Este é o blog do jornalista Nelson Franco Jobim, Mestre em Relações Internacionais pela London School of Economics, ex-correspondente do Jornal do Brasil em Londres, ex-editor internacional do Jornal da Globo, do Jornal Nacional e da TV Brasil, ex-professor de jornalismo e de relações internacionais na UniverCidade, no Rio de Janeiro. Todos os comentários, críticas e sugestões são bem-vindos, mas não serão publicadas mensagens discriminatórias, racistas, sexistas ou com ofensas pessoais.
Em 1908, o Império Austro-Húngaro anuncia a anexação da Bósnia-Herzegovina, que formalmente estava sob o controle do Império Otomano.
Desde o Congresso de Berlim, em 1878, a Áustria-Hungria controla a região. Uma revolta dos Jovens Turcos contra o Império Otomano cria a oportunidade para a Áustria-Hungria reafirmar seu controle sobre a região dos Bálcãs, sob protesto dos sérvios e do movimento pan-eslavista na Europa.
O assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, em Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina, em 28 de junho de 1914, pelo estudante radical sérvio Gavrilo Princip é a causa imediata da Primeira Guerra Mundial (1914-18), que começa um mês depois.
GUERRA DO YOM KIPPUR
Em 1973,durante o feriado religioso do Dia do Perdão (Yom Kippur), mais de 100 mil soldados do Egito atravessem o Canal de Suez e invadem a Península do Sinai enquanto a Síria ataca em outra frente na maior empreitada militar árabe da era moderna, dando início à Guerra do Yom Kippur, numa tentativa de recuperar os territórios ocupados por Israel na Guerra dos Seis Dias (1967).
Os Estados Unidos fazem então a maior ponte aérea militar da história, a Operação Nickel Grass. Durante 32 dias, entregam 22.325 toneladas de equipamentos, tanques, peças de artilharia, munição e peças de reposição para aviões a Israel diretamente no campo de batalha, a ponto do então ditador do Egito, Anuar Sadat, reclamar que podia enfrentar Israel, mas não os EUA.
A confrontação entre as superpotências quase deflagra uma guerra nuclear. Quando Israel domina o espaço aéreo, cerca e ameaça destruir o 3º Exército do Egito no Sinai, a União Soviética entra em alerta nuclear e ameaça ir à guerra. É o único alerta nuclear da URSS durante a Guerra Fria.
Diante da impotência no campo de batalha, os países árabes, liderados pelo rei Faissal, da Arábia Saudita, iniciam um embargo à venda de petróleo aos aliados de Israel, provocando a primeira crise do petróleo. Os preços do petróleo bruto quadruplicam. Nos países ocidentais, os motoristas fazem fila em postos de gasolina. Acaba a era dos carrões.
Quatro anos depois, Sadat rompe a aliança com a URSS, aproxima-se dos EUA, visita Israel e negocia a paz nos Acordos de Camp David como única maneira de recuperar o Sinai. Israel aceita porque o Egito tem o maior exército do mundo árabe e há um adágio no Oriente Médio que diz: "Não há guerra sem o Egito nem paz sem a Síria."
Nunca mais os países árabes realizaram um ataque conjunto contra Israel. Sadat e o primeiro-ministro israelense, Menachem Begin ganham o Prêmio Nobel da Paz, mas o ditador egípcio paga com a vida.
A crise do petróleo acaba com o modelo econômico da ditadura militar brasileira, baseado em energia e mão de obra baratas. É o fim do milagre econômico e a origem da hiperinflação, herança maldita da ditadura militar que só seria debelada pelo Plano Real em 1994.
ASSASSINATO DE SADAT
Em 1981, durante uma festividade militar para comemorar o aniversário do início da Guerra do Yom Kippur, extremistas muçulmanos do grupo Jihad Islâmica metralham o palanque das autoridades e matam o ditador do Egito, Anuar Sadat, numa vingança porque ele fez a paz com Israel.
Os terroristas, liderados por Khaled el-Islambouli, tenente do Exército do Egito, param em frente ao palanque, dão tiros e jogam granadas contra o ditador e outras autoridades. Sadat leva quatro tiros e morre duas horas depois. Outras 10 pessoas morrem no atentado.
Em novembro, 25 pessoas vão a julgamento. Todos, inclusive o futuro líder da rede terrorista Al Caeda Ayman al-Zawahiri, admitem com orgulho sua participação. Islambouli e outros quatro são condenados à morte e executados. Os outros pegam diferentes penas de prisão.
Diante de derrotas das forças da Rússia no campo de batalha, o ditador Vladimir Putin dobrou a aposta. Depois de plebiscitos forjados realizados de 23 a 27 de setembro, anexou hoje quatro regiões parcialmente ocupadas (Lugansk, Donetsk, Zaporíjia e Kherson) que representam 15% do território da Ucrânia e voltou a ameaçar com o uso de armas nucleares para defender os territórios ocupados.
Enquanto elimina na prática as chances de negociações de paz, propôs um cessar-fogo que a Ucrânia e o resto do mundo não tem como aceitar. A guerra entra no momento mais perigoso. O presidente Volodymyr Zelensky declarou que não negocia com Putin, só com o próximo líder russo e pediu oficialmente a adesão da Ucrânia à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Depois de sete meses, Putin quer acabar logo com a guerra que chama de operação militar especial e está perdendo. Pretendia vencer em uma semana. Está atolado até hoje, com estimativa de 80 mil soldados russos mortos ou feridos. Em setembro, a Ucrânia recuperou 10 mil quilômetros quadrados de território.
Sob pressão, criticado até mesmo por líderes autoritários como os ditadores da China, Xi Jinping, e da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, Putin acelerou a realização dos plebiscitos e ordenou uma mobilização parcial. O Ministério da Defesa russo convocou 300 mil reservistas.
Há uma fuga em massa de jovens russos de carro e de avião. Isso cria a ameaça de uma revolta interna na Rússia. Além da crescente oposição à guerra, quem é a favor, os ultranacionalistas, estão furiosos com a incompetência na condução da guerra.
Em discurso triunfalista no Salão São Jorge do Grande Palácio do Kremlim, depois de assinar os “tratados de adesão”, Putin afirmou que a anexação foi uma exigência das populações locais de origem russa com base no princípio de autodeterminação dos povos.
O ditador citou “laços históricos” e um “destino comum”, argumentos que usa para alegar que a Ucrânia é parte da Rússia e nunca foi um país independente.
Como o primeiro documento da história da Rússia é uma carta do príncipe Vladimir, em 988, adotando o cristianismo como religião oficial do Principado de Kiev num acordo com o Império Bizantino, a Rússia nasceu em Kiev, que Putin chama de “mãe de todas as cidades russas”.
Se a Rússia nasceu em Kiev e Kiev é a capital da Ucrânia, a Ucrânia é parte da Rússia. Hoje a Rússia Kievana é considerada o primeiro estado russo, fundado por vikings no século 9, durou até a invasão Mongol, em 1240, quando Kiev é arrasada. No seu momento de maior extensão, a Rússia Kievana ia do Mar Báltico ao Mar Negro.
Mas Kiev é uma das cidades mais antigas da Europa Oriental. Era um centro comercial no século 5. Teve mais de mil anos de independência da Rússia até o acordo dos cossacos da Ucrânia, que lutavam contra a Comunidade Polaco-Lituana, fizeram o Acordo da Pereslávia em 1654, pedindo proteção ao czar Aleixo I.
A Ucrânia se torna independente depois da Revolução Russa de 1917, mas os bolcheviques tomam o poder, transformam o país numa república soviética. Putin chegou a dizer que a Ucrânia é uma invenção de Vladimir Lenin e Josef Stalin, quando fundaram a União Soviética, em 1922.
Ele prometeu defender as regiões conquistadas numa guerra de agressão “com todos os meios disponíveis”, uma maneira indireta de falar em armas nucleares. Em seguida, foi à festa na Praça Vermelha.
É uma farsa. A Rússia anexou ilegalmente em março de 2014 a Península da Crimeia, um mês depois da queda do presidente ucraniano Viktor Yanukovich, aliado de Moscou. Em 6 de abril, daquele começou uma guerra no Leste da Ucrânia insuflada pelo Kremlin. Não havia movimento separatista. É obra de Putin.
Em 2014, os rebeldes aliados de Moscou declaram a independência das províncias de Donetsk e Lugansk. Nos Acordos de Minsk, em 2015, a Rússia negociou com a Alemanha, a França e a Ucrânia a devolução dos territórios à soberania ucraniana em troca de garantias de ampla autonomia.
Três dias antes do início da guerra, Putin reconheceu a independência das autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk. E agora, ou só agora, foram anexadas à Rússia, antes que a contraofensiva da Ucrânia retome grandes áreas da região de Donbass, a bacia do Rio Dom.
Para justificar o fracasso, o ditador russo declara estar combatendo os Estados Unidos e seus aliados, que acusa de querer humilhar, dividir e destruir a Rússia. É um delírio paranoico de um líder armado com bombas atômicas.
Se em 2014, a resposta da sociedade internacional foi com sanções que não abalaram o Kremlin, desta vez, reforça a determinação dos Estados Unidos, do Reino Unido, da União Europeia (UE) e aliados de manter a frente unida de apoio à Ucrânia e rejeitar a anexação dos territórios conquistados em guerra, o que viola a Carta das Nações Unidas. Os EUA e a UE anunciaram novas sanções à Rússia.
A Rússia vetou uma resolução do Conselho de Segurança da ONU condenando a anexação. Dez países (EUA, Albânia, Emirados Árabes Unidos, França, Gana, Irlanda, México, Noruega, Quênia e Reino Unido) votaram a favor e quatro se abstiveram (Brasil, China, Índia e Gabão).
Os plebiscitos foram totalmente ilegais e ilegítimos, convocados em cima da hora, sem tempo para campanha, em zonas ocupadas militarmente. Os ucranianos votaram sob a mira de metralhadoras. Os soldados russos foram de casa em casa.
Nos plebiscitos de Putin, os votos não são secretos. As cédulas tinham o tamanho de uma folha de papel de ofício. Foram colocadas em urnas transparentes. Os resultados falsificados tiveram em média 87% de votos pela anexação e 99% em Donetsk, o que lembra as eleições forjadas da União Soviética.
Para o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a aliança militar liderada pelos EUA, Jens Stoltenberg, “é a maior escalada no conflito desde o início da guerra”
Na opinião do historiador e cientista político britânico Anatol Lieven, professor do King’s College de Londres e diretor do Quincy Institute for Responsible Statecraft, há “um fracasso total da estratégia russa na Ucrânia desde a invasão de 24 de fevereiro.”
Lieven acredita que a convocação dos reservistas demorou porque é uma confissão do fracasso e de que a operação militar especial é uma guerra em grande escala. Uma derrota pode derrubar Putin.
“Se a Ucrânia expulsar a Rússia de Kherson e de grandes áreas de Donbass, a sobrevivência de Putin no poder estará em questão”, prevê o professor britânico.
Ao anexar partes da Ucrânia, o cientista político entende que o ditador russo “abandonou qualquer esperança de paz e está pronto para lutar indefinidamente” porque “esta anexação nunca será aceita pela Ucrânia, pelo Ocidente ou ser parte de qualquer acordo”.
Neste caso, a perspectiva é de uma guerra longa, de anos, ou várias guerras entremeadas por períodos de cessar-fogo sem que se chegue a um acordo de paz definitivo. Anatol Lieven compara com o que acontece há 75 anos na região da Caxemira, disputada entre a Índia e o Paquistão.
Diante de recentes declarações do presidente Joe Biden de que os EUA defenderão Taiwan se a China atacar a ilha que considera uma província rebelde, a China não vai abandonar Putin. Deve aumentar a ajuda militar e financeira à Rússia.
Mas o risco de um golpe contra Putin é cada vez maior, observa Anatol Lieven. Não seria necessariamente violento. Uma comissão de figurões da elite russa iriam ao Kremlin e ofereceriam garantias de imunidade contra processos e confisco de propriedades. Putin iria para sua dacha e teria uma vida tranquila longe dos holofotes, a exemplo do que aconteceu com o líder soviético Nikita Kruschev.
Em troca, os golpistas russos precisariam negociar com o Ocidente a normalização das relações. Uma Rússia enfraquecida econômica e militarmente pode ser mais perigosa porque vai continuar tendo armas nucleares. Lieven compara com a República de Weimar, que governou a Alemanha depois da Primeira Guerra Mundial até a ascensão do nazismo, em 1933, sob os fantasmas da rendição e da humilhação nacional.
O resultado, na Alemanha, foi Adolf Hitler e a Segunda Guerra Mundial. Agora, mesmo com a queda de Putin, poderia ser um endurecimento da guerra e sua ampliação além das fronteiras da Ucrânia.
A Guerra da Ucrânia ressuscitou os fantasmas da guerra nuclear e de uma Terceira Guerra Mundial. Meu comentário:
Representantes da companhia russa de gás natural Gazprom e da empresa ucraniana de petróleo e gás natural Naftogaz se reuniram hoje em Viena, na Áustria, para discutir detalhes depois de um acordo preliminar sobre tarifas do trânsito de gás da Rússia pela Ucrânia, anunciado na semana passada.
Falta agora definir os detalhes operacionais para a assinatura de um contrato de trânsito entre as duas ex-repúblicas da União Soviética, envolvidas em conflito desde a anexação da Crimeia e do início de uma guerra fomentada pelo Kremlin no Leste da Ucrânia, em 2014.
O acordo preliminar não será implementado antes que todos os contratos sejam assinados, o que pode ocorrer nesta sexta-feira. Com base nesse acordo, a Rússia deve reduzir o uso dos gasodutos que passam pela Ucrânia nos próximos cinco anos. A Rússia quer fazer seu próprio gasoduto, mas vai depender da Ucrânia por mais alguns anos.
A União Europeia, destino final do gás, a Rússia e a Ucrânia têm interesse em evitar que a falta de um acordo paralise o negócio quando o atual acordo expirar, em 31 de dezembro.
A derrota do primeiro-ministro linha-dura Benjamin Netanyahu nas eleições de 17 de setembro pode marcar o fim de uma era, salvar a democracia israelense e dar uma chance à paz com os palestinos.
O resultado
ainda está indefinido. Apurados 97% nas segundas eleições deste ano em Israel,
o partido Azul e Branco, liderado pelo ex-comandante do Estado-Maior das Forças
de Defesa de Israel, general Benny Gantz, está na frente com 33 deputados,
enquanto o partido Likud, de Netanyahu, elegeu 32 deputados na Knesset, o
Parlamento israelense.
Como a Knesset tem 120 cadeiras, ambos ainda estão longe
da maioria absoluta de 61 deputados necessária para formar um novo governo.
Hoje,
Netanyahu propôs a Gantz a formação de uma grande aliança dos dois grandes
partidos, com revezamento dos dois na chefia de governo. O general rejeitou. Com mais deputados, tem prioridade. Declarou que pretende formar uma coalizão ampla e liderar um governo de união
nacional politicamente liberal.
Esta aliança ampla pode incluir o Likud, desde
que Netanyahu não seja mais líder. As negociações podem durar semanas e até
meses. Se Gantz fracassar, Netanyahu terá mais uma chance. Meu comentário:
As ex-repúblicas soviéticas da Rússia e da Ucrânia trocaram hoje 35 prisioneiros para cada lado. Foram libertados 24 soldados da Marinha ucraniania e Volodymyr Tsemakh, que está sendo investigado pelo abate de um avião de passageiros Boeing 777 da companhia aérea Malaysia Airlines em que as 298 pessoas a bordo morreram, em 2014.
As negociações delicadas e a cerimônia de troca de presos cuidadosamente coreografada indicam um avanço nas relações bilaterais e devem marcar o fim da guerra civil fomentada pelo Kremlin no Leste da Ucrânia no início de abril de 2014, embora um acordo de paz ainda pareça distante.
Em fevereiro de 2014, depois da queda do presidente Viktor Yanukovich, aliado de Moscou, soldados russos da Frota do Mar Negro baseados na cidade ucraniana de Sebastopol ocuparam a península da Crimeia, anexada ilegalmente pela Rússia no mês seguinte.
Mais de 13 mil pessoas morreram no conflito deflagrado pelo ditador russo, Vladimir Putin, como resposta à queda de Yanukovich. O novo presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, eleito em abril, colocou o fim do conflito como prioridade.
O primeiro-ministro do Paquistao, Imran Khan, comparou hoje a decisão da Índia de revogar a autonomia do estado de Jamu e Caxemira à expansão do nazismo e à anexação da Tcheco-Eslováquia antes do início da Segunda Guerra Mundial. A sugestão é que o governo nacionalista hindu do primeiro-ministro Narendra Modi age sob a inspiração de uma ideologia comparável ao nazismo.
Sob intensa pressão doméstica para tomar uma atitude, Khan comparou a situação da Caxemira a um "genocídio iminente". Ele acusou a Índia de querer mudar "a democracia da Caxemira através de uma purificação étnica: A questão é: o mundo vai assistir e apaziguar como fizeram com Hitler em Munique."
Na visão de Khan, a ideologia do Partido Bharatiya Janata (BJP), nacionalista hindu, "vai levar à supressao dos muçulmanos na Índia e, no fim das contas, a ataques ao Paquistão."
Único estado indiano com maioria muçulmana, a Caxemira é um foco de tensão que já causou três guerras entre os dois países, em 1947, 1965 e 1999, desde que se tornaram independentes do Império Britânico, em agosto de 1947.
Quando o país se dividiu, as províncias de maioria hindu formaram a Índia e as de maioria muçulmana formaram o Paquistão. Na Caxemira, a maioria da população era muçulmana, mas a elite dirigente era hindu. A tentativa de solução foi criar um país independente.
Dois meses depois da divisão, tribos paquistanesas invadiram a Caxemira. Quando o último governador colonial, o marajá Hari Singh, pediu ajuda à Índia, o governo indiano declarou que só poderia agir se ele aderisse oficialmente à Índia.
O marajá fez isso. O Exécito da Índia entrou na guerra, mas o Paquistão acabou ficando com 35% da Caxemira e até reivindica a soberania sobre toda a região.
A solução na época foi dar autonomia à Caxemira para fazer suas próprias leis, o que estava expresso no artigo 370 da Constituição da Índia, revogado por iniciativa do governo Modi.
O ultranacionalismo hindu do BJP sempre viu a Índia como um país hindu, mas os pais da pátria, o herói da independência, Mohandas Gandhi, e o primeiro primeiro-ministro indiano, Jawaharlal Nehru, decidiram criar um país inclusivo, multiétnico e multirreligioso. Isso levou ao assassinato de Gandhi por um extremista hindu, em 30 de janeiro de 1948.
Durante décadas, o Partido do Congresso, de Gandhi e Nehru, dominou a política da Índia. Nas últimas décadas, houve uma ascensão do BJP, que venceu as duas últimas eleições, em 2014 e 2019. Nesse período, Índia e Paquistão se tornaram potências nucleares.
Desde 1989, o movimento muçulmano da Caxemira aderiu à luta armada contra a Índia, um conflito responsável por cerca de 45 mil mortes. Para o ultranacionalismo do BJP, a Caxemira sempre foi um problema incômodo.
Antes de ser eleito primeiro-ministro, Modi foi acusado várias vezes de cumplicidade ou tolerância com massacres de muçulmanos e ataques a mesquitas. Era proibido de entrar nos Estados Unidos.
Depois de ganhar as segundas eleições consecutivas, ampliando sua maioria parlamentar, Modi partiu para a integração total da Caxemira na união indiana, sob a alegação de que há muito tempo a região está sujeita às "conspirações paquistanesas para promover o terrorismo e o separatismo".
"Deem-nos cinco anos e faremos da Caxemira o estado mais desenvolvido da Índia", afirmou o ministro do Interior indiano, Amit Shah, um dos extremistas de direita do governo.
Para revogar a autonomia, Modi enviou 15 mil policiais militares à Caxemira, impôs um toque de recolher noturno e cortou as telecomunicações na região, causando revolta no Paquistão, que defende a realização de um plebiscito sobre o futuro da Caxemira.
Em resposta, o Paquistão rebaixou as relações diplomáticas entre os dois países, expulsou o embaixador da Índia, suspendeu todo o comércio bilateral e os transportes ligando um país ao outro, apelou ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e ao Tribunal Internacional de Justiça.
Ao fazer a comparação com o nazismo, o primeiro-ministro paquistanês cita uma história que o Ocidente conhece bem, na esperança de obter ajuda internacional. A Índia rejeita a internacionalização do que considera uma questão interna.
O presidente Donald Trump ofereceu a mediação dos EUA, mas a Índia só admite negociar bilateralmente com o Paquistão, a parte mais fraca. Mas é uma parte mais fraca com armas nucleares.
Pela primeira vez desde o início do ano, a popularidade do presidente da Rússia, Vladimir Putin, está em queda, indica uma pesquisa do Centro Levada noticiada ontem pelo jornal The Moscow Times. Se houvesse uma eleição presidencial hoje no país, só 49% votariam em Putin, contra 57% em agosto.
A popularidade de Putin cresceu no início do ano com a crise na Ucrânia e a anexação da Crimeia, apresentada na propaganda oficial como uma defesa de russos que supostamente estariam sendo perseguidos na ex-república soviética.
Putin domina a política russa desde o ano 2000, quando foi eleito presidente pela primeira vez. De 2008 a 2012, ele passou a Presidência para Dimitri Medvedev e foi primeiro-ministro.
Com a intervenção militar na Ucrânia e a imposição de sanções pelos Estados Unidos e a Europa, seu governo está se tornando cada vez mais nacionalista e linha dura. Reprime a oposição interna e tenta se afastar de quaisquer valores e influências ocidentais.
Sob pressão de uma intervenção militar velada da Rússia no Leste do país, os eleitores da Ucrânia votaram em massa hoje nos partidos favoráveis à aproximação com o Ocidente nas primeiras eleições parlamentares desde a queda do presidente Viktor Yanukovich, apoiado pelo Kremlin, em meio a uma revolta popular, em 22 de fevereiro de 2014.
O bloco do presidente Petro Porochenko e quatro outros movimentos pró-Ocidente obtiveram cerca de 70% dos votos, indicam as sondagens de boca de urna. A oposição pró-russa não passou de 8%.
Não houve votação em 12 distritos eleitorais da Crimeia, anexada ilegalmente pela Rússia em 17 de março de 2014, e em 14 distritos do Leste controlados pelos rebeldes que querem se unir à Federação Russa.
Os resultados oficiais só saem na quarta-feira à noite. A vitória anunciada consolida o poder do presidente Porochenko e mantém a tendência ao autoritarismo político dos homens-fortes que marca as antigas repúblicas soviéticas. O antigo parlamento era leal a Yanukovich. Este será leal ao novo presidente.
Yanukovich caiu em meio a protestos populares e confrontos na praça central de Kiev três meses depois de rejeitar, sob a pressão do presidente russo, Vladimir Putin, um acordo de associação com a UE.
O Ocidente ainda não conseguiu a união necessária para impor sanções econômicas mais duras à Rússia, como quer o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em resposta à anexação da Crimeia. A chanceler (primeira-ministra) da Alemanha, Angela Merkel, afirma ainda estar trabalhando numa solução diplomática.
A Alemanha é o país ocidental com mais negócios e investimentos na Rússia. O comércio bilateral é de quase US$ 80 bilhões por ano. Merkel teme agravar a situação, criando uma hostilidade perigosa perto de suas fronteiras, além das sérias consequências econômicas. Tenta, por exemplo, acalmar a Polônia, que cobra uma atitude mais dura da União Europeia.
Durante vista a Roma, depois de se encontrar com o papa Francisco e com o primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, em audiências separadas, Obama reafirmou estar pronto a rever suas posições se a Rússia recuar da anexação da Ucrânia, o que parece impossível.
Em Washington, o Fundo Monetário Internacional aprovou um empréstimo de US$ 18 bilhões à Ucrânia, condicionado a "duras" reformas econômicas.
Com 100 votos a favor, 11 contra e 58 abstenções, inclusive do Brasil, a Assembleia Geral das Nações Unidas condenou hoje a anexação da Crimeia à Federação Russa.
A resolução tem apenas valor simbólico porque a Rússia tem direito de veto na ONU. Serve como um termômetro da reação internacional à intervenção militar russa na ex-república soviética da Ucrânia e para isolar ainda mais a Rússia, observa o jornal The New York Times.
A Crimeia foi oficialmente anexada à Rússia na semana passada, depois de um referendo convocado às pressas para 16 de março de 2014 e realizado sob a mira de fuzis Kalachnikov russos.
Ao defender a resolução, o ministro do Exterior da Ucrânia, Andriy Deschitsia, alegou que o referendo "não foi válido", descreveu as ações da Rússia como "uma violação direta da Carta da ONU" e apelou a todos os países do mundo para que não reconheçam as novas fronteiras.
Em resposta, a Rússia alegou que a Crimeia tem direito à autodeterminação, outro princípio inscrito na Carta da ONU. A embaixadora dos Estados Unidos, Samantha Power, contra-argumentou que a coerção não pode ser um meio para atingir a autodeterminação. O resultado seria o caos.
Num dos discursos de maior impacto, o embaixador da Costa Rica, Eduardo Ulibarri, lembrou que o direito internacional é a única força capaz de "defender a soberania" dos países pequenos.
Até agora, só três países reconheceram a anexação da Crimeia: a Síria, a Venezuela e o Afeganistão, onde o presidente Hamid Karzai desafia os EUA para ajudar seu candidato na eleição presidencial de abril de 2014.
Por 443 a 1, a Duma do Estado, a câmara baixa do Parlamento da Rússia, aprovou hoje a integração da Crimeia à Federação Russa.
Em breve pronunciamento nos jardins da Casa Branca, o presidente Barack Obama ameaçou romper relações diplomáticas com a Rússia e anunciou novas sanções dos Estados Unidos contra os responsáveis pela anexação da ex-república autônoma da Ucrânia.
Obama prometeu impor sanções a mais indivíduos, ao banco que apoiou o movimento pela anexação da Ucrânia à Rússia e setores inteiros da economia russa.
O novo governo da Crimeia libertou hoje o comandante da Marinha da Ucrânia, detido ontem, quando soldados russos tomaram as bases navais da Frota do Mar Negro.
A reintegração da Crimeia à Rússia se reflete em outras ex-repúblicas da União Soviética. O presidente do parlamento regional da Transnístria, Mikhail Burla, pediu oficialmente anexação à Rússia ao presidente da Duma do Estado, a Câmara do parlamento russo, Serguei Narichkin.
Em 2006, 97,2% dos eleitores do território votaram pela independência da Moldova e integração à Rússia. Cerca de 200 mil russos vivem na Transnístria, uma estreita faixa de terra entre o Rio Dniéster, no Leste da Moldova, e Oeste da Ucrânia.
Como na Ucrânia, quando a Moldova prepara-se para assinar um acordo de livre comércio com a União Europeia, as forças pró-Rússia se levantam.
Em discurso no Kremlin diante de parlamentares russos, depois de assinar o termo de reintegração da Crimeia, o presidente Vladimir Putin afirmou hoje que a região "sempre foi e sempre será parte inalienável da Rússia", ignorando que fora doada à Ucrânia em 1954, na era soviética, quando isso não faria a menor diferença. Rejeitar o pedido de anexação da Crimeia, acrescentou, "teria sido uma traição".
Sob o aplauso de deputados, senadores e líderes separatistas da Crimeia, no luxuoso e imperial Salão São Jorge do Kremlin, Putin afirmou que não quer confronto com o Ocidente, mas prometeu defender os interesses dos russos. Cerca de 25 milhões vivem em outras ex-repúblicas soviéticas que não a Rússia. Todas estão em alerta diante das manobras do Kremlin.
Putin apontou cinco razões para anexar a Crimeia, observou o jornal americano The Wall St. Journal:
1. Historicamente, a Crimeia faz parte da Rússia. A transferência da região para a Ucrânia, em 1954, foi uma violação das leis da União Soviética. Quando o secretário-geral do Partido Comunista, o ucraniano Nikita Kruschev, cedeu a Crimeia à Ucrânia, ninguém esperava o fim da União Soviética. A Ucrânia foi cedida como um "saco de batatas", disse Putin. "O que parecia inacreditável, infelizmente tornou-se realidade", o fim da URSS, que o ditadorzinho russo já chamou de "maior catástrofe geopolítica do século 20.
2. A Crimeia precisa ser parte de um Estado forte e estável. Putin nega legitimidade ao governo central da Ucrânia formado depois da fuga do presidente Viktor Yanukovich em meio a uma batalha nas ruas entre a polícia de choque e rebeldes interessados em se aproximar da União Europeia. Reafirma o direito de defender os "compatriotas", mesma desculpa usada por Hitler na Segunda Guerra Mundial para invadir países. O dirigente russo citou o resultado do referendo como prova convincente de que a maioria da Crimeia quer fazer parte da Rússia e citou como precedente a independência do Kossovo depois de uma guerra em que Moscou apoiou a Sérvia, em 1999, outra derrota geopolítica de que tenta se vingar. A vitória do sim com 96,77% lembra as eleições soviéticas.
3. A Rússia não pretende tomar mais territórios da Ucrânia. Apesar das manobras militares, da tomada de quartéis, de novos confrontos no Leste do país e da morte do primeiro militar ucraniano desde a invasão russa, Putin declarou não estar interessado no resto da Ucrânia. Mas seu ministro do Exterior, Serguei Lavrov, já falou em federalismo na Ucrânia. Isso aumentaria a influência de Moscou sobre as regiões de maioria russa.
4. O Ocidente cruzou um limite ao apoiar o novo governo da Ucrânia. Putin acusa o Ocidente de apoiar um governo surgido de um "golpe inconstitucional". Na sua argumentação, isso anula qualquer crítica relativa à ocupação militar da Ucrânia e à realização de um referendo de resultado conhecido muito antes da votação. O ditatorzinho russo tenta jogar a ilegitimidade para o outro lado, como se o governo revolucionário da Ucrânia não tivesse convocado eleições na busca de legitmidade.
5. A Rússia não está preocupada com as sanções. A modesta reação ocidental não incomoda o homem-forte do Kremlin. Muitos altos funcionários sancionados não têm dinheiro nem propriedades no exterior, ironizou Putin, então as sanções não terão grande efeito.
Cada vez mais isolado internacionalmente, Putin agradeceu o apoio da China, embora o embaixador chinês tenha votado em branco no Conselho de Segurança das Nações. O regime comunista chinês rejeita em princípio referendos sobre a independência de regiões, principalmente tendo em vista Taiwan e o Tibete.
Como se falasse da Rússia, Putin acusou a política externa ocidental de se basear na lei de força: "Nossos parceiros do Ocidente, liderados pelos Estados Unidos, preferem não se guiar pelo direito internacional, mas pela lei do mais forte. Passaram a acreditar na sua excepcionalidade e na crença de que são escolhidos. Não podem decidir os destinos do mundo", afirmou, ignorando o princípio de autodeterminação dos povos que alega defender.
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, assinou um decreto reconhecendo a independência da Crimeia, onde o parlamento regional pediu anexação à Rússia.
Amanhã, ele discursa diante das duas casas do Parlamento para anunciar os próximos passos de sua manobra para enfraquecer o governo revolucionário da Ucrânia, que derrubou um presidente pró-russo no mês passado.
A dúvida agora é até onde vai Putin. Vai tentar desestabilizar todo o Leste da Ucrânia, onde a maioria é étnica e culturamente russa, por exemplo, fomentando o federalismo para aumentar a influência da Rússia?