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quinta-feira, 8 de maio de 2014

Quem fala pela Europa?

Quando estava no poder, ironizando a desunião europeia, o secretário de Estado americano Henry Kissinger costumava dizer: "Quando eu quiser falar com a Europa, para que número ligo?" O problema não foi resolvido até hoje.

"Cada vez que a UE resolve criar indicar um representante cria um novo cargo. Hoje, são quatro", comentou a professora Vivian Schmidt, diretora do Centro de Estudos de Europa da Universidade de Boston: o presidente do Conselho Europeu (de líderes), no momento o primeiro-ministro da Grécia, Antonis Samaras; o presidente da Comissão Europeia, o português José Manuel Durão Barroso; o presidente executivo, o belga Herman van Rompuy; e a supercomissária de Comércio Exterior, a baronesa britânica Catherine Ashton.

Além desses quatro, há os 28 líderes dos governos nacionais, dificultando o processo de tomada de decisão e a expressão de uma voz comum, o que se explica porque a UE não é um Estado nacional. "Quando apresentou sua solução para a crise, [a primeira-ministra] Angela Merkel disse que era uma "solução alemã".

Há boas notícias, como a sobrevivência do euro e da UE à crise, a reforma da comissão, o aumento de poderes do Parlamento Europeu. Por outro lado, não foi aprovada uma nova regulamentação capaz de evitar futuras crises financeiras, os mercados podem entrar em pânico de novo, o crescimento é fraco e o desemprego está em 11,9%; "na Espanha, chega a 67% para mulheres jovens",  acrescentou Vivian Schmidt.

"O Sul da Europa continua em crise. O Norte da Europa acredita que a crise acabou. Além da crise da Ucrânia, o processo de tomada de decisões está em crise. Há um crescente intergovernamentalismo. Os líderes nacionais tomam a maioria das decisões", criticou a professora da Universidade de Boston ao participar da 3ª Conferência do Dia da Europa, realizada hoje no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, pelas fundações Getúlio Vargas (FGV) e Konrad Adenauer (KAS).

Na sua opinião, a crise das dívidas públicas de países da periferia da Zona do Euro (Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália) "não precisava ter acontecido". A crise das hipotecas de segunda linha começou em 2007 nos EUA.

"Até 2010, nada foi feito pela Grécia. Em julho de 2012, quando os mercados entraram em pânico, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, interveio" prometendo comprar os títulos que o mercado rejeitava. "A Alemanha, potência hegemônica relutante, deveria ter assumido a liderança", lamentou Schmidt.

Além disso, a União virou uma espécie de bode expiatório dos governos nacionais: "A UE tem um problema terrível para se vender", constatou o professor Kai Enno Lehman, da Universidade de São Paulo. Sob pressão, torna-se reativa.

Ele também vê uma clara divisão Norte-Sul, problemas econômicos causadas pela receita de austeridade usada contra a crise, preconceitos contra imigrantes e avanço dos partidos de extrema direita.

"O Reino Unido tem uma economia diabolicamente desequilibrada. Oito de cada dez empregos gerados desde o ínicio da crise são em Londres e arredores, o que está agravando a crise habitacional. A Itália precisa reformar o sistema de impostos. A França precisa discutir a reforma da Previdência Social", notou Lehman.

Ele concluiu que é preciso ir além da crise e democratizar a UE, evitando "a tomada de decisões de cima para baixo todo o tempo".

segunda-feira, 31 de março de 2014

Crise do petróleo derrubou modelo econômico da ditadura

Na extensa rememoração dos 50 anos do golpe cívico-militar de 1964 e da ditadura que se manteve por longos e sombrios 21 anos, há um importante aspecto negligenciado: o papel da crise do petróleo de 1973 ao acabar com o modelo econômico da ditadura militar e o milagre brasileiro.

Apesar da violenta repressão do governo do ditador Emilio Garrastazu Médici (1969-74), a imensa maioria do país, especialmente as classes média e alta, navegava faceira com as benesses de um crescimento econômico que chegou a 14% ao ano. Quando faltou gasolina para seus Corcéis e Opalas, e a inflação disparou, passou a votar contra o governo.

Sob a batuta do ministro Delfim Netto, hoje um dos gurus dos governos petistas, e graças às reformas feitas por Roberto Campos e Octavio Gouveia de Bulhões sob o marechal Humberto Castelo Branco, a ditadura criou seu milagre econômico. O modelo combinava matérias-primas e mão de obra baratas, por causa da repressão imposta ao movimento sindical.

Enquanto jovens comunistas se sacrificavam no vale do Rio Araguaia na expectativa de criar uma longa guerra civil no campo, a exemplo do que Mao Tsé-tung fizeram na China, outros sequestravam embaixadores nas grandes cidades para libertar companheiros presos. Mas a maioria festejava o tricampeonato no México e acreditava na propaganda que cantava: "Este é um país que vai pra frente... de uma gente alegre e tão contente."

O Brasil Grande do general Médici se apresentava como "um oásis de paz" num mundo conturbado por guerras e revoluções.

Em 6 de outubro de 1973, na maior empreitada militar árabe da era moderna, mais de 100 mil soldados, mil tanques, 4 mil peças de artilharia e 250 aviões de combate do Egito cruzaram o Canal de Suez na tentativa de retomar a Península do Sinai, conquistada por Israel na Guerra dos Seis Dias, de 5 a 10 de junho de 1967. Para o historiador militar americano Trevor Dupuy, foi "uma das mais memoráveis travessias de água nos anais da guerra".

Ao mesmo tempo, 35 mil soldados e 800 tanques da Síria invadiram as Colinas do Golã. Era o início da Guerra do Yom Kippur (Dia do Perdão). Os árabes aproveitaram um feriado para atacar. Nem Israel nem os EUA acreditavam nos planos de guerra dos presidentes do Egito, Anuar Sadat, e da Síria, Hafez Assad, pai do atual ditador, Bachar Assad.

Na manhã seguinte, Israel tinha perdido 300 tanques. Mas, depois de vencer a batalha do cruzamento do canal e resistir ao primeiro contra-ataque israelense, o Exército do Egito se entrincheirou no Sinai logo após o Canal de Suez e não avançou, como queria a Síria. Naquele momento, sob pressão no Golã, Israel teria dificuldade para descolar aviões e tanques para conter a ofensiva egípcia.

A "pausa operacional" da ofensiva egípcia permitiu a Israel enfrentar separadamente seus dois grandes inimigos. Em 7 de outubro, Sadat enviou mensagem ao secretário de Estado americano, Henry Kissinger, expondo suas condições para a paz: "Não queremos aprofundar o conflito nem ampliar a confrontação". Exigia a devolução do Sinai.

Durante três dias, de 7 a 9 de outubro de 1973, a Força Aérea israelense fez mais de mil missões de combate por dia no Golã. Neutralizou a Força Aérea da Síria e conquistou supremacia aérea. A Síria recuou para as linhas anteriores ao início da guerra.

Só no dia 14, quando a artilharia de Israel ameaçava Damasco, o Egito retomou a ofensiva sobre o Sinai. Com o fracasso, em 16 de outubro, Sadat escreveu uma carta aberta ao presidente americano, Richard Nixon, propondo um cessar-fogo a ser seguido por uma conferência de paz patrocinada pela ONU para Israel devolver os territórios ocupados e reconhecer os direitos do povo palestino.

O recado de Sadat para os EUA e para o aliado Assad era claro: ele não queria mais lutar.

Kissinger, que tinha consolidado o apoio dos EUA a Israel no contexto da Guerra Fria, viu uma oportunidade para enfraquecer o poderio soviético no Oriente Médio.

Uma batalha logística entre as duas superpotências marcou a Guerra do Yom Kippur, em 1973. Os EUA e a União Soviética armaram pontes aéreas militares da história, que levaram milhares de toneladas de equipamentos para as partes em luta. A URSS entregou de 12 a 15 mil toneladas de equipamentos, armas e munições aos árabes e os EUA o dobro disso a Israel. Ao todo, até dezembro de 1973, por mar e ar, os EUA forneceram 90 mil toneladas de armas e equipamentos militares a Israel.

Em 24 de outubro, quando Israel cercou e ameaçava destruir o 3º Exército do Egito no Sinai, a URSS entrou em alerta nuclear e ameaçou entrar na guerra. Foi o único alerta nuclear soviético durante a Guerra Fria. O equilíbrio do terror nuclear entre as superpotências levou a um cessar-fogo em 25 de outubro de 1973. Pelo menos 2.521 israelenses e 8 mil árabes morreram no conflito.

Quatro anos depois, convencido de que era a única maneira de recuperar o Sinai, Sadat rompeu com a URSS, aproximou-se dos EUA e visitou Israel, com quem faria o primeiro acordo de paz de um país árabe com o Estado judaico. Em 1977, a URSS deixava de ser uma superpotência no Oriente Médio, posição que Vladimir Putin tenta restaurar agora apoiando a ditadura de Bachar Assad na guerra civil na Síria.

Sadat pagaria com a vida. Foi assassinado por soldados extremistas muçulmanos durante uma parada militar, em 6 de outubro de 1981, para comemorar o 8º aniversário da Guerra do Yom Kippur.

Humilhados mais uma vez no campo de batalha, sob a liderança do rei Faissal, da Arábia Saudita, em 16 de outubro de 1973, os países árabes exportadores de petróleo aumentaram o preço do barril em 17%, na época para apenas US$ 3,65. No dia seguinte, anunciaram um boicote à venda de petróleo aos EUA e outros países que apoiavam Israel, como Canadá, Holanda, Japão e Reino Unido.

Quando o embargo acabou, em março de 1974, mês da posse do ditador Ernesto Geisel (1974-79), o preço do barril de petróleo tinha quadruplicado para US$ 12. Uma das bases do milagre econômico brasileiro começava a ruir. O Brasil importava 75% do petróleo que consumia.

Logo, vieram aumentos de preços em cascata que levariam à hiperinflação só vencida em 1994 pelo Plano Real, filas nos postos, fechamento de postos de gasolina aos fins de semana, sobretaxas, déficits comerciais crescentes e crises de balanço de pagamentos.

Sob pressão, o general Geisel anunciaria a "distensão lenta, gradual e segura" que culminou com a revogação do Ato Institucional nº 5, em 31 de dezembro de 1978, e a anistia aos presos políticos, exilados e torturadores, em 1979.

Com a crise econômica, a Arena (Aliança Renovadora Nacional), o partido da ditadura, perdeu as eleições para o Senado em 16 dos 22 estados brasileiros em 15 de novembro de 1974. A opinião pública tinha virado contra o regime militar.

Em 1977, o general Geisel fechou o Congresso e decretou o Pacote de Abril. A volta das eleições diretas para governador, prevista para 1978, foi adiada para 1982. Para manter a maioria do governo, surgiu o senador biônico, em vez de ser eleito, nomeado pela ditadura.

Na visão do ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira, em artigo na Folha, o Pacote de Abril leva a uma ruptura de setores importantes do empresariado com a ditadura.

A crise do petróleo, que causou uma recessão mundial nos anos 1970s, se agravou com a vitória da Revolução Islâmica o Irã, em 1979, no chamado segundo choque petrolífero, piorando ainda mais a situação econômica dos países dependentes de petróleo importado.

Na América Latina, as dívidas externas cresciam mesmo em países exportadores de petróleo como México e Venezuela, embriagados pelo dinheiro fácil. Com a forte alta de juros nos países ricos para combater a inflação causa pelo aumento nos preços dos combustíveis, vários países latino-americanos quebraram em 1982, entre eles México, Brasil e Argentina.

Assim, o Brasil foi alvo de uma sucessão de crises internacionais. Até hoje a economia brasileira não recuperou os índices de crescimento do pós-guerra até as crises do petróleo, de 7% a 8% ao ano. Em 1978, o produto interno bruto brasileiro era do tamanho do da China, de US$ 200 bilhões.

A crise econômica acabou com o prestígio da ditadura. Quem como eu sonhava em viver um dia num país rico, moderno e democrático acordou do pesadelo da ditadura sob uma crise econômica que obrigava a ligar para o banco várias vezes por dia, ou cada vez que se passava um cheque.

Com o Plano Real e as reformas econômicas da era Fernando Henrique Cardoso e os programas sociais dos governo Lula e Dilma, o Brasil recuperou sua autoestima, mas ainda está longe de definir um modelo econômico capaz de proporcionar desenvolvimento e bem-estar a seus 200 milhões de habitantes. O crescimento baixo e a desindustrialização ameaçam mais uma vez o eterno país do futuro.

No mundo globalizado, é importante aproveitar as oportunidades que o mercado internacional oferece. O extraordinário crescimento chinês foi um impulso fundamental para a aceleração do crescimento sob Lula na década passada. É bom também não esquecer as lições da crise que destruiu o milagre da ditadura.

Ontem como hoje, o Brasil precisa escapar da "armadilha de renda média". Para um país se tornar rico, tem de dar um salto tecnológico e fabricar produtos de alto valor agregado que o resto do mundo queira comprar. No Brasil, os setores de sucesso são o agronegócio e os aviões da Embraer. É muito pouco.

O Brasil precisa de um modelo de desenvolvimento para a revolução da biotecnologia. Como país mais biodiverso do mundo, o Brasil tem o maior banco genético do planeta, a maioria relativa das espécies animais e vegetais. Essa imensa a pouco explorada riqueza natural será transformada em produtos e processos que vão revolucionar a face da Terra muito além do que a revolução da tecnologia da informação fez nas últimas décadas.

É uma nova revolução tecnológica e industrial. O Brasil precisa embarcar neste trem-bala.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Futuro líder chinês faz visita sentimental a Iowa

A pequena cidade de Muscatine, no Rio Mississípi, onde o escritor americano Mark Twain morou em 1854, esteve no caminho da ascensão ao poder do vice-presidente Xi Jinping. No fim deste ano, ele deve ser indicado líder do Partido Comunista e, em 2013, deve se tornar o próximo presidente da China.

Há 27 anos, quando era funcionário do partido numa região de criação de porcos, Xi liderou uma delegação chinesa que visitou fazendas, foi ao Rotary Club e assistiu a um jogo de beisebol em Iowa.

Durante duas noites, ele se hospedou na casa de um casal de classe média em Muscatine. Dormiu entre bonecos do seriado Jornada nas Estrelas no quarto dos filhos do casal, que estavam na universidade.

Foi sua primeira viagem ao exterior. Agora, na primeira visita oficial aos Estados Unidos desde que foi indicado para dirigente máximo da superpotência emergente, aos 58 anos, Xi fez questão de tomar um chá com os velhos amigos.

É a visita mais importante de um líder estrangeiro a Iowa desde que Nikita Kruschev foi conhecer a agricultura do Meio-Oeste americano, em 1959, na primeira visita de um líder da União Soviética aos EUA.

Para o ex-secretário do Tesouro dos EUA Henry Paulson, que o encontrou em dezembro, Xi é "um líder forte e confiante", de comunicação fácil, que conhece o Ocidente.

Depois de encontrá-lo três vezes, o ex-secretário de Estado Henry Kissinger, que iniciou a reaproximação com a China ao visitar o país há 40 anos, descreveu-o como "mais afirmativo do Hu. Quando ele entra na sala, sente-se uma presença importante".

Um dos objetivos da visita sentimental é apresentar o futuro líder chinês como um homem confiante, com personalidade diferente do atual presidente, Hu Jintao, um burocrata sombrio, e familiaridade com os EUA.

Em 1979, pouco depois de lançar as reformas que transformaram a China na segunda maior potência mundial, Deng Xiaoping posou com um chapéu de vaqueiro no Texas. Foi um gesto ousado para um líder que havia sido expurgado durante a Revolução Cultural (1966-76) e enfrentava acusações de minar o sistema socialista com suas experiências capitalistas.

Deng inventou a "economia de mercado socialista". Explicou à Enciclopédia Britânica que o mercado era anterior ao capitalismo, portanto não poderia ser monopólio do sistema capitalista. Mas nunca um alto dirigente do regime comunista chinês tentou mostrar laços pessoais tão fortes com os EUA como Xi Jinping.

Em outubro deste ano, o presidente Hu e outros seis membros do Comitê Permanente do Politburo do Comitê Central do PC chinês, de nove membros, se aposentam, abrindo espaço para uma renovação na cúpula do partido sob a liderança de Xi. Nas ruas, eles são chamados de "os nove imperadores".

Com a economia em desaceleração por causa da crise internacional, a desigualdade social crescente e os enormes problemas ambientais, Xi terá de retomar as reformas econômicas, que ficaram estagnadas na última década, de grande crescimento para a China. Quando o problema é o crescimento acima de 10% ao ano, o governo não se sente na obrigação de fazer grandes mudanças.

O vice-presidente chinês é filho de Xi Zhongxun, herói da revolução e alto dirigente do partido expurgado em 1962 por apoiar a publicação de um livro crítico do Camarada Mao Tsé-tung. Reabilitado depois da Revolução Cultural, propôs e ajudou a implantar a primeira zona econômica especial de processamento de exportações. Apoiou as reformas de Deng até sua morte, em 2002. Foi contra o afastamento de Hu Yaobang da Secretaria Geral do partido, em 1987, e a repressão ao movimento estudantil massacrado na Praça da Paz Celestial, em junho de 1989.

Xi nasceu no luxuoso complexo residencial da cúpula do partido no centro do Beijim, ao lado da Cidade Proibida, o antigo palácio imperial da capital chinesa. Os novos imperadores moram ao lado de onde ficavam os velhos, e a verdadeira cidade proibida hoje é a residência oficial dos caciques do PC.

Hu era filho do dono de uma casa de chá. Teve de galgar por si próprio até chegar ao topo da hierarquia do partido. Os sinólogos dizem que o presidente preferia o vice-primeiro-ministro Li Keqiang como sucessor. Xi Jinping é um dos chamados príncipes da hierarquia comunista.

Quando ele tinha nove anos, o pai foi colocado em prisão domiciliar por um período de 16 anos. Aos 15 anos, durante a Revolução Cultural, Xi foi enviado para reeducação entre os camponeses da província de Xaanxi, no Norte da China.

Como seu pai ajudara a organizar o PC na província nos anos 30, ele foi respeitado e bem tratado pelas lideranças locais.

Durante sete anos, o próximo dirigente máximo da China morou nas casas tradicionadas cavadas na rocha do Norte do país. Suas tarefas eram construir diques e explorar meios de coletar o gás metano dos dejetos de animais.

Numa entrevista em 1996, Xi admitiu ter suportado "mais dureza que a maioria das pessoas" por ser filho de um dirigente político que caiu em desgraça. Ele foi preso três vezes e obrigado a denunciar o próprio pai.

Depois de ser rejeitado nove vezes, em 1974, Xi tornou-se membro do partido. Por duas vezes, não conseguiu entrar na prestigiada Universidade Tsinghua, em Beijim. Seu pai teve de apelar para o filho não ser prejudicado por sua situação política.

Quando Xi se graduou em química orgânica, em 1979, seu pai havia voltado à elite do partido. O filho se tornou secretário do vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa Geng Biao, um amigo e camarada de armas do pai do tempo da revolução comunista. Isso lhe permitiu estabelecer ligações com os militares, o que nem Hu nem seu antecessor Jiang Zemin tem.

Xi Jinping é vice-presidente da Comissão Militar do Comitê Central e deve ser eleito presidente desta comissão, o único cargo oficial de Deng Xiaoping quando era o líder máximo da China.

Ao deixar a farda, em 1982, ele assumiu a subchefia do partido no condado de Zhengding, uma região de criação de portos na província de Hebei, no Norte. Lá Xi conheceu o atual governador de Iowa, Terry Branstad, que visitou Hebei em 1984 dentro de um programa de "estados irmãos". No ano seguinte, uma delegação chinesa foi a Iowa.

Na volta, tornou-se vice-prefeito do porto de Xiamen, trabalhando para outro amigo de seu pai. De lá, passou a líder do partido nas prósperas e dinâmicas províncias de Fujian e Zhejiang, onde se mostrou um bom administrador com bom trânsito nos meios empresariais.

Numa votação informal entre a cúpula do partido, em 2007, Xi despontou como favorito à sucessão, que pela segunda vez seguida aparentemente será previsível na turbulenta história moderna da China.

"Seu pai era muito popular", observa o professor Zheng Yongnian, especialista em política chinesa na Universidade Nacional de Cingapura. "Isso lhe dá mais autoconfiança, além dele ter muito mais conhecimento sobre o Ocidente. Penso que ele acredita que poderá consolidar o poder muito mais rapidamente do que Hu".

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Chineses veem própria história em livro de Kissinger

Um dos acontecimentos que ajudou a criar o mundo atual, a reaproximação dos Estados Unidos com a China, há 40 anos, está sendo revivido com várias comemorações e a publicação do livro Sobre a China, do então secretário de Estado americano, Henry Kissinger.

Os próprios chineses estão aprendendo um pouco mais sobre sua história, como mostra esta reportagem do Diário da China.

A convite do Instituto Popular de Relações Internacionais da China, Kissinger chega hoje a Beijim para uma série de encontros públicos e privados para marcar o aniversário de sua missão secreta. Ele ficou apenas 48 horas na capital chinesa em julho de 1971 para quebrar o gelo nas relações entre os dois países.

Em 1967, antes de se eleger presidente, Nixon publicara um artigo na revista Foreign Affairs chamado A Ásia depois do Vietnam.

Ao mesmo tempo em que apontava a China como um “perigo” e uma “ameaça” para o futuro da Ásia, Nixon alertava que, “tendo uma visão de longo prazo, não podemos deixar a China fora da família das nações”.

O dirigente máximo da República Popular da China, Mao Tsé-tung, prestou atenção.

Em 1969, Mao nomeou quatro generais que estavam marginalizados pela Grande Revolução Cultural Proletária para discutir a situação internacional do país. Eles organizaram 16 debates com um total de 48 horas.

A conclusão geral foi que EUA e União Soviética tinham um pacto não escrito para dividir o mundo entre si, mas, na confrontação inevitável da Guerra Fria, usariam a China como uma carta na sua disputa pela Europa e Oriente Médio.

Como a China via a URSS como maior inimiga depois de uma série de incidentes de fronteira que levaram as duas potências comunistas à guerra em 1969, o regime comunista chinês decidiu jogar sua “cartada americana”.

Em outubro de 1970, Nixon declarou em entrevista à revista Time que ele não podia ir à China, mas gostaria que seus filhos  fossem. O convite de Mao veio em 10 de dezembro de 1970 através do jornalista americano Edgar Snow.

Mais uma vez, o esporte aproximou os povos que a política afastava. Em abril de 1971, uma delegação americana de tênis de mesa fez uma excursão à China. Mao teria feito o convite quando a equipe estava em Nagoia, no Japão, prestes para voltar aos EUA.

O primeiro-ministro e ministro do Exterior Chu Enlai, o grande mestre da política externa da China, foi encarregado de organizar a visita. Tratou de fazer com que parecesse que a iniciativa do reatamento tinha partido da China.

Nos encontros com Kissinger, o assessor de segurança nacional dos EUA levava um dossiê de seis centímetros de espessura com informações sobre a China. Chu falava de cabeça.

sábado, 18 de junho de 2011

Chu Enlai falava da Revolução de 1968

Quando perguntaram ao primeiro-ministro da China Chu Enlai qual o impacto da Revolução Francesa, ele respondeu: "É muito cedo para dizer".

Desde o início dos anos 70, quando a frase foi dita, é interpretada como se Chu estivesse falando da revolta popular de 1789, que derrubou a monarquia na França e mandou os reis para a guilhotina.

Mas Chu Enlai não se referiu à queda da Bastilha, marco do início da revolução, em 14 de julho de 1789, quando discutiu o assunto com presidente dos Estados Unidos Richard Nixon, durante sua histórica visita de reaproximação com a China, em 1972.

O comentário era sobre a Revolução dos Estudantes de maio de 1968, das barricadas nas ruas de Paris, afirma Chas Freeman, um funcionário aposentado do Departamento de Estado que foi tradutor de Nixon e agora participou de um seminário de lançamento do livro do ex-secretário de Estado Henry Kissinger On China (Sobre a China).

"Eu me lembro claramente dessa troca de ideias", declarou Freeman. "Houve um mal entendido, mas era saboroso demais para querer corrigir."

Ele conta que Chu ficou confuso ao ser perguntado sobre a Revolução Francesa (1789) e a Comuna de Paris (1871). Os estudantes usavam as duas expressões para falar do seu movimento, em 1968.

A frase foi interpretada como se fosse cedo para fazer uma reflexão filosófica mais profunda sobre uma revolução de 200 anos atrás, uma joia da milenar sabedoria oriental.

Pesquisadores chineses com acesso aos arquivos do Ministério do Exterior, em Beijim, confirmam que o primeiro-ministro falava da revolução de maio de 1968.

sábado, 10 de julho de 2010

Fitas revelam conspiração dos EUA contra Allende

Uma nova série de gravações feitas na Casa Branca durante os governos de Richard Nixon (1969-1974) revelam detalhes da conspiração entre o presidente e seu assessor para Segurança Nacional, Henry Kissinger, para derrubar o presidente socialista democraticamente eleito do Chile, Salvador Allende (1970-73).

Allende foi derrubado num golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet, em 11 de setembro de 1973, e se matou para não ser preso.

Confira as gravações e transcrições no site NixonTapes.org.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

China e Taiwan iniciam negociação histórica

A China enviou hoje a Taiwan o primeiro negociador de alto nível em quase 60 anos de conflito iniciando uma negociação histórica.

O regime comunista chinês considera a ilha uma província rebelde e ameaça invadi-la, se Taiwan declarar a independência. Foi para lá que fugiu o governo nacionalista de Chiang Kai-shek e de seu partido, o Kuomintang (KMT), diante da vitória da revolução comunista liderada por Mao Tsé-tung, em 1º de outubro de 1949.

Desde então, os dois países são inimigos. Em 1971, quando o então assessor de Segurança Nacional, Henry Kissinger, iniciou a reaproximação entre os Estados Unidos e a China, o governo comunista chinês passou a ocupar a vaga da China no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Passou a excluir Taiwan de todas as organizações internacionais sob o argumento de que "só existe uma China".

Em 1996, quando um partido favorável à independência ganhou a eleição presidencial em Taiwan, a China chegou a disparar mísseis para intimidar a ilha. Os EUA deslocaram parte da Frota do Pacífico para o Estreito de Taiwan. Hoje, a China já tem uma força naval de águas profundas para enfrentar esses desafios.

Com a abertura econômica na China continental, a partir das reformas lançadas por Deng Xiaoping em 1978, as relações melhoraram. O regime de Beijim precisava de capital externo para promover a industrialização e a modernização do país. A diáspora chinesa, em Taiwan, Hong Kong, Cingapura, Macau, Malásia e Indonésia, era uma boa fonte.

A melhoria das relações foi uma das promessas de Ma Ying-jeou, o atual líder do KMT, eleito no início do ano para presidir Taiwan com uma plataforma eleitoral com três nãos: "Não à independência, não à guerra e não à unificação!"

Esse é o significado histórico das negociações iniciadas hoje quando o representante chinês Chen Yunlin e o negociador taiwanês Chiang Pin-kung apertaram as mãos no Grand Hotel, em Taipé.

Desde junho, há vôos turísticos diretos entre a ilha e o continente. Agora, a idéia é "intensificar a cooperação econômica para o benefício da população dos dois lados do estreito".

Os acordos podem ser assinados já nesta terça-feira. A missão chinesa fica em Taiwan até sexta-feira.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Olimpíada consagra a superpotência China

É inevitável que um país com a tradição milenar da China, a segunda civilização mais antiga da História, com 1,3 bilhão de habitantes, com taxas de crescimento sem precedentes de 10% ao ano nas últimas duas décadas, se torne uma superpotência no mundo globalizado.

A frota chinesa recuou no final do século 15, quando começa a expansão colonial marítima européia, e a China sempre se autodestruiu nos conflitos internos. É um grande país sem fronteiras naturais.

Era o Império do Centro, o centro do universo conhecido na Ásia, o país dos poetas e dos filósofos, de pensadores como Confúcio e Lao-Tsé.

Essa ordem sino-cêntrica só foi rompida pelas Guerras do Ópio (1839-42), quando os ingleses tomaram Hong Kong. É o marco do avanço imperial europeu sobre a China. Depois, o Japão derrotaria a China na Guerra Sino-Japonesa (1894-95), transformando-se em potência regional.

Com a derrota para o Japão, a Dinastia Ching entrou na sua crise terminal. O Império caiu em 1911 e a China se tornou numa república. Durante décadas, consumiu-se numa guerra civil interna, primeiro entre senhores da guerra, depois entre comunistas e nacionalistas.

A revolução chinesa faz parte de um projeto de independência nacional. Em 1868, o Japão percebeu que para não ser colônia precisava se ocidentalizar e se industrializar.

A China era o país mais pobre do mundo, dilacerado por senhores da guerra, e os centros importantes, como Xangai, Nanquim e Beijim estavam sob dominação colonial sem ser colônia explicitamente, como era o caso da Índia.

Houve uma longa guerra civil fratricida. O Partido Comunista da China foi massacrado por atender à orientação do ditador soviético Josef Stalin, que era de formar uma frente popular com o partido nacionalista Kuomintang, de Chiang Kai-Shek.

O massacre dos comunistas levou à Grande Marcha, de cerca de 10 mil km, de 1934-36. Em 1937, o Japão, que tinha invadido a Mandchúria em 1931, invade o resto das cidades costeiras importantes da China e suas capitais.

Cerca de 200 mil pessoas foram mortas no Massacre de Nanquim, uma das tantas atrocidades cometidas pelo Exército Imperial do Japão e nunca ensinada nos livros de história japoneses.

O Japão nunca pediu perdão realmente por seus crimes de guerra, e isso complica as relações regionais japonesas. É aliado dos EUA, que em tese podem usar o Japão se algum dia for necessário "conter" a China.

Estes três países disputam a hegemonia na Ásia. Os EUA vão perdendo importância relativa na medida em que a ascensão da China e - quem sabe? - a emancipação do Japão (a mudança do art. 9 da Constituição do Japão, que o compromete com o pacifismo e limita a atuação das Forças de Defesa do Japão ao território e às águas territoriais do país, a não ser em missões internacionais de paz).

Depois da vitória da revolução, em 1º de outubro de 1949, a China passou por fortes turbulências e grandes fomes na campanha das Cem Flores, no Grande Salto para a Frente e, sobretudo, na Grande Revolução Cultural Proletária (1966-76). Milhões de chineses morreram.

A China se radicalizou e rompeu com a URSS quando o líder soviético Nikita Kruschev partiu para a coexistência pacífica em bases permanentes com o Ocidente, depois da Crise dos Mísseis em Cuba (14-27 de outubro de1962). Esteve à beira da guerra com a URSS numa série de incidentes de fronteira, em 1969.

O então assessor de Segurança Nacional dos EUA, Henry Kissinger, sentiu a oportunidade e foi em 1971 à China, isolada pela Revolução Cultural. No ano seguinte, o presidente americano Richard Nixon foi à China e selou uma aliança estratégia. Por sua inimizade com a URSS, Mao Tsé-tung optou pelos EUA.

Logo depois de ganhar uma guerra civil e fazer uma revolução para que a China nunca mais fosse humilhada pelas potências imperiais, Mao foi a Moscou no início de 1950 e levou um gelo de Stalin. O dirigente soviético levou 50 dias para recebê-lo, em pleno inverno russo.

Mao engoliu a ofensa e saiu com um Pacto de Amizade Sino-Soviético que mantinha a inferioridade da China nas relações internacionais. As relações entre os PCs das grandes potências comunistas eram difíceis desde que Stalin recomendou a desastrosa aliança com Chiang Kai-shek. Pioraram quando Kruschev denuncia os crimes do stalinismo, em 1956, e mais ainda depois da Crise dos Mísseis.

Na última fase da Guerra Fria, a China foi uma espécie de aliada não-membro da OTAN. Sob a proteção do sistema de segurança dominado pelos EUA no Leste da Ásia, a China, sob Deng Xiaoping, inicia em 1978 seu programa de modernização que levou ao mais extraordinário crescimento da história humana.

Deng teria recomendado aos chineses que enriquecessem mas fossem discretos para outros países não se sentirem ameaçados pelo desenvolvimento da China.

Com a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, parece que a China não está mais preocupada em ser discreta. Quer mostrar sua força.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

China e Taiwan retomam ligação aérea

Num acordo histórico, depois de quase 60 anos, a China e Taiwan vão restabelecer vôos regulares entre si a partir de 4 de julho. Em 18 de julho, chega à ilha que a China considera uma província rebelde o primeiro contingente de turistas da China continental.

Quando os comunistas chegaram ao poder, com a vitória da revolução liderada por Mao Tsé-tung, em 1º de outubro de 1949, o governo nacionalista do Kuomintang, chefiado por Chiang Kai-shek, exilou-se em Taiwan. Os dois regimes inimigos reivindicavam a soberania sobre toda a China.

Só em 1971, quando os EUA se aproximaram da China por iniciativa de Henry Kissinger, a República Popular da China ocupou a cadeira da China, até então ocupada por Taiwan, no Conselho de Segurança das Nações Unidas. A China tinha se tornado inimiga da União Soviética, com escaramuças de fronteira em 1969. No fim da Guerra Fria, foi uma aliada informal da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

O regime comunista tem desde sua origem um projeto de independência nacional para a China não ser mais humilhada como foi pelas potências coloniais, especialmente o Império Britânico. Uma questão central é reconstituir o território histórico da China, que na visão chinesa inclui o Tibete, Hong Kong e Taiwan.

Hong Kong já foi anexada à China com real autonomia política e administrativa, dentro da fórmula "um país, dois sistemas" criada por Deng Xiaoping, o pai das reformas econômicas que enriqueceram o país, tendo em vista a reintegração de Taiwan.

Com o cerco do regime comunista chinês, Taiwan é o país que não existe. Qualquer país que tenha relações diplomáticas com Taiwan não pode ter com a China.

O acordo assinado hoje abre os céus dos dois países para o turismo e o contato direto por um povo separado por apenas 100 quilômetros no Estreito de Taiwan mas distante há décadas por causa do conflito ideológico. É mais um passo nesta difícil reconciliação. Era uma promessa de campanha do novo presidente taiwanês, Ma Ying Jeou.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

"Só políticos podem salvar Iraque"

A única maneira de conter o banho de sangue no Iraque é um amplo acordo político entre as diferentes etnias e partidos, afirmou ontem o primeiro-ministro Nuri al-Maliki. Ele acredita que a situação só vai melhorar quando os líderes perceberem que "não há ganhadores nem perdedores nesta batalha".

O governo iraquiano prometeu prender os responsáveis pelos atentados que mataram mais de 200 pessoas no bairro xiita de Cidade Sader na semana passada. Mais 12 sunitas foram mortas em Bagdá neste domingo pelo fogo de morteiros. Um posto americano foi atingido e pegou fogo.

Dois fuzileiros navais dos Estados Unidos que haviam sido feridos na rebelada província de Anbar morreram, elevando para 2.869 o total de militares americanos mortos desde a invasão do Iraque em 20 de março, além de sete civis americanos contratados para trabalhar na reconstrução do país.

Em debate na rede de TV CNN, o ex-assessor de Segurança Nacional dos EUA no governo Jimmy Carter (1977-81), Zibgniew Brzezinski, afirmou que, quanto mais tempo os soldados americanos ficarem no Iraque, pior será a situação do país, descrevendo a intervenção militar como desastrosa.

Já o ex-secretário de Estado Henry Kissinger (1974-77), do Partido Republicano, entende que uma retirada sem um amplo acordo político envolvendo os países vizinhos do Iraque, inclusive o Irã e a Síria, seria catastrófica e provocaria novos intervenções militares ocidentais no Oriente Médio.

domingo, 19 de novembro de 2006

Kissinger quer conferência internacional sobre Iraque

O ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger (1974-77) propôs hoje a convocação de uma conferência internacional sobre o Iraque, advertindo que o colapso da autoridade naquele país pode provocar conseqüências desastrosas para o Oriente Médio e levar a novas intervenções militares do Ocidente na região.

Kissinger defendeu a abertura de diálogo dos Estados Unidos com o Irã como única forma de evitar uma confrontação.

"Temos de chegar logo a alguma definição internacional sobre o que é uma solução legítima - algo que possa ser apoiado pelos países vizinhos, por nós e nossos aliados", declarou o ex-secretário de Estado e ex-assessor de Segurança Nacional no governo Nixon (1969-74), em entrevista à TV pública britânica BBC, de sua casa em Connecticut, nos EUA.

"Em algum momento, em breve, deve ser convocada uma conferência internacional envolvendo os países vizinhos, talvez os membros permanentes do Conselho de Segurança [das Nações Unidas] e países que tenham um interesse direto, como a Índia e o Paquistão", declarou Kissinger.

Para o ex-secretário de Estado, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz por um acordo que não deu certo no Vietnã, a vitória dos EUA é impossível nas atuais condições: "Se vc chama de uma vitória militar clara o estabelecimento de um governo iraquiano por todo o país que controle a guerra civil e a violência sectária num tempo tolerável para o processo político de uma democracia, não acredito que seja possível".

Na sua opinião, "um colapso dramático do Iraque, o que quer se pense de como a situação foi criada, terá conseqüências desastrosas pelas quais pagaremos por muitos anos e que vai nos levar de volta à região de um modo ou de outro".

Os EUA romperam relações diplomáticas com o Irã desde que a embaixada americana em Teerã foi ocupada por guardas revolucionários que mantiveram reféns durante 444 dias, depois da Revolução Islâmica do aiatolá Ruhollah Khomeini, em 1979. Agora, os EUA querem que a ONU imponha sanções ao Irã, que se nega a abandonar seu programa nuclear, suspeito de desenvolver armas atômicas.

"Acredito que os EUA devem ter algum diálogo com o Irã", observou Kissinger. "Parece-me que o problema fundamental é este: o Irã vai se comportar como uma naçã ou uma cruzada? Se o Irã é uma nação, deve ser possível definir um relacionamento em que o Irã, junto com todas as outras partes interessados, contribua para a estabilidade da região e desempenhe um papel respeitável".

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Derrota republicana derruba secretário da Defesa

O secretário da Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, o nome mais associado ao fracasso da invasão americana ao Iraque, caiu hoje, por causa da derrota em que o Partido Republicano perdeu a maioria na Câmara dos Representantes depois de 12 anos.

Além de reconquistar a maioria na Câmara, com a vitória em Montana anunciada esta manhã, os democratas ficaram a uma cadeira da maioria no Senado.

No estado da Virgínia, o desafiante James Webb venceu o senador republicano Charles Allen. Mas como a diferença foi inferior a 1% do total de votos, o perdedor tem direito a uma recontagem. Confirmado o resultado inicial, os democratas retomam o controle das duas casas do Congresso, enfraquecendo significativamente os últimos dois anos da presidência de George Walker Bush.

Dias depois de confirmar Rumsfeld no cargo, Bush declarou que "chegou a hora de uma nova liderança no Pentágono". O novo secretáio será Robert Gates, ex-diretor da CIA (Agência Central de Inteligência), o serviço de contra-espionagem dos EUA. Precisa da aprovação do Senado. É visto como um homem mais ligado ao setor mais pragmático e menos ideológico do Partido Republicano, o que talvez indique uma mudança de rumo mais na linha do que faria o pai de Bush, um moderado.

Com o agravamento da situação no Iraque, onde já morreram 2.839 soldados americanos, a guerra tornou-se o tema central das eleições intermediárias para renovar toda a Câmara e um terço do Senado dos EUA. A deputada federal californiana Nancy Pelosi, que deve ser eleita presidente da Câmara, elogiou a decisão do presidente.

O prestígio de Rumsfeld foi abalado nos primeiros dias da invasão, feita, por sua orientação, com a metade do contingente considerado ideal pelos generais americanos. Com sua estratégia de marchar rapidamente rumo a Bagdá, as forças de apoio que levavam os suprimentos para os soldados dos EUA ficaram desguarnecidas.

A rápida queda de Saddam resgatou o prestígio de Rumsfeld. Numa queda de braço com o secretário de Estado, Colin Powell, o Pentágono acabou sendo encarregado da pacificação do Iraque pós-Saddam. Todo o projeto da diplomacia americana, de 250 páginas, foi substituído pelo voluntarismo castrense de Rumsfeld.

Talvez o pior erro tenha sido desmantelar as forças de segurança do antigo regime. Isto jogou no desemprego centenas de milhares com treinamento para usar armas. Parte desse pessoal constitui o núcleo da insurgência sunita, depois reforçada pela chegada de terroristas internacionais da rede Al Caeda.

Quando estourou o escândalo de tortura de prisioneiros de guerra em Abu Ghraib, no Iraque, Bagram, no Afeganistão, e na base naval americana de Guantânamo, em Cuba, a revista inglesa The Economist pediu a cabeça de Rumsfeld. Mas a troca do secretário da Defesa no ano de sua reeleição equivaleria a confessor um erro na condução da guerra.

Agora, diante da derrota nas eleições de ontem, Bush e Rumsfeld se rendem.

Rumsfeld é conhecido como um operador político inescrupuloso. Durante o governo Ronald Reagan, quando o Iraque estava em guerra com o Irã e apertou a mão de Saddam Hussein. Os EUA contribuíram para o programa de armas químicas do Iraque, inclusive com exportações clandestinas de agrotóxicos.

Antes da guerra, quando a Alemanha e a França se negaram a apoiar a invasão do Iraque, Rumsfeld falou de uma "velha Europa" em contraposição à "nova Europa" formada pelos países da Europa Oriental que saíram da órbita soviética e assim tem interesse numa relação estratégica dos os EUA que os proteja da Rússia e da Alemanha. Aprofundou o fosso na aliança atlântica que foi a base da ordem internacional do pós-guerra.

Quando era secretário da Defesa do governo Gerald Ford (1974-77), Rummy bateu de frente com o então secretário de Estado, Henry Kissinger, que fez o seguinte comentário: "De todos os ditadores que conheci, o mais implacável é Donald Rumsfeld". A lista inclui diversos dirigentes soviéticos, o general Augusto Pinochet, do Chile, as juntas militares que mataram dezenas de milhares de argentinos e o marechal Mobutu, do Zaire.