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quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Brasil tem de zerar desmatamento da Amazônia

O mundo precisa da Amazônia. Não vai conter o aquecimento global sem a grande floresta tropical brasileira, que está perto de chegar ao limite além do qual será praticamente impossível a regeneração. Está na hora de zerar o desmatamento, alertaram ontem os participantes do painel Mudança do Clima e Meio Ambiente nos Diálogos do Amanhã, uma conferência realizada pelo Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais), o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e Fundação Konrad Adenauer.

"A Amazônia está no limite", advertiu a ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, moderadora do painel sobre o clima. "Temos de evitar o segundo arco do desmatamento."

Nos anos 1950s, só 2% do cerrado eram desmatados; hoje, são 50%. O desmatamento da Amazônia está em 27%. Se chegar a 40%, será irreversível, previu Thelma Krug, vice-presidente do Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

"A Amazônia é crucial", alertou Thelma Krug. O último relatório do IPCC recomenda que o aumento da temperatura média do planeta deve ser contido em 1,5ºC acima da era pré-industrial para evitar impactos desastrosos.

"Hoje, a temperatura está um grau centígrado acima da era pré-industrial", declarou a vice-presidente do IPCC. "Com 1ºC, estamos sentindo impactos atribuídos à mudança do clima como os incêndios na Califórnia. Limitar o aquecimento a 1,5ºC não é impossível, mas requer mudanças sem precedentes. Todo aumento de temperatura é importante. Tem impactos sobre a saúde, morbidade e mortalidade, mais diante muito quentes."

A expectativa do IPCC é que as emissões de gás carbônico sejam zeradas em 2050, com cortes nos clorofluorcarbonetos e no metano, outros gases que agravam o efeito estufa. "Até o final do século, a temperatura média passa de 1,5%. Depois, desce, com reflorestamento em larga escala e bioenergia", previu Krug.

Esta é a previsão otimista. No momento, as contribuições nacionalmente determinadas (NDCs), as metas voluntárias previstas pelo Acordo do Clima assinado em 12 de dezembro de 2015 em Paris, apontam um aumento de 3,2ºC.

"A cooperação internacional é um elemento crítico para os países em desenvolvimento, em capacitação e tecnologia. Até 2050, 75% a 80% da geração de eletricidade precisam vir de fontes renováveis", observou Thelma Krug.

Há um papel para os bancos de desenvolvimento, notou o superintendente de Gestão Pública e Socioambiental do BNDES, Gabriel Visconti: "Os técnicos do BNDES se apresentam para criar uma economia de baixo carbono."

O Brasil tem de parar de desmatar: "É preciso construir uma nova governança. Não dá mais para expandir a fronteira agrícola", afirmou André Guimarães, membro da Coalizão Clima, Florestas e Agricultura e pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

A agricultura brasileira é muito importante. Somando a agroindústria e os serviços de distribuição, o agronegócio responde por 23,5% do produto interno bruto e 20% do emprego, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

"A maior parte da agricultura não é irrigada. Depende da chuva. O mundo tem liquidez. É comprador de serviços ambientais. Ou vemos como oportunidade ou vamos pagar um alto preço", acrescentou Guimarães.

"Cerca de 20% da água doce estão na Amazônia", disse o pesquisador. "Não tem como chegar a 1,5ºC ou 2ºC sem a floresta. Cada árvore bombeia mil litros de água por dia para a atmosfera. São 400 bilhões de árvores."

Essa evaporação cria uma corrente de vapor d'água que bate na Cordilheira dos Andes e desde para o Centro-Sul do Brasil, irrigando a agricultura do Centro-Oeste e do Sudeste. Se olharmos o mapa do mundo, regiões nesta latitude são desérticas, do Chile à Austrália, passando pela África. Sem a máquina de fabricar chuva da Amazônia, o agronegócio acaba.

"Somos uma ilha com a maior parte da população no litoral", comentou o o embaixador do Reino Unido, Vijay Rangajaran. Se as calotas polares derreterem e o nível dos oceanos se elevar, as populações litorâneas e ribeirinhas terão de recuar numa escala sem precedentes. "O Brasil, a China e a Índia são países-chaves."

"O mundo precisa da Amazônia", concluiu o embaixador britânico, mais do que a Amazônia precisa do mundo, não só para conter o aquecimento global, mas como banco genético e riqueza natural de onde podem sair substâncias capazes de virar medicamentos para doenças hoje incuráveis.

Falta convencer os ruralistas e o futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que vê o aquecimento global como uma conspiração marxista para favorecer a China.

Brasil tem de integrar indústria e academia para impulsionar inovação tecnológica

O Brasil precisa criar incubadoras de empresas ao redor das universidades para investir em inovação tecnológica e modernizar seu parque industrial, concluíram os participantes do painel Brasil-Alemanha: Indústria 4.0 e Inovação. 

Este foi um dos temas dos Diálogos para o Amanhã, uma conferência realizada ontem pelo Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais), o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e a Fundação Konrad Adenauer.

Dois terços do produto interno bruto industrial alemão e grande parte da inovação tecnológica vêm de pequenas e médias empresas, afirmou o ministro-conselheiro da Embaixada da Alemanha, Christoph Bundscherer, ao falar no painel.

É um bom modelo para o Brasil. O superintendente de indústria e serviços do BNDES, Júlio Raimundo, que também participava do  contestou a ideia de "perda da importância da indústria", resultado da perda de peso da indústria no PIB.

Para retomar o crescimento num ritmo capaz de resolver os problemas do país, o Brasil precisa aumentar a produtividade e "grande parte do ganho de produtividade terá de vir da indústria", afirmou Júlio Raimundo.

"A Alemanha se destaca por ter pequenas e médias empresas muito fortes. Na renovação do tecido empresarial brasileiro, tem de haver um aprofundamento da automação. A indústria 4.0 [digitalização] é uma enorme oportunidade. O Brasil tem uma base industrial diversificada. É hora de renovar e inovar", argumentou o representante do BNDES.

Ainda há no Brasil "uma separação entre a indústria e a academia", comentou José Borges Frias, diretor de marketing estratégico da Siemens do Brasil.

É preciso seguir o modelo do Vale do Silício, na Califórnia, centro da revolução da informática, onde várias empresas de alta tecnologia surgiram ao redor da Universidade Stanford. O mesmo acontece em Cambridge, no estado de Massachusetts, nos EUA, onde ficam a Universidade de Harvard e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e na Universidade de Cambridge, na Inglaterra.

No ano 2000, fiz esta pergunta ao então ministro da Educação, Paulo Renato Souza, que tomou com uma pergunta capciosa para acusá-lo de privatização do ensino. Era a mentalidade arraigada no país, que via a universidade como uma catedral.

Frias vê uma mudança: "Nos últimos anos, há uma consciência da importância de aproximar indústria e academia, com a Internet das coisas." Júlio Raimundo também observa uma "integração pesquisa-negócio".

Brasil não fica entre maiores economias do mundo sem abertura comercial

O Brasil é hoje a oitava maior economia do mundo. Não estará entre as dez maiores dentro de dez anos se não fizer uma abertura comercial, advertiu ontem o secretário especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Hussein Kalout, cientista político formado pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. 

Kalout participou no Rio de Janeiro dos Diálogos para o Amanhã, promoção do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais), do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES) e da Fundação Konrad Adenauer.

Hoje o Brasil participa de apenas 1,2% do comércio global. "As 20 maiores economias do mundo têm em média 40% do produto interno bruto ligados ao comércio exterior; o Brasil, 25%", afirmou o secretário.

Setores fechados e monopolistas pressionam pelo retardamento de mudanças. "Vai haver perdas", reconheceu Kalout, "mas, de 57 setores industriais examinados, só três perderiam. O crescimento depois da abertura seria de mais 2 a 3 pontos percentuais no PIB."

A resistência é grande: "Não conheço ninguém que abra mão de subsídios. Não querem competir. Querem monopólios", observou. "O setor de informática tem uma das maiores tarifas. Cobramos tarifas sobre coisas que não produzimos. Não vamos dar um salto tecnológico sem desgravação."

"É necessário abrir, reduzir tarifas", acrescentou, fazendo ajustes tributários e uma reforma fiscal para compensar. Neste sentido, o secretário de Assuntos Estratégicos vê como positiva a integração do Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio (MDIC) ao Ministério da Economia a ser criado pelo futuro governo. "O MDIC era capturado por certos lobbies."

Kalout considera importante revisar a tarifa externa comum da união aduaneira do Mercosul.

No mesmo painel, o superintendente de Comércio Exterior do BNDES, Leonardo Pereira, afirmou que o banco estatal está pronto a oferecer financiamento para a abertura comercial, como faz há 27 anos. "A liberalização será benéfica para a defesa, indústria aeronáutica e setores de alto conteúdo tecnológico. O Brasil nunca vai produzir tudo o que gostaria."

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Diplomacia foi base para construir um país-continente como o Brasil

Sem poderio econômico e militar, o Brasil se tornou num país continental graças à sua diplomacia desde antes da independência. O Tratado de Madri, de 1750, deu o contorno básico do território nacional. O país manteve a unidade durante a independência e faz uma política externa pacífica orientada para o desenvolvimento, com uma "diplomacia do conhecimento"  e um "poder suave".

Esta é a ideia central do livro A diplomacia na construção do Brasil: 1750-2016, do embaixador e ex-ministro da Fazenda e ex-secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) Rubens Ricupero.

"Poucos países devem à diplomacia tanto como o Brasil", afirma o autor na Introdução. "Com seus acertos e erros, a diplomacia marcou profundamente a independência, o fim do tráfico de escravos, a inserção no mundo por meio de um regime de comércio, os fluxos migratórios, voluntários ou não, que constituíram a população, a consolidação da unidade, ameaçada pela instabilidade na região platina, a industrialização e o desenvolvimento econômico."

Pelo Tratado de Tordesilhas (1494), o Brasil terminaria num meridiano de Belém a Laguna, excluindo o Rio Grande do Sul, o Mato Grosso e a Amazônia. A ocupação de fato da terra mudou esta realidade e o Brasil tomou forma no Tratado de Madri (1750).

Em debate de apresentação do livro realizado pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, em 20 de outubro, o ex-secretário-geral do Itamaraty Marcos Azambuja considerou o trabalho histórico do Ministério das Relações Exteriores uma "diplomacia racional e equilibrada", mas fez uma série de críticas.

"Demoramos a reconhecer como legítimas as agendas ecológicas e direitos humanos", admitiu. A posição brasileira era defensiva, vendo qualquer crítica como interferência indevida em questões internas.

Como maiores erros, Azambuja citou o abandono da Liga das Nações, em 1926, porque o Brasil não foi admitido no Conselho, uma antiga aspiração anterior à ONU; e a iniciativa com a Turquia, em 2010, para tentar resolver o impasse criado pelo programa nuclear do Irã, sem considerar as potências com direito de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas (EUA, China, França, Reino Unido e Rússia), interessadas em manter seu monopólio das armas atômicas.

O ex-secretário-geral citou ainda "algumas canoas furadas na América Latina" e, num passado mais distante, "apoiamos a política colonial portuguesa e o voto contra o sionismo na ONU".

Azambuja manifestou receio "neste momento de desconstrução da ordem internacional, de populismo, armas nucleares, líderes carismáticos, e crise da globalização, a desconstrução de um mundo que nos deu paz estável e prosperidade."

Ao receber Rubens Ricupero, o ex-ministro das Relações Exteriores Celso Lafer, membro da ABL , começou agradecendo à Academia pelo "asilo cultural". O evento seria realizado no Palácio do Itamaraty, no Rio. Foi transferido por causa das críticas do embaixador Rubens Ricupero ao governo Michel Temer.

"Ricupero é merecedor do asilo cultural", observou Lafer. "Este é um livro de fôlego, de décadas de reflexão."

O ex-chanceler lembrou que no Tratado de Madri, em 1750, o brasileiro Alexandre de Gusmão, o "avô da diplomacia brasileira", teve atuação importante antes mesmo da independência.

"O Conselho de Estado do Império pediu uma diplomacia inteligente, sem vaidade; enérgica, sem arrogância; e franca, sem indiscrição. Celso Amorim fez exatamente o contrário", alfinetou Lafer, criticando o chanceler do governo Lula.

A moderna diplomacia brasileira é filha do Barão do Rio Branco, chanceler de 1902 a 1912, que resolveu os problemas de fronteiras com todos os dez países vizinhos e criou "uma diplomacia do conhecimento e da inteligência".

"Rio Branco produziu uma visão do Brasil: um país sem ambições territoriais, em paz, uma força de moderação e equilíbrio a serviço de um sistema internacional mais justo e equilibrado", resumiu o chanceler de Itamar Franco e de Fernando Henrique Cardoso.

Ricupero defendeu a "meritocracia" do Itamaraty, a elite do serviço público brasileiro, com "o concurso rigoroso e a promoção por merecimento" - e a comparou com a Operação Lava Jato, "juízes, procuradores e policiais que se chocam com tribunais superiores, com pessoas que se formaram em outro tempo. Os tribunais superiores recuam".

Ao chamar a Lava Jato de "tenentismo togado", o embaixador Ricupero fez referência à Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, em 5 de julho de 1922, que "arriscaram a própria vida na tentativa de mudar um sistema imutável".

O ano do centenário da independência, 1922, lembrou, tinha começado com a Semana de Arte Moderna de São Paulo, de 11 a 18 de fevereiro, o marco do Movimento Modernista brasileiro. Em 25 de março, em Niterói, foi fundado o Partido Comunista do Brasil.

"O bicentenário era como um prazo para criar um Brasil melhor", comentou Ricupero. "Vivemos um angustiante autoquestionamento depois de acreditar que tínhamos chegado ao porto: grau de investimento, Copa do Mundo, Olimpíada. Foi uma festa para Lula, ficaram as lágrimas para a sucessora. Faltou sustentabilidade."

Assim, reconhece o autor, o livro é "uma história de 700 páginas que acaba mal. Como será o Brasil? Como vai sair desta crise? A diplomacia não se faz no vácuo."

O embaixador citou o antropólogo Gilberto Freyre, que descreveu o Itamaraty como "mais do que um Ministério do Exterior, um sistema de valores superiormente nacionais" para atender às "aspirações da cultura, da grandeza territorial e populacional" do Brasil.

Na visão de Ricupero, Rio Branco foi um pioneiro no "poder suave". Defendia a moderação e a não intervenção nos assuntos internos de outros países. O embaixador citou um exemplo: "Na fronteira com o Uruguai na Lagoa Mirim e no Rio Jaguarão, as águas eram todas do Brasil. O Barão mudou isso e dividiu as águas."

O Brasil nunca teve as ambições territoriais expressas no Destino Manifesto dos EUA, a Santa Rússia ou a grandeza napoleônica. Mas a política externa é fundamental para a afirmação de todos os países: "Não é a cereja do bolo, faz parte da massa", comparou.

"Sem diplomacia, os EUA não teriam ganho a guerra da independência", afirmou Ricupero, recordando o apoio da França, inimiga da Grã-Bretanha, a potência colonial. "A diplomacia reflete a imagem de si próprio e como os países encaram os outros. Num livro sobre política externa norte-americana, nenhuma vez se fala em direito internacional: é o poder e a consciência do poder."

Em seguida, fez um contraste com o Brasil: "Os norte-americanos se imaginam como um povo pacífico, mas cada geração teve sua guerra. Nós somos mais fracos, fazemos uma diplomacia da fraqueza, herdada de Portugal, o único povo ibérico que resistiu a Castela."

Portugal e a Inglaterra tem a aliança mais antiga entre dois países independentes, apesar da relação ter sido desigual por causa do diferencial de poder. Na Segunda Guerra Mundial, apesar da neutralidade e da simpatia do ditador Oliveira Salazar pelo Eixo nazifascista, Portugal cedeu as ilhas dos Açores para a instalação de bases navais aliadas.

"Quando há um diferencial de poder muito grande, a arma dos fracos é o direito", notou Ricupero. "O Brasil não teve êxito na primeira guerra depois da independência, que levou à independência do Uruguai, em 1928."

A partir daí, o país passou a fazer alianças. Os futuros presidentes argentinos Bartolomeu Mitre e Domingo Sarmiento se juntaram ao Império do Brasil na guerra contra o ditador portenho Juan Manuel de Rosas, derrotado na Batalha de Monte Caseros, em 3 de fevereiro de 1852.

Na busca da esperança, o autor continuou o exame de consciência do livro: "A democracia americana gerou Donald Trump. É um retrocesso perigoso. Todas as nações passam por agonia e sofrimento. A vergonha é o ponto de partida de qualquer recuperação. O Brasil nos dói."

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Discutindo o marco civil da Internet

O Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) realiza em 16 de setembro, o debate “Governança da Internet: do Marco Civil à NETmundial”. O evento discutirá a aplicação da lei e sua relação com o documento final da NETGlobal. Estão confirmadas as presenças do deputado Alessandro Molon, da pesquisadora Adriana Abdenur, professora do IRI/PUC-Rio) e de Daniel Oppermann (Pesquisador do NUPRI-USP).

O debate acontecerá no Rio de Janeiro, a partir das 10h, na Avenida Pasteur, 250 – Urca (Auditório Manuel Maurício/Campus UFRJ – Praia Vermelha). 

As inscrições podem ser feitas pelo e-mail presidencia@cebri.org.br ou nos seguintes telefones: 2206-4417/4411 (Leonardo Paz ou Bárbara Brant).

terça-feira, 17 de abril de 2012

Embaixador alemão: "UE não aceita fracasso da Rio+20"

A Europa ainda sonha em salvar a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que será realizada no Rio de Janeiro de 20 a 22 de junho de 2012: "A União Europeia (UE) não aceita o fracasso da Rio+20. Queremos resultados concretos. Precisamos de mudanças estruturais", afirmou hoje o embaixador da Alemanha no Brasil, Wilfried Grolig.

No encerramento da conferência No Caminho da Rio+20, organizada pela Fundação Konrad Adenauer e o jornal O Estado de São Paulo, o embaixador alemão defendeu uma transição para "uma economia verde, com crescimento verde, com metas de desenvolvimento verde, como as Metas do Milênio" para reduzir a pobreza.

Uma proposta central da Europa é transformar o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) numa agência como a Organização Mundial da Saúde (OMS). É uma tentativa de salvar a Rio+20. Mas há pouco interesse no meio ambiente em meio à pior crise econômica internacional dos últimos 70 anos.

Os Estados Unidos e a China, as duas maiores economias, estão em ano eleitoral. Em plena campanha, dificilmente o presidente Barack Obama virá ao Rio para ser criticado pela total falta de compromisso do governo federal americano em adotar metas de redução das emissões dos gases que agravam o efeito estufa e ser acusado pela direita americana de fazer concessões.

A China é hoje um dos países que mais investem em energias limpas e renováveis, mas construiu seu modelo de desenvolvimento sem prestar a atenção ao meio ambiente. Foi um crescimento rápido e sujo. Seis das dez cidades mais poluídas do mundo ficam na China.

Como é o crescimento que legitima o poder absoluto do Partido Comunista, o governo chinês quer manter total controle sobre seu processo de desenvolvimento, sem concessões a acordos e organizações internacionais. As mudanças chinesas serão ditadas pelos chineses.

Já o Brasil mantém historicamente uma posição defensiva. Tenta destacar o aspecto social do desenvolvimento. Não quer se comprometer em acordos internacionais que impliquem qualquer cessão de soberania, por exemplo, uma convenção sobre florestas para preservar a Amazônia, prestes a enfrentar uma nova de devastação com o novo Código (Anti)Florestal em fase final de aprovação.

Para o embaixador aposentado Luiz Augusto Castro Neves, presidente do Conselho Curador do Centro Brasileiros de Relações Internacionais (Cebri), a Rio+20 será apenas uma revisão dos resultados da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio 92), quando mais de cem chefes de Estado e de governo se encontraram no Rio.

Na sua opinião, o mundo vive seu momento de maior instabilidade na era pós-Guerra Fria: "Uma década de unipolaridade foi prolífica na discussão de temas globais. A Rio 92 tornou a questão ambiental tema das relações internacionais. Houve a revisão do Tratado de Não Proliferação Nuclear. Os atentados de 2001 marcam o fim da unipolaridade inconteste dos EUA, revelam sua fragilidade".

Com o declínio da hiperpotência hegemônica, a emergência de novos grandes atores, como China, Índia e Brasil, a integração das cadeias produtivas pela globalização econômica e a migração do centro de gravidade da economia mundial para a Ásia, raciocina o embaixador Castro Neves, há uma indefinição de parâmetros: "Tudo isso torna a Rio+20 mais crítica".

O Brasil defende desenvolvimento sustentável que inclua os aspectos econômico, social e ambiental, disse o embaixador. Esse é o conceito lançado em 1987 pelo Relatório Brundtland. Refletindo a tradicional posição defensiva do Itamaraty em questão ambiental, chegou a falar que, no passado "queriam transformar países em desenvolvimento em grandes jardins botânicos e zoológicos".

Castro Neves entende que o sucesso da Rio+20 depende de um foco bem definido. Ele acredita que poderia ser a evolução rumo a uma economia com menor queima de carbono. É contra a transformação do Pnuma numa agência: "A criação de um órgão em si não é suficiente".

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

BRICS devem se concentrar numa agenda comum

Os países do grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) têm 25% da superfície da Terra e 40% de sua população. Seus produtos internos brutos somam US$ 8,5 trilhões. Mas é difícil criar uma agenda comum entre países tão diferentes, com histórias e culturas tão distintas quanto distantes.

Por isso, os BRICS devem se concentrar nos pontos de comum acordo, concluíram participantes de uma mesa redonda organizada pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e o Centro de Estudos e Pesquisas sobre os BRICS para discutir a agenda da quarta reunião de cúpula do grupo, marcada para 29 de março de 2012, em Nova Déli, a capital da Índia.

As preocupações centrais dos grandes países emergentes, que se tornam mais importantes com a crise econômica entre os ricos, são estabilidade, segurança e crescimento. Mesmo assim, é difícil chegar a um nível de consenso para forjar uma agenda comum, como ficou evidente na votação sobre a Síria no Conselho de Segurança das Nações.

Enquanto a China e a Rússia vetaram a resolução que condenava o regime e exigia a renúncia do ditador Bachar Assad, a África do Sul e a Índia votaram a favor, assim como todo o resto do Conselho de Segurança. O Brasil deixou de ser um membro permanente no fim do ano passado. Provavelmente votaria com a Índia e a África do Sul, ao lado da Europa, dos EUA e da Liga Árabe.

O grupo BRICS nasceu sem o S, que apresenta a África do Sul (South Africa). Foi ideia de um economista do hoje famigerado banco de investimento Goldman Sachs.

Em 2001, Jim O'Neill escreveu um artigo prevendo que Brasil, Rússia, Índia e China seriam responsáveis pela maior parte do crescimento da economia mundial nas próximas décadas. Em inglês, brick significa tijolo. São os tijolos que vão construir o futuro.

O que parecia óbvio, talvez com a exceção do Brasil, assumiu um caráter profético. O'Neill virou um dos gurus econômicos favoritos, e os países resolveram formar um grupo para aproveitar o momento de alta de seu poder real no sistema internacional.

Ao abrir o encontro realizado ontem na Associação Comercial do Rio de Janeiro, o embaixador Luiz Augusto Castro Neves, presidente do Conselho Curador do Cebri, observou que a Rússia busca se adaptar ao mundo pós-Guerra Fria, a China tornou-se a fábrica do mundo, a Índia tem uma importante economia de serviços e a África do Sul ainda procura seu papel na África depois do fim do apartheid.

Para o embaixador João Pontes Nogueira, supervisor geral do Centro de Estudos dos BRICS, com sede no Rio de Janeiro, o grupo deve "focar em como os países podem se ajudar e não na reforma do sistema internacional, coordenador suas posições em relação à crise na Europa e ao papel do Fundo Monetário Internacional".

O maior desafio, acrescentou, é consolidar a cooperação, por exemplo, adotando uma agenda comum para a Conferência Rio + 20", que vai retomar o debate internacional sobre desenvolvimento sustentável.

Apesar das limitações impostas por histórias e culturas tão diferentes, Alexandra Arkhangelkaya, da Academia de Ciências da Rússia, pesquisadora convidada do Centro de Estudos dos BRICS vê grandes oportunidades para "diálogo e cooperação". Cita como exemplos as mudanças necessárias na governança global para garantir a estabilidade financeira e manter o crescimento mundial, apoiando a Europa, se preciso, através do FMI e sob condições.

A Rússia está entrando para a Organização Mundial do Comércio (OMC) e defende "a paz e a segurança globais sem ingerência, sem diluir o princípio da soberania nacional, mas os BRICS não votaram juntos".

O desenvolvimento sustentável não é a preocupação de países obcecados com o crescimento elevado para combater a pobreza. A economia verde já é uma realidade. A China investe maciçamente em energias solar e eólica. Alexandra Arkhangelkaya vê oportunidade de cooperação tecnológica em segurança alimentar, água, saúde pública, carvão limpo, biodiversidade e nos desafios da urbanização.

"Os BRICS se encontram numa estrada multipolar", conclui a cientista política russa. "Não convergem em muitos pontos, mas têm um terreno comum a explorar".

Outros países, como a Indonésia e o México, já pediram acesso ao grupo, e o próprio O'Neill acredita que a Indonésia merece muito mais do que a África do Sul. É a maior economia do Sudeste Asiático e chegou a US$ 1 trilhão.

"Pode ter nascido no banco Goldman Sachs, mas tem significado real", comentou Ravni Thakur, da Universidade de Déli, pesquisadora convidada do Centro dos BRICS.

Na sua opinião, seria interessante a criação de um banco de desenvolvimento. Como a China tem hoje 70% dos PIBs do grupo somados, dependeria dos chineses: "Sem o C de China, os BRICS são apenas um queijo mole", um queijo francês tipo brie, ironizou a cientista política indiana.

Ravni Thakur defendeu ainda maior cooperação tecnológica e gerencial nas diferentes áreas de excelência de cada país, como a indústria da China, o setor de informática da Índia, as energias alternativas do Brasil e o desenvolvimento científico da Rússia.

"Até 2006, a China dava pouca importância à ideia", contou Zhou Zhiwei, especialista em Brasil da Academia de Ciências da China e pesquisador convidado do Centro dos BRICS. Com a crise internacional, a China dediciu aumentar sua cooperação.

Zhou lembrou que a cooperação Sul-Sul é uma tradição da política externa chinesa: "A China reconheceu o Brasil, na Índia, na Rússia e na África do Sul como potência econômicas regionais importantes.

Ao mesmo tempo, a China quer preservar a vitalidade da economia global como uma garantia de seu próprio crescimento, e isso inclui a governança global, embora o país ainda relute em assumir um papel mais destacado alegando que ainda está em desenvolvimento. Sua agenda é muito focada no interesse nacional, sem uma perspectiva global.

Em Nova Déli, Zhou acredita que "a China vai querer discutir a crise da União Europeia, maior mercado para suas exportações, o fortalecimento da coordenação macroeconômica, o combate ao protecionismo, a cooperação energética com o Brasil e a Rússia, a mudança do clima e a conferência Rio + 20".

A questão cambial não está na pauta chinesa, mas é a grande preocupação do Brasil e pode afetar a cooperação comercial, notou a coordenadora executiva do Cebri, Adriana de Queiroz. É um foco de tensão entre o Brasil e a China.

O problema do comércio nas moedas poderia ser resolvido, opinou o professor Alexander Zhebit, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), se as moedas fossem conversíveis.

"Não peçam muito. Em momentos de crise, é difícil encontrar terreno comum", alertou Alexandra Arkhangelskaya.

A saída, sintetizou Ravni Thakur, é construir a cooperação entre os BRICS tijolo a tijolo.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Atrito com EUA é inevitável, observa ex-chanceler

Na medida em que o Brasil cresce e tenta se afirmar como um ator global, o atrito com os Estados Unidos é inevitável, declarou ontem o ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia. Pelo tamanho e a diversidade de interesses dos dois países, sempre vai haver disputas políticas e comerciais.

"Olhando para trás, sempre tivemos problemas comerciais com os EUA, desde a industrialização, com café solúvel nos anos 60, calçados, têxteis e aço no fim dos anos 70, no fim dos 80 e nos 90 com suco de laranja, depois de uma grande geada na Flórida, e com os aviões da Embraer", recordou Lampreia, ao participar da mesa redonda Relações Brasil-EUA: Olhando para o Futuro, realizada pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) em parceria com o Centro de Política Hemisférica da Universidade de Miami.

Os conflitos, na sua opinião, nunca foram totalmente comerciais. Hoje, "a situação é a mesma, com produtos diferentes, milho, algodão, açúcar e outros produtos agrícolas. No açúcar, a couraça protecionista vem desde o início do embargo a Cuba. Tem quase 50 anos".

Sua previsão: "Esse tipo de desentendimento não vai cessar. Se nos tornarmos competitivos, haverá novos conflitos. São conflitos naturais de interesses."

A situação era muito pior, recordou o embaixador Lampreia, antes da criação da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1995, quando os EUA não tinham aderido a nenhum mecanismo de solução de controvérsias. Os americanos aplicavam retaliações unilaterais com base na Seção 301, uma emenda à Lei de Comércio dos EUA.

"Do lado político", acrescentou o ex-chanceler do governo Fernando Henrique Cardoso, "o Brasil nunca vai pertencer a mecanismos como a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Nunca será aliado ou parceiro fixo dos EUA. O Brasil é muito grande e tem outro nível de desenvolvimento".

Isso não precisa levar a atritos permanentes, a uma militância diplomática antiamericana, concluiu. "O Brasil precisa de uma relação equilibrada. Pode haver conflitos relativos à segurança internacional. O Brasil não assinou o protocolo adicional ao Tratado de Não Proliferação Nuclear. Se houver clareza de que o Brasil tem espaço próprio e está num processo de afirmação nacional, podemos ter uma boa relação. Os EUA estão aprendendo a conviver com a diversidade. Precisam de amigos".

segunda-feira, 6 de junho de 2011

"Política externa de Lula foi amoral", diz pesquisadora da Universidade de Miami

Ao privilegiar interesses e não valores e princípios, "a politica externa de Lula foi amoral", afirmou hoje a professora Susan Purcell, diretora do Centro de Política Hemisférica da Universidade de Miami, nos Estados Unidos, durante uma mesa redonda sobre as relações Brasil-EUA realizada em conjunto com o Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais).

No mesmo encontro, o ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia comentou não acreditar que o Brasil e os EUA possam ter uma relação sem conflitos, dado o tamanho e a diversidade de interesses dos dois países. Ele também não vê razão para os problemas irem muito além das fricções econômicas.

"Dilma Rousseff não tinha experiência prévia, mas demonstra um graude de independência surpreendente", observa a professora Susan Purcell. "É mais pragmática, menos ideológica".

Susan Purcell acredita que "o pragmatismo da política externa de Dilma vai depender do crescimento econômico. Enquanto a esquerda se beneficiar deste crescimento, a política externa será menos ideológica. Se o crescimento diminuir, vai aumentar a pressão do PT por maior intervenção estatal na economia e uma política externa mais ideológica", o que seria "menos atraente" para as relações bilaterais.

A pesquisadora compara com o presidente Barack Obama, que na sua opinião foi mais ideológico nos primeiros dois anos de governo, quando tinha maioria na Câmara e no Senado e conseguiu aprovar a reforma da saúde.

Como a oposição reconquistou a maioria na Câmara nas eleições de 2010, "Obama precisa de algum apoio republicano." Purcell acredita na reeleição do presidente americano, "se o desemprego não atrapalhar".

Ela lembra que os presidentes "Lula e George W. Bush tinham boa relação pessoal, mas a guerra do Iraque complicou a situação. O Brasil não estava interessado na Área de Livre Comércio das Américas, preferiu o comércio Sul-Sul, embora no comércio com os EUA o Brasil exporte mais produtos manufaturados".

Para Susan Purcell, "os EUA veem a política externa brasileira neste governo como menos provocativa e ideológica. Por sua própria história como mulher que foi presa e torturada, ela não aceita certas posições do Irã. Lula tinha uma política externa amoral. Por isso, se dava bem com ditadores".

Obama está mais à esquerda no espectro político americano. Tem uma visão multilateralista. Em princípio, tem mais afinidade com as posições brasileiras. Para se contrapor a Bush, começou melhorando as relações com ditadores, dando menos importância à democracia.

Os atritos, prossegue Purcell, vieram na questão de Honduras, onde inicialmente os EUA aderiram ao consenso latino-americano contra o golpe, mas depois reconheceram com alguns aliados a eleição de Porfirio Lobo, na questão das sete bases colombianas que serão usadas por militares americanos e especialmente na intermediação que o Brasil tentou fazer em relação ao programa nuclear do Irã.

"Dilma enfrentou a China mais do que Lula: disse que os chineses precisam comprar mais e investir mais no Brasil", analisou a diretora da Universidade de Miami.

Como Jeffrey Schott, do Instituto Peterson para a Economia Internacional, Susan Purcell entende que o Brasil perde oportunidades: "O volume de comércio dos EUA com a América Latina é de US$ 500 bilhões anuais, US$ 350 bilhões só entre EUA e México."

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Brasil e China cooperam na África

O Centro Brasileiro de Relações Internacionais http://www.cebri.org.br/ realiza nesta quarta-feira de 8h30 às 18h30 na sede da Confederação Nacional do Comércio, em Brasília, o seminário internacional Brasil e China na África: desafios da cooperação para o desenvolvimento.

A inscrição é gratuita. Pode ser feita através do site do Cebri, do email eventos@cebri.org.br ou do telefone 21-2219 4469.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Brasil, China e a Governança Global

O Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) realiza nesta quarta-feira, 17 de março, de 9h às 18h, na sede da Fecomércio, na Rua Marques de Abrantes 99, no Flamengo, o seminário internacional Brasil, China e a Arquitetura da Governança Global.

Mais detalhes podem ser obtidos no site do Cebri www.cebri.org.br ou pelo telefone 21-2219 4468.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

"Ben Laden já cumpriu sua missão"

Se o líder da rede terrorista Al Caeda, Ossama ben Laden, for morto amanhã, isso não fará a menor diferença para os Estados Unidos, afirmou hoje o pesquisador Marco Vicenzino, do Conselho de Relações Exteriores.

Em palestra no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), aqui no Rio, sobre a nova estratégia anunciada pelo presidente Barack Obama para a guerra no Afeganistão, ele sustentou que "Ben Laden já cumpriu sua missão" ao espalhar sua ideologista sanguinária, o jihadismo, pelo mundo inteiro.

Vicenzino reconhece que a situação é extremamente complexa. Os vizinhos poderosos interferem na guerra no Afeganistão: "O Paquistão quer controlar o Afeganistão" para se fortalecer no duelo existencial com a Índia. Concentra suas forças na fronteira com a Índia e deixa a fronteira oeste nas mãos de tribos e fundamentalistas muçulmanos.

"Há três milhões de exilados em campos de refugiados afegãos que estão no Paquistão desde a invasão soviética, em 1979", acrescentou o pesquisador. Eles e outros milhões que já voltaram para casa foram ou são educados em escolas religiosa onde só se estuda o Corão. "Nos anos 80 e 90, uma geração inteira foi educada nas madrassas".

Esses são os talebã (plural de taleb, do árabe, que significa estudante), que formaram uma milícia fundamentalista para combater a degradação dos costumes tradicionais muçulmanos, com uma ajuda do Paquistão e inicialmente apoio dos Estados Unidos, interessados na estabilidade da região.

Os salafistas, os fundamentalistas sunitas da rede terrorista Al Caeda, pregam uma interpretação antiga, conservadora e extremamente puritana do Corão. É a base da lei islâmica aplicada pela Polícia Religiosa da Arábia Saudita, modelo para o Ministério de Propagação da Virtude e Combate ao Vício do regime dos Talebã.

De 1994 a 1996, com pickups Toyota doadas pelos sauditas e rifles Kalachnikov, a milícia dos Talebã tomou "todo o país menos a Vale do Panjchir", uma região remota entre as montanhas onde se refugiou a Aliança do Norte, liderada por Ahmed Shah Massoud, assassinado em 9 de setembro de 2001.

Como os talebã "eram bem organizados e disciplinados", satisfaziam a um desejo de ordem", comentou Vicenzino.

Ao defender um diálogo para dividir o inimigo, o pesquisador considerou necessário "distinguir aqueles com quem se pode trabalhar. Nem todos os pachtunes são talebã. Não se pode repetir o erro cometido no Iraque com os baathistas, partidários de Saddam Hussein. Eu prefiro usar a palavras insurgentes a talebã. É difícil distinguir e junto há senhores da guerra e criminosos."

Há, claro, uma exploração das diferenças culturais para jogar a população local contra os estrangeiros.

Depois de derrubar o emirado islâmico dos Talebã em três semanas, a partir do ataque de 7 de outubro de 2001, o presidente George W. Bush desistiu de ir atrás de Ben Laden e desviou recursos para atacar o Iraque de Saddam Hussein, que não tinha qualquer relação com os atentados terroristas de 11 de setembro.

"Durante alguns anos, os EUA tiveram de 17 a 20 mil soldados no Afeganistão, um país maior do que o Iraque", acrescentou Vicenzino. "O maior desafio do Iraque é a reconciliação política. A produção de petróleo pode dobrar para 6 milhões de barris por dia. Eles podem ter um futuro brilhante". Primeiro, precisam se entender, o que é difícil em sociedades sem qualquer tradição democrática.

O Afeganistão não tem os mesmos recursos do Iraque. Nunca teve unidade nacional e governo central. É uma sociedade pré-moderna, tribal, com uma grande população miserável. Uma pesquisa recente indicou que os afegãos culpam mais a miséria do que o extremismo muçulmano pela guerra permanente em que o país vive há 30 anos.

A corrupção generalizada provoca raiva, frustração e cinismo numa população cansada de guerra que não confia no governo nem nos Talebã. O presidente Hamid Karzai acaba de se reeleger com uma fraude escandalosa denunciada pelas Nações Unidas.

terça-feira, 31 de março de 2009

Conexão Irã-Venezuela ameaça América Latina

Se os Estados Unidos ou Israel atacarem o Irã para tentar destruir o programa nuclear iraniano, a aliança da república islâmica com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, vai aumentar o risco de atentados terroristas na América Latina.

A advertência é do professor Ely Karmon, pesquisador sênior do Instituto Internacional Contra o Terrorismo de Israel, considerado um dos maiores especialistas internacionais em terrorismo. Karmon fez palestra nesta terça-feira no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), no Rio de Janeiro.

"O maior objetivo da rede terrorista Al Caeda é realizar grandes ataques nos Estados Unidos", raciocina o pesquisador, "mas a maioria dos ataques foi realizada em países muçulmanos. Para desestabilizar o Iraque, al Caeda matou mais xiitas do que americanos. A maioria dos terroristas suicidas era saudita".

Com os ataques a Madri e a Londres, a rede terrorista se vingou de países que apoiaram as guerras do então presidente americano George W. Bush. Na Espanha, o governo conservador perdeu as eleições de março de 2004 e o novo primeiro-ministro, o socialista José Luis Rodríguez Zapatero, retirou as forças espanholas do Iraque.

Para Ely Karmon, "os grupos que atacaram na Arábia Saudita não eram controlados por Ben Laden. Al Caeda não atacou mais nos EUA nem usou armas de destruição em massa. Sua capacidade tecnológica não é muito grande".

AMEAÇAS FUTURAS
1. Radicalização de muçulmanos que veem necessidade de justiça e vingança.

2. Ressurgimento d'al Caeda dos Talebã no Afeganistão e no Paquistão:
- o governo civil paquistanês não controla o vale do Swat nem as regiões tribais da fronteira entre os dois países;
- parte do serviço secreto militar paquistanês coopera com os jihadistas;
- as armas atômicas são controladas por militares e cientistas implicados na proliferação nuclear;
- eles matam sunitas, xiitas, mohajires...

Em todos os ataques terroristas no Reino Unido, havia gente treinada no Paquistão. Na Espanha e até mesmo em Israel, há paquistaneses envolvidos, observa o pesquisador.

Na ideologia de Ben Laden, "é absolutamente necessário libertar os territórios que um dia foram muçulmanos, inclusive El Andaluz, cerca de 90% da Península Ibérica. Na China, há 70 milhões de muçulmanos na província de Xinjiang. O império muçulmano pegaria um terço da China e um quarto da Rússia".

Como no mundo globalizado, a informação não tem fronteiras, ele mostra uma imagem de Ben Laden ao lado de Che Guevara num ônibus na Bolívia.

3. Coalizão Iraniana: há uma aliança hoje entre o Irã, a Síria, a milícia fundamentalista xiita libanesa Hesbolá e os fundamentalistas palestinos do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas).

Essa aliança começa em 1982, quando Israel invadiu o Líbano. Aí, nasceu o Hesbolá. Para esta milícia xiita, "o único eixo fundamental é Teerã-Damasco".

No Iraque, os sunitas apoiados pelo governo alauíta (xiita) da Síria atacam os xiitas apoiados pelo Irã. O Hamas, sunita, colabora com o Hesbolá, que é xiita. Em 1982, o governo sírio massacrou 20 mil extremistas muçulmanos na cidade de Hama. Por isso, argumenta Karmon, "a aliança entre a Síria e o Irã não é ideológica".

O Hamas é filho da Irmandade Muçulmana, o primeiro grupo do chamado islamismo político, fundado em 1928 no Egito por Hassan al-Bana. É o maior grupo de oposição à ditadura militar do presidente Hosni Mubarak, ex-comandante da Força Aérea, que está no poder há 27 anos, superando seus antecessores famosos, Gamal Abdel Nasser e Anwar Sadat.

Motor da coalizão, o Irã tem o Exército, a Guarda Revolucionária e uma ideologia mito clara:
• reunificar e reislamizar a umma, o conjunto de todos os muçulmanos;
• reimpor a charia, a lei ou direito islâmico;
• e libertar os territórios muçulmanos.

Karmon cita três conceitos do líder da Revolução Iraniana de 1979, o aiatolá Ruhollah Khomeini:
1. Os clérigos governam: jamais havia sido aplicado e não é totalmente um governo de religiosos. A Guarda Revolucionária tem cada vez mais influência.
2. Os sunitas e os xiitas devem se unificar: Karmon considera inaplicável. Em Teerã, cita como exemplo, "não há mesquitas sunitas".
3. A revolução deve ser exportada: é dever de todo o muçulmano usar todas as armas possíveis para impor o islamismo.

Ao permitir a ocupação da Embaixada dos EUA em Teerã durante 444 dias, de 4 de novembro de 1979 a 20 de janeiro de 1981, mantendo 52 diplomatas americanos como reféns, algo inédito na história diplomática, o aiatolá Khomeini influenciou e estimulou os muçulmanos radicais.

A aliança Irã-Síria-Hesbolá-Hamas é o que o pesquisador chama de "eixo da desestabilização".

Ele nota que "a maior parte do Iraque está sob o controle de dois partidos xiitas. Bagdá era a capital do Califado", o poderoso império muçulmano da Idade Média, que surge em 632, com a morte do profeta Maomé, até 1258, quando cai o Califado de Bagdá.

"Quando os EUA saírem, vai aumentar a influência do Irã", prevê o pesquisador.

Já o Hesbolá é "um Estado dentro do Estado", descreve Ely Karmon. "Depois de 10 anos de terror, se tornou em em 1992 um partido político aliado à Síria. Desde 2000, virou um exército com 30 mil mísseis fornecidos pelo Irã e pela Síria. Elegeu deputados e tem ministros com poder de veto no governo supostamente pró-ocidental do primeiro-ministro Fouad Siniora."

O processo de paz no Oriente Médio é paralisado por essa coalizão liderada pelo Irã. Karmon alega que o Irã tomou a decisão em 1991, quando foi realizada a Conferência de Madri para lançar o processo de paz no Oriente Médio, depois que uma grande aliança liderada pelos EUA expulsara as forças iraquianas do Kuwait.

"Dois meses depois dos acordos de Oslo, começou o terrorismo suicida palestino", afirma o analista. Quando o primeiro-ministro Yitzhak Rabin foi assassinado, em 5 de novembro de 1995, assumiu o primeiro-ministro Shimon Peres. Uma onda de atentados do Hamas e uma invasão ao Sul do Líbano levaram à vitória, em 1996, do linha dura Benjamin Netanyahu, que acaba com o processo de paz.

Em 2000, o primeiro-ministro Ehud Barak ainda tentou fazer um acordo definitivo com Yasser Arafat, sob mediação do presidente americano, Bill Clinton, em Camp David, nos EUA. O fracasso levou à segunda intifada, a Intifada Al-Acsa, o que Karmon vê como uma vitória do Hamas e dos rejeicionistas.

O Hamas venceu as eleições legislativas de 25 de janeiro de 2006 e chegou a formar o governo, mas acabou entrando em conflito com a Fatah, do presidente palestino, Mahmoud Abbas, e tomando o poder pela força na Faixa de Gaza.

Para o professor israelense, "tudo não passa da ambição hegemônica do Irã, que sonha em se tornar potência mundial". Ele acusa o presidente Ahmadinejad de pertencer a um grupo religioso xiita que espera o "retorno de Mahdi", o 12º Imã do xiismo. "O apocalipse é necessário para a volta do Messias".

Nesta linha revolucionária, o regime iraniano trabalha pela radicalização e islamização do Iraque, do Líbano e da Palestina, com forte impacto no Egito e na Jordânia, os dois únicos países árabes que assinaram acordos de paz com Israel, e risco de subversão das monarquias petroleiras do Golfo Pérsico. O Yêmen é 50% xiita e o Kuwait, 30%."

Com os mísseis de médio alcance já testados, o Irã é capaz de atingir a Europa.

"Em 2006", afirma o pesquisador, "Ahmadinejad decidiu ampliar a expansão da política externa da África para a América Latina, com o objetivo de combater a influência dos EUA na região".

Isso levou à aliança com o presidente da Venezuela e à abertura de 11 novas embaixadas no subcontinente. "Na Nicarágua, há 65 diplomatas iranianos". O presidente Evo Morales "reorientou o eixo da política de Oriente Médio da Bolívia do Cairo para Teerã".

O terrorista dos fundamentalistas muçulmanos ou jihadismo só cometeu dois atentados terroristas na América, em 1992 e 1994, contra a embaixada de Israel e uma associação cultural israelita, em Buenos Aires. Nos dois casos, as investigações apontaram para o Hesbolá e o Irã, levando a Justiça da Argentina a denunciar altos dirigentes iranianos, como o então presidente Ali Akbar Hachemi Rafsanjani.

"Quando um comandante do Hesbolá morreu, o governo Chávez fez declarações de apoio", acrescenta Karmon. "Há voos semanais regulares entre Caracas e Teerã. Já há campos de treinamento do Hesbolá em Guajira, na Venezuela, e venezuelanos sendo treinados no Líbano. O comandante Darnott, do Movimento Guaicapurano de Libertação Nacional, adotou uma ideologia islamo-cristã de libertação nacional."

Na Argentina, a aliança reúne o Movimento Patriótico Revolucionário Quebracho, bolivarista de esquerda, os árabes xiitas e militares de extrema direita como os ex-coronéis Aldo Rico e Mohamed Alí Seineldín, líderes dos caraspintadas que tentaram derrubar o presidente Raúl Alfonsín. Em 2006, o Quebracho impediu uma manifestação contra o Irã.

"A decisão estratégica do Irã seria política e economicamente legítima", pondera o professor israelense. "Mas esta infraestrutura pode ser usada contra os EUA e outros países da região."

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Manter multilateralismo é desafio para o Brasil

A defesa do multilateralismo e a integração sul-americana são os maiores desafios da diplomacia, afirmou o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, na abertura do seminário que festejou os 10 anos do Centro Brasileiro de Relações Internacionais no Palácio Itamaraty, no Rio de Janeiro, em 2 de setembro de 2008.

O chanceler brasileiro defendeu sua decisão de priorizar as negociações de liberalização comercial da Organização Mundial do Comércio (OMC), alegando que este é um foro internacional multipolar por excelência. As Nações Unidas são dominadas pelas grandes potências com direito de veto no Conselho de Segurança e as outras instituições econômicas internacionais - o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial - têm voto ponderado, com mais peso para os países ricos.

Amorim ainda tem uma última esperança de que seja possível chegar a um acordo na Rodada Doha da OMC até o final de setembro. Se não der, a conclusão da rodada ficará adiada por alguns anos, com risco de aumento do protecionismo e fragmentação do sistema multilateral de comércio.

Com a mudança de governo nos Estados Unidos, o embaixador acredita serem necessários dois a três. Neste período, podem surgir outras prioridades.

“A OMC é fundamental para nossa busca do multilateralismo”, declarou. “Essa é uma política de todos os governos brasileiros. O multilateralismo é a expressão de uma multipolaridade”.

Para o chanceler, a ONU tem “um papel inspiracional”. Sem negar a importância de grandes eventos como a Cúpula da Terra, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92), Amorim observa que o único órgão mandatório é o Conselho de Segurança, onde as grandes potências têm poder de veto.

“A OMC, ainda que imperfeita, tem mecanismos de solução de controvérsia”, argumentou o chanceler. “As ações de implementação de suas decisões lhe dão um poder que outras organizações internacionais não têm.”

Na sua visão, a política externa deve ter um “caráter universalista”, no sentido de melhorar as relações com todos os outros países.

Só neste ano, lembrou o ministro, o presidente Lula foi duas vezes à Ásia. A crescente importância internacional do Brasil traz cada vez mais desafios: “A presença do Brasil é requisitada.”

Amorim rejeitou no dia seguinte a acusação do governador de São Paulo, José Serra, de que a política externa do governo Lula fracassou ao não fechar novos acordos comerciais.

“O Brasil nunca deixou de buscar a abertura de mercados em outras areas”, sustentou o ministro. “O primeiro memorando de entendimento com a União Européia foi feito no governo Itamar. Quando estivemos perto de um acordo, o setor agrícola brasileiro considerou a abertura insuficiente”.

Na sua opinião, “as principais distorções do comércio internacional, como os subsídios agrícolas, só podem ser resolvidos na OMC, através de um acordo conjunto. Se queremos valorizar o sistema multilateral, a OMC é importante. Se não conseguirmos chegar a um acordo em comércio, em segurança, o que dizer de outras questões, como mudança do clima…”

Com a fragmentação do sistema multilateral, “ficaremos sujeitos a ações unilaterais”, profetizou. “Sem a ONU, algumas ações internacionais seriam impossíveis, como a missão de paz no Haiti, uma nova forma de missão de paz, com ênfase no desenvolvimento social.”

A integração sul-americana é importante porque “eu moro aqui”, resumiu o chanceler brasileiro: “A idéia de que a gente pode se isolar… Pode haver algum descolamento mas, do ponto de vista mais amplo, é uma necessidade, um desdobramento do Mercosul. O Brasil não pode mais ficar limitado ao Cone Sul.”

Amorim entende que o Conselho de Defesa recebeu “excessiva exposição midiática”, mas festejou: “É a primeira vez em 200 anos que temos um tratado assinado por toda a América do Sul.” E defende “uma integração lastreada em fatos reais e na prática comercial. A América do Sul comprou 20% das nossas exportações e 93% das exportações de manufaturados; os EUA, menos de 15%”.

Este esforço de integração “coincide com o aprofundamento da democracia depois de um ciclo de ditaduras, com ressentimentos em relação a potências externas”.

O ministro contou que passa três a quatro horas por dia ao telefone para falar dos problemas da região: “O remédio não é se retrair, é organizar nossa região. A solução do conflito Colômbia-Equador foi uma rara resolução da OEA (Organização dos Estados Americanos) aprovada por consenso com o apoio dos EUA”.

A própria OMC é um exemplo para Amorim: “Antes os EUA e a Europa se reuniam, depois chamavam o Japão e o Canadá. Hoje, o Brasil e a Índia estão no centro das negociações. O Brasil está lá também por sua capacidade de articulação política e diplomática, sua luta por justiça social e sua seriedade econômica.”

• Na mesa redonda sobre O Brasil na América Latina, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores, sustentou que diversos países do subcontinente não terão condições de se desenvolver sem a ajuda dos vizinhos maiores e mais ricos. Ele antevê um futuro com o mundo dividido em blocos.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Governo chinês troca ideologia por pragmatismo

Na onda do crescimento espetacular nas últimas décadas, a China se tornou um importante ator global nas relações internacionais e sofisticou sua política externa, trocando a ideologia pelo pragmatismo, observou o professor David Shambaugh, ao falar sobre A Ascensão da China em palestra no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), no Rio de Janeiro.

Sob a liderança do presidente Hu Jintao, houve mudanças significativas na política externa chinesa:
• a prioridade é a relação com os Estados Unidos, depois com os vizinhos e a Europa;
• há uma preocupação global, o que inclui a África, a América Latina e o Oriente Médio;
• o processo de tomada de decisões é mais compartilhado;
• outros líderes viajam ao exterior, além do presidente, do primeiro-ministro e do ministro do Exterior.

Shambaugh elogia a política externa de Hu. Não há grandes inimigos, apenas algumas tensões comerciais com os EUA e a Europa. Mas o professor vê uma deterioração nas relações sino-russas. Há cerca de um ano, a Rússia parou de vender armas para a China, talvez com medo de armar um vizinho cada vez mais poderoso.

“Houve mudanças impressionantes nos últimos 20, 30 anos”, constata Shambaugh, “a começar pela qualidade dos diplomatas chineses. Eles não era muito bem-educados e só falavam em ‘Taiwan, Taiwan, Taiwan...’ Liam textos que traziam prontos em conferências internacionais, num discurso ideológico surrado”.

Em vez de negociar, marcavam posição.

“Agora, são cultos e sofisticados, bem-preparados, inclusive com especialização no exterior, e muito ativos nas instituições multilaterais. Estão mais interessados em ação do que no discurso”, comentou o professor.

A relação EUA-China é a mais importante relações bilateral hoje no mundo. Há meses, foi criada uma linha telefônica direta usada com freqüência. Os presidentes George W. Bush e Hu Jintao falam seguidamente e se encontram três a quatro vezes por ano. Há um diálogo estratégico realizado duas vezes por ano com a participação de 25 ministros.

Apesar das fortes suspeitas mútuas entre os militares e serviços de informações dos dois países, há questões importantes de interesse comum, como a segurança e a estabilidade da Ásia, o terrorismo e o programa nuclear da Coréia do Norte.

Nas relações com a União Européia, há problemas comerciais, mas houve uma melhora sensível. A UE é hoje o segundo maior parceiro comercial da China.

Há 170 mil chineses estudando na Europa e 35 grupos de trabalho com a Comissão Européia, discutindo comércio, direitos humanos, o Dalai Lama, o embargo comercial e o status de economia de mercado, perseguido pela China.

“O então presidente da Argentina, Néstor Kirchner, concedeu o status em agosto de 2004 sem perceber as conseqüências reais”, assinalou Shambaugh. “Agora, impôs restrições.”

As relações da China com o Japão e Taiwan, inimigos históricos, melhoraram muito nos últimos meses. No período mais radical da revolução comunista, no começo da Grande Revolução Cultural Proletária, em 1966, a China usava uma retórica agressiva e se isolou do mundo. Tinha uma série de problemas com vizinhos.

Quem rompeu o isolamento foi o então secretário de Estado americano Henry Kissinger, que viu uma oportunidade de atrair a China, que se afastara da União Soviética, com quem quase entrou em guerra em 1969. Agora, a China assina pactos de não-agressão com os vizinhos.

A relação com o Japão, essencial para a estabilidade da Ásia, abalada pelo nacionalismo do primeiro-ministro Junichiro Koizumi (2001-06), que visitou várias vezes o santuário xintoísta Yasukuni, onde estão enterrados 14 criminosos de guerra japoneses da Segunda Mundial. Melhorou bastante nos últimos anos, meses e semanas.

O regime comunista chinês não aderiu ao Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis e chegou a difundir sua tecnologia nuclear militar para o Paquistão e a Coréia do Norte.

“Hoje, a China faz parte de 280 organizações internacionais, mas não da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) nem do Grupo dos Oito”, notou o professor.

“É um membro cooperativo. Ajuda a forjar as instituições internacionais e não se opõe às alianças dos EUA na Ásia”, acrescentou. “Tem 2 mil soldados participando de operações de paz em 20 países, inclusive no Haiti, com quem a China não tem relações diplomáticas.”

A China apóia a reforma do Conselho de Segurança da ONU, mas vetou sua ampliação por causa do Japão. Quer “democratizar” a ONU, o que significa reduzir o poder americano.

Usa o poder de veto para impedir decisões importantes de interesse do Ocidente como uma ação mais decisiva contra o Sudão pelo genocídio de Darfur ou contra a ditadura do Zimbábue. Como a Rússia, defende o princípio da não-intervenção nos assuntos internos de outros países, revelando inclusive certo temor de que o direito internacional humanitário seja usado contra si.

Há também as relações internacionais do Partido Comunista da China com partidos do mundo inteiro. Só não tem relações com partidos fascistas e os dois grandes partidos americanos. O Brasil já recebeu a visita de cinco membros do atual Politburo do Comitê Central do PC chinês.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

"Economia da China está se descolando dos EUA"

A economia da China está se descolando da americana e há uma década o país é uma das locomotivas da economia mundial, afirmou hoje o embaixador do Brasil em Beijim, Luiz Augusto Castro Neves, em palestra realizada hoje no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), no Rio de Janeiro.

Com uma perspectiva otimista, o embaixador previu que o impacto da crise econômica nos Estados Unidos será menor do que se teme, especialmente em grandes países em desenvolvimento como o Brasil e a China.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Mohamed elBaradei vem ao Rio


O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, Mohamed ElBaradei, ganhador do Prêmio Nobel da Paz 2005 junto com a AIEA, vem ao Rio de Janeiro participar de uma conferência internacional sobre Energia Nuclear na América Latina e na Europa, organizada pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais, a ser realizada em 6 e 7 de dezembro deste ano, na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro.

ElBaradei, um embaixador egípcio, está no olho do furacão gerado pela acusação dos Estados Unidos de que o programa nuclear do Irã visa ao desenvolvimento de armas atômicas. Ele deu um ultimato ao regime dos aiatolás para que abra suas instalações à AIEA, um órgão da ONU.

Antes da guerra do Iraque, seus relatórios desmentiram todas as alegações americanas de que a ditadura de Saddam Hussein teria retomada seu programa nuclear para fabricar armas atômicas. ElBaradei considerou uma falsificação grosseira uma suposta tentativa iraquiana de comprar urânio no Níger, atribuída inicialmente ao serviço secreto da Itália.

A alegação foi usada pelo presidente George Walker Bush no discurso sobre o Estado da União, em janeiro de 2002, preparando a opinião pública americana para a guerra. Mesmo depois de derrubada por um relatório do embaixador americano Joseph Wilson, Bush voltou a tocar no assunto, atribuindo a informação ao serviço secreto britânico.

Em junho de 2003, quando ficou evidente que não havia armas de destruição em massa no Iraque, Wilson publicou artigo no jornal The New York Times. O governo Bush retaliou revelando que sua mulher, Valerie Plame, era agente da CIA, o que gerou o escândalo conhecido como Plamegate. É crime contra a segurança nacional dos EUA revelar a identidade de espiões.

O chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney, Lewis Libby, foi condenado por falso testemunho, perjúrio e obstrução de Justiça. Recebeu o indulto presidencial de Bush.

Na semana passada, Israel pediu a demissão de ElBaradei, declarando-o incapaz de negociar a questão nuclear iraniana por ter declarado que não há provas de que a república islâmica esteja mesmo fazendo a bomba.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Desencontros no Cone Sul

"Pedir coerência à Argentina é o mesmo que pedir liderança ao Brasil."

(Roberto Bouzas, economista argentino, professor da Universidad San Andrés, no seminário O Brasil na América Latina, do Centro Brasileiro de Relações Internacionais - Cebri, comentando a crise do Mercosul)

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

"Hillary é favorita para a Casa Branca"

No momento, a senadora e ex-primeira-dama Hillary Clinton é a favorita para vencer a eleição presidencial de 2008 nos Estados Unidos, afirmou ontem o jornalista Paulo Sotero, diretor do programa de Brasil do Woodrow Wilson Center, em Washington, em seminário realizado no Centro Brasileiro de Relações Internacionais, no Rio.

Ele acredita que só a rejeição da senadora poderia levar os caciques do Partido Democrata, franco favorito por causa do fracasso do governo George W. Bush, a impor a candidatuta do vice-presidente Al Gore, cada vez mais popular por sua campanha contra o aquecimento global.

Sotero vê um "ocaso da era conservadora", alegando que "a radicalização da direita religiosa provocou uma reação. O presidente George Walker Bush usou seu governo para instrumentalizar grupos religiosos".

Para invadir o Iraque, Bush manipulou a hipersensbilidade pós-11 de setembro de 2001, observou Sotero: "Quando os EUA entraram na Segunda Guerra Mundial, o presidente Franklin Roosevelt disse: 'Só devemos temer o medo'. Bush usou o medo como instrumento de controle político. O Iraque foi um enorme erro. É mais um celeiro de terroristas. O Irã está mais forte hoje que em 10 de setembro de 2001. De acordo com os serviços secretos, a ameaça d'al Caeda é hoje muito maior."

Diante deste Síndrome do Iraque que levou Bush a invocar o Vietnã como exemplo de uma retirada prematura, a guerra dominará a campanha para a eleição presidencial de 2008.

O ex-subchefe da Casa Civil da Casa Branca, Karl Rove, o ideólogo e marketeiro de Bush, que acaba de deixar o cargo e a posição de eminência parda do desgoverno Bush "queria criar uma maioria permanente do Partido Republicano", acrescentou Sotero. "Hoje, metade do eleitorado vota democrata".

"Tudo aponta para a senadora Hillary Clinton", analisa o jornalista. "Seu maior adversário, o senador Barack Obama, tem talento, carisma e uma incrível capacidade de arrecadação, mas não traduz isso em votos. Tem o ex-senador John Edwards, com um discurso populista em cima da pobreza. Al Gore é um fator importante. Fico imaginando que ele ganhará o Prêmio Nobel da paz e aproveitará a oportunidade para se lançar candidato".

Hillary tem um problema: uma forte rejeição. "Talvez, se Hillary chegar à convenção do partido com rejeição alta, os caciques democratas queiram impor Gore. Há uma sensação de que ele foi injustiçado. Deveria ter vencido a eleição de 2000."

O processo de seleção dos candidatos em eleições primárias e convenções estaduais está em fase de esgotamento e mudança, anunciou Sotero. As votações estão sendo antecipadas em tentativas dos diferentes estados de aumentar seu peso na escolha dos candidatos à Casa Branca. "Em 5 de fevereiro, haverá primárias ou convenções em 18 estados. Talvez já tenhamos os favoritos".

No Partido Republicano, "o desânimo é tanto que surgem novos candidatos a cada semana. O último é o ex-senador Fred Thompson". Já estavam na disputa o ex-prefeito de Nova Iorque Ruldolph Giuliani, o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney e o senador Joe McCain, veterano do Vietnã, onde foi prisioneiro de guerra dos vietcongues durante anos.

Um terceiro cenário seria uma eleição presidencial com três candidatos nova-iorquinos: Hillary, Giuliani e o atual prefeito de Nova Iorque, Michael Bloomberg, bilionário, dono de uma das principais agências de notícias econômicas. Era democrata. Elegeu-se prefeito como republicano. Agora virou independente.

A História dos EUA mostra que os independentes não ganham a eleição presidencial mas influenciam o resultado final, lembrou o diretor do Instituto Brasil do Woodrow Wilson Center. "Ross Perot foi deciviso para a eleição de Bill Clinton em 1992", contra George Bush, o pai, e Ralph Nader para a vitória de Bush, filho, em 2000".

Na avaliação de Paulo Sotero, Hillary na Casa Branca seria bom para o Brasil: "Seria uma novidade. O primeiro presidente dos EUA que sabe quem somos, onde fica do Brasil, conhece os programas brasileiros de biocombustíveis e a criatividade dos programas sociais brasileiros".

Independentemente do resultado para a Presidência, o jornalista prevê uma ampliação da maioria democratas na Câmara e no Senado dos EUA, "um problema para nossa política comercial porque os democratas são mais protecionistas".

Com maioria republicana, antes da eleição de novembro passado, a Autorização para Promoção Comercial passou por apenas um voto e o Acordo de Livre Comércio da América Central foi aprovado com dois votos de vantagem na Câmara e a oposição de Hillary e de Obama no Senado, lembrou.

Há três acordos bilaterais com países latino-americanos na fila: Colômbia, Peru, e Panamá. Por causa dos escândalos envolvendo o governo Álvaro Uribe com grupos paramilitares de direita acusados de terrorismo, hoje é mais provável que o acordo com a Colômbia não seja aprovado.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Segurança foi destaque no Pan-Americano do Rio

Além do sucesso do espetáculo e do recorde de medalhas dos atletas brasileiros, o esquema de segurança armado para os Jogos Pan-Americanos mostra que o Rio de Janeiro não precisa do Exército para fazer papel de polícia no combate à violência, observou ontem o professor Clóvis Brigagão, diretor do Grupo de Análise e Prevenção de Conflitos da Universidade Cândido Mendes.

"O entrosamento perfeito entre a Força Nacional de Seguirança e a Polícia do Rio mostra que não precisamos das Forças Armadas", comentou Brigagão em debate sobre Lições da Segurança Internacional para a Segurança Pública: Missões de Paz, Garantia da Lei e da Ordem e o Emprego das Forças Armadas, realizado no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), no Rio.