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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Tunga considerava a política cultural uma farsa

Um dos artistas plásticos brasileiros mais bem-sucedidos internacionalmente, o pernambucano Antonio José Barros de Carvalho e Mello Mourão, mais conhecido como Tunga, morreu hoje aos 64 anos no Rio de Janeiro, onde morava. Seu trabalho tinha a marca do inusitado. Reproduzo aqui uma entrevista feita com Tunga em maio de 2006.

Para a pesquisadora Katia Canton, Tunga mescla vida e arte, e desfetichiza a obra de arte. Foi o que se viu na instalação Laminadas Almas, apresentada no Centro Tom Jobim, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, de 13 de maio a 3 de junho.

Tunga, que já expôs nos principais centros de arte de vanguarda do mundo – como o Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova Iorque; os museus do Louvre e o Jeu de Paume, em Paris; e a galeria Whitechapel, em Londres –, voltou ao Rio depois de 14 anos de sua última mostra importante na cidade.

A instalação espalhada em três salas tinha 400 mil moscas, 600 rãs, 2mil girinos, milhares de larvas e dois irmãos gêmeos posando como cientistas ao microscópio, grandes lâminas de vidros, luzes e tecidos imitando peles de ràs gigantes. Ficou ainda mais espetacular com a performance realizada pelos bailarinos da coreógrafa Lia Rodrigues, em 20 de maio. E a própria presença do público caminhando entre aquelas formas de vida lhe dava um caráter muito diferente do que se sentia ao visitar o local sem ninguém ao redor.

Nesta entrevista exclusiva, Tunga fala da obra, de sua decisão de optar pelo Jardim Botânico e critica a política cultural do país, que chamou de farsa, a censura e o dirigismo cultural, e a tentativa de forjar uma identidade cultural oficial.

JOBIM - Estou com o Tunga na instalação Almas Laminadas, no Jardim Botânico. Eu queria lhe perguntar inicialmente qual é a concepção deste trabalho, a vida, a metamorfose, o que você representa?

TUNGA - Antes de mais nada é Laminadas Almas, a ordem é inversa. É meio gótico, mas é assim.

A pergunta é um pouco vasta. Eu acho que se eu tivesse uma resposta imediata, espontânea, para ela, talvez eu não fizesse a obra desse jeito. Eu acho que o pensamento plástico é um pensamento dentro desse campo, dentro das artes plásticas, é um modo de pensar em si, e essa tradução que eu venha a fazer pode indicar algumas alusões, algumas referências à complexidade que aí se estabelece, não só visualmente mas através de outras manifestações que estão aí implícitas, como a própria existência desses animais, desses seres vivos, o som, o cheiro que você sente, as transparências, enfim, uma plêiade de recursos, de linguagens diversas
que se configuram nessa obra para tentar falar de alguma coisa.

Que coisa pode vir a ser essa coisa que está implícita? Toda vez que você inscreve uma obra em algum campo ela ressoa em vários territórios onde esse campo acolhe.

Eu acho que hoje o campo das artes plásticas é um campo de ressonância bastante intenso, bastante amplo e bastante generoso na medida em que a partir do século 20 ele começou a acolher de um modo generoso, conforme eu disse, manifestações das áreas mais diversas que se encontravam como que reduzidas a seu campo de ação, dada a natureza e o desejo de inscrição um pouco mais além daquilo que as instituições, o universo das instituições, considerando instituições como o lugar das coisas não só as relações da instituição com o Estado, o mercado. Passou a não acolher as manifestações dada uma certa radicalidade. E as artes plásticas pouco a pouco vão ocupando esse território de acolher essas outras manifestações tais e quais a dança, a música, a poesia etc. que, dado a fenômenos do mercado, fenômenos de Estados que não viabilizavam um tipo de investimento em certas direções, as artes plásticas generosamente acolheram isso. E essa complexidade veio a aumentar o trabalho das artes.

J - As artes plásticas hoje não têm aquele sentido de ficar somente observando uma pintura maravilhosa num museu, quer dizer, precisam de uma interatividade? Eu estava me lembrando da sua instalação no dia da abertura da exposição e depois quando teve a performance. Estava cheio de gente e então era outra coisa do que chegar aí e a sala estar completamente vazia, só com o som e os bichos.

T - Primeiro acho que ainda há lugar e sempre haverá lugar para uma pintura na parede. Eu não acho que um tipo de manifestação, um gênero, se é que a gente pode tentar inquirir que gênero é esse vá substituir outro nesse campo. Eu acho exatamente que a fertilidade das artes plásticas é o fato delas assumirem a diversidade de manifestações desse mesmo campo. Então esse campo se ampliou nessa medida. Pode ser tanto no espaço pictórico, com as suas convenções, quanto um pensamento que expande esse campo além do visual. É óbvio e é notório que a uma pintura se imprime o olhar do observador.

Quer dizer, não há esse território límpido, neutro e natural onde a pintura exista sem um olhar impregnado de uma cultura que se manifesta sobre ele. E acredito ainda que esses olhares se inscrevam nessas pinturas. Mesmo sendo apenas pinturas sobre telas, considerando essa superfície plana etc. e etc. com toda a intensidade dos princípios pictóricos.

Isso de um olhar se imprimir, se expressar e se tornar presente em uma obra pictórica, imagine-se numa obra escultórica ou numa obra que vá mais além disso.

Já não é só mais o olhar que se expressa, que se imprime, que se impregna nessa obra, mas todo o testemunho, uma vivência, uma experiência no sentido da palavra que transforma essa obra assim como essa obra transforma essa experiência, essa vivência desse sujeito que ali está presente. Ou seja, há que se contar, eu conto, nesse gênero de coisa que eu faço (a pensar que gênero será esse) que a presença do observador, a experiência do sujeito que ali passa mais ou menos aculturado, ou mais ou menos intencional na sua passagem faz parte dessa obra, se constitui com essa obra.

Essa obra não é só os seus elementos e a disposição dos seus elementos na heterogeneidade das linguagens ali abordadas mas também a lembrança, a memória, a perseverança, o testemunho daqueles que a viram.

J – É uma obra de arte para ser apreciada com todos os sentidos...

T - Não poderia te dizer todos os sentidos... Nos sentidos convencionais...

J – Com o corpo inteiro...

T - Ser testemunhada. Acho que a noção de testemunho...

J - Tem som, além de todo o aspecto visual, tem a ideia de que você caminha ali no meio de uma forma participativa, havia crianças brincando e pulando ali...

T - Tudo isso eu acho bastante excitante. Mas é preciso não esquecer que não há grande novidade nisso. Se a gente pensar, Píndaro, o poeta grego, não só dizia aqueles poemas quase que incompreensíveis e enigmáticos até hoje, mas ele os dizia improvisando, dançando, cantando, tocando a lira e ébrio. Quer dizer, isso não é novo no Ocidente, não. É apenas retomar uma complexidade que sempre existiu e que passou por um momento histórico onde houve a necessidade de idealização dessa complexidade, de simplificação...

J - E aquela performance dos bailarinos, o pessoal nu. O nu ainda é transgressor?

T - Não, de jeito nenhum. O nu nunca foi transgressor. Eu acho que essa nudez aí é apenas um signo  de uma postura talvez limpa, ideal com outro corpo. Essa obra fala do corpo  e a presença dessa nudez denota um tipo de corpo, um tipo de atitude, a ser assumida pelo olhar da obra, pela presença da obra.

Eu acho que, a rigor, todos nós ficamos nus frente a alguma coisa que nos deixa perplexos. É dessa nudez que se estava sendo explícita ali e talvez também desse contato com o corpo mais direto, essa
experiência tátil que o corpo nu imprime à diferença de um corpo vestido.

Mas, curiosamente, trata-se exatamente em um dos temas presentes... É essa mudança de pele, essa reencarnação, essa superfície a que se pode atribuir uma transformação do sujeito, a superfície da pele, que pode ser uma roupa, que pode ser a pele, que pode ser a própria pele fantasmática aqui presente como essas peles de rãs aumentadas. Rãs gigantes.

Quer dizer, eu acho que essa pele dessa nudez falou diretamente a que a viu de um modo diferente da nudez que a gente tá habituado nos outdoors da vida, nas Playboys da vida, né? Eu acho que é outro tipo de nudez. Não é uma nudez cujo erotismo seja codificado. Não é uma nudez casta tampouco. Enfim, é uma nudez bastante peculiar, particular e que se constrói, se constitui junto com a obra.

Quer dizer, você observando a presença desses bailarinos nessa primeira sala, o corpo deles, cada um
deles era como se fosse uma das partes de cada um desses elementos que constituem uma das peças. Então, eles ali estavam se integrando a essas peças, o corpo dele se integrava nas peças para formar um terceiro corpo, que era o corpo constituído do corpo deles, desse corpo aí presente, e o terceiro era essa mistura dessas coisas. Era um metamorfose nova, um novo sujeito,um novo, um nova espécie ali colocada.

J - Agora você tinha as moscas, os girinos, as rãs. Tem essa idéia da cadeia alimentar. Até alguém falou que iria fazer um jantar de rãs depois. Para os homens comerem as rãs e fecharem o ciclo.

T - (Riso) Espero que o tempero não seja mosca...

Há uma intenção no uso dessas duas espécies, pelo fato de ter uma cadeia alimentar, de ter uma pulsão, um impulso animal de um em direção ao outro. Já a fase de metamorfose realizada nos dois, quer dizer, a rigor a rã não comia a mosca, sequer, ela comia a larva da mosca. Quer dizer, existia a larva e o girino, a mosca e a rã. Mas enfim, o negócio da fantasia infantil e no conhecimento geral parece que o antagonista da mosca é a rã.

Então acho que é essa coisa polar, essa estrutura espectral que está aqui presente, mais patológica na medida em que um dos lados que se expele é complementar ao outro, diz mais alguma coisa dessa estrutura. O fato de haver uma simetria, haver uma dupla simetria, e nessa simetria um dos lados não simétrico mas é complementar ao outro, acho que diz respeito a gente, diz respeito a essa obra.

N - Por que aqui no Jardim Botânico? Tem a ver com a natureza? Ou é um espaço alternativo?

T - Para a natureza, é melhor a gente ler Virgílio, antes de qualquer coisa. A minha noção de natureza não é tão simplória de achar que a natureza no Jardim Botânico é tudo menos natureza. Quer dizer, há de ser uma natureza mas quando você olhar há uma árvore, uma planta, um inseto. Mas evidentemente é uma construção um jardim botânico, uma coisa cultural, uma construção marcada com todos os signos de uma cultura, de uma sociedade. E é lógico que essa inscrição leva em conta
isso.

Assim como o museu tem todo um conjunto de signos da sociedade, o Jardim Botânico também os tem acho que são várias...

Essa atitude, essa escolha, essa opção, carrega vários sentidos, várias significações.

Por um lado há - óbvio - um desconforto em relação ao campo das  instituições culturais voltadas  àquilo que tradicionalmente a gente chama cultura em artes plásticas. Estão os museus em geral.

Há uma atitude clara em relação aos museus e às instituições que tenderiam a abrigar esse tipo de
trabalho. Não porque haja uma incompatibilidade de qualquer natureza dessa obra com o museu, mas talvez mais por uma questão da gestão, da política cultural que tem se exercido no Brasil ultimamente.

Eu acho que há uma certa... um certo desejo de mostrar a coisa de um jeito diferente, mostrar essa obra de um jeito diferente. É evidente que eu não acredito que uma inscrição seja uma crítica negativa.

Acho que era necessário agregar a esse desejo de não estar presente no museu aqui no Brasil a uma outra postura positiva que era a de aproximar essa obra a essa situação que é a de um jardim botânico, que é um lugar de cultura, que é uma construção cultural mas que leva para um lado diverso e que, pelo que eu sei, me parece  uma instituição exemplar aqui no Rio de
Janeiro. Se não é exemplar, se eu estiver equivocado por desinformação, pelo menos no meu imaginário e na minha trajetória, na minha existência, tem sido um lugar de grande grande importância. O Jardim Botânico... Então eu acho que tem um lado até afetivo se você quiser considerar .

J - Você se manifestou, a classe artística em geral se manifestou contra a censura do  quadro da Márcia X, no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB).

T - Veja bem, eu acho que isso é uma pontinha de um iceberg bem maior do que isso. Eu  acho que há uma gestão de cultura intencional no Brasil. Não à toa que os órgãos do governo que não estão ligados ao Ministério da Cultura exercem um papel cultural no Brasil de extrema força, com extrema violência com determinação oculta, mas muito clara.

Você olha tanto no CCBB ou os patrocínios dados pela Finep ou a política cultural da Petrobrás há uma opção clara e um perfil cutural claro nisso. Então é uma farsa,  há ali funcionários públicos atrás do Banco do Brasil, de carreira, que vão escolher os artistas. Há toda uma complexidade, há um sistema complexo, um cultura brasileira muito bem subvencionada, muito bem paga com valores fora dos valores do mercado. Há um dirigismo cultural nisso e isso é gravíssimo porque em vez disso ser explícito que é a política cultural, aparece de um modo escamoteado.

J - Que perfil é esse de que você fala?

T - Veja o currículo dessas instituições  e veja o que nos representa tanto nacional como internacionalmente pelo que recebe patrocínio, subsídios vindos da isenção fiscal, vindo de leis que são nosso dinheiro...

J - É tudo renúncia fiscal...

T - Essa lei de renúncia fiscal, não estou só falando da lei, precisamente. Estou falando de como essa lei é utilizada por estes centros culturais dessas companhias que se têm, enfim, como a Petrobrás, que
tem um lado do Estado e um lado de empresa...

N - ...privada, o que a torna de economia mista.

T - Economia mista, exato. Quer dizer, eu acho que essas empresas que são de economia mista, que têm esse pé no Estado, e que são geridas, funcionam com isenção fiscal, têm uma responsabilidade cultural que não é só fazer o bem ou fazer publicidade ou dizer como nós somos bonitos.

Eles estão traçando milionariamente o perfil da cultura brasileira. E ninguém é capaz de mostrar isso e dizer isso claramente. Isso termina nos dando um confronto com o mercado espontâneo muito curioso. Eu acho que é isso é que se deveria ver. Quando há uma coisa arbitrária como uma censura exercida...

Não é a primeira vez que isso acontece no Banco do Brasil. Aconteceu no Museu de Arte Moderna. Deve acontecer freqüentemente nas escolhas que essas instituições  fazem. É evidente que eles escolhem aquilo que os apraz e aquilo que os apraz tem um perfil ideológico, privado, do cidadão que está ali por trás.

Quero que seja claro, quero que seja dito, porque eu quero ver com quem estou lidando, com quem estou mexendo. Sou um agente cultural, sou um poeta antes de mais nada. Mas como poeta me inscrevo como tal nessa sociedade.

Então quero saber que lugar é esse e isso nunca é dito. Isso é apresentado anualmente,  esse ano vamos fazer tal qual e tal. Eu não nego a qualidade de muitas dessas coisas que são apresentadas. O que nego é a ausência total de uma responsabilidade cultural. Um museu é um lugar que deve ter e pede-se dele uma responsabilidade cultural.

O papel do museu é sedimentar, sedimentar as referências, os paradigmas, que são aqueles onde se
deve espelhar, se deve pensar a cultura que está construindo.

Qual é o papel de um centro cultural? O centro cultural, o papel dele é fazer agir as obras, as
manifestações de uma cultura  presente, uma cultura que se faz a cada dia.

Ou seja, nem um nem outro estão funcionando como tal. Há uma anomalia, uma anomalia que me parece grave devido ao fato disso não ser claro, devido ao fato disso ser feito como laissez-faire e todos os artistas em geral, a classe em geral  está muito feliz por poder ter acesso ao catálogo de uma exposição de um ou outro artista. Não quero um catálogo, não quero uma exposição. Eu quero um perfil cultural. Eu quero um programa para transformar essa sociedade. Um programa
cultural explícito.

J - Quer dizer que os órgãos oficiais, as instituições, não estão dando a liberdade que você
gostaria para os artistas fazerem, produzirem a identidade cultural brasileira, que é uma coisa tão
importante?

T - Eu não acho que eles estejam dando ou não. Eu quero saber ao que eles vieram. Vieram para justificar a isenção fiscal? Vieram para trazer pão e circo? Vieram para trazer uma audiência pública? Vieram para fazer publicidade de seus eventos? Vieram para ser bonzinhos ou vieram com propósitos de melhorar a sociedade? Melhorar a vida das pessoas naquilo que diz
respeito a uma cultura?

Depois a questão da identidade cultural não parece um questão tão simples também. Eu acho que o Brasil deveria procurar mais a obra dos seus artistas, poetas, músicos aquilo que falam da identidade
cultural do que tentar essa formulação de um projeto de identidade cultural.

Identidade cultural é um problema que me parece bastante europeu, quer dizer, eu vejo na modernidade o enunciado da vontade da dissolução da identidade. E isso é um enunciado que funda o Estado moderno e que dá cultura. Isso sempre foi muito claro para aqueles que fundaram a coisa moderna.

Curiosamente o Brasil pode levar a diante por condições adversas que são de flutuação da identidade
que bastante me interessa, que bastante foi refletida na obra de grandes autores como Oswald de Andrade, como Flávio de Carvalho, como Hélio Oiticica etc.

Eu acho que caberia uma reflexão maior do que é essa identidade, o que é a vontade de identidade, para não se cair num nacionalismo que, em geral, essa questão da identidade nos leva e que parece uma posição bastante retrógrada.

J - Na era da globalização, como há uma pressão enorme para homogeneizar diversos processos, o que diferencia um país do outro é a sua cultura, a diferença é a identidade cultural de um povo?

T - O que me interessa mais, nesse caso, é  a dinâmica cultural. No Brasil se anunciou claramente a
capacidade de ingestão da cultura do outro e eu acho que essa reflexão nos leva, no momento atual, a
compreender que talvez a identidade brasileira seja a identidade da própria transformação contínua da
identidade. E isso me parece ser muito mais um quadro progressista em relação a essa nossa noção de
identidade, atual, do que a busca das diferenças.

Talvez seja a busca da dinâmica das possíveis diferenças e não da diferenças em si. Você se transformar a cada dia, você diz: você é igual a quem? É idêntico a quem?

Você é idêntico à própria dinâmica da transformação. Eu acho que esta é uma questão brasileira. Eu acho que esta é uma questão sugerida no manifesto do Oswald, é uma questão pensada claramente na obra do Hélio, eu acho que essa é uma questão que nos cabe.

Então a gente vai procurar se identificar como sendo o povo do futebol e do samba? É um equívoco. O povo da dinâmica da transformação de uma estrutura musical como o samba em outra coisa que não o samba, já é outro samba mais complexo etc. etc. O que eu acho que é preciso pensar é na estrutura que nos permite ser  idênticos e diferentes de si mesmos. Quer dizer, é um mutação contínua.

J - Agora, nessa questão do quadro da Márcia X há também intolerância religiosa. Depois o pessoal
espalhou os cartazes pela cidade, o prefeito César Maia mandou recolher. Obviamente o prefeito mandou recolher num gesto demagógico para agradar às igrejas.

T - Não vejo tanto a questão das igrejas. O que me interessa ali é o instrumento da pressão que foi
exercida. Pelo que eu sei do jornal, daquilo que foi dito, é que correntistas de um banco público-privado iriam tirar as suas contas caso aquela obra estivesse ali. Então é preciso ficar atento à letra das coisas. É um volume de dinheiro depositado que iria sair se caso aquela imagem continuasse ali. Ponto. Essa é a pressão que foi exercida.

J - É uma pressão econômica, mas é uma forma de censura e, segundo consta, eram pessoas ligadas a uma seita dessas da Igreja Católica mais conservadora, a Opus Dei.

T - Poderia ser qualquer grupo. Qualquer grupo de depositantes poderia exercer isso. O que me interessa é a dinâmica disso. Não é essa identidade de um ou outro ser muçulmano, cristão ou judeu. O que me interessa foi o exercício da pressão que foi feita a partir de um volume de dinheiro de correntistas.

Então é preciso saber que os correntistas têm o poder de interferência na direção do banco que tem o poder de ingerência sobre aquilo que eles pretendem autônomo do banco. Até na isenção fiscal eles têm uma autonomia do banco que é o centro cultural. Ou seja, o centro cultural, ficou claro que o centro cultural dependia diretamente da ordem do presidente do banco, da diretoria do banco que sofreria pressão direta desses acionistas, ou seus correntistas, sequer acionistas.

Quer dizer, a rigor, o Banco do Brasil pode muito bem ser dirigido pelos acionistas do Banco do Brasil. E eles vão dizer o perfil cultural que nós vamos passar a viver. Porque a visitação é imensa, os fundos são imensos, os recursos que eles têm são enormes. E eles estão sendo usados dessa jeito. Pela vontade, pelo desejo de algumas pessoas. Quer dizer, um desvio perverso da finalidade e da vocação dessa instituição, nesse caso.

J - Falei em intolerância religiosa. Não citei muçulmanos, cristãos. Porque há uma radicalização, nem
tanto aqui no Brasil.

T - O grave não é que esse ou aquele grupinho. No caso da retirada de uma obra do artista Nelson Leirner do Museu de Arte Moderna, foi um juiz, Siro Darlan. Resolveu que a presença do falus desenhado sobre a imagem de um bebê era atentatório aos menores. Aquilo poderia desviar a formação dos menores que tanto visitam o Museu de Arte Moderna. E a obra foi tirada,
independente dos seus curadores ou diretores do museu. Por ordem judicial. Há uma lei que permite isso. Eu acho que há buracos que a gente pode observar e alguns desses buracos podem se tornar mais ou menos graves.

J - Uma última pergunta: a questão da crítica. Ferreira Gullar andou criticando seu trabalho. Você
perguntou: Ferreira quem? Como é a relação do artista com o crítico? Não interessa a opinião deles para o seu trabalho criativo?

T- Veja bem, eu acho que há um equívoco aí. Eu não vi nenhuma crítica do Ferreira Gullar ao meu trabalho. Eu vi uma crítica do Ferreira Gullar ao meu nome. Só. Ele se referiu ao meu nome, não se referiu ao meutrabalho. Então não posso dizer nada sobre essa... Aliás, Ferreira quem? Mais uma vez. Eu vou lhe dizer a nota que foi mandada ao jornal e que não foi publicada.

Eu não me defendo porque não foi feita crítica nenhuma. Agora eu estive no MoMA (Museum of Modern Art), de Nova Iorque; no Museu do Louvre e no Jeu de Paume, em Paris, na Whitechapel, de Londres; na Kuntzhalle, em Berlim; nos maiores museus do mundo e nunca ouvi falar
nesse cidadão...

Todos expuseram minha obra e sabem quem eu sou. Eu acho que esses são os lugares onde se faz arte contemporânea, talvez não na Casa do Saber. Eu acho que eu estou nesses lugares; ele, não.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Museu Picasso é reaberto em Paris após reforma

Depois de cinco anos em obras, o Museu Picasso de Paris foi reaberto no bairro do Marais com o
dobro do espaço e uma nova disposição de seu acervo de 4.755 obras do espanhol Pablo Picasso, considerado o maior artista plástico do século 20.

O espaço aberto ao público passou de 2,3 mil para 5 mil metros quadrados. Durante este período de festas de Natal e Ano Novo, o Museu Picasso funciona das 9h30 às 18 horas, o horário de sábados, domingos e feriados. No resto do ano, nos dias úteis, está aberto de 11h30 às 18h. Fica fechado nas segundas-feiras, em 25 de dezembro e 1º de janeiro.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Violência do desejo do Marquês de Sade impactou a arte

Donatien Alphonse François de Sade (1740-1814) foi um revolucionário profano que abalou não só a literatura como outras artes, inicialmente de maneira clandestina, até se tornar um mito, influenciando escritores e artistas plásticos muito além do seu tempo. Até 25 de janeiro de 2015, o Museu d'Orsay, em Paris, apresenta uma amostra desse impacto do Marquês de Sade, o Divino Marquês.

Sade costumava levar suas ideias às últimas consequências. Estava preso na Bastilha quando a prisão foi atacada, em 14 de julho de 1789, no início da Revolução Francesa.

Sua obra, que inclui títulos como A Filosofia na Alcova ou a Escola da Libertinagem, sensibilizou não só escritores como Gustave Flaubert, Charles Baudelaire e Guillaume Apollinaire, mas também artistas plásticos como Francisco Goya, Edgar Degas, Eugène Delacroix, Auguste Rodin, Paul Cézanne e Pablo Picasso.

Sob a curadoria de Annie le Brun, a exposição reflete a revolução deflagrada pela publicação e representação de seus textos. Sade abandona todas as normas e pressupostos filosóficos, religiosos, ideológicos morais e sociais.

As obras escolhidas retratam a ferocidade do desejo, o extremo, o radical, o bizarro e o monstruoso, o desejo sem censuras, freios e limites, o excesso em busca de uma plenitude inatingível pelo caminho da violência.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Desenhos da França do século 18 a mostra em Paris

Le Brun
Mais de cem trabalhos de 40 artistas da coleção de estampas da Biblioteca Nacional da França estão na mostra Desenhos da França no século 17, em exposição em Paris até 15 de junho de 2014.

Para celebrar a divulgação via Internet de 580 obras consideradas clássicas, a BNF decidiu fazer a exposição, aberta em 18 de março. Em destaque, artistas como Charles Le Brun, Jacques Callot, Martin Fréminet, Robert Nanteuill e Simon Vouet.

A coleção, inicialmente feita por Michel de Maroles, foi comprada pelo rei da França em 1667. A ela se somaram depois coleções da Biblioteca Santa Genoveva e da Biblioteca do Arsenal.

Os temas são os mais variados reflexos daquela época: projetos arquitetônicos, entradas triunfais, funerais, ilustrações de almanaques, imagens satíricas e pessoas importantes.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Cézanne é destaque de exposição em Oxford

Monte Santa Vitória, de Cézanne (1902)
De 13 de março a 22 de junho de 2014, o Museu Ashmolean, o Museu de Arte e Antropologia da Universidade de Oxford, na Inglaterra, apresenta Cézanne e o Moderno - obras-primas da arte europeia da Coleção Pearlman.

Além de Cézanne, a mostra reúne trabalhos do impressionismo e do pós-impressionismo, de Vincent van Gogh, Paul Gauguin, Henri de Toulouse-Lautrec, Edgar Degas, Edouard Manet e Amedeo Modigliani da coleção formada por Henry e Rose Pearlman depois da Segunda Guerra Mundial. Uma das coleções mais importantes dos Estados Unidos, é apresentada na Europa pela primeira.

A exposição é organizada pelo Museu de Arte da Universidade de Princeton, nos EUA, em parceria com a Fundação Henry e Rosa Pearlman, com sede em Nova York.

terça-feira, 5 de março de 2013

Romantismo sombrio de Goya a Max Ernst

Uma exposição para explorar o lado sombrio da Época das Luzes, O Anjo do Bizarro: o romantismo sombrio de Goya a Max Ernst, foi inaugurada hoje no Museu d'Orsay, um dos mais importantes e talvez o mais charmoso de Paris. Vai até 9 de junho.

O conceito de romantismo sombrio foi criado nos anos 1930 pelo historiador, escritor e crítico de arte italiano Mario Praz para descrever a criação artística que, a partir dos anos 1760-1770, explora os aspectos sombrios, os excessos e a irracionalidade dissimulada por trás do aparente triunfo do racionalismo na chamada Era do Iluminismo.

Esse universo foi construído a partir do fim do século 18, na Inglaterra, com os romances góticos, que seduziam o leitor com o mistério e o macabro, tendência que logo chegou às artes plásticas, inspirando artistas como Goya, Füssli e Engène Delacroix. Eles deram corpo aos fantasmas, demônios e feiticeiros de autores como John Milton, William Shakespeare e Wolfgang Goethe.

A exposição, apresentada inicialmente no Museu Städel, de Frankfurt, na Alemanha, chega a Paris com 200 obras de Goya a Max Ernest. Inclui pinturas, desenhos, esculturas e filmes expressionistas dos anos 1920.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Ai Weiwei é condenado por sonegação de impostos

LONDRES - Em mais um julgamento no pior estilo do regime comunista da China, o artista plástico mais famoso do país, Ai Weiwei, foi condenado em segunda instância a pagar uma multa US$ 2,4 milhões em impostos.

Ai foi preso em abril do ano passado no aeroporto de Beijim, quando tentava sair da China. Depois de quase três meses, foi solto e denunciado por crimes fiscais. Mas seu processo mais parece uma farsa típica de ditaduras interessadas em reprimir a liberdade de pensamento e de expressão.

Ele já conseguiu levantar cerca da metade do valor em doações. O objetivo do governo é aparentemente calar um dos artistas mais criativos e lúcidos da China. Leia mais no jornal The New York Times.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Eletricista tinha 271 picassos na garagem

Uma coleção desconhecida de obras de Pablo Picasso, o maior artista plástico do século 20, acaba de ser descoberta na garagem do eletricista aposentado Pierre le Guennec, em Mouans-Sartoux, na França.

Como se fosse normal, ele declarou que as obras do grande mestre espanhol estavam na garagem de sua casa desde os anos 70.

São aquarelas, esboços, ilustrações e colagens cubistas feitas entre 1900 e 1932. Quando Pierrre e sua mulher levaram as obras para autenticação pelos administradores do patrimônio do pintor e por Claude Picasso, um dos filhos de Picasso, eles entraram com uma ação em nome dos herdeiros por apropriação ilegal.

Pierre afirma que recebeu os trabalhos de presente da mulher de Picasso quando trabalhou para a família, nos anos 70. Mas quem conhece o pintor não acredita que ele se desfizesse facilmente de tantas peças de sua obra.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Quadro de Picasso vale US$ 106,5 bilhões

O quadro Nu, Folhas Verdes e Busto, do pintor espanhol Pablo Picasso, foi vendido ontem pela casa de leilões Christie's em Nova York por US$ 106,5 bilhões, um novo recorde para o mercado de artes plásticas, informou o jornal The New York Times.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Dois quadros de Picasso são roubados em Paris

Dois quadros do espanhol Pablo Picasso, considerado o maior pintor do século 20, foram roubados do apartamento de uma de suas netas, Diana Widmaier-Picasso, no elegante 7º distrito de Paris.

As obras, avaliadas em US$ 66 milhões ((R$ 140 milhões), são: Maya com a Boneca, uma tela de 60x40 centímetros de sua filha com Marie-Therese Walter, Maya Widmaier, pintada em 1938; e Retrato de Uma Mulher, Jacqueline, uma pintura a óleo de 170x150 cm da segunda mulher de Picasso.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Ernesto Neto ocupa o Panthéon em Paris


Foto de Rebecca Lockwood 
PARIS - Ernesto Neto está no alto do Panthéon.

Com ares de anjo barroco, do alto de uma série de escadas montadas sobre uma estrutura metálica, Ernesto Sabóia de Albuquerque Neto, um dos artistas plásticos brasileiros de maior sucesso no exterior, orienta alpinistas e outros trabalhadores que o ajudam a montar sua mais recente obra: "Isto aqui está errado. Tem de passar pelo outro lado", dizia ele, três dias antes do vernissage, nesta sexta-feira.

Léviathan Thot é uma instalação monumental que ocupa a necrópole republicana da França, a “homenagem da pátria agradecida a seus heróis”. A exposição será inagurada hoje, dentro do Festival de Outono de Paris, e vai até 31 de dezembro.

É uma obra ciclópica feita em tecido, areia e bolinhas de isopor, com grandes sacos que pendem da cúpula do Panthéon. Parece um grande etcoplasma, uma forma primitiva de vida como as dos filmes de ficção científica que se expande entre aquelas paredes frias. Ali estão, entre outros, os restos mortais de Jean-Paul Marat, um dos líderes que a Revolução Francesa engoliu, dos filósofos Jean-Baptiste Voltaire e Jean-Jacques Rousseau, que inspiraram a revolução, do escritor Victor Hugo, e dos químicos Pierre e Marie Curie, que descobriram a radioatividade e também foram mortos por ela.

No meio, o Pêndulo Foucault nos lembra que a Terra gira e da importância da ciência na era da modernidade, cujo marco inicial foi a Revolução Francesa de 1789.

Leviatã vem do hebraico para "animal que se enrosca". Na mitologia fenícia, é o nome de um monstro do caos e assim é tratado na Bíblia. Para o filósofo político inglês do século 17 Thomas Hobbes, um dos principais ideólogos do realismo e do conservadorismo político, autor de uma obra clássica com este nome, é o Estado todo-poderoso, na sua opinião necessário para conter a agressividade humana.

Sem um leviatã, dizia Hobbes, que escreveu sob o impacto da Guerra Civil Inglesa (1630-1688), o mundo degeneraria numa guerra de todos contra todos onde "a vida seria detestável, brutal e curta".

Para amenizar o peso do Estado-leviatã criado pela Revolução Francesa, que introduziu o conceito de terrorismo político, Neto acrescentou Thot, o deus egípcio da sabedoria, da escrita, do tempo e da magia, representado por um homem com a cabeça do pássaro Íbis. O Tarô é o livro de Thot. Para o artista, Thot dá uma sonoridade ao nome de sua obra.

De uma certa forma, Neto humanizou e pós-modernizou o Pantheón, uma estrutura neoclássica pesada, trazendo-o para o século 21. Sua obra é orgânica. Dá vontade de entrar dentro, de se aconchegar e relaxar, exatamente o contrário do que sugere a dureza do Panthéon como um grande mausoléu coletivo.

"Arrebentou", comentou Tunga, outro artista plástico brasileiro de enorme prestígio internacional, na entrada do Panthéon. "Conseguiu fazer um constraste entre a dureza da arquitetura e a leveza da peça."

Sem dúvida, é um desafio, um gesto de enorme coragem e ousadia criar uma instalação neste grande prédio monumental com uma carga histórica tão pesada, como o próprio artista reconheceu em entrevista ao jornal francês Le Monde: “É de um gigantismo, de uma brutalidade, com todas estas pinturas e toda esta História”.

Quando descobriu o Panthéon, Neto lamentou não ter feito sua instalação na Igreja Salpêtrière, onde estava previsto inicialmente. Mas houve um problema com os padres. “Adoro aquela capela. Ela é linda e feminina, e evoca o nascimento da psiquiatria”, disse Neto ao Monde.

Depois de estudar a História do Panthéon, entendeu que de certa forma ele nos ensina como o mundo chegou ao que é hoje, “um monumento à mudança política, à transição da monarquia para a república”.

Sua obra se imiscui, por exemplo, com uma estátua em homenagem à Convenção, à segunda fase da Revolução Francesa (1792-95), o período do terror e da guilhotina, do terrorismo do Estado querendo purgar os males da sociedade. Aos pés de Marianne, a mulher que simboliza a revolução, os nobres com suas perucas brancas pedem clemência à direita, enquanto os revolucionários avançam à esquerda. A inscrição diz: “Viver livre ou morrer”.

Na opinião de Neto, o mundo vive hoje um momento igualmente violento, a era da globalização, em que os representantes eleitos pelo povo, uma conquista das revoluções francesa e americana, são impotentes diante do capital que se move na velocidade da luz. Ele espera que sua obra provoque uma reflexão sobre “que mundo queremos para o futuro”.

Os fantasmas do Panthéon devem estar adorando.

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Tunga: a política cultural é uma farsa

Um dos artistas brasileiros mais bem-sucedidos internacionalmente, o pernambucano Antônio José Barros de Carvalho e Mello Mourão, mais conhecido como Tunga, faz um trabalho com a marca do inusitado. Para a pesquisadora Katia Canton, Tunga mescla vida e arte, e desfetichiza a obra de arte. Foi o que se viu na instalação Laminadas Almas, apresentada no Centro Tom Jobim, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, de 13 de maio a 3 de junho de 2006.

Tunga, que já expôs nos principais centros de arte de vanguarda do mundo – como o Museu de Arte Moderna (moma) de Nova Iorque; os museus do Louvre e o Jeu de Paume, em Paris; e a galeria Whitechapel, em Londres –, voltou ao Rio depois de 14 anos de sua última mostra importante na cidade.

A instalação espalhada em três salas tinha 400 mil moscas, 600 rãs, 2mil girinos, milhares de larvas e dois irmãos gêmeos posando como cientistas ao microscópio, grandes lâminas de vidros, luzes e tecidos imitando peles de ràs gigantes. Ficou ainda mais espetacular com a performance realizada pelos bailarinos da coreógrafa Lia Rodrigues, em 20 de maio. E a própria presença do público caminhando entre aquelas formas de vida lhe dava um caráter muito diferente do que se sentia ao visitar o local sem ninguém ao redor.

Nesta entrevista exclusiva, Tunga fala da obra, de sua decisão de optar pelo Jardim Botânico e critica a política cultural do país, que chamou de farsa, a censura e o dirigismo cultural, e a tentativa de forjar uma identidade cultural oficial.

JOBIM - Estou com o Tunga na instalação Almas Laminadas, no Jardim Botânico. Eu queria lhe perguntar inicialmente qual é a concepção deste trabalho, a vida, a metamorfose, o que você representa?

TUNGA - Antes de mais nada é Laminadas Almas, a ordem é inversa. É meio gótico, mas é assim.

A pergunta é um pouco vasta. Eu acho que se eu tivesse uma resposta imediata, espontânea, para ela, talvez eu não fizesse a obra desse jeito. Eu acho que o pensamento plástico é um pensamento dentro desse campo, dentro das artes plásticas, é um modo de pensar em si, e essa tradução que eu venha a fazer pode indicar algumas alusões, algumas referências à complexidade que aí se estabelece, não só visualmente mas através de outras manifestações que estão aí implícitas, como a própria existência desses animais, desses seres vivos, o som, o cheiro que você sente, as transparências, enfim, uma plêiade de recursos, de linguagens diversas
que se configuram nessa obra para tentar falar de alguma coisa.

Que coisa pode vir a ser essa coisa que está implícita? Toda vez que você inscreve uma obra em algum campo ela ressoa em vários territórios onde esse campo acolhe. Eu acho que hoje o campo das artes plásticas é um campo de ressonância bastante intenso, bastante amplo e bastante generoso na medida em que a partir do séçulo 20 ele começou a acolher de um modo generoso, conforme eu disse, manifestações das áreas mais diversas que se encontravam como que reduzidas a seu campo de ação, dada a natureza e o desejo de inscrição um pouco mais além daquilo que as instituições, o universo das instituições, considerando instituições como o lugar das coisas não só as relações da instituição com o Estado, o mercado. Passou a não acolher as manifestações dada uma certa radicalidade. E as artes plásticas pouco a pouco vão ocupando esse território de acolher essas outras manifestações tais e quais a dança, a música, a poesia etc. que, dado a fenômenos do mercado, fenômenos de Estados que não viabilizavam um tipo de investimento em certas direções, as artes plásticas generosamente acolheram isso. E essa complexidade veio a aumentar o trabalho das artes.

J - As artes plásticas hoje não têm aquele sentido de ficar somente observando uma pintura maravilhosa num museu, quer dizer, precisam de uma interatividade? Eu estava me lembrando da sua instalação no dia da abertura da exposição e depois quando teve a performance. Estava cheio de gente e então era outra coisa do que chegar aí e a sala estar completamente vazia, só com o som e os bichos.

T - Primeiro acho que ainda há lugar e sempre haverá lugar para uma pintura na parede. Eu não acho que um tipo de manifestação, um gênero, se é que a gente pode tentar inquirir que gênero é esse vá substituir outro nesse campo. Eu acho exatamente que a fertilidade das artes plásticas é o fato delas assumirem a diversidade de manifestações desse mesmo campo. Então esse campo se ampliou nessa medida. Pode ser tanto no espaço pictórico, com as suas convenções, quanto um pensamento que expande esse campo além do visual. É óbvio e é notório que a uma pintura se imprime o olhar do observador.

Quer dizer, não há esse território límpido, neutro e natural onde a pintura exista sem um olhar impregnado de uma cultura que se manifesta sobre ele. E acredito ainda que esses olhares se inscrevam nessas pinturas. Mesmo sendo apenas pinturas sobre telas, considerando essa superfície plana etc e etc com toda a intensidade dos princípios pictóricos.

Isso de um olhar se imprimir, se expressar e se tornar presente em uma obra pictórica, imagine-se numa obra escultórica ou numa obra que vá mais além disso.

Já não é só mais o olhar que se expressa, que se imprime, que se impregna nessa obra, mas todo o testemunho, uma vivência, uma experiência no sentido da palavra que transforma essa obra assim como essa obra transforma essa experiência, essa vivência desse sujeito que ali está presente. Ou seja, há que se contar, eu conto, nesse gênero de coisa que eu faço (a pensar que gênero será esse) que a presença do observador, a experiência do sujeito que ali passa mais ou menos aculturado, ou mais ou menos intencional na sua passagem faz parte dessa obra, se constitui com essa obra. Essa obra não é só os seus elementos e a disposição dos seus elementos na heterogeneidade das linguagens ali abordadas mas também a lembrança, a memória, a perseverança, o testemunho daqueles que a viram.

J – É uma obra de arte para ser apreciada com todos os sentidos...

T - Não poderia te dizer todos os sentidos... Nos sentidos convencionais...

J – Com o corpo inteiro...

T - Ser testemunhada. Acho que a noção de testemunho...

J - Tem som, além de todo o aspecto visual, tem a idéia de que você caminha ali no meio de uma forma participativa, havia crianças brincando e pulando ali...

T - Tudo isso eu acho bastante excitante. Mas é preciso não esquecer que não há grande novidade nisso. Se a gente pensar, Píndaro, o poeta grego, não só dizia aqueles poemas quase que incompreensíveis e enigmáticos até hoje, mas ele os dizia improvisando, dançando, cantando, tocando a lira e ébrio. Quer dizer, isso não é novo no Ocidente, não. É apenas retomar uma complexidade que sempre existiu e que passou por um momento histórico onde houve a necessidade de idealização dessa complexidade, de simplificação...

J - E aquela performance dos bailarinos, o pessoal nu. O nu ainda é transgressor?

T - Não, de jeito nenhum. O nu nunca foi transgressor. Eu acho que  essa nudez aí é apenas um signo  de uma postura talvez limpa, ideal com outro corpo. Essa obra fala do corpo  e a presença dessa nudez denota um tipo de corpo, um tipo de atitude, a ser assumida pelo olhar da obra, pela presença da obra.

Eu acho que, a rigor, todos nós ficamos nus frente a alguma coisa que nos deixa perplexos. É dessa nudez que se estava sendo explícita ali e talvez também desse contato com o corpo mais direto, essa
experiência tátil que o corpo nu imprime à diferença de um corpo vestido.

Mas, curiosamente, trata-se exatamente em um dos temas presentes... É essa mudança de pele, essa reencarnação, essa superfície a que se pode atribuir uma transformação do sujeito, a superfície da pele  que pode ser uma roupa, que pode ser a pele, que pode ser a própria pele fantasmática aqui presente como essas peles de rãs aumentadas. Rãs gigantes.

Quer dizer, eu acho que essa pele dessa nudez falou diretamente a que a viu de um modo diferente da nudez que a gente tá habituado nos outdoors da vida, nas Playboys da vida, né? Eu acho que é outro tipo de nudez. Não é uma nudez cujo erotismo seja codificado. Não é uma nudez casta tampouco. Enfim, é uma nudez bastante peculiar, particular e que se constrói, se constitui junto com a obra.

Quer dizer, você observando a presença desses bailarinos nessa primeira sala, o corpo deles, cada um
deles era como se fosse uma das partes de cada um desses elementos que constituem uma das peças. Então, eles ali estavam se integrando a essas peças, o corpo dele se integrava nas peças para formar um terceiro corpo, que era o corpo constituído do corpo deles, desse corpo aí presente, e o terceiro era essa mistura dessas coisas. Era um metamorfose nova, um novo sujeito,um novo, um nova espécie ali colocada.

J - Agora você tinha as moscas, os girinos, as rãs. Tem essa idéia da cadeia alimentar. Até alguém falou que iria fazer um jantar de rãs depois. Para os homens comerem as rãs e fecharem o ciclo.

T - (Riso) Espero que o tempero não seja mosca...

Há uma intenção no uso dessas duas espécies, pelo fato de ter uma cadeia alimentar, de ter uma pulsão, um impulso animal de um em direção ao outro. Já a fase de metamorfose realizada nos dois, quer dizer, a rigor a rã não comia a mosca, sequer, ela comia a larva da mosca. Quer dizer, existia a larva e o girino, a mosca e a rã. Mas enfim, o negócio da fantasia infantil e no conhecimento geral parece que o antagonista da mosca é a rã.

Então acho que é essa coisa polar, essa estrutura espectral que está aqui presente, mais patológica na medida em que um dos lados que se expele é complementar ao outro, diz mais alguma coisa dessa
estrutura. O fato de haver uma simetria, haver uma dupla simetria, e nessa simetria um dos lados
não simétrico mas é complementar ao outro, acho que diz respeito a gente, diz respeito a essa obra.

N - Por que aqui no Jardim Botânico? Tem a ver com a natureza? Ou é um espaço alternativo?

T - Para a natureza, é melhor a gente ler Virgílio, antes de qualquer coisa. A minha noção de natureza não é tão simplória de achar que a natureza no Jardim Botânico é tudo menos natureza. Quer dizer, há de ser uma natureza mas quando você olhar há uma árvore, uma planta, um inseto. Mas evidentemente é uma construção um jardim botânico, uma coisa cultural, uma construção marcada com todos os signos de uma cultura, de uma sociedade. E é lógico que essa inscrição leva em conta
isso.

Assim como o museu tem todo um conjunto de signos da sociedade, o Jardim Botânico também os tem acho que são várias...

Essa atitude, essa escolha, essa opção, carrega vários sentidos, várias significações.

Por um lado há - óbvio - um desconforto em relação ao campo das  instituições culturais voltadas  àquilo que tradicionalmente a gente chama cultura em artes plásticas. Estão os museus em geral.

Há uma atitude clara em relação aos museus e às instituições que tenderiam a abrigar esse tipo de
trabalho. Não porque haja uma incompatibilidade de qualquer natureza dessa obra com o museu, mas talvez mais por uma questão da gestão, da política cultural que tem se exercido no Brasil ultimamente.

Eu acho que há uma certa... um certo desejo de mostrar a coisa de um jeito diferente, mostrar essa obra de um jeito diferente. É evidente que eu não acredito que uma inscrição seja uma crítica negativa.

Acho que era necessário agregar a esse desejo de não estar presente no museu aqui no Brasil a uma outra postura positiva que era a de aproximar essa obra a essa situação que é a de um jardim botânico, que é um lugar de cultura, que é uma construção cultural mas que leva para um lado diverso e que, pelo que eu sei, me parece  uma instituição exemplar aqui no Rio de
Janeiro. Se não é exemplar, se eu estiver equivocado por desinformação, pelo menos no meu imaginário e na minha trajetória, na minha existência, tem sido um lugar de grande grande importância. O Jardim Botânico... Então eu acho que tem um lado até afetivo se você quiser considerar .

J - Você se manifestou, a classe artística em geral se manifestou contra a censura do  quadro da Márcia X, no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB).

T - Veja bem, eu acho que isso é uma pontinha de um iceberg bem maior do que isso. Eu  acho que há uma gestão de cultura intencional no Brasil. Não à toa que os órgãos do governo que não estão ligados ao Ministério da Cultura exercem um papel cultural no Brasil de extrema força, com extrema violência com determinação oculta, mas muito clara.

Você olha tanto no CCBB ou os patrocínios dados pela Finep ou a política cultural da Petrobrás há uma opção clara e um perfil cutural claro nisso. Então é uma farsa,  há ali funcionários públicos atrás do Banco do Brasil, de carreira, que vão escolher os artistas. Há toda uma complexidade, há um sistema complexo, um cultura brasileira muito bem subvencionada, muito bem paga com valores fora dos valores do mercado. Há um dirigismo cultural nisso e isso é gravíssimo porque em vez disso ser explícito que é a política cultural, aparece de um modo escamoteado.

J - Que perfil é esse de que você fala?

T - Veja o currículo dessas instituições  e veja o que nos representa tanto nacional como internacionalmente pelo que recebe patrocínio, subsídios vindos da isenção
fiscal, vindo de leis que são nosso dinheiro...

J - É tudo renúncia fiscal...

T - Essa lei de renúncia fiscal, não estou só falando da lei, precisamente. Estou falando de como essa lei é utilizada por estes centros culturais dessas companhias que se têm, enfim, como a Petrobrás, que
tem um lado do Estado e um lado de empresa ...

N - ...privada, o que há torna de economia mista.

T - Economia mista, exato. Quer dizer, eu acho que essas empresas que são de economia mista, que têm esse pé no Estado, e que são geridas, funcionam com isenção fiscal, têm uma responsabilidade cultural que não é só fazer o bem ou fazer publicidade ou dizer como nós somos bonitos.

Eles estão traçando milionariamente o perfil da cultura brasileira. E ninguém é capaz de mostrar isso e dizer isso claramente. Isso termina nos dando um confronto com o mercado espontâneo muito curioso. Eu acho que é isso é que se deveria ver. Quando há uma coisa arbitrária como uma censura exercida...

Não é a primeira vez que isso acontece no Banco do Brasil. Aconteceu no Museu de Arte Moderna. Deve acontecer freqüentemente nas escolhas que essas instituições  fazem. É evidente que eles escolhem aquilo que os apraz e aquilo que os apraz tem um perfil ideológico, privado, do cidadão que está ali por trás.

Quero que seja claro, quero que seja dito, porque eu quero ver com quem estou lidando, com quem estou mexendo. Sou um agente cultural, sou um poeta antes de mais nada. Mas como poeta me inscrevo como tal nessa sociedade.

Então quero saber que lugar é esse e isso nunca é dito. Isso é apresentado anualmente,  esse ano vamos fazer tal qual e tal. Eu não nego a qualidade de muitas dessas coisas que são apresentadas. O que nego é a ausência total de uma responsabilidade cultural. Um museu é um lugar que deve ter e pede-se dele uma responsabilidade cultural.

O papel do museu é sedimentar, sedimentar as referências, os paradigmas, que são aqueles onde se
deve espelhar, se deve pensar a cultura que está construindo.

Qual é o papel de um centro cultural? O centro cultural, o papel dele é fazer agir as obras, as
manifestações de uma cultura  presente, uma cultura que se faz a cada dia.

Ou seja, nem um nem outro estão funcionando como tal. Há uma anomalia, uma anomalia que me parece grave devido ao fato disso não ser claro, devido ao fato disso ser feito como laissez-faire e todos os artistas em geral, a classe em geral  está muito feliz por poder ter acesso ao catálogo de uma exposição de um ou outro artista. Não quero um catálogo, não quero uma exposição. Eu quero um perfil cultural. Eu quero um programa para transformar essa sociedade. Um programa
cultural explícito.

J - Quer dizer que os órgãos oficiais, as instituições, não estão dando a liberdade que você
gostaria para os artistas fazerem, produzirem a identidade cultural brasileira, que é uma coisa tão
importante?

T - Eu não acho que eles estejam dando ou não. Eu quero saber ao que eles vieram. Vieram para justificar a isenção fiscal? Vieram para trazer pão e circo? Vieram para trazer uma audiência pública? Vieram para fazer publicidade de seus eventos? Vieram para ser bonzinhos ou vieram com propósitos de melhorar a sociedade? Melhorar a vida das pessoas naquilo que diz
respeito a uma cultura?

Depois a questão da identidade cultural não parece um questão tão simples também. Eu acho que o Brasil deveria procurar mais a obra dos seus artistas, poetas, músicos aquilo que falam da identidade
cultural do que tentar essa formulação de um projeto de identidade cultural.

Identidade cultural é um problema que me parece bastante europeu, quer dizer, eu vejo na modernidade o enunciado da vontade da dissolução da identidade. E isso é um enunciado que funda o Estado moderno e que dá cultura. Isso sempre foi muito claro para aqueles que fundaram a coisa moderna.

Curiosamente o Brasil pode levar a diante por condições adversas que são de flutuação da identidade
que bastante me interessa, que bastante foi refletida na obra de grandes autores como Oswald de Andrade, como Flávio de Carvalho, como Hélio Oiticica etc.

Eu acho que caberia uma reflexão maior do que é essa identidade, o que é a vontade de identidade, para não se cair num nacionalismo que, em geral, essa questão da identidade nos leva e que parece uma posição bastante retrógrada.

J - Na era da globalização, como há uma pressão enorme para homogeneizar diversos processos, o que diferencia um país do outro é a sua cultura, a diferença é a identidade cultural de um povo?

T - O que me interessa mais, nesse caso, é  a dinâmica cultural. No Brasil se anunciou claramente a
capacidade de ingestão da cultura do outro e eu acho que essa reflexão nos leva, no momento atual, a
compreender que talvez a identidade brasileira seja a identidade da própria transformação contínua da
identidade. E isso me parece ser muito mais um quadro progressista em relação a essa nossa noção de
identidade, atual, do que a busca das diferenças.

Talvez seja a busca da dinâmica das possíveis diferenças e não da diferenças em si. Você se transformar a cada dia, você diz: você é igual a quem? É idêntico a quem?

Você é idêntico à própria dinâmica da transformação. Eu acho que esta é uma questão brasileira. Eu acho que esta é uma questão sugerida no manifesto do Oswald, é uma questão pensada claramente na obra do Hélio, eu acho que essa é uma questão que nos cabe.

Então  a gente vai procurar se  identificar como sendo o povo do futebol e do samba? É um equívoco. O povo da dinâmica da transformação de uma estrutura musical como o samba em outra coisa que não o samba, já é outro samba mais complexo etc etc etc. O que eu acho que é preciso pensar é na estrutura que nos permite ser  idênticos e diferentes de si mesmos. Quer dizer, é um mutação contínua.

J - Agora, nessa questão do quadro da Márcia X há também intolerância religiosa. Depois o pessoal
espalhou os cartazes pela cidade, o prefeito César Maia mandou recolher. Obviamente o prefeito mandou recolher num gesto demagógico para agradar às igrejas.

T - Não vejo tanto a questão das igrejas. O que me interessa ali é o instrumento da pressão que foi
exercida. Pelo que eu sei do jornal, daquilo que foi dito, é que correntistas de um banco público-privado iriam tirar as suas contas caso aquela obra estivesse ali. Então é preciso ficar atento à letra das coisas. É um volume de dinheiro depositado que iria sair se caso aquela imagem continuasse ali. Ponto. Essa é a pressão que foi exercida.

J - É uma pressão econômica, mas é uma forma de censura e, segundo consta, eram pessoas ligadas a uma seita dessas da Igreja Católica mais conservadora, a Opus Dei.

T - Poderia ser qualquer grupo. Qualquer grupo de depositantes poderia exercer isso. O que me interessa é a dinâmica disso. Não é essa identidade de um ou outro ser muçulmano, cristão ou judeu. O que me interessa foi o exercício da pressão que foi feita a partir de um volume de dinheiro de correntistas.

Então é preciso saber que os correntistas têm o poder de interferência na direção do banco que tem o poder de ingerência sobre aquilo que eles pretendem autônomo do banco. Até na isenção fiscal eles têm uma autonomia do banco que é o centro cultural. Ou seja, o centro cultural, ficou claro que o centro cultural dependia diretamente da ordem do presidente do banco, da diretoria do banco que sofreria pressão direta desses acionistas, ou seus correntistas, sequer acionistas.

Quer dizer, a rigor, o Banco do Brasil pode muito bem ser dirigido pelos acionistas do Banco do Brasil. E eles vão dizer o perfil cultural que nós vamos passar a viver. Porque a visitação é imensa, os fundos são imensos, os recursos que eles têm são enormes. E eles estão sendo usados dessa jeito. Pela vontade, pelo desejo de algumas pessoas. Quer dizer, um desvio perverso da finalidade e da vocação dessa instituição, nesse caso.

J - Falei em intolerância religiosa. Não citei muçulmanos, cristãos. Porque há uma radicalização, nem
tanto aqui no Brasil.

T - O grave não é que esse ou aquele grupinho. No caso da retirada de uma obra do artista Nelson Leirner do Museu de Arte Moderna, foi um juiz, Siro Darlan. Resolveu que a presença do falus desenhado sobre a imagem de um bebê era atentatório aos menores. Aquilo poderia desviar a formação dos menores que tanto visitam o Museu de Arte Moderna. E a obra foi tirada,
independente dos seus curadores ou diretores do museu. Por ordem judicial. Há uma lei que permite isso. Eu acho que há buracos que a gente pode observar e alguns desses buracos podem se tornar mais ou menos graves.

J - Uma última pergunta: a questão da crítica. Ferreira Gullar andou criticando seu trabalho. Você
perguntou: Ferreira quem? Como é a relação do artista com o crítico? Não interessa a opinião deles para o seu trabalho criativo?

T- Veja bem, eu acho que há um equívoco aí. Eu não vi nenhuma crítica do Ferreira Gullar ao meu trabalho. Eu vi uma crítica do Ferreira Gullar ao meu nome. Só. Ele se referiu ao meu nome, não se referiu ao meutrabalho. Então não posso dizer nada sobre essa... Aliás, Ferreira quem? Mais uma vez. Eu vou lhe dizer a nota que foi mandada ao jornal e que não foi publicada.

Eu não me defendo porque não foi feita crítica nenhuma. Agora eu estive no MoMA (Museum of Modern Art), de Nova Iorque; no Museu do Louvre e no Jeu de Paume, em Paris, na Whitechapel, de Londres; na Kuntzhalle, em Berlim; nos maiores museus do mundo e nunca ouvi falar
nesse cidadão...

Todos expuseram minha obra e sabem quem eu sou. Eu acho que esses são os lugares onde se faz arte
contemporânea, talvez não na Casa do Saber. Eu acho que eu estou nesses lugares; ele, não.

"O nu nunca foi transgressor"

Jobim - E aquela performance dos bailarinos, o pessoal nu. O nu ainda é transgressor?

Tunga - Não, de jeito nenhum. O nu nunca foi transgressor. Eu acho que essa nudez aí é apenas um signo de uma postura talvez limpa, ideal com outro corpo. Essa obra fala do corpo e a presença dessa nudez denota um tipo de corpo, um tipo de atitude, a ser assumida pelo olhar da obra, pela presença da obra.

Eu acho que, a rigor, todos nós ficamos nus frente a alguma coisa que nos deixa perplexos. É dessa nudez que se estava sendo explícita ali e talvez também desse contato com o corpo mais direto, essa experiência tátil que o corpo nu imprime à diferença de um corpo vestido.

Mas, curiosamente, trata-se exatamente num dos temas presentes, dessa mudança de pele, essa reencarnação, essa superfície a que se pode atribuir uma transformação do sujeito, a superfície da pele que pode ser uma roupa, que pode ser a pele, que pode ser a própria pele fantasmática aqui presente como essas peles de rãs aumentadas. Rãs gigantes.

Quer dizer, eu acho que essa pele dessa nudez falou diretamente a quem a viu, de um modo diferente da nudez habitual nos outdoors da vida, nas playboys da vida, né? Eu acho que é outro tipo de nudez. Não é uma nudez cujo erotismo seja codificado. Não é uma nudez casta tampouco. Enfim, é uma nudez bastante peculiar, particular e que se constrói, se constitui junto com a obra.

Quer dizer, você observando a presença desses bailarinos nessa primeira sala, o corpo deles, cada um deles era como se fosse uma das partes de cada um desses elementos que constituem uma das peças. Então, eles ali estavam se integrando a essas peças, o corpo dele se integrava nas peças para formar um terceiro corpo, que era o corpo constituído do corpo deles, desse corpo aí presente, e o terceiro era essa mistura dessas coisas. Era um metamorfose nova, um novo sujeito,um novo, nova espécie ali colocada.

J - Agora você tinha as moscas, os girinos, as rãs. Tem essa idéia da cadeia alimentar. Até alguém falou que iria fazer um jantar de rãs depois. Para os homens comerem as rãs e fecharem o ciclo.

T – (Riso) Espero que o tempero não seja mosca...

Há uma intenção no uso dessas duas espécies, pelo fato de ter uma cadeia alimentar, de ter uma pulsão, um impulso animal de um em direção ao outro. Já a fase de metamorfose realizada nos dois, quer dizer, a rigor a rã não comia a mosca, sequer, ela comia a larva da mosca. Quer dizer, existia a larva e o girino, a mosca e a rã. Mas enfim, o negócio da fantasia infantil e no conhecimento geral parece que o antagonista da mosca é a rã.

Então acho que é essa coisa polar, essa estrutura espectral que está aqui presente, mais patológica na medida em que um dos lados que se expele é complementar ao outro, diz mais alguma coisa dessa estrutura. O fato de haver uma simetria, haver uma dupla simetria, e nessa simetria um dos lados não-simétrico é complementar ao outro, acho que diz respeito a gente, diz respeito a essa obra.

N - Por que aqui no Jardim Botânico? Tem a ver com a natureza? Ou é um espaço alternativo?

T - Para a natureza é melhor a gente ler Virgílio, antes de qualquer coisa. A minha noção de natureza não é tão simplória de achar que a natureza no Jardim Botânico é tudo menos natureza. Quer dizer, há de ser uma natureza mas quando você olhar há uma árvore, uma planta, um inseto. Mas evidentemente é uma construção um jardim botânico, uma coisa cultural, uma construção marcada com todos os signos de uma cultura, de uma sociedade. E é lógico que essa inscrição leva em conta isso.

Assim como o museu tem todo um conjunto de signos da sociedade, o Jardim Botânico também os tem acho que são várias...
Essa atitude, essa escolha, essa opção, carrega vários sentidos, várias significações.

Por um lado há – óbvio – um desconforto em relação ao campo das instituições culturais voltadas àquilo que tradicionalmente a gente chama cultura em artes plásticas. Estão os museus em geral.

Eu acho que há uma certa... um certo desejo de mostrar a coisa de um jeito diferente, mostrar essa obra de um jeito diferente. É evidente que eu não acredito que uma inscrição seja uma crítica negativa.

Acho que era necessário agregar a esse desejo de não estar presente no museu aqui no Brasil a uma outra postura positiva que era a de aproximar essa obra a essa situação que é a de um jardim botânico, que é um lugar de cultura, que é uma construção cultural mas que leva para um lado diverso e que, pelo que eu sei, me parece uma instituição exemplar aqui no Rio de Janeiro. Se não é exemplar, se eu estiver equivocado por desinformação, pelo menos no meu imaginário e na minha trajetória, na minha existência, tem sido um lugar de grande importância. O Jardim Botânico... Então eu acho que tem um lado até afetivo se você quiser considerar .

Censura e dirigismo cultural

Jobim - Você se manifestou, a classe artística em geral se manifestou, contra a censura do quadro da Márcia X, no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB).

Tunga - Veja bem, eu acho que isso é uma pontinha de um iceberg bem maior do que isso. Eu acho que há uma gestão de cultura intencional no Brasil. Há toda uma complexidade, há um sistema complexo, uma cultura brasileira muito bem subvencionada, muito bem paga com valores fora dos valores do mercado. Há um dirigismo cultural nisso e isso é gravíssimo porque em vez disso ser explícito que é a política cultural, aparece de um modo escamoteado.

J - Que perfil é esse de que você fala?

T - Veja o currículo de algumas dessas instituições e veja o que nos representa tanto nacional como internacionalmente pelo que recebe patrocínio subsídios vindos da isenção fiscal, vindo de leis que são nosso dinheiro...

J – É tudo renúncia fiscal...

T - Essa lei de renúncia fiscal, não estou só falando da lei, precisamente. Estou falando de como essa lei é utilizada por estes centros culturais dessas companhias que se têm, enfim, um lado do Estado e um lado de empresa ...

J - ...privada, o que há torna de economia mista.

T - Economia mista, exato. Quer dizer, eu acho que essas empresas que são de economia mista, que tem esse pé no Estado, e que são geridas, funcionam com isenção fiscal, tem uma responsabilidade cultural que não é só fazer o bem ou fazer publicidade ou dizer como nós somos bonitos.

Estão traçando milionariamente o perfil da cultura brasileira. E ninguém é capaz de mostrar isso e dizer isso claramente. Isso termina nos dando um confronto com o mercado espontâneo muito curioso. Eu acho que é isso é que se deveria ver. Quando há uma coisa arbitrária como uma censura exercida...

Não é a primeira vez que isso acontece no Centro Cultural Banco do Brasil. Aconteceu no Museu de Arte Moderna. Deve acontecer freqüentemente nas escolhas que essas instituições fazem. É evidente que eles escolhem aquilo que os apraz e aquilo que os apraz tem um perfil ideológico, privado, do cidadão que está ali por trás.

Então quero saber que lugar é esse e isso nunca é dito. Isso é apresentado anualmente, esse ano vamos fazer tal qual e tal. Eu não nego a qualidade de muitas dessas coisas que são apresentadas. O que nego é a ausência total de uma responsabilidade cultural. Um museu é um lugar que deve ter e pede-se dele uma responsabilidade cultural.

O papel do museu é sedimentar, sedimentar as referências, os paradigmas, que são aqueles onde se deve espelhar, se deve pensar a cultura que está construindo.

Qual é o papel de um centro cultural? O centro cultural, o papel dele é fazer agir as obras, as manifestações de uma cultura presente, uma cultura que se faz a cada dia.
Não quero um catálogo, não quero uma exposição. Eu quero um perfil cultural. Eu quero um programa para transformar essa sociedade. Um programa cultural explícito.

Tunga: “Identidade cultural não é uma questão simples”

J - Quer dizer que os órgãos oficiais, as instituições, não estão dando a liberdade que você gostaria para os artistas fazerem, produzirem a identidade cultural brasileira, que é uma coisa tão importante.

T - Eu não acho que eles estejam dando ou não.

Depois a questão da identidade cultural não parece uma questão tão simples também. Eu acho que o Brasil deveria procurar mais a obra dos seus artistas, poetas, músicos naquilo que falam da identidade cultural do que tentar essa formulação de um projeto de identidade cultural.

Identidade cultural é um problema que me parece bastante europeu, quer dizer, eu vejo na modernidade o enunciado da vontade da dissolução da identidade. E isso é um enunciado que funda o Estado moderno e que dá cultura. Isso sempre foi muito claro para aqueles que fundaram a coisa moderna.

Curiosamente o Brasil pode levar adiante por condições adversas que são de flutuação da identidade que me interessa bastante e está refletida na obra de grandes autores como Oswald de Andrade, Flávio de Carvalho, como Hélio Oiticica etc.

Caberia uma reflexão maior do que é essa identidade, o que é a vontade de identidade, para não se cair num nacionalismo que, em geral, essa questão da identidade nos leva e que parece uma posição bastante retrógrada.

J - Na era da globalização, como há uma pressão enorme para homogeneizar diversos processos, o que diferencia um país do outro é a sua cultura, a diferença é a identidade cultural de um povo?

N - O que me interessa mais, nesse caso, é a dinâmica cultural. No Brasil se anunciou claramente a capacidade de ingestão da cultura do outro e eu acho que essa reflexão nos leva, no momento atual, a compreender que talvez a identidade brasileira seja a identidade da própria transformação contínua da identidade. E isso me parece ser muito mais um quadro progressista em relação a essa nossa noção de identidade, atual, do que a busca das diferenças.

Talvez seja a busca da dinâmica das possíveis diferenças e não da diferenças em si. Você se transformar a cada dia, você diz: você é igual a quem? É idêntico a quem?

Você é idêntico à própria dinâmica da transformação. Eu acho que esta é uma questão brasileira. Eu acho que esta é uma questão sugerida no manifesto do Oswald, é uma questão pensada claramente na obra do Hélio, eu acho que essa é uma questão que nos cabe.

Então a gente vai procurar se identificar como sendo o povo do futebol e do samba? É um equívoco. O povo da dinâmica da transformação de uma estrutura musical como o samba em outra coisa que não o samba, já é outro samba mais complexo etc etc etc. O que eu acho que é preciso pensar é na estrutura que nos permite ser idênticos e diferentes de si mesmos. Quer dizer, mutação contínua.

A censura do dinheiro e da Justiça

Jobim - Agora, nesta questão do quadro da Márcia X há também intolerância religiosa. Depois o pessoal espalhou os cartazes pela cidade, o prefeito César Maia mandou recolher. Obviamente o prefeito mandou recolher num gesto demagógico para agradar às igrejas.

Tunga - Não vejo tanto a questão das igrejas. O que me interessa ali é o instrumento da pressão que foi exercida. Pelo que eu sei do jornal, daquilo que foi dito, é que correntistas de um banco público-privado iriam tirar as suas contas caso aquela obra estivesse ali. Então é preciso ficar atento à letra das coisas. É um volume de dinheiro depositado que iria sair se caso aquela imagem continuasse ali. Ponto. Essa é a pressão que foi exercida.

J - É uma pressão econômica, mas é uma forma de censura e, segundo consta, eram pessoas ligadas a uma seita dessas da Igreja Católica mais conservadora, a Opus Christi.

T - Poderia ser qualquer grupo. Qualquer grupo de depositantes poderia exercer isso. O que me interessa é a dinâmicadisso. Não é essa identidade de um ou outro ser muçulmano, cristão ou judeu. O que me interessa foi o exercício da pressão que foi feita a partir de um volume de dinheiro de correntistas.
Quer dizer, a rigor, o Centro Cultural Banco do Brasil pode muito bem ser dirigido pelos acionistas do Banco do Brasil. E eles vão dizer o perfil cultural que nós vamos passar a viver.

J - Falei em intolerância religiosa. Não citei muçulmanos, cristãos. Porque há uma radicalização, nem tanto aqui no Brasil.

T - O grave não é que esse ou aquele grupinho. No caso da retirada de uma obra do artista Nelson Leirner do Museu de Arte Moderna, foi um juiz, Siro Darlan. Resolveu que a presença do falus desenhado sobre a imagem de um bebê era atentatório aos menores. Aquilo poderia desviar a formação dos menores que tanto visitam o Museu de Arte Moderna. E a obra foi tirada, independente dos seus curadores ou diretores do museu. Por ordem judicial. Há uma lei que permite isso. Eu acho que há buracos que a gente pode observar e alguns desses buracos podem se tornar mais ou menos graves.

N - Uma última pergunta: a questão da crítica. Ferreira Gullar andou criticando seu trabalho. Você perguntou: Ferreira quem? Como é a relação do artista com o crítico? Não interessa a opinião deles para o seu trabalho criativo?

T- Veja bem, eu acho que há um equívoco aí. Eu não vi nenhuma crítica do Ferreira Gullar ao meu trabalho. Eu vi uma crítica do Ferreira Gullar ao meu nome. Só. Ele se referiu ao meu nome, não se referiu ao meu trabalho. Então não posso dizer nada sobre essa... “opinião crítica especializada”.