O primeiro-ministro do Paquistao, Imran Khan, comparou hoje a decisão da Índia de revogar a autonomia do estado de Jamu e Caxemira à expansão do nazismo e à anexação da Tcheco-Eslováquia antes do início da Segunda Guerra Mundial. A sugestão é que o governo nacionalista hindu do primeiro-ministro Narendra Modi age sob a inspiração de uma ideologia comparável ao nazismo.
Sob intensa pressão doméstica para tomar uma atitude, Khan comparou a situação da Caxemira a um "genocídio iminente". Ele acusou a Índia de querer mudar "a democracia da Caxemira através de uma purificação étnica: A questão é: o mundo vai assistir e apaziguar como fizeram com Hitler em Munique."
Na visão de Khan, a ideologia do Partido Bharatiya Janata (BJP), nacionalista hindu, "vai levar à supressao dos muçulmanos na Índia e, no fim das contas, a ataques ao Paquistão."
Único estado indiano com maioria muçulmana, a Caxemira é um foco de tensão que já causou três guerras entre os dois países, em 1947, 1965 e 1999, desde que se tornaram independentes do Império Britânico, em agosto de 1947.
Quando o país se dividiu, as províncias de maioria hindu formaram a Índia e as de maioria muçulmana formaram o Paquistão. Na Caxemira, a maioria da população era muçulmana, mas a elite dirigente era hindu. A tentativa de solução foi criar um país independente.
Dois meses depois da divisão, tribos paquistanesas invadiram a Caxemira. Quando o último governador colonial, o marajá Hari Singh, pediu ajuda à Índia, o governo indiano declarou que só poderia agir se ele aderisse oficialmente à Índia.
O marajá fez isso. O Exécito da Índia entrou na guerra, mas o Paquistão acabou ficando com 35% da Caxemira e até reivindica a soberania sobre toda a região.
A solução na época foi dar autonomia à Caxemira para fazer suas próprias leis, o que estava expresso no artigo 370 da Constituição da Índia, revogado por iniciativa do governo Modi.
O ultranacionalismo hindu do BJP sempre viu a Índia como um país hindu, mas os pais da pátria, o herói da independência, Mohandas Gandhi, e o primeiro primeiro-ministro indiano, Jawaharlal Nehru, decidiram criar um país inclusivo, multiétnico e multirreligioso. Isso levou ao assassinato de Gandhi por um extremista hindu, em 30 de janeiro de 1948.
Durante décadas, o Partido do Congresso, de Gandhi e Nehru, dominou a política da Índia. Nas últimas décadas, houve uma ascensão do BJP, que venceu as duas últimas eleições, em 2014 e 2019. Nesse período, Índia e Paquistão se tornaram potências nucleares.
Desde 1989, o movimento muçulmano da Caxemira aderiu à luta armada contra a Índia, um conflito responsável por cerca de 45 mil mortes. Para o ultranacionalismo do BJP, a Caxemira sempre foi um problema incômodo.
Antes de ser eleito primeiro-ministro, Modi foi acusado várias vezes de cumplicidade ou tolerância com massacres de muçulmanos e ataques a mesquitas. Era proibido de entrar nos Estados Unidos.
Depois de ganhar as segundas eleições consecutivas, ampliando sua maioria parlamentar, Modi partiu para a integração total da Caxemira na união indiana, sob a alegação de que há muito tempo a região está sujeita às "conspirações paquistanesas para promover o terrorismo e o separatismo".
"Deem-nos cinco anos e faremos da Caxemira o estado mais desenvolvido da Índia", afirmou o ministro do Interior indiano, Amit Shah, um dos extremistas de direita do governo.
Para revogar a autonomia, Modi enviou 15 mil policiais militares à Caxemira, impôs um toque de recolher noturno e cortou as telecomunicações na região, causando revolta no Paquistão, que defende a realização de um plebiscito sobre o futuro da Caxemira.
Em resposta, o Paquistão rebaixou as relações diplomáticas entre os dois países, expulsou o embaixador da Índia, suspendeu todo o comércio bilateral e os transportes ligando um país ao outro, apelou ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e ao Tribunal Internacional de Justiça.
Ao fazer a comparação com o nazismo, o primeiro-ministro paquistanês cita uma história que o Ocidente conhece bem, na esperança de obter ajuda internacional. A Índia rejeita a internacionalização do que considera uma questão interna.
O presidente Donald Trump ofereceu a mediação dos EUA, mas a Índia só admite negociar bilateralmente com o Paquistão, a parte mais fraca. Mas é uma parte mais fraca com armas nucleares.
Este é o blog do jornalista Nelson Franco Jobim, Mestre em Relações Internacionais pela London School of Economics, ex-correspondente do Jornal do Brasil em Londres, ex-editor internacional do Jornal da Globo, do Jornal Nacional e da TV Brasil, ex-professor de jornalismo e de relações internacionais na UniverCidade, no Rio de Janeiro. Todos os comentários, críticas e sugestões são bem-vindos, mas não serão publicadas mensagens discriminatórias, racistas, sexistas ou com ofensas pessoais.
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domingo, 11 de agosto de 2019
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
Paquistão reage ao fim da autonomia da Caxemira
O Conselho de Segurança Nacional do Paquistão decidiu hoje expulsar o embaixador da Índia, suspender todo o comércio bilateral e revisar os acordos bilaterais. E a resposta inicial à decisão do governo nacionalista hindu do primeiro-ministro Narendra Modi de acabar com o estado de Jamu e Caxemira, que foi dividido em duas unidades federativas rebaixadas a territórios, passando para a administração direta do governo central em Nova Déli.
Desde que os dois países se tornaram independentes do Império Britânico, em 1947, o Paquistão reivindica a soberania sobre a Caxemira. O primeiro-ministro Imran promete recorrer ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e ao Tribunal Internacional de Justiça.
Ao revogar o artigo 370 da Constituição da Índia, que dava autonomia regional à Caxemira, o governo Modi tira da região o direito de fazer suas próprias leis e permite que indianos não residentes possam comprar propriedades, se candidatar a empregos e bolsas de estudos na Caxemira. Isto pode mudar a composição demográfica do que era o único estado da Índia de maioria muçulmana.
Desde que os dois países se tornaram independentes do Império Britânico, em 1947, o Paquistão reivindica a soberania sobre a Caxemira. O primeiro-ministro Imran promete recorrer ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e ao Tribunal Internacional de Justiça.
Ao revogar o artigo 370 da Constituição da Índia, que dava autonomia regional à Caxemira, o governo Modi tira da região o direito de fazer suas próprias leis e permite que indianos não residentes possam comprar propriedades, se candidatar a empregos e bolsas de estudos na Caxemira. Isto pode mudar a composição demográfica do que era o único estado da Índia de maioria muçulmana.
O primeiro-ministro
paquistanês, Imran Khan, denunciou a manobra como uma tentativa de fazer uma “purificação
étnica”. A China, que domina 20% da Caxemira, também protestou. O Ministério do
Exterior da Índia alegou que é uma questão interna da Índia. Meu comentário:
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Índia aprova divisão de Jamu e Caxemira em dois territórios
A Lok Sabha, a Câmara dos Deputados da Índia, aprovou ontem a divisão do estado de Jamu e Caxemira em dois territórios federais, rebaixando-os e colocando-os sob administração direta do governo central. O Senado havia aprovado o projeto na véspera.
Depois de uma vitória esmagadora nas eleições de abril e maio passados, o primeiro-ministro nacionalista hindu Narendra Modi e o Partido Bharatiya Janata (BJP) decidiram levar adiante o antigo projeto de integrar totalmente a região da Caxemira na união federal da Índia.
Na segunda-feira, o governo indiano havia revogado a autonomia regional do estado de Jamu e Caxemira, sob protestos do vizinho Paquistão, que reivindica a soberania sobre a região, onde a maioria da população é muçulmana.
Desde a independência do Império Britânico e da divisão do país, Índia e Paquistão disputam a região da Caxemira, objeto de três guerras entre os inimigos históricos, em 1947, 1965 e 1999. Na separação, as regiões de maioria hindu formaram a Índia e as áreas de maioria muçulmana, o Paquistão.
Na Caxemira, apesar da maioria muçulmana, o último governador imperial, marajá Hari Singh, optou por aderir à Índia, gerando esta guerra sem fim entre dois vizinhos que hoje têm armas nucleares. O Paquistão cobra a realização de um plebiscito, mas a Índia não admite a possibilidade de ceder parte de seu território.
Antes do anúncio, Modi enviou 35 mil policiais militares a Jamu e Caxemira. Vários líderes políticos locais foram colocados em prisão domiciliar. Muita gente hoje na região defende a independência da Caxemira para sair do fogo cruzado deste conflito indo-paquistanês. A situação é tensa e o Paquistão vai reagir.
Desde 1989, uma facção do movimento muçulmano para tirar a Caxemira da Índia aderiu à luta armada. O poderoso Serviço de Inteligência das Forças Armadas do Paquistão arma vários grupos armados extremistas numa guerra indireta com a Índia.
Depois de uma vitória esmagadora nas eleições de abril e maio passados, o primeiro-ministro nacionalista hindu Narendra Modi e o Partido Bharatiya Janata (BJP) decidiram levar adiante o antigo projeto de integrar totalmente a região da Caxemira na união federal da Índia.
Na segunda-feira, o governo indiano havia revogado a autonomia regional do estado de Jamu e Caxemira, sob protestos do vizinho Paquistão, que reivindica a soberania sobre a região, onde a maioria da população é muçulmana.
Desde a independência do Império Britânico e da divisão do país, Índia e Paquistão disputam a região da Caxemira, objeto de três guerras entre os inimigos históricos, em 1947, 1965 e 1999. Na separação, as regiões de maioria hindu formaram a Índia e as áreas de maioria muçulmana, o Paquistão.
Na Caxemira, apesar da maioria muçulmana, o último governador imperial, marajá Hari Singh, optou por aderir à Índia, gerando esta guerra sem fim entre dois vizinhos que hoje têm armas nucleares. O Paquistão cobra a realização de um plebiscito, mas a Índia não admite a possibilidade de ceder parte de seu território.
Antes do anúncio, Modi enviou 35 mil policiais militares a Jamu e Caxemira. Vários líderes políticos locais foram colocados em prisão domiciliar. Muita gente hoje na região defende a independência da Caxemira para sair do fogo cruzado deste conflito indo-paquistanês. A situação é tensa e o Paquistão vai reagir.
Desde 1989, uma facção do movimento muçulmano para tirar a Caxemira da Índia aderiu à luta armada. O poderoso Serviço de Inteligência das Forças Armadas do Paquistão arma vários grupos armados extremistas numa guerra indireta com a Índia.
sábado, 3 de agosto de 2019
Índia envia 35 mil policiais militares para Jamu e Caxemira
O governo nacionalista hindu da Índia mandou 35 mil policiais militares para Jamu e Caxemira, o estado mais ao norte do país, onde desde 1989 há uma rebelião armada da maioria muçulmana, que gostaria de anexar a região ao Paquistão. O Ministério do Interior indiano descreveu o envio das forças como uma "operação normal".
Mesmo que a Índia declare que o movimento de tropas é uma "operação normal", o Paquistão, inimigo histórico, deve dar uma resposta aumentando seu contingente do outro lado da fronteira.
A Caxemira está no centro do conflito histórico entre a Índia e o Paquistão, que travaram três guerras desde a independência do Império Britânico, em 1947, duas em torno da Caxemira, em 1947 e 1962.
A guerra de 1971 levou à independência de Bangladesh, a República de Bengala, antes chamada de Paquistão Oriental, e ainda houve o conflito de Kargil, em 1999, que alguns consideram uma guerra, mas limitada àquela região.
Quando a Índia se dividiu, os estados de maioria muçulmana formaram o Paquistão e as regiões de maioria hindu formaram a Índia. Entre 10 a 12 milhões de pessoas foram desalojadas e se mudaram. Ao todo, estima-se que 2 milhões de pessoas tenham morrido na divisão da Índia.
Os dois inimigos históricos têm a bomba atômica. A Índia fez seu primeiro teste nuclear em 1974 e o Paquistão em 1975. Em maio de 1998, ambos assumiram o status de potência nuclear testando bombas e mísseis na corrida armamentista no Sul da Ásia.
Como uma guerra total hoje seria devastadora, a dissuasão nuclear evita uma escalada nos conflitos. A Índia reclama que o Paquistão apoia grupos extremistas muçulmanos que travam uma guerra indireta, especialmente na Caxemira, onde há uma insurgência muçulmana desde 1989. O Paquistão cobra a realização de um plebiscito sobre o futuro da região.
Ao receber o primeiro-ministro paquistanês, Imran Khan, na Casa Branca, o presidente Donald Trump ofereceu a mediação dos Estados Unidos para resolver o conflito. Como parte mais forte, a Índia se recusa a internacionalizar a questão. Só aceitar discutir bilateralmente com o Paquistão e rejeita qualquer possibilidade de ceder parte de seu território.
Em fevereiro deste ano, um atentado terrorista de um grupo baseado no Paquistão matou 40 policiais indianos em Pulwama, em Jamu e Caxemira. A poucos meses das eleições, o primeiro-ministro nacionalista hindu Narendra Modi ordenou um bombardeio aéreo, supostamente nos acampamentos da milícia Jaish-e-Mohamed, o Exército de Maomé, responsável pelo ataque.
O Paquistão retaliou, derrubou um avião indiano e capturou o piloto. Mas não passou disso. Logo o conflito foi desarmado. Mas a tensão entre os dois inimigos históricos armados com bombas atômicas é uma ameaça permanente.
Mesmo que a Índia declare que o movimento de tropas é uma "operação normal", o Paquistão, inimigo histórico, deve dar uma resposta aumentando seu contingente do outro lado da fronteira.
A Caxemira está no centro do conflito histórico entre a Índia e o Paquistão, que travaram três guerras desde a independência do Império Britânico, em 1947, duas em torno da Caxemira, em 1947 e 1962.
A guerra de 1971 levou à independência de Bangladesh, a República de Bengala, antes chamada de Paquistão Oriental, e ainda houve o conflito de Kargil, em 1999, que alguns consideram uma guerra, mas limitada àquela região.
Quando a Índia se dividiu, os estados de maioria muçulmana formaram o Paquistão e as regiões de maioria hindu formaram a Índia. Entre 10 a 12 milhões de pessoas foram desalojadas e se mudaram. Ao todo, estima-se que 2 milhões de pessoas tenham morrido na divisão da Índia.
Os dois inimigos históricos têm a bomba atômica. A Índia fez seu primeiro teste nuclear em 1974 e o Paquistão em 1975. Em maio de 1998, ambos assumiram o status de potência nuclear testando bombas e mísseis na corrida armamentista no Sul da Ásia.
Como uma guerra total hoje seria devastadora, a dissuasão nuclear evita uma escalada nos conflitos. A Índia reclama que o Paquistão apoia grupos extremistas muçulmanos que travam uma guerra indireta, especialmente na Caxemira, onde há uma insurgência muçulmana desde 1989. O Paquistão cobra a realização de um plebiscito sobre o futuro da região.
Ao receber o primeiro-ministro paquistanês, Imran Khan, na Casa Branca, o presidente Donald Trump ofereceu a mediação dos Estados Unidos para resolver o conflito. Como parte mais forte, a Índia se recusa a internacionalizar a questão. Só aceitar discutir bilateralmente com o Paquistão e rejeita qualquer possibilidade de ceder parte de seu território.
Em fevereiro deste ano, um atentado terrorista de um grupo baseado no Paquistão matou 40 policiais indianos em Pulwama, em Jamu e Caxemira. A poucos meses das eleições, o primeiro-ministro nacionalista hindu Narendra Modi ordenou um bombardeio aéreo, supostamente nos acampamentos da milícia Jaish-e-Mohamed, o Exército de Maomé, responsável pelo ataque.
O Paquistão retaliou, derrubou um avião indiano e capturou o piloto. Mas não passou disso. Logo o conflito foi desarmado. Mas a tensão entre os dois inimigos históricos armados com bombas atômicas é uma ameaça permanente.
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