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segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Milei perde eleições na província de Buenos Aires

 Com 47% dos votos, a aliança Força Pátria, liderada pelo governador Axel Kicillof, obteve uma ampla vitória nas eleições de domingo na Província de Buenos Aires, a maior e mais importante da Argentina. O coligação entre A Liberdade Avança, do presidente Javier Milei, e a Proposta Republicana (Pro), do ex-presidente Mauricio Macri, ficou num segundo lugar distante, com pouco menos de 34% da votação.

Um ano e meio depois de chegar à Casa Rosada com uma promessa radical de acabar com a inflação com cortes drásticos nos gastos públicos e grande liberdade para os mercados, Milei enfrenta os mesmos problemas que desmoralizaram o peronismo em sua versão mais recente, o kirchnerismo: a inflação e a corrupção.

O resultado das urnas foi inesperado. Esperava-se uma vitória apertada do peronismo, que tem sua grande base eleitoral na Província de Buenos Aires, onde vivem 14,38 dos 35,4 eleitores argentinos, mais de 40% do total. Kicillof desponta como principal candidato da oposição à Presidência em 2027.

Em consequência, o Índice Merval da Bolsa de Valores de Buenos Aires, caiu 13%. O dólar subiu 7% de manhã depois de se estabilizar com uma alta de 4,25% no dia, num momento em que o governo intervém no mercado de câmbio para conter a inflação, que voltou a subir. Ficou em 1,9% ao mês em julho. As previsões para agosto apontam 2% a 2,1%.

Milei recebe Goldfajn na Casa Rosada

Sob ameaça de uma nova disparada do dólar, Milei e o ministro da Economia, Luis Caputo, fizeram uma reunião de emergência na sede do governo com o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Ilan Goldfajn, ex-presidente do Banco Central do Brasil (foto), que prometeu apoiar o programa de recuperação da economia argentina.

Talvez o que mais tenha pesado na decisão dos eleitores foi um escândalo de corrupção envolvendo a irmã do presidente, Karina Milei (foto), secretária-geral da Presidência, considerada hoje a pessoa mais poderosa do país, logo abaixo do irmão. Karina chefiou a campanha de Javier Milei, que a chama de "o chefe".

Em 19 de agosto, gravações de som atribuídas a Diego Spagnuolo, ex-diretor da Agência Nacional para Deficientes (Andis), denunciaram um esquema de propinas na compra de medicamentos. Os laboratórios interessados em contratos estatais deveriam pagar até 8% a mais para uma drogaria chamada Suizo Argentina; 3% iriam para Karina Milei. O desvio de dinheiro público seria de 500 a 800 mil dólares por mês.

A Justiça ordenou investigação e busca na Andis e em propriedades da Suizo Argentina. Mais de US$ 266 mil em espécie foram encontrados na casa de um dos donos da drogaria suspeita.

O mileísmo sofre assim dos mesmos males que derrotaram o kirchnerismo: inflação e corrupção. No seu pior momento, terá de enfrentar em 26 de outubro as eleições parlamentares de meio de mandato. Serão renovadas a metade da Câmara e um terço do Senado.


terça-feira, 10 de junho de 2025

Corte Suprema da Argentina confirma condenação de Cristina Kirchner

 Três ministros da Corte Suprema da Argentina rejeitaram hoje um recurso da ex-presidente Cristina Kirchner num processo sobre corrupção em concorrências de obras públicas e confirmaram a sentença de seis anos de prisão e inabilitação para exercer cargos públicos por toda a vida. Por ter mais de 70 anos, pode ficam em prisão domiciliar, o que a Justiça ainda vai decidir. Ela promete recorrer a tribunais internacionais.


A Corte Suprema "é um triunvirato de inapresentáveis", reagiu a ex-presidente. "São três marionetes que respondem ao poder econômico concentrado da Argentina." Ele promete não fugir porque isso seria uma saída para direitistas.

"Esta Argentina em que estamos vivendo não deixa de nos surpreender", disparou, numa referência indireta ao presidente Javier Milei.

Numa tentativa de caracterizar o julgamento como político, Cristina declarou que é um "cronograma maravilhoso" para prejudicar o peronismo: "Um mês antes da oficialização das candidaturas na província de Buenos Aires tomam a decisão, como em 2019."

Cristina Kirchner reafirmou sua identidade política: "Penso como peronista e vou seguir pensando sempre da mesma forma." Sua explicação para a sentença é uma conspiração do poder econômico para impedir que o campo nacional e popular se organize para quando o atual governo entrar em colapso.

"Esta tranquilidade é fictícia. Isto não tem final feliz", disse ela, falando sobre o rigoroso ajuste fiscal de Milei com cortes drásticos nos gastos públicos. E acrescentou: "Estar presa por isto é um certificado de dignidade. (...) Não se equivoquem. Nada vai melhorar para o povo com minha prisão. A fome, as aposentadorias miseráveis e a falta de medicamentos vão continuar."

O atual presidente, arqui-inimigo do peronismo, festejou a decisão nas redes sociais: "Justiça. Alerta. A República funciona e todos os jornali$ta$ corrupto$ cúmplice$ de político$ mentiro$o$ ficaram expostos com suas opereta$ sobre um suposto pacto de imunidade."

O Caso Vialidad (Estrada de Rodagem) tem origem em denúncia feita em 2008 pela deputada oposicionista Elisa Carrió de irregularidades na concessão de 51 obras públicas viárias na província de Santa Cruz, a base política do casal Néstor e Cristina Kirchner, que governou a Argentina por três mandatos (2003-15).

Em 27 de dezembro de 2016, a juiz federal Julián Encolini processa Cristina, o ex-ministro Julio De Vido, José López e Lázaro Báez por associação ilícita e administração fraudulenta em prejuízo do Estado. A procuradoria pede 12 anos de prisão e inabilitação perpétua para exercer cargos públicos para Cristina, 12 anos para Báez e 10 anos para De Vido e López.

Depois de tentar vetar juízes e impugnar o processo, Cristina prestou seu último depoimento em juízo em 29 de novembro de 2022 alegando ser vítima de um "pelotão de fuzilamento". Em 6 de dezembro, Cristina, Báez, López e Nelson Periotti são condenados por administração fraudulenta a 6 anos de prisão e inabilitação perpétua para exercer cargos públicos. Outros réus pegam penas de 3 a 5 anos.

Todos são absolvidos da acusação de associação ilícita porque não haveria uma finalidade delituosa exclusiva, um propósito determinado para essa associação.

A sentença de 1.600 páginas é publicada em março de 2023. A defesa recorre. Em 13 de novembro de 2024, a Sala 4 da Câmara Federal de Apelações Criminais confirma a pena de 6 anos de prisão e inabilitação perpétua para exercer cargos públicos para Cristina Kirchner. O prejuízo ao Estado é estimado em 85 bilhões de pesos argentinos.

As partes tinham até o início de fevereiro de 2025 para apresentar recursos à Corte Suprema.

Em 1º de abril, a defesa de Cristina alega parcialidade dos juízes, falta de perícia das 51 obras e a inclusão de provas que não estavam na primeira instância (mensagens de WhatsApp de López). Também rejeita o juiz Ricardo Lorenzetti.

Em 15 de maio, o procurador-geral Eduardo Casal pede 12 anos de prisão para Cristina Kirchner, renovando a acusação de associação ilícita.

Ontem, por unanimidade, os juízes Horacio Rosatti, Carlos Rosenkrantz e Ricardo Lorenzetti rejeitaram todos os recursos da defesa e mantiveram a sentença de 6 anos de prisão e proibição de exercer cargos públicos até o fim da vida.

sábado, 25 de maio de 2024

Putin aposta na indústria bélica para ganhar a guerra

 A Rússia mudou o ministro da Defesa e lançou uma ofensiva para recapturar Carcóvia, a segunda maior cidade da Ucrânia. Ao nomear para o cargo um economista e tecnocrata, Andrei Beloussov, Putin aposta na indústria de armas para ganhar uma longa guerra de atrito, numa aliança com a indústria bélica e transforma ainda mais o país numa economia de guerra.

Quatro dias depois que o procurador-geral do Tribunal Penal Internacional pediu a prisão do primeiro-ministro e do ministro da Defesa de Israel e de três altos dirigentes do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, a Corte Internacional de Justiça da ONU mandou Israel suspender a ofensiva contra a cidade de Rafá. O tribunal da ONU também exigiu a abertura da fronteira para ajuda internacional e o acesso de uma comissão internacional independente de investigação de crimes de guerra à Faixa de Gaza. Israel deve apresentar um relatório em um mês sobre as medidas tomadas para cumprir a decisão. A morte do presidente do Irã, Ebrahim Raissi, deflagra luta pelo poder no regime fundamentalista iraniano. A eleição presidencial está convocada para 28 de junho. A China cercou Taiwan em manobras militares depois que o novo presidente taiwanês, Lai Ching-te, defendeu autonomia da ilha que Beijim considera uma província rebelde. O primeiro-ministro conservador britânico Rishi Sunak convocou eleições para 4 de julho. Com a ampla vantagem da oposição trabalhista nas pesquisas, de mais de 20 pontos, Keir Starmer deve ser o próximo primeiro-ministro do Reino Unido. O presidente de extrema direita da Argentina, Javier Milei, foi a Espanha, não teve nenhum contato oficial com o governo socialista espanhol e acusou de corrupção a mulher do primeiro-ministro Pedro Sánchez.

Milei já ofendeu o papa Francisco, o presidente Lula e os presidentes do México e da Colômbia. A Espanha retirou o embaixador de Buenos Aires. Esta foi a pior semana de notícias econômicas para Milei desde que o presidente argentino tomou posse.

domingo, 19 de novembro de 2023

Extremista Javier Milei é eleito presidente da Argentina

 Antes da divulgação do resultado oficial na Argentina, o ministro da Economia, Sergio Massa, reconheceu a vitória do extremista de direita Javier Milei, que defende propostas extravagantes como o fim do Banco Central e do peso argentino, com a dolarização da economia. Ele ameaçou romper relações com o Brasil, a China e o Vaticano, sair do Mercosul e nega o aquecimento global.

Com 99% dos votos apurados, Milei lidera com 14.476.462 votos (55,69%) contra 11.516.142 (44,3%) para Massa. Este resultado supera todas as previsões dos institutos de pesquisa. Atlas-Intel, que acertou na eleição prévia e no primeiro turno, dava 52,5% para o candidato oposicionista e 47,5% para o peronista.

"Hoje, termina uma forma de fazer política e começa outra", proclamou Milei. "A Argentina tem futuro se for liberal. Não viemos para inventar nada. Vamos fazer o que a história mostrou que funciona. Vamos abraçar as ideias de liberdade, que são as que garantem a prosperidade."

Em uma nota fria, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumprimentou a democracia argentina sem citar o nome do presidente eleito. Milei toma posse em 10 de dezembro. A grande expectativa é qual será seu plano econômico. Meu comentário: 

domingo, 22 de outubro de 2023

Massa e Milei vão disputar segundo turno na Argentina

Apesar da inflação de 138% ao ano, o ministro da Economia, Sergio Massa, da Aliança União pela Pátria, surpreendeu. Com mais de 98,5% dos votos apurados, ele ficou em primeiro lugar no primeiro turno da eleição presidencial na Argentina com 36,7% dos votos. Massa vai disputar o segundo turno em 19 de novembro com o economista Javier Milei, do partido Liberdade Avança, de extrema direita, que teve 30% dos votos.


O sucesso de Massa se deve ao bom desempenho do peronismo na Província de Buenos Aires, onde o governador Axel Kicillof, ex-ministro da Economia no Governo Cristina Kirchner (2007-15), se reelegeu no primeiro turno. Milei repetiu a votação das eleições primárias abertas simultâneas e obrigatórias realizadas em 13 de agosto. 

A participação foi de 74% dos 35 milhões de argentinos aptos a votar numa população de 46 milhões, menos do que nas duas eleições presidenciais anteriores, em 2015 e 2019.

Em seu discurso, primeiro ato da campanha para o segundo turno, Milei tentou de atrair os votos da terceira colocada, Patricia Bullrich (24%), da aliança Juntos pela Mudança, que tem entre seus principais líderes o ex-presidente Mauricio Macri (2015-19).

"Dois terços dos argentinos votaram pela mudança", afirmou o segundo colocado, que sonhava em vencer no primeiro turno. Num apelo aos eleitores de Bullrich, Milei declarou que "aqueles que querem a mudança devem trabalhar juntos" e atacou o kirchnerismo como "a pior coisa que já aconteceu com a Argentina."

Massa não é kirchnerista. Foi chefe de gabinete do primeiro governo Cristina Kirchner (2007-11) durante um ano (2008-9) e voltou a ser prefeito de Tigre (2009-13), uma cidade da Grande Buenos Aires. 

Em 2010, em documentos do Departamento de Estado norte-americano vazados pelo WikiLeaks, Massa diz à embaixadora dos Estados Unidos, Vilma Martinez, que Néstor Kirchner (2003-7) "é um psicopata" e "comanda o governo argentino" enquanto sua mulher "cumpria as ordens".

Ele rompeu com o kirchnerismo em 2013 e fundou seu próprio partido, a Frente Renovadora, uma dissidência peronista em relação ao kirchnerismo. Na Câmara dos Deputados, lutou contra o projeto que permitiria a Cristina ter um terceiro mandato consecutivo

Em 2015, Massa disputou a Presidência e ficou em terceiro lugar, com 21%, atrás do então vice-presidente Daniel Scioli, candidato do kirchnerismo, e de Mauricio Macri, que foi o vencedor no segundo turno.

Na eleição de 2019, Massa abriu mão de sua candidatura para apoiar Alberto Fernández, indicado numa jogada de mestra de Cristina, que ficou como vice-presidente para que a rejeição contra ela não prejudicasse a chapa peronista. Há uma piada que comenta que a Argentina é um país tão original que inventou o vice-presidencialismo. A vice mandava. Massa foi eleito deputado nacional e se tornou presidente da Câmara.

Diante do fracasso total do Governo Fernández (2019-23), com a aceleração da inflação e o aumento da pobreza, Cristina Kirchner deu mais uma tacada de mestra: em julho de 2022, indicou Massa para o Ministério da Economia como última esperança do peronismo, na expectativa de que ele ganharia popularidade se conseguisse frear a alta de preços.

Mesmo sem conseguir, Massa venceu o primeiro turno com uma campanha em que se apresenta como totalmente independente do governo a que pertence. Alberto Fernández e Cristina Kirchner foram totalmente marginalizados na campanha. Mas a força do peronismo, não.

O movimento peronista nasce em outubro de 1945, quando o então ministro do Trabalho e vice-presidente, coronel Juan Domingo Perón, é deposto e preso sob pressão do embaixador dos Estados Unidos e volta nos braços do povo nove dias depois, em 17 de outubro, Dia da Lealdade peronista. Desde então, o Partido Justicialista ganhou 10 eleições presidenciais e governou o país por 40 anos.

Para tirar o país da profunda crise econômica e atrair o apoio do empresariado, Massa promete fazer um governo de união nacional, que só pode ser com a direita tradicional representada pelo macrismo. Ele tem bom relacionamento com o governo dos EUA e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Sua candidata, Patricia Bullrich, ministra da Segurança no Governo Macri, recebeu os votos da elite argentina e ganhou na Cidade de Buenos Aires com 41%. No discurso da derrota, rejeitou qualquer aliança: "O populismo empobreceu o país e não sou eu que vou felicitar a volta ao poder do pior governo da história argentina."

Milei, um populista de extrema direita que se apresenta como "libertário" e "anarcocapitalista". Acusa os políticos profissionais de formar uma casta que parasita os cofres públicos. É mais um político que faz o discurso da antipolítica. É comparado ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Fez campanha com uma motossera para sinalizar a intenção de reduzir o tamanho do Estado, que culpa pela inflação argentina.

Seu guru intelectual, Alberto Benegas, causou indignação ao sugerir que um Governo Milei poderia romper com o Vaticano porque o papa Francisco tem tendências esquerdistas. Antes desse comentário, o papa havia criticado Milei sem citar o nome, dizendo que só quem faz milagres é Deus. Milei falou em romper com a China, a maior parceira comercial da Argentina.

Entre outras propostas extravagantes, Milei promete dolarizar a economia, cortar impostos, diminuir os gastos públicos, acabar com o Banco Central e com 10 ministérios, inclusive da saúde, da educação e do desenvolvimento social, que seriam fundidos no Ministério do Capital Humano, privatizar as empresas estatais e permitir a venda de órgãos humanos para transplante. É contra o Mercosul. Alega que comércio exterior é uma atividade do setor privado em que o governo não deve interferir.

Com produto interno bruto estimado pelo FMI em US$ 622 bilhões em 2024, a Argentina é segunda maior economia da América do Sul, a 24ª do mundo e a terceira maior parceira comercial do Brasil. Em renda média por pessoa, com US$ 13,3 mil por ano, está em 66º lugar no mundo e em 5º na América Latina, atrás de Uruguai, Chile, Costa Rica e México. Chegou a ter 15 cotações diferentes para o dólar, a moeda preferida pelos argentinos para poupar. 

Quando Fernández assumiu, em 10 de dezembro de 2019, o dólar oficial estava em 60 pesos. Hoje o câmbio oficial está em 365,50 pesos e no mercado paralelo a 900. Chegou a mil depois que Milei comparou o peso argentino a excremento.

A dolarização anterior, no Governo Carlos Menem (1989-99), para vencer a hiperinflação legada pelo Governo Raúl Alfonsín (1983-89), entrou em colapso no Governo Fernando De la Rúa (1999-2001), que renunciou em meio a protestos violentos com 39 mortes. 

A Argentina não fabrica dólares e as reservas cambiais são baixíssimas. No Governo Menem, a inflação argentina subiu 45% num período em que a norte-americana foi de 6%, tornando os produtos argentinos mais caros e menos competitivos.

Outra dificuldade para Milei é a base parlamentar pequena. Seu partido elegeu 38 dos 257 deputados nacionais da Câmara e terá apenas 8 dos 72 senadores.

Assim, diante da loucura do plano de governo de Milei, é provável que Massa consiga atrair o apoio do empresariado. Nas camadas populares, num país com 40% na pobreza em que uma em cada três crianças passa fome, apesar de ter capacidade de produzir comida para 350 milhões de pessoas, a campanha peronista apela para o discurso do medo. 

Se Milei for eleito, vai cortar programas sociais. Com tanta miséria, no momento, isto é inviável e pode causar uma convulsão social ou no mínimo uma onda de greves convocadas pelo movimento sindical peronista.

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Extrema direita surpreende e vence eleição primária na Argentina

 O economista e deputado de ultradireita Javier Milei venceu as eleições primárias abertas simultâneas e obrigatórias (PASO) na Argentina com 30,25% dos votos. É o candidato da antipolítica na eleição presidencial de outubro e novembro.

A aliança de direita Juntos pela Mudança (JxC), ficou em segundo com 28,25%, com vitória na disputa interna da ex-ministra Patricia Bullrich (17%) sobre o prefeito de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta (11,2). 

A União pela Pátria, do governo peronista, ficou em terceiro com 27,17%. Com inflação de 115% ao ano, o ministro da Economia, Sergio Massa, que tinha a expectativa de ser o mais votado, teve apenas 21,35% dos votos.

Desde já, Milei é o favorito no primeiro da turno da eleição presidencial, em 22 de outubro. Se nenhum candidato tiver mais de 45% dos votos ou mais de 40% e vantagem de mais de 10 pontos sobre o segundo colocado, haverá segundo turno em 19 de novembro.

Eufórico, Milei declarou: "Conseguimos construir esta alternativa competitiva que não dará fim só ao kirchnerismo. Além disso, dará fim à casta política parasitária, ladra e inútil." O jornal argentino Clarín o comparou aos ex-presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro e ao presidente de El Salvador, Nayib Bukele, que assumiu poderes ditatoriais.

"O impacto do triunfo de Milei e sua amplitude falam da extensão da desesperança e da raiva que pulsa na sociedade argentina, que quis com seu voto agora em agosto expressar seu mal-estar profundo", escreveu o colunista Ricardo Kirschbaum. "Que esse sentimento se transforme numa força política capaz de governar este país complexo ainda é uma incógnita." 

Sua crítica ataca tanto a direita quanto a esquerda, mas o ex-presidente Mauricio Macri, líder da aliança JxC, destacou que a soma dos votos da direita e da extrema direita indica que os argentinos querem mudança.

Neste sentido, o grande derrotado nestas primárias foi o kirchnerismo, a força política que dominou a política argentina a partir de 2003, com a breve interrupção do governo Macri (2015-19), desde a recuperação do país da profunda crise causada pelo colapso da dolarização da economia, em dezembro de 2001, quando 58% dos argentinos caíram abaixo da linha de pobreza. Hoje, mais de 40% estão na pobreza.

A crise econômica argentina vem desde a última ditadura militar, que acabou com a indústria, inflou o sistema financeiro e reprimiu os sindicatos, reduzindo a renda dos trabalhadores em 37%.

Quando Raúl Alfonsín foi eleito presidente, em 1983, pela União Cívica Radical (UCR), os argentinos acreditavam que a democracia traria estabilidade política e resgataria a prosperidade do que já foi um dos dez países mais ricos do mundo.

Alfonsín (1983-89) não conseguiu controlar a inflação herdada da ditadura. Com alta de preços de 200% ao mês, deixou o poder cinco meses antes do fim do mandato, na primeira transição pacífica de um presidente civil para outro desde 1930 na Argentina.

Sem sucesso com os dois primeiros ministros da Economia, o presidente Carlos Menem (1989-99), peronista de direita, recorreu a Domingo Cavallo, que dolarizou a economia argentina, enrijecendo-a de uma forma que a pesificação deflagrou uma das piores crises de uma economia moderna e relativamente desenvolvida. Deixou a herança maldita para o radical Fernando de la Rúa (1999-2001), que renunciou com dois anos de governo, em 21 de dezembro de 2001, em meio a uma onda de protestos e saques com 39 mortes.

Em 2002, no auge da crise, após uma sucessão de presidentes temporários, assume o peronista Eduardo Duhalde, o candidato derrotado por De la Rúa em 1999. 

Duhalde patrocina a candidatura de Néstor Kirchner em 2003, que como presidente assume o controle do Partido Justicialista (peronista), afasta Duhalde e elege a mulher para a Casa Rosada em 2007. Cristina Kirchner foi a primeira mulher eleita para governar a Argentina, ocupando o lugar mítico de Evita Perón. 

Kirchner se preparava para voltar quando morreu de infarto em outubro de 2010. Cristina é reeleita em 2011 com 54% dos votos, 37 pontos à frente do segundo colocado. Mas seu segundo governo afunda o país na crise econômica, com corrupção, manipulação da inflação, excesso de gastos públicos, endividamento e ruptura com o sistema financeiro internacional.

O resultado foi a eleição de Macri em 2019. Além de não resolver a crise econômica crônica da economia argentina, Macri fez o maior empréstimo da história do FMI, no valor de US$ 57 bilhões.

Por causa da rejeição Cristina indicou Alberto Fernández em 2019 e ficou como vice. A piada é que a Argentina é um país tão original que inventou o vice-presidencialismo. Cristina várias vezes humilhou publicamente seu apadrinhado para mostrar quem manda.

Assim, a vice-presidente Cristina Kirchner é a maior derrotada. Não foi candidata e não apareceu. A única boa notícia para o kirchnerismo foi a vitória do governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, ex-ministro da Economia de Cristina, com 36,38% votos com mais de 80% das urnas apuradas, à frente de JxC e do partido direita A Liberdade Avança (La Libertad Avanza, LLA).

Massa aposta no canibalismo dos candidatos de direita para que a esquerda fique com uma das vagas no segundo turno. Depois do fracasso do governo Alberto Fernández (2109-23) e da sombra permanente da vice-presidente Cristina Kirchner, as PASO mostram um risco de que o peronismo fique fora do segundo turno, o que seria algo sem precedentes.

Milei surpreendeu em todo o país. Seus candidatos foram mal em eleições regionais recentes As pesquisas lhe davam algo em torno de 20% das preferências. Ele faz sucesso entre os jovens, cansados do kirchnerismo e do macrismo. Apresenta-se como anarcocapitalista.

Seu ponto fraco é a promessa de resolver a crise econômica e a hiperinflação dolarizando a economia argentina, o que já deu errado uma vez e não tem por que dar certo, extinguindo vários ministérios, inclusive da saúde, da educação da cultura, e o Banco Central. 

Nos costumes, Milei quer acabar com o direito ao aborto, mas é a favor do casamento gay porque entende que o Estado não deve interferir na vida privada dos cidadãos. Também é contra o Mercosul. Alega que o Estado não deve intervir na economia e que o comércio exterior é uma questão do setor privado. 

A corrupção é endêmica. "Conseguimos que o Estado parasse de matar", declarou Luis Moreno Ocampo, procurador adjunto no Julgamento das Juntas Militares, que depois foi procurador-geral do Tribunal Penal Internacional, quando 1985 foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiros. "Mas ainda não conseguimos que pare de roubar."

Neste pântano político, com a inflação correndo a renda das classes médias, o discurso da antipolítica faz sucesso. Se quiserem barrar Milei, os partidos tradicionais devem pensar desde agora numa possível aliança no segundo turno.