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terça-feira, 1 de abril de 2025

Condenação de Le Pen é exemplo para Brasil e EUA

A líder da extrema direita na França, Marine Le Pen, foi condenada ontem a quatro anos de prisão, sendo dois em regime fechado, multa de 100 mil euros e cinco anos de inelegibilidade por desviar 4,4 milhões de euros de fundos do Parlamento Europeu para usar na política francesa. Outros 21 membros da seu partido, a Reunião ou Reagrupamento Nacional (RN), também foram punidos.

Em entrevista à televisão francesa TF1, Marine Le Pen protestou, alegando que foi um "julgamento político" típico de regime autoritários para afastá-la da eleição presidencial de 2027. No momento, ela lidera as pesquisas. Ela pode recorrer, mas a pena de inelegibilidade é de cumprimento imediato. 

O Tribunal de Recursos de Paris prometeu tomar uma decisão no verão de 2026, bem antes da eleição. Se perder, como último recurso, Le Pen pode apelar ao Tribunal Constitucional com o argumento de que a decisão viola os direitos do eleitorado francês.

Vários líderes de extrema direita, entre eles o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, o bilionário sul-africano-norte-americano Elon Musk, o homem mais rico do mundo, e o porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov, criticaram a sentença.

Le Pen adotou a mesma postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em vez de apresentar argumentos de defesa, atacou a Justiça. A França dá um exemplo ao Brasil e aos EUA de como tratar esses extremistas num momento de ascensão do neofascismo em escala global.

domingo, 9 de junho de 2024

Extrema direita avança nas eleições para o Parlamento Europeu

 Os partidos tradicionais mantêm o controle sobre o Parlamento Europeu pelos próximos cinco anos, apesar do avanço da extrema direita nas eleições iniciadas na quinta-feira. Os resultados preliminares foram anunciados neste domingo. 

A ultradireita venceu na França e na Áustria, ficou em segundo na Alemanha e consolidou a posição da primeira-ministra Giorgia Meloni na Itália. Deve ter pelo menos 169 das 720 cadeiras, mais de um quarto.

A presidente da Comissão Europeia, o órgão executivo da União Europeia, a alemã Ursula von der Leyen, saudou a vitória dos partidos de centro, mas o centro de gravidade do Parlamento Europeu se moveu para a direita.

Na França, a Reunião Nacional, liderada por Marine Le Pen e nesta eleição por Jordan Bardella, ganhou com 31,5% dos votos, derrotando o partido Renascença, do presidente Emmanuel Macron, de centro-direita, que teve 14,6% dos votos, e o Partido Socialista, que chegou 13,8% com o Raphael Gluksmann como líder da lista de candidatos a eurodeputado.

Diante da derrota, o presidente francês dissolveu a Assembleia Nacional convocou eleições legislativas antecipadas para 30 de junho e 7 de julho, sob o argumento de que "a França precisa de uma maioria clara". O governo não tem maioria na Assembleia Nacional desde as eleições de 2022.

A direita conservadora venceu na Alemanha com 30,3% dos votos para a aliança entre a União Democrata-Cristã (CDU) e a União Social-Cristã (CSU), que terá 29 eurodeputados. A Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema direita, ficou em segundo lugar com 15,6% e 15 cadeiras, à frente dos partidos do governo. É forte especialmente na antiga Alemanha Oriental. 

Entre os governistas, o Partido Social-Democrata (SPD), do primeiro-ministro Olaf Scholz, teve 14,6% dos votos e terá 14 eurodeputados. Os Verdes ficaram com 12% e 12 cadeiras, e o Partido Liberal-Democrata (FDP) com 5,3% e 5 cadeiras.

Os Irmãos da Itália (FdI), partido da primeira-ministra da extrema direita Giorgia Meloni, ganhou na Itália com 28,6% dos votos e levou 24 cadeiras, batendo o Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, o maior da oposição, com 25,6% dos votos e 22 deputados. 

O Movimento 5 Estrelas (M5E), anarquista, ficou em terceiro, com 9,7% e 8 deputados e a Liga, também de extrema direita, foi o quarto partido mais votado, com 8,8% e 8 deputados. Perdeu 14 cadeiras, enquanto os Irmãos da Itália ganharam 14 deputados.

Na Espanha, o conservador Partido Popular (PP) teve 34% dos votos elegeu 22 eurodeputados e o Partido Socialista Operário Espanhol 30% recebeu 30% dos votos e conquistou 20 cadeiras; 64% dos espanhóis são europeístas. O partido de extrema direita Vox teve 9,6% dos votos e elegeu 6 eurodeputados. Um novo partido de extrema direita, Se Acabó la Fiesta (A Festa Acabou) elegeu mais três.

Uma observação importante é que a extrema direita não trabalha unida no Parlamento Europeu. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, se aproximou da presidente da Comissão Europeia, da CDU alemã, que faz parte do Partido Popular Europeu, o maior bloco do parlamento, com 184 deputados, que reúne partidos da direita tradicional, conservadores e democratas-cristãos.

Meloni não faz parte do bloco Identidade e Democracia, liderado por Le Pen, nem do bloco dos Conservadores e Reformistas Europeus. Le Pen se afasta da AfD. Então, apesar do crescimento, a ultradireita ainda não se entendeu para atuar em conjunto.

A UE sofreu desde a crise financeira internacional de 2008 com a Crise do Euro, um aumento da imigração por causa das guerras no Oriente Médio e na África, e com a guerra da Rússia contra a Ucrânia. A necessidade de socorrer economias em crise, a rejeição aos imigrantes e os bilhões de euros dados à Ucrânia alimentam a ascensão da extrema direita, que também recebeu o apoio da máquina de propaganda e notícias falsas do Kremlin.

domingo, 24 de abril de 2022

Macron é reeleito com vantagem maior do que prevista

 Mais uma vez, a ameaça da extrema direita na França não passou de ameaça. O presidente Emmanuel Macron foi reeleito com 58,5% dos votos válidos contra 41,5% da candidata neofascista Marine Le Pen, que avançou sete pontos percentuais em relação ao segundo turno da eleição presidencial de 2017. A abstenção, de 28,2%, ficou abaixo da expectativa, mas é a maior desde 1969.

Ao reconhecer a derrota, Marine Le Pen, da Reunião Nacional (RN) se felicitou pelo resultado que, nas suas palavras, "representa uma vitória estrondosa". Mas seu adversário na disputa pelos votos da ultradireita no primeiro turno, Eric Zemmour, declarou que é "a oitava vez que a derrota atinge o nome Le Pen", numa referência que inclui Jean-Marie Le Pen, pai de Marine, fundador da Frente Nacional (FN).

O terceiro colocado no primeiro turno, com surpreendentes 21,95% dos votos, o esquerdista radical Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa, afirmou que "Emmanuel Macron é o presidente mais mal eleito da 5ª República". Ele fez um apelo aos eleitores para votar na esquerda nas eleições parlamentares de 12 e 19 de junho e assim torná-lo primeiro-ministro.

Leia mais em Quarentena News.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Macron vence primeiro turno e recria frente republicana

A esquerda, a direita e o centro prometerem recriar a frente republicana que reelegeu o presidente conservador Jacques Chirac em 2002, depois da surpreendente chegada do neofascista Jean-Marie Le Pen ao segundo turno da eleição presidencial na França, superando o então primeiro-ministro socialista Lionel Jospin. A mesma aliança, que também se forma em eleições municipais e regionais, elegeu Emmanuel Macron em 2017, derrotando Marine Le Pen, herdeira política do pai, com folga, por 66% a 34%. 

Vinte anos depois, a extrema direita está mais perto do que nunca de conquistar o Palácio do Eliseu. As pesquisas sobre o segundo turno, a ser realizado em 24 de abril, dão uma vantagem de 51% a 54% para Macron sobre Le Pen, algumas com empate técnico dentro da margem de erro. O atual presidente deixou claro: "Que ninguém se engane. O jogo não terminou.” 

Os exemplos da história recente estão aí. Não se esperava que os britânicos votassem a favor da saída da União Europeia (UE) em 23 de junho de 2016, nem que Donald Trump seria eleito presidente dos Estados Unidos em 8 de novembro do mesmo ano. 

Macron, do partido A República em Marcha (LRM), venceu o primeiro turno com 27,6%, mais do que indicavam as últimas pesquisas, seguido de Le Pen, da Reunião Nacional (RN), com 23,41%. Ambos tiveram mais votos do que no primeiro turno em 2017, quando tiveram, respectivamente, 24% e 21%. 

Le Pen moderou o discurso, desistiu de abandonar o euro, mudou o nome do partido, percorreu o país em campanha, enquanto Macron se concentrava na Guerra da Ucrânia, e calibrou um discurso em torno das questões que mais afligem o cidadão comum: custo de vida, inflação, desemprego, saúde, habitação e aposentadoria, além do discurso ultranacionalista anti-imigrantes da extrema direita. Trocou o antissemitismo do pai pela islamofobia. 

Um ponto fraco é a relação com o ditador russo, Vladimir Putin, que conseguiu um empréstimo de 9 milhões de euros de um banco russo ao partido para as eleições municipais de 2014.

Em terceiro, com 21,95% dos votos, ficou o esquerdista radical Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa (LFI). Ele moderou o discurso e, com a guerra, passou a atacar o ditador russo Vladimir Putin para captar o voto útil da esquerda – e conseguiu. Faltou pouco para tirar a extrema direita do segundo turno. Para os militantes, foi um terceiro lugar com gosto de vitória.

Juntos, os três primeiros tiveram 73% dos votos válidos, tornando irrelevantes os partidos que dominaram a política francesa na 5ª República. Leia mais em Quarentena News.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Partidos tradicionais confirmam vitória nas eleições regionais na França

Quatro anos de ficar fora do segundo turno da eleição presidencial, os partidos tradicionais de direita e de esquerda venceram o segundo turno das eleições regionais e departamentais na França. A Reunião Nacional (RN), de extrema direita, liderada por Marine Le Pen, não conquistou nenhuma região nem A República em Marcha (LRM), do presidente Emmanuel Macron, de centro-direita.

Com uma abstenção de 65,7% ontem, depois dos 66,7% no primeiro turno, no domingo da semana passada, é cedo para tirar conclusões a eleição presidencial de 2022, marcada para 10 e 24 de abril. Mas parece evidente que os lugares de Macron e Le Pen não estão garantidos no segundo turno. Não deve ser uma repetição do segundo turno de 2017, quando o atual presidente venceu por 66% a 34%.

Le Pen responsabilizou a abstenção e Macron deve tentar rearticular seu partido com uma reforma ministerial. As reformas econômicas que prometeu são impopulares. Devem ser adiadas. Ambas as candidaturas estão abaladas.

A direita republicana, que exclui a extrema direita, conquistou sete regiões e reelegeu seus principais líderes, como Xavier Bertrand, Laurent Wauquiez e Valérie Pécresse, governadora da Ilha da França, onde fica Paris. 

Nas eleições para as 95 câmaras departamentais, cinco viraram à direita e dois à esquerda. A direita garantiu a vitória em pelo menos 64 e a extrema direita perdeu 21 dos 35 departamentos que governava. O Partido Comunista Francês perdeu no Vale do Marne, o único que controlava.

"Hoje os extremos recuaram uma longa distância em nossa região porque não lhes deixamos espaço para operar", festejou o governador reeleito da região de Auvérnia-Ródano-Alpes, no Sudeste da França. Laurent Wauquiez é do tradicional partido gaullista, conservador, de direita, que hoje se chama Os Republicanos (LR).

Xavier Bertrand, governador reeleito da região dos Altos da França (Norte), do mesmo partido, anunciou a intenção de disputar o Palácio do Eliseu com Macron e Le Pen. 

É o partido dos presidentes Charles de Gaulle (1959-69), Georges Pompidou (1969-74), Jacques Chirac (1995-2007) e Nicolas Sarkozy (2007-12). Seu candidato em 2017, o ex-primeiro-ministro François Fillon, perdeu a vaga no segundo turno por causa de um escândalo de corrupção e abriu um flanco à direita para Macron atrair votos. Isto não vai se repetir no próximo ano.

A União de Esquerda, liderada pelo Partido Socialista (PS), ganhou em cinco regiões da França Metropolitana em aliança com Europa Ecologia-Os Verdes (EELV), na Guiana Francesa e na Ilha a Reunião. O resultado deixa claro que há espaço para uma coalizão verde-rosa entre a esquerda tradicional e os ecologistas se conseguirem chegar a um candidato de consenso.

Os conselhos regionais tem competência limitada para atuar no desenvolvimento regional, transportes intrarregional e ensino médio.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Macron e Le Pen perdem em eleições na França com grande abstenção

 A abstenção de 66,7% e os partidos tradicionais foram os grandes vencedores no primeiro turno das eleições regionais na França, realizadas neste domingo. 

A Reunião Nacional (RN), de extrema direita, liderada por Marine Le Pen, recuou nove pontos percentuais m relação às eleições anteriores. Saiu na frente em apenas uma das 13 regiões. A República em Marcha (LRM), do presidente Emmanuel Macron, de centro-direita, ficou em quinto com 11% e não lidera em lugar algum. 

Tudo indica que Macron e Le Pen não devem repetir o duelo do segundo turno da eleição presidencial de 2022, quando o presidente conquistou 66% dos votos e a líder da extrema direita, 34%. Ambos saem mais fracos e a juventude desiludida. Entre os jovens de 18 a 24 anos, a abstenção chegou a impressionantes 87%.

O grande vitorioso foi o partido conservador Os Republicanos (LR), de direita, herdeiro das ideias do general Charles de Gaulle, líder da França no exílio durante a Segunda Guerra Mundial. É o partido que mais governou o país no pós-guerra, com De Gaulle (1959-69), Georges Pompidou (1969-74), Jacques Chirac (1995-2007) e Nicolas Sarkozy (2007-12).

Com 28% dos votos, LR ganharam em seis regiões no primeiro turno, inclusive na Ilha da França, onde fica Paris. A aliança esquerda-verdes lidera em cinco regiões.

Somando os 16% da União de Esquerda liderada pelo Partido Socialista (PS) com os 13% do partido Europa Ecologia-Os Verdes (EELV), a aliança teve mais votos do que a direita republicana, o que lhes dá esperança de disputar o Palácio do Eliseu, se chegar a um candidato de consenso.

"A esquerda é a maior força política do país, à frente da direita e da extrema direita", festejou o primeiro-secretário do PS, Olivier Faure. "No seio do bloco de esquerda, o PS é a grande força motriz."

Os ecologistas também celebraram o resultado: "Estamos progredindo. Dobramos nossa votação em relação [às eleições regionais de] 2015", declarou Yannick Jadot, possível candidato verde à eleição presidencial de abril e maio do próximo ano.

Para o presidente Macron, foi mais um fracasso na tentativa de criar raízes locais para seu partido. Ele foi eleito em 2017 porque um escândalo de abalou a candidatura de direita do ex-primeiro-ministro François Fillon. Macron recebeu os votos da direita e alguns de centro-esquerda por ter sido ministro das Finanças do presidente socialista François Hollande. Isto não vai se repetir em 2022.

No poder, Macron nomeou um primeiro-ministro direitista, Edouard Philippe, do LR, que demitiu depois das eleições municipais, talvez temendo-o como adversário. Philippe seria um candidato formidável, mas disse que não concorrerá contra Macron.

Diante do enfraquecimento de sua candidatura, o presidente deve evitar fazer reformas impopulares para reduzir o déficit orçamentário, de 10,5% do produto interno bruto e a dívida pública, de 117% do PIB. Deve se concentrar em programas de estímulo apostando na retomada da economia para aumentar suas chances eleitorais. 

Macron tem pouco espaço fiscal para isso, especialmente se o Banco Central Europeu (BCE) parar de comprar títulos da dívida pública dos países da Zona do Euro, como cobra o presidente do Bundesbank, o banco central da Alemanha, Jens Weidmann.

As assembleias regionais são responsáveis pelo desenvolvimento regional, o transporte dentro da região e as escolas secundárias. Agora estão em curso as negociações para formar alianças para o segundo turno, a ser disputado no próximo domingo. Geralmente, os partidos se dividem entre direita e esquerda, ou todos se juntam contra a extrema direita, considerada antidemocrática.

O primeiro-ministro Jean Castex fez um apelo aos franceses para que votem em 27 de junho porque "quando a abstenção vence, perde a democracia". A imprensa francesa vê uma crise da democracia. O voto facultativo e a pandemia não seriam suficientes para explicar o desânimo dos franceses com o sistema político.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Extrema direita da França muda de Frente para Reunião Nacional

Com a aprovação de 81% dos partidários, que votaram pelo correio, a Frente Nacional, grande partido de extrema direita da França, mudou hoje de nome para Reunião Nacional, anunciou sua líder, Marine Le Pen, derrotada pelo presidente Emmanuel Macron no segundo turno da eleição presidencial de 2017.

"A obra de refundação que estamos empreendendo se persegue mais do que nunca", afirmou a líder neofascista em discurso em Lyon, a terceira maior cidade francesa, anunciando "uma grande mutação estratégica, técnica e política", noticiou o jornal francês Le Monde.

Esta mudança de nome, acrescentou Marine, "fecha um capítulo da história de nosso movimento nacional iniciada há pouco mais de 45, mas é para abrir outro que, creio, não será menos glorioso". Ela saudou "os povos europeus que se rebelam", numa referência aos partidos populistas que acabam de formar o novo governo da Itália.

"Queremos nos juntar a todos esses movimentos que querem mudar a Europa", declarou Marine Le Pen.

Na realidade, a mudança tenta tirar o estigma da FN, historicamente isolada pelos partidos considerados "republicanos" em todas as alianças de segundo turno. Em março, em Lille, durante o congresso do partido, a líder admitiu que "este nome, Frente Nacional, é portador de uma história épica e gloriosa que ninguém pode negar. Mas, vocês sabem, para muitos franceses é um freio psicológico."

O fundador do partido e pai de Marine, Jean-Marie Le Pen, reagiu furiosamente à mudança de nome: "A vergonhosa remoção de sua identidade é o golpe mais rude que a Frente Nacional já recebeu desde sua fundação. Condeno seus inspiradores e executores. Mais do que uma etiqueta, é também uma longa e corajosa história militante que estão negando."

quinta-feira, 29 de março de 2018

França marcha contra o antissemitismo

Milhares de pessoas marcharam ontem da Praça da Nação, em Paris, até o edifício onde vivia Mireille Knoll, uma sobrevivente do Holocausto de 85 anos, brutalmente assassinada a facadas na semana passada. Os líderes da extrema direita, Marine Le Pen, e da extrema esquerda, Jean-Luc Mélenchon, foram vaiados e obrigados a deixar a manifestação de protesto contra o antissemitismo.

A morte reabriu o debate sobre o renitente antissemitismo francês, "um antissemitismo que permanece, que se transforma, que reaparece, que é mutante", deplorou o primeiro-ministro Edouard Philippe.

O presidente Emmanuel Macron foi ao enterro e comparou o "terrorista de Trèbes", que matou quatro pessoas, e com quem "assassinou uma mulher inocente e vulnerável porque era judia." Ontem, o policial morto por um muçulmano fanático em Trèbes, Arnaud Beltrame, foi homenageado como herói nacional no Hotel dos Inválidos, onde fica o túmulo de Napoleão Bonaparte.

Mireille escapou por pouco de ir para o Velódromo de Inverno de Paris, para onde foram levadas mais de 13 mil pessoas, em 16 e 17 de julho de 1942, enviadas depois para campos de concentração pelo regime colaboracionista de Vichy, o governo-fantoche da França durante a ocupação pela Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial (1939-45).

Durante a campanha eleitoral do ano passado, Marine Le Pen, da Frente Nacional, tentou negar a responsabilidade dos franceses pelo caso do Velódromo de Inverno, botando a culpa nos alemães nazistas. A aliança França Insubmissa, de Mélenchon, apoia o movimento BDS (boicote, desinvestimento e sanções), acusado de ser contra a existência de Israel e não apenas da ocupação de territórios árabes.

Por isso, o Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França (CRIF) não convidou os dois líderes extremistas para a Marcha Branca, alegando que difundem um discurso de ódio. O pai de Marine, Jean-Marie Le Pen, foi alvo do CRIF no passado, quando tentou negar a importância das câmaras de gás no genocídio dos judeus na guerra

"Ela sobreviveu ao Holocausto no século passado e penso que teve uma vida feliz, mas foi morta dentro de casa em 2018, frágil, sem defesa", contou a acompanhante Leila Dessante. "Que mundo é esse em que estamos vivendo?"

Seu corpo estava parcialmente queimado depois de receber 12 facadas. Os assassinos tentaram tocar fogo no apartamento. Dois suspeitos, Yacine M., de 27 anos, e Alex C., de 21, foram detidos, interrogados e soltos pela polícia. Yacine era um vizinho que frequentava o apartamento de Mireille. Alex, um amigo dele sem teto.

Yacine foi condenado em março de 2017 a dois anos de prisão por agressão sexual contra a filha da acompanhante da vítima. Saiu da cadeia em setembro graças a uma suspensão da pena. Ele estava em liberdade condicional, proibido de se aproximar do edifício de Mireille Knoll.

Alex saiu da cadeia em janeiro depois de ficar quase um ano preso por pequenos furtos e danos a propriedade alheia. O sem-teto declarou que o vizinho teria dito "Alá é grande!" na hora do ataque, num sinal de que seria terrorista muçulmano, mas os depoimentos foram contraditórios.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Líder da oposição lança campanha de boicote à eleição na Rússia

O resultado das eleições na Rússia sempre se sabe de antemão: ganha o candidato do Kremlin. Para denunciar a farsa da reeleição de Vladimir Putin em 18 de março de 2018, o principal líder da oposição, o advogado Alexei Navalny, impedido de concorrer, lançou uma campanha de boicote ao pleito e foi preso durante uma manifestação "ilegal".

Hoje centenas de jovens se reuniram no porto de Vladivostok, no extremo leste da Rússia, no Oceano Pacífico para protestar contra a fraude eleitoral de Putin. Houve manifestações em 118 cidades russas, inclusive Novossibirsk, Kurgan, Omsk, Magadan, Kemerovo e Yakutsk.

"Irei votar nas eleições quando houver uma escolha", dizia um dos cartazes em Vlaidvostok. "Putin está engolindo o futuro da Rússia."

Navalny mandou uma mensagem gravada em vídeo: "Sua própria vida está em jogo. Quanto anos mais você quer viver com estes ladrões, vermes e fanfarrões?" Ele foi proibido de registrar a candidatura em dezembro por ter sido condenado num processo com acusações forjadas.

Em Moscou, a polícia reprimiu a manifestação com violência. Navalny foi preso.

Putin domina a política da Rússia desde o ano 2000. Ele acabou com várias medidas democratizantes introduzidas depois do fim da União Soviética, em 1991. Não há mais eleições diretas para governador das 85 unidades administrativas da Federação Russa, sob o pretexto de não estimular o separatismo.

A censura e a repressão atingem a Internet, os meios de comunicação, as organizações não governamentais e qualquer movimento liberal em defesa da liberdade de expressão e de minorias como os homossexuais, acusados de fazer o jogo das potências ocidentais.

Em 2014, Putin anexou ilegalmente a península da Crimeia, que pertencia à Ucrânia, e fomentou um movimento separatista no Leste da Ucrânia. Sob pressão de sanções internacionais, passou a hostilizar abertamente o Ocidente e a interferir em eleições em países democráticos. Os exemplos mais notórios foram o apoio a Donald Trump nos Estados Unidos e a Marine Le Pen na França.

Ao mesmo tempo, aproveitando a hesitação do governo Barack Obama em relação à guerra civil na Síria, interveio militarmente e voltou a tornar a Rússia numa grande potência no Oriente Médio.

Mesmo que fosse candidato, de acordo com as pesquisas, Navalny teria poucas chances de vencer Putin, que mobiliza a poderosa máquina estatal, os empresários amigos do poder e os meios de comunicação em seu favor. Assim, o candidato do Kremlin ganha todas.

domingo, 7 de maio de 2017

Emmanuel Macron é o presidente mais jovem da história da França

Com mais de 65% dos votos, o ex-ministro da Economia e candidato independente Emmanuel Macron foi eleito hoje aos 39 anos como o presidente mais jovem da história da França, anunciou a televisão francesa France 2 com base em pesquisas de boca de urna, derrotando a neofascista Marine Le Pen, da ultradireitista Frente Nacional. 

O general Napoleão Bonaparte coroou-se imperador em 1804 aos 34 anos, quando a Revolução Francesa de 1789 havia dizimado a classe dirigente. Desde então, a França não teve um chefe de Estado tão jovem.

No final da apuração, o centrista Macron teve 20.30.964 votos (66%) contra 10.637.120 (34%) para a ultranacionalista Marine. O índice de abstenção, de 25%, foi recorde para a 5ª República, fundada em 1958 pelo general Charles de Gaulle.

Macron é um presidente acidental. Há um ano, deixou o governo François Hollande, o mais impopular da 5ª República, e lançou seu movimento Em Marcha! de olho no Palácio do Eliseu. Mas tinha poucas chances. Jovem, preparava-se para o futuro.

Depois das eleições primárias de centro-direita e centro-esquerda, com 30% das preferências, o favorito era o ex-primeiro-ministro conservador François Fillon, do partido gaulista Os Republicanos, o mais tradicional do país, que presidiu a França com De Gaulle, Georges Pompidou, Jacques Chirac e Nikolas Sarkozy.

Quando o jornal satírico Le Canard enchainé revelou que Fillon empregara a mulher e os filhos como funcionários-fantasmas do Senado, sua candidatura desabou, mas ele se negou a sair. Ao aceitar mantê-lo, Os Republicanos deram um tiro no pé.

Fillon ainda teve 20% dos votos no primeiro turno, apenas 465 mil a menos do que Le Pen, mas boa parte do eleitorado de centro-direita migrou para o candidato independente e centrista. Macron pretende se equilibrar entre os moderados à direita e à esquerda. Seu desafio agora é conseguir maioria na Assembleia Nacional nas eleições legislativas de 11 e 18 de junho de 2017.

Uma pesquisa divulgada depois da eleição presidencial indica que 61% dos franceses não querem dar maioria absoluta ao novo presidente, que teria de formar uma coalizão entre centro, direita e esquerda moderada, um equilíbrio difícil e inédito na 5ª República.

Com a impopularidade do presidente Hollande, seu ex-primeiro-ministro Manuel Valls perdeu a eleição primária socialista para o ex-ministro da Educação Benoît Hamon, que nunca teve chance. Dentro do partido, Macron era considerado liberal demais.

O eleitorado de esquerda também migrou para o ex-ministro da Economia ou para a candidatura de ultraesquerda de Jean-Luc Mélenchon, que teve 19,58% no primeiro turno, dando apenas 6,36% dos votos a Hamon no primeiro turno.

No segundo turno, Fillon e Hamon apoiaram Macron para barrar a ascensão da Frente Nacional. Mélenchon se negou a endossar Macron. Chegou a pedir que o candidato centrista desistisse da reforma trabalhista. Foi ironizado por um humorista:

- Onde você estava quando os fascistas chegaram ao poder?

- O outro candidato ia fazer uma reforma trabalhista.

O PS, dividido pela candidatura social liberal de Macron, é o partido que mais deve perder deputados para Em Marcha! nas eleições do próximo mês.

Neste momento, ao reconhecer a derrota, Marine Le Pen agradeceu aos "11 milhões de franceses" (na verdade, 10,6 milhões) que votaram na extrema direita e declarou que a Frente Nacional é hoje a maior força de oposição da França, em defesa da segurança, da identidade nacional e da luta contra a globalização e a imigração, as grandes bandeiras do partido.

"Este segundo turno faz uma grande recomposição política em torno da clivagem entre patriotas e mundialistas", afirmou Marine, marcando posição. Mas dificilmente seu partido terá uma bancada capaz de liderar a oposição na Assembleia Nacional.

O presidente eleito fez campanha em defesa da democracia liberal, da economia de mercado, da globalização e da União Europeia, em claro contraste com as propostas isolacionistas e protecionistas dos ultranacionalistas. Sua vitória é uma derrota do neopopulismo que levou à aprovação da saída britânica da União Europeia e o magnata imobiliário Donald Trump à Casa Branca, no ano passado.

No discurso da vitória, diante da pirâmide de vidro da entrada do Museu do Louvre, Macron prometeu trabalhar para que os extremismos voltem para a margem da política francesa. Em Paris, ele teve 90% dos votos, anunciou a prefeita socialista Anne Hidalgo.

sábado, 6 de maio de 2017

Rússia é suspeita na ciberpirataria contra Macron

A advertência havia sido feita em março pelo presidente da Comissão de Inteligência do Senado dos Estados Unidos, Richard Burr: "A Rússia está ativamente envolvida na eleição na França." Quando, na sexta-feira à noite, a campanha do candidato independente e centrista Emmanuel Macron revelou ter sido alvo de uma "operação maciça" de pirataria cibernética, as principais suspeitas recaíram sobre o Kremlin.

Os documentos vazados incluem mensagens de correio eletrônico, contas e planos de campanha. Entre eles, teriam sido imiscuídos documentos falsos. A Justiça da França proibiu a divulgação das acusações a Macron, inclusive por pessoas físicas. O presidente François Hollande prometeu investigar o caso.

Um dos primeiros a divulgar os documentos foi o ativista americano da extrema direita Jack Posobiec, que divulgou várias notícias falsas em apoio à candidatura de Donald Trump nos EUA.

Desde que voltou à Presidência da Rússia, em março de 2012, depois de uma onda de protestos contra as eleições parlamentares de dezembro de 2011, o presidente Vladimir Putin iniciou uma guerra contra a democracia liberal, o Ocidente e suas instituições, especialmente a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a União Europeia (UE).

Internamente, Putin censurou a Internet, perseguiu homossexuais e ativistas dos direitos humanos. No plano externo, interveio militarmente na Ucrânia e anexou a península da Crimeia à Rússia. Como no tempo da Guerra Fria, caças-bombardeiros russos invadem o espaço aéreo de países da OTAN, da Noruega a Portugal, e reiniciaram as patrulhas perto das costas dos EUA.

Além de alimentar perigosamente uma guerrinha fria, a Rússia faz uma guerra cibernética. É a principal suspeita de ter invadido os computadores do Partido Democrata dos EUA e revelado mensagens comprometedoras prejudicando a candidatura da ex-secretária de Estado Hillary Clinton, a quem Putin responsabiliza por manifestações de protesto na Rússia.

O objetivo seria favorecer a candidatura do magnata imobiliário Donald Trump, que tem uma queda por homens-fortes e acenou com a possibilidade de melhorar as relações entre Washington e Moscou. Hoje há uma investigação no Congresso sobre os contatos da campanha de Trump com diplomatas e outros altos funcionários do governo russo.

Na França, Putin é aliado da neofascista Marine Le Pen, da Frente Nacional, que recebeu empréstimos de 8 milhões de euros de bancos russos. Marine é contra o euro e, se vencer, promete convocar um plebiscito para tirar a França da UE. Seria o fim do processo de integração da Europa, que Putin vê como nocivo aos interesses imperiais da Rússia, especialmente quando ex-repúblicas soviéticas pedem para entrar na UE.

Macron lidera com ampla vantagem. O escândalo de última hora, deflagrado quando a campanha estava oficialmente encerradas e proibidas as manifestações de candidatos e campanhas, não será capaz de reverter uma vantagem de 20 pontos percentuais ou mais.

Para a Frente Nacional, a meta é chegar a 40% do eleitorado, esperar o fracasso de Macron e se preparar para 2022.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Macron vence debate e consolida vantagem na França

Mais de 60% dos eleitores consideraram o candidato centrista e independente Emmanuel Macron o vencedor do único debate antes do segundo turno da eleição presidencial na França, marcado para este domingo, 7 de maio de 2017. 

Sua adversária, a candidata neofascista Marine Le Pen, da Frente Nacional, interrompeu-o todo o tempo, foi irônica e provocante, sem desestabilizar o favorito. As pesquisas dão uma vantagem a Macron de 60% a 40% com pequenas variações.

Com seu discurso banal de ideias simplistas, Le Pen tentou apresentar Macron como o candidato da "globalização selvagem", da submissão aos interesses estrangeiros e às "potências financeiras", prometeu fechar as fronteiras, expulsar os imigrantes ilegais e proteger o trabalhador francês da concorrência internacional.

Macron optou por passar uma imagem confiante, de quem acredita no futuro da França mas não se deixa seduzir por soluções fáceis. Ele defende reformas na lei trabalhista e na previdência para reduzir os custos de abrir uma empresa na França, combater o desemprego e facilitar o desenvolvimento do setor de alta tecnologia.

"O Sr. Macron é a escolha da mundialização selvagem, da uberização, da precariedade, da guerra de todos contra todos, da ruína econômica, notadamente de nossos grandes grupos, do desmantelamento da França, do comunitarismo", atacou a candidato neonazista.

Em desvantagem de cerca de 20 pontos nas pesquisas, Marine desatou sua fúria de candidata da raiva e da cólera: "Os franceses puderam ver o verdadeiro Macron neste segundo turno: a benevolência deu lugar à insinuação, o sorriso estudado se transformou em rito feito sob medida para o encontro, é o filho querido do sistema e das elites, a máscara caiu."

Diante da agressividade da ultradireitista, o candidato do movimento Em Marcha acusou a rival de ser "herdeira de um nome, de um partido político e de um sistema que prospera sobre a cólera dos franceses depois de tantos e tantos anos", de um partido que mente e infantiliza os eleitores e aposta na cólera e na raiva.

A seguir, argumentou que a brutalidade do discurso de Le Pen demonstra que ela "não é uma candidata no espírito da fineza, da vontade de um debate democrático, equilibrado e aberto."

Isso não afastou Marine da linha de identificar Macron com o sistema dominante e com o presidente François Hollande, o mais impopular da história recente da França: "Sr. ministro da Economia, sr. assessor de Hollande", "filho pródigo do sistema e das elites" e "Hollande júnior".

A candidata de extrema direita afirmou ainda que "ele tenta esconder que participou de um governo que aprovou a Lei Khomri, uma lei de precarização do trabalho que criou um desemprego ainda maior".

No discurso lepenista, a "filosofia" política de seu adversário se resume a "tudo se vende e tudo se compra, os homens, as lojas, você não vê relações humanas, as relações só interessam pelos dividendos que se possa tirar."

Macron contra-atacou a doutrina econômica da Frente Nacional: "Você não vai cortar nenhuma despesa, vai deixar aumentar o déficit e a dependência do mercado financeiro, seja aumentando impostos, seja aumentando a dívida que nossos filhos pagarão."

O candidato independente chamou a FN de "partido dos negócios". Le Pen acusou Macron de ter uma conta nas Bahamas, um paraíso fiscal. "É difamação", reagiu o favorito.

"A França será governada por uma mulher, por mim ou por Madame Angela Merkel", afirmou Le Pen.

Depois dos atentados dos últimos anos, o terrorismo é outro tema central da campanha eleitoral francesa. Marine chamou Macron de "complacente com o fundamentalismo islâmico". Ela propõe fechar as fronteiras e expulsar os imigrantes ilegais.

"O terrorismo e a ameaça terrorista são uma prioridade nos próximos anos", respondeu o ex-ministro da Economia. "Desde novembro de 2015, restabelecemos o controle de fronteiras e interpelamos 60 mil pessoas. O que você propõe é pó de pirlimpimpim", ironizou o centrista.

"A chave é identificar as ameaças", prosseguiu Macron. "Os terroristas não avisam quando cruzam as fronteiras. Temos a necessidade de uma cooperação maior com os países-membros da União Europeia, para poder controlar através de bancos de dados os terroristas em potencial que circulem de um território a outro, ao cruzarem fronteiras ou tomarem aviões. Você votou contra no Parlamento Europeu."

Ele declarou que "o sonho dos jihadistas é que Marine Le Pen chegue ao poder na França, porque eles querem a radicalização e a guerra civil que você oferece ao país, a armadilha da guerra civil a que eles nos tentam ao insultar os franceses e criar problemas no país."

No plano internacional, além do terorismo, os candidatos discutiram a união monetária europeia e as relações com a Rússia, financiadora da Frente Nacional.

"O euro é a moeda dos banqueiros, não é a moeda do povo" e "esta é a razão pela qual precisamos nos livrar desta moeda", disparou Marine, defensora da recriação do franco. Num período intermediário, as duas moedas coexistiriam, como de 1999 a 2002, quando o euro foi introduzido como moeda contábil mas ainda não estava em circulação.

Mais uma vez, Macron desqualificou as propostas econômica da ultradireita como voluntaristas e fora da realidade: "Uma grande empresa não poderá de um lado fazer negócios em euros e do outro pagar salários em francos. Isso jamais existiu. Minha visão é construir um euro forte e uma política europeia forte dentro da qual defenderemos os interesses da França."

A França de Le Pen "deve se manter equidistante da Rússia e dos Estados Unidos. Não temos nenhuma razão para entrar numa guerra fria com a Rússia. Temos todas as razões para manter relações diplomáticas e comerciais.

O candidato independente é a favor da aliança com os EUA na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e das sanções impostas à Rússia em resposta à intervenção militar na Ucrânia e à anexação da Ucrânia.

sábado, 29 de abril de 2017

Zidane e Thuram defendem voto em Macron contra a Frente Nacional

Dois símbolos da seleção multiétnica que deu à França seu único título de campeã mundial de futebol, Zinédine Zidane e Lilian Thuram, declararam voto no candidato independente Emmanuel Macron no segundo turno da eleição presidencial, em 7 de maio, anunciou a televisão francesa.

Quando a França foi eliminada da Euro 1996, o então líder da extrema direita e pai da atual candidata, Jean-Marie Le Pen, declarou: "Não tem nenhum francês nesse time." Dois anos depois, a mesma equipe seria consagrada e desfilaria em glória na Avenida dos Campos Elísios, em Paris.

Zidane, de origem árabe e argelina, é o maior jogador da história do futebol francês, capitão e autor de dois gols na vitória de 3-0 sobre o Brasil na final da Copa do Mundo de 1998 e vice-campeão do mundo em 2006. Hoje é treinador do Real Madrid.

"A mensagem hoje é a mesma de 2002", falou Zidane ontem em entrevista coletiva em Madri, lembrando a única vez anterior em que a extrema direita chegou ao segundo turno da eleição presidencial francesa. "Sou distante de todas essas ideias da Frente Nacional. Então, é preciso evitar isso ao máximo. Os extremos jamais são bons."

Lilian Thuram, de origem africana, nasceu em Guadalupe, uma colônia francesa no Mar do Caribe. Autor dos dois gols na vitória sobre a Croácia na semifinal da Copa de 1998, é o jogador que mais atuou pela seleção francesa: 142 vezes. Hoje dirige a Fundação Educação contra o Racismo.

"É preciso entender que a Frente Nacional é um partido de extrema direita. A partir do momento em que Marine Le Pen tenta explicar que é legítimo que haja uma hierarquia entre as pessoas na França e que os estrangeiros não tenham os mesmos direitos que os franceses... Isto é extremamente perigoso", afirmou Thuram na TV francesa.

Assim, ele acredita que "deve haver uma mobilização em massa para votar em Emmanuel Macron". O ex-jogador acusou quem pretende votar em branco ou anular o voto porque considera o candidato independente liberal demais em economia de "fazer o jogo da Frente Nacional".

Suas críticas se dirigiram principalmente ao candidato da frente França Insubmissa, de ultraesquerda, Jean-Luc Mélenchon, que teve mais de 7 milhões de votos (19,58%) em 23 de abril e se nega a apoiar Macron no segundo turno. Thuram aconselha seus eleitores a "deixar a emoção a decepção e a cólera para ir a caminho da razão".

As pesquisas dão vantagem a Macron por 60% a 40%.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Jornalistas denunciam censura da Frente Nacional

As associações de jornalistas de 29 meios de comunicação da França, inclusive o jornal Le Monde, protestaram hoje contra a decisão da neonazista Frente Nacional de "escolher as mídias autorizadas a seguir Marine Le Pen", candidata da ultradireita à Presidência da República.

Depois de vários casos em que jornalistas foram impedidos de cobrir eventos da campanha de Marine, os jornalistas divulgaram a seguinte nota:

"Por ocasião da campanha para o segundo turno da eleição presidencial, a Frente Nacional decidiu escolher os meios de comunicação autorizados a seguir Marine Le Pen. Várias publicações viram assim seus representantes ser privado de toda informação e de toda possibilidade de seguir a candidata da Frente Nacional no terreno.

"Assim, depois da Mediapart e do Quotidien (e antes dele, de seu predecessor Le Petit Journal), a Agência France Presse (AFP), a Rádio France, a Rádio France International, France 24, Le Monde, Libération e Marianne foram em algum momento vítimas dessas exclusões. Não se trata portanto de um recurso à prática do pool de jornalistas, quando informações e imagens são compartilhadas.

"Protestamos da maneira mais firme contra este entrave à liberdade de fazer nosso trabalho e cumprir nosso dever de informar. Não cabe a uma formação política, qualquer que seja, de dedicir que meios de comunicação estão habilitados a exercer seu papel democrático na nossa sociedade", concluíram os jornalistas.

O segundo turno da eleição presidencial na França, marcado para 7 de maio, é um duelo entre o liberalismo de Emmanuel Macron e o antiliberalismo neofascista da FN.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Mélenchon não apoia Macron mas não quer voto na Frente Nacional

O candidato da ultraesquerda à Presidência da França, Jean-Luc Mélenchon, se nega a apoiar o independente Emmanuel Macron, um defensor da economia de mercado, mas não quer que nenhum de seus mais de 7 milhões de eleitores (19,6%) vote na neofascista Frente Nacional.

Desde domingo, os candidatos derrotados no primeiro turno da eleição presidencial francesa estão sob pressão para definir suas posições para o segundo turno, marcado para 7 de maio. O ex-primeiro-ministro conservador François Fillon e o ex-ministro da Educação socialista Benoît Hamon declararam apoio a Macron.

Mélenchon, uma das surpresas desta eleição, chegou a sonhar com uma vaga no segundo turno. Ganhou com o descontentamento da esquerda com a presidência de François Hollande. No primeiro momento, ele se negou a orientar seus eleitores, alegando não ter mandato para isso.

Agora, seu movimento França Insubmissa desceu parcialmente do muro sem assumir o apoio a Macron: "Nenhum voto deve ir para a Frente Nacional", declarou hoje Alexis Corbière, porta-voz de Mélenchon.

A reação vem porque a ultradireitista Marine Le Pen tenta aproveitar o sentimento antiglobalização dos eleitores de Mélenchon para tentar conquistar seus votos para o segundo turno.

Na sua estratégia de caracterizar Macron como candidato das oligarquias e da "globalização selvavem", Le Pen tenta captar o voto operário. Hoje ela fez uma visita de surpresa à fábrica da empresa Whirlpool em Amiens, enquanto o ex-ministro participava um encontro intersindical na Câmara de Comércio da cidade.

A fábrica está em greve. Os trabalhadores tentam impedir seu fechamento e reabertura na Polônia. Le Pen afirmou que "está no meio dos trabalhadores que resistem à globalização selvagem".

Há uma certa inquietação na França com a possibilidade de uma vitória da extrema direita. Em 21 de abril de 2002, quando Jean-Marie Le Pen, pai de Marine, derrotou o primeiro-ministro socialista Lionel Jospin, todas as outras forças políticas se mobilizaram para apoiar a reeleição do presidente Jacques Chirac, inclusive Mélenchon.

Chirac teve 20% no primeiro turno e 80% no segundo. Agora, Mélenchon é contra a FN, mas não pede voto para Macron. O eleitorado direitista cristão que se mobilizou contra o casamento gay e apoiou Fillon tende a votar em Le Pen. Prefere o antiliberalismo ou casamento gay.

Ex-presidente Sarkozy declara voto em Macron

Mais um líder do partido gaulista Os Republicanos, de centro-direita, adere à Frente Republicana antiextrema-direita e anuncia apoio à candidatura do ex-ministro da Economia Emmanuel Macron à Presidência da França. O ex-presidente Nicolas Sarkozy declarou hoje que vai votar em Macron no segundo turno, em 7 de maio de 2017.

"É uma escolha de responsabilidade que não significa de modo algum apoio a seu projeto", escreveu Sarkozy no Facebook, deixando claro que o objetivo é barrar a ascensão ao poder de Marine Le Pen, da neonazista Frente Nacional.

Ao mesmo tempo, Sarkozy defendeu uma mobilização de seu partido para vencer as eleições parlamentares: "No próximo mês de junho, por ocasião das eleições legislativas, os franceses terão de novo a possibilidade de fazer a escolha de uma verdadeira alternância dando seus sufrágios aos candidatos indicados pelo centro e pela direita."

Como o favorito Emmanuel Macron não tem partido, lançou há menos de um ano seu movimento Em Marcha para sustentar sua candidatura, é improvável que consiga maioria parlamentar para governar. Se Os Republicanos tiverem maioria na Assembleia Nacional, será obrigado a nomear um primeiro-ministro do partido de Sarkozy.

Os Republicanos poderiam ter vencido e se firmado mais uma vez como o maior partido da França, se não tivessem insistido na candidatura do ex-primeiro-ministro François Fillon, abalada por denúncias de que empregou a mulher e os filhos como funcionários-fantasmas do Senado.

Antes do escândalo, Fillon saiu da eleição primária republicana com 30% das preferências. Teria um caminho tranquilo até o Palácio do Eliseu. Mas o partido que dominou a política francesa durante a maior parte da 5ª República, fundada em 1958 pelo general Charles de Gaulle, deu um tiro no pé.

Assim, neste caso, não fazem sentido as análises sobre a decadência dos partidos tradicionais. Os gaulistas presidiram a França por 33 anos desde 1958, com De Gaulle, Georges Pompidou, Jacques Chirac e Sarkozy. Não há partido mais tradicional na política francesa e as eleições legislativas tendem a confirmá-lo como maior partido do país, a não ser que Macron surpreenda mais uma vez.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Marine Le Pen deixa presidência do partido para ampliar eleitorado

Em grande desvantagem nas primeiras pesquisas depois do segundo turno, a candidata de extrema direita à Presidência da França, Marine Le Pen, anunciou hoje que vai deixar a presidência da Frente Nacional. 

É uma jogada para vender uma imagem mais centrista e tentar captar os votos, por exemplo, dos eleitores de Jean-Luc Mélenchon, da ultraesquerda, descontentes com as políticas pró-mercado do favorito, Emmanuel Macron, a quem ela acusa de apoiar uma "globalização selvagem".

Candidato independente, o ex-ministro da Economia Macron venceu o primeiro turno com 8.657.326 ou 24% dos votos com propostas a favor da globalização, do internacionalismo liberal, da União Europeia e da economia de mercado.

Le Pen ficou em segundo com 21,3% com uma plataforma ultranacioanalista, prometendo combater o terrorismo islâmico, expulsar os imigrantes, deixar o euro, convocar um plebiscito para sair da UE, fechar as fronteiras e proteger a economia. Ela obteve 7.679.593 votos, batendo o recorde do pai, Jean-Marie Le Pen. Ele obteve 6,8 milhões em 2012, quando derrotou o primeiro-ministro socialista Lionel Jospin e foi para o segundo turno.

Os candidatos conservador François Fillon (20%) e socialista Benoît Hamon (6,36%) deram apoio a Macron para vencer a ameaça da extrema direita. O presidente François Hollande, o mais impopular da história recente da França, também declarou apoio a seu ex-ministro da Economia.

As pesquisas dão 60% a 64% das preferências para Macron no segundo turno, marcado para 7 de maio de 2017.

Marine tenta reagir apresentando o adversário como "filho do hollandismo", liberal e pró-europeu. Na visão da ultradireita, isso significa que "as fronteiras continuaram abertas e a França e sua cultura continuarão sendo invadidas".

Macron é o grande vencedor. Há um ano, estava no governo. Saiu e criou o movimento Em Marcha para lançar a candidatura. Foi beneficiado pelo escândalo que abalou o favorito, o ex-primeiro-ministro conservador Fillon, acusado de empregar mulher e filhos como funcionários-fantasmas do Senado.

O grande derrotado é o Partido Socialista, que teve a pior votação de sua história, apenas 6,36% dos votos no primeiro turno. A ala mais moderada apoiou Macron e a mais radical votou em Mélenchon. Mas o partido gaulista Os Republicanos também perdeu muito ao insistir num candidato manchado pela corrupção e rejeitado pelo eleitoral.

A Europa e o mercado festejaram o resultado, com alta generalizada nas bolsas de valores. O fantasma da ascensão da extrema direita, alimentado pelo plebiscito que decidiu pela saída do Reino Unido da UE e pela vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, não assombrou a eleição presidencial francesa.

domingo, 23 de abril de 2017

Macron vai para o segundo turno contra Le Pen

O ex-ministro da Economia e candidato independente Emmanuel Macron ficou em primeiro lugar na pesquisa de boca de urna divulgada há pouco pela televisão francesa France2 e venceu o primeiro turno da eleição presidencial. Ele recebeu 23,9% dos votos, à frente da neofascista Marine Le Pen, da Frente Nacional, com 21,5%.

Em terceiro lugar, ficou o ex-primeiro-conservador François Fillon com 19,7% pouco à frente do candidato da ultraesquerda, Jean-Luc Mélenchon, com 19,2%.

Pela primeira vez desde que o general Charles de Gaulle fundou a 5ª República Francesa, em 1958, nenhum dos grandes partidos vai para o segundo turno. Mas isso se deve principalmente ao escândalo que envolveu Fillon, que empregou mulher e filhos como funcionários-fantasmas do Senado.

O candidato gaulista era o favorito e se negou a abandonar a campanha, abrindo espaço para a migração dos votos mais centristas para Macron. Em pronunciamento minutos atrás, Fillon reconheceu a derrota, declarou ser necessária uma união contra a extrema direita no segundo turno e anunciou o voto em Macron.

Marine Le Pen afirmou que "é hora de uma grande alternância libertar o povo francês das elites arrogantes. Eu sou a candidata do povo." Com 6,9 milhões de votos, ela bateu um novo recorde para a extrema direita francesa.

Todas as pesquisas dão a vitória a Macron no segundo turno, a ser disputado em 7 de maio de 2017. Numa sondagem divulgada pelo jornal Le Monde depois da divulgação do resultado do primeiro turno neste domingo, o candidato independente tem 62% das preferências contra 38% para a ultradireitista Le Pen.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Estado Islâmico reivindica ataque a policiais em Paris

A organização terrorista Estado Islâmico do Iraque e do Levante reivindicou a autoria do atentado terrorista que matou um policial e deixou outros dois feridos em estado grave hoje na Avenida dos Campos Elísios, em Paris.

O terrorista foi morto pela polícia. Ele foi identificado como Karim C., de 29 anos. Ao assumir a responsabilidade, o Estado Islâmico o chamou de Abu Youssef al-Belgiki (o Belga), morador de Chelles, a 45 quilômetros a leste da capital francesa.

Ele tinha uma condenação de 15 anos de prisão por tentativa de assassinato e era considerado um terrorista em potencial pelos serviços secretos da França. Chegou a ser preso, mas não estava sob vigilância permanente, informou a televisão France2.

Eram cerca de 21 horas em Paris (16h em Brasília) quando o atirador saiu de um carro com um fuzil de guerra e disparou contra os três policiais, que faziam patrulha estática dentro de uma viatura numa esquina da avenida, considerada pelos franceses a "mais linda do mundo".

É uma avenida ampla, rodeada de bares, cafés e restaurantes que avançam sobre a calçada, lojas e o Palácio do Eliseu, sede da Presidência da França. Vai da Praça da Concórdia, onde ficava a principal guilhotina durante o período do terror da Revolução Francesa de 1789, até o Arco do Triunfo de Napoleão. Está sempre cheia de franceses e turistas. Hoje à noite, estava tomada por policiais.

Em pronunciamento pela TV, o presidente François Hollande confirmou se tratar de um caso de terrorismo.

As autoridades franceses estão em estado de alerta por medo de atentados terroristas no primeiro turno da eleição presidencial, a ser disputado no domingo, 23 de abril de 2017. A polícia conseguiu evitar um atentado terrorista que estava sendo planejado em Marselha, a segunda maior cidade da França, onde há uma grande população muçulmana de origem norte-africana.

O atentado em Paris será explorado pela candidata da Frente Nacional, de extrema direita, Marine Le Pen, que centra a campanha no discurso contra a imigração e contra o terrorismo.

Em pesquisa divulgada hoje, Marine aparece em segundo lugar, com 24% das preferências, logo abaixo e em empate técnico, dentro da margem de erro da pesquisa, com o ex-ministro da Economia Emmanuel Macron, que concorre como independente, com 25%.

Logo atrás, vem o ex-ministro e candidato da ultraesquerda Jean-Luc Mélenchon, com 20%, seguido pelo ex-primeiro-ministro conservador François Fillon, do partido Os Republicanos, com 19%.

Mais de 80% dos eleitores de Marine afirmam que sua decisão de voto está tomada, mas apenas 36% dos eleitores de Macron têm a mesma segurança.

As pesquisas indicam que Macron venceria qualquer oponente no segundo turno. Mas, se o eleitorado flutuante se impressionar com o discurso linha dura da neonazista Marine Le Pen, há o risco de um segundo turno entre ultradireita e ultraesquerda, um fantasma para a União Europeia, já que ambas pretendem deixar o bloco.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Eleição presidencial da França embola na reta final

A oito dias do primeiro turno da eleição presidencial na França, quatro candidatos estão tecnicamente empatados dentro da margem de erro e podem chegar ao segundo turno, indica pesquisa divulgada pelo jornal francês Le Monde.

Os dois favoritos até agora, o ex-ministro da Economia Emmanuel Macron, independente, e a líder da extrema direita, Marine Le Pen, lideravam com 24% das preferências.
Eles perderam dois pontos e caíram para 24%.

Ao mesmo tempo, Jean-Luc Mélenchon, da Aliança França Insubmissa, de ultraesquerda, subiu, 1,5 ponto percentual e chegou a 20%, enquanto o ex-primeiro-ministro François Fillon, ganhou um ponto e tem agora 19% das intenções de voto. O socialista Benoît Hamon caiu para 7,5%.

A pesquisa ouviu 1.509 eleitores inscritos em 12 e 13 de abril. Cerca de dois terços dos eleitores franceses pretendem votar. O segundo turno será realizado em 7 de maio.