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sexta-feira, 26 de setembro de 2025

ONU faz 80 anos em sua pior crise

 Em 80 anos de existência, a Organização das Nações Unidas (ONU) não conseguiu acabar com a guerra, mas é importante em missões de paz, um parlamento mundial, um fórum de negociações permanente e uma agência de descolonização. Está em crise por não acabar com a guerra e com o abandono do multilateralismo pelos Estados Unidos, que reduziram a contribuição no governo Donald Trump.

Os problemas estruturais da ONU não são novos. A organização cria uma ordem internacional ao mesmo tempo baseada no liberalismo e no realismo, na política do poder. Alguns países podem mais do que os outros, como no mundo real. Ao mesmo tempo em que consagra os princípios de soberania nacional e integridade territorial, declara que os direitos humanos são universais.

Para superar a impotência da Liga das Nações para evitar a Segunda Guerra Mundial (1939-45), o presidente norte-americano Franklin Roosevelt, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill e o líder soviético Josef Stalin criaram o Conselho de Segurança. Reservaram o direito de veto para as grandes potências vencedoras da guerra. O modelo da ONU é um mundo administrado por um condomínio de grandes potências.

É evidente que o mundo de 2025 é muito diferente do mundo de 1945, mas qualquer reforma no Conselho de Segurança tende a parar no veto das grandes potência. E se não há consenso entre cinco, como será com um Conselho de Segurança ampliado? A questão central é vale a pena ter um sistema internacional, mesmo que reflita as desigualdades de poder.

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Lula fala em desigualdade, paz e reforma da ONU

 Num discurso de 21 minutos na segunda-feira, 19 de setembro, na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou as principais metas da política externa brasileira: o combate à desigualdade, a transição energética para conter o aquecimento global, o multilateralismo e a reforma do sistema internacional. Ontem, Lula se encontrou pela primeira vez com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky.

O presidente apresentou o Brasil como um país que sai do isolamento imposto pela política externa do governo Jair Bolsonaro, na vanguarda da transição energética para uma economia de baixo carbono, que reduziu o desmatamento, combate a desigualdade, respeita os direitos das mulheres e minorias, e defende uma ordem mundial baseada na paz e no direito internacional.

Lula criticou a concentração da riqueza, o Conselho de Segurança da ONU, o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, o protecionismo dos países ricos e a paralisia da Organização Mundial do Comércio (OMC). Disse que dos "escombros do neoliberalismo surgem aventureiros de extrema direita", tentando substituir um "neoliberalismo falido por um nacionalismo primitivo".

 Ao condenar a guerra, não mencionou a agressão da Rússia contra a Ucrânia. Falou que "a guerra escancara a incapacidade de fazer prevalecer os propósitos e princípios da Carta da ONU". Mas não reconheceu que a Rússia viola a soberania nacional e a integridade territorial da Ucrânia.

Ao sair da reunião com Zelensky, Lula reiterou a proposta de formar um grupo de países para intermediar a paz, que ainda não se materializou. Mas as posições são inconciliáveis e o ditador Vladimir Putin aposta na fadiga do apoio dos EUA e da Europa à Ucrânia. Meu comentário:

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Biden enfrenta desafios sem precedentes na terra arrasada por Trump

Ao tomar posse amanhã ao meio-dia em Washington (14h em Brasília) como 46º presidente dos Estados Unidos, Joseph Robinette Biden Jr. terá pela frente uma série de desafios sem precedentes: 

• uma pandemia que matou mais de 400 mil americanos,

• a crise econômica causada pelo novo coronavírus,

• a polarização política do país, onde a maioria dos republicanos rejeita sua vitória,

• a ameaça do terrorismo de extrema direita,

• o racismo institucionalizado,

• a desigualdade social,

• o aquecimento global,

• a perda de prestígio internacional dos EUA,

• o afastamento do país das instituições multilaterais,

• a desconfiança dos aliados,

• as guerras sem fim no Iraque e no Afeganistão,

• a ameaça nuclear da Coreia do Norte e do Irã,

• e o crescente poderio da China. 

Mais detalhes em Quarentena News. Meu comentário:

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Macron ataca Trump e defende multilateralismo na ONU

Uma hora depois do discurso de Donald Trump, o presidente da França, Emmanuel Macron, subiu à tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas para repudiar o unilateralismo do presidente dos Estados Unidos, deplorar a "lei do mais forte", que conduz diretamente "à crise e ao conflito", e defender a gestão coletiva das crises internacionais.

Macron foi duro, colocando-se claramente como o anti-Trump: "Não nos esqueçamos nunca de que os genocidas foram nutridos por discursos aos quais nos acostumamos. (...) Estamos a caminho hoje de ver se transformar em delito o direito internacional e todas as formas de cooperação, como se não fossem nada, por medo e cumplicidade."

O jovem presidente francês fez um apelo "ao diálogo e ao multilateralismo" para resolver o conflito com o Irã, em vez de "isolar o regime iraniano", e o aquecimento global. Terminou com uma defesa intransigente do sistema internacional: "É uma traição à nossa história. O século 21 nos assiste e nossos filhos nos esperam: resolvam as crises. Trabalhemos juntos para combater todas as desigualdades."

Para Macron, "o risco é o cinismo ou simplesmente se habituar ao cinismo. Os responsáveis estão aqui. Vivemos uma crise profunda da ordem internacional liberal."

Ao defender o Acordo de Paris sobre Mudança do Clima, repudiado e abandonado por Trump, o presidente francês afirmou que "não pode haver acordo comercial com quem rejeita o Acordo de Paris".

O recuo estratégico dos EUA favorece o aumento da influência da China no cenário internacional.

Trump rejeita globalismo e ataca o Irã e a Venezuela na ONU

Em seu segundo discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas como presidente dos Estados Unidos, Donald Trump rejeitou hoje o globalismo, defendeu o "patriotismo" e sua política externa de "EUA, primeiro".

Com uma visão negocista das relações internacionais, Trump aproveitou esse parlamento mundial para deixar claro que os EUA não vão aceitar nenhuma limitação a seu poder, "vão sempre escolher a independência e a cooperação à governança global, ao controle e à dominação."

Em 35 minutos, defendeu sua visão isolacionista, que vai contra a política externa dos EUA no pós-guerra de gestão coletiva das crises internacionais através do multilateralismo: "Honro o direito de cada nação nesta sala de seguir seus próprios costumes, crenças e tradições. Os EUA não vão dizer a vocês como viver, trabalhar ou rezar. Só pedimos que honre nossa soberania."

Os EUA "nunca vão pedir desculpas por proteger seus cidadãos", afirmou Trump, no que pode ser interpretado dos pontos de vista econômico e militar, justificando a guerra comercial e o aumento do orçamento de defesa para mais de US$ 700 bilhões anuais.

"Os EUA não vão tolerar serem passados para trás", vociferou, pensando no déficit comercial, de US$ 566 bilhões no ano passado.

Ao criticar governos anteriores, Trump costuma dizer "os EUA viraram piada no resto do mundo". Desta vez, acertou. Quando disse que seu governo fez mais em dois anos do que a maioria dos governos da história do país, o plenário caiu na risada.

Também aproveitou a oportunidade para atacar os líderes do Irã, da Síria, da Venezuela e da China. O principal alvo foi o Irã. O presidente citou a retirada dos EUA do acordo nuclear firmado em 2015 pelas grandes potências do Conselho de Segurança da ONU e o Irã para desarmar o programa nuclear iraniano como um marco significativo de seu governo.

A partir de novembro, os EUA voltam a impor sanções ao Irã e estão pressionando o resto do mundo a fazer o mesmo. Mas os outros países signatários e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) entendem que o regime teocrático iraniano estava cumprindo o acordo. A União Europeia já estuda meios para fugir das sanções cruzadas dos EUA.

No ano passado, o alvo era o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong Un, o mais novo amigão de Trump, que chamou de "fogueteiro" num discurso tão forte que suscitou medo de que os EUA bombardeassem a Coreia do Norte. Hoje, agradeceu a Kim pela "coragem e os passos que deu".

Depois, Trump comentou que a mesma tática pode funcionar com o Irã. No discurso, responsabilizou a "ditadura corrupta do Irã" pela guerra civil da Síria: "Eles semeiam o caos, a morte e a destruição. Os EUA lançaram uma campanha de pressão econômica para negar ao regime os fundos para avançar com sua agenda sanguinária."

O governo Trump exige que o Irã, além de abandonar o desenvolvimento de armas atômicas, pare de fabricar mísseis de médio e longo alcances e de interferir em outros países da região.

Quando o presidente iraniano, Hassan Rouhani, falou, criticou o "nacionalismo extremado e o racismo". Sem nenhum incentivo para negociar no momento, o Irã aguarda o desenrolar as negociações entre os EUA e a Coreia do Norte para reavaliar a conveniência de retomar o diálogo com Washington.

Ignorante e incompetente em política externa, Trump joga para destruir a ordem internacional liberal criada depois da Segunda Guerra Mundial sob a inspiração do presidente Franklin Delano Roosevelt para resolver as crises internacionais em conjunto com os aliados num sistema multilateral.

Trump acredita que o multilateralismo limita o poder dos EUA, em vez de ampliá-lo. Prefere negociações bilaterais diretas em que pretende impor a supremacia americana. Sua visão de mundo despreza aliados tradicionais como a Europa, o Canadá e o Japão.

O mundo de Trump seria uma recriação da era dos impérios, anterior à Primeira Guerra Mundial, um mundo dividido em esferas de influência de grandes potências, EUA, China e Rússia, que levou a duas guerras mundiais. Como ele só acredita em poderio militar, a União Europeia, uma superpotência econômica, não pesa.

Na sua paixão indiscreta por homens-fortes e ditaduras, o presidente americano elogiou a Arábia Saudita, ignorando a tragédia causada pela intervenção militar saudita na guerra civil do Iêmen, o conflito mais mortal no mundo hoje.

domingo, 23 de setembro de 2018

Crise do multilateralismo abre espaço para ascensão da China

Com o sistema multilateral sob ataque do presidente dos Estados Unidos, país que o criou no fim da Segunda Guerra Mundial para garantir a paz através de uma gestão coletiva, fica mais difícil a gestão de crises internacionais e abre-se espaço para aumento da influência da China. 

O tema foi discutido na sexta-feira na 15ª Conferência do Forte de Copacabana, realizada no Hotel Sheraton, no Rio de Janeiro, pela Fundação Konrad Adenauer, o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e a Delegação da União Europeia no Brasil.

Na abertura do evento, o embaixador da UE em Brasília, o português João Gomes Cravinho destacou a importância do multilateralismo para enfrentar crises internacionais como as ondas de refugiados e a mudança do clima.

Há uma cisão da aliança atlântica entre a Europa e a América do Norte, que foi a base da ordem internacional liberal do pós-guerra, fruto de "mudanças de longo prazo na sociedade europeia" e do "realinhamento dos EUA", falou o deputado federal democrata-cristão alemão Andreas Nick.

"A coordenação da sociedade internacional é fundamental" para a gestão de crises, declarou a professora Monica Herz, do Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (IRI-PUC-RJ).

Monica identifica uma "crise profunda do multilateralismo", uma "crise da democracia liberal, com eleitos distantes do povo", e "a crise de pós-verdade", o mundo maravilhoso ou enganoso em que cada um constrói seu próprio discurso e sua própria realidade, com "fatos alternativos", como disse Kellyane Conway, assessora de comunicação do presidente Trump.

"Precisamos fortalecer a cooperação multilateral. Precisamos fazer mais por um sistema baseado em normas e regras", observou o moderador do painel, o embaixador da Áustria no Brasil, Georg Witschel.

"Há uma necessidade de ter ideias comuns, construir confiança, mobilizar recursos e ideias", acrescentou Monica Herz, "a construção de uma narrativa comum baseada na confiança e no humanismo, inclusiva, para criar legitimidade."

"É preciso buscar valores comuns", argumentou o professor Raúl Benítez Manaut, do Centro de Pesquisas sobre a América do Norte da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). "Preocupa-me o renascimento do nacionalismo, o ódio a Trump no México."

Com os Estados Unidos introvertidos com o nacionalismo de Trump e a Europa voltada para a África e o Oriente Médio, raciocinou Benítez, "a China é a única grande potência emergente na América Latina".

A região enfrenta o "colapso do Estado na Venezuela", uma crise econômica na Argentina e uma tragédia na Nicarágua com a repressão do governo Daniel Ortega contra uma onda de manifestações, com mais de 500 mortes. Em comparação, "se fosse no Brasil, seriam 15 mil mortos".

O pesquisador mexicano defendeu um esforço diplomático, político, econômico e ecológico pela ordem internacional liberal. Em meio a uma guerra comercial de consequências imprevisíveis para o sistema internacional deflagrada por Trump, Benítez propõe isolar os "perturbadores".

O recuo estratégico dos EUA, concluiu Monica Herz, "abre espaço para a China".