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segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Milei perde eleições na província de Buenos Aires

 Com 47% dos votos, a aliança Força Pátria, liderada pelo governador Axel Kicillof, obteve uma ampla vitória nas eleições de domingo na Província de Buenos Aires, a maior e mais importante da Argentina. O coligação entre A Liberdade Avança, do presidente Javier Milei, e a Proposta Republicana (Pro), do ex-presidente Mauricio Macri, ficou num segundo lugar distante, com pouco menos de 34% da votação.

Um ano e meio depois de chegar à Casa Rosada com uma promessa radical de acabar com a inflação com cortes drásticos nos gastos públicos e grande liberdade para os mercados, Milei enfrenta os mesmos problemas que desmoralizaram o peronismo em sua versão mais recente, o kirchnerismo: a inflação e a corrupção.

O resultado das urnas foi inesperado. Esperava-se uma vitória apertada do peronismo, que tem sua grande base eleitoral na Província de Buenos Aires, onde vivem 14,38 dos 35,4 eleitores argentinos, mais de 40% do total. Kicillof desponta como principal candidato da oposição à Presidência em 2027.

Em consequência, o Índice Merval da Bolsa de Valores de Buenos Aires, caiu 13%. O dólar subiu 7% de manhã depois de se estabilizar com uma alta de 4,25% no dia, num momento em que o governo intervém no mercado de câmbio para conter a inflação, que voltou a subir. Ficou em 1,9% ao mês em julho. As previsões para agosto apontam 2% a 2,1%.

Milei recebe Goldfajn na Casa Rosada

Sob ameaça de uma nova disparada do dólar, Milei e o ministro da Economia, Luis Caputo, fizeram uma reunião de emergência na sede do governo com o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Ilan Goldfajn, ex-presidente do Banco Central do Brasil (foto), que prometeu apoiar o programa de recuperação da economia argentina.

Talvez o que mais tenha pesado na decisão dos eleitores foi um escândalo de corrupção envolvendo a irmã do presidente, Karina Milei (foto), secretária-geral da Presidência, considerada hoje a pessoa mais poderosa do país, logo abaixo do irmão. Karina chefiou a campanha de Javier Milei, que a chama de "o chefe".

Em 19 de agosto, gravações de som atribuídas a Diego Spagnuolo, ex-diretor da Agência Nacional para Deficientes (Andis), denunciaram um esquema de propinas na compra de medicamentos. Os laboratórios interessados em contratos estatais deveriam pagar até 8% a mais para uma drogaria chamada Suizo Argentina; 3% iriam para Karina Milei. O desvio de dinheiro público seria de 500 a 800 mil dólares por mês.

A Justiça ordenou investigação e busca na Andis e em propriedades da Suizo Argentina. Mais de US$ 266 mil em espécie foram encontrados na casa de um dos donos da drogaria suspeita.

O mileísmo sofre assim dos mesmos males que derrotaram o kirchnerismo: inflação e corrupção. No seu pior momento, terá de enfrentar em 26 de outubro as eleições parlamentares de meio de mandato. Serão renovadas a metade da Câmara e um terço do Senado.


domingo, 19 de novembro de 2023

Extremista Javier Milei é eleito presidente da Argentina

 Antes da divulgação do resultado oficial na Argentina, o ministro da Economia, Sergio Massa, reconheceu a vitória do extremista de direita Javier Milei, que defende propostas extravagantes como o fim do Banco Central e do peso argentino, com a dolarização da economia. Ele ameaçou romper relações com o Brasil, a China e o Vaticano, sair do Mercosul e nega o aquecimento global.

Com 99% dos votos apurados, Milei lidera com 14.476.462 votos (55,69%) contra 11.516.142 (44,3%) para Massa. Este resultado supera todas as previsões dos institutos de pesquisa. Atlas-Intel, que acertou na eleição prévia e no primeiro turno, dava 52,5% para o candidato oposicionista e 47,5% para o peronista.

"Hoje, termina uma forma de fazer política e começa outra", proclamou Milei. "A Argentina tem futuro se for liberal. Não viemos para inventar nada. Vamos fazer o que a história mostrou que funciona. Vamos abraçar as ideias de liberdade, que são as que garantem a prosperidade."

Em uma nota fria, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumprimentou a democracia argentina sem citar o nome do presidente eleito. Milei toma posse em 10 de dezembro. A grande expectativa é qual será seu plano econômico. Meu comentário: 

domingo, 22 de outubro de 2023

Massa e Milei vão disputar segundo turno na Argentina

Apesar da inflação de 138% ao ano, o ministro da Economia, Sergio Massa, da Aliança União pela Pátria, surpreendeu. Com mais de 98,5% dos votos apurados, ele ficou em primeiro lugar no primeiro turno da eleição presidencial na Argentina com 36,7% dos votos. Massa vai disputar o segundo turno em 19 de novembro com o economista Javier Milei, do partido Liberdade Avança, de extrema direita, que teve 30% dos votos.


O sucesso de Massa se deve ao bom desempenho do peronismo na Província de Buenos Aires, onde o governador Axel Kicillof, ex-ministro da Economia no Governo Cristina Kirchner (2007-15), se reelegeu no primeiro turno. Milei repetiu a votação das eleições primárias abertas simultâneas e obrigatórias realizadas em 13 de agosto. 

A participação foi de 74% dos 35 milhões de argentinos aptos a votar numa população de 46 milhões, menos do que nas duas eleições presidenciais anteriores, em 2015 e 2019.

Em seu discurso, primeiro ato da campanha para o segundo turno, Milei tentou de atrair os votos da terceira colocada, Patricia Bullrich (24%), da aliança Juntos pela Mudança, que tem entre seus principais líderes o ex-presidente Mauricio Macri (2015-19).

"Dois terços dos argentinos votaram pela mudança", afirmou o segundo colocado, que sonhava em vencer no primeiro turno. Num apelo aos eleitores de Bullrich, Milei declarou que "aqueles que querem a mudança devem trabalhar juntos" e atacou o kirchnerismo como "a pior coisa que já aconteceu com a Argentina."

Massa não é kirchnerista. Foi chefe de gabinete do primeiro governo Cristina Kirchner (2007-11) durante um ano (2008-9) e voltou a ser prefeito de Tigre (2009-13), uma cidade da Grande Buenos Aires. 

Em 2010, em documentos do Departamento de Estado norte-americano vazados pelo WikiLeaks, Massa diz à embaixadora dos Estados Unidos, Vilma Martinez, que Néstor Kirchner (2003-7) "é um psicopata" e "comanda o governo argentino" enquanto sua mulher "cumpria as ordens".

Ele rompeu com o kirchnerismo em 2013 e fundou seu próprio partido, a Frente Renovadora, uma dissidência peronista em relação ao kirchnerismo. Na Câmara dos Deputados, lutou contra o projeto que permitiria a Cristina ter um terceiro mandato consecutivo

Em 2015, Massa disputou a Presidência e ficou em terceiro lugar, com 21%, atrás do então vice-presidente Daniel Scioli, candidato do kirchnerismo, e de Mauricio Macri, que foi o vencedor no segundo turno.

Na eleição de 2019, Massa abriu mão de sua candidatura para apoiar Alberto Fernández, indicado numa jogada de mestra de Cristina, que ficou como vice-presidente para que a rejeição contra ela não prejudicasse a chapa peronista. Há uma piada que comenta que a Argentina é um país tão original que inventou o vice-presidencialismo. A vice mandava. Massa foi eleito deputado nacional e se tornou presidente da Câmara.

Diante do fracasso total do Governo Fernández (2019-23), com a aceleração da inflação e o aumento da pobreza, Cristina Kirchner deu mais uma tacada de mestra: em julho de 2022, indicou Massa para o Ministério da Economia como última esperança do peronismo, na expectativa de que ele ganharia popularidade se conseguisse frear a alta de preços.

Mesmo sem conseguir, Massa venceu o primeiro turno com uma campanha em que se apresenta como totalmente independente do governo a que pertence. Alberto Fernández e Cristina Kirchner foram totalmente marginalizados na campanha. Mas a força do peronismo, não.

O movimento peronista nasce em outubro de 1945, quando o então ministro do Trabalho e vice-presidente, coronel Juan Domingo Perón, é deposto e preso sob pressão do embaixador dos Estados Unidos e volta nos braços do povo nove dias depois, em 17 de outubro, Dia da Lealdade peronista. Desde então, o Partido Justicialista ganhou 10 eleições presidenciais e governou o país por 40 anos.

Para tirar o país da profunda crise econômica e atrair o apoio do empresariado, Massa promete fazer um governo de união nacional, que só pode ser com a direita tradicional representada pelo macrismo. Ele tem bom relacionamento com o governo dos EUA e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Sua candidata, Patricia Bullrich, ministra da Segurança no Governo Macri, recebeu os votos da elite argentina e ganhou na Cidade de Buenos Aires com 41%. No discurso da derrota, rejeitou qualquer aliança: "O populismo empobreceu o país e não sou eu que vou felicitar a volta ao poder do pior governo da história argentina."

Milei, um populista de extrema direita que se apresenta como "libertário" e "anarcocapitalista". Acusa os políticos profissionais de formar uma casta que parasita os cofres públicos. É mais um político que faz o discurso da antipolítica. É comparado ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Fez campanha com uma motossera para sinalizar a intenção de reduzir o tamanho do Estado, que culpa pela inflação argentina.

Seu guru intelectual, Alberto Benegas, causou indignação ao sugerir que um Governo Milei poderia romper com o Vaticano porque o papa Francisco tem tendências esquerdistas. Antes desse comentário, o papa havia criticado Milei sem citar o nome, dizendo que só quem faz milagres é Deus. Milei falou em romper com a China, a maior parceira comercial da Argentina.

Entre outras propostas extravagantes, Milei promete dolarizar a economia, cortar impostos, diminuir os gastos públicos, acabar com o Banco Central e com 10 ministérios, inclusive da saúde, da educação e do desenvolvimento social, que seriam fundidos no Ministério do Capital Humano, privatizar as empresas estatais e permitir a venda de órgãos humanos para transplante. É contra o Mercosul. Alega que comércio exterior é uma atividade do setor privado em que o governo não deve interferir.

Com produto interno bruto estimado pelo FMI em US$ 622 bilhões em 2024, a Argentina é segunda maior economia da América do Sul, a 24ª do mundo e a terceira maior parceira comercial do Brasil. Em renda média por pessoa, com US$ 13,3 mil por ano, está em 66º lugar no mundo e em 5º na América Latina, atrás de Uruguai, Chile, Costa Rica e México. Chegou a ter 15 cotações diferentes para o dólar, a moeda preferida pelos argentinos para poupar. 

Quando Fernández assumiu, em 10 de dezembro de 2019, o dólar oficial estava em 60 pesos. Hoje o câmbio oficial está em 365,50 pesos e no mercado paralelo a 900. Chegou a mil depois que Milei comparou o peso argentino a excremento.

A dolarização anterior, no Governo Carlos Menem (1989-99), para vencer a hiperinflação legada pelo Governo Raúl Alfonsín (1983-89), entrou em colapso no Governo Fernando De la Rúa (1999-2001), que renunciou em meio a protestos violentos com 39 mortes. 

A Argentina não fabrica dólares e as reservas cambiais são baixíssimas. No Governo Menem, a inflação argentina subiu 45% num período em que a norte-americana foi de 6%, tornando os produtos argentinos mais caros e menos competitivos.

Outra dificuldade para Milei é a base parlamentar pequena. Seu partido elegeu 38 dos 257 deputados nacionais da Câmara e terá apenas 8 dos 72 senadores.

Assim, diante da loucura do plano de governo de Milei, é provável que Massa consiga atrair o apoio do empresariado. Nas camadas populares, num país com 40% na pobreza em que uma em cada três crianças passa fome, apesar de ter capacidade de produzir comida para 350 milhões de pessoas, a campanha peronista apela para o discurso do medo. 

Se Milei for eleito, vai cortar programas sociais. Com tanta miséria, no momento, isto é inviável e pode causar uma convulsão social ou no mínimo uma onda de greves convocadas pelo movimento sindical peronista.

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Extrema direita surpreende e vence eleição primária na Argentina

 O economista e deputado de ultradireita Javier Milei venceu as eleições primárias abertas simultâneas e obrigatórias (PASO) na Argentina com 30,25% dos votos. É o candidato da antipolítica na eleição presidencial de outubro e novembro.

A aliança de direita Juntos pela Mudança (JxC), ficou em segundo com 28,25%, com vitória na disputa interna da ex-ministra Patricia Bullrich (17%) sobre o prefeito de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta (11,2). 

A União pela Pátria, do governo peronista, ficou em terceiro com 27,17%. Com inflação de 115% ao ano, o ministro da Economia, Sergio Massa, que tinha a expectativa de ser o mais votado, teve apenas 21,35% dos votos.

Desde já, Milei é o favorito no primeiro da turno da eleição presidencial, em 22 de outubro. Se nenhum candidato tiver mais de 45% dos votos ou mais de 40% e vantagem de mais de 10 pontos sobre o segundo colocado, haverá segundo turno em 19 de novembro.

Eufórico, Milei declarou: "Conseguimos construir esta alternativa competitiva que não dará fim só ao kirchnerismo. Além disso, dará fim à casta política parasitária, ladra e inútil." O jornal argentino Clarín o comparou aos ex-presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro e ao presidente de El Salvador, Nayib Bukele, que assumiu poderes ditatoriais.

"O impacto do triunfo de Milei e sua amplitude falam da extensão da desesperança e da raiva que pulsa na sociedade argentina, que quis com seu voto agora em agosto expressar seu mal-estar profundo", escreveu o colunista Ricardo Kirschbaum. "Que esse sentimento se transforme numa força política capaz de governar este país complexo ainda é uma incógnita." 

Sua crítica ataca tanto a direita quanto a esquerda, mas o ex-presidente Mauricio Macri, líder da aliança JxC, destacou que a soma dos votos da direita e da extrema direita indica que os argentinos querem mudança.

Neste sentido, o grande derrotado nestas primárias foi o kirchnerismo, a força política que dominou a política argentina a partir de 2003, com a breve interrupção do governo Macri (2015-19), desde a recuperação do país da profunda crise causada pelo colapso da dolarização da economia, em dezembro de 2001, quando 58% dos argentinos caíram abaixo da linha de pobreza. Hoje, mais de 40% estão na pobreza.

A crise econômica argentina vem desde a última ditadura militar, que acabou com a indústria, inflou o sistema financeiro e reprimiu os sindicatos, reduzindo a renda dos trabalhadores em 37%.

Quando Raúl Alfonsín foi eleito presidente, em 1983, pela União Cívica Radical (UCR), os argentinos acreditavam que a democracia traria estabilidade política e resgataria a prosperidade do que já foi um dos dez países mais ricos do mundo.

Alfonsín (1983-89) não conseguiu controlar a inflação herdada da ditadura. Com alta de preços de 200% ao mês, deixou o poder cinco meses antes do fim do mandato, na primeira transição pacífica de um presidente civil para outro desde 1930 na Argentina.

Sem sucesso com os dois primeiros ministros da Economia, o presidente Carlos Menem (1989-99), peronista de direita, recorreu a Domingo Cavallo, que dolarizou a economia argentina, enrijecendo-a de uma forma que a pesificação deflagrou uma das piores crises de uma economia moderna e relativamente desenvolvida. Deixou a herança maldita para o radical Fernando de la Rúa (1999-2001), que renunciou com dois anos de governo, em 21 de dezembro de 2001, em meio a uma onda de protestos e saques com 39 mortes.

Em 2002, no auge da crise, após uma sucessão de presidentes temporários, assume o peronista Eduardo Duhalde, o candidato derrotado por De la Rúa em 1999. 

Duhalde patrocina a candidatura de Néstor Kirchner em 2003, que como presidente assume o controle do Partido Justicialista (peronista), afasta Duhalde e elege a mulher para a Casa Rosada em 2007. Cristina Kirchner foi a primeira mulher eleita para governar a Argentina, ocupando o lugar mítico de Evita Perón. 

Kirchner se preparava para voltar quando morreu de infarto em outubro de 2010. Cristina é reeleita em 2011 com 54% dos votos, 37 pontos à frente do segundo colocado. Mas seu segundo governo afunda o país na crise econômica, com corrupção, manipulação da inflação, excesso de gastos públicos, endividamento e ruptura com o sistema financeiro internacional.

O resultado foi a eleição de Macri em 2019. Além de não resolver a crise econômica crônica da economia argentina, Macri fez o maior empréstimo da história do FMI, no valor de US$ 57 bilhões.

Por causa da rejeição Cristina indicou Alberto Fernández em 2019 e ficou como vice. A piada é que a Argentina é um país tão original que inventou o vice-presidencialismo. Cristina várias vezes humilhou publicamente seu apadrinhado para mostrar quem manda.

Assim, a vice-presidente Cristina Kirchner é a maior derrotada. Não foi candidata e não apareceu. A única boa notícia para o kirchnerismo foi a vitória do governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, ex-ministro da Economia de Cristina, com 36,38% votos com mais de 80% das urnas apuradas, à frente de JxC e do partido direita A Liberdade Avança (La Libertad Avanza, LLA).

Massa aposta no canibalismo dos candidatos de direita para que a esquerda fique com uma das vagas no segundo turno. Depois do fracasso do governo Alberto Fernández (2109-23) e da sombra permanente da vice-presidente Cristina Kirchner, as PASO mostram um risco de que o peronismo fique fora do segundo turno, o que seria algo sem precedentes.

Milei surpreendeu em todo o país. Seus candidatos foram mal em eleições regionais recentes As pesquisas lhe davam algo em torno de 20% das preferências. Ele faz sucesso entre os jovens, cansados do kirchnerismo e do macrismo. Apresenta-se como anarcocapitalista.

Seu ponto fraco é a promessa de resolver a crise econômica e a hiperinflação dolarizando a economia argentina, o que já deu errado uma vez e não tem por que dar certo, extinguindo vários ministérios, inclusive da saúde, da educação da cultura, e o Banco Central. 

Nos costumes, Milei quer acabar com o direito ao aborto, mas é a favor do casamento gay porque entende que o Estado não deve interferir na vida privada dos cidadãos. Também é contra o Mercosul. Alega que o Estado não deve intervir na economia e que o comércio exterior é uma questão do setor privado. 

A corrupção é endêmica. "Conseguimos que o Estado parasse de matar", declarou Luis Moreno Ocampo, procurador adjunto no Julgamento das Juntas Militares, que depois foi procurador-geral do Tribunal Penal Internacional, quando 1985 foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiros. "Mas ainda não conseguimos que pare de roubar."

Neste pântano político, com a inflação correndo a renda das classes médias, o discurso da antipolítica faz sucesso. Se quiserem barrar Milei, os partidos tradicionais devem pensar desde agora numa possível aliança no segundo turno.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Superministro é desde já candidato à Presidência da Argentina

 O presidente da Câmara dos Deputados da Argentina, Sergio Massa, terceiro colocado na eleição presidencial de 2015, renunciou ao cargo para assumir ontem um superministério da Economia, Desenvolvimento Produtivo e Agricultura, encorpado pela inclusão de agricultura, pecuária, pesca e indústria. 

Seu desafio é formidável: controlar uma inflação que está em 64% ao ano e pode chegar a 80% em 2022, conter um ataque especulativo, acalmar os movimentos sociais e os produtores rurais, que exigem uma redução de impostos, e honrar um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para reestruturar uma dívida de US$ 44 bilhões. 

Se tiver sucesso, será o favorito à eleição presidencial de 22 de outubro de 2023. Caso contrário, a direita volta ao poder, onde fracassou com Mauricio Macri (2015-19).

Peronista moderado, com bom trânsito nos meios empresariais, Massa tomou posse sem a presença da poderosa vice-presidente Cristina Kirchner, que derrubou o ministro Martín Guzmán, substituído por Silvina Batakis, que durou apenas 24 dias no cargo e foi demitida quando voltava dos Estados Unidos, onde tinha ido tentar acalmar os investidores.

Ao chegar à Casa Rosada, o carro de massa foi cercado por piqueteiros que gritavam insultos e bateram nas janelas do veículo. A Unidade Piqueteira, que reúne vários movimentos sociais, rejeita os planos de ajuste fiscal. Exige reajuste do salário mínimo, uma escala móvel para o salário mínimo e um abono de emergência.

Sob pressão das ruas, Massa assumiu se desculpando preventivamente: "Não sou um superministro nem mago nem salvador. Venho ajudar a trabalhar para que a Argentina vá bem e os argentinos, melhor", declarou massa. "A Argentina é um país com recursos, em vias desenvolvimento, não um país rico. A riqueza devemos construir todos. Isto inclui governo e oposição, campo e indústria, trabalhadores e empresários, organizações sociais e da sociedade civil."

METAS

Massa anunciou o fim dos subsídios aos grandes consumidores de energia elétrica, prometeu manter o déficit orçamentário em 2,5% do produto interno bruto, como acertado com o FMI, não imprimir mais dinheiro, cortar os gastos públicos e reforçar as reservas cambiais com US$ 7 bilhões. Descartou uma desvalorização da moeda, sob o argumento de que tem um efeito cascata, dá um choque inflacionário a toda a economia. A meta é baixar a inflação até o fim do ano para 3% ao mês.

O mercado reagiu favoravelmente. No mercado livre, o dólar está em 291 pesos, depois de chegar ontem a 298. No câmbio oficial, vale 139,86 pesos. Mas o Banco Central vendeu US$ 820 milhões desde que Massa foi anunciado. 

As reservas cambiais líquidas da Argentina em moedas fortes estão em US$ 1,5 bilhão, informa o jornal Clarín citando analistas do setor privado. Cobrem apenas 15 dias de importações. O governo pressiona os exportadores a liquidar operações de câmbio no valor de US$ 5 bilhões em agosto e setembro, mas eles querem redução de impostos.

Na Bolsa de Nova York, a única empresa argentina que teve alta foi Mercado Libre. Suas ações subiram 16% por causa do balanço divulgado nesta semana.

Com 47 milhões de habitantes, a Argentina foi o país mais rico e desenvolvido da América Latina. Tem capacidade para alimentar 350 milhões de pessoas. Em decadência há 50 anos, 40% dos argentinos vivem na pobreza. Conheça um pouco da história argentina.

QUEM É MASSA

Sergio Massa, de 50 anos, entrou na política como militante da União do Centro Democrático (UCD), um partido conservador. Aderiu ao peronismo quando estudava direito na Universidade de Belgrano. Em 1999, foi eleito deputado provincial em Buenos Aires e, em 2007, prefeito de Tigre, na Grande Buenos Aires, com o apoio do então presidente Néstor Kirchner.

Nos governos de Eduardo Duhalde (2002-3) e Néstor Kirchner (2003-7), Massa dirigiu a Administração Nacional de Seguridade Social. No início do primeiro governo Cristina Kirchner (2007-11), foi chefe de Gabinete, cargo equivalente ao de ministro-chefe da Casa Civil no Brasil de julho de 2008 a julho de 2009.

Quando deixou o governo, voltou à Prefeitura de Tigre e se afastou do kirchnerismo. Criou seu próprio partido, a Frente Renovadora, pelo qual se elegeu deputado nacional em 2013 e disputou a Presidência em 2015, conquistando o terceiro lugar com 21% dos votos.

Em 2019, voltou ao peronismo, apoiou a chapa Alberto Fernández e Cristina Kirchner, e foi eleito presidente da Câmara. Vira superministro como o único capaz de navegar entre a crise permanente entre o presidente e sua vice.

Com ironia para suportar a desgraça, os argentinos brincam que entre as originalidades do país está o regime vice-presidencialista. Quem manda de fato é Cristina, que fica sabotando os ministros de Alberto, um presidente fraco que ela nomeou num golpe de mestra para neutralizar sua rejeição, além de estar preocupada com os processos por corrupção. Seu governo tenta intervir na Corte Suprema.

POPULISMO

"A indicação de Massa pode ser uma manifestação do fim do experimento populista", disse o economia argentino Rafael di Tella, professor da Harvard Business School, ao Brazil Journal. Ele acredita que o superministro sonha em ser o Fernando Henrique Cardoso da Argentina, usando o combate à inflação como trampolim para chegar à Casa Rosada.

Para dar o salto, precisa não só vencer a crise econômica como o conflito interno do governo, a guerra das estrelas do peronismo. Crítico feroz do kirchnerismo, o jornalista Jorge Lanata afirma que Fernández "deixou de ser presidente". Foi relegado ao terceiro lugar em seu próprio governo. 

"Massa é a última esperança deste governo", sentencia Lanata. Numa tentativa de deixar claro quem manda, acrescenta, Cristina Kirchner deu 100 dias a Massa para melhorar a situação do país: "Depois, pode acontecer qualquer coisa."

A festa da ascensão de Massa, no Museu do Bicentenário, foi para o jornalista uma amostra do peronismo: "Estavam todos lá, os milionários, os piqueteiros, os supostos empresários nacionalistas, tudo misturado."

Setenta anos depois da morte de Evita e 48 anos depois da morte do general Juan Domingo Perón, o peronismo, que o escritor Jorge Luis Borges chamou de "fenômeno incorrigível", ainda domina a política argentina. Não vai desaparecer. A esperança é que se torne menos autoritário. 

Veja mais sobre política internacional no meu canal no YouTube. Meu comentário:

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

A morte e a morte de Diego Maradona, monstro da história do futebol

 A Argentina, um país tão trágico, chora a morte de um de seus maiores ídolos populares, ao lado de Carlos Gardel, Juan Domingo Perón, Evita, Juan Manuel Fangio, Alfredo di Stefano e Ernesto Che Guevara. Diego Armando Maradona Franco foi um dos maiores craques da história do futebol, mas não foi melhor do que Pelé. 

Maradona foi um Garrincha, um jogador inesquecível para quem o viu, criativo, endiabrado e imarcável dentro de campo com problemas extracampo, no caso de Maradona com álcool e drogas. Dieguito e Mané foram anjos caídos, geniais e divinos com a bola nos pés, e tão frágeis e humanos na vida pessoal. Meu comentário:

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Presidente argentino aposta em diálogo com credores sem abandonar política social

O peronista de esquerda toma posse amanhã, 10 de dezembro, como presidente da Argentina para um mandato de quatro anos com a ex-presidente Cristina Kirchner como vice. Assim, as duas perguntas que os argentinos, os economistas e os analistas internacionais se fizeram nos últimos meses foram: quem vai mandar e qual será a política econômica?


A Argentina vai voltar ao populismo demagógico e fiscal de Cristina ou Fernández será mais pragmático? Terá de ser para enfrentar a crise econômica legada pelo governo Maurício Macri, quando o índice de pobreza entre os argentinos urbanos subiu de 30 para 40,8 por cento. 

O país está em recessão, a inflação anual ronda 70% e os juros, a pedido de Fernández foram reduzidos para 68% ao ano. Meu comentário:

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Argentina pede moratória de dívidas de US$ 101 bilhões

Em mais uma crise econômica profunda, a Argentina quer mais tempo para pagar as dívidas com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e os credores privados, num total de US$ 101 bilhões, mais de R$ 400 bilhões.

A proposta era uma bandeira da campanha da oposição peronista. Diante da fragorosa derrota do presidente Mauricio Macri para a chapa kirchnerista nas eleições primárias realizadas em 11 de agosto e da reação negativa dos mercados, o atual governo resolveu partir para a reestruturação da dívida. 

O novo ministro da Fazenda, Hernán Lacunza, justificou o novo pedido de moratória alegando problemas de liquidez em curto prazo e não dificuldades para pagar em longo prazo. Mas o problema mesmo é o fantasma da volta do peronismo kirchnerista. Meu comentário:
Depois de gastar US$ 3 bilhões na quinta e na sexta-feira para sustentar o peso, o governo argentino impôs o controle de capitais. O Banco Central vai exigir dos exportadores que repatriem o dinheiro de vendas ao exterior e todas as empresas, não somente os bancos, terão de pedir autorização para vender pesos em troca de moedas estrangeiras.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Peronismo obtém grande vitória em eleições prévias na Argentina

O candidato peronista Alberto Fernández, da Frente de Todos, que tem a ex-presidente Cristina Kirchner como candidata a vice-presidente, conquistou mais de 47% dos votos na eleição prévia para a Presidência da Argentina realizada ontem, contra apenas 32% para o presidente Mauricio Macri, da aliança Juntos pela Mudança.

Pela lei do país, bastam 45% mais um dos votos válidos para ser eleito em primeiro turno. Fernández é assim o franco favorito para a eleição de 27 de outubro. A meta do kirchnerismo é ganhar no primeiro turno para evitar uma união contra si no segundo turno, previsto para 24 de novembro.

"Não viemos para restaurar nenhum regime e, sim, para criar uma nova Argentina em que se acabarão os rachas, as divisões e as vinganças", declarou Fernández diante de uma multidão eufórica. "Nunca fomos loucos governando. Vamos arrumar o que os outros estropiaram. Nosso objetivo é que os argentinos recuperem a felicidade."

Com a economia em profunda crise, a derrota do macrismo foi total. Na província de Buenos Aires, onde o governo contava com a popularidade da governadora María Eugenia Vidal, ela ficou nos mesmos 32% de Macri, enquanto o ex-ministro da Economia do governo Cristina Kirchner, Axel Kicillof, chegou perto dos 50%.

A grande expectativa é qual será a reação do mercado financeiro nesta segunda-feira. Como as últimas pesquisas se mostraram totalmente erradas e eram favoráveis a Macri, a Bolsa de Valores de Buenos Aires, os índices de confiança e os bônus da dívida pública se valorizaram, na expectativa de reeleição do presidente no segundo turno.

Macri tem o apoio dos Estados Unidos, do governo Jair Bolsonaro e do Fundo Monetário Internacional (FMI), que emprestou US$ 57 bilhões para conter a queda do peso. As pesquisas davam uma vantagem de 0,5 a 8 pontos percentuais a Fernández, o que colocaria o presidente como favorito no segundo turno.

A crise é brutal. O desemprego passa de 10%, o que não acontecia desde 2006. No ano passado, a inflação ficou em 47,6, a maior em 27 anos, e o produto interno bruto caiu 2,5%. Nos últimos 12 meses até junho, a inflação foi de 55,8%. No fim do primeiro trimestre, o PIB registrava baixa de 5,8%, depois da quatro trimestres em queda. A taxa básica de juros está em 64%.

O peso argentino caiu 51% em relação ao dólar em 2018 e mais 14% no início do ano.

Outra vítima da derrota de Macri pode ser o acordo de livre comércio da União Europeia com o Mercosul, que depende da aprovação pelos parlamentos de todos os países participantes. A oposição a Macri já se pronunciou contra o acordo, considerando-o lesivo aos interesses dos trabalhadores argentinos.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Senado da Argentina rejeita o aborto

Por 38 a 31 votos, o Senado da Argentina rejeitou há pouco um projeto aprovado na Câmara, por 129 a 125, que legalizaria o aborto no país nas primeiras 14 semanas de gravidez. Agora, a matéria só pode voltar a ser discutida no próximo ano.

A aliança Cambiemos (Mudemos), do presidente Maurício Macri, e o Partido Justicialista (peronista) se dividiram, mas a maioria dos seus senadores votou não. Na aliança kirchnerista Frente para a Vitória, a ala do peronismo liderada pela ex-presidente e possível candidata em 2019 Cristina Kirchner, houve apenas um voto contra o aborto.

Houve duas abstenções e uma ausência. Por gênero, 24 homens votaram contra o aborto e 17. As mulheres se dividiram: 14 votaram a favor e 14 contra.

O presidente Macri é pessoalmente contra o aborto, mas prometeu não vetar a lei, se fosse aprovada.   Com a derrota do projeto, a Casa Rosa cogita incluir a despenalização do aborto na reforma do Código Penal argentino. O aborto continuaria sendo crime, mas as mulheres deixariam de ser punidas com prisão, noticiou o jornal Clarín.

Do lado de fora do Congresso, manifestantes a favor do aborto protestaram e atacaram a polícia, que usou jatos d’água e gás lacrimogênio. Às três da manhã, mesma hora de Brasília, ainda há tumulto nas ruas de Buenos Aires ao redor do Palácio do Congresso.

Na América do Sul, o aborto só é permitido no Uruguai.

domingo, 22 de novembro de 2015

Pesquisas de boca de urna dão vitória a Macri na Argentina

Todas as pesquisas e os primeiros resultados oficiais indicam a vitória do candidato oposicionista, o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, no segundo turno da eleição presidencial na Argentina, informa o jornal Clarín. É uma derrota para a presidente Cristina Kirchner e o fim da era kirchnerista.

A vantagem de Macri sobre o candidato oficial, o governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli, varia de seis a 20 pontos percentuais nas diferentes pesquisas. Na contagem oficial, está sete pontos na frente.

Quem vencer será o sexto presidente argentino eleito diretamente desde a volta da democracia, em 1983, depois de Raúl Alfonsín, Carlos Menem, Fernando de la Rúa, Néstor Kirchner e Cristina Kirchner.

O resultado definitivo deve ser conhecido até dez horas da noite em Buenos Aires (23h em Brasília).

Macri é favorito no segundo turno na Argentina

O prefeito da capital da Argentina, Mauricio Macri, e o governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli, apoiado pela presidente Cristina Kirchner disputam hoje a Presidência da Argentina, que pela primeira vez será decidida no segundo turno. As pesquisas dão vantagem de oito a dez pontos percentuais ao oposicionista.

Quem quer que ganhe deve ser o fim do kirchnerismo, uma derivação da esquerda peronista que domina a política argentina desde 2003, quando Néstor Kirchner venceu o ex-presidente Carlos Menem, que não disputou o segundo turno para negar legitimidade ao adversário.

"Hoje é um dia histórico que vai mudar nossas vidas", declarou Macri depois de votar, enquanto Scioli que "hoje ganha o povo".

Depois de votar, a presidente Cristina Kirchner falou durante 28 minutos, o que lhe rendeu cinco denúncias apresentadas à Procuradoria Eleitoral por fazer campanha fora de hora.

O kirchnerismo se caracterizou por uma política de confrontação permanente que fez do "antogonismo sua razão de ser", observou hoje o jornalista Ricardo Kirschbaum, editor-chefe do jornal Clarín, perseguido pelo governo.

Seu primeiro alvo foi a "pátria financeira", os setores que lucraram com a dolarização da economia promovida por Menem, que desabou espetacularmente em 2001, dois anos depois que ele deixou o governo.

Com subsídios, ajuda direta aos pobres, que chegaram a ser 58% da população, e a renegociação da dívida, a Argentina retomou o crescimento econômico no embalo da alta nos preços dos produtos primários que exporta, especialmente carne e grãos.

Sob o desgaste das rixas políticas constantes, Kirchner indicou sua mulher, a senador Cristina Fernández de Kirchner, como sucessora. Já na campanha eleitoral de Cristina, em 2007, começou a manipulação das estatísticas, especialmente da inflação.

Em março de 2008, com Cristina na Casa Rosada, o governo aumentou as alíquotas dos impostos sobre exportações de grãos, que passaram de 35% em caso de grandes volumes, deflagrando uma greve de produtores rurais. O jornal Clarín apoiou os ruralistas, iniciando um conflito que Cristina tentou desmantelar o maior grupo de mídia argentino.

Os Kirchner travaram batalhas com os fazendeiros, os meios de comunicação, a Justiça e a Igreja Católica, até o cardeal Jorge Mario Bergoglio ser eleito papa. Néstor Kirchner chegou a chamar o arcebispo de Buenos de "oposição de batina". Perderam todas. A derrota nas eleições parlamentares de 2013 acabou com o sonho de permitir a reeleição sem limites do presidente.

Abandonada pelos sindicatos, tradicionalmente a base de poder da esquerda peronista, por causa do impacto da manipulação dos índices de inflação sobre os salários, Cristina se apoiou no grupo da juventude peronista La Cámpora, liderado por seu filho Máximo Kirchner, e na população mais pobre que depende dos subsídios governamentais.

Essa política de subsídios aumentou o déficit público para pelo menos 3,5% do produto interno bruto e gerou mais inflação, enquanto novo conflito com os credores que não aceitaram a renegociação da dívida isolou o país do mercado financeiro internacional, levando Cristina a fazer acordos com a China que afetam o Mercosul.

Mesmo que Scioli vença, o que é improvável, o novo governo terá de fazer um ajuste fiscal profundo, acabar com o confronto permanente com o empresariado, estimular o investimento estrangeiro e renegociar o acesso ao mercado financeiro internacional. Mas os fatores críticos para a situação política, econômica e financeira da Argentina vão persistir.

Só um longo período de crescimento sustentado que parece distante da América Latina permitirá atacar os problemas estruturais, a falta de competitividade de um mercado superprotegido por uma presidente costuma botar a culpa nos inimigos internos e externos por seus próprios erros.

domingo, 25 de outubro de 2015

Eleições marcam o fim da era Kirchner na Argentina

A Argentina vota hoje em eleições presidencial e parlamentares que devem marcar o fim da era Kirchner, iniciada em 2003, com a eleição de Néstor Kirchner em meio à pior crise econômica da história de um país moderno. 

Além do presidente, serão eleitos 130 deputados (metade da Câmara), 24 senadores (um terço do Senado) e 43 parlamentares do Parlasul, o Parlamento do Mercosul.

O candidato oficial, Daniel Scioli, governador da provincial de Buenos Aires, é o favorito. Pode ganhar no primeiro turno se obtiver 45% dos votos válidos ou 40% e uma vantagem de dez pontos sobre o segundo colocado.

Nas últimas pesquisas, Scioli tem de 38% a 41% votos. Em segundo lugar, está o prefeito de Buenos Aires e ex-presidente do Boca Juniors, Mauricio Macri, de centro-direita, herdeiro político do menemismo, com 27% a 31%.

O terceiro colocado é o deputado Sergio Massa, ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo Cristina Kirchner com 20% a 23% das preferências. Se houver segundo turno, previsto para 22 de novembro, seu cacife aumenta.

Para o Brasil, mais importante é a recuperação econômica da Argentina, o que deve acontecer com qualquer governo, dado o desastre das políticas econômicas do kirchnerismo. Os controles de preços que faziam sentido depois do colapso da dolarização da era Carlos Menem, em 2001, prejudicam a economia do país desde o agravamento da crise financeira internacional, no primeiro ano do primeiro governo de Cristina Kirchner.

Diante da crise, além de manipular os índices de inflação desde a primeira campanha presidencial de Cristina, em 2007, o governo aumentou sua política de confrontação com setores empresariais e os credores internacionais, elevou os impostos sobre exportações de grãos causando uma greve de produtores rurais, atacou a imprensa crítica do governo, comprou uma nova briga com credores que não aceitaram a renegociação da dívida, controlou o câmbio e as exportações. 

Com sua confrontação também com as potências ocidentais, terminou por apelar para a China, o que abala as pretensões do Brasil à liderança regional à medida que diminui a hegemonia dos EUA sobre a América Latina. Melhorar as relações com os EUA será prioridade do novo presidente argentino, seja quem for.


A presença dos três principais candidatos na festa de aniversário do jornal oposicionista Perfil é um sinal do fim da guerra dos Kirchner contra a grande imprensa argentina. O Clarín, maior jornal do país, apoiou Néstor Kirchner e a reconstrução do país depois do colapso da dolarização. Passou para a oposição em 2008, durante a paralisação dos produtores rurais.

Para enfrentar a mídia de oposição, o governo Cristina Kirchner aprovou a Lei de Meios de Comunicação. Apesar dos inegáveis méritos de regulamentar o setor para combater monopólios, a lei virou um instrumento para perseguir críticos do regime e sufocar empresas, muitas vendidas a aliados do kirchnerismo. Os três candidatos querem paz também nesta frente de luta do kirchnerismo.

Scioli, vice de Kirchner no primeiro mandato, não era o favorito de Cristina, mas sim o candidato mais elegível da coalizão governista. Representa ao mesmo tempo o desejo do eleitorado argentino de acabar com a política de confronto permanente de Néstor e Cristina Kirchner sem um corte radical dos subsídios que garantem certa proteção social num país empobrecido.

Por outro lado, como o peronismo é uma força política que historicamente foi da extrema direita à extrema esquerda,  um grande saco de gastos onde tudo cabe, até o americanismo de Menem, totalmente contrário ao que dizia o general Juan Domingo Perón, quando um novo presidente chega à Casa Rosada trata de assumir o controle do movimento, muitas vezes se livrando de quem os levou até lá.

Néstor Kirchner concorreu como candidato da esquerda peronista, indicado por Eduardo Duhalde, vice de Menem no primeiro governo que foi derrotado pelo radical Fernando de La Rúa em 1999 e assumiu a Presidência no auge da crise. Ao chegar ao poder, e especialmente depois de renegociar a dívida, tratou de descartar Duhalde. Em 2005, Cristina concorreu à senadora pela provincial de Buenos Aires contra Hilda Chiche Duarte, numa guerra de primeiras-damas.

Talvez Scioli não tenha uma base suficientemente forte no peronismo para desafiar Cristina, mas certamente não está lá simplesmente para esquentar a cadeira para a chefe como pretende a presidente das Mães da Praça de Maio, Estela Carlotto, eternamente grata aos Kirchner por botar na cadeia os torturadores e assassinos da última ditadura militar e por recuperar seu próprio neto.

Ao manipular a inflação, Cristina perdeu o apoio dos sindicatos, principal base política do peronismo. A partir daí, Scioli pode criar sua base. É certo que tentará compor com os setores empresariais para destravar a economia argentina e levar o país de volta do reino desencantado do kirchnerismo à realidade.

Como observa o ex-secretário de Comércio Dante Sica, qualquer que seja o presidente terá de fazer um ajuste fiscal forte para conter a inflação, cortar subsídios e liberar preços.

Embora não seja tratado pela imprensa brasileira como peronista, o empresário Mauricio Macri, ex-presidente do Boca, é um herdeiro do peronismo de direita e do menemismo. Sua ênfase será na normalização da economia, no controle da inflação, na retomada do crescimento e na reabertura da economia.

A exemplo de Menem, sua política econômica deve ser mais orientada para os EUA, mas ele não ignora a importância econômica do Brasil e da China. Sua eleição ajudaria a resgatar o papel do Mercosul em negociações de liberalização comercial, se o regime chavisa da Venezuela permitisse.

O terceiro colocado nas pesquisas, Sérgio Massa, foi ministro de Cristina. Representa uma esperança de renovação do peronismo. Mesmo que feche com Macri caso haja segundo turno, dificilmente conseguiria transferir uma quantidade de votos suficientes para superar Scioli, que pode ganhar no primeiro turno.

O governo Dilma Rousseff aposta na vitória de Scioli por afinidade ideológica com o kirchnerismo, mas o protecionismo de Cristina e suas concessões à China não ajudaram as relações bilaterais. Quem quer que seja eleito não pode continuar a estratégia populista de Cristina.

Uma coisa é certa: o vencedor será um peronista, de direita ou de esquerda. O movimento ganhou nove das 11 eleições que disputou. Perdeu para Raúl Alfonsín e De la Rúa, ambos da União Cívica Radical, que deixaram seus governos antes do fim em meio a crises econômicas gravíssimas, tornando o partido inelegível.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Primárias deixam em aberto eleição presidencial na Argentina

O candidato oficial Daniel Scioli, governador da província de Buenos Aires, venceu a eleição primária para a Presidência da Argentina realizada no último domingo, mas tudo indica que deve haver segundo turno. A eleição para valer será em 25 de outubro de 2015.

Com 98% dos votos apurados, Scioli, da Frente para a Vitória, está na frente com 38,41% contra 30,07% da coalizão Mudemos, liderada pelo prefeito da capital, Mauricio Macri, e 20,63% do deputado Sergio Massa, que se qualifica como terceira via, observou o boletim de notícias Infolatam.

Todos cantaram vitória. "Tomamos este triunfo com humildade e gratidão aos 8 milhões de argentinos que nos deram seu respaldo", declarou o governador. "Vamos trabalhar arduamente para convocar, convencer e persuadir a maior quantidade de argentinos possíveis", acrescentou, destacando a vantagem de 14 pontos na disputa pessoal com Macri.

A coalizão Mudemos englobava as candidaturas de Mauricio Macri (24,24%), representante do liberalismo do governo Carlos Menem (1989-99), da direita peronista; de Ernesto Sanz (3,45%), da União Cívica Radical (UCR), segundo maior partido tradicional argentino; e da esquerdista Elisa Carrió (2,34%), da Afirmação por uma República Igualitária.

Scioli foi vice-presidente de Néstor Kirchner. Representa o peronismo de esquerda e o continuísmo, mas não vai manter as políticas antiliberais e antimercado de Cristina Kirchner, que arruinaram a economia argentina.

Quando chega à Casa Rosada, o presidente da Argentina costuma atropelar ou descartar até mesmo antigos aliados que possam se atravessar no seu caminho. Foi assim com Néstor Kirchner. Ele foi indicado como candidato da esquerda peronista contra Menem pelo presidente interino Eduardo Duhalde (2002-3), que assumiu em meio ao colapso da economia do país e o levou até a eleição presidencial de 2003.

Em 2005, Néstor Kirchner promoveu a candidatura da mulher, Cristina Kirchner, a senadora pela província de Buenos Aires, disputando contra Hilda Chiche Duhalde, mulher do aliado convertido em inimigo político.

Do Senado, Cristina Kirchner chegou à Casa Rosada em 2007. Deveria devolver a faixa presidencial ao marido, que morreu do coração em 27 de outubro de 2010. Com a tragédia pessoal e uma economia em crescimento, Cristina conseguiu em 2011 54% dos votos no primeiro turno, a maior vitória já obtida numa eleição presidencial argentina pós-ditadura.

O desafio de Scioli agora é se distanciar da pesada herança econômica do kirchnerismo para captar o voto apartidário que vai definir a eleição.

Ao comentar o resultado, o prefeito de Buenos Aires afirmou: "Não é o cenário que queriam. Ficou claramente estabelecido que vai haver segundo turno."

O maior problema de Macri é se livrar da imagem de candidato conservador, herdeiro político de Menem, ligado à "pátria financeira" pelo discurso político kirchnerista.

Pelas regras peculiares das eleições presidenciais em dois turnos na Argentina calibradas por Menem, para ganhar no primeiro turno não é necessária a maioria absoluta. Bastam 45% dos votos válidos ou 40% dos votos válidos e uma vantagem de dez pontos percentuais sobre o segundo colocado.

Diante dos resultados de domingo, parece improvável que Scioli consiga a vitória no primeiro turno. Isso aumenta o cacife eleitoral do deputado Sergio Massa, ex-prefeito de Tigre e ex-ministro-chefe da Casa Civil de Cristina Kirchner em 2008-9.

Como o apoio de Massa pode ser decisivo, ele está sendo cortejado pelos dois lados. Sonha em ser a terceira via entre o kirchnerismo e um suposto retorno ao menemismo.