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terça-feira, 13 de agosto de 2019

Poder popular desafia ditaduras da China e da Rússia

Apesar da ascensão do populismo e do neofascismo em países com longa tradição democrática, a democracia liberal está viva. As duas grandes potências que desafiam a democracia liberal enfrentam revoltas nas ruas e não tem outra resposta a não ser a repressão violenta.

O grande dilema do século 21 não é mais entre direita e esquerda. Em todas as democracias, o espectro político vai da extrema direita à extrema esquerda. O dilema é entre sociedades abertas e regimes políticos fechados.

Em entrevista recente ao jornal inglês Financial Times, o ditador russo, Vladimir Putin, anunciou a morte da democracia liberal. Mas, enquanto a Rússia moderniza seu arsenal nuclear para manter o status de grande potência, a maior ameaça a Putin vem de seu próprio povo.

Em Hong Kong, são os chineses que lutam para manter o sistema liberal e a sociedade aberta na antiga colônia britânica diante da interferência cada vez maior do regime comunista da China. Meu comentário:

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Sociedade civil luta pela democracia liberal na Europa Central e Oriental

A defesa do liberalismo político vem de onde não se esperava: 30 anos depois da queda do Muro de Berlim e do fim do comunismo, uma nova revolução defende a democracia e a liberdade na Europa Central e Oriental. Movimentos da sociedade civil rejeitam a volta do autoritarismo.

Mesmo quando fracassarem, esses grupos se tornarão uma força política que os governos da região terão de levar em conta. Ao mesmo tempo, a emergência de novas forças de oposição vai contribuir para a instabilidade política crescente e o risco político na região.

Na República Tcheca, na Eslováquia, na Romênia e na Albânia, multidões estão saindo às ruas para exigir transparência dos governos, observa a empresa de consultoria e análise estratégica americana Stratfor.

Os resultados ainda são poucos. Os governos, especialmente da Hungria e da Polônia, adotaram discursos e política ultranacionalistas, de extrema direita, atacam a independência do Poder Judiciário e as liberdades públicas. 

A União Europeia advertiu a Hungria, a Polônia e a Romênia a respeitar as liberdades democráticas, a parar de sufocar a mídia crítica aos governos, e a respeitar a independência do Judiciário – e ameaçou tomar medidas punitivas. 

Enquanto a União Europeia se preocupa, a sociedade civil luta para garantir as conquistas das revoluções liberais que abriram a Cortina de Ferro e derrubaram o comunismo em 1989. Será um elemento importante para evitar o aprofundamento do fosso entre as Europas Ocidental e Oriental. Meu comentário:

domingo, 23 de setembro de 2018

Crise do multilateralismo abre espaço para ascensão da China

Com o sistema multilateral sob ataque do presidente dos Estados Unidos, país que o criou no fim da Segunda Guerra Mundial para garantir a paz através de uma gestão coletiva, fica mais difícil a gestão de crises internacionais e abre-se espaço para aumento da influência da China. 

O tema foi discutido na sexta-feira na 15ª Conferência do Forte de Copacabana, realizada no Hotel Sheraton, no Rio de Janeiro, pela Fundação Konrad Adenauer, o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e a Delegação da União Europeia no Brasil.

Na abertura do evento, o embaixador da UE em Brasília, o português João Gomes Cravinho destacou a importância do multilateralismo para enfrentar crises internacionais como as ondas de refugiados e a mudança do clima.

Há uma cisão da aliança atlântica entre a Europa e a América do Norte, que foi a base da ordem internacional liberal do pós-guerra, fruto de "mudanças de longo prazo na sociedade europeia" e do "realinhamento dos EUA", falou o deputado federal democrata-cristão alemão Andreas Nick.

"A coordenação da sociedade internacional é fundamental" para a gestão de crises, declarou a professora Monica Herz, do Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (IRI-PUC-RJ).

Monica identifica uma "crise profunda do multilateralismo", uma "crise da democracia liberal, com eleitos distantes do povo", e "a crise de pós-verdade", o mundo maravilhoso ou enganoso em que cada um constrói seu próprio discurso e sua própria realidade, com "fatos alternativos", como disse Kellyane Conway, assessora de comunicação do presidente Trump.

"Precisamos fortalecer a cooperação multilateral. Precisamos fazer mais por um sistema baseado em normas e regras", observou o moderador do painel, o embaixador da Áustria no Brasil, Georg Witschel.

"Há uma necessidade de ter ideias comuns, construir confiança, mobilizar recursos e ideias", acrescentou Monica Herz, "a construção de uma narrativa comum baseada na confiança e no humanismo, inclusiva, para criar legitimidade."

"É preciso buscar valores comuns", argumentou o professor Raúl Benítez Manaut, do Centro de Pesquisas sobre a América do Norte da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). "Preocupa-me o renascimento do nacionalismo, o ódio a Trump no México."

Com os Estados Unidos introvertidos com o nacionalismo de Trump e a Europa voltada para a África e o Oriente Médio, raciocinou Benítez, "a China é a única grande potência emergente na América Latina".

A região enfrenta o "colapso do Estado na Venezuela", uma crise econômica na Argentina e uma tragédia na Nicarágua com a repressão do governo Daniel Ortega contra uma onda de manifestações, com mais de 500 mortes. Em comparação, "se fosse no Brasil, seriam 15 mil mortos".

O pesquisador mexicano defendeu um esforço diplomático, político, econômico e ecológico pela ordem internacional liberal. Em meio a uma guerra comercial de consequências imprevisíveis para o sistema internacional deflagrada por Trump, Benítez propõe isolar os "perturbadores".

O recuo estratégico dos EUA, concluiu Monica Herz, "abre espaço para a China".

sábado, 6 de maio de 2017

Rússia é suspeita na ciberpirataria contra Macron

A advertência havia sido feita em março pelo presidente da Comissão de Inteligência do Senado dos Estados Unidos, Richard Burr: "A Rússia está ativamente envolvida na eleição na França." Quando, na sexta-feira à noite, a campanha do candidato independente e centrista Emmanuel Macron revelou ter sido alvo de uma "operação maciça" de pirataria cibernética, as principais suspeitas recaíram sobre o Kremlin.

Os documentos vazados incluem mensagens de correio eletrônico, contas e planos de campanha. Entre eles, teriam sido imiscuídos documentos falsos. A Justiça da França proibiu a divulgação das acusações a Macron, inclusive por pessoas físicas. O presidente François Hollande prometeu investigar o caso.

Um dos primeiros a divulgar os documentos foi o ativista americano da extrema direita Jack Posobiec, que divulgou várias notícias falsas em apoio à candidatura de Donald Trump nos EUA.

Desde que voltou à Presidência da Rússia, em março de 2012, depois de uma onda de protestos contra as eleições parlamentares de dezembro de 2011, o presidente Vladimir Putin iniciou uma guerra contra a democracia liberal, o Ocidente e suas instituições, especialmente a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a União Europeia (UE).

Internamente, Putin censurou a Internet, perseguiu homossexuais e ativistas dos direitos humanos. No plano externo, interveio militarmente na Ucrânia e anexou a península da Crimeia à Rússia. Como no tempo da Guerra Fria, caças-bombardeiros russos invadem o espaço aéreo de países da OTAN, da Noruega a Portugal, e reiniciaram as patrulhas perto das costas dos EUA.

Além de alimentar perigosamente uma guerrinha fria, a Rússia faz uma guerra cibernética. É a principal suspeita de ter invadido os computadores do Partido Democrata dos EUA e revelado mensagens comprometedoras prejudicando a candidatura da ex-secretária de Estado Hillary Clinton, a quem Putin responsabiliza por manifestações de protesto na Rússia.

O objetivo seria favorecer a candidatura do magnata imobiliário Donald Trump, que tem uma queda por homens-fortes e acenou com a possibilidade de melhorar as relações entre Washington e Moscou. Hoje há uma investigação no Congresso sobre os contatos da campanha de Trump com diplomatas e outros altos funcionários do governo russo.

Na França, Putin é aliado da neofascista Marine Le Pen, da Frente Nacional, que recebeu empréstimos de 8 milhões de euros de bancos russos. Marine é contra o euro e, se vencer, promete convocar um plebiscito para tirar a França da UE. Seria o fim do processo de integração da Europa, que Putin vê como nocivo aos interesses imperiais da Rússia, especialmente quando ex-repúblicas soviéticas pedem para entrar na UE.

Macron lidera com ampla vantagem. O escândalo de última hora, deflagrado quando a campanha estava oficialmente encerradas e proibidas as manifestações de candidatos e campanhas, não será capaz de reverter uma vantagem de 20 pontos percentuais ou mais.

Para a Frente Nacional, a meta é chegar a 40% do eleitorado, esperar o fracasso de Macron e se preparar para 2022.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

PC chinês teme democracia liberal

A democracia liberal é a maior ameaça ao poder absoluto do Partido Comunista da China, adverte um documento interno revelado pelo jornal The New York Times.

Entre os sete perigos listados pelo PC, agora sob a liderança do novo presidente chinês, Xi Jinping, estão a "democracia constitucional ocidental", "valores universais" como "direitos humanos", "meios de comunicação independentes", "participação cívica", o "neoliberalismo econômico" e a "crítica niilista" do passado traumático do partido.

Xi acumula os cargos de secretário-geral do partido e presidente da Comissão Militar do Comitê Central, que controla o Exército Popular de Libertação. Com uma campanha anticorrupção, o julgamento do neomaoísta Bo Xilai, que começa daqui a dois dias, e esse documento sigiloso, começa a imprimir sua marca.

Numa megaestrutura burocrática como o PC chinês, há uma tentativa de mudar, mas não muito, para manter o essencial, o monopólio de poder. Diante do extraordinário desenvolvimento econômico do país, surgiu uma classe média que começa a dar "palpites" políticos. "A classe média é muito palpiteira", comentou recentemente um dirigente comunista.

Quando houver uma crise econômica, as novas elites econômicas criadas pelas reformas lançadas por Deng Xiaoping a partir de 1978 vão questionar o poder absoluto do PC. O documento indica que o partido teme que esta hora esteja próxima.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Nosso desafio democrático é a educação

Hoje fui citado na coluna de Merval Pereira, no jornal O Globo, lembrando o sociólogo canadense Marshall McLuhan para argumentar que "a luta de classes não faz sentido num mundo de informação instantânea, em que nerds podem ficar bilionários do nada criando empresas de informática", com foi o caso de Bill Gates, da Apple, do Yahoo e do Google.

Não nego que existam conflitos de classes, mas não são eles que movem a História, ao contrário do que supunha Karl Marx. São revoluções tecnológicas e não as propostas de viés marxista, antiamericanas, antiliberais e anticapitalistas defendidas pela chamada esquerda revolucionária.

Para não parecer que sou apenas mais um neoliberal, cito o professor Leslie Bethell, maior especialista em Brasil do Reino Unido, diretor do Centro de Estudos Brasileiros de Oxford, ameaçado de fechar pelo desinteresse das empresas brasileiras em mantê-lo. Na sua opinião, a democracia no Brasil começa efetivamente com a Constituição de 1988, que introduziu o voto para os analfabetos.

A democracia é um processo lento, evolutivo, de formação de consensos.

Hoje temos um programa, o Bolsa-Família, que atende diretamente à parcela mais pobre da população e que garantiu a reeleição de Lula, com votação expressiva, sobretudo no Nordeste. Ou seja, a democracia liberal funciona, ao contrário do que sugeriu na conferência da Academia da Latinidade em Lima, no Peru o secretário-geral do Itamaraty, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, ao defender a "democracia plebiscitária", o modelo chavista, com o argumento de que o poder do grande capital corrompe o resultado das urnas.

Todo o mundo vota com a mão no bolso, aqui e em qualquer outro país. O povo brasileiro não é bobo. Sabe votar e vota em quem lhe ofereceu a oportunidade de uma vida melhor.

O grande desafio da América Latina é fazer a democracia liberal funcionar para todos, antes de fazer experiências que ameaçam trazer de volta o passado caudilhista e confrontacionista tão a gosto de uma esquerda atrasada que ainda acredita em luta armada e luta de classes.

Nosso próximo desafio é emancipar esse povo, livrando-o da necessidade do Bolsa-Família. Isso só se dá através de uma educação de qualidade, libertadora, que ensine as pessoas a pensarem com suas próprias cabeças.

Há exemplos abundantes na Ásia. Na China e na Córéia do Sul, pais pobres e atrasados, muitos deles camponeses rudes, vêem seus filhos bem-educados ascenderem socialmente e enriquecerem.

Quando estive na China em 1988, me chamou a atenção, numa loja de uma companhia aérea americana, o fato de que um senhora chinesa muito humilde ficava sentada quietinha, enquanto o filho de menos de dez anos conversava com a atendente e voltava pra consultar a mãe. O menino falava inglês e conseguia fazer a ponte entre a vanguarda representada por uma companhia aérea estrangeira e sua mãe atrasada e semi-analfabeta.

Na Revolução Cultural, os intelectuais eram mandados para o campo para serem reeducados como bons camponeses. Deveriam ter feito exatamente o contrário. Há uma falta de mão-de-obra qualificada na China na geração em que as universidades foram fechadas pelo radicalismo que obrigava os chineses a parar no sinal verde e avançar no vermelho.

Aqui, o grande entrave ao desenvolvimento é o baixo nível de educação do trabalhador brasileiro. Como professor universitário, fico abismado com o nível de alguns alunos, com a baixa capacidade de abstração, incapacidade de lidar com números e desconhecimento de História.

Ontem e hoje, perguntei o que houve de importante em 9, 10 e 11 de novembro. Quando falei em 1989, uma aluna lembrou-se a queda do Muro de Berlim em 9/9/1989. Mas apesar das matérias jornalísticas, ninguém lembrou-se do golpe do Estado Novo (10/11/1937) e do fim da Primeira Guerra Mundial (11/11/1918).

A mesma menina que lembrou-se do muro pensava que a Primeira Guerra Mundial tinha acabado em 1917. Aí, perguntei o que havia acontecido em 1917 com as duas potências que dominaram a História da Humanidade na segunda metade do século 20. Queria chamar a atenção para a Primeira Guerra como o conflito que moldou a História do Século 20. Branco total: ninguém citou a Revolução Russa e muito menos a entrada dos EUA na guerra.

Vejo muito discurso sobre educação e votei no senador Cristovam Buarque no primeiro turno como um voto na educação. Mas não vejo medidas concretas para fazermos uma revolução na educação. Com o petróleo de Tupi, é o que falta para elevar o Brasil à condição de grande potência.

Até quando vamos ficar ouvindo discursos vazios que não se traduzem em políticas?

Vejo um sério risco de que a tentação populista eternize o Bolsa-Família como fábrica de votos. Equivale a manter o povo sob cabresto. Não era essa a proposta original do PT. Mas até o imposto sindical parte do partido defende agora.

A bolsa-família é muito importante porque todos têm direito de comer numa sociedade civilizada. O professor Amartya Sen, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, maior especialista em combate à fome e à miséria, diz que não há fome em massa em países democráticos: nenhum governo eleito resiste à imagem de uma criança morta no colo de uma mãe de peito murcho - sinal de que a democracia liberal funciona.

Para que funcione melhor, precisamos de cidadãos bem-educados, capazes de lutar por seus direitos e de ganhar dinheiro com seu próprio trabalho. Enquanto eu ganhar por mês, como professor, com dois diplomas de pós-graduação em relações internacionais na London School of Economics, menos do que minha faxineira, fica difícil ter esperança. Felizmente, tenho outras fontes de renda.