuel Fangio, Alfredo di Stefano e Ernesto Che Guevara. Diego Armando Maradona Franco foi um dos maiores craques da história do futebol, mas não foi melhor do que Pelé. 

Maradona foi um Garrincha, um jogador inesquecível para quem o viu, criativo, endiabrado e imarcável dentro de campo com problemas extracampo, no caso de Maradona com álcool e drogas. Dieguito e Mané foram anjos caídos, geniais e divinos com a bola nos pés, e tão frágeis e humanos na vida pessoal. Meu comentário:

terça-feira, 12 de junho de 2018

RÚSSIA: uma potência esportiva manchada pelo doping

Somando o total de medalhas olímpicos ganhas pela Rússia e pela URSS, o país é o segundo maior vencedor tanto nos Jogos de Verão quanto nos de Inverno. Em 14 de suas 18 participações em olimpíadas, a URSS foi campeã. Mas o doping mancha suas vitórias.

Atletas, ginastas, halterofilistas, boxeadores, nadadores, atiradores, esquiadores, esgrimistas e patinadores soviéticos e russos sempre estiveram entre os melhores do mundo, assim como suas equipes de basquete, vôlei, handebol e hóquei no gelo, enquanto os times de futebol sempre foram temidos, mas tiveram comportamento irregular.
Grandes atletas viraram heróis nacionais, como o nadador Alexander Popov, nos anos 1990s, e o recordista mundial de salto em altura Valeri Brumel, nos anos 1960s. Outro exemplo é a supercampeã de salto com vara Yelena Issinbaieva, que cometeu uma gafe ao dizer que não existem homossexuais na Rússia, mas voltou atrás sob pressão dos patrocinadores.
Com um total de 14 medalhas individuais e quatro por equipe, sendo nove de ouro, a ginasta russa Larissa Latinina foi a maior medalhista olímpica por 48 anos, até ser superada pelo nadador americano Michael Phelps, que conquistou 22 medalhas, das quais 18 de ouro.
A seleção de hóquei foi campeã mundial em 2012.
De 7 a 23 de fevereiro, a Rússia sedia a 22ª Olimpíada de Inverno, em Sóchi, na região de Krasnodar. Os Jogos de Sóchi foram considerados os mais corruptos da História, com orçamento de US$ 50 bilhões e fartos negócios para amigos do Kremlin.

ESCÂNDALO DO DOPING

Desde a era soviética, quando o esporte era instrumento de propaganda, havia fortes suspeitas de uso de doping por atletas de países comunistas. Em 2014, a televisão alemã ARD revelou um vasto esquema estatal para encobrir a dopagem de atletas de elite, inclusive com troca de amostras usadas em exames para enganar as autoridades.
Vitaly Stepanov, da Agência Antidoping da Rússia, e sua mulher revelaram que os atletas davam 5% dos seus prêmios à Federação de Atletismo em troca da falsificação dos testes de controle antidoping.
Mais de mil esportistas russos foram beneficiados por esse esquema oficial de acobertamento do doping de 2011 a 2015. Vários foram proibidos de competir em suas modalidades esportivas. A Rússia teve devolver 41 medalhas olímpicas.
Na Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016, a Rússia tentou inscrever 389 atletas e 111 foram rejeitados. A Rússia foi banida da Olimpíada de Inverno de Pyeongchang, realizada em fevereiro de 2018 na Coreia do Sul. Alguns atletas russos competiram sob a bandeira do Comitê Olímpico Internacional (COI).

FUTEBOL

O futebol é o esporte mais popular na Rússia. A URSS foi a primeira campeã da Copa Europeia de Seleções, em 1960. Em 2008, a Rússia foi eliminada pela campeã Espanha na semifinal.
O grande herói do futebol soviético foi o goleiro Lev Yashin, a Aranha Negra, principal responsável pela medalha de ouro da equipe na Olimpíada de Melbourne, em 1956, titular nas Copas de 1958 e 1962.
A URSS participou da Copa do Mundo pela primeira vez em 1958, na Suécia, quando ficou em segundo lugar no grupo do Brasil depois de empatar em 2-2 com a Inglaterra, ganhar de 2-0 da Áustria e perder de 2-0 para o Brasil, com dois gols de Vavá, em Gotemburgo, diante de 50 mil torcedores, na partida que revelou Garrincha e Pelé para o mundo. Nas quartas de final, foi eliminada pela Suécia por 2-0.

MANÉ E PELÉ

Antes da partida, quando o técnico Vicente Feola explicava ao time brasileiro seu plano de jogo, Garrincha fez a famosa pergunta: “O senhor já combinou com os russos?”
Feola estava confiante. Sentado no hall do hotel com os veteranos Didi e Nilton Santos assistindo a um jogo da URSS, o técnico teria comentado: “Esses russos não jogam nada”. Didi reagiu prontamente: “Jogam sim. Está todo o mundo com medo. Se o senhor não escalar o Mané e o Pelé, vai ser muito difícil.”
Garrincha e Pelé acabaram com o jogo. O Brasil fez 1-0 aos 3 minutos depois de jogar duas bolas na trave. O placar só não foi maior por causa de Yashin. Kusnetsov, marcador de Garrincha, foi ao hotel no dia seguinte para conseguir pegar o Mané, descrito pela imprensa como “o melhor reserva do mundo”.
No Chile, em 1962, a URSS ganhou da Iugoslávia por 2-0, empatou em 4-4 com a Colômbia e derrotou o Uruguai por 2-1, classificando-se em primeiro lugar na primeira fase. Como em 1958, perdeu para os donos da casa nas quartas de final, desta vez por 2-1.

QUARTO LUGAR

O melhor desempenho soviético em Copas do Mundo viria em 1966, na Inglaterra, quando a URSS ficou em quarto lugar. Na primeira fase, ganhou da Coreia do Norte por 3-0, da Itália por 1-0 e do Chile por 2-1. Nas quartas de finais, bateu a Hungria por 2-1, caindo na semifinal para a Alemanha por 2-1 e na decisão do terceiro lugar para Portugal também por 2-1.
Em 1970, a URSS fez o jogo de abertura contra o anfitrião México, empatando em 0-0, ganhou da Bélgica por 4-1 e de El-Salvador por 2-0. Nas quartas de finais, foi eliminada pelo Uruguai na prorrogação com um gol irregular numa bola cruzada depois de ter saído meio metro pela linha de fundo.
A URSS não participou da Copa de 1974, na Alemanha. Negou-se a disputar uma partida eliminatória contra o Chile no Estádio Nacional de Santiago, que tinha sido usado como centro de detenção e tortura pela ditadura do general Augusto Pinochet logo após o golpe militar de 11 de setembro de 1973.

ÉDER SALVOU

Ao voltar à Copa do Mundo em 1982, no México, a URSS caiu mais uma vez no grupo do Brasil, que a derrotou no difícil jogo de estreia com gols de Sócrates e Éder. Depois de uma falha de Valdir Peres no gol russo, a vitória só veio a três minutos do final. 
Com vitória de 3-0 sobre a Nova Zelândia e empate em 2-2 com a Escócia, a URSS se classificou em segundo lugar. Na segunda fase, a disputa era num grupo de três. A URSS ganhou de 1-0 da Bélgica e empatou em 0-0 com a Polônia. Foi eliminada pelo saldo da Polônia que fez 3-0 na Bélgica.
A última grande seleção soviética a disputar uma Copa foi a de 1986, cuja base era o Dínamo de Kiev, da Ucrânia. Ganhou de 6-0 da Hungria, empatou em 1-1 com a França e venceu o Canadá por 2-0. Na segunda fase, foi eliminada pela surpreendente Bélgica por 4-3 na prorrogação depois de empate em 2-2 no tempo normal.
Na Itália, em 1990, a URSS perdeu por 2-0 para a Romênia e para a Argentina. Ganhou de 4-0 de Camarões, mas foi eliminada na primeira fase.

RÚSSIA EM CAMPO

A Rússia participou pela primeira vez de uma Copa nos EUA em 1994, caindo no grupo do Brasil na primeira fase, quando perdeu de 2-0 para o Brasil, gols de Romário e Raí, e de 3-1 para a Suécia, sendo eliminada apesar de fazer 6-1 em Camarões.
A próxima participação russa foi em 2002. Ganhou de 2-0 da Tunísia na estreia, mas foi eliminada com derrotas por 1-0 para o Japão e 3-2 para a Bélgica.
A Rússia se classificou para a Copa de 2014 como primeira colocadano grupo onde também estavam Portugal, Israel, Irlanda do Norte, Azerbaijão e Luxemburgo com sete vitórias, um empate e duas derrotas, para Portugal e Irlanda do Norte.
No Brasil, empatou com a Coreia do Sul e a Argélia em 1-1 e perdeu de 1-0 para a Bélgica, sendo eliminada na primeira fase.
Sem disputar eliminatórias, chega à Copa de 2018 como grande zebra, onde vai enfrentar a Arábia Saudita na abertura do Mundial, em 14 de junho, e depois o Egito e o Uruguai.
O CSKA de Moscou e o Zenit de São Petersburgo ganharam a Copa da UEFA em 2005 e 2008.

CONFRONTOS DIRETOS

O Brasil jogou 7 vezes com a URSS. Ganhou 5, empatou 1 e perdeu 1 partida, por 2-1, no Maracanã em 15 de junho de 1980, com gol de Nunes. Marcou 13 gols e sofreu 5. Contra a Rússia, jogou 5 vezes, ganhou 3 e empatou 2, fez 11 gols e levou 4.
Em 21 de novembro de 1965, diante do senador americano Bob Kennedy, Brasil e URSS empataram em 2-2 no Maracanã. O Brasil fez 2-0 com gols de Gérson e Pelé, mas o goleiro Manga bateu um tiro de meta na cabeça do centroavante Anatoli Banishevski e o craque soviético Slava Metreveli empatou aos 40 min do segundo tempo.
No último confronto, sem Neymar, em 23 de março de 2018, o Brasil venceu a Rússia por 3-0 no estádio da final da Copa, em Moscou, com gols de Miranda, Philippe Coutinho e Paulinho.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Aquecimento correto reduz em 50% lesões de crianças no futebol

Um programa de exercícios de aquecimento desenvolvido especialmente para crianças conseguiu reduzir à metade o número de lesões em jogos de futebol, anunciaram cientistas do esporte da Universidade da Basileia, na Suíça, na revista acadêmica Sports Medicine. Participaram da pesquisa 243 clubes de quatro países europeus, num total de 3,895 crianças.

As lesões de crianças no futebol são diferentes das de jovens e adultos. "Por exemplo, uma criança corre mais risco de quebra de ossos e lesões na parte superior do corpo", observou o Dr. Oliver Faude, da Universidade da Basileia.

O programa inclui sete exercícios a serem feitos em 20 minutos antes do início do treino, com base no acompanhamento de jogadores de 7 a 13 anos da Alemanha, Holanda, República Tcheca e da Suíça.

Quem fez o aquecimento correto teve 48% menos lesões do que quem não faz e o índice de lesões graves caiu em 74%. O estudo foi financiado pela Fifa (Federação Internacional de Futebol Associativo).

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Ex-craque do futebol mundial é eleito presidente da Libéria

Único africano a ganhar até hoje o prêmio de melhor jogador de futebol do ano, em 1995, George Weah tem agora um desafio muito maior. Ele foi eleito presidente da Libéria com 61,5% dos votos, no segundo turno, vencendo o atual vice-presidente, Joseph Boakai, anunciou hoje a Comissão Nacional Eleitoral.

Nos gramados, Weah defendeu o Monaco, o Paris Saint-Germain, onde jogou com o brasileiro Raí, e o Milan. Agora, à frente do Congresso pela Mudança Democrática, terá de dirigir um país frágil, arrasado por uma guerra civil brutal encerrada em 2003 e por uma epidemia do vírus ebola em 2014 e 2015.

Quando a epidemia estourou, a Libéria tinha apenas 50 médicos para atender 4,5 milhões de habitantes. Sem ajuda internacional, não teria conseguido suplantar a doença. Mais de 10,6 mil pessoas pegaram o vírus ebola e 4.809 morreram.

A partir de 22 de janeiro, Weah sucede a Elle Johnson Sirleaf, a primeira mulher eleita presidente na África, em 2005, que deixa o cargo manchada por acusações de corrupção e nepotismo. Será a primeira transferência democrática de poder entre dois governos eleitos da história da Libéria.

Este pequeno país fundado por iniciativa de americanos que queriam dar uma chance aos escravos e ex-escravos e descendentes de voltar para a África é um dos países mais pobres do mundo, sem infraestrutura, com uma renda média por habitante de US$ 518 por ano. O conflito entre os americanos de origem liberiana, os congos, 5% da população, e o resto da nação nunca foi resolvido.

Desde que os autóctones tentaram se rebelar contra os congos, dois presidentes foram mortos e o outro está preso e condenado.

O centroavante venceu com o apoio do ex-senhor da guerra e ex-ditador Charles Taylor, condenado a 50 anos de prisão por crimes de guerra e crimes contra a humanidade. A mulher dele, Jewel Howard Taylor, será vice-presidente. Outro aliado é o comandante guerrilheiro Prince Johnson, que torturou e matou o ex-presidente Samuel Doe diante das câmeras enquanto tomava cerveja.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Clubes chineses terão de pagar dobro por jogadores de fora

Por uma nova regra imposta pelo governo, os clubes de futebol da China terão de pagar duas vezes pelo preço jogador estrangeiro. Uma soma equivalente aos direitos do jogador será depositada num fundo criado para promover o desenvolvimento do futebol chinês, noticiou hoje a agência Bloomberg.

É mais uma tentativa de conter os gastos excessivos dos clubes chineses. Em 2016, eles gastaram mais de US$ 450 milhões com jogadores.

A China ultrapassou a França e se tornou o quinto maior mercado para jogadores de futebol, depois da Inglaterra, Espanha, Alemanha e Itália, as maiores ligas europeias. Mas os clubes faturaram apenas US$ 220 milhões no ano passado. O déficit preocupa as autoridades.

"Todos os clubes devem sustentar o interesse geral no desenvolvimento saudável dos negócios do futebol na China", declarou uma nota oficial. A promoção do futebol chinês é uma prioridade do presidente Xi Jinping.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Ataque ao ônibus do Borussia Dortmund não foi terrorismo

A polícia da Alemanha prendeu o principal suspeito pelo ataque ao ônibus da equipe do Borussia a caminho de um jogo da Liga dos Campeões da Europa em 11 de abril, em Dortmund foi adiado. Sergej W., de 28 anos e origem russa, tentava lucrar com uma manobra no mercado financeiro.

Em 3 de abril de 2017, Sergej tomou empréstimo para financiar uma operação de venda a descoberto (short selling) de ações do clube, apostando na queda do preço para pagar depois com o mesmo número de ações mas com valor mais baixo, denunciam os procuradores alemães.

O acusado investiu 79 mil euros no mercado de opções, e poderia ter ganho até um milhão de euros se as ações do Borussia entrassem em colapso, estimou o secretário do Interior do estado da Renânia do Norte-Vestifália, Ralf Jäger.

"Fiquei chocado", declarou Jäger, com "este tipo de motivo para realizar um ataque. Mostra mais uma vez do que as pessoas são capazes."

No primeiro momento, a suspeita era de extremistas islâmicos. Em 13 de novembro de 2015, o ataque  terrorista que deixou 130 mortos em Paris começou com explosões ao redor e na entrada do Estádio da França, na cidade-satélite de Saint-Denis, onde era disputada uma partida amistosa entre Alemanha e França. O presidente François Hollande assistia ao jogo e foi retirado às pressas pelo serviço secreto.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Reino Unido adverte para risco de terrorismo na Euro 2016

Os estádios e outros locais de concentração de torcedores podem ser alvos de ataques terroristas durante a Euro 2016, a copa europeia de seleções de futebol, que começa na próxima sexta-feira em Saint-Denis, na Grande Paris, e vai até 10 de julho com jogos em várias cidades da França, advertiu hoje o Ministério do Exterior britânico.

A França vai mobilizar 100 mil soldados, policiais e seguranças particulares para patrulhar o evento. Há expectativa de que 2,5 milhões de torcedores assistam aos 51 jogos, a serem realizados em 10 estádios.

A Euro 2016 acontece numa França sob estado de emergência depois dos atentados de 13 de novembro do ano passado, que deixaram 130 mortos, e ainda traumatizada pelo ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo em 7 de janeiro de 2015, também em Paris.

Na onda de atentados de novembro, a milícia terrorista Estado Islâmico do Iraque e do Levante rompeu uma barreira ao tentar infiltrar homens-bomba no Estádio da França, onde Alemanha e França disputavam uma partida amistosa com a presença do presidente francês, François Mitterrand.

Antes, grupos terroristas não alvejavam eventos esportivos, embora terroristas palestinos tenham assassinado 11 atletas israelenses na Olimpíada de 1972, em Munique, na Alemanha. Foi um precedente perigoso.

Os Estados Unidos já haviam alertado os americanos para o risco de atentados na Europa, especialmente na França durante a Euro 2016, mas não citaram nenhuma ameaça específica.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Estado Islâmico mata 41 pessoas em atentado no Iraque

Um atentado terrorista suicida matou 41 pessoas e deixou mais de 100 feridas numa explosão na arquibancada durante um jogo de futebol amador na cidade de Iskandaria, nos arredores de Bagdá, a capital do Iraque, noticiou a agência Reuters. O Estado Islâmico do Iraque e do Levante assumiu a responsabilidade pelo ataque.

Sob intensa pressão nos campos de batalha do Oriente Médio, sem vitória importantes em combates abertos desde maio de 2015, o Estado Islâmico recorre cada vez mais ao terrorismo, como vimos em 22 de março em Bruxelas, na Bélgica.

Serão necessários anos para derrotar o grupo militarmente no Oriente Médio, prevê a empresa de consultoria e análises estratégicas Stratfor, sem falar nos aliados no Oriente Médio, na África e na Ásia. Para se manter vivo como líder do movimento jihadista o EI precisa realizar mais ataques espetaculares contra grandes capitais do mundo.

Os ataques terroristas contra estádios haviam sido tentados anteriormente, inclusive nos atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris, quando o Estádio da França, na cidade-satélite de Saint-Denis, onde estava o presidente François Hollande, era um dos alvos. Quando não conseguiram entrar no estádio, os terroristas se explodiram do lado de fora.

É um alerta importante para a Olimpíada do Rio de Janeiro. O Brasil não é alvo, mas várias delegações estrangeiras podem ser.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Atentado contra jogo em Hanôver alvejaria estádio e estação ferroviária

O atentado contra o jogo amistoso entre as seleções de futebol da Alemanha e da Holanda cancelado na terça-feira passada a pedido da polícia da cidade de Hanôver envolveria múltiplas explosões no estádio e na estação ferroviária local, revelou um documento do serviço secreto alemão divulgado hoje pelo jornal popular Bild, noticiou a agência Reuters.

A conspiração incluía a entrada no estádio de bombas escondidas dentro de uma ambulância, talvez uma ambulância-bomba, de acordo com um informe recebido de um serviço secreto estrangeiro e entregue ao ministro do Interior alemão, Thomas de Maiziere.

Um segundo ataque seria realizado na estação ferroviária de Hanôver, uma das grandes cidades industriais da Alemanha.

Sob pressão nos campos de batalha do Oriente Médio com o intenso bombardeio da França e da Rússia à sua capital, Rakka, no Norte da Síria, de onde sua liderança estaria fugindo, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante tende a apelar cada vez mais para o terrorismo.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Alemanha e Holanda suspendem jogo e estádio é evacuado

Por razões de segurança, a Alemanha e a Holanda canceleram um jogo amistoso entre as seleções de futebol dos dois países a ser realizado na cidade alemã de Hanôver, informou o jornal francês Libération. O estádio está sendo evacuado por suspeita de terrorismo.

O chefe de polícia de Hanôver declarou que havia planos de explodir uma bomba dentro do estádio.

A onda de terror da sexta-feira 13 de novembro em Paris começou com um ataque de terroristas suicidas contra o Estádio da França, de onde o presidente François Hollande foi retirado às pressas pelo serviço secreto.

Várias autoridades alemãs assistiriam à partida de hoje, inclusive a chanceler (primeira-ministra) Angela Merkel, o vice-primeiro-ministro Sigmar Gabriel e o ministro do interior.

A Inglaterra e a França jogam daqui a pouco no estádio de Wembley, em Londres, às 18 horas de Brasília, mesmo horário do jogo que seria realizado em Hanôver como parte da preparação para a Copa Europeia de Seleções de 2016.

Wembley vai cantar em coro a Marselhesa, o Hino da França, em homenagem aos 129 mortos e 352 feridos nos atentados em Paris.

Federação decide hoje ou amanhã volta do futebol na França

Nesta terça ou quarta-feira, as autoridades do futebol francês vão decidir se as próximas rodadas dos campeonatos da primeira e da segunda divisões serão realizadas no próximo domingo. Depois do triplo atentado suicida na sexta-feira 13 ao redor do Estádio da França e da onda de terror em Paris, todas as competições esportivas foram suspensas.

O fato de três homens-bomba se detonarem num estádio de esportes abre um precedente perigoso, inclusive para a Olimpíada do Rio de Janeiro. Pelo menos um terrorista tentou entrar no estádio com um cinturão de explosivos sob a roupa.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Blatter renuncia à Presidência da FIFA

Em declaração feita há pouco em Zurique, na Suíça, em meio ao maior escândalo de corrupção da história do futebol, o presidente da Federação Internacional de Futebol Associativo (FIFA), Joseph Blatter, acabar de anunciar sua renúncia. Um congresso extraordinário deve eleger um novo presidente.

Neste momento o presidente da comissão que fez uma auditoria na FIFA, o italiano Domenico Scala, atribuiu a corrupção à "estrutura do comitê executivo" e acrescentou que "isto tem de mudar". A expectativa é que um novo presidente seja eleito entre dezembro de 2015 e março de 2016.

Entre as propostas de mudança, estará a limitação do número de mandatos que um presidente poderá cumprir. Blatter estava no cargo desde 1998, quando substituiu o brasileiro João Havelange, do qual era secretário-geral. Fica na presidência até a eleição do sucessor.

O escândalo estourou com a prisão na quarta-feira passada no hotel mais luxuoso de Zurique, a mais rica cidade da Suíça, de sete dirigentes da FIFA, inclusive do ex-presidente da CBF José Maria Marin. No mesmo dia, em Washington, a ministra da Justiça dos Estados Unidos, Loretta Lynch, manifestou a "determinação de acabar com a corrupção no futebol mundial".

Todos devem ser extraditados para os EUA, onde foram denunciados por corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo bancos e empresas americanas. Os crimes estão relacionados à compra de votos para escolha de países-sedes de Copas do Mundo e propinas pagas em negociações de direitos de transmissão de eventos.

Dois dias depois, apesar da pressão da UEFA (União Europeia de Futebol Associativo) para renunciar, Blatter foi reeleito para um quinto mandato e tentou se desvincular de quaisquer irregularidades cometidas pelos dirigentes presos. O presidente da FIFA chegou a dizer que não tinha como "monitorar as atividades de todos".

Pairava no ar uma ameaça de que a UEFA pudesse romper com a FIFA, boicotar a próxima Copa do Mundo e passar a organizar suas competições independentemente. Uma carta ligando o secretário-geral da entidade, Jérôme Walcke, a uma propina de US$ 10 milhões (R$ 32 milhões) paga a um dirigente da região do Mar do Caribe para votar a favor da realização da Copa de 2010 na África do Sul levou a crise diretamente à diretoria presidida por Blatter.

Aqui no Brasil, a Polícia Federal e o Ministério Público abriram inquéritos. Ontem, foi revelado que a PF indiciou o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira, que teria movimentado R$ 464 milhões em contas bancárias pessoais quando presidia o comitê organizador local da Copa de 2014. O senador Romário conseguiu as assinaturas necessárias para instaurar uma comissão parlamentar de inquérito sobre a corrupção no futebol brasileiro.

Um dos casos em exame pela Justiça dos EUA é o contrato de patrocínio assinado em 1996 entre a empresa transnacional americana Nike e a CBF, pelo qual Teixeira teria recebido uma propina de US$ 15 milhões.

Internacionalmente é provável que as decisões de organizar a Copa de 2018 na Rússia e de 2022 no Catar sejam questionadas.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Argentina: autoritarismo frustrou desenvolvimento

Com 2,78 milhões de quilômetros quadrados, a República Argentina é o segundo maior país da América Latina, atrás apenas do Brasil, e o oitavo maior do mundo. Vai das planícies quentes do Chaco e da Mesopotâmia argentina e se estende pelos pampas até as neves eternas da Patagônia, ao sul, e dos Andes, a oeste.

O pico do Aconcágua, maior montanha do mundo fora da Ásia, com 6.960 metros, fica na Argentina. A cidade mais ao sul no mundo inteiro é argentina: Ushuaia.

Um dos dez países mais ricos do mundo no início do século 20, a Argentina foi um dos mais países que mais se subdesenvolveram no século passado por causa da crise política crônica que sofre desde o golpe militar de 1930. Terminou o século exportando os mesmos produtos básicos que vendia ao exterior cem anos antes.

O autoritarismo frustrou o desenvolvimento. Basta comparar a Argentina à Austrália ou ao Canadá, grandes países com enormes recursos e população escassa construídos por imigrantes.

No momento, a Argentina enfrenta uma nova crise da dívida. Uma pequena parcela de credores que não aceitou as renegociações de 2005 e 2010 conseguiu na Justiça dos Estados Unidos o direito de receber o valor de face dos títulos caloteados em 2001. Isso gera o risco de abalar toda a renegociação.

A Argentina precisa pagar os títulos antigos, hoje nas mãos de fundos de investimento que o governo Cristina Kirchner chama de “abutres”, antes de remunerar com juros os novos compradores. Terá de renegociar, mas só oferece trocar por papéis nas mesmas condições das ofertas anteriores. A inflação ronda os 30% ao ano e há escassez de vários produtos.

O impasse criado pela Justiça dos EUA foi criticado até mesmo pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que teme que possa prejudicar outras renegociações de dívidas públicas.

POPULAÇÃO
O número de habitantes da Argentina aumentou mais de 20 vezes desde o primeiro censo, em 1869, quando eram 1,8 milhão.

Mais de 92% dos 41,66 milhões (estimativa de 2013) de argentinos vivem em cidades, com destaque para Buenos Aires, a capital federal, e a Província de Buenos Aires. É uma população menor do que a do estado de São Paulo, estimada em 43 milhões. Cerca de 97% são de origem europeia, 1,5% índios e 1,5% mestiços e outras minorias.

Dois terços dos argentinos moram nas chamadas províncias do Leste (Buenos Aires, Córdoba, Santa Fé, Entre Ríos e La Pampa), que incluem a chamada Mesopotâmia Argentina, entre os rios Paraná e Uruguai.

As outras 17 províncias, que cobrem 70% do território, são escassamente povoadas, com apenas um terço da população total, atrasadas e cronicamente pobres.

O país imenso, com enormes espaços vazios, solo fértil e climas variados, atraiu colonos europeus, principalmente da Itália e da Espanha. Cerca de 52% dos argentinos têm pelo menos um antepassado italiano. É a maior comunidade italiana fora da Itália.

“Esta é uma terra de exilados”, respondia Jorge Luis Borges, o escritor argentino mais universal, quando perguntado sobre a identidade nacional. É um elemento central do mito fundador da Argentina a ideia um país moderno construído no Sul por imigrantes europeus com ideias políticas e sociais liberais ou radicais.

Para um embaixador brasileiro, é uma espécie de Complexo de Austrália ou Nova Zelândia, um país branco europeizado com uma cultura transplantada que se sente isolado num continente mestiço.

Ao lado do Uruguai, a Argentina é o país mais europeizado e alfabetizado da América Latina, o mais urbanizado, com a maior classe média e uma das maiores rendas per capita, com as melhores editoras e livrarias.

GOVERNO
A Argentina é uma república federativa formada por 23 províncias e o distrito federal. O Congresso é formado pelo Senado, com 72 cadeiras, e a Câmara dos Deputados, com 257 cadeiras.

Cada província e a capital federal elegem três senadores com mandato de seis anos. Os deputados são eleitos por listas de partidos e coligações para mandatos de quatro anos.

O mandato presidencial é de quatro anos, com direito a uma reeleição. Em seu segundo mandato, a presidente Cristina Fernández de Kirchner lutou para obter nas eleições parlamentares de outubro de 2013 a maioria necessária para reformar a Constituição e concorrer novamente. Não conseguiu.

A legislação eleitoral exige que pelo menos 30% dos candidatos sejam mulheres. A voto é obrigatório dos 18 aos 70 anos. A partir de 2013, jovens podem votar com 16 e 17 anos, mas não são obrigados.

IDIOMAS
A língua oficial é o castelhano, falado com um sotaque característico atribuído à imigração italiana.

O italiano, o polonês, o inglês, o alemão, o basco, o siciliano, o galês e outras línguas de imigrantes também são faladas.

CARACTERÍSTICAS NACIONAIS
No livro Facundo, sobre o caudilho Facundo Quiroga, da província de La Rioja, que inspirou Carlos Menem com suas suíças largas, na verdade uma crítica ao caudilhismo de Juan Manuel de Rosas, o escritor, jornalista, general e presidente Domingo Sarmiento (1868-74) relaciona as características geográficas do país com o caráter e a psicologia nacionais:

“O mal que oprime a República Argentina é a extensão; o deserto a rodeia e se lhe insinua nas estranhas; a solidão, o despovoado sem uma habitação humana são em regra os limites não contestados entre umas e outras províncias.

IMENSIDÃO
“Ali, a imensidão está em todos os lados: imensa a planície, imensos os bosques, imensos os rios, o horizonte sempre incerto, sempre confundindo-se com a terra entre nuvens e vapores tênues que não permitem, na longínqua perspectiva, assinalar-se o ponto onde termina o mundo e onde começa o céu.

“Ao sul e ao norte, acossam-na os selvagens que aguardam as noites de Lua para cair como enxame de hienas sobre o gado que pasta nos campos e nas povoações indefesas.”

A conquista da Patagônia no século 19 se assemelha à conquista do Oeste dos Estados Unidos por caravanas de carroções, com a diferença de que o avanço era rumo ao Sul frio e gelado.

“Na solitária caravana de carretas que atravessa pesadamente os pampas, e que se detém em repouso por momentos, a tripulação reunida ao redor do escasso fogo volta mecanicamente os olhos para o Sul ao mais ligeiro sussurro do vento que agita as ervas secas para mergulhar seus olhares nas trevas profundas da noite em busca dos vultos sinistos da horda silvícola que a pode surpreender desprevenida de um instante para outro”, escreveu Sarmiento.

BARBÁRIE
Um dos pais da pátria, ele descreve essa epopeia como um duelo entre a civilização ocidental e a barbárie local que marca a história argentina.

“Se o ouvido não escuta nenhum rumor, se a vista não consegue varar o véu obscuro que envolve a calada solidão, volta os seus olhares, para tranquilizar-se de todo, para as orelhas de algum cavalo que esteja próximo ao fogo a fim de ver se estão imóveis e negligentemente inclinadas para trás. Então, prossegue a palestra interrompida ou leva à boca o pedaço de carne chamuscada de que se alimenta.

MORTE TRÁGICA
“Se não é a aproximação do selvagem o que inquieta o homem do campo, é o temor do tigre que o apoquenta ou de uma víbora em que pode pisar. Essa insegurança da vida que é habitual e permanente na campanha imprime, no meu entender, ao caráter argentino certa resignação estoica com a morte violenta que faz dela um dos acessórios inseparáveis da vida, uma maneira de morrer como qualquer outra; e pode, quem sabe, explicar em parte a indiferença com que dão e recebem a morte, sem deixar nos sobreviventes impressões profundas e duradouras.”

Essa banalização da tragédia está presente no tango, a dança nacional.

Neste ambiente hostil, acrescenta Sarmiento, “o capataz é um caudilho como na Ásia o chefe da caravana; são necessários para este mister uma vontade férrea, um caráter arejado até a temeridade para conter a audácia e a turbulência dos flibusteiros da terra, que ele tem de governar e dominar sozinho no desamparo do deserto. Ao menor sinal de insubordinação, o capataz desenrola um chicote de ferro e descarrega sobre o insolente golpes que o ferem e contundem; e se a resistência se prolonga, antes de apelar para as pistolas, cujo auxílio em geral desdenha, salta do cavalo com um formidável cutelo na mão e reivindica prontamente sua autoridade pela destreza superior com que o maneja.

JUSTIÇA SUMÁRIA
“Quem morre nessas execuções do capataz não deixa nenhum direito a reclamações, considerando-se legítima a autoridade que o assassinou. É assim que na vida argentina começa a se estabelecer, por essas peculiaridades, o predomínio da força bruta, a preponderância do mais forte, a autoridade sem limites e sem responsabilidade dos que mandam, a justiça administrada sem formas e sem debate.”

Talvez isso ajude a entender a violência da última ditadura militar argentina, a que mais matou na América do Sul durante a Guerra Fria, com total de mortos e desaparecidos estimado em até 30 mil.

DESCOBRIMENTO
A população indígena do que hoje é a Argentina tinha cerca de 300 mil pessoas quando os europeus chegaram e não foram bem recebidos. Alguns historiadores acreditam que Américo Vespúcio esteve na foz do Rio da Prata em 1502, mas a maioria não.

O primeiro navegador da Europa a chegar comprovadamente ao Rio da Prata foi o português João Dias de Solis, a serviço da coroa espanhola. Chamou-o de Mar Doce. Ele foi morto diante da ilha de Martín García e comido pelos índios em 2 de fevereiro de 1516.

Em 1527, a expedição de Sebastião Cabot fundou um forte, o primeiro assentamento espanhol na região, logo destruído pelos índios, mas se preocupou mais subir os rios Paraná e Uruguai.

BUENOS AIRES
Como um dos objetivos da expedição colonizadora portuguesa de Martim Afonso de Souza de 1530-32 seria reivindicar o Rio da Prata para a coroa portuguesa, o espanhol Pedro de Mendoza fundou em 1536 a cidade de Santa María del Buen Aire, hoje Buenos Aires.

O ambiente hostil, com ataques de índios, e a falta de riquezas minerais fizeram com que em 1541 os últimos habitantes europeus fossem para Assunção, hoje capital do Paraguai, na maior derrota do império de Carlos V na América. Por causa das minas do Peru e da Bolívia, o Norte da Argentina foi ocupado antes.

Buenos Aires foi refundada em 1580 por Juan de Garay.  Sem o ouro e a prata do México e do Peru, a vasta planície que estende a oeste do Rio da Prata era pouco atraente para os colonizadores espanhóis. A maioria de seus habitantes vinha de outras colônias da América e não da Espanha.

No início, a principal atividade econômica era a exploração do gado que se proliferara no pampa depois do abandono da cidade, em 1541. Garay incentivou a criação de gado como vocação natural da região. Antes do fim do século 16, Buenos Aires começou a exportar couro, lã e sebo.

GAÚCHO
Dessa cultura de campo vem o gaúcho, a figura mítica do povo argentino, o cowboy sul-americano, índio ou mestiço criado livre, solto e errante pelos campos, caçando as reses das vacarias, sem se submeter a hierarquias e disciplina.

O gaúcho está eternizado no poema épico Martín Fierro, de José Hernández, um livro importante para decifrar a alma argentina. É corajoso, autoconfiante, indiferente às durezas da vida, para ele parte da existência, e apaixonado pela terra onde vive. Está também na literatura de Borges e tantos outros autores.

DOMÍNIO ESPANHOL
A refundação de Buenos Aires coincide com o início do período da História do Brasil conhecido como Domínio Espanhol (1580-1640). Com a morte do rei Dom Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos, em 1578, a coroa de Portugal foi reivindicada por Felipe II, da Espanha, na União Ibérica, que impôs um regime teocrático.

Durante aquele período, os portugueses aproveitaram para ir muito além do limite estabelecido pelo Tratado de Tordesilhas, em 1494, que cortaria o Brasil da Ilha de Marajó, no Pará, a Laguna, em Santa Catarina, excluindo quase toda a região Sul, o Mato Grosso, o Pantanal e a Amazônia.

COLÔNIA
O Cone Sul da América do Sul foi a única região em que os impérios português e espanhol entraram em conflito na América Latina.

Quarenta anos depois do fim do Domínio Espanhol, em 1680, os portugueses fundaram a Colônia do Sacramento, no Rio da Prata, do outro lado de Buenos Aires, provocando uma reação dos espanhóis, que tomaram a Colônia no ano seguinte. Essa foi considerada a primeira guerra argentina.

Numa contraofensiva, o governador de Buenos Aires, Juan José de Vértiz y Salcedo, avançou em 1732 até onde hoje é o Rio Grande do Sul, sendo repelido pelo brigadeiro Silva Paes, que em 1737 fundou o porto do Rio Grande. No ano seguinte, a região, que incluía também o que hoje é Santa Catarina, foi declarada Capitania d’el Rey de Portugal.

Em 1750, o Tratado de Madri deu ao território brasileiro o contorno que tem hoje, com exceção do Acre, que pertencia ao Alto Peru, possessão espanhola que se transformou na Bolívia, e do Rio Grande do Sul, que voltou a ser invadido de 1763 a 1776. O tratados de Santo Ildefonso (1777) e de Badajoz (1801), redefiniram a fronteira sul, que só seria traçada definitivamente com a independência do Uruguai, em 1828.

VICE-REINO DO PRATA
Politicamente, a atual Argentina fazia parte do Vice-Reino de Nova Castela, com capital em Lima, no Peru, que cobria toda a parte espanhola da América do Sul, enquanto o Vice-Reino da Nova Espanha, com sede na Cidade do México, administrava as colônias espanholas nas Américas Central e do Norte.

Três cidades hoje argentinas se destacavam: Buenos Aires, Córdoba e San Miguel de Tucumán. Em 1622, os jesuítas fundaram a Universidade de Córdoba, a primeira do país.

AUTORITARISMO
Os jesuítas, que criaram nas Missões a chamada República Comunista Cristã dos Guaranis, tiveram papel importante na colônia até serem expulsos, em 1768.

Até então, a colonização espanhola na América tinha sido feita em parceria com a Igreja Católica, que impôs uma “ditadura espiritual”, em detrimento do desenvolvimento econômico, na visão de José Luis Romero, autor de Las Ideas Políticas en Argentina.

“A era do colonizador é assim a era da formação do espírito autoritário em todas as esferas da vida social: autocracia real sustentada pelo Estado; aristocracia dos colonizadores e funcionários reais; autocracia do colono e povoador rural, que só dependiam de si mesmos para se sobrepor a mil elementos hostis”, acrescenta Romero. Nesta ordem imutável, “toda tentativa de inovação é contrária à ordem estabelecida e constitui um fato revolucionário”.

LIBERALISMO
As ideias liberais que fervilhavam na Europa desde a Revolução Gloriosa na Inglaterra, em 1688, começaram a chegar à América no século 18, a Época das Luzes, com as reformas promovidas pela dinastia de Bourbon numa tentativa de modernizar a monarquia espanhola. Tiveram papel fundamental na luta pela independência.

Em 1776, foram criados os vice-reinos do Prata, com capital em Buenos Aires, cobrindo Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, e de Nova Granada, com sede em Santa Fé de Bogotá, com jurisdição sobre o atual território de Colômbia, Venezuela e Equador.

INDEPENDÊNCIA
O movimento pela independência começa depois de Buenos Aires e Montevidéu resistirem a duas invasões britânicas, em 1806 e 1807, quando até azeite fervendo foi usado para combater o inimigo, e ganha força com a invasão napoleônica da Península Ibérica, em 1807 em Portugal e em 1808 na Espanha.

Depois de uma votação em 22 de maio de 1810 que os argentinos citam como exemplo de que o país nasceu republicano e democrático, em 25 de maio, dia da festejada Revolução de Maio, o Cabildo de Buenos Aires criou o primeiro governo autonômo da América espanhola, no caso, para governar o Vice-Reino do Prata até a restauração de Fernando VII.

Quando Fernando VII recuperou o trono em Madri, em 1814, não teve força para impor seu controle sobre as colônias americanas. Em 9 de julho de 1816, uma assembleia reunida em San Miguel de Tucumán declarou a independência das Províncias Unidas do Rio da Pátria.

A guerra da independência começou imediatamente, sob a liderança do general José de San Martín, um dos grandes libertadores da América ao lado do venezuelano Simón Bolívar.

San Martín cruzou os Andes para libertar o Chile, em 1818. Com o apoio da Marinha chilena, investiu contra o Peru, um dos últimos redutos do imperialismo espanhol, com o apoio de Bolívar, com quem se encontrou em 22 de julho de 1822 em Guaiaquil, no Equador.

Os espanhóis ainda resistiram no Norte da Argentina. A libertação da América do Sul só acaba com a vitória na Batalha de Ayacucho, no Peru, em 1824, que marca o fim do império espanhol na América do Sul.

DIVISÃO
As Províncias Unidas do Prata se dividiram com as independências do Paraguai, em 1814, da Bolívia, em 1825, e do Uruguai, em 1828.

A República Argentina, nome que aparece pela primeira vez na Constituição de 1823, mergulha numa guerra civil entre os unitários, que queriam um sistema político centralizado com hegemonia de Buenos Aires, e os federalistas, muitos deles caudilhos de províncias interessados na autonomia regional.

Para conter a anarquia, em 1820, o coronel Manuel Dorrego, governador de Buenos Aires, nomeou Juan Manuel de Rosas, e família tradicional, para chefe da milícia provincial.

Em 1826, a Assembleia Constituinte extrapolou seus poderes e nomeou presidente o liberal portenho (natural de Buenos Aires) Bernardino Rivadavia, provocando a revolta, em 1827, de Facundo Quiroga, caudilho da província de La Rioja.

Rivadavia, considerado o primeiro presidente da Argentina, caiu em 1827, quando o Brasil bloqueou o porto de Buenos Aires na guerra contra a independência do Uruguai, que havia sido anexado por Dom João VI em 1816. O governo nacional foi dissolvido e Dorrego virou governador de Buenos Aires, com o apoio de Rosas.

ROSAS
Quando as tropas voltaram da guerra da independência do Uruguai, em dezembro de 1828, derrubaram o federalista Dorrego e empossaram Juan Lavalle, afastado por Rosas, que reinstalou a assembleia dissolvida por Lavalle e foi eleito, em 1829, governador de Buenos Aires, cargo que ocupou até 1832, voltando em 1835 como ditador com poderes absolutos.

O assassinato de Facundo Quiroga, em 1835, mostrou que a anarquia e a guerra civil persistiam. Como ditador, Rosas criou uma força policial terrorista, a Mazorca, para perseguir seus inimigos e degolar alguns.

No fim dos anos 1830s, os moradores de Buenos Aires eram obrigados a andar com insígnias na lapela que diziam: “Vivan los federales! Mueran los immundos, asquerosos, salvajes, traidores unitários!” Retratos de Rosas estavam em altares nas igrejas.

Em 1839, Lavalle, que estava exilado no Uruguai, invadiu a província de Entre Ríos com o apoio da França, que bloqueou o porto de Buenos Aires, e os bolivianos entraram no Noroeste da Argentina. Com um Exército de 20 mil homens e uma milícia de 15 mil homens, Rosas reafirmou sua condição de força política suprema da confederação.

Em 1845, Rosas fechou o Rio Paraná para controlar o comércio e a navegação. Forças navais da França e da Grã-Bretanha bloquearam mais uma vez o porto de Buenos Aires e enviaram uma esquadra pela Bacia do Prata. Rosas conseguiu impedir os fuzileiros navais de tomar as margens do Rio Paraná.

Em 1847, os britânicos desistiram do bloqueio porque estavam perdendo mais comércio com Buenos Aires do que ganhariam com as províncias. Em 1848, Rosas voltou a bloquear o Rio Paraná em sinal de triunfo sobre as duas grandes potências mundiais.

GUERRA COM BRASIL
O bloqueio irritou o Brasil e também o caudilho-governador da província de Entre Ríos, general Justo José de Urquiza. Em 1851, um exército de 28 mil entrerrianos, unitários, 1,5 mil colorados uruguaios e 3,5 mil brasileiros marchou sobre Buenos Aires. Derrotado na Batalha de Caseros, perto de Buenos Aires, em 3 de fevereiro de 1852, Rosas foi para o exílio na Inglaterra, onde morreu em 1877. O Brasil nunca mais entrou em guerra contra a Argentina.

Na opinião de alguns historiadores, Rosas foi o caudilho mais interessante da América. Até hoje o debate sobre ele não está concluído. Ainda é amado e odiado.

INDEPENDÊNCIA DE BUENOS AIRES
Depois da vitória sobre Rosas, o general Urquiza sancionou a Constituição de 1853, rejeitada pela Província de Buenos Aires, que se separou da Confederação Argentina proclamando-se um independente Estado de Buenos Aires.

Era o início de mais uma guerra civil, que durou quase dez anos. Acabou na Batalha de Pavón, na província de Santa Fé, em 17 de setembro de 1861.

GUERRA DO PARAGUAI
Em 1862, Bartolomé Mitre, o vencedor da batalha, foi eleito o primeiro presidente da Argentina unificada. Durante seu governo (1862-68), o país foi invadido pelo ditador paraguaio Francisco Solano López e começou a Guerra da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai), que deixou 300 mil mortos e arrasou o Paraguai.

Mitre foi sucedido pelo liberal Domingo Faustino Sarmiento (1868-74), o autor de Facundo. Grande incentivador da educação, criador de muitas bibliotecas públicas, é chamado de Professor da América.

Sarmiento acreditava que a educação era o caminho da felicidade e da democracia: “Um povo ignorante vai sempre preferir Rosas”.

O próximo presidente argentino foi Nicolás Avellaneda (1874-80). Em seu governo, a cidade de Buenos Aires foi separada da Província de Buenos e transformada em Distrito Federal e o general Julio Roca comandou a conquista da Patagônia. Roca foi duas vezes presidente, 1880-86 e 1898-1904.

GUERRAS INDÍGENAS
As campanhas militares para submeter os índios no Centro-Sul da Argentina são outro capítulo de uma história trágica. Começam durante a ditadura do general Juan Rosas (1835-52) e vão até o fim do século 19, quando o general Roca colocou todas as terras da Patagônia sob efetivo controle do governo de Buenos Aires, na chamada Conquista do Deserto (1878-9).

Em sua passagem por Bahía Blanca, durante a ditadura de Rosas, o naturalista inglês Charles Darwin manifestou sua indignação com as matanças de índios, que talvez tenham influenciado o desenvolvimento da Teoria da Evolução das Espécies e do princípio da sobrevivência do mais forte e do mais apto.

DARWIN SE INDIGNOU
“Poucos dias depois, vi outra tropa desses soldados com jeito de bandidos iniciar uma nova expedição contra uma tribo de índios numa pequena salina que tinha sido traída por um cacique preso”, escreveu Darwin em seu diário.

“O terreno era montanhoso e selvagem. Devia ser bem para o interior porque de lá se via a cordilheira. Os índios, homens, mulheres e crianças, eram cerca de 110. Todos foram passados na espada. Os sobreviventes ficaram tão aterrorizados que fugiram negando suas famílias e filhos; mas, quando capturados, lutam contra quantos forem até o fim.

“Um índio agonizante cravou os dentes no dedo de um inimigo e deixou que lhe arrancasse um olho para não soltar sua presa. Outro, que estava ferido, fingiu-se de morto, mas manteve a faca em posição para dar um último golpe fatal”, contou Darwin.

BARBÁRIE
“Um homem que perseguia um índio que pediu clemência disse: ‘Aí eu o derrubei com meu sabre, pulei do cavalo e cortei sua garganta’”, registrou o naturalista inglês com indignação. “Esse é um quadro sombrio; mas muito mais chocante é o inquestionável fato de que todas as mulheres acima de 20 anos são massacradas a sangue frio. Quando exclamei que isso é desumano, ele respondeu: ‘Por quê? O que se pode fazer? Elas têm muitos filhos’.”

“Todo o mundo aqui está convencido de que esta é a mais justa das guerras porque é contra bárbaros. Quem acreditaria que nos dias de hoje tais atrocidades fossem cometidas num país cristão e civilizado? As crianças indígenas que são salvas são vendidas ou dadas como servos, ou melhor, escravos”, registrou Darwin.

CONQUISTA DO DESERTO
Pelo menos 1.313 índios foram mortos e outros 15 mil expulsos de suas terras na Conquista do Deserto pelo general Roca em 1878 e 1879. Foi um verdadeiro genocídio. Abriu caminho para a colonização europeia e a transformação da Argentina numa superpotência agrícola, capaz hoje de produzir alimentos para 350 milhões de pessoas.

Nos últimos anos, movimentos de esquerda têm atacado estátuas do general Roca, acusado de genocídio contra os índios na conquista da Patagônia. O próprio conceito de “conquista do deserto” implica que eram terras de ninguém.

IMIGRAÇÃO
Com estabilidade política depois de mais de meio século de guerra civil, a Argentina começou seu desenvolvimento econômico e passou a atrair uma grande leva migratória da Europa.

Em suas Bases e pontos de partida para a organização política da República Argentina, Juan Bautista Alberdi, um dos pais espirituais da pátria, apresenta suas ideias para construir o país. Elas estão na origem da Constituição de 1853.

Para Alberdi, “governar é povoar”, e povoar com imigrantes europeus.

A população argentina passou de 1,1 milhão em 1857 para 3,3 milhões em 1890 e 8 milhões em 1914.  Entre 1871 e 1914, foram 5,9 milhões de migrantes. De 1830 a 1950, a Argentina recebeu 10% dos emigrantes que saíram da Europa para a América.

Cerca de 80% dos imigrantes vieram de países mediterrâneos. A metade era de italianos; um quarto, espanhóis; além de turcos, russos, franceses, poloneses e portugueses.

CRESCIMENTO ECONÔMICO
O grande atrativo era o desenvolvimento da indústria do frio para processar carnes e da agricultura de clima temperado.

Em 1869, só 3% da população de Buenos Aires trabalhavam na agricultura. A Argentina era dependente das importações de trigo do Chile e dos EUA.

No final dos anos 1880s, a Argentina se tornou um grande produtor mundial de milho, trigo, aveia e cevada, e linho.

As exportações de trigo aumentaram 20 vezes de 1880-84 para 1890-94. O comércio exterior pulou de 37 milhões de pesos-ouro, em 1861, para mais de 250 milhões em 1889.

REBANHO
O rebanho de ovelhas cresceu de 7 milhões em 1852 para 87 milhões em 1888. A Província de Buenos Aires tinha 5 milhões de cabeças de gado bovino e 45 milhões de ovinos. A exportação de lã cresceu na mesma medida, de 300 toneladas em 1829 para 111 mil toneladas em 1882.

A alta nas exportações de lã no início dos anos 1860s foi resultado da Guerra da Secessão, nos EUA, e ajudou na pacificação argentina de 1862. Com a guerra civil americana, a imigração para a Argentina aumentou.

FERROVIAS
O sistema ferroviário, inaugurado com uma linha de 10 quilômetros de extensão em 1857, chegou a mais de 9 mil quilômetros de estradas de ferro em 1890, 33,5 mil km em 1914 e 43,9 mil km em 1960, quando chegou ao máximo. Esses dados econômicos são de David Rock, no livro Argentina: 1516-1987: from Spanish colonization to Alfonsín e de Diego Arguindeguy em 365 días para conocer la História Argentina.

Até 1930, a Argentina estava entre as dez maiores economias do mundo. Desde então, criou uma indústria nacional sob o peronismo, que entrou em decadência nos anos 60, sofreu com a hiperinflação, o neoliberalismo da ditadura e a dolarização da era Menem. O produto interno bruto argentino em 2013 foi estimado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em US$ 488 bilhões e a renda média por habitante, em US$ 11,72 mil.

REVOLUÇÃO DO FRIO
No Natal de 1876, um navio francês aportou em Buenos Aires trazendo a novidade no seu próprio nome: La Frigorifique. A degustação dos pratos preparados com carne congelada não agradou muito aos paladares acostumados com carne fresca da melhor qualidade. Mas o país mudou.

A partir daí, as melhores terras da Argentina passaram a criar gado para uma indústria voltada para a exportação de carnes e derivados.

Em 1882, Eugenio Terrasón transformou sua charqueada San Luis no frigorífico Elisa, o primeiro da América do Sul. No ano seguinte, chegou a River Plate Meat Company. Os britânicos e americanos passaram a dominar o negócio com empresas como Swift, Armour e Anglo.

O Censo de 1914 revelou que só os frigoríficos de Buenos Aires empregavam mais de 10 mil trabalhadores, mais de 10% dos operários da cidade mais industrializada da Argentina.

Uma elite política e intelectual tentava criar uma sociedade no modelo europeu e norte-americano nas vastas terras férteis do Cone Sul da América Latina, tentando superar ou ignorar um passado de índios nômades e gaúchos rebeldes.

O crescimento das exportações, os investimentos estrangeiros, sobretudo britânicos, de 157 milhões de libras até 1890, a tecnologia moderna e a oferta de mão de obra imigrante transformaram uma colônia menor do Império Espanhol num dos países mais ricos do mundo em cem anos de independência. O passado de violência e miséria deu lugar à prosperidade, ao progresso e a um estilo de vida cosmopolita.

Impressionado, o poeta nicaraguense Rubén Darío chegou a prever que os argentinos seriam os “ianques do Sul”, capazes de liderar o resto da América Espanhola na trilha do desenvolvimento.

VOTO SECRETO E UNIVERSAL
A primeira revolução pelo sufrágio universal aconteceu em 1893, e a festa do Primeiro Centenário, em 1910, foi sob estado de sítio depois da revolução de 1905 contra a “república conservadora”, em que as eleições eram uma farsa.

Para combater as fraudes e modernizar o sistema político dominado pela oligarquia latifundiária que costumava indicar um general para a presidência, em 1912, a Lei Roque Sáenz Peña, proposta pelo presidente de mesmo nome, introduziu o voto secreto, universal e obrigatório para todos os homem com mais de 18 anos.

O primeiro presidente eleito sem fraude foi Hipólito Yrigoyen (1916-22), da União Cívica Radical, em 1916, o grande responsável pelas campanhas para acabar com a fraude eleitoral. A classe média urbana chegava ao poder.

Yrigoyen fez uma série de reformas sociais: melhorou as condições de trabalho nas fábricas, regulamentou as jornadas de trabalho, criou um sistema de aposentadorias e pensões com contribuições compulsórias, e universalizou o acesso a escolas públicas.

De 1917 a 1922, superadas restrições de crédito e acesso a mercado decorrentes da Primeira Guerra Mundial, a Argentina cresceu 40%. Era o décimo país mais rico do mundo em renda média por habitante.

HORA DA ESPADA
A oposição aos governos radicais de 1916-30 foi “aberta e sem trégua”, observou o ex-embaixador Juan Archibaldo Lanús no livro La Causa Argentina. Entre os maiores críticos da reforma eleitoral e do sufrágio universal que “produz governos cada vez piores”, estava o pensador católico conservador Leopoldo Lugones, que considerava a democracia um “desastre”.

“Ao povo, não interessa a Constituição, essa máquina anglo-saxônica que nunca entendeu”, dizia Lugones. “Não temos por que seguir respeitando um ídolo de papel. Seria um estranho fetichismo”.

Em 1924, ele lançou o manifesto golpista A hora da espada. Diante da ineficiência do sistema político, só restava uma solução: o militarismo.

“O atual estado de coisas não tem solução em eleições, pois, corrompida já a massa eleitoral por demagogos, toda a propaganda para conquistar a maioria faz um excesso de ofertas que só agrava a desordem”, argumentava Lugones.

O movimento contra a reforma eleitoral de Sáenz Peña se apresentava como nacionalista: “Ante a democracia ideológica e sempre falaz dos direitos humanos, ergue-se agora a realidade da nação. Ante a liberdade das formas, o bem-estar dos fatos. Porque livre e justo só pode ser em realidade o são e o forte. A liberdade, a justiça, a cultura, a saúde, são consequências do bem-estar conseguido. Pois só assim se alcança a expressão positiva do direito, que é a organização da liberdade e da justiça.

GOLPE MILITAR
Reeleito em 1928, Yrigoyen enfrentou o início da Grande Depressão e sobreviveu a uma tentativa de assassinato, em 1929. Foi deposto em 6 de setembro  de 1930 numa conspiração com participação da companhia de petróleo Standard Oil of New Jersey, insatisfeita com o combate ao contrabando da província argentina de Salta para a Bolívia.

O golpe de 6 de setembro de 1930 devolveu à oligarquia latifundiária exportadora não o poder real, que ela não perdera, mas o controle da máquina do Estado. Era o fim da aliança entre parte da elite e a classe média que vinha desde o início do movimento pela reforma eleitoral, em 1890. Estava começando o que os argentinos chamam de “década infame”.

A queda de Yrigoyen, derrubado pelo general José Félix Uriburu, foi o primeiro de uma sucessão de golpes militares da História da Argentina. Desde 1930, o primeiro presidente civil eleito democraticamente a concluir o mandato e entregar o poder a outro civil eleito democraticamente foi Carlos Menem para Fernando de la Rúa, em 1999. De la Rúa caiu em dezembro de 2001, na crise gerada pelo colapso da dolarização da era Menem (1989-99).

DITADURA
Ao pisotear as leis e a Constituição em nome da pátria, o general Uriburu lançou as bases do que seriam as ditaduras militares argentinas do século 20. Fechou o Congresso, interveio em todas as províncias, decretou a pena de morte, censurou a imprensa, impôs o estado de sítio, proibiu os partidos políticos, perseguiu a oposição com prisões arbitrárias e tortura, e interferiu nas universidades.

“As casas de estudos deixam de ser estabelecimentos destinados exclusivamente ao cultivo de disciplinas científicas quando se dá guarida nelas a doutrinas filosóficas, sejam o materialismo histórico, o romantismo rousseauniano ou o comunismo russo”, declarou o governo militar para justificar a intervenção.

Em sua defesa, o ditador alegou que 60% dos argentinos eram analfabetos e por isso seriam presas fáceis da demagogia eleitoreira.

A “década infame” foi marcada por fraude eleitoral, corrupção, negociatas, perseguição a oposicionistas, tortura e entrega do país a interesses estrangeiros, afirma o historiador Felipe Pigna no livro Los Mitos de la História Argentina (vol. 3). Durante a Grande Depressão (1929-39), a desocupação e a miséria tomariam conta do “celeiro do mundo” criando as condições para o surgimento do fenômeno político que domina a política argentina até hoje: o peronismo.

Quando estourou a Segunda Guerra Mundial, a Argentina, que flertava com o fascismo, declarou-se neutra para manter suas relações comerciais com as três grandes potências daquela época: os EUA, a Alemanha nazista e a Grã-Bretanha, que ainda era a maior fonte de investimentos externos na Argentina.

Com a entrada dos EUA na guerra depois do ataque japonês a Pearl Harbor, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941, o Brasil rompeu com as potências do Eixo e passou a receber uma ajuda militar americana que preocupava os militares argentinos. Alguns sonhavam com uma vitória alemã sobre os EUA, que faria da Argentina a maior potência do continente.

TENSÃO COM O BRASIL
Enquanto a crise interna do governo argentino se agravava, em maio de 1943, Washington ofereceu ao Brasil equipamento para uma divisão motorizada com base no Rio Grande do Sul.

Um golpe de inspiração nazista do Movimento Nacionalista Revolucionário, na Bolívia, em 1944, apoiado por Buenos Aires, aumentou a decisão americana de pressionar a Argentina. 

Em fevereiro de 1944, boatos de que navios de guerra americanos e brasileiros entravam no Rio da Prata, assustou Buenos Aires, revela uma carta do embaixador José Rodrigues Alves ao presidente Getúlio Vargas, citada por Luiz Alberto Moniz Bandeira no livro Presença dos Estados Unidos no Brasil.

“Não se tratava de mero boato. A esquadra americano-brasileira, sob o comando do almirante Ingram, chegou realmente a penetrar no Rio da Prata, sob o pretexto de uma visita a Montevidéu cujo cancelamento Vargas sugeriu e Roosevelt não aceitou”, nota Moniz Bandeira.  O presidente americano chegou a propor uma “associação continua” das Forças Armadas dos dois países, um pacto de segurança contra agressões de terceiros.

A Argentina só declarou guerra à Alemanha em março de 1945, quando a Segunda Guerra Mundial estava acabando. Por isso, não é convidada para as festas em homenagem à vitória sobre o nazifascismo. O país recebeu vários refugiados nazistas depois da guerra, com o beneplácito do coronel Perón.

GOLPE DE 1943
Em 4 de junho de 1943, o Grupo de Oficiais Unidos, uma sociedade secreta nacionalista, derrubou o presidente Ramón Castillo a pretexto de acabar com as fraudes eleitorais da “década infame”.

Entre eles, destacava-se o coronel Juan Domingo Perón, que foi subsecretário do Ministério da Guerra, vice-presidente e ministro do Trabalho, onde implantou uma legislação trabalhista que lhe deu grande prestígio popular e o apoio dos sindicatos.

Perón melhorou as condições de trabalho, conseguiu um aumento real de 4% nos salários de 1943 e 1946, criou indenização para acidentes de trabalho, a Justiça do Trabalho, a Previdência Social, o salário mínimo, pagamento de feriados e férias, o 13º salário (conhecido na Argentina como aguinaldo), garantiu férias e o direito de sindicalização de trabalhadores rurais, limitou a jornada de trabalho e congelou os preços dos arrendamentos de terras.

DIA DA LEALDADE
Sob pressão da ala conservadora do Exército, Perón foi demitido em 9 de outubro de 1945 e preso quatro dias depois. Uma onda de protestos populares organizados pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) forçou a sua libertação em 17 de outubro, festejado até hoje pelos peronistas como Dia da Lealdade.

Naquele dia, Perón fez seu primeiro discurso triunfante na janela da Casa Rosada diante de uma multidão reunida na Praça de Maio, ao lado de sua segunda mulher, a atriz Maria Eva Duarte de Perón, a Evita, com quem se casaria quatro dias depois, formando o casal que até hoje, muito depois de suas mortes, ainda domina a política argentina.

Com os votos de mais de 1,5 milhão de argentinos, 53% do eleitorado, Perón foi eleito presidente da Argentina em 24 de fevereiro de 1946.

PERONISMO
Exemplo típico do populismo latino-americano, o peronismo, na definição do cientista político argentino Torcuato di Tella, é “uma aliança de parte da elite, como militares e industriais nacionalistas, com os trabalhadores para enfrentar outro segmento da elite, o mais conservador”, no caso argentino a oligarquia latifundiária exportadora.

Para os militares argentinos, que alimentavam o sonho de hegemonia na América do Sul, argumentava Di Tella, os Estados Unidos, a potência realmente hegemônica no continente, não armariam a Argentina para atacar o Brasil, que tinha uma política de aliança automática com Washington. A Argentina precisava de um desenvolvimento industrial autônomo.

 PRIMEIRO GOVERNO PERÓN
Ao tomar posse em 4 de junho de 1946, Perón prometeu justiça social e independência nacional. Entre 1946 e 1949, os salários dos operários da indústria argentina subiram em média 53%. A participação da massa salarial no produto interno bruto passou de 40,1% para 49%.

De 1930-35 a 1945-49, a produção industrial dobrou. O número de fábricas passou de 38 mil em 1935 para 86 mil. Nesse período, o operariado passou de 436 mil para mais de um milhão. O total de sindicalizados pulou de 500 mil em 1946 para 2 milhões em 1950, quando a força de trabalho tinha 5 milhões.

As greves cresceram na mesma medida, de 500 mil dias de trabalho perdidos em 1945 para 2 milhões em 1946 e mais de 3 milhões em 1947.

Nos seus dois primeiros anos de governo, Perón nacionalizou o Banco Central, pagou uma dívida bilionária com o Banco da Inglaterra, estatizou as ferrovias, a marinha mercante, as universidades, os serviços e transportes públicos. Em 1949, lançou a ideia de uma terceira via entre o capitalismo e o comunismo para manter distância da Guerra Fria.

EVITA
Filha ilegítima de uma cozinheira, a cantora, modelo e atriz de teatro e radioteatro María Eva Duarte era amante do coronel Perón. Eles se conheceram num evento beneficente em 22 de janeiro de 1944 no Luna Park, em Buenos Aires, e se casaram quatro dias depois da volta triunfal de Perón ao poder, em 17 de outubro de 1945, formando um casal sem paralelo na história política da América Latina.

Evita cuidava das obras sociais do governo. Era ministra do Trabalho e do Bem-Estar Social e presidia a Fundação Eva Perón, criada em 1948, com orçamento anual de US$ 50 milhões, que distribuía generosamente dinheiro, empregos e moradia para os descamisados, os migrantes vindos do interior.

Em entrevista ao escritor Tomás Eloy Martínez, em 1970, Perón declarou que “Evita foi uma criação minha”, negando que a imagem de sua segunda mulher tenha se tornado maior do que a dele. Essa posição é defendida hoje por peronistas que acusam a oligarquia argentina de inflar o mito de Evita para torná-la maior do que o caudilho.

A primeira-dama foi fundamental na campanha para a introdução do voto feminino, em 1947. Chegou a ser cotada como candidata a vice-presidente, mas enfrentou forte resistência dos conservadores e militares.

Um grande comício realizado pela CGT em 22 de agosto de 1951 foi insuficiente para virar o jogo. Depois de uma tentativa de golpe em 28 de setembro, a candidatura Evita foi abandonada.

SANTA EVITA
Uma espécie de Cinderela vingadora, Eva Perón morreu de câncer no útero menos de um ano depois, em 26 de julho de 1952, no auge de sua popularidade. Foi convertida numa santa.

Seu funeral durou quatro dias para que todos pudessem dar adeus à mãe dos pobres. De maio de 1952 a julho de 1954, dois anos depois de sua morte, o Vaticano recebeu mais de 40 mil cartas pedindo a canonização de Evita.

Mais da metade das meninas nascidas em algumas províncias argentinas naquela época foram batizadas Eva ou María Eva. As adolescentes pintavam o cabelo de louro. Evita ditava a moda.

DISPUTA PELO CADÁVER
Quando Evita morreu, o plano era construir um memorial em sua homenagem. Ela seria enterrada na base de um monumento aos descamisados. Como o líder da revolução comunista na Rússia, Vladimir Lenin, seu corpo embalsamado ficaria em exposição ao público.

Antes da conclusão da obra, Perón foi derrubado pelo golpe militar de 1955 e fugiu sem se preocupar com a múmia de Evita, que desapareceu da sede da CGT, em Buenos Aires, onde ficara. De 1955 a 1971, o peronismo foi proscrito na Argentina. Era proibido ter fotos de Eva e Juan Perón em casa e até mesmo de citar seus nomes.

Em 1957, com a ajuda do Vaticano, o cadáver de Evita foi retirado da Argentina e enterrado com nome falso na Itália.

Só em 1971 os militares revelaram que a ex-primeira-dama estava enterrada numa cripta em Milão, na Itália, com o nome de María Maggi. Naquele ano, o corpo foi exumado e entregue ao general Perón no exílio na Espanha.

Depois da morte de Perón, em 1974, a terceira mulher do caudilho, María Estela Martínez de Perón, a Isabelita, assumiu o governo e repatriou o cadáver de Evita, que ficou um tempo ao lado dos restos de Perón na Quinta de Olivos, residência oficial dos presidentes da Argentina.

 Com o golpe militar de março de 1976, mais uma vez os peronistas temeram pelo destino dos restos mortais da grande líder de massas. Em outubro daquele ano, sob a supervisão da ditadura, o cadáver de Evita foi levado de Olivos para o Cemitério da Recoleta, onde estão enterrados os grandes líderes da oligarquia argentina, e sepultado no mausoléu da família Duarte.

Até hoje, os dois cadáveres assombram e dominam a política argentina.

QUEDA DE PERÓN
As políticas econômicas de Perón deram certo até 1949 por causa do sucesso das exportações durante e logo após a Segunda Guerra Mundial. Mas o preço dos produtos primários exportados pela Argentina caiu e o aumento das importações para suprir a indústria deixaram a balança comercial negativa. Houve queda nos salários reais.

Reeleito com 62,5% dos votos em 11 de novembro de 1951, Perón teve um segundo governo muito mais difícil. Com a crise econômica e sem a carismática e angelical Evita a seu lado, o caudilho enfrentou oposição crescente dos estudantes e da Igreja Católica. Isso levou ao golpe liderado pelo general Eduardo Lonardi, chamado de Revolução Libertadora, em 16 de setembro de 1955.

Lonardi, reconhecendo a força do peronismo, tentou fazer um acordo. Foi afastado e substituído pelo general linha-dura Pedro Aramburu por adiar a desperonização. O Partido Justicialista (peronista) foi dissolvido e houve intervenção nos sindicatos.

SUCESSÃO DE GOLPES
Os peronistas continuaram sendo a maior força política argentina. Em 1958, apoiaram a candidatura do radical Arturo Frondizi, que prometia trazê-los de volta à legalidade. Frondizi foi derrubado em março de 1962.

Até outubro de 1963, a Argentina foi governada interinamente pelo Presidente do Senado, José María Guido, enquanto duas facções militares disputavam o poder: os vermelhos, favoráveis a adotar mais dureza contra o peronismo, e os azuis, mais moderados, que acabaram prevalecendo.

Um novo acordo para tentar reinstitucionalizar o país depois do golpe contra Perón levou à eleição de 7 de julho de 1963, vencida por Arturo Illia, derrubado em junho de 1966 pelo comandante do Exército, general Juan Carlos Onganía, que desfilara com a faixa presidencial no dia da posse de Illia.

Os governos militares de 1966 a 1973 foram marcados por uma explosão social, o Cordobazo, em maio de 1969, na segunda maior cidade argentina, e pelas atividades de grupos guerrilheiros como o Exército Revolucionário do Povo (ERP), trotskista, e os Montoneros, peronistas, que capturaram a mataram o ex-ditador Aramburu.

Onganía foi derrubado em junho de 1970 pelo general Roberto Levingston, substituído em 1991 pelo general Alejandro Lanusse, que prometeu restabelecer a democracia.

Com a volta do peronismo à legalidade, Héctor Cámpora foi eleito presidente em março de 1973. Ao assumir, em maio, deixou claro que estava apenas preparando a volta de Perón.

BATALHA DE EZEIZA
Depois de 18 anos no exílio, Perón foi recebido com a Batalha de Ezeiza, travada no aeroporto internacional de Buenos Aires entre a direita peronista, que incluía a temida Aliança Anticomunista Argentina (AAA), e a extrema esquerda, representada pelos Montoneros.

Da plataforma de onde Perón discursaria, franco-atiradores dispararam contra a Juventude Peronista e os Montoneros. Pelo menos 13 pessoas morreram e outras 365 saíram feridas do Massacre de Ezeiza. O jornal Clarín disse que na época que os números reais deveriam ser muito maiores. Não houve uma investigação oficial sobre essa suspeita.

Em 23 de setembro de 1973, o velho caudilho foi eleito presidente da Argentina pela terceira vez, com 62% dos votos, desta vez tendo a mulher como vice. Só que não era mais Evita. Era María Estela Martínez de Perón, uma bailarina de cabaré que ele conhecera no exílio no Panamá.

GUERRA SUJA
Com a morte do general, em 1º de julho de 1974, Isabelita tomou posse, tornando-se a primeira mulher presidente no mundo inteiro. Mas a crise do peronismo se aprofundou, o terrorismo de direita e de esquerda piorou.

O golpe de 24 de março de 1976, liderado pelo general Jorge Rafael Videla e o almirante Emilio Massera, marca o início do “processo de reorganização nacional”, a guerra suja contra a esquerda argentina. O total de mortos e desaparecidos é estimado entre 12 e 30 mil, o que a torna a pior ditadura da América do Sul durante a Guerra Fria.

Houve uma tentativa de eliminar toda uma corrente de pensamento político, um politicídio. Cerca de 62% dos desaparecidos foram sequestrados em suas casas à noite e 25% nas ruas em plena luz do dia, concluiu a comissão que investigou o desaparecimento de pessoas presidida pelo escritor Ernesto Sábato.

A decadência da economia aprofundou-se ainda mais com o ministro da Economia, José Alfredo Martínez de Hoz, que promoveu uma desregulamentação que favoreceu o setor financeiro, valorizando o peso e reduzindo ainda mais a competitividade da indústria. Os resultados foram inflação alta e déficits comerciais que levaram à crise da dívida externa nos anos 1980s.

MÃES DA PRAÇA DE MAIO
Com o Congresso fechado e a imprensa censurada, em 1977, as mães dos desaparecidos se organizaram a passaram a marchar toda quinta-feira à tarde na praça central de Buenos Aires, diante da Casa Rosada. Na cabeça, levavam lenços brancos com os nomes dos filhos desaparecidos.

As Mães da Praça de Maio se tornaram no maior símbolo da luta contra a ditadura militar argentina. Suas fundadoras foram mortas pela repressão. O presidente da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Buenos Aires, Adolfo Pérez Esquivel, preso e torturado em 1977, ganhou o Prêmio Nobel da Paz 1980.

GUERRA DAS MALVINAS
Para dar um golpe dentro do golpe, derrubar o presidente Roberto Viola, que sucedera Videla, e assumir a presidência, em 1981, o comandante do Exército, general Leopoldo Galtieri, fez um acordo com a Marinha para invadir as Ilhas Malvinas ou Falklands, uma possessão britânica no Sul do Atlântico reivindicada pela primeira vez por Rosas em 1833.

Havia uma negociação em andamento com o Reino Unido nos anos 1970s, semelhante à que acertou a devolução de Hong Kong à China, em 1997. As violações de direitos humanos da ditadura militar argentina inviabilizaram um acordo.

Em 2 de abril de 1982, os argentinos invadiram e ocuparam as Malvinas e no dia seguinte as Geórgias do Sul. Por três semanas, enquanto uma força naval britânica avançava 10 mil quilômetros para retomar as ilhas, não foi possível chegar a uma solução diplomática.

Os britânicos retomaram as Geórgias em 25 de abril e a Argentina se rendeu nas Malvinas em 14 junho, depois da morte de 649 soldados argentinos, 255 soldados britânicos e três britânicos habitantes nas ilhas. A vitória fortaleceu a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher e derrubou a ditadura militar argentina, apressando o fim dos governos militares no continente.

Repressores sanguinários como o capitão da Marinha Alfredo Astiz, o Anjo da Morte, acusado de matar uma menina sueco-argentina de 17 anos pelas costas e duas freiras francesas, se rendeu aos britânicos sem disparar um tiro. Thatcher não quis entregá-lo aos governos europeus interessados em processá-lo.

A Argentina mantém sua reivindicação sobre as ilhas. O Reino Unido alega que qualquer decisão terá de ser referendada pelos moradores das ilhas. Em plebiscito recente, 98% preferiram que ser governados por Londres.

DEMOCRATIZAÇÃO
Galtieri e  sua junta militar caíram quatro dias depois da derrota. Foi sucedido em 1º de julho de 1982 pelo general Reynaldo Bignone, que governou até a realização de eleições democráticas e a posse de Raúl Alfonsín, em 10 de dezembro de 1983.

Alfonsín convocou uma comissão para investigar o desaparecimento de pessoas e abriu processo contra os nove comandantes das três juntas militares que desgovernaram a Argentina de 1976-82. Todos foram condenados, mas foram indultados pelo presidente Carlos Menem (1989-99).

Alvo de três rebeliões militares dos carapintadas, Alfonsín acabou aceitando as Leis Ponto Final e de Obediência Devida, que na prática deixavam os repressores impunes. Foram revogadas no governo Néstor Kirchner (2003-7), que reabriu os processos.

HIPERINFLAÇÃO
O outro desafio de Alfonsín foi a crise econômica. A Argentina decretou a moratória durante a crise das dívidas externas da América Latina. Devia US$ 43 bilhões e sofreu com a hiperinflação. Em 1985, Alfonsín lançou o Plano Austral, mudando a moeda quando a inflação atingiu 1000% ao ano.

A hiperinflação voltou com ainda mais força apressando o fim do governo. Em 1989, chegou a 200% ao mês. Num país com trigo em abundância, o preço do pão era reajustado duas vezes por dia.

O primeiro presidente civil eleito democraticamente desde o golpe de 1930 na Argentina não chegaria ao fim do mandato. Cinco meses e dois dias antes da data marcada para a posse, entregou o poder a Menem, em 8 de julho de 1989, para que o novo presidente enfrentasse a crise econômica.

FIM DA GUERRA CIVIL
Representante da direita do peronismo, Menem se elegeu com 47,5% dos votos prometendo um “salariaço” (aumentos reais como no primeiro governo Perón) e uma “revolução produtiva”.

Ao entregar o Ministério da Economia para o grupo Bunge y Born, a maior empresa privada argentina, Menem acabava, na visão do cientista político Torcuato di Tella, com a longa guerra civil iniciada pelo golpe de 1943. O peronismo buscava se reconciliar com a elite econômica. Para a esquerda peronista, era uma traição.

Menem também indicava a intenção de adotar as políticas liberais propostas pelo Consenso de Washington: redução da participação do Estado na economia, equilíbrio das contas públicas, juros reais positivos, privatização, abertura comercial e para o investimento estrangeiro. Outra traição. A reação a essas políticas está na raiz do kirchnerismo.

O programa de privatizações vendeu companhias de petróleo, gás, telecomunicações, energia elétrica, bancos, aeroportos e canais de televisão.

SATÉLITE PRIVILEGIADO
Como complemento dessa revolução econômica liberal, Menem adotou uma política externa de alinhamento automático com os EUA. Tentava reassumir a condição de “satélite privilegiado” que a Argentina tinha com o Império Britânico no seu momento de maior prosperidade, no fim do século 19 e início do século 20. O ministro do Exterior, Guido di Tella, chegou a falar numa “relação carnal” com os EUA.

Para acabar com as revoltas militares, Menem deu indultos aos comandantes das juntas militares e a guerrilheiros, num total de 220 militares e civis, entre eles o líder montonero Mario Firmenich, preso no Brasil.

DOLARIZAÇÃO
A resistência da inflação levou à nomeação de Domingo Cavallo para ministro da Economia, em 1991. Ele dolarizou a economia do país, criando a paridade dólar-peso, que resolveu o problema da inflação por algum tempo, mas terminou em desastre.

Menem mudou a Constituição para concorrer a um segundo mandato, governando por dez anos, mas não elegeu o sucessor. O candidato peronista, Eduardo Duhalde, seu vice no primeiro governo, perdeu em 1999 para o radical Fernando de la Rúa, que teve 48,5% dos votos.

De la Rúa foi um presidente fraco que herdou uma política de que discordava e que já começava a dar problemas, mas não soube desarmar a bomba-relógio da dolarização, sacramentada pela Lei da Convertibilidade, que só poderia ser transformada pelo Congresso. O simples debate para mudá-la seria capaz de deflagrar uma grande especulação financeira.

COLAPSO
Em março de 2001, De la Rúa nomeou Cavallo para ministro da Economia na esperança de salvar a dolarização. Em 1º de dezembro, o governo decretou estado de emergência financeiro, congelando os depósitos bancários por 90 dias, no chamado corralito, curralzinho, em português.

Diante de violentas manifestações que terminam com 39 mortes, De la Rúa renunciou em 20 de dezembro de 2001 e fugiu da Casa Rosada de helicóptero. Três dias depois, a Argentina suspendeu o pagamento de sua dívida pública de US$ 81,8 bilhões.

Pela segunda vez, uma crise econômica encurtava o mandato de um presidente da União Cívica Radical (UCR). Desaba a credibilidade do partido como alternativa de poder, consolidando a hegemonia peronista.

O presidente do Senado, Ramón Puerta, presidiu o país por dois dias, passando o poder para Adolfo Rodríguez Saá, que durou uma semana no cargo. Em seguida, veio Eduardo Camaño, que ficou três dias na presidência.

ESTABILIZAÇÃO
Em 2 de janeiro de 2002, assumiu a Presidência da Argentina Eduardo Duhalde, o candidato derrotado em 1999, para terminar o mandato de De la Rúa e evitar a realização de eleições em plena crise. Seu maior objetivo era controlar a pior crise da história econômica de um país relativamente desenvolvido.

O governo suspendeu o pagamento da dívida pública de US$ 100 bilhões. As contas em dólares desapareceram. Foram convertidas em pesos com 30% do valor. Cerca de 58% dos argentinos caíram abaixo da linha de pobreza, em comparação com 24% em 1999, quando De la Rúa fora eleito.

O embaixador Roberto Lavagna foi nomeado ministro da Economia, com a função prioritária de renegociar a dívida. O PIB caiu 10,9% em 2002, mas a economia reagiu no início de 2003, crescendo 5% no primeiro trimestre, antes da eleição de abril de 2003.

ERA KIRCHNER
Duhalde indicou o governador da província de Santa Cruz, na Patagônia, Néstor Kirchner, como candidato da esquerda peronista para evitar a volta de Menem. Kirchner ficou em segundo lugar no primeiro turno, com 22% dos votos, atrás de Menem, que teve 24,5% da votação mas desistiu de disputar o segundo turno para negar legitimidade ao rival.

Kirchner se antoinvestiu da missão desmontar o neoliberalismo da era Menem, que julgava responsável pela crise econômica. Entre as realizações de seu governo, estão a redução à metade dos índices de desemprego e miséria, a reabertura dos processos por violações de direitos humanos durante a ditadura militar, o fortalecimento das relações com a América Latina, a rejeição junto com o resto do Mercosul e a Venezuela da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), e a renegociação da maior parte da dívida.

Em 2005, foram revogadas todas as leis de anistia e os processos por violações de direitos humanos durante a ditadura foram retomados. O general Videla, líder do golpe de 1976, foi condenado à prisão perpétua pela morte de 31 prisioneiros e a mais 50 anos pelo sequestro e desaparecimento de crianças, antes de morrer, em 17 de maio de 2013.

Aré 2007, a Argentina viveu um processo econômico virtuoso, com aumento do salário real, crescimento da qualidade e da quantidade de empregos, expansão da indústria e da construção civil, diminuição da pobreza e melhoria na distribuição da riqueza. Mesmo assim, Néstor preferiu não concorrer à reeleição, indicando sua mulher Cristina Fernández de Kirchner como sucessora.

A PRESIDENTA
Cristina Kirchner tornou-se em 28 de outubro de 2007 a primeira mulher eleita presidente da Argentina, com 45% dos votos contra 23% para Elisa Carrió. Na Argentina, basta ter 40% dos votos e ficar 10 pontos percentuais à frente do segundo colocado para ganhar no primeiro turno.

Seu governo começa quando a crise financeira internacional se agravava, complicando a situação da Argentina, que não voltou plenamente ao mercado desde a moratória de 2001. Para garantir o caixa do governo, Cristina aumentou a alíquota do imposto sobre exportação de grãos, que para grandes volumes passou de 35%.

REVOLTA DO CAMPO
O impostaço gerou uma revolta no campo, com uma greve (locaute) de cem dias de produtores rurais que causou desabastecimento e marchas de panelas vazias. Quando a Lei de Retenções foi à votação no Congresso, houve empate no Senado e o vice-presidente Julio Cobos deu o voto de minerva a favor dos ruralistas, deflagrando uma crise no governo.

GUERRA AO CLARÍN
O principal grupo de mídia argentino, liderado pelo jornal Clarín, que apoiara Néstor Kirchner, ficou ao lado dos ruralistas. O casal Kirchner declarou guerra ao jornal. Conseguiu aprovar uma Lei de Meios de Comunicação para obrigar o grupo a devolver mais de 200 licenças de rádio e televisão. O caso se arrastou na Justiça durante anos. O governo ganhou.

MANIPULAÇÃO
Desde a campanha para a eleição de Cristina, o casal Kirchner foi acusado de manipular os índices oficiais de inflação do Indec. Em 2012, a inflação oficial ficou em 10%, enquanto institutos independentes estimam que tenha sido de 25%. O FMI advertiu o governo argentino que não confiaria mais nas estatísticas oficiais argentinas se não houve uma revisão no método de cálculo.

REELEIÇÃO
Quando tudo indicava que Néstor Kirchner preparava uma volta ao poder em 2011, o ex-presidente morreu de um ataque cardíado, em outubro de 2010. Coube a Cristina, embalada pela recuperação pós-crise, defender o poder do clã.

Em 23 de outubro de 2011, ele obteve 54% dos votos, a quarta maior votação da história argentina, com uma diferença de 37,3 pontos para o segundo colocado, a maior da história.

CRISE
Com a falta de investimento externo, escassez de divisas e inflação em alta, Cristina Kirchner apelou para medidas como controle do câmbio e congelamento de preços, sem muito sucesso.

Sua popularidade caiu pela metade desde a reeleição. Sem obter maioria no Congresso nas eleições parlamentares intermediárias de outubro de 2013 para mudar a Constituição, Cristina não pode se candidatar de novo em 2015.

No fim de agosto de 2013, o governador da Província de Buenos Aires, Daniel Scioli, começou a articular a candidatura da Frente pela Vitória, a facção kirchnerista. Defende a realização de eleições prévias para que o peronismo tenha um candidato único, o que não acontece desde 1999.

O candidato da direita peronista pode ser o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, ex-presidente do Boca Juniors, enquanto a União Cívica Radical e o Partido Socialista articulam uma chapa de centro-esquerda.

A grande estrela das eleições de 2013 foi o ex-chefe de gabinete de Cristina, ex-prefeito de Tigre e atualmente deputado Sergio Massa, outro nome que desponta para disputar. Elegeu-se pela Frente Renovadora (do peronismo).

PAPA ARGENTINO
Em 13 de março de 2013, o cardeal Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, foi eleito o primeiro papa latino-americano e adotou o nome de Francisco, indicando a intenção de fazer da humildade a marca de seu pontificado.

Francisco logo se revelou um pastor hábil e um grande diplomata, conseguindo agradar a todos ou quase todos. Grande crítico do kirchnerismo, ele chegou a ser apontado como verdadeiro líder da oposição pelo então presidente Néstor Kirchner, em 2004. Cristina Kirchner logo entendeu que não pode brigar com um papa argentino.

A ala mais radical do movimento das Mães da Praça de Maio acusou Bergoglio de omissão diante dos abusos de direitos humanos cometidos pela ditadura militar, mas o ganhador do Prêmio Nobel da Paz 1980, o ativista Adolfo Pérez Esquivel, o defendeu, negando a cumplicidade do papa com os crimes da guerra suja argentina.

No dia seguinte à sua eleição, diversos repressores da ditadura que estão sendo processados compareceram ao tribunal com insígnias do Vaticano na lapela.

RELAÇÕES COM O BRASIL
Depois de uma história conturbada e de uma rivalidade alimentada pelo fato de que a Argentina, mesmo sendo menor, era mais rica do que o Brasil, os dois países se tornaram sócios no Mercosul e hoje são aliados, embora seja uma parceria incerta, marcada por desconfianças mútuas.

A formação do Mercosul é resultado da democratização da América Latina nos anos 1980s, que acabou com a suspeição mútua, e da adoção de políticas de abertura comercial justificadas em parte pela integração econômica.

Essa reaproximação começa ainda no regime militar, quando o presidente João Figueiredo, que vivera exilado na Argentina quando menino, se empenhou em resolver a questão em torno do aproveitamento energético do Rio Paraná. Quando o Brasil anunciou a construção de Itaipu, a Argentina temia que o potencial energético fosse esgotado. Os dois países chegaram a um acordo em 1979.

INTEGRAÇÃO ECONÔMICA
Com a democratização da Argentina, em 1983, e do Brasil, em 1985, os presidentes José Sarney e Raúl Alfonsín iniciaram o processo de integração econômica do continente. Naquele momento, os dois países estavam marginalizados pelo sistema financeiro internacional por causa da crise da dívida.

Além de um acordo sobre bens de capital e outras iniciativas econômicas, em 1989, os dois países chegaram a um acordo para abandonar seus programas nucleares militares e abrirem suas instalações atômicas a inspeções mútuas e da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

MERCOSUL
Quando Menem e Fernando Collor chegaram ao poder em 1989, com o fim da Guerra Fria e uma nova onda de globalização, a negociação do Acordo de Livre Comércio da América do Norte entre EUA, México e Canadá, em 1990, pressionou Brasil e Argentina a seguirem o mesmo caminho.

Com a integração dos sócios menores, Paraguai e Uruguai, que não poderiam ficar de fora de um acordo entre Brasil e Argentina, o Tratado de Assunção criou o Mercosul em 26 de março de 1991.

Desde então, o bloco enfrentou crises, desvalorização de moedas e, recentemente, o afastamento temporário do Paraguai por causa do golpe contra o presidente Fernando Lugo. Recebeu a adesão da Venezuela e tem agora pedidos de associação da Bolívia e do Equador.

A nova crise da dívida argentina exige um controle ainda maior do câmbio. Como o país absorvia 90% das exportações brasileiras de automóveis, o setor já prevê uma queda de 10% da produção no Brasil.

CULTURA
Com sua cultura transplantada da Europa, Buenos Aires é uma das cidades mais cosmopolitas da América. Tem seus cafés, teatros e restaurantes, uma vida cultural vibrante e a fama de virar a noite com suas danceterias que começam a funcionar a uma da madrugada. Mais de 97% dos argentinos são alfabetizados.

 A Biblioteca Nacional, fundada em 1810, tem mais de 2 milhões de volumes. A capital argentina tem ainda museus de arte moderna, de arte latino-americana, história natural, arqueologia, etnografia, design e um dedicado à memória de Evita. A esquerda peronista o acusa de ser parte de uma conspiração da oligarquia para colocar Evita acima de Perón.

LITERATURA
O país tem grandes escritores, como Domingo Sarmiento, José Hernández, autor do poema épico Martín Fierro, Jorge Luis Borges, Julio Cortazar, Adolfo Bioy Casares, Ernesto Sábato, Manuel Puig, Tomás Eloy Martínez, Alicia Portnoy e Luisa Valenzuela.

CINEMA
A Argentina produz cerca de 80 filmes de longa-metragem por ano. Tem uma das maiores quantidades de salas por habitante da América Latina e o maior índice de frequência ao cinema do continente.

Filmes como La Historia Oficial, de Luis Puenzo, de 1985, falando sobre a adoção de crianças sequestradas pela ditadura e Tangos – o exílio de Gardel, de Fernando Pino Solanas, de 1986, são tentativas de encarar a própria história trágica depois da democratização.

O ator Ricardo Darín, estrela de filmes como Carancho e Una pistola en cada mano, ganhou fama internacional.

MÚSICA
O Teatro Colón, de Buenos Aires, inspirado no Scala, de Milão. Com uma das melhores acústicas do mundo, foi palco para compositores como Alberto Ginestera e Juan Carlos Paz.

No rock argentino, destacam-se Charly García e Fito Páez. Mas a grande contribuição argentina à música está no tango.

TANGO
A música típica argentina tem suas origens nas danças e “reuniões de negros” no começo do século 19 nas margens do Rio da Prata, sustenta Diego Arguindeguy em 365 dias para conocer la historia argentina. Os primeiros registros documentados são de autoridades interessadas em reprimir sua prática.

Para a Enciclopédia Britânica, o tango mistura o tango espanhol, uma variedade do flamenco, com a habanera cubana e a milonga argentina.

Era uma dança de gaúchos, criollos e mestiços, de cabarés, com letras de amor, violência e traição, rejeitada pela aristocracia rural e a elite portenha. Quando começou a fazer sucesso em Paris e convidaram o embaixador argentino para uma apresentação, ele rejeitou o convite. Era uma música e dança para desclassificados.

Quando a delegação da Espanha chegou a Buenos Aires para a festa do centenário da independência da Argentina, em 1910, a princesa Isabel de Bourbon quis fazer o que todo turista faz: ver um espetáculo de tango. Imediatamente, o tango virou moda.

Seu maior nome, Carlos Gardel, não era tão famoso quando morreu num acidente de avião em Medelim, na Colômbia, em 1935, quanto se tornou. Perón promoveu o tango como um elemento importante da identidade cultural argentina.

Até hoje se discute se Gardel era argentino, uruguaio ou francês. Essa névoa reforça a imagem do mito. A julgar pelas fotos que se veem nas bancas de jornais e revistas na Argentina, os grandes ídolos da nacionalidade são Carlos Gardel, Evita Perón e Ernesto Che Guevara, acima de Diego Maradona, Lionel Messi e o general Juan Domingo Perón.

Outros nomes importantes do tango foram Anibal Troilo, Osvaldo Pugliese, Juan d’Arienzo e Astor Piazzolla, que modernizou o tango, dando-lhe um caráter universal.

PICARDIA
Muito associada ao tango e à malícia é a chamada picardia ou viveza criolla, a malandragem ou falsa malandragem argentina, a habilidade para enganar ou passar os outros para trás, o recurso dos gaúchos e deserdados pela vida na luta diária contra os ricos e poderosos.

O princípio básico é que é legítimo para as vítimas subverter a ordem estabelecida, numa distorção do “direito à sedição” do filósofo liberal inglês John Locke, o primeiro a defender a ideia de que os governantes devem ter o consentimento dos governados.

A picardia é um elemento central do futebol argentino, o que explica o orgulho com o gol de mão de Maradona na Copa de 1986.

CULINÁRIA
Outro elemento essencial da cultura argentina é a alimentação baseada na carne e no assado chapa ou parrilla, a parrillada, símbolo da cultura gaúcha. Há também as massas trazidas pelos imigrantes italianos, os embutidos de carne e as sobremesas com receitas importadas da Europa.

Além disso, há as invenções criollas, as empanadas, espécie de pastéis de forno, locro, uma mistura de milho, feijão, carne, bacon e cebola, o choriço, uma linguiça apimentada, o doce de leite, os sanduíches de miga e a erva mate, tomada com açúcar, diferentemente do que acontece no Rio Grande do Sul, onde os gaúchos brasileiros preferem o mate amargo.

A indústria de vinho argentina é uma das maiores e mais importantes do mundo fora da Europa. Os vinhos nobres, de exportação, são produzidos na Província de Mendoza, enquanto os mais populares vêm de La Rioja. A uva Malbec, francesa, produz melhores vinhos na Argentina.

ESPORTE
Por causa de sua cultura da campo e da influência britânica, a Argentina é uma potência mundial no polo, graças à força de seus cavalos e à destreza de seus cavaleiros. As classes média e alta são associadas a clubes que oferecem esportes como tênis, remo, vela.

AUTOMOBILISMO
Em outro esporte de elite, um dos maiores campeões de automobilismo até hoje é o argentino Juan Manuel Fangio, que recebeu ajuda de Perón para correr na Europa e dominou a primeira década da Fórmula Um ganhando cinco campeonatos mundiais.

Até hoje, Fangio tem o maior percentual de vitórias da F-1, 46%. Venceu 24 das 52 corridas que disputou.

Na época de Emerson Fittipaldi, um de seus adversários era o argentino Carlos Reutemann, vice-campeão por um ponto em 1981, que depois fez carreira política levado por Menem e foi governador da província de Santa Fé.

RÚGBI
A Argentina tem uma importante seleção de rugby conhecida como Os Pumas e muitos jogadores atuam na Europa. Como seus jogadores eram de esquerda, a seleção foi dizimada pela última ditadura militar argentina. Em 2007, ficou em terceiro lugar no Mundial da França.

TÊNIS
Com quatro títulos de Grand Slam, o argentino Guillermo Vilas é considerado o maior tenista latino-americano de todos os tempos. De 1974 a 1982, esteve entre os dez melhores do mundo. Há sempre vários tenistas argentinos no circuito mundial. O destaque no momento é Juan Martín del Potro. Recentemente, na era Guga, jogavam Gastón Gaudio, Guillermo Coria e David Nalbandián.

BASQUETE
O segundo esporte mais popular na Argentina é o basquete. A geração de Manu Ginobili, do San Antonio Spurs, na NBA, Luis Scola, Andrés Nocioni, Carlos Delfino e Fabricio Otero ganhou medalha de ouro na Olimpíada de 2004 e bronze em 2008.

FUTEBOL
O futebol é longo o esporte mais popular no país. A seleção argentina tem 25 títulos internacionais, inclusive duas Copas do Mundo, duas medalhas de ouro em Olimpíadas e 14 Copas Américas.

Mais de mil argentinos jogam profissionalmente no exterior, com destaque para o rosarino Lionel Messi, eleito quatro vezes o melhor jogador do mundo. Em 2009, havia 331.881 jogadores registrados na Associação de Futebol de Argentina (AFA). Nos últimos anos, aumentou muito o número de mulheres.

O Club Atlético Boca Juniors é o mais popular da Argentina. Ganhou seis Copas Libertadores e 30 campeonatos nacionais. Seu estádio, La Bombonera, fica na Boca, tradicional bairro operário de imigrantes italianos, uma das atrações de Buenos Aires. Por falta de espaço, é muito verticalizado. Com uma torcida passional e entusiasmada, é um dos maiores, senão o maior, alçapões do futebol mundial.

O Club Atlético Independiente, de Avellaneda, na Grande Buenos Aires, tem um recorde de sete vitórias na Copa Libertadores da América, além de dois títulos mundiais, em 1973 e 1984. De 1972 a 1975, foi teatracampeão. Ganhou 16 campeonatos argentinos, mas foi rebaixado e disputa a temporada 2013-14 na segunda divisão.

Maior campeão nacional, com 35 títulos, o Club Atlético River Plate, conhecido como conjunto milionário, ganhou duas Copas Libertadores e um título mundial. Seu estádio, o Monumental de Núñez, é o maior da Argentina. Foi palco da decisão da Copa de 1978, primeiro título mundial da seleção argentina.

O futebol de praia e o futebol de salão são cada vez mais populares.

COPA ROCA
De 1914 a 1976, as seleções de futebol do Brasil e da Argentina disputaram regularmente um torneio bilateral. A Copa Roca foi uma iniciativa do presidente Julio Argentino Roca, que era embaixador no Brasil em 1913, depois de governar a Argentina por dois mandatos.

A Copa Roca foi disputada onze vezes, com sete vitórias do Brasil, três da Argentina e um empate. Pelé estreou e marcou seu primeiro gol pela seleção brasileira numa Copa Roca, em 7 de julho de 1957, no Maracanã, mas a Argentina venceu a partida por 2-1.

VITÓRIA MORAL?
Em 1978, a FIFA ainda não havia introduzida a regra que obriga a disputar os jogos decisivos do mesmo grupo no mesmo horário.

Quando o Brasil derrotou a Polônia por 3-1, depois de empatar com a Argentina em 0-0, na segunda fase do mundial, que naquela época era disputada em grupos, a seleção argentina entrou em campo para jogar contra o Peru sabendo que precisaria de um saldo de quatro gols e ganhou por 6-0.

O capitão Claudio Coutinho, treinador brasileiro, que levara um time retranqueiro, deixando Falcão no Brasil, alegou que o Brasil era campeão moral porque a Argentina haveria manipulado o jogo contra o Peru.

COPA SOB DITADURA
No livro La Verguenza de Todos:o dedo na chaga do Mundial 78, o jornalista, militante de esquerda e hoje advogado Pablo Llonto fala da importância política do Mundial para a ditadura militar argentina, que sequestrou pelo menos 67 pessoas durante a Copa.

Pelo relato de Llonto, o zagueiro Rodolfo Manso teria recebido na terça-feira 20 de junho de 1978 em telefonema anônimo uma oferta de US$ 50 mil para “deixar a Argentina ganhar por mais de quatro gols. Não te esqueças, negro, são 50 mil verdinhas”, disse a voz grossa e arrogante do outro lado da linha.

BRASIL OFERECEU MIMO
O Brasil já tinha feito sua oferta, afirma Llonto: US$ 6 mil por cabeça mais férias na Ilha de Itaparica.

A delegação peruana estava dividida entre jogadores do Alianza e do Sporting Cristal. A estrela do time, José Muñante, que jogava no México e estava fora dessa briga, se desentendeu com o técnico, que lhe pediu mais empenho no intervalo do jogo com a Polônia.

Eliminado antes do jogo contra a Argentina, o Peru foi aconselhado por seus guarda-costas a passear. Francisco Morales Bermúdez, filho do ditador peruano do mesmo nome, que acompanhava a delegação, se declarava muito amigo dos militares argentinos.

Um ex-militante montonero sequestrado em Lima em 1977 foi entregue na sinista Escola de Mecânica da Armada (Esma), em Buenos Aires. Os regimes militares se associavam.

INTIMIDAÇÃO
Sem polícia para reprimir, a torcida argentina fez festa e soltou foguetes a noite toda junto ao hotel do Peru.

Na manhã seguinte, o motorista de ônibus chegou armado e acompanhado de quatro policiais. O trajeto até o estádio do Rosário Central levou duas horas. Os jogadores peruanos eram xingados e intimidados ao longo do caminho.

Manzo e Velázquez estavam machucados, mas foram escalados pelo técnico Marcos Calderón. Hugo Sotil e La Rosa ficaram no banco.

Havia suspeitas no plantel sobre a lealdade do goleiro Quiroga, argentino naturalizado peruano por influência de Morales Bermúdez, filho.

VIDELA NO VESTIÁRIO
Os peruanos chegaram ao estádio uma hora antes do jogo. Quando a porta do vestiário se abriu, às 18h25, o corredor estava cheio de homens de óculos escuros. Não era a primeira vez que o ditador Jorge Videla ia a um jogo da Copa, mas a primeira em que visitou o vestiário da equipe visitante.

Estava começando o que o jornalista chama de partida mais longa do mundo. O primeiro tempo terminou 2-0. Não classificava a Argentina. Menotti pediu velocidade ao time. Nos primeiros seis minutos do segundo tempo, Kempes e Luque fizeram os 4-0 que classificavam a Argentina para a grande final. O placar final de 6-0 foi estabelecido 20 minutos antes de acabar o jogo.

Enquanto a pequena torcida peruana os chamava de “vendidos” e “traidores”, Héctor Chumpitaz foi um dos poucos que falou, mas seu desejo nunca será realizado: “O que aconteceu hoje é melhor esquecer”.

No vestiário argentino, Videla cumprimentava os heróis da pátria.

SUBORNO?
Em Como roubaram a Copa, o jornalista investigativo inglês David Yallop, autor de Em nome de Deus, alegando que o papa João Paulo I foi assassinado, afirma que a ditadura militar argentina subornou o Peru com 35 mil toneladas de trigo, o descongelamento de uma linha de crédito de US$ 50 milhões e propinas menores para funcionários subalternos peruanos saídas de contas da Marinha argentina.

Cada jogador peruano selecionado para participar do esquema, não teriam sido todos, recebeu US$ 20 mil, alega Yallop. Foi um suborno de alto nível. O dinheiro teria saído da junta militar argentina para a junta militar peruana, que teria se encarregada de fazer a entrega na etapa final da corrupção.

Oito anos depois, na Copa de 86, Oblitas, um dos craques chamuscados nesta história, declarou: “Houve coisas muito estranhas naquela partida. Quatro ou cinco jogadores peruanos se venderam.” Teófilo Cubilas, um dos melhores jogadores peruanos daquela geração, respondeu que tantos anos depois era melhor ficar calado.