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terça-feira, 28 de abril de 2026

Hoje na História do Mundo: 28 de Abril

MOTIM NO BOUNTY

    Em 1789, durante uma viagem do Taiti para o Caribe, um motim liderado pelo capitão Flechter Christian toma o navio britânico Bounty, deixa o capitão William Bligh, autoritário e opresssor, e 18 marinheiros leais a ele num pequeno barco à deriva no Oceano Pacífico, e segue para Tubuai, ao sul do Taiti.

O Bounty sai do Taiti em 4 de abril com uma carga de fruta-pão. Perto de Tonga, Christian e outros 28 marinheiros se amotinam. No pequeno barco de 7 metros, Bligh e seus homens chegam ao Timor em 14 de junho depois de uma viagem de 5.750 quilômetros em mar aberto.

Com o fracasso da colônia que tentam criar, em janeiro de 1790, os rebeldes do Bounty vão para o Taiti, onde 16 resolvem ficar. Christian e outros oito amotinados, seis homens taitianos e pelo menos 12 mulheres e uma criança vão para Pitcairn, uma ilha vulcânica desabitada a mais de 1,6 mil km do Taiti.

Os amotinados que ficam no Taiti são presos. Três são enforcados. 

Em 1808, um navio baleeiro norte-americano vê fumaça no ar e descobre uma comunidade liderada por John Adams, único sobrevivente do motim do Bounty. Um navio britânico lhe concede anistia em 1825.

A história é contada no filme Motim no Bounty, com Marlon Brando como Fletcher Christian.

LIGA DAS NAÇÕES

    Em 1919, a Conferência de Versalhes decide criar a Sociedade das Nações ou Liga das Nações, a primeira organização internacional de caráter universal dedicada à paz mundial. É uma das propostas do plano de 14 pontos do presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson (1913-21), para acabar com a Primeira Guerra Mundial (1914-18).

Os EUA historicamente não se envolviam em guerras na Europa. Para convencer os norte-americanos da necessidade de entrar na guerra, Wilson afirma que é "a guerra para acabar com todas as guerras". Em 8 de janeiro de 1918, ele apresenta o plano de paz de 14 pontos ao Congresso dos EUA.

A participação dos EUA é decisiva para a derrota da Alemanha pelos aliados, Reino Unido e França. Com a derrota, desaparecem os impérios Alemão, Austro-Húngaro, Russo e Otomano (turco). A conferência de paz, dominada pelos vencedores, é conhecida como "a paz para acabar com todas as pazes".

Quando o Tratado de Versalhes, que impõe pesadas indenizações à Alemanha, é assinado, em 28 de junho de 1919, 44 países assinam junto a Convenção da Liga das Nações, instalada em 20 de janeiro de 1920.

Wilson ganha o Prêmio Nobel da Paz de 2019 por criar a Liga das Nações, mas o Senado dos EUA não ratifica a Convenção da Liga das Nações. Assim, o país fica fora. O Brasil sai em 1925, em protesto por não fazer parte do conselho.

A Liga dá mandatos aos impérios Britânico e Francês para administrar o Oriente Médio depois da dissolução do Império Otomano, em tese, para preparar os países árabes para a independência. O moderno Oriente Médio surge daí e sofre até hoje da Síndrome Pós-Otomana.

Mas a Liga não cria uma estrutura para garantir a paz. Todos os países têm o mesmo voto. Quando o Japão invade a Manchúria, em 1931, e o Leste da China, em 1937; a Itália Fascista de Benito Mussolini ocupa a Etiópia, em 1935; e a Alemanha Nazista de Adolf Hitler anexa a Áustria e a Tcheco-Eslováquia, em 1938 e 1939; a Liga não reage. Não consegue evitar a Segunda Guerra Mundial (1939-45).

A Liga das Nações faz sua última reunião em abril de 1946.

Outro presidente dos EUA, Franklin Delano Roosevelt (1933-45), articula durante a guerra a criação da Organização das Nações Unidas (ONU), que autoriza o uso da força com a aprovação do Conselho de Segurança. Como os cinco grandes vencedores da guerra (EUA, França, Reino Unido, URSS e China) têm direito de veto, o sistema ONU cria um condomínio de grandes potências com recursos e capacidade militar para intervir. 

O veto causa uma paralisia do sistema. Raramente há um consenso para usar a força. As grandes potências se dão o direito de ir à guerra e de vetar qualquer resposta da ONU, e ainda protegem aliados.

MUSSOLINI E AMANTE EXECUTADOS

    Em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial (1939-45), o líder fascista e ditador da Itália, Benito Mussolini, o Duce, e sua amante, Clara Petacci, presos no dia anterior, são fuzilados por guerrilheiros comunistas da resistência antifascista quando tentam fugir para a Suíça.

Fundador do fascismo, Mussolini vira primeiro-ministro da Itália em 31 de outubro de 1922, mais de 10 anos antes de Adolf Hitler na Alemanha, seu grande aliado na guerra em que entra em 10 de junho de 1940.

Cai pela primeira vez em 25 de julho de 1943, quando é deposto pelo Grande Conselho por levar a Itália a uma derrota militar desastrosa, nomear incompetentes para altos cargos e alienar grande parte da população.

Preso no mesmo dia, ao sair de uma audiência de rotina com o rei Vítor Emanuel III para fazer um relato sobre a guerra, Mussolini é resgatado por forças especiais da Alemanha. Até a derrota final, chefia um governo, a República Social Italiana, nas regiões da Itália sob o controle dos nazifascistas.

FIM DA OCUPAÇÃO DO JAPÃO

    Em 1952, termina a única ocupação da história do Japão, que começa com a rendição do país na Segunda Guerra Mundial (1939-45), mas até hoje os Estados Unidos mantêm forças em território japonês. 

O Império do Japão invade a província chinesa da Manchúria em 1931 e as principais cidades da China em 1937. 

Depois do início da Segunda Guerra Mundial na Europa, em 1º de setembro de 1939, o Japão invade o Vietnã, então parte da Indochina Francesa, em setembro de 1940, sob o pretexto de liberar países asiáticos do colonialismo europeu.

Em 7 de dezembro de 1941, a Força Aérea do Japão faz um ataque de surpresa contra a Frota do Pacífico dos EUA, estacionada em Pearl Harbor, no Havaí. Os EUA entram na guerra. O Japão se rende em 2 de setembro de 1945, depois de ser atacado com bombas atômicas em Hiroxima, em 6 de agosto, e Nagasáki, em 9 de agosto daquele ano.

Os EUA preservam o imperador Hiroíto, mas impõem uma Constituição pacifista em 1947, que proíbe o Japão de projetar seu poderio militar no exterior. Em 8 de setembro de 1951, 49 países assinam o Tratado de São Francisco, que entra em vigor em 28 de abril de 1952. Shigeru Yoshida, que colabora com o general Douglas MacArthur, comandante da ocupação, se torna primeiro-ministro do Japão.

ALI REJEITA CONVOCAÇÃO

    Em 1967, o campeão mundial de boxe peso-pesado, Muhammad Ali, recusa a convocação do Exército dos Estados Unidos para lutar na Guerra do Vietnã e perde o título. Anos depois, a condenação é revogada pela Suprema Corte e Ali recupera o título duas vezes. Até hoje, é o único peso-pesado a ser três vezes campeão, em 1964, 1974 e 1978.

Um dos maiores boxeadores de todos os tempos, Ali nasce em Louisville, no Kentucky, em 17 de janeiro de 1942. É batizado como Cassius Marcelus Clay Jr. Aos 18 anos, ganha a medalha de ouro na Olimpíada de Roma. 

Aos 22 anos, em 1964, surpreende o mundo ao vencer Sonny Liston e se tornar campeão mundial dos pesos pesados. No mesmo ano, converte-se ao Islã e muda de nome para Muhammad Ali. Rejeita o sobrenome herdado do senhor de escravos que era dono de sua família, como era o padrão nos EUA.

Arrogante, pretensioso e cheio de si, Cassius Clay declara ao bater Liston pela primeira vez, em 1964: "Sou o maior do mundo." Na revanche contra Liston, promete um nocaute em 90 segundos e cumpre a promessa. Muita gente ainda está entrando no ginásio quando a luta acaba. Nasce uma lenda do esporte.

Ao descrever seu estilo, declara: "Flutuo como uma borboleta e ferro como uma abelha."

Politicamente consciente, Ali luta contra o racismo e se recusa a ir para o Vietnã: "Nenhum vietcongue me chamou de crioulo para eu atirar nele."

Como desertor, tem o título mundial cassado. Em 1971, a Suprema Corte aceita seu recurso. Todas as acusações e punições são anuladas. É um caso clássico de objeção de consciência.

Ao tentar reconquistar seu título, Ali perde por pontos uma luta memorável com Joe Frazier em que chega a cair na lona e dá vários socos curtos (jabs) na testa do adversário de menor estatura para mantê-lo à distância. É sua primeira derrota como profissional. Depois da luta, Frazier passa longo tempo hospitalizado, mas Ali fica sem o título.

Ali voltaria a ser o maior do mundo na Luta do Século contra George Foreman realizada em 30 de setembro de 1974 em Kinshasa, a capital do Zaire, na África, e imortalizada no livro A Luta, do escritor americano Norman Mailer.

Ele chega com todo o seu espírito e sua ironia: "Se você pensa que [o presidente norte-americano Richard] Nixon surpreendeu o mundo ao renunciar, espere até eu esmagar Foreman."

Mais jovem e mais forte, Foreman tem 25 anos e Ali 32. O campeão submete o ex-campeão a uma saraivada de golpes desde o início da luta. Com toda sua técnica e talento, Ali se defende como pode até dar o bote fatal no fim do oitavo assalto. Naquele momento, Ali já lidera na contagem de pontos de todos os jurados.

Em declínio, ele perde por pontos para Leon Spinks com os jurados divididos em fevereiro de 1978 em Las Vegas. Na revanche, em Nova Orleans, Ali ganha por decisão unânime dos jurados, tornando-se o único lutador até hoje a ser três vezes campeão mundial da categoria peso pesado.

Em 27 de julho de 1979, Ali anuncia sua aposentadoria. Ainda trava uma luta patética com Larry Holmes em outubro de 1980, que teria contribuído para o Mal de Parkinson, diagnosticado em 1984. A doença é atribuída às pancadas na cabeça que um boxer recebe, especialmente na categoria peso pesado.

Em 1996, Ali acende a pira da Olimpíada de Atlanta, nos EUA.

Aos 74 anos, Muhammad Ali é internado num hospital de Phoenix, no Arizona, com problemas pulmonares e morre em 3 de junho de 2016.

DE GAULLE RENUNCIA

    Em 1969, o general Charles de Gaulle, líder do governo francês no exílio durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45), renuncia à Presidência da França.

Charles André Joseph Marie de Gaulle nasce em Lille, no Norte da França, em 22 de novembro de 1890 e se torna militar, político, estadista, escritor e fundador da 5ª República. Preso na Batalha de Verdun durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18), é prisioneiro de guerra por dois anos e oito meses. 

Nos anos 1920 e 1930, defende a guerra de blindados e a aviação militar, que vê como maneira de superar o impasse da guerra de trincheiras que caracterizou a Primeira Guerra Mundial.

Quando a Alemanha Nazista ocupa a França na Segunda Guerra Mundial, De Gaulle foge para o exílio na Inglaterra e se torna o líder da França Livre, o governo no exílio. Com a libertação da França em agosto de 1944, ele forma o governo provisório que dura até 1946.

Em 1958, é nomeado primeiro-ministro e reescreve a Constituição da França, fundando a 5ª República. É eleito presidente no fim do ano e toma posse em 8 de janeiro de 1959. Governa a França por 10 anos, inclusive durante a Revolução dos Estudantes de maio de 1968, quando sai do país. Volta com o apoio do Exército e amplia a maioria na Assembleia Nacional, mas renuncia ao perder um referendo que propõe a descentralização do Estado francês.

Os partidos gaullistas, da direita conservadora e republicana, presidem a França com Georges Pompidou (1969-74), Jacques Chirac (1995-2007) e Nicolas Sarkozy (2007-12), mas sua posição é abalada pela ascensão de Emmanuel Macron, que atrai eleitores do Partido Socialista e do gaullismo.

EUA TORTURAM NO IRAQUE

    Em 2004, a rede de televisão norte-americana CBS (Columbia Broadcasting System) mostra fotos da tortura a iraquianos na prisão de Abu Ghraib, perto de Badgá, durante a invasão dos Estados Unidos ao Iraque para derrubar o ditador Saddam Hussein.

A prisão é mal-afamada na ditadura de Saddam por ser um centro de detenção e tortura de prisioneiros políticos. Os EUA a fecham após a queda do ditador, em abril de 2003, e a reabrem em agosto do mesmo ano.

O tratamento cruel e desumano de presos é proibido pela 8ª Emenda à Constituição dos EUA, mas é autorizado no governo George Walker Bush (2001-9) dentro da Guerra contra o Terror deflagrada pelos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. 

No começo de 2002, o governo Bush começa a enviar presos na luta contra o terrorismo dos extremistas muçulmanos para uma prisão em Guantânamo, uma parte do território de Cuba ocupado pelos EUA para lhes negar os direitos que teriam em julgamentos nos EUA e até mesmo os conferidos pela Convenção de Genebra sobre Prisioneiros de Guerra, sob a alegação de que não pertencem a um exército regular nem obedecem a uma cadeia do comando.

A tortura é uma prática corriqueira em Guantânamo e o mesmo acontece no Iraque. Aliás, os EUA usam outros países, inclusive a Líbia do ditador Muamar Kadafi, para prender e torturar suspeitos de terrorismo.

As fotos de Abu Ghraib confirmam os abusos, a tortura e a morte de prisioneiros nas mãos do Exército dos EUA. As denúncias começam logo depois da invasão do Iraque, em 20 de março de 2003. Em novembro de 2003, a agência de notícias Associated Press. Quando o programa 60 Minutes, da CBS, divulga as fotos, é um escândalo.

A invasão do Iraque sob o falso pretexto de que Saddam tinha armas de destruição em massa desmoralizou os EUA e sua pregação de que o fim da Guerra Fria traria uma nova ordem internacional baseada na democracia e nos direitos. Acabou com a solidariedade internacional que o país recebeu depois do ataque às Torres Gêmeas do Centro Mundial de Comércio de Nova York.

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domingo, 12 de setembro de 2021

Quem ganhou e quem perdeu a Guerra contra o Terror

O colapso da ordem internacional liberal no mundo pós-Guerra Fria

Sob o céu de puríssimo azul de uma manhã de verão em Manhattan, dois aviões de passageiros transformados em mísseis guiados por pilotos suicidas da rede terrorista Al Caeda destruíram, em 11 de setembro de 2001, muito mais do que os maiores prédios de Nova York matando 2.606 pessoas, sem contar os passageiros e tripulantes dos aviões-bomba. 

Outro avião atingiu o Pentágono, sede do Departamento da Defesa, símbolo do poderio militar incontrastável dos Estados Unidos, e matou 125 pessoas. Estavam feridos o orgulho e a glória da única superpotência, que reinava soberana há uma década como única superpotência, desde o desaparecimento da União Soviética no fim da Guerra Fria, em 1991. 

Um quarto avião caiu numa zona rural da Pensilvânia, matando as 69 pessoas a bordo ao ser derrubado pelos passageiros quando ia sequestrado rumo a Washington para atingir a Casa Branca ou o Capitólio. Ao todo, foram 2.977 mortes nos atentados, excluindo os 19 terroristas.

O século 21 nasce num mundo mais autoritário, com mais restrições às liberdades individuais e o medo do terrorista suicida que se infiltra na multidão ou num avião disposto a dar a vida por sua causa, de voluntários do martírio em busca da graça divina eterna e de um lugar no paraíso para desfrutar 72 virgens. 

Junto com as Torres Gêmeas do World Trade Center, cai a ordem internacional liberal do mundo pós-Guerra Fria, que prometia uma era de paz e prosperidade, com o triunfo da democracia liberal e da economia na confrontação estratégica das superpotências que dominaram o mundo na segunda metade do século 20. Ruiu a tese do “fim da história” como confronto ideológico. 

Vinte anos, US$ 8 trilhões e 900 mil mortes depois, inclusive de 6.892 militares americanos, com a caótica retirada do Afeganistão, os Estados Unidos declaram vitória. Mas a fuga desesperada nos últimos dias de estrangeiros e afegãos aliados das forças internacionais lembra a queda de Saigon no fim da Guerra do Vietnã, em 30 de abril de 1975, ou a retirada do Líbano depois de atentados terroristas de extremistas muçulmanos em Beirute que mataram 241 fuzileiros navais americanos e 58 soldados franceses, em 23 de outubro de 1983, ou da Somália depois de mortes de 18 americanos na Batalha de Mogadíscio, em 3 a 4 de outubro de 1993. Três derrotas humilhantes. 

QUEM GANHOU? 
Quem venceu então a Guerra contra o Terror? O nome em si é um equívoco. O terrorismo é uma tática de guerra, não é um inimigo em si. O inimigo, no caso, é o jihadismo (de jihad = guerra santa), o terrorismo dos extremistas islâmicos que pregam a luta armada para converter ou matar os infiéis: “A bolsa, a vida ou o Corão.” 

No passado, na expansão do islamismo pela Europa, dava para comprar lealdade, o que aconteceu com os muçulmanos da Bósnia, que pagavam menos impostos ao Império Otomano se aderissem ao islamismo. Isso praticamente sumiu na Guerra contra o Terror. 

O jihadismo é de certa forma um populismo político. Pesca no mar do Corão, o livro sagrado dos muçulmanos, elementos para criar e justificar sua ideologia sanguinária. É uma ideologia e uma guerra ideológica é uma batalha de ideias. Não pode ser vencida com armas. 

Antes de mais nada, é uma guerra civil dentro do Islã sobre qual é a verdadeira interpretação do Corão. Tem uma base religiosa. Sonha em recriar o mundo à imagem da Arábia no século 7, no tempo do profeta Maomé. Ao mesmo tempo, usa os recursos tecnológicos do século 21. Criou um califado digital que divulga atrocidades e recruta voluntários para o martírio. Na verdade, é um movimento político extremista surgido em lugares onde não há liberdade política, então os militantes se reúnem nas mesquitas.

Inicialmente a vitória foi dos terroristas, que na visão de seu líder, Ossama ben Laden, romperam a aura de invencibilidade dos EUA ao mostrar capacidade de atacar os centros do poder econômico, político e militar da superpotência, ao levar as guerras do Oriente Médio para dentro do território americano e a qualquer lugar do planeta, numa globalização do terrorismo. 

PAQUISTÃO 
No Afeganistão, a grande vitória foi do Paquistão. O serviço secreto militar paquistanês apoia a Milícia dos Talebã (Estudantes) desde um mês depois de sua fundação, em setembro de 1996, quando o Afeganistão vivia um período de anarquia depois da retirada da União Soviética, em 1989. 
 
O ministro do Exterior paquistanês foi a Cabul pacificar as diferentes correntes dos talebã, se encontrou com as lideranças da milícia fundamentalista sunita e com o novo ministro do Interior afegão, Sirajuddin Hakkani, que está na lista de terroristas procurados pelos EUA. Ele é filho de Jalaluddin Hakkani, que foi recebido pelo presidente Ronald Reagan na Casa Branca quando lutava conta a invasão soviética (1979-89), embora haja quem diga que esse encontro nunca ocorreu. 

Antes de se tornar chefe de governo do Paquistão, o atual primeiro-ministro, Imran Khan, admitiu que a Rede Hakkani é o braço do Exército do Paquistão na guerra civil afegã. O ministro do Interior do Afeganistão tem boas relações com a rede Al Caeda. 

Está recriado o ambiente onde floresceram os terroristas que atacaram o World Trade Center. O atentado contra o aeroporto de Cabul em que morreram 13 militares americanos e 170 civis afegãos, em 26 e agosto, cometido pelo Estado Islâmico do Coração (Khorasan) mostra que os talebã dificilmente terão controle absoluto sobre o território afegão, que pode servir da base para ataques aos países vizinhos, aos EUA e aliados, à China, à Rússia ou à Europa. 

Como 43% do produto interno bruto do Afeganistão vêm de ajuda externa, os talebã precisam de reconhecimento, ajuda e financiamento internacionais, um forte estímulo para a moderação. Mas a ideologia não mudou, voltaram as restrições às mulheres, jornalistas foram espancados ao cobrir manifestações de protesto e os primeiros milicianos do grupo ouvidos por jornalistas estrangeiros nas ruas de Cabul enquanto festejavam a vitória foram claros: “A guerra santa continua até converter todos os infiéis no mundo inteiro.” 

IRà
Na Guerra do Iraque para derrubar o ditador Saddam Hussein, que nada teve a ver com os atentados de 11 de setembro, o grande vencedor foi o Irã. Há hoje um arco muçulmano xiita que vai do Irã ao Mar Mediterrâneo passando pelo Iêmen, o Irã o Iraque, a Síria e o Líbano. 

Ao fim da Primeira Guerra Mundial (1914-18), a aliança vencedora (EUA, França e Reino Unido) prometeu aos curdos, maior povo do mundo sem um Estado Nacional, fundar o Curdistão. 

O subsecretário de Estado para o Oriente Médio do Império Britânico, Winston Churchill, quebrou a promessa. Criou o Iraque artificialmente, juntando a província curda de Kirkuk, rica em petróleo, às províncias de Bagdá e Bássora do Império Otomano (turco), vencido e dissolvido. 

Churchill queria um Iraque suficientemente poderoso para conter o Irã. Depois da vitória da Revolução Islâmica liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, em 1979, os EUA, a URSS, a Europa e os países árabes apoiaram Saddam Hussein na Guerra Irã-Iraque na expectativa de acabar com a revolução iraniana. Sem sucesso, com um enormes perdas para os dois lados e pelo menos 500 mil mortes. A guerra terminou num impasse, mas ajudou a conter a exportação da revolução islâmica. 

Ao invadir o Iraque, depor Saddam e tentar impor um regime democrático, em 2003, os EUA entregaram o poder à maioria xiita depois de séculos de dominação sunita. A revolta sunita e a infiltração d’al Caeda forjaram o Estado Islâmico, um novo inimigo para o Ocidente e para os regimes do Oriente Médio. E os xiitas têm uma afinidade com o Irã, que controla várias milícias no país e mais de 60 no Oriente Médio. 

Isso leva o governo Trump a matar o principal general iraniano, Kassem Soleimani, comandante do braço da Guarda Revolucionária do Irã para ações no exterior, num ataque de mísseis ao aeroporto de Bagdá, em 3 de janeiro de 2020, quase incendiando o Oriente Médio. 

Os EUA saem do Iraque em 2011, quando o primeiro-ministro Nuri al-Maliki se nega a dar imunidade aos soldados americanos por crimes cometidos no país. Voltam em agosto de 2014, no governo Barack Obama (2009-17), para combater o Estado Islâmico depois da degola de cidadãos americanos. 

O Irã também ganha porque seu maior rival no mundo muçulmano, a Arábia Saudita, sai chamuscada. Dos 19 terroristas em ação no 11 de Setembro, 15 eram sauditas, escolhidos a dedo por Ben Laden para tentar romper a aliança EUA-Arábia Saudita. 

Documentos desclassificados recentemente publicados pelo jornal digital The Intercept sugerem que possa haver uma conexão maior dos sauditas com os atentados. Desde que a crise do petróleo de 1973 multiplicou os preços do produto, a Arábia Saudita exporta o wahabismo, sua versão ultraconservadora, reacionária, ascética, moralista e puritana do islamismo, que está na raiz do salafismo, a ideologia do fundamentalismo sunita. 

CHINA 
A China também ganhou, à medida que a Guerra contra o Terror erodiu o poderio e o prestígio dos EUA. Em 2001, a China aderiu à Organização Mundial do Comércio, dando um impulso a seu desenvolvimento econômico, com taxas de crescimento acima de 10% ao ano até a Grande Recessão de 2008. Com o impacto da pandemia, a China deve ultrapassar os EUA e se tornar a maior economia do mundo em produto interno bruto nomina em 2028, cinco anos antes do previsto. 

A intenção de Trump e do atual presidente Joe Biden era e é acabar com a Guerra contra o Terror para reorientar a defesa dos EUA para competidores e potenciais inimigos estratégicos como a China e a Rússia. 

Ao mesmo tempo, a ascensão do autoritarismo e as medidas de exceção adotadas para combater o terrorismo fortaleceram a ditadura militar chinesa no duelo ideológico com a democracia ocidental. O regime comunista chinês, que mantém 1 milhão de muçulmanos em centros de reeducação comparados a campos de concentração na região de Xinjiang, foi o primeiro a oferecer ajuda aos talebã para tentar neutralizar a ameaça jihadista. 

SOLIDARIEDADE 
No primeiro momento após os atentados, os EUA receberam a solidariedade internacional. O Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou a intervenção militar no Afeganistão e os aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a aliança militar criada para enfrentar a URSS na Guerra Fria, lutaram ao lado dos americanos com base no princípio de que “um ataque contra um é um ataque contra todos”. Era uma guerra legítima e legal. 

Depois de cercar a cúpula d’al Caeda na Batalha de Tora Bora, em dezembro de 2001, e deixar Ben Laden fugir para o Paquistão, o governo George W. Bush reorientou seus principais esforços na Guerra contra o Terror para invadir o Iraque em 20 de março de 2003, sem o aval do Conselho de Segurança da ONU, sob o falso pretexto de que Saddam tinha armas de destruição em massa. 

ABUSO DE PODER 
A invasão do Iraque – ilegítima porque os EUA não haviam sido agredidos pelos iraquianos, ilegal porque não teve autorização da ONU e fracassada – racha a aliança transatlântica que foi a base da ordem mundial no pós-Segunda Guerra Mundial no Ocidente e deflagra uma crise no sistema internacional que mudou o mundo. 

A ordem internacional liberal prometida no fim da Guerra Fria entra em colapso e deixa de ser inexorável. Os EUA perdem a autoridade moral como defensores da democracia liberal e minam o poder suave do país, a força do exemplo, da persuasão e da influência cultural. 

Os EUA cometem graves violações dos direitos humanos na Guerra contra o Terror. A partir de janeiro de 2002, começam a transferir prisioneiros para uma prisão instalada na base naval de Guantânamo, um enclave americano em Cuba, onde eles são submetidos a tortura, maus tratos e privações. 

Assim, os EUA lhes negavam os direitos garantidos pela lei americana e na Convenção de Genebra sobre Prisioneiros de Guerra, alegando, entre outras razões, que eram “combatentes ilegais” por não pertencerem a um exército regular, com uma cadeia de comando. 

Em 20 anos, as “comissões judiciais”, os tribunais militares de Guantânamo, só condenaram dois acusados. Dez aguardam julgamento. 

Hoje, restam 39 dos 780 prisioneiros levados para Guantânamo. Os outros foram transferidos para outros países e alguns libertados. Pelo menos 12 são acusados pelos EUA de fazer parte da cúpula d’al Caeda, inclusive Khaled Cheikh Mohammed, considerado o idealizador dos atentados de 2001. 

Regimes antiliberais como os do Egito, da Líbia, da Rússia, da Mauritânia e do Usbequistão começam a tachar seus adversários políticos como terroristas, se tornam aliados dos EUA na Guerra contra o Terror e conseguem aceitação para suas práticas autoritárias. 

Os americanos usam essas alianças para torturar suspeitos em países onde isto é permitido, até mesmo na Líbia no antes inimigo Muamar Kadafi, que entrega suas armas de destruição em massa. Outro escândalo é a revelação de imagens de tortura na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, em 28 de abril de 2004, com prisioneiros amontoados obrigados a simular atos sexuais. 

Preso e desmoralizado na areia movediça do Iraque, os EUA não apoiam as revoltas da Primavera Árabe, a não ser na intervenção militar da OTAN na guerra civil da Líbia, sob pressão da França, que não foi seguida de um processo de país. Deixou a Líbia num estado de anarquia que continua até hoje e ajuda a desestabilizar a África Subsaariana, especialmente na região do Sahel. 

MORTE DO XEIQUE 
Talvez o melhor momento para cantar vitória e bater em retirada tenha sido na morte de Ben Laden, caçado por um comando de elite da Marinha dos EUA em Abotabade, perto da principal academia militar do Paquistão, em 2 de maio de 2011. 

Na época, o presidente Obama sai do Iraque, uma guerra que nunca apoiou, mas reforça as tropas no Afeganistão na expectativa de consolidar o regime fantoche instalado pela intervenção militar. 

Uma década depois da sua morte, Ben Laden, o Xeique, continua sendo a figura central e o maior exemplo para o movimento jihadista. Com a retirada dos EUA do Afeganistão, reabre-se o terreno para Al Caeda e outros grupos terroristas como o Estado Islâmico. 

O projeto de construir uma democracia fracassa por falta de recursos e de entender a cultura dos povos afegãos, que no interior do país confundiam os americanos com os soviéticos. Construir o Estado e a nação custa muito caro. Os EUA ajudaram a reconstruir a Europa e o Japão com o Plano Marshall depois da Segunda Guerra Mundial (1939-45) porque precisavam de aliados fortes na Guerra Fria contra a URSS.

EUROPA 
Além dos EUA e da democracia liberal, perde a Europa, alvo de vários atentados terroristas de muçulmanos fanáticos, em Madri, Londres, Paris, Nice, Berlim, Bruxelas e Moscou, além de Báli, na Indonésia, onde os principais alvos era australianos. 

Na capital francesa, começou na semana passado o julgamento dos acusados pelos atentados de 13 de novembro de 2015, que mataram 130 pessoas, 10 meses depois do massacre dos jornalistas do semanário satírico Charlie Hebdo, que publicara charges do profeta Maomé. 

A Rússia inicia sua guerra contra o terror antes dos EUA, quando o então primeiro-ministro Vladimir Putin lança a Segunda Guerra da Chechênia, em agosto de 1999, para se cacifar no poder como sucessor de Boris Yeltsin. Também foi uma boa desculpa para aumentar a repressão interna. 

ÁFRICA 
Quando o califado do Estado Islâmico é derrotado na Síria e no Iraque, em 23 de março de 2019, a África passa a ser o principal foco do jihadismo, especialmente na região do Sahel, ao sul do Deserto do Saara, numa faixa que vai da Mauritânia à Somália, passando pelo Mali, Burkina Fasso, Níger, Norte da Nigéria, Camarões, Chade, República Centro-Africana, Sudão e Somália, onde populações miseráveis são alvos fáceis de recrutadores d’al Caeda e do Estado Islâmica. 

Também houve ataques recentes do Estado Islâmico na rica província mineral de Cabo Delgado, no Norte de Moçambique, onde fica a maior reserva de gás natural da África e há ouro, rubis, grafite, mármore e várias madeiras valiosas. 

Países pobres, com recursos escassos, precisam de investimento internacional para desenvolver a economia e de ajuda militar para combater o terrorismo. 

No fim do governo Donald Trump (2017-21), em janeiro, os EUA retiraram as forças que combatiam o jihadismo na Somália e agora cogitam voltar, depois de realizar alguns bombardeios aéreos contra a miícia jihadista Al Chababe (A Juventude), aliada a Al Caeda. Mantêm 1,2 mil soldados na África Ocidental. 

Em junho, o presidente Emmanuel Macron anunciou a retirada de 2 mil dos 5 mil soldados que a França tem no Norte do Mali, onde intervém há oito anos para combater uma ofensiva jihadista. Mas quer que os EUA, que tem cerca de 800 soldados numa missão quase secreta no Níger, mantenha sua presença militar na região. A tríplice fronteira entre Burkina Fasso, Mali e Níger é hoje um dos lugares mais perigosos do mundo. 

ATENTADOS NOS EUA 
Nos EUA, houve 15 atentados terroristas cometidos por jihadistas depois de 11 de setembro de 2001. Os mais graves foram: 
• em 5 de novembro de 2009, o major e médico psiquiatra Nidal Hasan mata 13 soldados desarmados e fere outros 30 em Forte Hood, no Texas, no pior massacre a tiros numa base militar americana; 
• em 15 de abril de 2013, os irmãos de origem chechena Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev explodem duas bombas caseiras na chegada da tradicional Maratona de Boston, uma das mais antigas do mundo, matando três e aleijando outras 17 (Dzhokhar, o único sobrevivente dos irmãos, era colega da minha filha no ensino médio em Cambridge, Massachusetts); 
• em 2 de dezembro de 2015, um casal mata 14 colegas na festa de fim de ano da empresa, em São Bernardino, na Califórnia; e 
• em 12 de junho de 2016, quando Omar Mateen fuzila e mata 49 pessoas e fere outras 58 num ataque a uma discoteca gay em Orlando na Flórida. 

MILITARIZAÇÃO 
A Guerra contra o Terror criou uma sociedade sob constante vigilância do Estado sobre as telecomunicações, inclusive através das grandes empresas da Internet, como revelou o analista de sistema da Agência de Segurança Nacional Edward Snowden, em junho de 2013, ao “vazar” milhares de documentos secretos para jornalistas. 

Também houve uma militarização das polícias, equipadas blindados e outras armas de guerra para combater o terrorismo. Este aparato bélico é usado hoje para conter manifestações, por exemplo, do movimento Vidas Negras Importam, quando ativistas mais exaltados cometem atos de violência. 

Como observou nas solenidades de ontem o ex-presidente George W. Bush (2001-9), que iniciou a guerra contra o terror, a maior ameaça terrorista hoje nos EUA vem do inimigo interno, da extrema direita, como os grupos aliados de Trump que assaltaram o Congresso em 6 de janeiro, responsáveis por dois terços dos atentados. 

Em comum com os jihadistas, têm o desdém pelo pluralismo, o repúdio à diversidade, o desrespeito à vida e o ódio aos que não compartilham de suas ideologias. 

TEORIAS CONSPIRATÓRIAS 
Por fim, os atentados de 11 de setembro de 2001 geram uma onda de teorias conspiratórias, por exemplo, de que foi um “serviço interno” das agências de segurança nacional para criar um pretexto para o governo federal impor um Estado totalitário de segurança máxima e reprimir as liberdades individuais. 

Mesmo com vídeo de Ben Laden comentando os atentados e dizendo que não esperava que as torres caíssem, apenas que incendiassem a partir do ponto de impacto, há relatos falsos de explosão de bombas na base dos prédios segundos ambos do desabamento ou de que os judeus não foram trabalhar naquele dia porque sabiam do plano. 

As teorias conspiratórias viram um elemento central do debate político nos EUA, da hipótese de que Obama é muçulmano e não nasceu nos EUA, difundida por Trump, entre outros; ao suposto envolvimento do bilionário George Soros, da ex-senadora e ex-secretária de Estado Hillary Clinton e de outros líderes do Partido Democrata numa grande cabala de pedófilos; que Trump foi vítima de uma fraude maciça na eleição de 2020, o que a maioria dos republicanos acredita; que a pandemia do coronavírus é parte de uma conspiração chinesa para dominar o mundo; e que as vacinas contra a covid-19 podem alterar o código genético ou inserir um chip para controlar o cidadão. 

Outro dia, no debate sobre o uso obrigatório de máscaras nas escolas, um negacionista que é contra vacinas e medidas sanitárias alegou que as máscaras, ao esconder o rosto das crianças, facilitam a ação de sequestradores pedófilos. 

O 11 de Setembro traumatizou e radicalizou os EUA, que nunca mais reencontraram a paz interior.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Iraque lança nova ofensiva contra o Estado Islâmico

Depois de ataques contra um bairro xiita de Bagdá e a cidade-satélite de Abu Ghraib, o Exército do Iraque e milícias aliadas lançaram ontem uma ofensiva na área ao norte da capital, informou a agência Associated Press (AP).

A ofensiva é considerada um passo importante para retomar Mossul, a segunda maior cidade iraquiana, conquistada pelo Estado Islâmico do Iraque e do Levante em junho de 2014. Os principais alvos são as linhas de suprimento do Estado Islâmico ao redor da cidade de Samarra, situada a 95 quilômetros ao norte de Bagdá.

Em Haditha, a 240 km a noroeste da capital, um atentado terrorista suicida do Estado Islâmico matou oito soldados. Sob intenso bombardeio dos Estados Unidos e aliados e da Rússia, e ofensivas de forças terrestres, o Estado Islâmico está perdendo espaço no Oriente Médio e apelando cada vez mais ao terrorismo.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Al Caeda liberta centenas de presos no Iraque

A rede terrorista Al Caeda assumiu hoje a responsabilidade por ataques simultâneos a duas prisões que terminaram com a libertação de mais de 500 presos e a morte de mais de 120 guardas penitenciários no Iraque. O governo iraquiano previu uma nova onda de violência política em consequência das ações.

Os ataques contra as prisões de Abu Ghraib e Taji começaram com a explosão de carros-bomba por terroristas suicidas, seguidos de bombardeios com morteiros e granadas contra os guardas da prisão.

Nos últimos meses, os rebeldes sunitas intensificaram os ataques contra bairros xiitas na tentativa de fomentar uma guerra civil sectária no Iraque. O conflito entre sunitas e xiitas se agravou com a guerra civi na vizinha Síria.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Memorandos revelam tortura no governo Bush

Por requerimento da União Americana das Liberdades Civis (ACLU), o Departamento da Justiça dos Estados Unidos revelou ontem quatro memorandos que descrevem a prática de tortura no governo George W. Bush (2001-09).

A tortura foi usada na guerra contra o terrorismo deflagrada pelos atentados de 11 de setembro de 2001.

Entre as vítimas mais notórias foram os prisioneiros levados a partir do início de 2002 para o centro de detenção instalado dentro da base naval americana de Guantânamo, em Cuba, e prisões como Abu Ghraib, no Iraque, onde a tortura foi revelada em fotos feitas por soldados americanos, em abril de 2004.

Os métodos de interrogatório incluíram impedir os prisioneiros de dormir por até 11 dias, sufocamento por jatos d'água, tapas no rosto e o confinamento em pequenas caixas por até duas horas.

Grupos de defesa dos direitos humanos, a começar pela ACLU, estão indignados com a decisão do governo Barack Obama de não processar os torturadores, sob a alegação de que cumpriam determinações do Departamento da Justiça.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Iraque reforma e reabre prisão de Abu Ghraib

Sob nova direção: o governo do Iraque reabriu hoje a temida prisão de Abu Ghraib, mal-afamada como centro de tortura desde a ditadura de Saddam Hussein e também sob a ocupação militar americana.

O presídio foi reformado e mudou de nome. Agora, se chama Prisão Central de Bagdá e tem instalações que a elevam aos melhores padrões internacionais, como clínica médica e dentária, laboratório, fábrica de roupas para que os detentos possam fazer suas roupas, mesquita, barbearia e até um chafariz.

Sob a ditadura de Saddam, a prisão de Abu Ghraib chegou a ter 60 mil detentos. Era cenário de tortura e execuções sumárias.

Sob o comando de George W. Bush, em maio de 2004, pouco mais de um ano depois da invasão americana de março de 2003, que levou há queda de Saddam em 9 de abril, foram divulgadas fotos de soldados americanos torturando iraquianos, com choques, cães e abusos sexuais.

As fotos de Abu Ghraib, com prisioneiros nus embolados no chão, cães e um homem encapuzado ligado e fios elétricos, percorreram o mundo desmoralizaram ainda mais a intervenção militar de Bush no Iraque. Já estava deslegitimada pela constatação de que Saddam não escondia armas de destruição em massa, principal justificativa oficial da invasão.

sábado, 13 de outubro de 2007

Ex-comandante: Iraque é "pesadelo sem fim"

Os Estados Unidos "estão vivendo um pesadelo sem fim a vista" porque o governo George Walker Bush foi à guerra no Iraque com um plano "catastroficamente falho", acusa o general-da-reserva Ricardo Sanchez, comandante militar americano no país ocupado durante um ano depois da invasão de março de 2003. Ele descreveu o aumento do número de soldados ordenado no início do ano como "uma tentativa desesperada de um governo que não aceitou as realidades políticas e econômicas da guerra".

Sanchez não poupou ninguém: "O governo, o Congresso e todas as agências, especialmente o Departamento de Estado, têm de assumir a responsabilidade pelo fracasso catastrófico, e o povo americano deve exigir uma prestação de contas. Houve e há uma demonstração evidente e desafortunada de liderança estratégica incompetente da parte de nossos líderes nacionais", que deixaram as Forças Armadas dos EUA numa "posição insustentável'' no Iraque.

Sem entrar em detalhes, o general atacou diretamente o Conselho de Segurança Nacional, denunciando a negligência e a incompetência do órgão, chefiado no primeiro governo Bush (2001-05) pela atual secretária de Estado, Condoleezza Rice.

"O melhor que podemos esperar dessa estratégia fracassada é evitar a derrota", disparou. "Sem a cooperação dos dois partidos, estamos condenados ao fracasso. Não há nada acontecendo em Washington que nos dê esperança". Ele também acusou o governo de não revelar "a realidade ao povo americano".

Na sua opinião, "de um plano de guerra irrealista, otimista demais e catastroficamente falho à nova estratégia de reforço das tropas, este governo fracassa ao não usar e sincronizar seu poder político, econômico e militar", afirmou o general Sanchez, indicando que, além de competência, faltaram recursos adequados.

Sob seu comando, os americanos começaram a enfrentar a insurgência dos iraquianos que lutam contra a ocupação. A prisão do ex-ditador Saddam Hussein, em dezembro de 2003, deu esperanças de que a situação seria controlada. Mas as batalhas de Najaf e Faluja, no início de 2004, revelaram que a guerra iria muito além do Bush imaginara quando declarou "missão cumprida" em 1º de maio de 2003.

A divulgação das imagens de tortura de prisioneiros na prisão de Abu Ghraib desmoralizou os EUA e mostrou que o governo Bush aceitava qualquer método na guerra contra o terrorismo, igualando-se aos jihadistas.

domingo, 17 de junho de 2007

Governo Bush encobriu tortura no Iraque

O governo dos Estados Unidos tinha conhecimento oficial da tortura na prisão iraquiana de Abu Ghraib pelo menos desde janeiro de 2004, afirma reportagem investigativa de Seymour Hersh publicada hoje na revista The New Yorker. Mas, quando o escândalo veio a público, em maio do mesmo ano, com a divulgação de fotos da tortura, o então secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, declarou ao Congresso que estava surpreso: "Partiu nosso coração. O presidente não sabia. Vocês não sabiam. Eu não sabia".

A explicação é que a tortura foi praticada por oficiais renegados em casos isolados, e não era uma política governamental.

No final de fevereiro e início de março de 2004, o governo americano recebeu informações detalhadas sobre o abuso sistemático e a tortura de presos, garante o jornalista: "Eles receberam emails do campo de batalha denunciando as irregularidades", declarou Hersh ao programa Late Edition da rede de televisão CNN neste domingo. "Eles discutiram a questão intensamente em março".

Diversos "memorandos descreviam o que as fotos mostravam. Você não precisa ver as fotos. Eles entenderam rapidamente que tinham um grande problema nas mãos", acrescentou Hersh, observando ainda: "Se houve um aspecto redentor no caso, foi a amplitude e a paixão da investigação inicial do Exército. O inquérito começou em janeiro, sob a chefia do general Antonio Taguba. Em março, o general Taguba, na época baseado no Kuwait, apresentou seu relatório".

A conclusão é clara: houve "numerosos incidentes de abusos criminosos, brutais, descarados e sádicos em vários presos... um abuso ilegal e sistemático".

Leia a íntegra da reportagem na revista The New Yorker.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Derrota republicana derruba secretário da Defesa

O secretário da Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, o nome mais associado ao fracasso da invasão americana ao Iraque, caiu hoje, por causa da derrota em que o Partido Republicano perdeu a maioria na Câmara dos Representantes depois de 12 anos.

Além de reconquistar a maioria na Câmara, com a vitória em Montana anunciada esta manhã, os democratas ficaram a uma cadeira da maioria no Senado.

No estado da Virgínia, o desafiante James Webb venceu o senador republicano Charles Allen. Mas como a diferença foi inferior a 1% do total de votos, o perdedor tem direito a uma recontagem. Confirmado o resultado inicial, os democratas retomam o controle das duas casas do Congresso, enfraquecendo significativamente os últimos dois anos da presidência de George Walker Bush.

Dias depois de confirmar Rumsfeld no cargo, Bush declarou que "chegou a hora de uma nova liderança no Pentágono". O novo secretáio será Robert Gates, ex-diretor da CIA (Agência Central de Inteligência), o serviço de contra-espionagem dos EUA. Precisa da aprovação do Senado. É visto como um homem mais ligado ao setor mais pragmático e menos ideológico do Partido Republicano, o que talvez indique uma mudança de rumo mais na linha do que faria o pai de Bush, um moderado.

Com o agravamento da situação no Iraque, onde já morreram 2.839 soldados americanos, a guerra tornou-se o tema central das eleições intermediárias para renovar toda a Câmara e um terço do Senado dos EUA. A deputada federal californiana Nancy Pelosi, que deve ser eleita presidente da Câmara, elogiou a decisão do presidente.

O prestígio de Rumsfeld foi abalado nos primeiros dias da invasão, feita, por sua orientação, com a metade do contingente considerado ideal pelos generais americanos. Com sua estratégia de marchar rapidamente rumo a Bagdá, as forças de apoio que levavam os suprimentos para os soldados dos EUA ficaram desguarnecidas.

A rápida queda de Saddam resgatou o prestígio de Rumsfeld. Numa queda de braço com o secretário de Estado, Colin Powell, o Pentágono acabou sendo encarregado da pacificação do Iraque pós-Saddam. Todo o projeto da diplomacia americana, de 250 páginas, foi substituído pelo voluntarismo castrense de Rumsfeld.

Talvez o pior erro tenha sido desmantelar as forças de segurança do antigo regime. Isto jogou no desemprego centenas de milhares com treinamento para usar armas. Parte desse pessoal constitui o núcleo da insurgência sunita, depois reforçada pela chegada de terroristas internacionais da rede Al Caeda.

Quando estourou o escândalo de tortura de prisioneiros de guerra em Abu Ghraib, no Iraque, Bagram, no Afeganistão, e na base naval americana de Guantânamo, em Cuba, a revista inglesa The Economist pediu a cabeça de Rumsfeld. Mas a troca do secretário da Defesa no ano de sua reeleição equivaleria a confessor um erro na condução da guerra.

Agora, diante da derrota nas eleições de ontem, Bush e Rumsfeld se rendem.

Rumsfeld é conhecido como um operador político inescrupuloso. Durante o governo Ronald Reagan, quando o Iraque estava em guerra com o Irã e apertou a mão de Saddam Hussein. Os EUA contribuíram para o programa de armas químicas do Iraque, inclusive com exportações clandestinas de agrotóxicos.

Antes da guerra, quando a Alemanha e a França se negaram a apoiar a invasão do Iraque, Rumsfeld falou de uma "velha Europa" em contraposição à "nova Europa" formada pelos países da Europa Oriental que saíram da órbita soviética e assim tem interesse numa relação estratégica dos os EUA que os proteja da Rússia e da Alemanha. Aprofundou o fosso na aliança atlântica que foi a base da ordem internacional do pós-guerra.

Quando era secretário da Defesa do governo Gerald Ford (1974-77), Rummy bateu de frente com o então secretário de Estado, Henry Kissinger, que fez o seguinte comentário: "De todos os ditadores que conheci, o mais implacável é Donald Rumsfeld". A lista inclui diversos dirigentes soviéticos, o general Augusto Pinochet, do Chile, as juntas militares que mataram dezenas de milhares de argentinos e o marechal Mobutu, do Zaire.