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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Trump repudia o internacionalismo liberal dos EUA no pós-guerra

O mundo acordou hoje para uma nova realidade com ares de pesadelo. O presidente eleito Donald Trump foi o primeiro candidato de um grande partido à Presidência dos Estados Unidos a rejeitar o internacionalismo liberal, a ordem política e econômica construída pelos americanos desde a vitória na Segunda Guerra Mundial, reforçada pela derrota do comunismo da União Soviética durante a Guerra Fria, mas abalada pelas consequências negativas do processo de globalização da economia.

Durante a campanha, o magnata imobiliário criticou a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar da América do Norte e da Europa criada em 1949 para se opor ao expansionismo soviético. Trump cobrou maior participação financeira dos aliados na defesa comum e ameaçou não defendê-los, abrindo um flanco para o neoimperialismo da Rússia de Vladimir Putin.

A OTAN é uma das bases da política externa americana. Sua regra básica é que um ataque contra um é um ataque contra todos. Como lembrou a candidata derrotada, Hillary Clinton, essa cláusula só foi usada uma vez.

Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, a OTAN foi a base da força internacional de intervenção no Afeganistão para perseguir a rede terrorista Al Caeda, responsável pelo ataque, e a milícia extremista muçulmana dos Talibã (Estudantes), que a acolhia.

Com a intervenção militar da Rússia nas ex-repúblicas soviéticas da Geórgia e da Ucrânia, países como a Polônia, que fazia parte do Bloco Soviético, e as ex-repúblicas soviéticas da região báltica, Estônia, Letônia e Lituânia, temem a agressividade da Rússia e dependem da OTAN, e em última análise dos EUA, para sua segurança. A vitória de Trump foi saudada pela Duma do Estado, a câmara dos deputados da Rússia.

Quando ameaçou retirar as tropas americanas da Ásia e sugeriu que cada país tenha suas próprias armas atômicas, deu carta branca à crescente agressividade da China na região e atingiu outro ponto crucial da política externa americana do pós-guerra: a não proliferação nuclear.

Se os EUA não estiverem prontos para defender aliados como o Japão e a Coreia do Sul das armas nucleares da Coreia do Norte, só lhes restará fabricar suas próprias bombas atômicas.

Trump ainda elogiou Putin durante a campanha como um homem-forte, revelando uma paixão nem tão discreta por líderes fortes e ditatoriais. Ele também representa um renascimento do autoritarismo americano.

Ao defender princípios como "primeiro, os EUA", Trump manifesta tendências nacionalistas, xenofóbicas e isolacionistas. Em campanhas anteriores, o pré-candidato republicano Pat Buchanan defendeu a mesma ideia, sem sucesso.

Hoje de manhã, o presidente do Conselho Europeu, o ex-primeiro-ministro polonês Donald Tusk, afirmou que "nenhum país isolado pode ser grande", numa referência ao slogan do republicano: "Tornar a América grande de novo", como se os EUA não fossem a maior potência econômica e militar do planeta.

Na economia, o bilionário ameaçou semear o caos ao propor a renegociação dos acordos comerciais dos EUA para combater um déficit comercial que disse rondar os US$ 800 bilhões por ano, quando em realidade foram US$ 531 bilhões em 2015. Trump atribui o déficit à incompetência dos negociadores dos EUA e não ao consumismo exacerbado dos americanos.

A ordem econômica pós-1945 se baseia num tripé construído pelos EUA: o Fundo Monetário Internacional (FMI), que socorre países com crise no balanço de pagamentos para que não abandonem o comércio internacional; o Banco Mundial, que financia o desenvolvimento; e a Organização Mundial do Comércio (OMC), que hoje reúne mais de 150 países.

O sistema multilateral de comércio é um dos alicerces da ordem econômica internacional liberal. Durante décadas, foi usado pelos EUA para abrir mercados para seus produtos industriais e serviços. Para as empresas transnacionais, é fundamental porque cria uma série de regras a serem seguidos por todos os países-membros.

Caso a OMC seja progressivamente esvaziada e substituída por acordos bilaterais ou multilaterais com poucos países, há o risco de criação de um inferno regulatório para as empresas, que teriam de se adaptar a regras diferentes em cada mercado. Trump teria de enfrentar os interesses de empresas americanas muito poderosas. É altamente improvável.

A retórica do candidato na campanha não vai definir sua ação como presidente, observou o ex-embaixador brasileiro em Washington Rubens Barbosa, hoje diretor de relações internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Há limitações constitucionais sobre o que um presidente pode fazer, além das restrições de ordem econômica. Mas o dano às relações internacionais é grande.

Um dos legados do governo Barack Obama seria a Parceria Transpacífica, um acordo comercial de 12 países para criar regras comuns que inclui o Japão, mas não a China. A intenção de Obama era criar um ordenamento liberal para evitar que a China imponha suas próprias normas.

Trump bombardeou a Parceria Transpacífica, quer renegociar o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) com o México e o Canadá, ameaça impor fortes sobretaxas a importações da China e abandonar o Acordo do Clima negociado em Paris para combater o aquecimento global.

Oito anos depois da vitória da esperança com a eleição de Obama, venceu o discurso do medo, da desconfiança, da discórdia e das teorias conspiratórias. A partir de janeiro, Trump terá de mostrar a que veio, esmiuçando as políticas que pretende adotar para "tornar a América grande de novo".

O primeiro presidente da era das celebridades e dos reality shows terá de abandonar a retórica fácil das soluções simplistas e enfrentar o declínio relativo da maior superpotência que o mundo já viu sobre os escombros de um sistema político arrasado por suas táticas de campanha baseadas na mentira, na desqualificação e no atropelo dos rivais.

Depois da vitória da Brexit (saída britânica) da União Europeia no plebiscito de 23 de junho, o triunfo de Trump é a segunda rejeição à globalização econômica no mundo anglo-saxão, que prega o liberalismo econômico e tenta vender a ideia para o resto do mundo há mais de 200 anos.

Bem-vindos ao admirável mundo novo de Donald Trump! Talvez não seja admirável.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Papa encontra em Cuba o patriarca da Igreja Ortodoxa

Quase mil anos depois do Cisma do Oriente, os líderes das duas principais igrejas cristãs, o papa Francisco, da Igreja Católica Apostólica Romana, e o patriarca Cirilo, da Igreja Ortodoxa da Rússia, se encontraram hoje no Aeroporto Internacional José Martí, em Havana.

Depois de uma reunião de duas horas, o papa e o patriarca divulgaram uma declaração de 30 pontos. Eles pediram a união de todos os cristãos e fizeram um apelo às potências internacionais para que acabem com a perseguição aos cristãos na África e no Oriente Médio por grupos extremistas muçulmanos como o Estado Islâmico do Iraque e do Levante.

A organização não governamental americana OpenDoorsUSA (PortasAbertasEUA) estima que 7,1 mil cristãos foram mortos por motivos religiosos em 2015, 3 mil a mais do que no ano anterior.

Cuba foi escolhida por ser neutra, ter uma longa tradição católica e fortes laços com a Rússia do tempo da Guerra Fria. O papa Francisco foi um mediador importante nas negociações secretas que levaram ao reatamento entre Cuba e os Estados Unidos.

Por causa da proximidade entre a Igreja Ortodoxa Russa e o governo ditatorial de Vladimir Putin, o papa está sendo criticado por legitimar a intervenção militar da Rússia na guerra civil da Síria sob o pretexto de combater o terrorismo. Na prática, Putin está sustentando o aliado Bachar Assad, que já fala em vitória militar e é o maior responsável pela guerra que em quase cinco matou mais de 260 mil pessoas.

"A luta contra o terrorismo é uma batalha sagrada e hoje nosso país talvez seja a força mais ativa combatendo-o hoje no mundo", declarou Vsevolod Chaplin, ex-porta-voz da Igreja Ortodoxa, enquanto o papa Francisco pediu uma solução pacífica para os conflitos no Iraque e na Síria: "A comunidade internacional parece incapaz de encontrar soluções adequadas enquanto os vendedores de armas continuam a atingir seus objetivos."

Para o diretor do Centro de Pesquisa Histórica da Ucrânia da Universidade de Alberta, no Canadá, Frank Synsyn, "entendo a preocupação do papa com o Oriente Médio, mas de resto o momento é muito ruim. Definitivamente, dá credibilidade às ações de Putin na Síria."

O Cisma do Oriente aconteceu em 1054, quando a Igreja Católica Apostólica Romana rompeu com a Igreja Católica Apostólica Ortodoxa, na época com sede em Constantinopla, hoje Istambul, na Turquia.

A origem das divergências está na divisão do Império Romano em 395 entre o Império Romano do Ocidente, com sede em Roma, e Império Romano do Oriente, com sede em Constantinopla. Com a queda do Império do Ocidente para os bárbaros em 476, a Igreja de Roma passou a ser mais influenciada pelos povos germânicos, enquanto a Igreja de Constantinopla se considerava a legítima herdeira da tradição grego-romana.

As divergências eram em torno da natureza do Espírito Santo, se o pão na eucaristia deveria ser fermentado ou não, o celibato dos padres e a primazia jurídica e pastoral do papa. A Igreja Ortodoxa negou-se a se submeter ao papa. Em 1054, os líderes das duas igrejas se excomungaram mutuamente.

Com o Massacre dos Latinos em 1182 em Constantinopla, a capital do Império Bizantino, a vingança dos ocidentais em Tessalônica em 1185 e o cerco e saque de Constantinopla na Quarta Cruzada, em 1204, a reconciliação tornou-se impossível.

Até hoje, os gregos, seguidores da Igreja Ortodoxa culpam os cruzados pela decadência do Império  Bizantino e sua queda ante o Império Otomano, em 29 de maio de 1453, marco do fim da Idade Média.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Europa festeja 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial

Sem a mesma pompa, circunstância e unidade de comemorações anteriores, os aliados na Segunda Guerra Mundial festejaram hoje os 70 anos de capitulação da Alemanha nazista e do fim da guerra na Europa. Por causa do atual conflito entre a Rússia, os Estados Unidos e a União Europeia em torno da crise na Ucrânia, não houve uma cerimônia conjunta.

As homenagens começaram à meia-noite no porto de Gdansk, na Polônia, onde um bombardeio alemão, em 1º de setembro de 1939, marcou o início da guerra. Até 8 de maio de 1945, o conflito chegaria a todos os continentes. Ainda continuou no Japão até o lançamento das bombas atômicas em Hiroxima e Nagasaki, em 6 e 9 de agosto daquele ano.

Ao todo, foram pelo menos 55 milhões de mortos, sendo 27 milhões de soviéticos, 11 milhões de alemães e 6 milhões de judeus massacrados nos campos de concentração e centros de extermínio do Holocausto.

Em Londres, mais de um milhão de pessoas saíram às ruas quando o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, um dos grandes heróis da guerra, anunciou que os combates cessariam à meia-noite. A morte de Adolf Hitler dias antes foi confirmada. A Europa arrasada acordava de um pesadelo que lhe custou a posição de centro do mundo que ocupava há cinco séculos.

Hoje de manhã, em Paris, o presidente François Hollande colocou flores no monumento aos soldados mortos na guerra. O mesmo fizeram em Londres os líderes dos três maiores partidos britânicos, o primeiro-ministro conservador David Cameron, o vice-primeiro-ministro liberal-democrata Nick Clegg e o agora ex-líder da oposição trabalhista, Ed Miliband depois de uma longa noite de eleições.

Na Alemanha, o presidente Joachin Gauck agradeceu aos exércitos que, nas suas palavras, "libertaram a Alemanha" do jugo nazista.

A Rússia festeja amanhã a vitória no que a União Soviética chamava de "grande guerra patriótica". Cerca de 90 das tropas alemãs foram derrotadas na frente russa, com o apoio logístico dos aliados, que garantiam o suprimento das forças soviéticas através do Irã. Mas hoje, sob o governo de Vladimir Putin, a Rússia reinterpreta a história para justificar as posições políticas do atual líder do Kremlin.

O conflito na Ucrânia é apresentado na mídia oficial como uma continuação da luta contra o nazismo. A presença marginal de um grupo neonazista Setor de Direita na luta contra o ex-presidente Viktor Yanukovich é usada para justificar a anexação da Crimeia e a intervenção militar de Moscou no Leste da Ucrânia.

Pela primeira vez desde 1945, as fronteiras da Europa foram mudadas à força, rasgando a Carta das Nações Unidas. Putin trava uma guerrinha particular na tentativa de restaurar ao menos em parte o poder imperial soviético, mas isola o país diplomaticamente, além de prejudicar a economia. Na era da globalização, a economia é a chave do poder global.

Os novos tanques e mísseis que vão desfilar amanhã na Praça Vermelha farão apenas um simulacro das grandiosas paradas militares do tempo da Guerra Fria para lembrar que as relações entre a Rússia e o Ocidente estão seu pior momento desde a abertura política iniciada pelo líder comunista Mikhail Gorbachev em 1985.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Ex-repúblicas soviéticas rejeitam documento contra sanções à Rússia

Num encontro de ministros do Exterior de 11 ex-repúblicas da União Soviética, o Azerbaijão, a Moldova, o Turcomenistão, a Ucrânia e o Usbequistão se recusaram a assinar um documento contra as sanções internacionais impostas à Rússia pelos Estados Unidos e a União Europeia em protesto contra a intervenção militar na Ucrânia, noticiaram no fim de semana as Rádios Europa Livre e Liberdade.

A Armênia, a Bielorrússia, o Casaquistão, o Quirguistão, a Rússia e o Tajiquistão firmaram o documento a ser apresentado à Organização sobre Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). Com a anexação ilegal da Crimeia pela Rússia e a crise no Leste da Ucrânia, o antigo império interior soviético se divide. Uma parte apoia a Rússia e a outra se aproxima das posições do Ocidente.

Não participaram da reunião as três ex-repúblicas bálticas da URSS, Estônia, Letônia e Lituânia, e a Geórgia, derrotada pela Rússia em agosto de 2008 numa guerra para tentar retomar as regiões da Abecásia e da Ossétia do Norte, hoje entregues à máfia russa. O mesmo acontece na Crimeia.

É mais um golpe no sonho do protoditador do Kremlin, Vladimir Putin, de recriar um arremedo de URSS sob o nome de União Eurasiana. Das 15 ex-repúblicas, só cinco permanecem na órbita de Moscou.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Rebeldes apoiados pela Rússia avançam na Ucrânia

Os rebeldes teleguiados pelo Kremlin cercaram as forças do governo da Ucrânia na cidade de Debaltseve e parecem ter assumido o controle de Vuhlehirsk, noticiou a agência Reuters. Os militares ucranianos disseram ainda estar resistindo, mas os repórteres não viram mais sua presença na cidade.

Mais cedo, um tiro de canhão atingiu em Donetsk, capital da província do mesmo nome. Pelo menos cinco pessoas morreram. É uma das duas regiões do Leste da Ucrânia declaradas "repúblicas populares" pelos rebeldes étnica e linguisticamente russos.

Amanhã, o secretário de Estado americano, John Kerry, visita Kiev, a capital da Ucrânia, onde vai discutir o envio de armas dos Estados Unidos à Ucrânia. Isso pode reforçar o discurso da propaganda oficial do protoditador Vladimir Putin, que apresenta o Exército ucraniano como uma força mercenária a serviço da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Mais de 5,8 mil pessoas morreram na guerra deflagrada por Putin na Ucrânia a partir de abril de 2014, depois de ter anexado ilegalmente a península da Crimeia no mês anterior.

Depois de um cessar-fogo acertado no ano passado, o conflito havia diminuído, mas o profundo declínio da economia da Rússia diante das sanções internacionais em retaliação contra a intervenção na Ucrânia e da queda nos preços do petróleo, Putin retomou o conflito em busca da popularidade perdida. Com o dinheiro no bolso dos russos perdendo rapidamente o valor, o truque sanguinário não vai funcionar.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Lituânia é o 19º país-membro da Zona do Euro

A partir de hoje, a ex-república soviética da Lituânia é o 19º país-membro da união monetária europeia e passa a fazer parte da Zona do Euro. Os lituanos podem trocar sua antiga moeda na cotação de 3,45 litas por euro.

Durante duas semanas, as duas moedas serão usadas paralelamente para permitir a substituição gradual da lita.

A Lituânia é uma grande crítica das políticas agressivas da Rússia e do homem-forte do Kremlin, Vladimir Putin, que no no passado tomou à força a região ucraniana da Crimeia e fomentou uma guerra civil no Leste da ex-república soviética da Ucrânia.

Para acalentar o sonho de resgatar pelo menos um pouco do poder imperial soviético e czarista, Putin lança hoje a União Econômica Eurasiana, ao lado das ex-repúblicas soviéticas da Armênia, Bielorrússia, Casaquistão e Quirguistão, no fundo mais uma tentativa de impedir que saiam da órbita de Moscou. Com as sanções internacionais por causa do conflito na Ucrânia, a queda nos preços do petróleo abaixo de US$ 60 por barril e a crise do rublo, tem pouco a oferecer.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Putin congela preço da vodca para manter popularidade

Em meio a uma grave crise econômica por causa das sanções ocidentais contra a intervenção militar na ex-república soviética da Ucrânia e da queda nos preços internacionais do petróleo, o presidente Vladimir Putin busca uma maneira de manter sua popularidade. Decidiu, então, controlar o preço da vodca.

Durante uma reunião com governadores regionais e altos funcionários federais, Putin alegou que o encarecimento da vodca leva à fabricação clandestina da droga em alambiques improvisados, com riscos muito maiores à saúde pública do que as bebidas alcoólicas produzidas legalmente.

A Rússia enfrenta sua pior crise desde 1998, quando o preço do petróleo caiu a US$ 10 por causa da Crise da Ásia e o país não teve condições de pagar sua dívida pública, o que provocou a crise do Plano Real e a desvalorização da moeda brasileira em janeiro de 1999.

Putin chegou ao poder em 1999, ao fim de uma década caótica de transição do comunismo para o capitalismo depois do fim da União Soviética, quando os preços do petróleo voltavam a subir. Consolidou o poder com uma promessa de prosperidade e estabilidade.

Como reconheceu Putin, a Rússia não diversificou sua economia e paga por isso, tanto quando a Ucrânia se sente atraída pela União Europeia como quando o preço de seu principal produto de exportação cai.

Sem opções para restaurar o crescimento por força das sanções, o homem-forte do Kremlin pede dois anos para recuperar a economia e, enquanto o petróleo não sobe, congela o preço da vodca. Em 1986, no início de suas reformas, o então secretário-geral do Partido Comunista da URSS, Mikhail Gorbachev, proibiu a vodca para combater o alcoolismo. Nunca mais recuperou sua popularidade.

sábado, 15 de novembro de 2014

Putin sai às pressas da reunião do G-20

Sob pressão de manifestações de protesto, o presidente Vladimir Putin deve deixar a reunião do Grupo dos 20 (19 países mais ricos do mundo mais a União Europeia) em Brisbane, na Austrália, antes do previstos, informou o jornal francês Le Monde, citando como fontes diplomatas da delegação da Rússia.

O homem-forte do Kremlin é alvo de protestos por causa da derrubada de um avião de passageiros da Malaysia Airlines supostamente abatido por rebeldes separatistas do Leste da Ucrânia apoiados por Moscou. Havia vários australianos a bordo.

O primeiro-ministro australiano, Tony Abbott, ameaçou peitar Putin pessoalmente.

Neste momento, diante da invasão da região ocupada pelos rebeldes da Ucrânia por tanques e tropas russas, há o temor para que o conflito de baixa intensidade se transforme numa guerra em grande escala.

Mais tarde, a delegação russa negou que Putin vá embora mais cedo.

domingo, 9 de novembro de 2014

Gorbachev alerta para risco de uma nova guerra fria

Na véspera dos 25 anos da queda do Muro de Berlim, celebrados hoje, o último líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev, advertiu para o risco de "uma nova guerra fria" por causa do conflito na Ucrânia, que atribuiu mais ao "triunfalismo" do Ocidente do que às políticas agressivas do presidente da Rússia, Vladimir Putin, para subordinar as ex-repúblicas soviéticas.

Com sua tentativa de democratizar a URSS, Gorbachev foi o maior responsável pelo fim do comunismo soviética e pela libertação dos países da Europa Oriental ocupados por Stalin no fim da Segunda Guerra Mundial. A queda do muro e a reunificação da Alemanha simbolizaram o fim da guerra.

Na época, os Estados Unidos e seus aliados na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) se comprometeram a não mover suas tropas além da fronteiras da Guerra Fria, mas não impediram a adesão dos países da Europa Oriental como Hungria, Polônia, República Tcheca e Eslováquia à aliança atlântica. Afinal, era um direito desses países se proteger da Rússia, uma inimiga histórica.

Para Putin, que considera o fim da URSS a "maior catástrofe geopolítica so século 21", restou a tarefa de tentar resgatar pelo menos parte do poder imperial soviético. Assim, depois ocupar regiões da ex-república soviética, respondeu a uma provocação do então presidente georgiano Mikheil Saakachvili com uma guerra, em 2008.

Quem for hoje às repúblicas autônomas da Abecásia e da Ossétia do Sul vai encontrar republiquetas governadas por mafiosos russos, a exemplo do que acontece com a república da Crimeia, tomada da Ucrânia num plebiscito ilegal, em março de 2014.

Sem poderio econômico para competir com o Ocidente, Putin tentou impedir um acordo de associação da Ucrânia à União Europeia, deflagrando uma revolução que levou à fuga para a Rússia do presidente Viktor Yanukovich, em fevereiro de 2014.

Desde então, Putin nega legitimidade ao governo ucraniano. Ignorou o Memorando de Budapeste, de 1994, pelo qual a Rússia herdou as armas soviéticas prometendo, em troca, garantir a segurança das ex-repúblicas soviéticas que as entregassem. Anexou a Crimeia. A partir de abril, fomenta uma rebelião de russos étnicos no Leste da Ucrânia.

Em resposta, os EUA e a UE impuseram sanções econômicos que levaram a Rússia à estagnação. O conflito com o Ocidente aproximou a Rússia da China. Ambas têm interesse em enfraquecer o Ocidente, mas a China não quer conflito, enquanto Putin manda bombardeiros estratégicos sobrevoar a Europa, numa provocação.

Como bom tático e péssimo estrategista, Putin obtém pequenas vitórias enquanto afunda a economia do país e se coloca numa posição de onde não pode recuar sem sofrer uma derrota política. Assim, se alguém está alimentando uma nova guerra fria, é o dirigente do Kremlin.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Livro denuncia cleptocracia de Putin

Todas as grandes empresas que surgiram na Rússia pós-comunista receberam ajuda, influência política e dinheiro de ex-agentes secretos do KGB (Comitê de Defesa do Estado), a polícia política e verdadeiro núcleo do poder na União Soviética, de onde saiu o atual homem-forte do Kremlin, Vladimir Putin, aliado do Brasil no grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que reúne grandes economistas emergentes.

Seu poder apoia sobre uma teia de negócios suspeitos, descreve a cientista política Karen Dawisha, professora da Universidade de Miami em Ohio, no livro A Cleptocracia de Putin: quem é dono da Rússia?, resenhado pelo jornal The Wall St. Journal.

A conspiração para capturar bens e ativos, inclusive o dinheiro, do Estado soviético em colapso começa nos anos 1980s. Diante das reformas de Mikhail Gorbachev, em 23 de agosto de 1990, um ano antes do golpe que tentou derrubá-lo e acabou destruindo a URSS, o Comitê Central do Partido Comunista baixou decreto autorizando "medidas urgentes para organizar as atividades econômicas e comerciais do partido dentro e fora do país".

O decreto defendia "a necessidade de um canal autônomo para chegar ao caixa do partido... com o objetivo final de criar uma estrutura econômica invisível".

Putin foi oficial do KGB de 1975 a 1991, mas não há indícios de seu envolvimento com atividades ilegais naquela época, só depois, quando ele começou a trabalhar em São Petersburgo, conhecida como o "paraíso dos gângsteres". Quando chefiou o Comitê de Relações Exteriores da cidade, que dava autorizações para importar e exportar, desapareceram US$ 100 milhões de exportações de matérias-primas.

Dawisha faz a mais minuciosa investigação divulgada até hoje sobre a corrupção na Rússia, sua história e origens. Vai além de O Homem sem Face, de Masha Gessen, outra crítica feroz ao líder que sonha em restaurar pelo menos parte do poder imperial soviético e da Rússia czaristas, como se vê na mal dissimulada intervenção militar na Ucrânia.

Desde que chegou ao poder, em 1999, Putin criou "um regime que tenta controlar as empresas privatizadas, restringir a democracia e resgatar o status de superpotência da Rússia", argumenta a pesquisadora.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Putin quer reescrever acordo UE-Ucrânia

O presidente Vladimir Putin exige a renegociação do recém-ratificado acordo de associação da Ucrânia à União Europeia (UE) e ameaça tomar "imediatamente medidas retaliatórias apropriadas" se a ex-república soviética começar a implementar qualquer parte do acordo, noticia o jornal inglês Financial Times.

Em carta ao presidente da Comissão Europeia, o ex-primeiro-ministro português José Manuel Durão Barroso, a quem dissera que poderia tomar Kiev em duas semanas, Putin reafirma a determinação de impedir a integração da Ucrânia à Europa e especialmente à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a aliança militar liderada pelos Estados Unidos.

Putin alega que o adiamento de um ano e três meses na implementação do acordo, uma concessão feita pela Ucrânia e a UE no início do mês, deve ser usado para "criar equipes de negociação" para reescrever o acordo.

"Ainda acreditamos que só ajustes sistêmicos ao acordo de associação que levem em conta todos os riscos aos laços econômicos entre a Rússia e a Ucrânia e para toda a economia russa derivados da implementação do acordo nos permitirão manter as relações comerciais e econômicas existentes entre a Federação Russa", afirmou o homem-forte do Kremlin.

A Rússia pleiteia a alteração de 1,2 mil posições tarifárias definidas no acordo. Em princípio, a UE se nega a renegociar o acordo rejeitado sob pressão da Rússia em novembro de 2013 pelo então presidente ucraniano, Viktor Yanukovich. A ruptura das negociações deflagrou uma onda de protestos que levou à queda de Yanukovich em 22 de fevereiro de 2014.

Menos de uma semana depois, a Rússia iniciou uma intervenção militar na província da Crimeia que resultou em plebiscito pela independência da Ucrânia e anexação à Federação Russa, realizado em 16 de março.

Em abril, começou um movimento separatista insuflado por Moscou no Leste da Ucrânia, iniciando uma guerra civil em que cerca de 3,5 mil pessoas foram mortas. O objetivo de Putin é cada vez mais claro: enfraquecer a Ucrânia para impedir sua verdadeira independência e o afastamento da órbita da Rússia.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Obama pressiona Putin a parar de apoiar separatistas

Em conversa por telefone hoje, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pressionou seu colega da Rússia, Vladimir Putin, a retirar o apoio dos rebeldes separatistas do Leste da Ucrânia e ameaçou impor novas sanções se o governo russo não tomar medidas concretas para resolver o conflito ucraniano.

Pouco depois, os militantes separatistas aceitar o cessar-fogo proposto três dias atrás pelo novo presidente da Ucrânia, Petro Porochenko.

A crise na Ucrânia estourou em novembro de 2013, quando o então presidente, Viktor Yanukovich, sob pressão do Kremlin, rompeu negociações para associar o país à União Europeia. Depois de uma onda de manifestações e de violentos confrontos em Kiev, Yanukovich fugiu do país em 22 de fevereiro de 2014.

Temendo perder o controle sobre o ex-república soviética da Ucrânia, Putin negou reconhecimento ao governo revolucionário e até mesmo a acordos assinados anteriormente sob a alegação de que se tratava de um novo Estado nacional, inclusive do Memorando de Budapeste, assinado em 1994, quando a Rússia herdou as armas nucleares da extinta União Soviética e se comprometeu a respeitar a independência ucraniana.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Ucrânia admite realizar referendo sobre autonomia regional

Sob nova intervenção militar da Rússia, com milicianos a mando do Kremlin ocupando prédios públicos em 14 cidades da Ucrânia, o presidente provisório do país, Olexander Turchinov, admitiu hoje realizar um referendo sobre autonomia regional coincidindo com as eleições parlamentares e presidencial de 25 de maio de 2014.

Diante de um discurso feroz do embaixador russo Vitali Churkin numa reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas, tudo indica que a Rússia prepara uma invasão à ex-república soviética, se o governo ucraniano lançar uma grande operação para desalojar os rebeldes.

Em sua nova guerrinha fria contra o Ocidente, durante o fim de semana, um avião de guerra russo sobrevoou várias vezes a baixa altitude um navio da Marinha dos Estados Unidos que está em águas internacionais do Mar Negro. O piloto não respondeu às tentativas de contato. O Departamento da Defesa dos EUA descreveu a ação como "provocativa e antiprofissional".

Hoje, a Rússia cobrou explicações dos EUA sobre notícias provavelmente fabricadas pelos meios de comunicação dóceis ao Kremlin de que o diretor-geral da CIA (Agência Central de Inteligência) visitou Kiev no fim de semana. Faz parte da guerra de propaganda para justificar a intervenção militar em andamento.

Tam bém hoje, os EUA acertaram um empréstimo de US$ 1 bilhão ao governo provisório da Ucrânia. A Casa Branca revelou que o presidente Barack Obama deve discutir a crise por telefone com o presidente Vladimir Putin.

É cada vez mais evidente que a Rússia quer impedir a realização de eleições livres que legitimariam a mudança de governo na Ucrânia depois da fuga do país, em fevereiro, do presidente Viktor Yanukovich, acusado pela morte de mais de 100 participantes nas manifestações de protesto realizadas naquele mês. 

Qualquer exemplo de democracia na extinta União Soviética é uma ameaça ao autoritarismo de Putin dentro da própria Rússia. O governo provisório da Ucrânia já manifestou a intenção de aderir à União Europeia, minando o projeto de Putin de recriar a União Soviética como União Eurasiana. 

É contra tudo isso que Putin luta, contra a democracia, a liberdade e a integração da Ucrânia à Europa moderna e desenvolvida.

terça-feira, 18 de março de 2014

Putin: "Crimeia sempre foi e será da Rússia"

Em discurso no Kremlin diante de parlamentares russos, depois de assinar o termo de reintegração da Crimeia, o presidente Vladimir Putin afirmou hoje que a região "sempre foi e sempre será parte inalienável da Rússia", ignorando que fora doada à Ucrânia em 1954, na era soviética, quando isso não faria a menor diferença. Rejeitar o pedido de anexação da Crimeia, acrescentou, "teria sido uma traição".

Sob o aplauso de deputados, senadores e líderes separatistas da Crimeia, no luxuoso e imperial Salão São Jorge do Kremlin, Putin afirmou que não quer confronto com o Ocidente, mas prometeu defender os interesses dos russos. Cerca de 25 milhões vivem em outras ex-repúblicas soviéticas que não a Rússia. Todas estão em alerta diante das manobras do Kremlin.

Putin apontou cinco razões para anexar a Crimeia, observou o jornal americano The Wall St. Journal:

1. Historicamente, a Crimeia faz parte da Rússia. A transferência da região para a Ucrânia, em 1954, foi uma violação das leis da União Soviética. Quando o secretário-geral do Partido Comunista, o ucraniano Nikita Kruschev, cedeu a Crimeia à Ucrânia, ninguém esperava o fim da União Soviética. A Ucrânia foi cedida como um "saco de batatas", disse Putin. "O que parecia inacreditável, infelizmente tornou-se realidade", o fim da URSS, que o ditadorzinho russo já chamou de "maior catástrofe geopolítica do século 20.

2. A Crimeia precisa ser parte de um Estado forte e estável. Putin nega legitimidade ao governo central da Ucrânia formado depois da fuga do presidente Viktor Yanukovich em meio a uma batalha nas ruas entre a polícia de choque e rebeldes interessados em se aproximar da União Europeia. Reafirma o direito de defender os "compatriotas", mesma desculpa usada por Hitler na Segunda Guerra Mundial para invadir países. O dirigente russo citou o resultado do referendo como prova convincente de que a maioria da Crimeia quer fazer parte da Rússia e citou como precedente a independência do Kossovo depois de uma guerra em que Moscou apoiou a Sérvia, em 1999, outra derrota geopolítica de que tenta se vingar. A vitória do sim com 96,77% lembra as eleições soviéticas.

3. A Rússia não pretende tomar mais territórios da Ucrânia. Apesar das manobras militares, da tomada de quartéis, de novos confrontos no Leste do país e da morte do primeiro militar ucraniano desde a invasão russa, Putin declarou não estar interessado no resto da Ucrânia. Mas seu ministro do Exterior, Serguei Lavrov, já falou em federalismo na Ucrânia. Isso aumentaria a influência de Moscou sobre as regiões de maioria russa.

4. O Ocidente cruzou um limite ao apoiar o novo governo da Ucrânia. Putin acusa o Ocidente de apoiar um governo surgido de um "golpe inconstitucional". Na sua argumentação, isso anula qualquer crítica relativa à ocupação militar da Ucrânia e à realização de um referendo de resultado conhecido muito antes da votação. O ditatorzinho russo tenta jogar a ilegitimidade para o outro lado, como se o governo revolucionário da Ucrânia não tivesse convocado eleições na busca de legitmidade.

5. A Rússia não está preocupada com as sanções. A modesta reação ocidental não incomoda o homem-forte do Kremlin. Muitos altos funcionários sancionados não têm dinheiro nem propriedades no exterior, ironizou Putin, então as sanções não terão grande efeito.

Cada vez mais isolado internacionalmente, Putin agradeceu o apoio da China, embora o embaixador chinês tenha votado em branco no Conselho de Segurança das Nações. O regime comunista chinês rejeita em princípio referendos sobre a independência de regiões, principalmente tendo em vista Taiwan e o Tibete.

Como se falasse da Rússia, Putin acusou a política externa ocidental de se basear na lei de força: "Nossos parceiros do Ocidente, liderados pelos Estados Unidos, preferem não se guiar pelo direito internacional, mas pela lei do mais forte. Passaram a acreditar na sua excepcionalidade e na crença de que são escolhidos. Não podem decidir os destinos do mundo", afirmou, ignorando o princípio de autodeterminação dos povos que alega defender.

Crimeia tem direito à secessão mas não à moda Putin

Em princípio, os habitantes da Crimeia têm direito à autodeterminação. Afinal, o Quebec, no Canadá, e a Escócia, no Reino Unido, fizeram vários referendos e vão continuar tentando. O problema é como isso aconteceu na Ucrânia.

Não havia um movimento organizado de independência da Crimeia. Tropas russas sem insígnia tomaram o parlamento regional na madrugada de 27 de fevereiro de 2014. Em seguida, os deputados pró-russos realizaram uma sessão sem o quórum mínimo e elegeram Serguei Axionov, um empresário suspeito de realizar negócios ilícitos, como governador regional.

A partir daí, começaram os preparativos para o plebiscito. O novo governo ucraniano convocou eleições para 25 de maio, o que daria tempo suficiente para realizar uma campanha e fazer coincidir as votações, como aliás destacou a embaixadora dos EUA, Samantha Power, na sessão do Conselho de Segurança da ONU, que condenou o referendo por 13-1, mas foi vetada por Moscou.

Então, em primeiro lugar, sob intervenção militar, as condições eram inadequadas para uma consulta popular democrática. Apesar da maioria de russos étnicos (58% da Crimeia), que deveria ser suficiente para garantir a vitória, houve muitas outras irregularidades.

A Constituição da Ucrânia exige que todo o país vote mudanças territoriais. Putin alegou que o novo governo era ilegítimo, fruto de um golpe, para rejeitar todos os tratados assinados entre os dois países, inclusive o Memorando de Budapeste, em que a Ucrânia cedeu à Rússia todas as armas nucleares herdadas da União Soviética em troca de garantias de segurança

A cédula de votação dava duas alternativas: anexação à Rússia ou maior autonomia dentro da Ucrânia, com base na Constituição de 1992, já revogada. Não havia alternativa de manter o status quo e continuar sendo uma república autônoma da Ucrânia.

Na campanha eleitoral, a Rússia e sua mídia estatal apresentaram a votação com um duelo entre a Rússia e os nazifascistas ucranianos do grupo radical Setor de Direita, que foi ativo nas barricadas da Praça da Independência, mas não participa do governo, aliás dominado por partidários da ex-primeira-ministra Yulia Timochenko, de fortuna suspeita.

A TV estatal russa chegou a noticiar que 675 mil ucranianos tinham fugido do país para escapar de supostos massacres cometidos pelo novo governo. Um repórter de jornal ocidental foi até a fronteira. Encontrou funcionários sonolentos em meio à rotina.

Aí veio a votação, apenas 10 dias depois da convocação do referendo, sem qualquer supervisão internacional. Houve inúmeras denúncias de fraude, desde cédulas pré-marcadas até votações maiores do que o número total de eleitores, como em Sebastopol, sede da Frota do Mar Negro, onde o sim teve 123% como nas eleições da extinta URSS.

Assim, o povo da Crimeia tem direito à secessão, sim, mas não nos termos impostos pelo homem-forte do Kremlin, Vladimir Putin, que fez carreira dentro da polícia política soviética KGB (Comitê de Defesa do Estado) e usa seus métodos até hoje. Em seu discurso hoje diante do Parlamento da Rússia, Putin destacou "o resultado extremamente convincente", oficialmente com 96,7% de votos sim, no pior estilo das eleições soviéticas.

domingo, 2 de março de 2014

Ucrânia considera atos da Rússia declaração de guerra

O primeiro-ministro interino da Ucrânia, Arseni Yatseniuk, considerou hoje que as ações militares da Rússia em território ucraniano são uma "declaração de guerra". Para garantir a soberania, o novo governo ucraniano afastou 18 dos 24 governadores regionais e mobilizou as Forças Armadas, mas têm pouca chance na república autônoma da Crimeia, onde a Rússia mantém soldados na Frota do Mar Negro.

Hoje o comandante da Marinha ucraniana, almirante Denis Berezovski, nomeado sexta-feira pelo presidente interino Olexander Turchinov, declarou lealdade às autoridades pró-Rússia da Crimeia. Foi substituído por Serguei Haiduk.

O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Anders Fogh Rasmussen, afirmou que "o que a Rússia está fazendo na Ucrânia viola a Carta das Nações Unidas".

Ontem, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, pediu autorização ao Parlamento para usar a força na Ucrânia, que tenta intimidar e submeter para manter sua área de influência sobre as ex-repúblicas da União Soviética.

Em conversa telefônica de uma hora e meia com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que o acusou de violar o direito internacional, Putin alegou estar defendendo os interesses nacionais da Rússia e dos ucranianos étnica e culturamente russos.

Os russos são 58% da população da Crimeia; os ucranianos, 25%; e os tártaros, que se opõem ao domínio de Moscou porque foram deportados para a Sibéria pelo ditador soviético Josef Stalin, são 12%.

Obama disse que ações de combate "terão um custo" para Putin. Mas há pouco que possa fazer além de excluir a Rússia do Grupo dos Oito (G-8) e aplicar sanções econômicas de efeito duvidoso dadas as riquezas naturais russas. Os EUA, o Canadá, a França e o Reino Unido anunciaram que não vão à reunião de cúpula prevista para junho em Sóchi, na Rússia, onde foi realizada a Olimpíada de Inverno de 2014.

Em entrevista à televisão americana CNN, o general Wesley Clark, ex-comandante militar da OTAN, comentou que "Putin age como um ditador soviético do século 20, mas é um bilionário do século 21", sugerindo que o homem-forte da Rússia deve ter uma fortuna depositada em bancos internacionais.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

S&P rebaixa nota de crédito da Ucrânia

A agência de classificação de risco Standard & Poor's rebaixou a nota de crédito da dívida soberana da Ucrânia de CCC para CCC-, com perspectiva negativa.

Para a S&P, a violenta crise política aumentou o risco de que o governo ucraniano não tenha condições de pagar suas dívidas, sobretudo porque não há garantias de que a Rússia vá dar a ajuda de US$ 15 bilhões prometida pelo presidente Vladimir Putin em novembro de 2013, quando a Ucrânia suspendeu negociações para se associar à União Europeia.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Oposição denuncia mais cem mortes hoje na Ucrânia

Mais de cem pessoas foram mortas hoje em conflitos entre manifestantes e a polícia na Ucrânia, afirmou o chefe do serviço médico dos oposicionistas acampados na Praça da Independência, no centro de Kiev, Dr. Oleg Mussi. Outras 500 pessoas saíram feridas. O Ministério da Saúde admitiu 67 mortes.

Pelo menos 60 policiais foram capturados pelos manifestantes. Seus colegas alegam que têm o direito de usar a força para resgatá-los.

Em artigo publicado no jornal The Wall St. Journal, o intelectual francês Bernard-Henri Lévy defendeu um boicote aos últimos dias da Olimpíada de Inverno de Sóchi como resposta ao homem-forte da Rússia, Vladimir Putin, que apoia o presidente ucraniano, Viktor Yanukovitch.

Depois da trégua anunciada ontem à noite pelo presidente depois de receber líderes da oposição, havia uma expectativa de diálogo em torno das principais reivindicações dos manifestantes. Mas o cessar-fogo desandou e hoje foi o dia mais violento desde o início dos protestos há três, quando a Ucrânia abandonou, sob pressão da Rússia, negociações para se associar a UE.

A pedido de Yanukovitch, o Kremlin mandou um enviado especial a Kiev. Diante do aumento da violência a União Europeia vai impor sanções contra altos funcionários do governo ucraniano considerados responsáveis pela violência.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Presidente da Ucrânia revoga lei antimanifestações

Sob intensa pressão das ruas, o presidente Viktor Yanukovitch revogou hoje a lei que proibia manifestações não autorizadas na Ucrânia e impunha pesadas multas a quem a violasse, mas ameaça decretar estado de emergência.

No sábado, Yanukovitch ofereceu à oposição os cargos de primeiro-ministro e vice-primeiro-ministro. Foram rejeitados. A oposição exige a antecipação da eleição presidencial, com a saída imediata de Yanukovitch.

A revolta atingiu no fim de semana o Leste da Ucrânia, região da maior influência da Rússia, tornando a situação cada vez pior o presidente. Os protestos começaram em novembro, quando Yanukovitch abandonou negociações para fechar um acordo comercial com a União Europeia, sob pressão do presidente russo, Vladimir Putin.

O homem-forte da Rússia sonha em restaurar o poder imperial soviético através da União Eurasiana. A Ucrânia é uma pedra fundamental neste projeto.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Centenas de milhares protestam na Ucrânia

Num desafio a uma nova lei que proíbe manifestações não autorizadas, cerca de 200 mil pessoas protestaram hoje contra o governo da Ucrânia, presidido por Viktor Yanukovitch. Para superar a crise, o líder oposicionista Vitali Klitschko advertiu que o país corre risco de guerra civil e pediu a antecipação da eleição presidencial.

Uma onda de manifestações atinge a ex-república soviética da Ucrânia desde novembro, quando, sob pressão do presidente russo, Vladimir Putin, Yanukovitch abandonou negociações para associar o país à União Europeia, optando por um acordo comercial com a Rússia.

Putin sonha em restaurar o poder imperial da União Soviética. Quer criar a União Eurasiana, um bloco comercial reunindo as antigas repúblicas soviéticas. Tem o apoio da Bielorrússia e do Casaquistão. A Ucrânia não poderia ficar de fora.

Sem condições de competir economicamente com a UE, a Rússia usou a dependência histórica da Ucrânia forjada na era soviética para se impor. Se cortar o fornecimento de gás, a Ucrânia fica sem energia.

Mas a oposição liberal pró-Ocidente, que se concentra no Oeste do país e na principalmente na capital, Kiev, está convencida de que seu futuro está na Europa.