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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Índia reafirma que o tempo da guerra passou

Ao receber as delegações dos países do Grupo dos Vinte (G-20) em Bengaluru, o ministro da Informação da Índia, Anurag Thakur, declarou em entrevista que "hoje não é mais tempo para a guerra. A democracia, o diálogo e a democracia são o caminho à frente."

A reunião de ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais do G-20, que inclui os 19 países mais ricos do mundo e a União Europeia, coincide com o primeiro aniversário da invasão da Ucrânia pela Rússia. A Índia é neutra, não aderiu às sanções internacionais, compra petróleo russo com desconto, mas o primeiro-ministro Narendra Modi já deu o mesmo recado ao ditador Vladimir Putin.

O Congresso do México aprovou hoje uma reforma que enfraquece o Instituto Nacional Eleitoral ao reduzir o orçamento, o quadro de funcionários e o poder de punir políticos. A iniciativa é do presidente Andrés Manoel López Obrador, um populista de esquerda. Com seu Movimento de Reneração Nacional (Morena) liderando as pesquisas para a eleição de 2024, por que suscitar dúvidas sobre a lisura do pleito?

Na Argentina, a presidente das Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, criticou a convocação pelo movimento peronista La Cámpora de uma manifestação em 24 de março em defesa da vice-presidente Cristina Kirchner, denunciada por corrupção. 24 de março é a data do golpe militar de 1976. É o dia da marcha anual Memória, Verdade e Justiça.

A semana com quatro dias de trabalho é uma ideia em teste em vários países europeus. Já foi adotada na Bélgica e na Islândia. A proposta é simples: para ganhar o mesmo salário trabalhando menos, é preciso fazer o mesmo trabalho em menos tempo, aumentando a produtividade. Meu comentário:

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Trump transforma os EUA numa república de bananas

Com a absolvição no processo de impeachment, o presidente Donald Trump se tornou ainda mais arrogante, prepotente, autoritário e vingativo. Ameaça transformar os Estados Unidos numa república de bananas. 

Antes do impeachment, Trump afirmou que o artigo 2 da Constituição Americana o autorizava a fazer qualquer coisa. A presidente da Câmara, a deputada democrata Nancy Pelosi, retrucou que ele não é rei, mas, ao ser absolvido pela bancada republicana no Senado, Trump se transformou num ditador eleito. 

Quando Bill Clinton foi absolvido no impeachment por mentir sobre as relações sexuais com uma estagiária, em fevereiro de 1999, pediu desculpas à nação. Trump só pensa em vingança, em perseguir quem o acusou de abuso do poder e obstrução do Congresso. 

Só a Justiça poderia ser capaz de limitar os poderes do presidente sem limites. Mas o ministro da Justiça virou um serviçal do presidente e não do país. Meu comentário:

quinta-feira, 27 de junho de 2019

G-20 inicia com ameaça de guerra comercial virar guerra cambial

A reunião de cúpula do Grupo dos Vinte (G-20) será realizada nesta sexta-feira e no sábado em Osaka, no Japão, sob o risco de que as guerras comerciais deflagradas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, degenerem em guerras cambiais com grandes prejuízos para a economia global e forte impacto político.

A esperança é que um encontro paralelo de Trump com o ditador da China, Xi Jinping, encaminhe uma solução para o conflito comercial entre os dois países mais ricos do mundo. Mas há várias nuvens negras pairando sobre a economia mundial.

O principal comentarista econômico do jornal inglês Financial Times aponta sete grandes riscos para a economia global: o excesso de endividamento, a chamada estagnação secular, o populismo, a fraqueza da economia europeia, a fricção entre as grandes potências, o protecionismo e a incerteza. Meu comentário:

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Recessão pressiona governo populista da Itália

Com queda de 0,2% no produto interno bruto no último trimestre de 2018, depois de uma baixa de 0,1% no terceiro trimestre, a Itália está oficialmente em recessão, de acordo com dados preliminares oficiais do Instituto Nacional de Estatísticas, noticiou o jornal La Repubblica. 

A contração deve aumentar a pressão da Comissão Europeia contra as políticas de aumento dos gastos públicos do governo populista do Movimento 5 Estrelas e da ultradireitista Liga.

O orçamento atual prevê um déficit público de 2% do PIB, mas se baseia numa expectativa de crescimento de 1%, que parece improvável. A proposta inicial incluía uma meta de déficit de 2,4% do PIB, com uma reforma previdenciária e uma redução de impostos.

Depois de uma longa negociação com a Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia, o déficit projetado foi reduzido para 2,04%.

A recessão na Itália, terceira maior economia da Zona do Euro, soma-se à desaceleração nas duas maiores economias do continente para diminuir o crescimento da região. A França, segunda maior, cresceu 1,5% no ano passado, abaixo dos 2,3% de 2017, enquanto a Alemanha, maior economia da Europa, reduziu a expectativa de crescimento para este ano de 1,8% para 1%.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Extrema direita da França muda de Frente para Reunião Nacional

Com a aprovação de 81% dos partidários, que votaram pelo correio, a Frente Nacional, grande partido de extrema direita da França, mudou hoje de nome para Reunião Nacional, anunciou sua líder, Marine Le Pen, derrotada pelo presidente Emmanuel Macron no segundo turno da eleição presidencial de 2017.

"A obra de refundação que estamos empreendendo se persegue mais do que nunca", afirmou a líder neofascista em discurso em Lyon, a terceira maior cidade francesa, anunciando "uma grande mutação estratégica, técnica e política", noticiou o jornal francês Le Monde.

Esta mudança de nome, acrescentou Marine, "fecha um capítulo da história de nosso movimento nacional iniciada há pouco mais de 45, mas é para abrir outro que, creio, não será menos glorioso". Ela saudou "os povos europeus que se rebelam", numa referência aos partidos populistas que acabam de formar o novo governo da Itália.

"Queremos nos juntar a todos esses movimentos que querem mudar a Europa", declarou Marine Le Pen.

Na realidade, a mudança tenta tirar o estigma da FN, historicamente isolada pelos partidos considerados "republicanos" em todas as alianças de segundo turno. Em março, em Lille, durante o congresso do partido, a líder admitiu que "este nome, Frente Nacional, é portador de uma história épica e gloriosa que ninguém pode negar. Mas, vocês sabem, para muitos franceses é um freio psicológico."

O fundador do partido e pai de Marine, Jean-Marie Le Pen, reagiu furiosamente à mudança de nome: "A vergonhosa remoção de sua identidade é o golpe mais rude que a Frente Nacional já recebeu desde sua fundação. Condeno seus inspiradores e executores. Mais do que uma etiqueta, é também uma longa e corajosa história militante que estão negando."

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Presidente da Itália aprova governo populista

O Movimento 5 Estrelas e a Liga, os dois partidos populistas que venceram as eleições de 4 de março na Itália, obtiveram a aprovação do presidente Sergio Mattarella para seu ministério, cinco dias depois do veto ao indicado para Economia e Finanças, que gerou uma crise e levou à desistência do primeiro-ministro designado, Giuseppe Conte. Hoje, Conte recebeu o aval para chefiar o novo governo.                                                                                                  

A crise está superada, por enquanto. Isso evita a realização de novas eleições, que poderiam aumentar ainda mais o apoio aos partidos antieuropeus e anti-sistema.

O ministro de Economia e Finanças será o economista Giovanni Tria, um professor universitário crítico da falta de convergência na Zona do Euro mas a favor de manter a Itália na união monetária europeia. O líder do M5E, Luigi Di Maio, será ministro do Desenvolvimento Econômico, e o chefe da Liga, Matteo Salvini, ministro do Interior, encarregado de expulsar os imigrantes ilegais. O antieuropeu Savona será ministro para assuntos europeus.

Há duas semanas, meses depois das eleições, a Liga e o M5E anunciaram um acordo para formar um governo capaz de obter maioria no Congresso. No domingo, o presidente vetou a indicação de Paolo Savona para Economia e Finanças alegando que haveria risco de saída da Itália da Zona do Euro, com graves danos para a poupança dos cidadãos e a situação do país.

Na próxima semana, o governo Conte deve pedir a aprovação do Congresso. Entre suas propostas, estão uma garantia de renda mínima da cidadania, cortes de impostos, aumento dos gastos públicos e revogação de reformas como a da Previdência Social para acelerar o crescimento da economia italiana. O temor dos parceiros da Eurozona é de mais indisciplina fiscal.

A dívida pública italiana, de 2,3 trilhões de euros (US$ 2,7 trilhões) equivale a 132% do produto interno bruto, de US$ 1,9 trilhão.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Itália e Espanha abalam o euro e as bolsas de valores

Com a Itália e a Espanha, terceira e quarta maiores economia da Zona do Euro, em crise, a incerteza volta ao Sul da Europa, abalando o euro e as bolsas de valores do mundo inteiro. 

Em Nova York, o Índice Dow Jones perdeu quase 400 pontos (-1,58%), na maior queda em dois anos. Tóquio caiu 1,78%. Em São Paulo, o Índice Bovespa subiu 0,95% com a recuperação da Petrobrás depois de forte baixa ontem.

No domingo, o primeiro-ministro indicado pelos partidos populistas que ganharam as eleições de 4 de março na Itália, Giuseppe Conte, desistiu de formar o novo governo porque o presidente Sergio Mattarella rejeitou a indicação de Paolo Savona para ministro da Economia, alegando que haveria risco de que a Itália deixe a união monetária europeia.

O temor do mercado é que o veto de Mattarella e a convocação de novas eleições acabem favorecendo o populista Movimento 5 Estrelas e a neofascista Liga, dois partidos ultranacionalistas que farão campanha atacando a União Europeia como uma instituição que tira a soberania da Itália.

As propostas do programa de governo do M5E e da Liga pretendm acabar com a austeridade fiscal, revogar as reformas para cortar gastos, inclusive da Previdência Social, renegociar a dívida pública de 2,351 trilhões de euros, equivalente a 132% do produto interno bruto, de US$ 1,938 bilhão no ano passado, e suspender as sanções à Rússia.

Na Espanha, o Parlamento começa a discutir na quinta-feira uma moção de desconfiança apresentada pelo Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) contra o primeiro-ministro conservador Mariano Rajoy depois da condenação de vários membros do Partido Popular (PP) no escândalo de corrupção conhecido como Caso Gürtel. O próprio partido foi multado em 245 mil euros.

"O tempo do PP acabou", afirmou o líder do PSOE, Pedro Sánchez, acusando Rajoy de ter posto em perigo a integridade social e territorial da Espanha e a credibilidade do país na UE, numa referência à tentativa de independência da Catalunha, quando apoiou Rajoy para evitar a divisão do país.

O partido de extrema esquerda Podemos, o terceiro maior da Espanha, apoia a moção de censura. O quarto maior, Cidadãos, liberal, de centro-direita, quer a antecipação das eleições porque sobe nas pesquisas com o declínio do PP, mas não apoia o voto de desconfiança, que fortaleceria Sánchez. Será uma votação apertada.

A Espanha corre o risco de ter uma terceira eleição indecisiva, com a fragmentação provocada pela ascensão de dois novos partidos, Podemos e Cidadãos, depois da Crise do Euro, em 2011, que levou o país a se submeter a um programa de ajuste fiscal imposto pela Zona do Euro, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Central Europeu (BCE). O resultado seria mais um governo fraco.

Naquela época, comentava-se que a Itália é uma economia grande demais, com uma dívida grandes demais para ser resgatada. O presidente indicou um tecnocrata, Carlo Cottarelli, para formar um governo técnico até as próximas eleições. O M5E e a Liga, que têm maioria, pretendem derrubá-lo imediatamente. A Itália pode ter novas eleições em agosto.

Em comum, os dois países tiveram seus partidos tradicionais destroçados pela crise econômica. As semelhanças param por aí. A Liga e o M5E são visceralmente antieuropeu. Vão acusar o presidente, a UE, a Alemanha e a França de barrar a vontade política do eleitorado italiano.

Na Espanha, as eleições serão travadas em torno da corrupção, dos gastos públicos e do movimento pela independência da Catalunha. Até o ultraesquerdista Podemos moderou o tom das críticas à UE e à moeda única. Lá, ao contrário da Itália, não rendem votos. Com um governo fraco, é improvável um avanço das reformas econômicas e a questão catalã vai se arrastar por muito tempo.

A Espanha apresenta uma boa recuperação econômica, com crescimento acima de 3% desde 2015. Na Itália, a retomada é mais modesta. Desde 2010, o pico foi 1,7%, mas a economia avançou nos últimos quatro anos.

Com parlamentos fragmentados e governos fracos, será difícil aprovar as reformas necessárias para sustentar um crescimento mais forte, aumentando o apelo de partidos populistas contrários às medidas de austeridade fiscal.

Por seu tamanho, a Itália representa um risco maior à Eurozona do que a Espanha, mas a crise da Grécia mostrou que mesmo um país pobre e periférico pode gerar problemas que se propagam com facilidade pelos membros do bloco europeu.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Giuseppe Conte é nomeado chefe do governo populista na Itália

Dois meses e meio depois das eleições, o presidente Sergio Mattarella nomeou oficialmente hoje o advogado e professor de direito Giuseppe Conte, de 54 anos, para chefiar o governo de coalizão entre o Movimento 5 Estrelas e a neofascista Liga, antiga Liga Norte, uma aliança populista que ameaça as relações com a União Europeia e a própria estabilidade do euro.

Praticamente desconhecido do grande público, Conte começou mal. Seu currículo, de 18 páginas, afirma que ele estudou em algumas das melhores universidades do mundo, Cambrige, na Inglaterra; Yale, nos Estados Unidos; e a Sorbonne, na França. Nenhuma confirmou o registro de qualquer diploma em seu nome.

No jornal italiano La Repubblica, um antigo professor o descreveu como "um menino prodígio, inteligente e sério, jamais exuberante". Para Luigi di Maio, líder do Movimento 5 Estrelas, fundado por um humorista, "a natureza tímida e prudente garante a confiança" no futuro primeiro-ministro da Itália.

"É um tecnocrata, não é um político", comentou o jornal liberal alemão Suddeutsche Zeitung, enquanto o inglês The Guardian o apresentou como o "cérebro" por trás da proposta do partido de revogar 400 leis consideradas "inúteis" acusadas por criar uma burocracia inchada.

Foi a solução encontrada para evitar uma disputa entre a Liga e o M5E capaz de minar a coalizão antes do início do governo. Será o 65º primeiro-ministro da Itália no pós-guerra, em 72 anos de governos democráticos. O risco é que seja mais um primeiro-ministro fraco, um líder de papel às ordens dos partidos, refém dos políticos que o sustentam.

Entre as propostas do programa comum de governo, estão expulsar todos os imigrantes ilegais, garantir uma renda mínima da cidadania, reverter a reforma da Previdência e renegociar a dívida pública, de 2,351 trilhões de euros, equivalente a 132% do produto interno bruto, de US$ 1,938 trilhão em 2017 pela estimativa do Fundo Monetário Internacional.

Essas ideias fazem tremer os aliados europeus e o Banco Central Europeu (BCE), preocupados para começar com o frágil sistema bancário italiano. Oitava maior economia do mundo, logo à frente do Brasil, a Itália está praticamente estagnada desde a introdução do euro, em 1999, que desnudou a indisciplina fiscal do Estado italiano.

O crescimento caiu de 3,7% em 2000 para -5,5% em 2009, no auge da Grande Recessão. Desde então, não passou de um pico de 1,7% em 2010.

É uma economia grande demais para quebrar. A Zona do Euro e o FMI não teriam dinheiro para financiar um programa de ajuste. Seria um golpe na união monetária europeia.

Nos últimos anos, com o colapso da Líbia a partir da revolução que derrubou o ditador Muamar Kadafi, em 2011, a Itália é o país que mais recebe os imigrantes e refugiados arriscam a vida no Mar Mediterrâneo para chegar à Europa.

A repulsa ao imigrante e à União Europeia, que não distribuiu os refugiados entre os países-membros, foi um dos temas centrais da campanha dos partidos vencedores, que relegaram o governante Partido Democrático, de centro-esquerda, a 23% do eleitorado.

O novo governo promete deportar 500 mil imigrantes ilegais em um mês.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Banco Central da Argentina eleva taxa básica de juros para 40%

O Banco Central da Argentina surpreendeu hoje o mercado financeiro, elevando a taxa básica de juros pela terceira vez em uma semana para 40% ao ano para tentar conter a desvalorização do peso. 

Sob o impacto da medida, a moeda argentina subiu 5% para 21,238 pesos por dólar, mas depois caiu 2,3% e chegou a 22,25 por dólar. A moeda americana terminou o dia valendo 22,17 pesos em Buenos Aires.

Várias economias em desenvolvimento estão sob pressão com a alta do dólar diante da expectativa de mais três altas na taxa básica de juros neste ano nos Estados Unidos: Argentina, Brasil, México, Polônia e Turquia, entre outras. Como aqui, o BC argentino entrou no mercado vendendo US$ 5 bilhões das reservas cambiais do país.

Desde o início do ano, o peso perdeu 15% do valor, o real 13% e a lira turca também caiu mais de 10%. Para o jornal inglês Financial Times, é o primeiro grande teste do mercado à política de reformas do presidente Mauricio Macri, eleito há dois anos e meio com a promessa de tornar a Argentina num país normal depois de 12 anos de governos de Néstor e Cristina Kirchner.

Néstor Kirchner (2003-7) chegou ao poder em meio a uma depressão econômica, depois do fim da dolarização da era Carlos Menem (1989-99), de uma megadesvalorização do peso e de todos os ativos e de um calote de US$ 100 bilhões na dívida do país.

A crise sem precedentes numa economia razoavelmente desenvolvida, superada agora pelo colapso econômico da Venezuela, jogou 58% dos argentinos para baixa da linha de pobreza e levou Kirchner a adotar uma série de subsídios a alimentos, transportes e energia.

Quando veio a Grande Recessão de 2008-9, no início do governo Cristina Kirchner (2007-15), com a escassez de dólares, a saída foi sobretaxar as exportações agrícolas, o que provocou uma greve de produtores rurais. A greve do campo esvaziou as prateleiras dos supermercados e afetou o comércio exterior de uma grande potência agrícola mundial.

Sem o apoio dos ruralistas, Cristina deu uma guinada à esquerda e manteve os subsídios para garantir o apoio de sua base política, sindicalista e peronista, aumentando com isso o déficit orçamentário e a dívida pública.

Hoje o ministro da Economia, Nicolás Dujovne, anunciou uma redução do superávit primário de 3,2% para 2,7% do produto interno bruto e defendeu a alta nos juros: "A convergência para o equilíbrio fiscal não é negociável", declarou, prometendo resistir às "pressões populistas".

Com a redução do superávit primário (saldo nas contas públicas sem computar o pagamento de juros), o governo da Argentina deixará de tomar emprestado US$ 3 bilhões e já garantiu os recursos para 80% de sua necessidade de financiamento em 2018.

Apesar dos problemas econômicos, Macri ainda tem o apoio de mais de 50% dos argentinos.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Três centrais sindicais fazem greve geral na Argentina

Três das cinco centrais sindicais da Argentina lideram hoje uma greve geral contra a política econômica do governo Cristina Kirchner. Com ônibus, trens, metrô e aeroportos praticamente parados, e piquetes dificultando o acesso à capital, muitas lojas de Buenos Aires não abriram. Quinze voos entre Brasil e Argentina foram cancelados.

A Confederação Geral do Trabalho (CGT) declarou que "milhões de trabalhadores aderiram à paralisação". O governo tentou minimizar o protesto, descrevendo-o como uma "greve dos transportes". Para o Clarín, jornal de maior circulação na Argentina, o movimento é forte.

Os sindicalistas acusam a presidente de "trair os ideias trabalhistas do peronismo". Com a manipulação das estatísticas, inclusive dos índices de inflação, nos últimos anos, as centrais sindicais se afastaram do governo.

Enquanto institutos privados acreditam que a inflação de 2013 tenha superado os 28%, o governo anunciou uma inflação oficial de 10,9%, prejudicando os sindicatos nas negociações salariais. Seus líderes perderam postos no kirchnerismo, que substituiu os sindicatos pelo movimento jovem peronista La Cámpora, dirigido pelos filhos de Cristina, como sua principal base de apoio.

Diante de uma expectativa de inflação de 40% a 50% em 2014, os trabalhadores estão exigindo reajustes salariais de 30% a 50% para recompor o poder de compra, enquanto aumenta o número de linchamentos em reação à criminalidade crescente.

É o fracasso total do populismo kirchnerista - e a Argentina ainda terá de aguentar Cristina Kirchner por mais um ano e oito meses.

terça-feira, 21 de junho de 2011

"Erdogan deve aprender lições de Lula"

Eleito para um terceiro mandato consecutivo com uma retórica inflamada, o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, deveria seguir o exemplo do presidente Lula para evitar derrapagens para o populismo capazes de abalar sua posição de maior estadista do país desde Mustafá Kemal Ataturk, que fundou a república turca, em 1923.

A recomendação é do analista político americano Marco Vicenzino.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Vargas Llosa culpa peronismo por crise argentina

Ao lançar hoje em Madri seu novo livro, O Sonho do Celta, o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2010, o escritor peruano Mario Vargas Llosa, criticou o peronismo, responsabilizando-o pela crise política permanente da Argentina.

"A Argentina está mergulhada numa crise de que não há indícios de que vá sair", declarou Vargas Llosa na capital espanhola. Ele descreveu o peronismo, que seu colega argentino Jorge Luis Borges chamava de "fenômeno incorrigível", como "um sistema praticamente monopolista do poder".

Para o escritor peruano, "a Argentina era um país desenvolvido e próspero que foi se subdesenvolvendo por razões puramente políticas. Para mim, isso tem um nome, que é peronismo".

"Enquanto a Argentina não deixar para trás essa experiência fundamentalmente populista e um sistema que praticamente leva ao monopólio do poder, não vai decolar nem voltar a ser o que já foi", previu.

Vargas Llosa, candidato de direita derrotado na eleição presidencial de 1990 no Peru, entende que "o retrocesso argentino se deve à incompetência de seus políticos e às políticas ruins que foram empobrecendo um país que era um exemplo para toda a América Latina".

Apesar da crise permanente, prosseguiu o Nobel de Literatura, "o peronismo continua sendo extremamente popular na Argentina e ocupa todo o lugar da política. Tudo se faz dentro do peronismo".

Ele acusou a presidente e viúva Cristina Fernández de Kirchner de chefiar "um governo corroído pela corrupção. Basta ouvi-la falar para saber o que é populismo e demagogia. O casal Kirchner enfrenta sérias acusações ju".

Neste sentido, a atual chefe de Estado "representa a decadência da Argentina", que "foi um país moderno, desenvolvido e culto, que conseguiu erradicar o analfabetismo quando a Europa era subdesenvolvida".

Sem reduzir o tiroteio verbal, Vargas Llosa acrescentou que "não é posssível que a Argentina, com o que já foi, com o que representa do ponto de vista cultural, eleja presidentes com esse nível de falta de cultura e de pobreza intelectual".

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Nosso desafio democrático é a educação

Hoje fui citado na coluna de Merval Pereira, no jornal O Globo, lembrando o sociólogo canadense Marshall McLuhan para argumentar que "a luta de classes não faz sentido num mundo de informação instantânea, em que nerds podem ficar bilionários do nada criando empresas de informática", com foi o caso de Bill Gates, da Apple, do Yahoo e do Google.

Não nego que existam conflitos de classes, mas não são eles que movem a História, ao contrário do que supunha Karl Marx. São revoluções tecnológicas e não as propostas de viés marxista, antiamericanas, antiliberais e anticapitalistas defendidas pela chamada esquerda revolucionária.

Para não parecer que sou apenas mais um neoliberal, cito o professor Leslie Bethell, maior especialista em Brasil do Reino Unido, diretor do Centro de Estudos Brasileiros de Oxford, ameaçado de fechar pelo desinteresse das empresas brasileiras em mantê-lo. Na sua opinião, a democracia no Brasil começa efetivamente com a Constituição de 1988, que introduziu o voto para os analfabetos.

A democracia é um processo lento, evolutivo, de formação de consensos.

Hoje temos um programa, o Bolsa-Família, que atende diretamente à parcela mais pobre da população e que garantiu a reeleição de Lula, com votação expressiva, sobretudo no Nordeste. Ou seja, a democracia liberal funciona, ao contrário do que sugeriu na conferência da Academia da Latinidade em Lima, no Peru o secretário-geral do Itamaraty, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, ao defender a "democracia plebiscitária", o modelo chavista, com o argumento de que o poder do grande capital corrompe o resultado das urnas.

Todo o mundo vota com a mão no bolso, aqui e em qualquer outro país. O povo brasileiro não é bobo. Sabe votar e vota em quem lhe ofereceu a oportunidade de uma vida melhor.

O grande desafio da América Latina é fazer a democracia liberal funcionar para todos, antes de fazer experiências que ameaçam trazer de volta o passado caudilhista e confrontacionista tão a gosto de uma esquerda atrasada que ainda acredita em luta armada e luta de classes.

Nosso próximo desafio é emancipar esse povo, livrando-o da necessidade do Bolsa-Família. Isso só se dá através de uma educação de qualidade, libertadora, que ensine as pessoas a pensarem com suas próprias cabeças.

Há exemplos abundantes na Ásia. Na China e na Córéia do Sul, pais pobres e atrasados, muitos deles camponeses rudes, vêem seus filhos bem-educados ascenderem socialmente e enriquecerem.

Quando estive na China em 1988, me chamou a atenção, numa loja de uma companhia aérea americana, o fato de que um senhora chinesa muito humilde ficava sentada quietinha, enquanto o filho de menos de dez anos conversava com a atendente e voltava pra consultar a mãe. O menino falava inglês e conseguia fazer a ponte entre a vanguarda representada por uma companhia aérea estrangeira e sua mãe atrasada e semi-analfabeta.

Na Revolução Cultural, os intelectuais eram mandados para o campo para serem reeducados como bons camponeses. Deveriam ter feito exatamente o contrário. Há uma falta de mão-de-obra qualificada na China na geração em que as universidades foram fechadas pelo radicalismo que obrigava os chineses a parar no sinal verde e avançar no vermelho.

Aqui, o grande entrave ao desenvolvimento é o baixo nível de educação do trabalhador brasileiro. Como professor universitário, fico abismado com o nível de alguns alunos, com a baixa capacidade de abstração, incapacidade de lidar com números e desconhecimento de História.

Ontem e hoje, perguntei o que houve de importante em 9, 10 e 11 de novembro. Quando falei em 1989, uma aluna lembrou-se a queda do Muro de Berlim em 9/9/1989. Mas apesar das matérias jornalísticas, ninguém lembrou-se do golpe do Estado Novo (10/11/1937) e do fim da Primeira Guerra Mundial (11/11/1918).

A mesma menina que lembrou-se do muro pensava que a Primeira Guerra Mundial tinha acabado em 1917. Aí, perguntei o que havia acontecido em 1917 com as duas potências que dominaram a História da Humanidade na segunda metade do século 20. Queria chamar a atenção para a Primeira Guerra como o conflito que moldou a História do Século 20. Branco total: ninguém citou a Revolução Russa e muito menos a entrada dos EUA na guerra.

Vejo muito discurso sobre educação e votei no senador Cristovam Buarque no primeiro turno como um voto na educação. Mas não vejo medidas concretas para fazermos uma revolução na educação. Com o petróleo de Tupi, é o que falta para elevar o Brasil à condição de grande potência.

Até quando vamos ficar ouvindo discursos vazios que não se traduzem em políticas?

Vejo um sério risco de que a tentação populista eternize o Bolsa-Família como fábrica de votos. Equivale a manter o povo sob cabresto. Não era essa a proposta original do PT. Mas até o imposto sindical parte do partido defende agora.

A bolsa-família é muito importante porque todos têm direito de comer numa sociedade civilizada. O professor Amartya Sen, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, maior especialista em combate à fome e à miséria, diz que não há fome em massa em países democráticos: nenhum governo eleito resiste à imagem de uma criança morta no colo de uma mãe de peito murcho - sinal de que a democracia liberal funciona.

Para que funcione melhor, precisamos de cidadãos bem-educados, capazes de lutar por seus direitos e de ganhar dinheiro com seu próprio trabalho. Enquanto eu ganhar por mês, como professor, com dois diplomas de pós-graduação em relações internacionais na London School of Economics, menos do que minha faxineira, fica difícil ter esperança. Felizmente, tenho outras fontes de renda.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Washington Post ataca Cristina Kirchner

No editorial 'Nova Presidente, Velho Ciclo', o jornal americano de Washington Post acusa o casal Kirchner de práticas antidemocráticas e o acusa de não ter aprendido as duras lições da História da Argentina.

O Post admite que Cristina Fernández de Kirchner foi eleita por causa do aumento da renda da maioria dos argentinos nos últimos quatro anos. Comenta que a situação do país é bem melhor que na vez anterior em que uma mulher sucedeu ao marido na Casa Rosada.

Em 1974, com a morte do general Juan Domingo Perón, a viúva, María Estela Martínez de Perón, a Isabelita, assumiu a presidência da Argentina em meio a uma catástrofe econômica e uma guerra civil que levaram ao golpe militar de 24 de março de 1976.

"A democracia tem mais de um quarto de século, os militares estão confinados aos quartéis e os movimentos revolucionários violentos são uma lembrança distante. Mas a Argentina - e o partido peronista da Srª Fernández de Kirchner - ainda não aprenderam as lições da história do país. Isto pode tornar os próximos anos mais turbulentos", prevê o principal jornal de Washington.

"No século passado", prossegue o Post, "a Argentina viveu sob ciclos econômicos de euforia e depressão de acordo com os preços de suas exportações agrícolas, pela inclinação de seus governos por políticas populistas e por suas resistência em jogar pelas regras do mercado financeiro global. A euforia sob Kirchner seguiu-se ao colapso devastador de 2001, seguindo um padrão usual: foi alimentado pela alta nos preços da carne, do trigo e da soja da Argentina, da firmeza do Sr. Kirchner com os credores internacionais, grandes gastos públicos, e o controle dos preços de energia e de alimentos. O resultado previsível foi o desinvestimento no setor de energia, que já causou apagãos, e a inflação crescente, que provavelmente é duas vezes maior do que a estimativa oficial de 9% ao ano."

O casal K é acusado de manipular os índices de inflação e de pressionar os supermercados para eleger Cristina, "que fez campanha sem participar de um debate nem dar nenhuma entrevista coletiva à imprensa", constata o Post estarrecido com a democracia argentina.

"Ela pode", conclui o jornal, "usar seu mandato para administrar o remédio amargo que a economia precisa - inclusive altas de preços de energia e de juros, a valorização da moeda e a reconciliação com o Fundo Monetário Internacional, que dá o aval para a retomada do investimento estrangeiro. Ou ela pode seguir as políticas de seu marido até a próxima quebra. A Srª Fernández de Kirchner é uma política experiente com mais interesse no mundo exterior do que seu predecessor. Mas será uma grata surpresa se ela evitar repetir a História."

Leia a íntegra do editorial do Washington Post.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Argentino faz radiografia do populismo

Mais uma vez, a América Latina é assolada por políticos demagógicos que prometem um futuro que não têm como oferecer. É a praga do populismo. Seus maiores exemplos no passado foram Getúlio Vargas, no Brasil, e o general Juan Domingo Perón, na Argentina. Agora, o líder desta esquerda inconseqüente que se confunde com o fascismo é o coronel-golpista Hugo Chávez, presidente da Venezuela. Seus maiores discípulos são os presidentes da Bolívia, Evo Morales, e do Equador, Rafael Correa.

Em artigo para o jornal La Nación, o escritor argentino Marcos Aguinis, autor de O Atroz Encanto de Ser Argentino, traçou as principais características do populismo, que resumo a seguir:

1. "Nenhum regime populista conseguiu (ou quis seriamente) acabar a fundo com a pobreza, estimular uma educação aberta nem desmontar o fanatismo. Seus programas não apontam para o desenvolvimento sustentado e firme. Não lhe interessam os direitos individuais nem a majestade das instituições republicanas. Pelo contrário, exageram no assistencialismo mendicante, impõem doutrinas tendenciosas e exaltam diversos tipos de animosidade para conseguir a adesão de multidões carentes, exploradas ou perturbadas pela confusão". O populismo depende da miséria dos "descamisados" (termo usado por Perón e depois pelo presidente Fernando Collor) para prosperar.

2. Como as ditaduras comunistas e fascistas, o populismo precisa "criar um inimigo externo, um inimigo interno e um inimigo... anterior". Além de botar sempre a culpa nos outros, "investe contra o que ocorreu antes para, desta forma, depredar sem limites". São as "heranças malditas" e o "nunca antes neste país..."

3. "O sistema populista não se sustenta em idéias, por isso é pragmático e muda segundo os ventos. Em suas cúpulas argentinas, cabem o variável Perón, a feérica mitologia de Evita, a criminalidade de López Rega [ministro do Bem-Estar Social de Isabelita e líder da Aliança Anticomunista Argentina, um esquadrão da morte], uma Isabelita que dá dó, a salada fascista-bolchevique dos Montoneros, a ineficaz renovação de Cafiero e companhia, as privatizações monopolistas de Menem, o caudilhismo de Duhalde, os sindicatos imbatíveis e o pseudoprogressismo de Kirchner.

4. Não há populismo sem personalismo, como observou o historiador mexicano Enrique Krause. O movimento ou partido se constroem ao redor de uma figura messiânica, de um "salvador da pátria". Esse "pai da pátria" é "um demagogo porque se acomoda, mente, afaga e desacredita segundo convenha ao crescimento de seu poder". De um lado, seduz e promete maravilhas; do outro, "é duro com quem essa massa manifesta antipatia, a um extremo que acende muitas fogueiras de ódio".

5. "Não há regime populista que tolere a total liberdade de imprensa". Perón "expropriou um jornal, amordaçou outros e fechou a rádio da oposição". Chávez acaba de não renovar a licença da rede de televisão da Radio Caracas Televisión (RCTV). Morales e Correa seguem o mesmo caminho.

6. "O orçamento nacional é sempre manipulado com arbitrariedade. Os controles são silenciados ou neutralizados. O modelo populista identifica os fundos do Estado como fundos do governo ou - pior ainda - fundos de quem está no poder. Usa-os a seu critério para submeter opositores, cooptar vontades e fazer propaganda". Chávez distribui arbitrariamente bilhões de petrodólares para avançar seu projeto "narcisista-leninista", na descrição do jornalista Andrés Oppenheimer. Kirchner violou o art. 29 da Constituição da Argentina para fazer o que quiser com o orçamento. "O populista é um modelo que ri das ingênuas e frágeis limitações da transparência repúblicana".

7. "Também não faltam as alianças com a 'burguesia nacional' ou os 'empresários patrióticos', isto é, aqueles que preferem subornar funcionários para obter privilégios do que produzir de forma realmente competitiva.

8. "O modelo populista não se priva de atiçar o ódio: Perón contra a oligarquia; Evo Morales contra os brancos; Chávez contra os ricos (menos ele e os leais a ele); Kirchner contra os anos 90 (também excluindo ele e aliados). Mas devo me corrigir: é comum que os inimigos de foro, de dentro e do passado sejam vários, assim é mais fácil provocar uma cadeia de ira catártica, antidemocrática e regressiva. Da Casa Rosada, por exemplo, este modelo de "crescimento" e felicidade populista, mal chamado de progressista, dirigiu sua metralhadora de grosso calibre contra empresários, militares, sacerdotes, jornalistas e opositores de hoje, de ontem e de anteontem. Como se fosse pouco, "não pôde proibir"que Chávez viesse ladrar em Buenos Aires contra os Estados Unidos, o Uruguai, o Brasil, a OEA [Organização dos Estados Americanos] e tudo o que pretende pôr algum freio a suas arengas desbocadas de papagaio capanga".

9. O populismo não esconde seu desdém pela ordem legal. Como os monarcas absolutistas e como os caudilhos "donos de vidas e fazendas", "a lei é apenas um traje que se ajusta a gosto e medida". Menem mudou a Constituição para se reeleger. Chávez, Morales e Correa convocaram Assembléias Constituintes para "refundar" seus países. Kirchner abusa dos "decretos de necessidade e urgência", o equivalente às "medidas provisórias" da lei brasileira.

10. A alternância no poder, essencial numa democracia, não agrada aos líderes populistas, que não gostam de largar o 'trono'. Preferem a reeleição ilimitada ou a presidência vitalícia e até hereditária, como na Síria.

11. O populismo cultiva uma utopia, a promessa de que se avança para um futuro esplêndido. É uma mensagem que se repete com insistência até hipnotizar, ao mesmo tempo em que se culpa os outros e o passado para encobrir a ineficiência do governo atual.

Em resumo, conclui Aguinis, "o culto da personalidade - em torno do qual se constrói quase tudo -, a ausência de controles republicanos, a instabilidade jurídica, a falta de visão estratégica, o ódio crescente e o objetivo excludente de se manter no poder a qualquer custo sabotam o progresso real".

Ele exclui desse diagnóstico o socialismo democrático que vê no Brasil, no Uruguai e no Chile: "Não praticam a hipnose do personalismo, não manipulam os meios de comunicação, não usam de forma arbitrária o orçamento, não alimentam o ódio, não desprezam a ordem legal, não abalam a estabilidade jurídica, não temem a alternância, não desqualificam a oposição, não espantam os grandes investimentos mas os recebem com bons contratos, se abrem ao comércio mundial, não distorcem os índices para enganar a cidadania até cuidam da linguagem. Por isso, crescem mais rápido, são previsíveis e mais confiáveis. Por isso, nos empurram para o extremo do continente e do mundo, apesar das potencialidades que continuam inativas por culpa desse modelo populista que hipnotiza, embrutece e esclerosa.

Leia a íntegra do artigo de Aguinis no jornal argentino La Nación.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Economia venezuelana é petroleira e rentista

A Venezuela é uma economia petroleira e rentista onde tudo depende da decisão política e unilateral do presidente, afirmou o economista venezuelano José Manuel Ponte, do Instituto de Estudos Superiores de Administração da Venezuela, ao participar do seminário internacional Mercosul + 1: conseqüências da entrada da Venezuela, realizado no Rio de Janeiro em 7 de dezembro de 2006 pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

Durante quase 30 anos (1950-77), “houve baixo crescimento e inflação baixa”, explicou Puente. O impacto positivo dos choques do petróleo foi seguido por quedas fortes. “A renda real per capita teve um crescimento sustentado de 1950-79. Se continuasse, o PIB seria o dobro do que é hoje”, cerca de US$ 110 bilhões.

Sucessivas crises levaram a Venezuela de democracia estável desde 1959 a um país instável e polarizado, analisa o economista, que apontou diversas distorções de uma economia rica em petróleo: “É melhor importar do que comercializar. Há um boom de importações”, que não favorece o desenvolvimento da indústria nacional.

“O país está crescendo há três anos consecutivas. Pela primeira vez em 26 anos, vai crescer quatro anos consecutivos”, constata Puente, o que se deve principalmente à alta nos preços do petróleo. “Mas tem a inflação mais alta da América Latina. Até outubro, estava em 13,7% este ano”.

Como o governo Hugo Chávez controla o câmbio e a Venezuela está sendo inundada este ano por US$ 60 bilhões da renda do petróleo, isto provoca mais inflação: “O boom petroleiro financia as importações. Isto só pode ser sustentado por preços do petróleo altíssimos. Um boom petroleiro clássico mantém o câmbio estável, um boom petroleiro clássico”.

As exportações de petróleo crescem mas o resto da economia venezuelana decresce.

De 1998 a 2005 o produto interno bruto cresceu 9,4% mas as exportações não-petrolíferas caíram 8,7%.

O petróleo representa 95% das exportações, 90% dos dólares e 50% da arrecadação da Venezuela. Com o barril em torno de US$ 60, depois de ter ido a US$ 78 em agosto, Chávez pode fazer “uma política fiscal superexpansiva” num sistema clientelista e rentista em que o Estado domina a economia que Puente compara com o varguismo no Brasil.

“É uma economia de portos, onde o Estado controla o petróleo”, a grande riqueza nacional, que José Manuel Puente não sabe se “é uma bendição de Deus ou o excremento do diabo”. Fala-se de uma ‘maldição do petróleo’: os países ricos em petróleo geralmente são autoritários ou abertamente ditatoriais.

A Venezuela tem reservas de petróleo para 100 anos.

CRISE NO SETOR DE PETRÓLEO
Paradoxalmente, o setor de petróleo contraiu-se 1,8% nos três primeiros trimestres do ano. Como Chávez demitiu 18 mil técnicos depois da greve da companhia estatal Petroleos de Venezuela S. A. (PdVSA) em 2002-3, metade de seu quadro de pessoal. “Há uma debilidade gerencial que pode trazer problemas a médio e longo prazos”, ressalva Puente.

As empresas estrangeiras, inclusive a Petrobrás, foram obrigadas a assinar contratos dando maioria à PdVSA. Isto provocou uma redução nos investimentos privados.

“Aprofunda-se uma cultura estatista’, comentou a cientista política Francine Jácome, do Instituto Venezuelano de Estudos Políticos e Sociais. “É um empresariado parasitário e clientelista”.

Chávez prometeu durante a campanha investir mais de US$ 50 bilhões para dobrar a produção de petróleo em cinco anos. Puente não acredita, já que parte da renda do petróleo é desviada para os programas sociais que o presidente não vai cortar.

O país tem hoje o orçamento mais alto dos últimos 30 anos, altos níveis de liquidez e generosos programas sociais, as missões, que Chávez financia com a renda do petróleo. “Em cinco anos, a quantidade de dinheiro em circulação quintuplicou’, observa Puente.

Este modelo é sustentável? Com taxas de juros abaixo da inflação, estimula o consumo, não a poupança e o investimento.

Na vida fácil de quem tem petróleo abundante, e fala-se de uma maldição do petróleo, “há 40 anos os EUA são o principal parceiro comercial dos Estados Unidos”, disse Puente. “Os padrões de comércio não se alteraram. É um casal que já não se ama mas romper o relacionamento tem um custo muito alto. Chávez protesta contra os EUA mas não deixa de enviar 1,5 milhão de barris por dia”.

Tanto com a Argentina quanto com o Brasil, a Venezuela importa mais e exporta menos, o que mostra que a adesão ao Mercosul pode ter um impacto negativo para a economia venezualana.

“Seu aporte ao Mercosul é o petróleo”, resume Puente. Vai junto o “problema estrutural da economia venezuelana”.

Como a decisão de entrar no Mercosul foi tomada pessoalmente por Chávez, sem avaliar o impacto econômico, raciocina o economista, não foram levadas em conta “as distorções econômicas que dificultam a integração, a valorização do câmbio, a política fiscal superexpansiva, altos níveis de liquidez e juros negativos, gigantescas assimetrias, problemas de direito de propriedade e a alta dependência do petróleo. Chávez não é tão ruim mas é incendiário, assusta os investidores”.

Os problemas são:
- a sustentabilidade do crescimento:
- a competitividade; e
- a capacidade para enfrentar os desafios da integração.

Com o antiliberalismo, o anticapitalismo e o caudilhismo de Chávez, a economia venezuelana só funciona por causa do petróleo. Mas já era assim antes da ascensão do neopopulismo.