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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Hoje na História do Mundo: 3 de Junho

REI ABDICA POR AMOR

    Em 1937, o antigo rei Eduardo VIII, do Reino Unido, que abdica por amar uma divorciada e se torna Duque de Windsor, casa com a norte-americana Wallis Warfield no Castelo de Cande, em Monts, na França.

O amor abala a monarquia britânica. O casamento é modesto para os padrões da realeza, sem pompa nem festa popular. A lua de mel é no Castelo de Wasserloenburg, na Áustria.

Edward Albert Christian George Andrew Patrick David, filho mais velho do rei George V, nasce em 23 de julho de 1894 em Neilly-sur-Seine, na França, e ascende ao trono em 20 de janeiro de 1936 como Rei do Reino Unido e dos Domínios Britânicos e Imperador da Índia.

Meses depois, provoca uma crise constitucional ao pedir em casamento a socialite norte-americana Wallis Simpson, cujo sobrenome de solteira é Warfield. Ela se torna amante do rei em 1934, quando ele ainda é o príncipe de Gales e ela ainda está casada com o segundo marido, Ernest Aldrich Simpson.

Como rei e chefe da Igreja da Inglaterra, que proibia o casamento de divorciados com o ex-cônjuge ainda vivo, é uma união impossível. Em 11 de dezembro de 1936, Eduardo VIII abdica, abrindo mão do trono para si e seus descendentes e declara: "Descobri ser impossível carregar o pesado fardo de responsabilidade e desempenhar meus deveres como rei e imperador como gostaria de fazer sem a ajuda e o apoio da mulher que amo".

Eduardo VIII é sucedido pelo irmão mais novo, príncipe Albert, que adota o nome real de George VI e é pai da rainha Elizabeth II, que se torna herdeira do trono aos dez anos de idade.

PASSEIO NO ESPAÇO

    Em 1965, Edward White se torna o primeiro astronauta norte-americano a sair da nave e caminhar no espaço, depois do cosmonauta soviético Alexei Leonov. 

No início da corrida espacial, a União Soviética toma a frente. Lança o primeiro satélite artificial, o Sputnik, em 4 de outubro de 1957, envia o primeiro homem ao espaço, Yuri Gagarin, em 12 de abril de 1961, e o primeiro a passear no espaço, Alexei Leonov, em 18 de março de 1965.

Piloto e engenheiro aeroespecial, White é escolhido para ir ao espaço na nave Gemini 4, quando sai da nave. Voltaria ao espaço no primeiro voo do Projeto Apolo, que levou o homem à Lua, mas morre num incêndio na cabine da Apolo 1 com seus colegas Gus Grisson e Roger Chaffee na primeira morte de astronautas da era espacial.

O cosmonauta russo Vladimir Komarov é o primeiro a morrer numa missão espacial, em 24 de abril de 1967, quando o paraquedas não abre e a nave Soyuz 1 se espatifa no solo.

MASSACRE NA PRAÇA DA PAZ

     Em 1989, começa o Massacre na Praça da Paz Celestial, em Beijim, na China, quando o Exército Popular de Libertação (EPL) ataca um acampamento de estudantes e outros chineses que lutam por liberdade e democracia

O movimento se inicia em 15 de abril, deflagrado pela morte do ex-secretário-geral do Partido Comunista Hu Yaobang, e termina com a queda do secretário-geral Zhao Ziyang, ambos a favor de reformas liberalizantes.

Em 17 de abril, os estudantes começam a se reunir na praça central da capital chinesa. Nos dias seguintes, as manifestações se ampliaram para outras cidades e universidades. Em 22 de abril, mais de 100 mil estudantes se concentram diante do Grande Salão do Povo e pedem para falar com o primeiro-ministro linha-dura Li Peng, que não aparece.

Quando Zhao vai à Coreia do Norte, em 25 de abril, Li convoca uma reunião do Politburo e convence o supremo líder do regime, Deng Xiaoping, de que o objetivo dos estudantes é derrubar o regime comunista. Deng decide que a tolerância acabou.

No dia seguinte, o Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista, publica o editorial A Necessidade de Adotar uma Posição Clara contra a Agitação: "Esta é uma conspiração bem planejada...para confundir o povo e perturbar a nação...O objetivo real é rejeitar o PC e o sistema socialista".

A reação é mais protesto. Zhao defende a negociação e uma resposta às reclamações legítimas dos estudantes, inclusive uma reforma política. Li alega ser necessário primeiro restabelecer a estabilidade social.

Dezenas de milhares de estudantes se reúnem na praça para festejar os 70 anos do Movimento Quatro de Maio, um protesto contra o Tratado de Versalhes que está na origem do PC chinês. Em encontro com executivos financeiros, Zhao exalta o patriotismo dos estudantes.

Em 13 de maio, dois dias antes de uma visita do secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachev, cerca de 160 estudantes entram em greve de fome e divulgam um manifesto: "A nação está em crise – assolada por uma inflação galopante, negócios ilegais com enriquecimento ilícito de funcionários, abuso de poder, burocratas corruptos, a fuga de gente boa para outros países e a deterioração da segurança pública. Compatriotas que dão valor à moralidade, ouçam nossas vozes!"

A greve de fome ganha força.

Gorbachev chega em 15 de maio para o primeiro encontro de cúpula sino-soviético desde 1959. Com a praça ocupada pelos estudantes, não pode ser recebido como é de praxe. Os líderes chineses, sabendo do que se passa na URSS com as reformas de Gorbachev, têm medo.

Mais de 3 mil chineses participam da greve de fome. Zhao insiste no diálogo com os estudantes e na necessidade de mais reformas: "A grande maioria dos estudantes é patriótica e e está sinceramente preocupada com o país. Podemos não aprovar todos os seus métodos, mas as exigências de promover a democracia, aprofundar as reformas e erradicar a corrupção são bastante razoáveis."

Li rejeita a proposta: "O objetivo é derrubar o PC chinês e repudiar totalmente a ditadura popular democrática."

Durante uma reunião decisiva na casa do líder supremo do regime, Deng Xiaoping, o arquiteto das reformas que modernizaram a China e a transformaram em superpotência, Zhao diz que tem 1,2 bilhão de pessoas a seu lado, toda a população do país.

Deng, cujo único cargo na época é presidente do Comitê Militar Central, responde: "Não tem, não, e eu tenho 3,2 milhões", o contingente do EPL. Com medo da dissolução do regime, Deng apoia Li Peng, que decreta lei marcial e manda o Exército atacar a manifestação.

Em 18 de maio, Zhao visita estudantes em greve de fome hospitalizados. Li se encontra com estudantes, mas o diálogo fracassa. Durante reunião de que Zhao não participa, a velha guarda e o Politburo aprovam a decretação de lei marcial.

Ao ficar sabendo, no dia seguinte, em vez de acabar com a greve de fome, os estudantes reúnem 1,2 milhão de pessoas na Praça da Paz Celestial. Zhao vai à praça falar com os estudantes. À noite, Li Peng anuncia a lei marcial na televisão.

Pela primeira vez em 40 anos de regime comunista, em 20 de maio, o EPL tenta ocupar Beijim, mas civis barram a passagem. Durante três dias, os soldados não conseguem nem chegar à praça nem sair da capital chinesa.

Em 2 de junho, a cúpula do partido decide mandar o EPL dispersar os estudantes. Na noite do dia seguinte, os primeiros tiros são disparados. O massacre vai até o dia 4.

Hoje, a China proíbe as manifestações em Hong Kong, que todos os anos fazia uma procissão luminosa em homenagem aos mortos. O número total de mortos é desconhecido, estimado entre centenas e 10 mil.

TERROR EM LONDRES

    Em 2017, terroristas muçulmanos matam oito pessoas e ferem outras 48 na Ponte de Londres. 

Depois de jogar uma caminhonete sobre pedestres na ponte e numa área de pedestres, três terroristas saem armados de facas, atacam pessoas que estão na área e são mortos pela Polícia Metropolitana. O grupo terrorista Estado Islâmico reivindica a responsabilidade pelo ataque.

Como as armas do fogo estão proibidas no Reino Unido por causa do massacre de 16 crianças e um professor numa escola primária de Dunblane, na Escócia, em 13 de março de 1996, os terroristas não conseguem armas de fogo, que tornariam a ação terrorista ainda mais trágica.

MORTE DE UMA LENDA

    EM 2017, Muhammad Ali, um dos maiores boxeadores de todos os tempos morre em Phoenix, no estado do Arizona, nos Estados Unidos, aos 74 anos.

Ali nasce em Louisville, no Kentucky, em 17 de janeiro de 1942. É batizado como Cassius Marcelus Clay Jr. Aos 22 anos, em 1964, surpreende o mundo ao vencer Sonny Liston e se tornar campeão mundial dos pesos pesados. 

Sob a influência do líder negro Malcolm-X, meses depois se converte ao Islã, muda de nome para Muhammad Ali. Não aceita o sobrenome herdado do senhor de escravos que era dono de sua família, como era o padrão nos EUA.

Aos 18 anos, ele ganha a medalha de ouro na Olimpíada de Roma. Até hoje, é o único peso-pesado a ser três vezes campeão, em 1964, 1974 e 1978.

Arrogante, pretensioso e cheio de si, Cassius Clay declara ao bater Liston pela primeira vez, em 1964: "Sou o maior do mundo." Na revanche contra Liston, promete um nocaute em 90 segundos e cumpre a promessa. Muita gente ainda está entrando no ginásio quando a luta acaba. Nasce uma lenda do esporte.


Ao descrever seu estilo, declara: "Flutuo como uma borboleta e ferro como uma abelha."

Politicamente consciente, Ali lutou contra o racismo e se recusou a lutar no Vietnã: "Nenhum vietcongue me chamou de crioulo para eu atirar nele." 

Como desertor, tem o título mundial cassado. Em 1971, a Suprema Corte aceita seu recurso. Todas as acusações e punições são anuladas. É um caso clássico de objeção de consciência.

Ao tentar reconquistar seu título, Ali perde por pontos uma luta memorável com Joe Frazier em que chega a cair na lona e dá vários socos curtos (jabs) na testa do adversário de menor estatura para mantê-lo à distância. É sua primeira derrota como profissional. Depois da luta, Frazier passa longo tempo hospitalizado. Mas Ali fica sem o título.

Ali voltaria a ser o maior do mundo na Luta do Século contra George Foreman realizada em 30 de setembro de 1974 em Kinshasa, a capital do Zaire, na África, e imortalizada no livro A Luta, do escritor americano Norman Mailer.

Ele chegou com todo o seu espírito e sua ironia: "Se você pensa que [o presidente americano Richard] Nixon surpreendeu o mundo ao renunciar, espere até eu esmagar Foreman."

Mais jovem e mais forte, Foreman tem 25 anos e Ali 32. O campeão submete o ex-campeão a uma saraivada de golpes desde o início da luta. Com toda sua técnica, talento e agilidade com os pés, Ali se defende como pode até dar o bote fatal no fim do oitavo assalto. Naquele momento, Ali já lidera na contagem de todos os jurados.

Em declínio, ele perde por pontos para Leon Spinks com os jurados divididos em fevereiro de 1978 em Las Vegas. Na revanche, em Nova Orleans, Ali ganha por decisão unânime dos jurados, tornando-se o único lutador até hoje a ser três vezes campeão mundial da categoria peso pesado.

Em 27 de julho de 1979, Ali anuncia sua aposentadoria. Ainda trava uma luta patética com Larry Holmes em outubro de 1980, que teria contribuído para o Mal de Parkinson, diagnosticado em 1984. A doença é atribuída às pancadas na cabeça que um boxer recebe, especialmente na categoria peso pesado.

Em 1996, Ali acende a pira da Olimpíada de Atlanta, nos EUA.

Aos 74 anos, Muhammad Ali fica internado dois dias num hospital de Phoenix, no Arizona, com problemas pulmonares. A causa da morte não é revelada. 

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terça-feira, 3 de junho de 2025

Hoje na História do Mundo: 3 de Junho

REI ABDICA POR AMOR

    Em 1937, o antigo rei Eduardo VIII, do Reino Unido, que abdica por amar uma divorciada e se torna Duque de Windsor, casa com a norte-americana Wallis Warfield no Castelo de Cande, em Monts, na França.

O amor abala a monarquia britânica, mas o casamento é modesto para os padrões da realeza, sem pompa nem festa popular. A lua de mel é no Castelo de Wasserloenburg, na Áustria.

Edward Albert Christian George Andrew Patrick David, filho mais velho do rei George V, nasce em 23 de julho de 1894 em Neilly-sur-Seine, na França, e ascende ao trono em 20 de janeiro de 1936 como Rei do Reino Unido e dos Domínios Britânicos e Imperador da Índia.

Meses depois, provoca uma crise constitucional ao pedir em casamento a socialite norte-americana Wallis Simpson, cujo sobrenome de solteira é Warfield. Ela se torna amante do rei em 1934, quando ele ainda é o príncipe de Gales e ela ainda está casada com o segundo marido, Ernest Aldrich Simpson.

Como rei e chefe da Igreja da Inglaterra, que proibia o casamento de divorciados com o ex-cônjuge ainda vivo, é uma união impossível. Em 11 de dezembro de 1936, Eduardo VIII abdica, abrindo mão do trono para si e seus descendentes e declara: "Descobri ser impossível carregar o pesado fardo de responsabilidade e desempenhar meus deveres como rei e imperador como gostaria de fazer sem a ajuda e o apoio da mulher que amo".

Eduardo VIII é sucedido pelo irmão mais novo, príncipe Albert, que adota o nome real de George VI e é pai da rainha Elizabeth II, que se torna herdeira do trono aos dez anos de idade.

PASSEIO NO ESPAÇO

    Em 1965, Edward White se torna o primeiro astronauta norte-americano a sair da nave e caminhar no espaço, depois do cosmonauta soviético Alexei Leonov. 

No início da corrida espacial, a União Soviética toma a frente. Lança o primeiro satélite artificial, o Sputnik, em 4 de outubro de 1957, envia o primeiro homem ao espaço, Yuri Gagarin, em 12 de abril de 1961, e o primeiro a passear no espaço, Alexei Leonov, em 18 de março de 1965.

Piloto e engenheiro aeroespecial, é escolhido para ir ao espaço na nave Gemini 4, quando sai da nave. Voltaria ao espaço no primeiro voo do Projeto Apolo, que levou o homem à Lua, mas morre num incêndio na cabine da Apolo 1 com seus colegas Gus Grisson e Roger Chaffee na primeira morte de astronautas da era espacial.

O cosmonauta russo Vladimir Komarov é o primeiro a morrer numa missão espacial, em 24 de abril de 1967, quando o paraquedas não abre e a nave Soyuz 1 se espatifa no solo.

MASSACRE NA PRAÇA DA PAZ

     Em 1989, começa o Massacre na Praça da Paz Celestial, em Beijim, na China, quando o Exército Popular de Libertação (EPL) ataca um acampamento de estudantes e outros chineses que lutam por liberdade e democracia

O movimento começa em 15 de abril, deflagrado pela morte do ex-secretário-geral do Partido Comunista Hu Yaobang, e termina com a queda do secretário-geral Zhao Ziyang, ambos a favor de reformas liberalizantes.

Em 17 de abril, os estudantes começam a se reunir na praça central da capital chinesa. Nos dias seguintes, as manifestações se ampliaram para outras cidades e universidades. Em 22 de abril, mais de 100 mil estudantes se concentram diante do Grande Salão do Povo e pedem para falar com o primeiro-ministro linha-dura Li Peng, que não aparece.

Quando Zhao vai à Coreia do Norte, em 25 de abril, Li convoca uma reunião do Politburo e convence o supremo líder do regime, Deng Xiaoping, de que o objetivo dos estudantes é derrubar o regime comunista. Deng decide que a tolerância acabou.

No dia seguinte, o Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista, publica o editorial A Necessidade de Adotar uma Posição Clara contra a Agitação: "Esta é uma conspiração bem planejada...para confundir o povo e perturbar a nação...O objetivo real é rejeitar o PC e o sistema socialista".

A reação é mais protesto. Zhao defende a negociação e uma resposta às reclamações legítimas dos estudantes, inclusive uma reforma política. Li alega ser necessário primeiro restabelecer a estabilidade social.

Dezenas de milhares de estudantes se reúnem na praça para festejar os 70 anos do Movimento Quatro de Maio, um protesto contra o Tratado de Versalhes que está na origem do PC chinês. Em encontro com executivos financeiros, Zhao exalta o patriotismo dos estudantes.

Em 13 de maio, dois dias antes de uma visita do secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachev, cerca de 160 estudantes entram em greve de fome e divulgam um manifesto: "A nação está em crise – assolada por uma inflação galopante, negócios ilegais com enriquecimento ilícito de funcionários, abuso de poder, burocratas corruptos, a fuga de gente boa para outros países e a deterioração da segurança pública. Compatriotas que dão valor à moralidade, ouçam nossas vozes!"

A greve de fome ganha força.

Gorbachev chega em 15 de maio para o primeiro encontro de cúpula sino-soviético desde 1959. Com a praça ocupada pelos estudantes, não pode ser recebido como é de praxe. Os líderes chineses, sabendo do que se passava na URSS com as reformas de Gorbachev, têm medo.

Mais de 3 mil chineses participam da greve de fome. Zhao insiste no diálogo com os estudantes e na necessidade de mais reformas: "A grande maioria dos estudantes é patriótica e e está sinceramente preocupada com o país. Podemos não aprovar todos os seus métodos, mas as exigências de promover a democracia, aprofundar as reformas e erradicar a corrupção são bastante razoáveis."

Li rejeita a proposta: "O objetivo é derrubar o PC chinês e repudiar totalmente a ditadura popular democrática."

Durante uma reunião decisiva na casa do líder supremo do regime, Deng Xiaoping, o arquiteto das reformas que modernizaram a China e a transformaram em superpotência, Zhao diz que tem 1,2 bilhão de pessoas a seu lado, toda a população do país.

Deng, cujo único cargo na época é presidente do Comitê Militar Central, responde: "Não tem, não, e eu tenho 3,2 milhões", o contingente do EPL. Com medo da dissolução do regime, Deng apoia Li Peng, que decreta lei marcial e manda o Exército atacar a manifestação.

Em 18 de maio, Zhao visita estudantes em greve de fome hospitalizados. Li se encontra com estudantes, mas o diálogo fracassa. Durante reunião de que Zhao não participa, a velha guarda e o Politburo aprovam a decretação de lei marcial.

Ao ficar sabendo, no dia seguinte, em vez de acabar com a greve de fome, os estudantes reúnem 1,2 milhão de pessoas na Praça da Paz Celestial. Zhao vai à praça falar com os estudantes. À noite, Li Peng anuncia a lei marcial na televisão.

Pela primeira vez em 40 anos de regime comunista, em 20 de maio, o EPL tenta ocupar Beijim, mas civis barram a passagem. Durante três dias, os soldados não conseguem nem chegar à praça nem sair da capital chinesa.

Em 2 de junho, a cúpula do partido decide mandar o EPL dispersar os estudantes. Na noite do dia seguinte, os primeiros tiros são disparados. O massacre vai até o dia 4.

Hoje, a China proíbe as manifestações em Hong Kong, que todos os anos fazia uma procissão luminosa em homenagem aos mortos. O número total de mortos é desconhecido, estimado entre centenas e 10 mil.

TERROR EM LONDRES

    Em 2017, terroristas muçulmanos matam oito pessoas e ferem outras 48 na Ponte de Londres. 

Depois de jogar uma caminhonete sobre pedestres na ponte e numa área de pedestres, três terroristas saem armados de facas, atacam pessoas que estão na área e são mortos pela Polícia Metropolitana. O grupo terrorista Estado Islâmico reivindica a responsabilidade pelo ataque.

Como as armas do fogo estão proibidas no Reino Unido por causa do massacre de 16 crianças e um professor numa escola primária de Dunblane, na Escócia, em 13 de março de 1996, os terroristas não conseguem armas de fogo, que tornariam a ação terrorista ainda mais trágica.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Hoje na História do Mundo: 3 de Junho

CASAMENTO DO EX-REI 

   Em 1937, o antigo rei Eduardo VIII, do Reino Unido, que abdica por amar uma divorciada e se torna Duque de Windsor, casa com a norte-americana Wallis Warfield no Castelo de Cande, em Monts, na França.

O amor abala a monarquia britânica, mas o casamento é modesto para os padrões da realeza, sem pompa nem festa popular. A lua de mel é no Castelo de Wasserloenburg, na Áustria.

Edward Albert Christian George Andrew Patrick David, filho mais velho do rei George V, nasce em 23 de julho de 1894 em Neilly-sur-Seine, na França, e ascende ao trono em 20 de janeiro de 1936 como Rei do Reino Unido e dos Domínios Britânicos e Imperador da Índia.

Meses depois, provoca uma crise constitucional ao pedir em casamento a socialite norte-americana Wallis Simpson, cujo sobrenome de solteira é Warfield. Ela se torna amante do rei em 1934, quando ele ainda é o príncipe de Gales e ela ainda está casada com o segundo marido, Ernest Aldrich Simpson.

Como rei e chefe da Igreja da Inglaterra, que proibia o casamento de divorciados com o ex-cônjuge ainda vivo, é uma união impossível. Em 11 de dezembro de 1936, Eduardo VIII abdica, abrindo mão do trono para si e seus descendentes e declara que "descobri ser impossível carregar o pesado fardo de responsabilidade e desempenhar meus deveres como rei a imperador como gostaria de fazer sem a ajuda e o apoio da mulher que amo".

Eduardo VIII é sucedido pelo irmão mais novo, príncipe Albert, que adota o nome real de George VI e é pai da rainha Elizabeth II, na época com dez anos de idade.

PASSEIO NO ESPAÇO

    Em 1965, Edward White se torna o primeiro astronauta norte-americano a sair da nave e caminhar no espaço, depois do cosmonauta soviético Alexei Leonov. 

No início da corrida espacial, a União Soviética toma a frente. Lança o primeiro satélite artificial, o Sputnik, em 4 de outubro de 1957, envia o primeiro homem ao espaço, Yuri Gagarin, em 12 de abril de 1961, e o primeiro a passear no espaço, Alexei Leonov, em 18 de março de 1965.

Piloto e engenheiro aeroespecial, é escolhido para ir ao espaço na nave Gemini 4, quando sai da nave. Voltaria ao espaço no primeiro voo do Projeto Apolo, que levou o homem à Lua, mas morre num incêndio na cabine da Apolo 1 com seus colegas Gus Grisson e Roger Chaffee na primeira morte de astronautas da era espacial.

O cosmonauta russo Vladimir Komarov é o primeiro a morrer numa missão espacial, em 24 de abril de 1967, quando o paraquedas não abre e a nave Soyuz 1 se espatifa no solo.

MASSACRE NA PRAÇA

     Em 1989, começa o Massacre na Praça da Paz Celestial, em Beijim, na China quando o Exército Popular de Libertação (EPL) da China ataca um acampamento de estudantes e outros chineses que lutavam por liberdade e democracia

O movimento começa em 15 de abril, deflagrado pela morte do ex-secretário-geral do Partido Comunista Hu Yaobang e termina com a queda do secretário-geral Zhao Ziyang, ambos a favor de reformas liberalizantes.

Em 17 de abril, os estudantes começam a se reunir na praça central da capital chinesa. Nos dias seguintes, as manifestações se ampliaram para outras cidades e universidades. Em 22 de abril, mais de 100 mil estudantes se concentram diante do Grande Salão do Povo e pediu para falar com o primeiro-ministro Li Peng, que não aparece.

Quando Zhao vai à Coreia do Norte, em 25 de abril, Li convoca uma reunião do Politburo e convence o supremo líder do regime, Deng Xiaoping, que o objetivo dos estudantes é derrubar o regime comunista. Deng decide que a tolerância acabou.

No dia seguinte, o Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista, publica o editorial A Necessidade de Adotar uma Posição Clara contra a Agitação: "Esta é uma conspiração bem planejada...para confundir o povo e perturbar a nação...O objetivo real é rejeitar o PC e o sistema socialista".

A reação é mais protestos. Zhao defende a negociação e uma resposta às reclamações legítimas dos estudantes, inclusive uma reforma política. Li alega ser necessário primeiro restabelecer a estabilidade social.

Dezenas de milhares de estudantes se reúnem na praça para festejar os 70 anos do Movimento Quatro de Maio, um protesto contra o Tratado de Versalhes que está na origem do PC chinês. Em encontro com executivos financeiros, Zhao exalta o patriotismo dos estudantes.

Em 13 de maio, dois dias antes de uma visita do secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachev, cerca de 160 estudantes entram em greve de fome e divulgam um manifesto: "A nação está em crise – assolada por uma inflação galopante, negócios ilegais com enriquecimento ilícito de funcionários, abuso de poder, burocratas corruptos, a fuga de gente boa para outros países e a deterioração da segurança pública. Compatriotas que dão valor à moralidade, ouçam nossas vozes!"

A greve de fome ganha força.

Gorbachev chega em 15 de maio para o primeiro encontro de cúpula sino-soviético desde 1959. Com a praça ocupada pelos estudantes, não pode ser recebido como é de praxe. Os líderes chineses, sabendo do que se passava na URSS com as reformas de Gorbachev, têm medo.

Mais de 3 mil chineses participam da greve de fome. Zhao insiste no diálogo com os estudantes e na necessidade de mais reformas: "A grande maioria dos estudantes é patriótica e e está sinceramente preocupada com o país. Podemos não aprovar todos os seus métodos, mas as exigências de promover a democracia, aprofundar as reformas e erradicar a corrupção são bastante razoáveis."

Li rejeita a proposta: "O objetivo é derrubar o PC chinês e repudiar totalmente a ditadura popular democrática."

Durante uma reunião decisiva na casa do líder supremo do regime, Deng Xiaoping, o arquiteto das reformas que modernizaram a China e a transformaram em superpotência, Zhao diz que tem 1,2 bilhão de pessoas a seu lado, toda a população do país.

Deng, cujo único cargo na época é presidente do Comitê Militar Central, responde: "Não tem, não, e eu tenho 3,2 milhões", o contingente do EPL. Com medo da dissolução do regime, Deng apoia Li Peng, que decreta lei marcial e manda o Exército atacar a manifestação.

Em 18 de maio, Zhao visita estudantes em greve de fome hospitalizados. Li se encontra com estudantes, mas o diálogo fracassa. Durante reunião de que Zhao não participa, a velha guarda e o Politburo aprovam a decretação de lei marcial.

Ao ficar sabendo, no dia seguinte, em vez de acabar com a greve de fome, os estudantes reúnem 1,2 milhão de pessoas na Praça da Paz Celestial. Zhao vai à praça falar com os estudantes. À noite, Li Peng anuncia a lei marcial na televisão.

Pela primeira vez em 40 anos de regime comunista, em 20 de maio, o EPL tenta ocupar Beijim, mas civis barram a passagem. Durante três dias, os soldados não conseguem nem chegar à praça nem sair da capital chinesa.

Em 2 de junho, a cúpula do partido decide mandar o EPL dispersar os estudantes. Na noite do dia seguinte, os primeiros tiros são disparados.

Hoje, a China proíbe as manifestações em Hong Kong, que todos os anos fazia uma procissão luminosa em homenagem aos mortos. O número total é desconhecido, estimado entre centenas e 10 mil.

TERROR EM LONDRES

    Em 2017, terroristas muçulmanos matam oito pessoas e ferem outras 48 na Ponte de Londres. 

Depois de jogar uma caminhonete sobre pedestres na ponte e numa área de pedestres, três terroristas saem armados de facas, atacam pessoas que estão na área e são mortos pela Polícia Metropolitana. O grupo terrorista Estado Islâmico reivindica a responsabilidade pelo ataque.

Como as armas do fogo estão proibidas no Reino Unido por causa do massacre de 16 crianças e um professor numa escola primária de Dunblane, na Escócia, em 13 de março de 1996, os terroristas não conseguem armas de fogo, que tornariam a ação terrorista ainda mais trágica.

sexta-feira, 22 de março de 2024

Ataque terrorista reivindicado pelo Estado Islâmico mata 144 na Rússia

Pelo menos 144 pessoas morreram e mais de 500 saíram feridas de um ataque terrorista contra um teatro nos arredores de Moscou, a capital da Rússia, nesta sexta-feira. Quatro homens armados com fuzis de assalto invadiram o teatro Crocus City Hall, em Krasnogorsk, pouco antes da hora marcada para um concerto de rock e abriram fogo indiscriminadamente. Depois, jogaram bombas incendiárias para tocar fogo no teatro. 

A Ucrânia negou qualquer participação no ataque. O grupo terrorista Estado Islâmico do do Coração ou Coraçone, que tem base no Afeganistão e atua também no Paquistão, reivindicou a autoria do atentado. A polícia russa anunciou a prisão de 11 suspeitos, inclusive os quatro que acusa pelo ataque.

Foi o pior atentado terrorista em Moscou desde a Crise dos Reféns do Teatro Dubrovka, em 2002, quando 204 reféns morreram, e o pior na Rússia desde a invasão a uma escola primária em Beslan, na Ossétia do Norte, em 2004, quando 340 pessoas foram mortas.

O ditador Vladimir Putin tem um longo histórico de guerra contra o jihadismo. Para consolidar o poder, quando foi nomeado primeiro-ministro de Boris Yeltsin, em 1999, iniciou a Segunda Guerra da Chechênia. Em 2015, ao entrar na guerra civil da Síria em apoio à ditadura de Bachar Assad, a Rússia bombardeou o Estado Islâmico, que reagiu derrubando um avião de passageiros na Península do Sinai.
O número de mortos foi atualizado depois da gravação.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Hoje na História do Mundo: 1º de Fevereiro

 DICIONÁRIO DE OXFORD

    Em 1884, o primeiro fascículo do Dicionário Inglês de Oxford (OED), o maior e melhor dicionário da língua inglesa, é publicado. Hoje, contém o significado, a origem, a pronúncia e citações de mais de meio milhão de palavras.

Os planos para produzir um dicionário inglês atualizado e sem erros começam em 1857 na Sociedade Filológica de Londres. A ideia era cobrir toda a linguagem utilizada desde 1150, no período anglo-saxão, em quatro volumes com um total de 6.400 páginas, um projeto a ser realizado em 10 anos.

Na realidade, leva mais do que 40 anos até que o 125º e último fascículo é publicado, em abril de 1928. Enfim, o Dicionário Inglês de Oxford está pronto, com 10 volumes e mais de 400 mil verbetes, Assim que sai, começa a ser atualizado. Hoje tem 20 volumes e está a venda no Brasil.

Desde o ano 2000, a Editora da Universidade de Oxford oferece uma versão on-line.

DANIEL PEARL ASSASSINADO

    Em 2002, meses depois dos atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos, o jornalista norte-americano Daniel Pearl,  é sequestrado e morto por um grupo terrorista no Paquistão. Semanas depois, os terroristas divulgam um vídeo da execução por degola que choca o mundo.

 Como chefe do escritório do Sudeste Asiático do jornal The Wall Street Journal, Pearl investiga o extremismo muçulmano e o jihadismo. É sequestrado em Karáchi, a maior e mais rica cidade paquistanesa, quando tentava entrevistar um líder religioso muçulmano.

Os sequestradores o acusam de espionagem. Fazem parte do grupo Movimento Nacional para Restaurar a Soberania Paquistanesa. Exigem a libertação de todos os paquistaneses presos por terrorismo. Mandam fotos de Pearl algemado com uma arma na cabeça e esta com o jornal paquistanês Dawn para mostrar que está vivo. 

Em 2002, a Justiça do Paquistão condena o britânico Ahmed Omar Saïd Sheikh pela morte de Pearl. Cinco anos depois, Khaked Sheikh Mohammed, da rede terrorista Al Caeda, considerado um dos idealizadores dos aviões-bomba do 11 de Setembro, assume a responsabilidade pelo assassinato. Afirma ter degolado Daniel Pearl pessoalmente.

domingo, 13 de novembro de 2022

Hoje na História do Mundo: 13 de Novembro

ERUPÇÃO DO NEVADO DEL RUIZ

    Em 1985, uma erupção do Nevado del Ruiz, o vulcão mas ativo da Cordilheira dos Andes na Colômbia, gera uma avalanche de lava, lama e gelo da neve do topo da montanha que vai até 100 quilômetros de distância e mata mais de 23 mil pessoas. É a segunda erupção vulcânica mais mortal do século 20.

Uma chuva torrencial piora a situação e causa enchentes. A cidade mais atingida é Armero, onde morrem três quartos dos 28,7 mil habitantes.

O Nevado del Ruiz, de 5.370 metros de altura, dá os primeiros sinais de que vai entrar em erupção um ano antes. A maioria dos moradores dos vales sobreviveria se morasse em lugares mais altos.

TERROR EM PARIS

    Em 2015, o grupo terrorista Estado Islâmico do Iraque e do Levante comete uma série de atentados que matam 130 pessoas e ferem outras 416 em Paris e na cidade-satélite de St.-Denis, no maior ataque à França depois da Segunda Guerra Mundial (1939-45).

Às 21h15 pela hora local, três terroristas suicidas se detonam do lado de fora depois de não conseguir entrar no Estádio da França, em St.-Denis, onde jogavam Alemanha e França, com o presença do presidente francês, François Hollande.

Outro grupo ataca bares, cafés e restaurantes, enquanto um terceiro comando terrorista invade o teatro Bataclan, onde há um concerto de rock. Os jihadistas tomam reféns, enfrentam a polícia e se detonam como homens-bomba, matando 89 pessoas.

O Estado Islâmico nasce como Al Caeda no Iraque, depois da intervenção militar dos Estados Unidos para derrubar Saddam Hussein, em 2003, e da alienação da minoria sunita. Na guerra civil, vira Estado Islâmico do Iraque e do Levante, rompe com a rede terrorista Al Caeda, toma Mossul, uma das maiores cidades iraquianas, e proclama a fundação de um califado de jurisdição universal, em 2014.

Quando o Estado Islâmico começa a matar reféns ocidentais, os EUA, a França e o Reino Unido começam a bombardear o califado. Os atentados em Paris são a retaliação dos jihadistas.

A capital francesa foi alvo do terrorismo de extremistas muçulmanos em 7 de janeiro de 2015, quando é atacado o jornal satírico Charlie Hebdo, que publicara caricaturas do profeta Maomé, e mais ações nos dias seguintes, com um total de 16 mortes. Esses ataques foram de jihadistas ligada a Al Caeda.

Desde então, a França, que tem a maior população muçulmana da Europa depois da Rússia, cerca de 5 milhões de habitantes, é alvo de atentados terroristas. Em outubro de 2020, três pessoas, inclusive a brasileira Simone Barreto Silva, foram mortas num ataque a uma igreja. No ano passado, o professor Samuel Paty foi degolado depois de ser acusado de islamofobia por uma estudante de 13 anos que depois confessou a mentira.

domingo, 11 de setembro de 2022

Hoje na História do Mundo: 11 de Setembro

QUEDA DE BARCELONA

    Em 1714, depois de 14 meses de cerco, o Exército de Felipe V, da Espanha, toma Barcelona na Guerra da Sucessão Espanhola. É o fim das leis e instituições catalães. É a data nacional da Catalunha.

O feriado é celebrado desde 11 de setembro de 1886. É proibido nas ditaduras de Miguel Primo de Rivera (1923-30) e Francisco Franco (1939-75).

GOLPE NO CHILE

    Em 1973, um golpe militar apoiado pelos Estados Unidos na Guerra Fria derruba o presidente socialista Salvador Allende e dá início à ditadura do general Augusto Pinochet, que matou 3.105 pessoas.

Allende é eleito em 1970 por uma aliança de socialistas e comunista, com 35% dos votos. Sem maioria no Congresso do Chile, o governo da Unidade Popular enfrenta forte da oposição da direita e dos democratas-cristãos, que apoiam o golpe e depois são perseguidos pela ditadura pinochetista. Mais de 40 mil pessoas são torturadas e 200 mil fogem do Chile.

Um plebiscito, em 5 de outubro de 1988, nega a prorrogação do mandato do tirano. Em 1989, o democrata-cristão Patricio Aylwin é eleito pela Concertação, uma aliança de 16 partidos liderada por democratas-cristãos e socialistas.

Aylwin toma posse em 11 de março de 1990, pondo fim à ditadura. Pinochet permanece no comando do Exército até 1998. Depois de deixar o cargo, é preso em Londres por ordem do juiz de instrução espanhol Baltasar Garzón sob as acusações de genocídio, tortura, terrorismo internacional e desaparecimento de pessoas.

Quando o governo conservador espanhol de José María Aznar deixa claro que não vai pedir a extradição, o Reino Unido faz um acordo com o Chile para liberar Pinochet com a desculpa de que ele sofreria sérios problemas de saúde. 

No Chile, o ex-ditador é processado por 18 sequestros e 57 assassinatos. Chega a ficar em prisão domiciliar, mas nunca é condenado definitivamente. Impune, Pinochet morre do coração em 10 de dezembro de 2006.

Como consequência do golpe no Chile, a maioria dos países da América Latina hoje faz eleição presidencial em dois turnos quando o primeiro colocado não consegue a maioria absoluta dos votos válidos ou uma ampla vantagem sobre o segundo em alguns países que não exigem 50% dos votos válidos mais um. Assim, o presidente chega ao poder com o apoio da maioria

TERROR NOS EUA

    Em 2001, no pior atentado terrorista da história, a rede Al Caeda transforma aviões de passageiros em mísseis guiados por pilotos suicidas, derruba as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e ataca o Pentágono, sede do Departamento da Defesa dos Estados Unidos, perto de Washington, matando 2.977 pessoas em Nova York, 125 no Pentágono e 69 num quarto voo, derrubado pelos passageiros, que iria para a Casa Branca ou o Capitólio.

O ataque provoca uma reação dos EUA: a Guerra contra o Terror, um equívoco desde o nome porque o terrorismo é uma tática de guerra, não é um inimigo em si. O inimigo, no caso, é o jihadismo, o terrorismo dos fundamentalistas islâmicos que pregam a guerra santa. 

É de certa forma um populismo político que pesca no mar do Corão para criar sua ideologia sanguinária. É uma ideologia e uma guerra ideológica é uma batalha de ideias, é, antes de mais nada, uma guerra civil dentro do Islã sobre qual é a verdadeira interpretação do Corão. 

O movimento jihadista tem uma base religiosa, sonha em recriar o mundo à imagem da Arábia no século 7, no tempo de Maomé, mas ao mesmo tempo usa os recursos tecnológicos do século 21. Criou um califado digital que recruta voluntários para o martírio. Na verdade, é um movimento político extremista surgido em lugares onde não há liberdade política, então eles se encontram nas mesquitas.

Depois de atacar o Afeganistão em 7 de outubro de 2001 e derrubar o regime fundamentalista dos Talebã em três semanas, os EUA conseguiram cercar a liderança d'al Caeda na Batalha de Tora Bora, mas Ossama ben Laden conseguiu escapar para o Paquistão.

Em 2003, o então presidente George W. Bush resolveu invadir o Iraque do ditador Saddam Hussein, que não tinha relação alguma com os atentados, provocando uma revolta dos muçulmanos sunitas de que Al Caeda se aproveitou para entrar no Iraque.

Al Caeda do Iraque se tornou Estado Islâmico do Iraque e, na guerra civil da Síria, Estado Islâmico do Iraque e do Levante. Depois de retirar as forças dos EUA em 2011, o presidente Barack Obama declarou em agosto de 2014 guerra ao Estado Islâmico, que havia proclamado um califado nas regiões que ocupava no Iraque e na Síria.

A Guerra do Afeganistão, a mais longa da história dos Estados Unidos, acabou de maneira humilhante para os americanos, com a volta imediata dos talebã ao poder e caos no aeroporto de Cabul, inclusive um atentado terrorista cometido pelo Estado Islâmico. 

A vitória dos jihadistas empolga os extremistas do mundo inteiro e certamente ajuda a recrutar mais voluntários para o martírio. O Afeganistão volta a ser solo fértil para grupos jihadistas que fazem terrorismo internacional. 

Os talebã prometem no acordo com os EUA não deixar usar o território afegão para desfechar ataques aos americanos e aliados, mas não controlam totalmente o país para garantir isso.

A Guerra contra o Terror não termina. Pelos dados oficiais morreram 6.892 soldados dos EUA nas guerras do Afeganistão, do Iraque e na Síria e no Iraque contra o Estado Islâmico. Ao todo, a Guerra contra o Terror custa aos EUA US$ 8 trilhões. Estima-se que 900 mil pessoas morreram nesta guerra, 

domingo, 12 de setembro de 2021

Quem ganhou e quem perdeu a Guerra contra o Terror

O colapso da ordem internacional liberal no mundo pós-Guerra Fria

Sob o céu de puríssimo azul de uma manhã de verão em Manhattan, dois aviões de passageiros transformados em mísseis guiados por pilotos suicidas da rede terrorista Al Caeda destruíram, em 11 de setembro de 2001, muito mais do que os maiores prédios de Nova York matando 2.606 pessoas, sem contar os passageiros e tripulantes dos aviões-bomba. 

Outro avião atingiu o Pentágono, sede do Departamento da Defesa, símbolo do poderio militar incontrastável dos Estados Unidos, e matou 125 pessoas. Estavam feridos o orgulho e a glória da única superpotência, que reinava soberana há uma década como única superpotência, desde o desaparecimento da União Soviética no fim da Guerra Fria, em 1991. 

Um quarto avião caiu numa zona rural da Pensilvânia, matando as 69 pessoas a bordo ao ser derrubado pelos passageiros quando ia sequestrado rumo a Washington para atingir a Casa Branca ou o Capitólio. Ao todo, foram 2.977 mortes nos atentados, excluindo os 19 terroristas.

O século 21 nasce num mundo mais autoritário, com mais restrições às liberdades individuais e o medo do terrorista suicida que se infiltra na multidão ou num avião disposto a dar a vida por sua causa, de voluntários do martírio em busca da graça divina eterna e de um lugar no paraíso para desfrutar 72 virgens. 

Junto com as Torres Gêmeas do World Trade Center, cai a ordem internacional liberal do mundo pós-Guerra Fria, que prometia uma era de paz e prosperidade, com o triunfo da democracia liberal e da economia na confrontação estratégica das superpotências que dominaram o mundo na segunda metade do século 20. Ruiu a tese do “fim da história” como confronto ideológico. 

Vinte anos, US$ 8 trilhões e 900 mil mortes depois, inclusive de 6.892 militares americanos, com a caótica retirada do Afeganistão, os Estados Unidos declaram vitória. Mas a fuga desesperada nos últimos dias de estrangeiros e afegãos aliados das forças internacionais lembra a queda de Saigon no fim da Guerra do Vietnã, em 30 de abril de 1975, ou a retirada do Líbano depois de atentados terroristas de extremistas muçulmanos em Beirute que mataram 241 fuzileiros navais americanos e 58 soldados franceses, em 23 de outubro de 1983, ou da Somália depois de mortes de 18 americanos na Batalha de Mogadíscio, em 3 a 4 de outubro de 1993. Três derrotas humilhantes. 

QUEM GANHOU? 
Quem venceu então a Guerra contra o Terror? O nome em si é um equívoco. O terrorismo é uma tática de guerra, não é um inimigo em si. O inimigo, no caso, é o jihadismo (de jihad = guerra santa), o terrorismo dos extremistas islâmicos que pregam a luta armada para converter ou matar os infiéis: “A bolsa, a vida ou o Corão.” 

No passado, na expansão do islamismo pela Europa, dava para comprar lealdade, o que aconteceu com os muçulmanos da Bósnia, que pagavam menos impostos ao Império Otomano se aderissem ao islamismo. Isso praticamente sumiu na Guerra contra o Terror. 

O jihadismo é de certa forma um populismo político. Pesca no mar do Corão, o livro sagrado dos muçulmanos, elementos para criar e justificar sua ideologia sanguinária. É uma ideologia e uma guerra ideológica é uma batalha de ideias. Não pode ser vencida com armas. 

Antes de mais nada, é uma guerra civil dentro do Islã sobre qual é a verdadeira interpretação do Corão. Tem uma base religiosa. Sonha em recriar o mundo à imagem da Arábia no século 7, no tempo do profeta Maomé. Ao mesmo tempo, usa os recursos tecnológicos do século 21. Criou um califado digital que divulga atrocidades e recruta voluntários para o martírio. Na verdade, é um movimento político extremista surgido em lugares onde não há liberdade política, então os militantes se reúnem nas mesquitas.

Inicialmente a vitória foi dos terroristas, que na visão de seu líder, Ossama ben Laden, romperam a aura de invencibilidade dos EUA ao mostrar capacidade de atacar os centros do poder econômico, político e militar da superpotência, ao levar as guerras do Oriente Médio para dentro do território americano e a qualquer lugar do planeta, numa globalização do terrorismo. 

PAQUISTÃO 
No Afeganistão, a grande vitória foi do Paquistão. O serviço secreto militar paquistanês apoia a Milícia dos Talebã (Estudantes) desde um mês depois de sua fundação, em setembro de 1996, quando o Afeganistão vivia um período de anarquia depois da retirada da União Soviética, em 1989. 
 
O ministro do Exterior paquistanês foi a Cabul pacificar as diferentes correntes dos talebã, se encontrou com as lideranças da milícia fundamentalista sunita e com o novo ministro do Interior afegão, Sirajuddin Hakkani, que está na lista de terroristas procurados pelos EUA. Ele é filho de Jalaluddin Hakkani, que foi recebido pelo presidente Ronald Reagan na Casa Branca quando lutava conta a invasão soviética (1979-89), embora haja quem diga que esse encontro nunca ocorreu. 

Antes de se tornar chefe de governo do Paquistão, o atual primeiro-ministro, Imran Khan, admitiu que a Rede Hakkani é o braço do Exército do Paquistão na guerra civil afegã. O ministro do Interior do Afeganistão tem boas relações com a rede Al Caeda. 

Está recriado o ambiente onde floresceram os terroristas que atacaram o World Trade Center. O atentado contra o aeroporto de Cabul em que morreram 13 militares americanos e 170 civis afegãos, em 26 e agosto, cometido pelo Estado Islâmico do Coração (Khorasan) mostra que os talebã dificilmente terão controle absoluto sobre o território afegão, que pode servir da base para ataques aos países vizinhos, aos EUA e aliados, à China, à Rússia ou à Europa. 

Como 43% do produto interno bruto do Afeganistão vêm de ajuda externa, os talebã precisam de reconhecimento, ajuda e financiamento internacionais, um forte estímulo para a moderação. Mas a ideologia não mudou, voltaram as restrições às mulheres, jornalistas foram espancados ao cobrir manifestações de protesto e os primeiros milicianos do grupo ouvidos por jornalistas estrangeiros nas ruas de Cabul enquanto festejavam a vitória foram claros: “A guerra santa continua até converter todos os infiéis no mundo inteiro.” 

IRà
Na Guerra do Iraque para derrubar o ditador Saddam Hussein, que nada teve a ver com os atentados de 11 de setembro, o grande vencedor foi o Irã. Há hoje um arco muçulmano xiita que vai do Irã ao Mar Mediterrâneo passando pelo Iêmen, o Irã o Iraque, a Síria e o Líbano. 

Ao fim da Primeira Guerra Mundial (1914-18), a aliança vencedora (EUA, França e Reino Unido) prometeu aos curdos, maior povo do mundo sem um Estado Nacional, fundar o Curdistão. 

O subsecretário de Estado para o Oriente Médio do Império Britânico, Winston Churchill, quebrou a promessa. Criou o Iraque artificialmente, juntando a província curda de Kirkuk, rica em petróleo, às províncias de Bagdá e Bássora do Império Otomano (turco), vencido e dissolvido. 

Churchill queria um Iraque suficientemente poderoso para conter o Irã. Depois da vitória da Revolução Islâmica liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, em 1979, os EUA, a URSS, a Europa e os países árabes apoiaram Saddam Hussein na Guerra Irã-Iraque na expectativa de acabar com a revolução iraniana. Sem sucesso, com um enormes perdas para os dois lados e pelo menos 500 mil mortes. A guerra terminou num impasse, mas ajudou a conter a exportação da revolução islâmica. 

Ao invadir o Iraque, depor Saddam e tentar impor um regime democrático, em 2003, os EUA entregaram o poder à maioria xiita depois de séculos de dominação sunita. A revolta sunita e a infiltração d’al Caeda forjaram o Estado Islâmico, um novo inimigo para o Ocidente e para os regimes do Oriente Médio. E os xiitas têm uma afinidade com o Irã, que controla várias milícias no país e mais de 60 no Oriente Médio. 

Isso leva o governo Trump a matar o principal general iraniano, Kassem Soleimani, comandante do braço da Guarda Revolucionária do Irã para ações no exterior, num ataque de mísseis ao aeroporto de Bagdá, em 3 de janeiro de 2020, quase incendiando o Oriente Médio. 

Os EUA saem do Iraque em 2011, quando o primeiro-ministro Nuri al-Maliki se nega a dar imunidade aos soldados americanos por crimes cometidos no país. Voltam em agosto de 2014, no governo Barack Obama (2009-17), para combater o Estado Islâmico depois da degola de cidadãos americanos. 

O Irã também ganha porque seu maior rival no mundo muçulmano, a Arábia Saudita, sai chamuscada. Dos 19 terroristas em ação no 11 de Setembro, 15 eram sauditas, escolhidos a dedo por Ben Laden para tentar romper a aliança EUA-Arábia Saudita. 

Documentos desclassificados recentemente publicados pelo jornal digital The Intercept sugerem que possa haver uma conexão maior dos sauditas com os atentados. Desde que a crise do petróleo de 1973 multiplicou os preços do produto, a Arábia Saudita exporta o wahabismo, sua versão ultraconservadora, reacionária, ascética, moralista e puritana do islamismo, que está na raiz do salafismo, a ideologia do fundamentalismo sunita. 

CHINA 
A China também ganhou, à medida que a Guerra contra o Terror erodiu o poderio e o prestígio dos EUA. Em 2001, a China aderiu à Organização Mundial do Comércio, dando um impulso a seu desenvolvimento econômico, com taxas de crescimento acima de 10% ao ano até a Grande Recessão de 2008. Com o impacto da pandemia, a China deve ultrapassar os EUA e se tornar a maior economia do mundo em produto interno bruto nomina em 2028, cinco anos antes do previsto. 

A intenção de Trump e do atual presidente Joe Biden era e é acabar com a Guerra contra o Terror para reorientar a defesa dos EUA para competidores e potenciais inimigos estratégicos como a China e a Rússia. 

Ao mesmo tempo, a ascensão do autoritarismo e as medidas de exceção adotadas para combater o terrorismo fortaleceram a ditadura militar chinesa no duelo ideológico com a democracia ocidental. O regime comunista chinês, que mantém 1 milhão de muçulmanos em centros de reeducação comparados a campos de concentração na região de Xinjiang, foi o primeiro a oferecer ajuda aos talebã para tentar neutralizar a ameaça jihadista. 

SOLIDARIEDADE 
No primeiro momento após os atentados, os EUA receberam a solidariedade internacional. O Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou a intervenção militar no Afeganistão e os aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a aliança militar criada para enfrentar a URSS na Guerra Fria, lutaram ao lado dos americanos com base no princípio de que “um ataque contra um é um ataque contra todos”. Era uma guerra legítima e legal. 

Depois de cercar a cúpula d’al Caeda na Batalha de Tora Bora, em dezembro de 2001, e deixar Ben Laden fugir para o Paquistão, o governo George W. Bush reorientou seus principais esforços na Guerra contra o Terror para invadir o Iraque em 20 de março de 2003, sem o aval do Conselho de Segurança da ONU, sob o falso pretexto de que Saddam tinha armas de destruição em massa. 

ABUSO DE PODER 
A invasão do Iraque – ilegítima porque os EUA não haviam sido agredidos pelos iraquianos, ilegal porque não teve autorização da ONU e fracassada – racha a aliança transatlântica que foi a base da ordem mundial no pós-Segunda Guerra Mundial no Ocidente e deflagra uma crise no sistema internacional que mudou o mundo. 

A ordem internacional liberal prometida no fim da Guerra Fria entra em colapso e deixa de ser inexorável. Os EUA perdem a autoridade moral como defensores da democracia liberal e minam o poder suave do país, a força do exemplo, da persuasão e da influência cultural. 

Os EUA cometem graves violações dos direitos humanos na Guerra contra o Terror. A partir de janeiro de 2002, começam a transferir prisioneiros para uma prisão instalada na base naval de Guantânamo, um enclave americano em Cuba, onde eles são submetidos a tortura, maus tratos e privações. 

Assim, os EUA lhes negavam os direitos garantidos pela lei americana e na Convenção de Genebra sobre Prisioneiros de Guerra, alegando, entre outras razões, que eram “combatentes ilegais” por não pertencerem a um exército regular, com uma cadeia de comando. 

Em 20 anos, as “comissões judiciais”, os tribunais militares de Guantânamo, só condenaram dois acusados. Dez aguardam julgamento. 

Hoje, restam 39 dos 780 prisioneiros levados para Guantânamo. Os outros foram transferidos para outros países e alguns libertados. Pelo menos 12 são acusados pelos EUA de fazer parte da cúpula d’al Caeda, inclusive Khaled Cheikh Mohammed, considerado o idealizador dos atentados de 2001. 

Regimes antiliberais como os do Egito, da Líbia, da Rússia, da Mauritânia e do Usbequistão começam a tachar seus adversários políticos como terroristas, se tornam aliados dos EUA na Guerra contra o Terror e conseguem aceitação para suas práticas autoritárias. 

Os americanos usam essas alianças para torturar suspeitos em países onde isto é permitido, até mesmo na Líbia no antes inimigo Muamar Kadafi, que entrega suas armas de destruição em massa. Outro escândalo é a revelação de imagens de tortura na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, em 28 de abril de 2004, com prisioneiros amontoados obrigados a simular atos sexuais. 

Preso e desmoralizado na areia movediça do Iraque, os EUA não apoiam as revoltas da Primavera Árabe, a não ser na intervenção militar da OTAN na guerra civil da Líbia, sob pressão da França, que não foi seguida de um processo de país. Deixou a Líbia num estado de anarquia que continua até hoje e ajuda a desestabilizar a África Subsaariana, especialmente na região do Sahel. 

MORTE DO XEIQUE 
Talvez o melhor momento para cantar vitória e bater em retirada tenha sido na morte de Ben Laden, caçado por um comando de elite da Marinha dos EUA em Abotabade, perto da principal academia militar do Paquistão, em 2 de maio de 2011. 

Na época, o presidente Obama sai do Iraque, uma guerra que nunca apoiou, mas reforça as tropas no Afeganistão na expectativa de consolidar o regime fantoche instalado pela intervenção militar. 

Uma década depois da sua morte, Ben Laden, o Xeique, continua sendo a figura central e o maior exemplo para o movimento jihadista. Com a retirada dos EUA do Afeganistão, reabre-se o terreno para Al Caeda e outros grupos terroristas como o Estado Islâmico. 

O projeto de construir uma democracia fracassa por falta de recursos e de entender a cultura dos povos afegãos, que no interior do país confundiam os americanos com os soviéticos. Construir o Estado e a nação custa muito caro. Os EUA ajudaram a reconstruir a Europa e o Japão com o Plano Marshall depois da Segunda Guerra Mundial (1939-45) porque precisavam de aliados fortes na Guerra Fria contra a URSS.

EUROPA 
Além dos EUA e da democracia liberal, perde a Europa, alvo de vários atentados terroristas de muçulmanos fanáticos, em Madri, Londres, Paris, Nice, Berlim, Bruxelas e Moscou, além de Báli, na Indonésia, onde os principais alvos era australianos. 

Na capital francesa, começou na semana passado o julgamento dos acusados pelos atentados de 13 de novembro de 2015, que mataram 130 pessoas, 10 meses depois do massacre dos jornalistas do semanário satírico Charlie Hebdo, que publicara charges do profeta Maomé. 

A Rússia inicia sua guerra contra o terror antes dos EUA, quando o então primeiro-ministro Vladimir Putin lança a Segunda Guerra da Chechênia, em agosto de 1999, para se cacifar no poder como sucessor de Boris Yeltsin. Também foi uma boa desculpa para aumentar a repressão interna. 

ÁFRICA 
Quando o califado do Estado Islâmico é derrotado na Síria e no Iraque, em 23 de março de 2019, a África passa a ser o principal foco do jihadismo, especialmente na região do Sahel, ao sul do Deserto do Saara, numa faixa que vai da Mauritânia à Somália, passando pelo Mali, Burkina Fasso, Níger, Norte da Nigéria, Camarões, Chade, República Centro-Africana, Sudão e Somália, onde populações miseráveis são alvos fáceis de recrutadores d’al Caeda e do Estado Islâmica. 

Também houve ataques recentes do Estado Islâmico na rica província mineral de Cabo Delgado, no Norte de Moçambique, onde fica a maior reserva de gás natural da África e há ouro, rubis, grafite, mármore e várias madeiras valiosas. 

Países pobres, com recursos escassos, precisam de investimento internacional para desenvolver a economia e de ajuda militar para combater o terrorismo. 

No fim do governo Donald Trump (2017-21), em janeiro, os EUA retiraram as forças que combatiam o jihadismo na Somália e agora cogitam voltar, depois de realizar alguns bombardeios aéreos contra a miícia jihadista Al Chababe (A Juventude), aliada a Al Caeda. Mantêm 1,2 mil soldados na África Ocidental. 

Em junho, o presidente Emmanuel Macron anunciou a retirada de 2 mil dos 5 mil soldados que a França tem no Norte do Mali, onde intervém há oito anos para combater uma ofensiva jihadista. Mas quer que os EUA, que tem cerca de 800 soldados numa missão quase secreta no Níger, mantenha sua presença militar na região. A tríplice fronteira entre Burkina Fasso, Mali e Níger é hoje um dos lugares mais perigosos do mundo. 

ATENTADOS NOS EUA 
Nos EUA, houve 15 atentados terroristas cometidos por jihadistas depois de 11 de setembro de 2001. Os mais graves foram: 
• em 5 de novembro de 2009, o major e médico psiquiatra Nidal Hasan mata 13 soldados desarmados e fere outros 30 em Forte Hood, no Texas, no pior massacre a tiros numa base militar americana; 
• em 15 de abril de 2013, os irmãos de origem chechena Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev explodem duas bombas caseiras na chegada da tradicional Maratona de Boston, uma das mais antigas do mundo, matando três e aleijando outras 17 (Dzhokhar, o único sobrevivente dos irmãos, era colega da minha filha no ensino médio em Cambridge, Massachusetts); 
• em 2 de dezembro de 2015, um casal mata 14 colegas na festa de fim de ano da empresa, em São Bernardino, na Califórnia; e 
• em 12 de junho de 2016, quando Omar Mateen fuzila e mata 49 pessoas e fere outras 58 num ataque a uma discoteca gay em Orlando na Flórida. 

MILITARIZAÇÃO 
A Guerra contra o Terror criou uma sociedade sob constante vigilância do Estado sobre as telecomunicações, inclusive através das grandes empresas da Internet, como revelou o analista de sistema da Agência de Segurança Nacional Edward Snowden, em junho de 2013, ao “vazar” milhares de documentos secretos para jornalistas. 

Também houve uma militarização das polícias, equipadas blindados e outras armas de guerra para combater o terrorismo. Este aparato bélico é usado hoje para conter manifestações, por exemplo, do movimento Vidas Negras Importam, quando ativistas mais exaltados cometem atos de violência. 

Como observou nas solenidades de ontem o ex-presidente George W. Bush (2001-9), que iniciou a guerra contra o terror, a maior ameaça terrorista hoje nos EUA vem do inimigo interno, da extrema direita, como os grupos aliados de Trump que assaltaram o Congresso em 6 de janeiro, responsáveis por dois terços dos atentados. 

Em comum com os jihadistas, têm o desdém pelo pluralismo, o repúdio à diversidade, o desrespeito à vida e o ódio aos que não compartilham de suas ideologias. 

TEORIAS CONSPIRATÓRIAS 
Por fim, os atentados de 11 de setembro de 2001 geram uma onda de teorias conspiratórias, por exemplo, de que foi um “serviço interno” das agências de segurança nacional para criar um pretexto para o governo federal impor um Estado totalitário de segurança máxima e reprimir as liberdades individuais. 

Mesmo com vídeo de Ben Laden comentando os atentados e dizendo que não esperava que as torres caíssem, apenas que incendiassem a partir do ponto de impacto, há relatos falsos de explosão de bombas na base dos prédios segundos ambos do desabamento ou de que os judeus não foram trabalhar naquele dia porque sabiam do plano. 

As teorias conspiratórias viram um elemento central do debate político nos EUA, da hipótese de que Obama é muçulmano e não nasceu nos EUA, difundida por Trump, entre outros; ao suposto envolvimento do bilionário George Soros, da ex-senadora e ex-secretária de Estado Hillary Clinton e de outros líderes do Partido Democrata numa grande cabala de pedófilos; que Trump foi vítima de uma fraude maciça na eleição de 2020, o que a maioria dos republicanos acredita; que a pandemia do coronavírus é parte de uma conspiração chinesa para dominar o mundo; e que as vacinas contra a covid-19 podem alterar o código genético ou inserir um chip para controlar o cidadão. 

Outro dia, no debate sobre o uso obrigatório de máscaras nas escolas, um negacionista que é contra vacinas e medidas sanitárias alegou que as máscaras, ao esconder o rosto das crianças, facilitam a ação de sequestradores pedófilos. 

O 11 de Setembro traumatizou e radicalizou os EUA, que nunca mais reencontraram a paz interior.