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sábado, 5 de abril de 2025

Guerra comercial acelera declínio relativo dos EUA

Ao deflagrar uma guerra comercial em escala global, aplicando um tarifaço a mais de 180 países e territórios, o presidente Donald Trump faz a maior mudança de política econômica dos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial (1939-45) e atinge principalmente a economia e a liderança do país no mundo.

Trump quer equilibrar a balança comercial dos EUA, que teve um déficit de US$ 918 bilhões no comércio de bens no ano passado, reindustrializar o país e aumentar a arrecadação para viabilizar cortes no imposto de renda das grandes empresas e dos ricos. Os resultados devem ser mais inflação, menos crescimento e uma perda de prestígio para o país.

Quem mais ganha é a China, que já é a maior potência industrial do planeta e a maior parceira comercial da maioria dos países. O Brasil pode ter mais oportunidades no comércio com a China e o acordo de liberalização de comércio entre o Mercosul e a União Europeia tem mais chance de ser aprovado. Mas todos perdem numa guerra comercial e o risco de conflitos aumenta.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Equilíbrio da Copa reflete globalização do futebol

 A primeira fase da Copa do Mundo do Catar apresentou um equilíbrio relativo que reflete a globalização do futebol. Nenhuma seleção venceu os três jogos. Só o Catar e o Canadá perderam todos. A maioria dos jogadores atua em grandes liga e conhece os adversários.

Se a globalização é fruto do desenvolvimento das tecnologias de comunicações e de transportes, o futebol se tornou uma paixão global e um grande negócio na era da televisão e do avião, que encurtou as distâncias. 

A Copa do Mundo é o exemplo máximo da globalização do futebol. Nestas oitavas de final, estão representados todos os continentes, menos a Antártida. 

São oito seleções da Europa (Holanda, França, Polônia, Inglaterra, Croácia, Espanha, Portugal e Suíça), três da América (Argentina, Brasil e EUA), duas da África (Marrocos e Senegal) duas da Ásia (Coreia do Sul e Japão) e uma da Oceania (Austrália). Meu comentário:

domingo, 15 de novembro de 2020

Acordo comercial da Ásia e do Pacífico exclui EUA

Os líderes de 15 países da Ásia e do Oceano Pacífico anunciaram hoje a conclusão do maior acordo comercial da história para reduzir em até 90% em dez anos as barreiras entre países com um terço da população e da produção mundiais, inclusive a China, o Japão e a Coreia do Sul. Até 2030, a Parceria Econômica Regional Ampla (RCEP) deve agregar US$ 200 bilhões, quase R$ 1,15 trilhão, por ano à economia mundial.

No primeiro dia de seu desgoverno, o presidente Donald Trump retirou os Estados Unidos da Parceria Transpacífica (TPP). O objetivo do governo Barack Obama era criar uma ordem econômica regional à qual a China teria de aderir aceitando as regras preexistentes. É mais uma herança maldita de Trump que reduz a importância dos EUA.

A RCEP aproveita os acordos de livre comércio assinados pela Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) - Brunei, Camboja, Cingapura, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Tailândia e Vietnã - e os transforma num pacto multilateral único com a Austrália, a China, o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia. Ficam de fora os Estados Unidos, o Canadá, a Rússia e os países da América Latina que faziam parte da TPP (Chile, México e Peru).

Enquanto os EUA, sob Trump, recuaram para um nacionalismo isolacionista, a China dobra a aposta na globalização e no livre comércio,

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Pandemia não será o fim da globalização

Sob o impacto da pandemia, uma tragédia de escala mundial, deve haver uma depressão, um aumento do nacionalismo econômico e do Estado Nacional, elemento central no combate à doença do novo coronavírus. Mas as previsões apocalípticas sobre o fim da globalização são prematuras.

A cooperação e o comércio internacional serão importantes para superar uma nova depressão. Os governos terão de investir pesadamente para evitar uma destruição maior do aparelho produtivo e do emprego. 

A carga fiscal terá de aumentar. Os ricos terão de pagar mais impostos. O coronavírus acelerou revolução tecnológica. Uma garantia de renda mínima pode ser uma solução permanente para a destruição de empregos que seria inevitável com o aumento da automação e da inteligência artificial.

O coronavírus não vai matar a globalização, que é fruto do desenvolvimento das tecnologias de comunicação e de transportes, e de uma busca por maior eficiência econômica. Isso não vai desaparecer.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento (OCDE), um clube de países ricos e em desenvolvimento, previu nesta quarta-feira uma queda de 6% no produto mundial bruto. Pode ser de 7,6% se houver nova onda de contaminação. 

No Brasil, a perda será de 7,4% a 9,1%. Para 2021, a previsão é de um crescimento 2,4% a 4,1%. O desemprego deve chegar a 15,4%. A Argentina pode recuar 10% e o México, 8%. 

Na Europa: a contração será de 9,1% a 10,1% por cento. No próximo ano, crescimento de 6,5%, se pandemia for controlada. A recessão na França será de 11% a 14%. 

A Índia, a grande economia que mais cresceu nos últimos anos, encolhe 7% em 2020, mas deve crescer 5,1% em 2021.

As previsões mais otimistas dependem um controle da pandemia, que já contaminou 7 milhões 453 mil pessoas e matou 419 mil pessoas. 

No Brasil, com mais de 1.300 mortes registradas em 24 horas, o total de óbitos chegou perto de 40 mil. Houve mais 33.100 casos novos, elevando o total de casos confirmados para mais de 775 mil. Meu comentário:

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Brasil chega perto de 15 mil mortes e ministro da Saúde cai

O Brasil registrou mais 15.305 novos casos e 824 mortes pela pandemia do novo coronavírus nas últimas 24 horas. É o segundo país em novos casos e em mortes por dia. O total de casos confirmados passou de 220 mil e o de mortes chegou a 14.962. 

Com menos de um mês no cargo, o ministro da Saúde, Nelson Teich, pediu demissão depois de ser desautorizado e humilhado pelo presidente Jair Bolsonaro, que insiste no uso da cloroquina nos estágios iniciais da doença e na retomada das atividades econômicas.

Os Estados Unidos tiveram mais 23.572 casos confirmados, chegando a um total de 1,481 milhão de casos, e mais 1.397 mortes, totalizando mais de 88 mil óbitos. 

O presidente Donald Trump anunciou que os EUA terão uma vacina até o fim do ano, mas a maioria dos cientistas estimam que isso só vai acontecer dentro de um ano e um ano e meio.

No mundo inteiro, já são quase 4,630 milhão de casos, 308.645 mortes e quase 1,76 milhão de pacientes curados.

A Suécia, um dos países que não adotaram o confinamento, foi citado como exemplo por Bolsonaro. Teve um aumento de 30 por cento nas mortes em comparação com o ano passado e um total oficial de 3.646 mortes pela covid-19. 

O país tem 10 milhões de habitantes e não evitou a recessão econômica. Os outros países da Escandinávia, Noruega, Finlândia e Dinamarca, com uma população somada de 16 milhões e 701 mil habitantes, 67 por cento maior, registram mil e 62 mortes, 69 por cento menos. 

É uma mortalidade 5,7 vezes menor sem que a Suécia tenha ganho grande vantagem econômica. O consumo na Dinamarca caiu 29 por cento e na Suécia, 25 por cento, uma diferença de apenas quatro pontos percentuais. Meu comentário:

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Pressões variadas revelam limites da globalização

Depois de décadas de abertura comercial, com queda de tarifas e outras barreiras à movimentação de bens e serviços pressões políticas, econômicas, demográficas e tecnológicas estão reformatando a globalização da economia. Esta tendência deve se acentuar ao longo da década. 

A globalização veio para ficar, a não ser que haja uma catástrofe em grande escala. A complexidade das cadeias produtivas vai continuar, mas vai haver movimentos para fortalecer as cadeias produtivas locais e regionais, e um aumento do comércio intrarregional. 

Os grandes acordos comerciais são complexos e inflexíveis. Estão sendo substituídos por acordos bilaterais ou com poucos países. 

Durante décadas, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos construíram o sistema multilateral de comércio para promover a abertura comercial, inicialmente para evitar a volta da Grande Depressão dos anos 1930. 

Com a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, a OMC, em 2001, entrou no jogo um concorrente fortíssimo, com baixo custo de produção. Isso ajudou a manter os juros e a inflação baixos, mas provocou forte erosão na renda dos trabalhadores dos países ricos que viram suas fábricas migrar para a China e outros países. Meu comentário:

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Ditador da Rússia ataca democracia liberal e o Ocidente

Em mais um desafio à democracia liberal e ao Ocidente, o ditador da Rússia, Vladimir Putin, afirma que o liberalismo está obsoleto por causa da reação negativa à globalização da economia e à imigração. Antes de viajar para a reunião de cúpula do Grupo dos Vinte (G-20) em Osaka, no Japão, ele deu entrevista no Kremlin ao jornal inglês Financial Times.

Putin era um oficial do Comitê de Defesa do Estado (KGB), a polícia política da União Soviética, em Dresden na Alemanha Oriental, quando começaram as manifestações que levaram à queda do Muro de Berlim e ao fim do comunismo. Anos depois, comentou que "o fim da URSS foi a maior tragédia geopolítica do século 20."

Depois de dirigir o Serviço Federal de Segurança, herdeiro do KGB, ele chegou ao poder em 1999, primeiro como primeiro-ministro de Boris Yeltsin e depois como presidente. Desde então, tenta restaurar o poder imperial soviético. Provocar o ataque o Ocidente como nos tempos da Guerra Fria é uma forma de fingir que tem o poder do passado. Meu comentário:

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Fusões e aquisições de empresas superaram os US$ 120 bilhões hoje

Com a recuperação da economia mundial e o crescimento simultâneo das principais regiões econômicas do planeta, os fusões e aquisições de empresas somam US$ 1,7 trilhão em 2018, apesar dos riscos políticos. Só no dia de hoje, foram anunciados negócios de US$ 120 bilhões, noticiou o jornal inglês Financial Times.

Nas últimas 24 horas, mais de uma dúzia de transações de mais US$ 100 milhões. De acordo com a consultoria Dealogic, o ritmo supera o do período anterior à Grande Recessão de 2008. As grandes empresas estão aplicando estratégias agressivas de consolidação de sua posição no mercado.

Nem todos os negócios tiveram a bênção do mercado. A tentativa de compra da empresa de telecomunicações americana Sprint pela rival alemã T-Mobile por US$ 59 bilhões provocou a queda nos preços das ações das duas empresas. Se for concretizada, vai criar a segunda maior empresa de telefonia celular dos Estados Unidos.

No setor de energia, a Marathon Petroleum ofereceu US$ 36 bilhões pela refinaria rival Andeavor, dando aos acionistas o direito de receber sua parte em ações ou dinheiro. Será o maior negócio do setor desde que a General Electric comprou a Baker Hughes em 2016.

Ao comprar a rede Asda da companhia americana Walmart por US$ 10 bilhões, o Sainsbury passa a ser a maior rede de supermercados do Reino Unido, superando o arquirrival Tesco.

"Apesar do risco de guerras comerciais, a bolsa de valores, continua forte, embora esteja volátil, e os preços elevados das ações podem ser usados em fusões e aquisições", observou John Bick, diretor global de advocacia empresarial do escritório David Polk. "Mesmo que as taxas de juros subam, as taxas de financiamento ainda são suficientemente baixas para grandes companhias tomarem empréstimos para fazer aquisições significativas."

Se não houver um terremoto político, a tendência de consolidação mostra que a globalização retoma seu ritmo.

"Ainda há muito a fazer", comentou Lee LeBrun, diretor de fusões e aquisições do banco Rothschild. "A única coisa capaz de parar isso é um choque externo ou um choque político, um risco que aumentou. Mas enquanto a música tocar, as pessoas vão continuar dançando."

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Macron vence debate e consolida vantagem na França

Mais de 60% dos eleitores consideraram o candidato centrista e independente Emmanuel Macron o vencedor do único debate antes do segundo turno da eleição presidencial na França, marcado para este domingo, 7 de maio de 2017. 

Sua adversária, a candidata neofascista Marine Le Pen, da Frente Nacional, interrompeu-o todo o tempo, foi irônica e provocante, sem desestabilizar o favorito. As pesquisas dão uma vantagem a Macron de 60% a 40% com pequenas variações.

Com seu discurso banal de ideias simplistas, Le Pen tentou apresentar Macron como o candidato da "globalização selvagem", da submissão aos interesses estrangeiros e às "potências financeiras", prometeu fechar as fronteiras, expulsar os imigrantes ilegais e proteger o trabalhador francês da concorrência internacional.

Macron optou por passar uma imagem confiante, de quem acredita no futuro da França mas não se deixa seduzir por soluções fáceis. Ele defende reformas na lei trabalhista e na previdência para reduzir os custos de abrir uma empresa na França, combater o desemprego e facilitar o desenvolvimento do setor de alta tecnologia.

"O Sr. Macron é a escolha da mundialização selvagem, da uberização, da precariedade, da guerra de todos contra todos, da ruína econômica, notadamente de nossos grandes grupos, do desmantelamento da França, do comunitarismo", atacou a candidato neonazista.

Em desvantagem de cerca de 20 pontos nas pesquisas, Marine desatou sua fúria de candidata da raiva e da cólera: "Os franceses puderam ver o verdadeiro Macron neste segundo turno: a benevolência deu lugar à insinuação, o sorriso estudado se transformou em rito feito sob medida para o encontro, é o filho querido do sistema e das elites, a máscara caiu."

Diante da agressividade da ultradireitista, o candidato do movimento Em Marcha acusou a rival de ser "herdeira de um nome, de um partido político e de um sistema que prospera sobre a cólera dos franceses depois de tantos e tantos anos", de um partido que mente e infantiliza os eleitores e aposta na cólera e na raiva.

A seguir, argumentou que a brutalidade do discurso de Le Pen demonstra que ela "não é uma candidata no espírito da fineza, da vontade de um debate democrático, equilibrado e aberto."

Isso não afastou Marine da linha de identificar Macron com o sistema dominante e com o presidente François Hollande, o mais impopular da história recente da França: "Sr. ministro da Economia, sr. assessor de Hollande", "filho pródigo do sistema e das elites" e "Hollande júnior".

A candidata de extrema direita afirmou ainda que "ele tenta esconder que participou de um governo que aprovou a Lei Khomri, uma lei de precarização do trabalho que criou um desemprego ainda maior".

No discurso lepenista, a "filosofia" política de seu adversário se resume a "tudo se vende e tudo se compra, os homens, as lojas, você não vê relações humanas, as relações só interessam pelos dividendos que se possa tirar."

Macron contra-atacou a doutrina econômica da Frente Nacional: "Você não vai cortar nenhuma despesa, vai deixar aumentar o déficit e a dependência do mercado financeiro, seja aumentando impostos, seja aumentando a dívida que nossos filhos pagarão."

O candidato independente chamou a FN de "partido dos negócios". Le Pen acusou Macron de ter uma conta nas Bahamas, um paraíso fiscal. "É difamação", reagiu o favorito.

"A França será governada por uma mulher, por mim ou por Madame Angela Merkel", afirmou Le Pen.

Depois dos atentados dos últimos anos, o terrorismo é outro tema central da campanha eleitoral francesa. Marine chamou Macron de "complacente com o fundamentalismo islâmico". Ela propõe fechar as fronteiras e expulsar os imigrantes ilegais.

"O terrorismo e a ameaça terrorista são uma prioridade nos próximos anos", respondeu o ex-ministro da Economia. "Desde novembro de 2015, restabelecemos o controle de fronteiras e interpelamos 60 mil pessoas. O que você propõe é pó de pirlimpimpim", ironizou o centrista.

"A chave é identificar as ameaças", prosseguiu Macron. "Os terroristas não avisam quando cruzam as fronteiras. Temos a necessidade de uma cooperação maior com os países-membros da União Europeia, para poder controlar através de bancos de dados os terroristas em potencial que circulem de um território a outro, ao cruzarem fronteiras ou tomarem aviões. Você votou contra no Parlamento Europeu."

Ele declarou que "o sonho dos jihadistas é que Marine Le Pen chegue ao poder na França, porque eles querem a radicalização e a guerra civil que você oferece ao país, a armadilha da guerra civil a que eles nos tentam ao insultar os franceses e criar problemas no país."

No plano internacional, além do terorismo, os candidatos discutiram a união monetária europeia e as relações com a Rússia, financiadora da Frente Nacional.

"O euro é a moeda dos banqueiros, não é a moeda do povo" e "esta é a razão pela qual precisamos nos livrar desta moeda", disparou Marine, defensora da recriação do franco. Num período intermediário, as duas moedas coexistiriam, como de 1999 a 2002, quando o euro foi introduzido como moeda contábil mas ainda não estava em circulação.

Mais uma vez, Macron desqualificou as propostas econômica da ultradireita como voluntaristas e fora da realidade: "Uma grande empresa não poderá de um lado fazer negócios em euros e do outro pagar salários em francos. Isso jamais existiu. Minha visão é construir um euro forte e uma política europeia forte dentro da qual defenderemos os interesses da França."

A França de Le Pen "deve se manter equidistante da Rússia e dos Estados Unidos. Não temos nenhuma razão para entrar numa guerra fria com a Rússia. Temos todas as razões para manter relações diplomáticas e comerciais.

O candidato independente é a favor da aliança com os EUA na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e das sanções impostas à Rússia em resposta à intervenção militar na Ucrânia e à anexação da Ucrânia.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Marine Le Pen deixa presidência do partido para ampliar eleitorado

Em grande desvantagem nas primeiras pesquisas depois do segundo turno, a candidata de extrema direita à Presidência da França, Marine Le Pen, anunciou hoje que vai deixar a presidência da Frente Nacional. 

É uma jogada para vender uma imagem mais centrista e tentar captar os votos, por exemplo, dos eleitores de Jean-Luc Mélenchon, da ultraesquerda, descontentes com as políticas pró-mercado do favorito, Emmanuel Macron, a quem ela acusa de apoiar uma "globalização selvagem".

Candidato independente, o ex-ministro da Economia Macron venceu o primeiro turno com 8.657.326 ou 24% dos votos com propostas a favor da globalização, do internacionalismo liberal, da União Europeia e da economia de mercado.

Le Pen ficou em segundo com 21,3% com uma plataforma ultranacioanalista, prometendo combater o terrorismo islâmico, expulsar os imigrantes, deixar o euro, convocar um plebiscito para sair da UE, fechar as fronteiras e proteger a economia. Ela obteve 7.679.593 votos, batendo o recorde do pai, Jean-Marie Le Pen. Ele obteve 6,8 milhões em 2012, quando derrotou o primeiro-ministro socialista Lionel Jospin e foi para o segundo turno.

Os candidatos conservador François Fillon (20%) e socialista Benoît Hamon (6,36%) deram apoio a Macron para vencer a ameaça da extrema direita. O presidente François Hollande, o mais impopular da história recente da França, também declarou apoio a seu ex-ministro da Economia.

As pesquisas dão 60% a 64% das preferências para Macron no segundo turno, marcado para 7 de maio de 2017.

Marine tenta reagir apresentando o adversário como "filho do hollandismo", liberal e pró-europeu. Na visão da ultradireita, isso significa que "as fronteiras continuaram abertas e a França e sua cultura continuarão sendo invadidas".

Macron é o grande vencedor. Há um ano, estava no governo. Saiu e criou o movimento Em Marcha para lançar a candidatura. Foi beneficiado pelo escândalo que abalou o favorito, o ex-primeiro-ministro conservador Fillon, acusado de empregar mulher e filhos como funcionários-fantasmas do Senado.

O grande derrotado é o Partido Socialista, que teve a pior votação de sua história, apenas 6,36% dos votos no primeiro turno. A ala mais moderada apoiou Macron e a mais radical votou em Mélenchon. Mas o partido gaulista Os Republicanos também perdeu muito ao insistir num candidato manchado pela corrupção e rejeitado pelo eleitoral.

A Europa e o mercado festejaram o resultado, com alta generalizada nas bolsas de valores. O fantasma da ascensão da extrema direita, alimentado pelo plebiscito que decidiu pela saída do Reino Unido da UE e pela vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, não assombrou a eleição presidencial francesa.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Trump nomeia inimigo da China para comércio exterior

Em mais um sinal de que deve jogar duro com a China, o presidente eleito Donald Trump indicou ontem Peter Navarro para presidente do Conselho Nacional de Comércio dos Estados Unidos. Navarro acusa a China de guerra econômica contra os EUA.

Mais tarde, Trump apontou o investidor bilionário Carl Icahn como assessor especial para desregulamentação sem um cargo formal nem salário. Durante a campanha, o candidato republicano prometeu acabar com 90% das normas federais que afetam a geração de emprego. A nomeação está sendo criticada porque, como megainvestidor, Icahn pode se beneficiar das desregulamentações que promover.

Para o jornal The Wall Street Journal, porta-voz do centro financeiro de Wall Street, em Nova York, as nomeações sugerem que a política econômica de Trump será um misto de valores tradicionais do Partido Republicano, como desregulamentação e cortes de impostos, com uma abordagem mais populista em comércio, indústria e imigração.

Ao justificar a indicação de Navarro, Trump afirmou que ele foi "presciente ao documentar os danos infligidos pelo globalismo aos trabalhadores americanos e mostrou o caminho para restaurar nossa classe média."

Navarro é autor de vários livros críticos do regime comunista chinês e sua estratégia de desenvolvimento econômico como As Próximas Guerra da China e Morte pela China: confrontando o dragão - uma convocação global à ação.

"O que temos em comum é uma profunda compreensão de que o problema estrutural chave da economia americana é o comércio", declarou Navarro em entrevista antes da eleição de 8 de novembro de 2016.

Trump provocou a China ao telefonar para a presidente da Taiwan, Tsai Ing-wen, que Beijim considera uma província rebelde, contrariando a política de que "só existe uma China", representada pelo regime comunista no poder desde 1949.

Com seu discurso em defesa dos trabalhadores sem curso superior, Trump atraiu a simpatia dos sindicatos. "No passado, a política comercial foi usada como instrumento de política externa pelo Conselho de Segurança Nacional e não como instrumento para promover a produção doméstica e a geração de empregos", afirmou o presidente do sindicato Metalúrgicos Unidos, Leo Gerard.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Colapso da Parceria Transpacífica dá nova chance ao Brasil

O fim do acordo de comércio e investimentos conhecido como Parceria Transpacífica (TTP), rejeitado pelo presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, dá uma oportunidade ao Brasil de retomar o processo de integração da América do Sul para evitar o surgimento de "uma nova linha de Tordesilhas" dividindo o subcontinente entre as zonas do Oceano Atlântico e do Pacífico, afirmou ontem o embaixador brasileiro em Washington, Sérgio Amaral.

Em palestra na Associação Comercial do Rio de Janeiro organizada pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), o ex-porta-voz do governo Fernando Henrique Cardoso observou que o Brasil não estava preparado para reagir à formação do novo bloco comercial. Com seu fracasso, terá mais tempo para redefinir suas políticas de integração e comércio exterior.

"A falta da TTP não nos faz mal nenhum. Não precisamos de uma nova linha de Tordesilhas na América do Sul", afirmou Amaral, citando o tratado que dividiu o mundo entre Portugal e Espanha em 1494, dois anos depois da Descoberta da América por Cristóvão Colombo a serviço da coroa espanhola.

Agora, a divisão seria entre os países do Pacífico, com Chile, Peru e Colômbia, que se beneficiam do extraordinário crescimento econômico da Ásia, e os países do Atlântico, especialmente do Mercosul, que rejeitaram em 2005 a proposta dos EUA para criar a Área de Livre Comércio das Américas."O mercado do TTP na América do Sul está aqui", destacou.

"É o grande momento de acertar os ponteiros do Mercosul", destacou Sérgio Amaral. "Um grande problema é termos Brasil e Argentina alinhados na mesma direção - e hoje temos. Precisamos antes de tudo arrumar a casa, criar uma comunidade e convergência no nosso entorno."

Ao falar sobre As relações EUA-China como eixo de estruturação da ordem internacional, o embaixador comentou que, "como estes dois países são as grandes potências do século 21, a natureza da relação entre os dois vai forjar a nova ordem."

Sérgio Amaral não acredita que a China vá promover a subversão da ordem internacional que a permitiu ascender à condição de superpotência. Vai querer reformar. Que reformas? "Esta é a questão de US$ 1 milhão", ironizou o embaixador.

A ascensão das grandes potências ao longo da história gerou grandes conflitos como as guerras mundiais iniciadas pela Alemanha e a Guerra Fria entre EUA e União Soviética. Para evitar esses exemplos trágicos, a China aposta na "emergência pacífica".

Quando lançou seu programa de modernização econômica, em 1978, o dirigente chinês Deng Xiaoping pediu humildade e discrição. A China precisava acumular forças e riqueza para se afirmar naturalmente como grande potência.

O atual líder chinês, Xi Jinping, é "mais afirmativo", sinal de que a China já concluiu sua emergência e exige tratamento não discriminatório em todas as áreas. As prioridades de Xi são "os conflitos territoriais do Mar do Sul da China e a integração asiática através da economia chinesa, que tem 60% de seu comércio exterior com a Ásia", acrescentou o embaixador, que durante dez anos presidiu o Conselho Empresarial Brasil-China.

Em 2015, o presidente americano, Barack Obama, declarou que gostaria de ver "uma China pacífica, estável, próspera e responsável", lembrou Amaral, citando uma série de exemplos de cooperação: "As exportações dos EUA para a China dobraram", os dois países cooperam em segurança nuclear, nos acordos de Paris sobre o clima e sobre o programa nuclear do Irã, e discutem um tratado bilateral sobre investimentos."

A China faz uma "geopolítica da infraestrutura", argumentou Amaral, "planeja fazer investimentos de US$ 1,25 trilhão em obras da infraestrutura, uma nova Rota da Seda por terra da Ásia Central até a Europa e pelo mar do Mar do Sul da China até o Mediterrâneo, um corredor China-Índia passando por Mianmar", a ligação interoceânica por uma ferrovia na América do Sul e até mesmo um canal na Nicarágua para concorrer com o do Panamá.

Em vez de subverter a ordem econômica internacional criada pelos EUA a partir da Conferência de Bretton Woods, em 1944, raciocinou o embaixador, sem conseguir um voto à altura de seu poderio econômico, a China criou instituições-espelho do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, como o Banco dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e o Banco de Infraestrutura da Ásia.

Amaral entende que as relações EUA-China tem regras não escritas, como o compromisso mútuo de não ser o primeiro país a atacar para evitar uma guerra entre os dois países, que se enfrentaram dentro da Guerra da Coreia (1950-53), quando o Exército Popular de Libertação impediu a aliança liderada pelos EUA de unificar a Península Coreana sob o controle de Seul. Os chineses empurraram os americanos para baixo do paralelo 38º Norte, restaurando o status quo anterior à guerra.

Hoje o maior foco de tensão entre os dois países está no Mar do Sul da China, onde o regime comunista chinês tem conflitos territoriais com Brunei, Filipinas, Malásia, Taiwan e Vietnã, e os EUA estão preocupados com a livre navegação;

A participação da China em decisões internacionais é cada vez maior. "Que nova ordem será essa?", indaga o embaixador, respondendo em seguida: "Ordem multipolar: EUA, China, Europa, Rússia, Índia, Japão..." Não citou o Brasil como líder da América do Sul.

"Dois polos são mais significantes: EUA e China", analisou Sérgio Amaral. "Se prevalecer a cooperação, vai haver um reforço do multilateralismo. Com uma concorrência muito acirrada, haveria um enfraquecimento do sistema internacional como na Guerra Fria. Não se trata de um conflito ideológico, mas de aumentar a presença internacional da China."

Esses dois países "são fundamentais para o Brasil", que na opinião do embaixador deve tratar as duas grandes potências sem favoritismo. "O Brasil tem uma parceria política e econômica com a China para reformar o sistema de Bretton Woods. Com os EUA, compartilhamos valores. O mundo não é eurocêntrico, mas nós recebemos essa herança cultural."

A vitória de Trump não é problema para o Brasil, na visão do embaixador nos EUA: "Não sabemos ainda quais serão as políticas nem os nomes. Um de seus focos é o Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte. A diferença de salários entre os EUA e o México não vai diminuir nem o embricamento das empresas americanas e mexicanas nas cadeias de produção."

Como o Brasil tem déficit no comércio bilateral e várias empresas brasileiras investem e geram empregos nos EUA, Amaral não antevê problemas com um governo Trump.

Nesta nova ordem mundial, o embaixador vê uma "perda da centralidade da Organização Mundial do Comércio (OMC) com fórum de negociações de liberalização comercial. Vai continuar monitorando o comércio e como mecanismo de solução de controvérsias, mas a liberalização avança em mega-acordos. O neorregionalismo é um grande desafio positivo para nós."

A OMC, na qual a política externa comercial brasileira sempre apostou suas maiores fichas, na expectativa de que seria o órgão adequado para romper o protecionismo agrícola dos países ricos perde importância com a rejeição à globalização econômica nos países ricos. Nos EUA de Donald Trump, "o universalismo da OMC é visto como o principal responsável pelo déficit comercial com a China".

Quinze anos depois da entrada da China na OMC, os países-membros devem reconhecer ou não que a China é uma economia de mercado. Se isso for aceito, os processos de dumping (cobrança de preços abaixo do custo de produção) contra a China ficarão muito mais difíceis.

Por ironia da história, hoje é a China comunista que defende a abertura comercial. A razão é simples, conclui o embaixador: "É a favor do livre comércio quem é competitivo."

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Globalização recua com a crise no Ocidente

Diante da aprovação da saída do Reino Unido na União Europeia no plebiscito de 23 de junho de 2016 e da vitória do nacionalismo de Donald Trump na eleição presidencial nos Estados Unidos, fica evidente a reação negativa das classes média e baixa com as perdas sofridas pelo processo de globalização econômica.

Enquanto a renda dos ricos que vendem para o mercado mundial cresce exponencialmente, a renda dos trabalhadores não registra aumentos significativos há décadas nos países ocidentais, fomentando reações nacionalistas e protecionistas que ameaçam a ordem internacional liberal construída sob a liderança dos EUA desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Desde a Grande Recessão, o crescimento do comércio internacional caiu sensivelmente. O valor das transações de bens e serviços subiu cerca de 60% de 2005 a 2015, mas sofreu uma forte queda no ano passado, depois de avanços medíocres de 2011, quando se agrava a crise da UE, a 2014, indicam dados da OMC (Organização Mundial do Comércio).

A principal causa da queda no ano passado foi a redução de 45% nos preços de energia. O comércio exterior sofreu uma baixa de quase 20% em 2009, no auge da crise econômica e financeira internacional. Recuperou-se nos anos seguintes, com avanços de 20% em 2010 e de mais de 15% em 2011. Ficou praticamente estagnado em 2012 e cresceu em média 2,2% em 2013 e 2014.

No ano passado, o valor das exportações caiu em mais de 10% e as importações um pouco abaixo disso.

A América do Norte, a Ásia e a Europa foram responsáveis por mais de 88% do comércio de bens entre os agora 164 países-membros da OMC nos últimos dez anos. As dez maiores potências comerciais são responsáveis por 52% do comércio internacional.

Mesmo assim, a participação dos países em desenvolvimento subiu de 33% em 2005 para 42% em 2015. O comércio entre países em desenvolvimento passou de 41% para 52% de seu comércio total. E a participação das economias em desenvolvimento chegou a 42% do comércio internacional de bens em 2015.

No setor de serviços, as dez maiores potências fizeram 53% das transações internacionais e os países em desenvolvimento 36%. A exportação de serviços somou US$ 4,68 trilhões em 2015.

Por ironia da história, com o sucesso da campanha nacionalista e protecionista do presidente eleito Donald Trump nos EUA, coube ao líder da China comunista, Xi Jinping, a defesa do livre comércio durante a reunião de cúpula anual do fórum Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (APEC), realizada no fim de semana em Lima, no Peru.

As reuniões de cúpula da APEC começaram no governo Bill Clinton, em 1993, marcando uma virada dos EUA para o Oceano Pacífico, onde estão hoje as economias mais dinâmicas do mundo. O presidente Barack Obama tentou institucionalizar as regras do comércio na região com a Parceria Transpacífica (TTP). Diante da rejeição de Trump, o atual governo parou o processo de ratificação no Congresso dos EUA.

Trump promete renegociar os acordos comerciais dos EUA, que considera lesivos, e ameaça impor tarifas pesadas às importações da China, responsáveis pela maior parte do déficit comercial americano, que no ano passado foi de US$ 532 bilhões. Corre o risco de deflagrar uma guerra comercial de consequências negativas e imprevisíveis.

O presidente eleito ignora as lições da história. Ao mesmo tempo, a integração europeia, um projeto para suplantar os nacionalismos culpados por duas guerras mundiais, um modelo para uma globalização social-democrata em que os ricos financiem o desenvolvimento das regiões mais pobres, enfrenta sua pior crise.

No fim da Segunda Guerra Mundial, o presidente Franklin Delano Roosevelt lançou as bases da ordem internacional econômica liberal do pós-guerra na Conferência de Bretton Woods, em 1944, criando o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e o sistema multilateral de comércio.

Roosevelt sabia que o esforço de guerra havia sido decisivo para acabar com a Grande Depressão (1929-39), a maior crise da história do capitalismo. Temia a volta da depressão e conflitos comerciais capazes de deflagrar uma nova guerra mundial.

Assim, o FMI socorreria países em dificuldades com o balanço de pagamentos para que não abandonassem o comércio internacional. O Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento, hoje mais conhecido como Banco Mundial, financiou a recuperação no pós-guerra e depois passou a financiar o desenvolvimento.

A globalização não vai acabar porque é consequência do desenvolvimento das tecnologias de comunicações e de transportes. Só pode ser destruída por uma guerra nuclear de grandes proporções. Na era da Internet, o mundo está cada vez mais conectado.

Mas a volta do nacionalismo nos EUA de Trump, na China de Xi, na Rússia de Vladimir Putin, na Índia de Narendra Modi, no Reino Unido de saída da UE e a ascensão da extrema direita na Europa criam um mundo menos solidário, mais instável e perigoso.

quarta-feira, 2 de março de 2016

O Terrorismo e os Desafios da Globalização*

Boa noite a todos! É um prazer e uma honra estar aqui para dar esta aula inaugural. Agradeço aos professores desta faculdade, especialmente ao professor Regis Burmeister, meu amigo pessoal, a quem devo esta honra, e a vocês todos pela presença.

Fui convidado porque este é um curso eminentemente técnico e científico, e os professores querem dar a vocês uma visão generalista. Nada mais generalista do que um jornalista de noticiário internacional, que num dia fala da fome da Etiópia e no outro dia tenta explicar a estagnação da economia japonesa.

Meu primeiro recado é: viajem, conheçam o mundo. Na Inglaterra, onde fiz minha pós-graduação tardia, aos 40 anos, a maioria dos estudantes tranca a matrícula, geralmente no início da faculdade, e tira um ano sabático. Sai pelo mundo explorando o antigo Império Britânico e países aliados. Vai pra Argentina, Austrália, Nova Zelândia, Índia, África…

São experiências de vida que enriquecem, seja qual for a profissão. Pensem desde logo onde vão fazer pós-graduação.

Então vamos ao tema desta aula, o terrorismo e os desafios da globalização.Quando a gente vê na televisão aquelas atrocidades horríveis, degolas, execuções em massa, o piloto jordaniano queimado vivo numa jaula, parece algo distante, mas neste ano teremos a Olimpíada do Rio e, embora o Brasil não seja alvo, as delegações estrangeiras podem ser.

GLOBALIZAÇÃO
Vou começar pela globalização, o fenômeno maior que rege nossas vidas. A globalização é o resultado do desenvolvimento das tecnologias de comunicações e de transportes – e neste sentido é irreversível, a não ser que haja uma guerra nuclear e o mundo regrida à Idade da Pedra.

Sempre ensinei que a globalização econômica começa com a Revolução Comercial, que vai de 1400 a 1700 e marca o início do capitalismo. Mas alguns autores, como Parag Khanna, alegam que começou com o Caminho da Seda, a rota de comércio inaugurada no ano 130 depois de Cristo que levou o italiano Marco Polo à China no século 13. Além da seda, ele trouxe a massa da China. Há uma série no Netflix sobre sua história.

De certa forma, é um argumento para incluir a China e a China hoje pretende reconstruir o Caminho da Seda com estradas modernas para acelerar seu comércio.

Com a queda de Constantinopla para os turcos e o fim do Império Bizantino, o Império Romano do Oriente, em 29 de maio de 1453, o marco do fim da Idade Média, o Império Otomano bloqueou o Caminho da Seda.

A expansão colonial marítima europeia em busca de especiarias e metais preciosos marca a primeira onda de globalização da economia no sentido de explorar todos os continentes. Isso significa que o Brasil já nasceu globalizado, uma economia colonial, periférica e dependente do sistema global dominado pelas potências europeias.

O açúcar era vendido a 8,3 gramas de ouro por arroba de 15 quilos na Europa em 1430. Quando Portugal passou a cultivar cana nas ilhas dos Açores e da Madeira, multiplicou a produção mundial.

Com o Brasil, o açúcar foi a mercadoria dominante no comércio internacional, o que provocou as invasões holandesas ao Nordeste no século 17. Em 1654, quando a Insurreição Pernambucana expulsou os holandeses, os judeus que fugiram do Recife foram para Nova York. Na época, o Recife era mais rico do que Nova York.

A segunda onda de globalização começa com a Revolução Industrial, iniciada na segunda metade do século 18 na Inglaterra com a invenção da máquina a vapor. No século 19, a indústria chega ao resto da Europa e aos Estados Unidos, aumentando a competição por matérias-primas e colônias.

Em 1884 e 1885 houve a chamada Partilha da África, no que o historiador britânico Eric Hobsbawm chamou de Era dos Impérios. O choque desses impérios levou à Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1918, e depois à Segunda Guerra Mundial com o revanchismo alemão, de 1939 a 1945, na grande guerra civil europeia.

Depois de 500 anos em que a Europa foi o centro do mundo, os donos do mundo cometeram suicídio coletivo ou homicídio coletivo e perderam sua preeminência. Começava a Guerra Fria.

Durante a Guerra Fria, começa a terceira onda de globalização. Em 1947, o comércio internacional era de apenas US$ 57 bilhões. Em 2014, chegou a US$ 23,874 trilhões.

A partir de 1945, as empresas transnacionais dos países centrais do sistema passaram a produzir em filiais no Terceiro Mundo, beneficiando-se de energia, recursos naturais e mão de obra baratas. Começava a desterritorialização, outro desafio da globalização, que tirou os empregos de trabalhadores não qualificados nos países ricos. As empresas montam suas fábricas fora dos países de origem.

Com a queda do Muro de Berlim e o fim dos regimes comunistas, o capitalismo cumpriu a profecia de Karl Marx e chegou a todos os cantos da Terra, completando o processo de globalização.

Então temos a globalização da economia a partir do Caminho da Seda – existe até um livro Da Seda ao Silício – ou da expansão colonial marítima europeia, a globalização da guerra a partir da Primeira Guerra Mundial e a globalização do terrorismo a partir dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e no Pentágono.

TERRORISMO
O terrorismo como tática de guerra talvez seja tão antigo quanto o homem. É o ataque indiscriminado contra civis inocentes escolhidos ao acaso para aterrorizar e quebrar a fibra moral do inimigo. A questão do alvo é importante. O que é um alvo legítimo numa guerra?

Os métodos mais comuns são bombas, assassinatos seletivos ou em massa, sequestros e sequestros aéreos, mas podem incluir o envenenamento da água ou da comida.

Ivã, o Terrível, da Rússia, era um terrorista, um dos pioneiros da polícia política no país. Gêngis Khan teria mandado arrasar a cidade de Herat, hoje no Afeganistão, onde um afilhado favorito e possível sucessor foi morto. De 160 mil habitantes, sobraram 40 sobreviventes.

A guerra era considerada algo inseparável da espécie humana e o terror era uma das táticas favoritas dos poderosos. Os mongóis construíram em 25 anos um império maior do que os romanos em 400 anos.

O terrorismo como arma política, o chamado banho de sangue purificador, surge na segunda fase da Revolução Francesa, o período da Convenção (1792-94), quando o Comitê de Salvação Nacional manda milhares de pessoas para a guilhotina, inclusive o rei Luís XVI, a rainha Maria Antonieta, e os líderes revolucionários Georges-Jacques Danton e Maximiliano Robespierre.

O terrorismo político começa então como terrorismo de Estado, e os grandes Estados terroristas foram a Alemanha de Hitler e a União Soviética de Stalin, sem esquecer da China de Mao e dos crimes do imperialismo e do capitalismo.

Nos anos 1960s e 1970s, vários movimentos de libertação nacional usaram táticas terroristas, como os palestinos ou os republicanos na Irlanda do Norte. Era uma tática de guerra para lutas nacionalistas. No Oriente Médio, tornou-se endemic. Todos os grupos e governos podem ser acusados de terrorismo.

Em 11 de setembro de 2001, ao atacar o coração do Império, os terroristas da rede Al Caeda levaram as guerras do Oriente Médio para os Estados Unidos matando quase 3 mil pessoas.

Foi o maior ataque a território norte-americano desde o bombardeio japonês a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, que levou os Estados Unidos à Segunda Guerra Mundial. No território continental dos EUA, foi o maior ataque desde a Batalha de El Álamo, em 1836.

Foi também a globalização do terrorismo, uma organização terrorista com um programa de ação global. Apesar da guerra dos Estados Unidos e aliados contra o terrorismo dos jihadistas, o número de vítimas do terrorismo só aumentou.

Em 2014, o último ano sobre o qual vi estatísticas consolidadas, foram mais de 32 mil mortes em mais de 13 mil ataques em 93 países. O total de mortos aumentou nove vezes desde o ano 2000.

O autoproclamado Estado Islâmico do Iraque e do Levante e a milícia nigeriana Boko Haram, que agora se apresenta como a província do Estado Islâmico na África Ocidental, lideram a matança.

ESTADO ISLÂMICO
O Estado Islâmico é hoje o inimigo público número um, embora o maior terrorista na guerra civil da Síria, o pior conflito hoje no mundo, seja o ditador Bachar Assad, que bombardeia seu próprio povo há cinco anos, sendo o maior responsável pelas mais de 260 mil mortes na Síria.

O Estado Islâmico é a antiga Al Caeda no Iraque, que se transformou em Estado Islâmico do Iraque.

Al Caeda foi criada por Ossama ben Laden em 1988. É um detrito que ficou da Guerra Fria, quando os Estados Unidos, a Arábia Saudita, a China e o Paquistão se aliaram aos extremistas muçulmanos para derrotar a invasão soviética no Afeganistão.

Depois de derrotar a União Soviética, Ben Laden decidiu enfrentar os Estados Unidos, especialmente depois que tropas norte-americanas foram enviadas à Arábia Saudita para proteger o reino do ditador iraquiano Saddam Hussein. Saddam ocupara o Kuwait, em agosto de 1990.

As duas cidades mais sagradas do Islã, Meca e Medina, ficam na Arábia Saudita, berço também do wahabismo e do salafismo, as correntes ultraconservadoras e puritanas da religião que querem recriar a Arábia do século 7, no tempo do profeta Maomé.

A rede terrorista atacou o World Trade Center em 1993 e as embaixadas dos Estados Unidos no Quênia e na Tanzânia, em 1998, quando o presidente Bill Clinton mandou bombardear as bases d’al Caeda no Afeganistão sem concluir a tarefa, o que levou aos atentados de 2001.

Um mês depois, os Estados Unidos e aliados invadiram o Afeganistão e estão lá até hoje. É a mais longa guerra da história dos Estados Unidos.

INVASÃO DO IRAQUE
Quando Ben Laden escapou na Batalha de Tora Bora, em dezembro de 2001, as atenções do governo George W. Bush se voltaram para o Iraque. Praticamente não havia movimentos jihadistas quando os Estados Unidos derrubaram a ditadura secularista de Saddam Hussein.

É verdade que Saddam usou a religião com motivos politicos a partir da derrota de 1991 na Primeira Guerra do Golfo, mas combateu ferozmente o jihadismo.

Quando Saddam caiu, logo Al Caeda se infiltrou no Iraque para combater a invasão norte-americana. Um grupo antecessor do Estado Islâmico atacou a sede da ONU em Bagdá e matou o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, em agosto de 2003.

Os Estados Unidos cometeram o erro crucial de dissolver as forças de segurança de Saddam Hussein, deixando sem emprego milhares de homens com formação militar. Eles formam hoje as tropas mais eficientes do Estado Islâmico.

Ao dar o poder à maioria xiita, os Estados Unidos marginalizaram a minoria sunita, uns 20% da população que mandavam no país há mais de 300 anos, desde que o Império Otomano superou o Império Persa, em 1638.

A revolta sunita fomentada pela Caeda esteve no centro da luta contra a invasão norte-americana.

O Estado Islâmico do Iraque, sucessor d’al Caeda no Iraque, criado em 2006, foi derrotado pelo reforço de tropas ordenado por Bush a partir de 2007. Renasceu com a guerra civil na Síria.

Durante toda a ocupação norte-americana, a Síria deu ajuda, armas e livre passagem a grupos extremistas interessados em atacar as forças dos Estados Unidos.

GUERRA CIVIL NA SÍRIA
Em 2011, depois da queda dos ditadores da Tunísia em 14 de janeiro e do Egito em 11 de fevereiro, a chamada Primavera Árabe chegou em 15 de marco à Síria, onde os protestos populares foram violentamente reprimidos pelo governo, deflagrando a guerra civil.

Assad anistiou então todos os jihadistas presos na Síria para justificar sua alegação de estar combatendo terroristas. Além de 260 mil mortes – e há estimativas de 470 mil mortes –, 5 milhões de pessoas fugiram da Síria e há milhões de desalojados que saíram de casa mas não do país.

O Estado Islâmico do Iraque ajudou a criar a Frente al-Nusra, braço armado da rede terrorista Al Caeda na guerra civil síria. Em 2013, passou a se chamar Estado Islâmico do Iraque e do Levante.

Em fevereiro de 2014, rompeu com Al Caeda por querer unificar as operações no Iraque e na Síria, ignorando as fronteiras nacionais traçadas pelo imperialismo franco-britânico no fim da Primeira Guerra Mundial.

É hoje uma organização terrorista com um proto-Estado do tamanho do Reino Unido onde vivem 8 milhões de pessoas, com rendas do petróleo e gás das regiões que domina, suborno, chantagem, cobrança de impostos e venda de tesouros históricos.
No mundo globalizado, imaginar que tamanho banho de sangue como a guerra civil na Síria não vá respingar no resto do mundo é uma ilusão.

ESTADOS COLAPSADOS
Um dos maiores desafios do mundo globalizado está nos países onde o Estado entrou em colapso, como é o caso do Líbano e do Afeganistão desde os anos 1970s, a Somália desde 1991, o Iraque desde 2003 e a Síria desde 2011.

Nessas terras sem lei, prolifera o terrorismo. A anarquia é pior do que a ditadura. Onde a anarquia é generalizada e impera a lei da selva, qualquer grupo que imponha a ordem acaba sendo aceito por bem ou por mal.

A Europa enfrenta uma crise de refugiados como não via desde a Segunda Guerra Mundial e recebeu mais ou menos o mesmo número de refugiados que o pequeno Líbano. Na Turquia, são mais de 2,5 milhões.

Se a crise dos refugiados é mais um fator a colocar em cheque a União Europeia, os atentados da sexta-feira, 13 de novembro, que deixaram 130 mortos em Paris, chocaram o mundo.

Atacar um estádio de futebol, um concerto de rock e bares e restaurantes numa sexta-feira à noite em Paris é uma covardia e uma afronta à liberdade e à civilização ocidental.

Não tem outra utilidade além de fazer propaganda para tentar atrair mais recrutas e voluntários para o martírio – e colocar a França na guerra contra o terrorismo.

Na realidade, diante dos bombardeios da coalizão aérea liderada pelos Estados Unidos e da Rússia, o Estado Islâmico está na defensiva. Está perdendo territórios no Oriente Médio. Tenta se instalar na Líbia, para onde parte da liderança teria fugido.

Primeiro, é preciso retomar o território que dá ao Estado Islâmico a pretensão de se apresentar como um Estado Nacional. Quando isto acontecer, o grupo deixará de ser um Exército para ser um grupo guerrilheiro. O recurso ao terrorismo, no caso, é a arma dos fracos.

Assim, o Estado Islâmico está perdendo a guerra e espaço no Oriente Médio, e suas bases econômicas estão sob o ataque. Isso não o torna menos perigoso. Pelo contrário. Seu prestígio pode depender da realização de atentados espetaculares nas cidades mais cosmopolitas do planeta.

OLIMPÍADA
Por isso, é impossível descartar a possibilidade de um ataque à Olimpíada do Rio de Janeiro. É da natureza do terrorismo atacar os alvos mais fracos e desprotegidos, dar golpes abaixo da linha da cintura, como se diz no boxe, o chamado golpe baixo.

Em 1972, durante a Olimpíada de Munique, na Alemanha Ocidental, o grupo palestino Setembro Negro sequestrou e matou 11 atletas da delegação de Israel, no momento mais triste da história dos Jogos Olímpicos.

Não estou dizendo que vai haver um atentado, mas que pode haver. É da natureza do jihadismo não avisar para causar o maior número de mortes. No terrorismo globalizado, na “guerra santa” contra os infiéis, o agressor não se sente parte da comunidade atacada.

Sob pressão dos Estados Unidos e de outras potências mundiais que vêm aos Jogos, o Brasil acaba de aprovar uma lei antiterrorismo criticada pela própria ONU por ser muito vaga e genérica, deixando ampla margem ao Judiciário para interpretar a lei e enquadrar manifestações de protesto como terrorismo.

LUTA IDEOLÓGICA
Um dos maiores desafios da luta contra o terrorismo é a batalha por corações e mentes. O primeiro passo é negar território ao Estado Islâmico ao mesmo tempo em que se atacam as finanças do grupo. Se os voluntários do martírio saírem aí pelo mundo cometendo atentados, não basta

A maior luta é a guerra ideológica contra o jihadismo. O fundamentalismo religioso é uma releitura dos livros sagrados. No caso do islamismo, foi uma tentativa de reislamizar o mundo islâmico depois do choque do imperialismo europeu.

Sua manifestação violenta, o jihadismo, é uma guerra civil dentro do Islã sobre qual a verdadeira interpretação do Corão. É um populismo político e uma resposta violenta aos desafios da globalização e da modernidade em sociedades sem liberdade política.

Essa luta ideológica só pode ser vencida pelos próprios muçulmanos. São eles que precisam impor a interpretação do Islã como uma religião de paz isolando e negando espaço aos extremistas.

Isso nos remete à Arábia Saudita, aquele imenso buraco negro nadando em 268 bilhões de barris petróleo, que desde a crise de 1973 usa a riqueza dos petrodólares para difundir sua versão radical do islamismo, o wahabismo, que não está muito distante do salafismo do Estado Islâmico.

Essa identidade comum faz com que muitos príncipes e magnatas sauditas e de outras monarquias petroleiras do Golfo Pérsico financiem grupos extremistas muçulmanos.

A Arábia Saudita é um país-chave, uma monarquia medieval sem Constituição, centro do conservadorismo no mundo árabe. É difícil imaginar qualquer mudança profunda, e o Ocidente não vai pressioná-la. O temor é que uma mudança possa levar a um governo extremista no maior produtor mundial de petróleo.

Como não há expectativa de uma solução em breve para os problemas do Oriente Médio, ao contrário, há um conflito crescente entre sunitas e xiitas, será preciso conviver com o jihadismo por pelo menos mais uma década, talvez mais.

DESEMPREGO
A estimativa é que faltam cem milhões de empregos no mundo árabe. Com as guerras, a situação econômica não vai melhorar.

O desemprego é um dos grandes desafios da globalização. O Oriente Médio tem dinheiro de sobra, mas grande parte está no exterior para escapar da instabilidade política da região.

Diante da crise permanente e dos desafios da modernidade, uma parte da classe média urbana olha para o Ocidente, o pessoal que fez a revolução no Egito, mas, sobretudo nos países do Golfo, parte de juventude procura soluções num suposto purismo perdido do Islã. E os moradores do interior apoiam o islamismo politico.

MOTIVAÇÃO
O que motiva os jovens a aderir a uma ideologia assassina? No Oriente Médio, o desejo de ser alguém na vida ou na morte. Para um jovem desempregado e ignorante, sem qualificação profissional nem futuro, sem dinheiro para casar e ter uma família, o Estado Islâmico oferece um salário de US$ 400 por mês, armas, mulheres e poder.

Mas o que motiva 30 mil jovens do resto do mundo a aderir ao Estado Islâmico?

Primeiro, o aventureirismo próprio dos jovens. Em segundo lugar, há o sonho de um paraíso ideológico onde o “verdadeiro Islã” seria praticado com rigor 24 horas por dia, uma sociedade modelar. Quem esteve lá, especialmente as mulheres, sofreu na carne a violência terrorista do Estado Islâmico.

Há um ensaio acadêmico feito por dois psicólogos do FBI publicado na revista Violence and Gender (Violência e Gênero) sobre os traumas de mulheres submetidas à escravidão sexual pelo Estado Islâmico, estupradas regularmente e vendidas por um cacho de bananas.

A revista Dabiq, a publicação em inglês do Estado Islâmico, justificou a escravidão sexual alegando que há um hádice (leis, ditos e histórias da vida de Maomé reunidas na Suna) que diz que “a redenção virá quando um herói nascer do ventre de uma escrava”. Assim, sem escravas sexuais, não haverá redentor.

Por fim, o terceiro motiva que leva os jovens a aderir ao terrorismo é o desejo de matar, o mais primitivo dos instintos animais.

O Estado Islâmico é uma seita milenarista que sonha com uma batalha épica contra os cruzados na cidade de Dabiq, no Norte da Síria. Por isso, tenta atrair o Ocidente para sua guerra. Os diferentes interesses dos países vizinhos que alimentam o conflito na Síria não permitem uma união para derrotar os jihadistas.

CRISE DO PETRÓLEO
Nossa primeira sensação, aqui à distância, é imaginar que não passa de um bando de fanáticos matando uns aos outros. Mas a história econômica do Brasil nos lembra que foi uma guerra no Oriente Médio, a Guerra do Yom Kippur, que levou ao boicote árabe à venda de petróleo ao Ocidente, em 1973, que causou a primeira crise do petróleo.

O barril custava 2, 3 dólares. Eu botava cinco cruzeiros num fusquinha com os amigos e rodava a noite inteira. O barril logo subiu para US$ 12 e o modelo econômico da ditadura militar, baseado em energia e mão de obra baratas, afundou.

A taxa de crescimento tinha chegado a 14% ao ano “milagre econômica” da ditadura militar. Com a alta no petróleo, o Brasil enfrentou inflação e crise na balança de pagamentos que se acumularam até a crise da dívida em 1982. Caiu a ditadura em 1985, Sarney decretou a moratória em 1987 e a inflação só caiu com o Plano Real, a partir de 1994. Mas o Brasil nunca mais retomou a média do crescimento histórico do pós-guerra, de 7% a 8% ao ano.

Cada guerra no Oriente Médio pesava no bolso na hora de encher o tanque. Hoje o petróleo está em queda livre. É um sinal de fraqueza da economia mundial. Há um excesso de oferta, com graves prejuízos aos países dependentes das exportações.

OPORTUNIDADES
Voltando à globalização, os países que mais crescem e se desenvolvem no mundo são aqueles que aproveitam as oportunidades oferecidas pela economia internacional: Japão, Coreia do Sul, China, Cingapura.

O capitalismo venceu a Guerra Fria e a questão é se queremos ou não capital estrangeiro. A experiência desses países mostra que o capital estrangeiro é útil na estrada para o desenvolvimento.

A globalização cria tremendas oportunidades, mas ao mesmo tempo traz riscos para setores obsoletos e para os empregos, ameaçados pela corrida tecnológica e pela desterritorialização. Nos EUA, robôs e computadores vão acabar com 47% dos empregos existentes hoje. Para ser competitivo, é preciso usar a última tecnologia, o que significa substituir homens por máquinas.

A globalização nos deu Elvis Presley, os Beatles e os Rolling Sones, mas traz a crise financeira internacional, a zika e a ameaça do Estado Islâmico.

SUBCLASSE
O maior problema da globalização e o maior risco para a segurança hoje é o surgimento de uma subclasse social de excluídos, de pessoas inempregáveis por falta de educação e qualificação. É dessa massa de deserdados que se aproveitam as organizações criminosas para recrutar soldados do tráfico e o Estado Islâmico para recrutar voluntários para o martírio. É essa turma que assalta e mata.

O grande centro de radicalização de muçulmanos na França hoje não é mais a mesquita. É a prisão.

A inclusão social de culturas estrangeiras é outro desafio do mundo globalizado. Para terminar com uma nota otimista, neste sentido, o Brasil sempre recebeu estrangeiros e deu oportunidades, com muita luta.

Muitos de vocês provavelmente tem sobrenomes italianos, alemães, poloneses, espanhóis, portugueses, podem ter origem africana ou asiática... mas somos todos brasileiros e se houver estrangeiros, vocês são brasileiros honorários enquanto morarem aqui. Vocês venceram. Bem-vindos à universidade.

* (Aula inaugural proferida em 2 de março de 2016 na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O que é terrorismo?*

Conceito de terrorismo. Não existe uma definição acadêmica universalmente aceita. Em uma definição provisória, o terrorismo é o ataque indiscriminado, geralmente uma série de ataques, contra civis inocentes escolhidos ao acaso para quebrar a fibra moral do inimigo. As formas mais comuns de terrorismo são assassinatos seletivos ou em massa, sequestros, a explosão de bombas e o envenenamento com agentes químicos ou biológicos.

O que caracteriza o terrorismo fundamentalmente, na minha opinião, é a ilegitimidade do alvo. Quando é legítimo usar a força? Por princípio básico das sociedades democráticas, só em legítima defesa. O uso da força é monopólio do Estado, exercido através da polícia para segurança interna e das Forças Armadas para defesa contra agentes externos.

Soldados de uma força de ocupação podem ser considerados alvos legítimos, mas ônibus, bares, restaurantes, estações de trem ou ônibus, aeroportos, aviões, escolas e ônibus escolares certamente não são. O problema está nos casos mais complexos: um empresário que financia grupos paramilitares que agem como esquadrões da morte é um alvo legítimo?

Quando o presidente George W. Bush declarou guerra ao terrorismo, logo apareceram especialistas em questões militares para dizer que não pode haver guerra contra o terrorismo porque o terrorismo é uma tática de guerra, não é um inimigo em si.  Como tática de guerra, provavelmente o terrorismo seja tão antigo quanto o homem, fruto de sua própria natureza animal e das feras que enfrentava para sobreviver.

Na história, há inúmeros crimes de guerra e atrocidades que podem ser enquadrados no conceito moderno de terrorismo, que certamente não existia na Antiguidade e na Idade Média, quando essas táticas de guerra eram consideradas normais. As leis da guerra são fruto da modernidade.

Gengis Khan, um dos maiores generais de todos os tempos, arrasou Herat, que hoje fica no Afeganistão porque um sobrinho que escolhera como herdeiro foi morto num ataque à cidade. De uma população estimada em 150 mil, sobraram 60 pessoas.

Ivã, o Terrível, czar da Rússia (1547-84), certamente era um terrorista. Paranoico, criou a primeira polícia política russa.

Mas o terrorismo político, o uso consciente e planejado do terror como arma política, começa na segunda fase da Revolução Francesa, o Período do Terror ou da Convenção (1792-95), quando o Comitê de Salvação Nacional mandou para a guilhotina milhares de pessoas, a começar pelo rei e a rainha da França.

Dos principais líderes daquele período da Revolução Francesa, Jean-Paul Marat foi assassinado no banho por sua amante Charlotte Corday, e Jean-Jacques Danton e Maximiliano Robespierre foram guilhotinados.

A revolução devorava seus próprios filhos.

Já a guilhotina tinha aquele sentido de ser uma máquina de matar científica. Seu inventor, Monsieur Guillotin, foi guilhotinado.

Nas execuções na forca e na degola, às vezes o condenado não morria logo. Era preciso criar uma maneira eficiente de matar porque a revolução tinha de matar muita gente. Tinha aquela ideia do banho de sangue purificador que varreria da terra a velha ordem e seus representantes para a construção de um mundo novo.

O terror era um instrumento fundamental para destruir as antigas estruturas. O terrorismo político, portanto, começou como terrorismo de Estado. E todas as revoluções violentas seguiram a fórmula.

No século 19, o terrorismo se tornou endêmico na região dos Bálcãs, onde nos anos 1990s se revelou um fator central nas guerras que destruíram a Iugoslávia.

No século 20, virou um instrumento importante do arsenal de grupos guerrilheiros e movimentos de libertação nacional. Durante todo este tempo, foi amplamente utilizado por Estados Nacionais e suas polícias políticas. Adolf Hitler e Josef Stalin foram os maiores terroristas da história, com Mao Tsé-tung logo atrás.

O que assistimos perplexos em 11 de setembro de 2001 foi a globalização do terrorismo. Desde 1945, havia majoritariamente atos terroristas em conflitos internos como guerras de libertação nacional, caso dos palestinos, da Irlanda do Norte, da ETA, dos grupos guerrilheiros e dos paramilitares da América Latina, da guerra civil libanesa (1975-90) para citar alguns exemplos importantes que marcaram a memória de que viveu nas décadas de 1960, 70 e 80.

No Oriente Médio, o terrorismo é endêmico. Todos os Estados e todos os grupos armados da região podem ser acusados de alguma forma de terrorismo.

Em 11 de setembro, os terroristas levaram o conflito do Oriente Médio para o coração da maior potência que o mundo jamais viu. Desfecharam um violento golpe de profundas implicações para a imagem e a autoimagem dos EUA. A destruição da imagem que uma sociedade tem de si mesma é um objetivo central do terrorismo.

Esse golpe sem precedentes só foi possível porque os terroristas da rede Al Caeda usaram as tecnologias modernas da era da globalização para atacar Nova York, o maior símbolo desta globalização. Usaram o avião a jato e a Internet, ao lado de facas simples de cortar caixas de papelão.

O aspecto simbólico é uma das características centrais do terrorismo. As ações terroristas precisam ser vistas. Precisam ter um impacto midiático para espalhar o terror, paralisar o inimigo pela supresa e pelo medo, e mobilizar voluntários dispostos a morrer como heróis em nome da causa (aspecto instrumental) e da glória (aspecto simbólico).

É um elemento importante na guerra da quarta geração. A bomba atômica acabou com a guerra convencional, que desde então é travada sobretudo nos quintais do mundo.

Durante a Guerra Fria, as superpotências travaram diversos conflitos indiretos em todo o mundo. No degelo da era Gorbachev, houve inúmeros acordos de paz, na América Latina, na África e na Ásia para acabar com essas guerras.

Depois do fim da Guerra Fria, a maioria das guerras se enquadra no conceito de guerra assimétrica, travada por um grupo irregular sem condições para enfrentar o inimigo, geralmente um Estado Nacional, em campo aberto numa guerra tradicional.

A guerra assimétrica borra as fronteiras entre civis e militares, entre guerra e política. Costuma ser um conflito de baixa intensidade, longo e com causas sociais profundas. É uma guerra de atrito, uma guerra de desgaste. O terrorismo é a tática mais comum, entre outras táticas de guerrilha.

Quando o comandante do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos EUA, Mike Mullen, declarou em 2009 que os EUA não estavam ganhando a guerra no Afeganistão, a conclusão é que estão perdendo. Porque os talebã tem todo o tempo do mundo, estão lutando em casa; os americanos é que precisam concluir a missão e voltar para casa.

Com o jihadismo, há uma transnacionalização que torna o terreno da guerra mais amplo e difuso. Há um ataque direto à cultura, ao sistema político do inimigo, em que a guerra psicológica é fundamental. Ela vai da manipulação da mídia ao terrorismo para conquistar ou aterrorizar corações e mentes.

A guerra, nas palavras do sociólogo canadense Marshall McLuhan, é a educação compulsória do inimigo, a tentativa de obrigá-lo a fazer o que a gente quer.

Como dizia Nelson Rodrigues, todo idiota sempre encontra uma boa causa que o justifique. Em nome desta causa, todos os métodos de pressão são considerados válidos por grupos extremistas, políticos, econômicos, sociais e militares. Mas nem sempre são legítimos.

* (Palestra proferida no 2º Congresso de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado Maior do Exército, em 09/07/2009)