A expansão da sociedade humana é responsável pela sexta grande era de extinção de espécies vivas da história da Terra, denuncia hoje um relatório das Nações Unidas produzido por mais de 450 cientistas e diplomatas. Um milhão de espécies de animais e vegetais, 25% do total, correm o risco de desaparecer.
A natureza selvagem perdeu metade de sua área. A biomassa dos mamíferos selvagens caiu em 82%. Mais de 40% das espécies de anfíbios, um terço dos corais, mais de um terço de todos os mamíferos marinhos e pelo menos um décimo dos insetos estão ameaçados. A queda na polinização ameaça a produção agrícola de uma perda de US$ 577 bilhões por ano e a degradação do solo reduziu a produtividade agrícola em 23%.
Durante três anos, os cientistas examinaram 15 mil relatórios e pesquisas para redigir esta advertência. O impacto sobre a humanidade é visível na escassez de água potável e na crescente instabilidade do clima causada pelo agravamento do efeito estufa em consequência da poluição industrial.
Três quartos de todas as terras foram transformadas em plantações, cobertas de concreto ou engolidas por barragens. Dois terços do ambiente marinho foram alterados por fazendas de piscicultura, rotas de navios, minas submarinas e outras intervenções. Três quartos dos rios e lagos são usados para a produção agropecuária.
Assim, mais de 500 mil espécies não encontram mais um ambiente adequado à sobrevivência a longo prazo e devem ser extintas nas próximas décadas.
"A saúde dos ecossistemas de que nós e outros espécies dependemos está se deteriorando mais rapidamente do que nunca. Estamos erodindo os alicerces de nossas economias, vidas, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida no mundo inteiro", declarou o presidente da Plataforma Intergovernamental de Política Científica sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas, Robert Watson. "Perdemos tempo. Temos de agir já."
Uma "mudança transformadora" exige alterações profundas na ação governamental, nas regras do comércio internacional, um investimento maciço em florestas e mudança no comportamento individual como a redução no consumo de carnes e bens materiais.
Este é o blog do jornalista Nelson Franco Jobim, Mestre em Relações Internacionais pela London School of Economics, ex-correspondente do Jornal do Brasil em Londres, ex-editor internacional do Jornal da Globo, do Jornal Nacional e da TV Brasil, ex-professor de jornalismo e de relações internacionais na UniverCidade, no Rio de Janeiro. Todos os comentários, críticas e sugestões são bem-vindos, mas não serão publicadas mensagens discriminatórias, racistas, sexistas ou com ofensas pessoais.
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segunda-feira, 6 de maio de 2019
sábado, 21 de junho de 2014
Costa Rica é oásis de paz na América Central
Na madrugada de hoje, dei uma breve entrevista ao programa SporTV News para falar um pouco sobre a Costa Rica, o país sensação desta Copa do Mundo.
A Costa Rica tem a mais longa tradição democrática da América Latina, que vem desde 1949, enquanto Nicarágua, Honduras, El Salvador e a Guatemala saíram das guerras civis do século passado com muitas armas nas ruas e grandes populações marginalizadas. Hoje ainda enfrentam a migração de máfias de traficantes que fugiram da guerra do México contra as drogas.
Enquanto isso, a Costa Rica preserva 25% do seu território como parques nacionais e reservas ambientais. É o país com maior índice de desenvolvimento humano em sua faixa de renda per capita, pouco menos de US$ 10 mil por ano. Um dos cinco mais em proteção à natureza no ranking das universidades de Colúmbia e Yale, nos Estados Unidos.
Quando estive lá, em 1982, algumas pessoas tinham vergonha de terem mata atlântica. Hoje, estão ganhando dinheiro com ecoturismo, que já supera a participação da agricultura no produto interno bruto costa-riquenho.
A Costa Rica tem a mais longa tradição democrática da América Latina, que vem desde 1949, enquanto Nicarágua, Honduras, El Salvador e a Guatemala saíram das guerras civis do século passado com muitas armas nas ruas e grandes populações marginalizadas. Hoje ainda enfrentam a migração de máfias de traficantes que fugiram da guerra do México contra as drogas.
Enquanto isso, a Costa Rica preserva 25% do seu território como parques nacionais e reservas ambientais. É o país com maior índice de desenvolvimento humano em sua faixa de renda per capita, pouco menos de US$ 10 mil por ano. Um dos cinco mais em proteção à natureza no ranking das universidades de Colúmbia e Yale, nos Estados Unidos.
Quando estive lá, em 1982, algumas pessoas tinham vergonha de terem mata atlântica. Hoje, estão ganhando dinheiro com ecoturismo, que já supera a participação da agricultura no produto interno bruto costa-riquenho.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Rei da Espanha pede desculpas por caçar na África
Pela primeira vez desde que resistiu ao golpe do coronel Antonio Tejero Molina, em 1981, e assumiu o papel de defensor da democracia, o rei Juan Carlos II tem sua autoridade de chefe de Estado questionada na Espanha.
Em meio à pior crise econômica enfrentada pelos espanhóis depois da democratização do país, a partir de 1975, com a morte do generalíssimo Francisco Franco, Juan Carlos foi à África caçar elefantes a um custo de 30 mil euros.
O povo espanhol, que sofre com um desemprego de 23%, que chega a 50% entre os jovens, só ficou sabendo porque Sua Majestade levou um tombo e fraturou uma costela. Pegou mal.
Além da crise, a caça é considerada hoje um esporte anacrônico e antiecológico, um passatempo fútil de reis e aristocratas que não têm muito respeito pela natureza. Juan Carlos preside hoje o Fundo Mundial pela Natureza (WWF), onde matar elefantes não é tido exatamente como um esporte.
Em meio à pior crise econômica enfrentada pelos espanhóis depois da democratização do país, a partir de 1975, com a morte do generalíssimo Francisco Franco, Juan Carlos foi à África caçar elefantes a um custo de 30 mil euros.
O povo espanhol, que sofre com um desemprego de 23%, que chega a 50% entre os jovens, só ficou sabendo porque Sua Majestade levou um tombo e fraturou uma costela. Pegou mal.
Além da crise, a caça é considerada hoje um esporte anacrônico e antiecológico, um passatempo fútil de reis e aristocratas que não têm muito respeito pela natureza. Juan Carlos preside hoje o Fundo Mundial pela Natureza (WWF), onde matar elefantes não é tido exatamente como um esporte.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
UE propõe política agrícola mais verde
A Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia, anunciou ontem planos para reorientar a política agrícola comum rumo a uma agricultura mais ecológica. Os subsídios agrícolas custam cerca de US$ 80 bilhões por ano, cerca de 47% do orçamento comunitário.
Sem cortar subsídios, a comissão pretende mudar as prioridades da política agrícola, ligando diretamente os pagamentos a medidas de proteção da natureza.
A proposta prevê:
• manter os gastos no nível atual até 2020, sem corrigi-los pela inflação;
• limitar o total que cada grande fazenda pode receber a 300 mil euros por ano;
• para evitar desequilíbrios, passar a subsidiar com base na área plantada e não na produção total;
• equilibrar os gastos feitos no Leste com os níveis de pagamento no Ocidente;
• acabar com as cotas de produção de açúcar; e
• condicionar 30% dos "pagamentos diretos" recebidos por agricultores a critérios ambientais.
Os critérios ambientais incluem:
• cultivo de pelo menos produtos agrícolas diferentes, com nenhuma plantação excedendo 70% da área total semeada;
• deixar pelo menos 7 % da terra descansando;
• manter uma área de pastagem permanentemente.
Para o grupo ecologista Amigos da Terra, as propostas não são suficientes para mudar as práticas agrícolas e indicam que a UE vai continuar subsidiando a agricultura em grande escala, com "consequências devastadoras para as florestas tropicais, o clima e alguns dos povos mais pobres da Terra".
Os produtores agrícolas europeus temem enfrentar mais burocracia para receber dinheiro da UE.
Sem cortar subsídios, a comissão pretende mudar as prioridades da política agrícola, ligando diretamente os pagamentos a medidas de proteção da natureza.
A proposta prevê:
• manter os gastos no nível atual até 2020, sem corrigi-los pela inflação;
• limitar o total que cada grande fazenda pode receber a 300 mil euros por ano;
• para evitar desequilíbrios, passar a subsidiar com base na área plantada e não na produção total;
• equilibrar os gastos feitos no Leste com os níveis de pagamento no Ocidente;
• acabar com as cotas de produção de açúcar; e
• condicionar 30% dos "pagamentos diretos" recebidos por agricultores a critérios ambientais.
Os critérios ambientais incluem:
• cultivo de pelo menos produtos agrícolas diferentes, com nenhuma plantação excedendo 70% da área total semeada;
• deixar pelo menos 7 % da terra descansando;
• manter uma área de pastagem permanentemente.
Para o grupo ecologista Amigos da Terra, as propostas não são suficientes para mudar as práticas agrícolas e indicam que a UE vai continuar subsidiando a agricultura em grande escala, com "consequências devastadoras para as florestas tropicais, o clima e alguns dos povos mais pobres da Terra".
Os produtores agrícolas europeus temem enfrentar mais burocracia para receber dinheiro da UE.
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Metade dos primatas está ameaçada de extinção
Quase a metade, 48% das espécies e subespécies de primatas, a ordem a que pertencem os macacos e os seres humanos, estão ameaçados de extinção, revela um estudo da União Internacional para a Preservação da Natureza (IUCN). As principais causas são a caça e a destruição das florestas.
"Temos dados consistentes para mostrar que a situação é muito mais grave do que se imaginava", afirmou o professor Russell Mittermeier, especialista da IUCN.
Há cinco anos, usando critérios diferentes, os cientistas estimaram que 39% dos primatas estariam com a sobrevivência ameaçada.
A ameaça vem principalmente da destruição ao ambiente natural dos primatas, com as queimadas e o o desmatamento das florestas tropicais, e também da caça para comer sua carne. Algumas espécies estariam sendo "literalmente devoradas rumo à extinção", alerta a IUCN.
Em algumas regiões da África, observou Mittermeier, "a carne de gorilas, chimpanzé e outros macacos vale mais do que carne de gado, aves ou pescado".
O desmatamento abre caminho para os caçadores. Assim, as duas ameaças se reforçam.
"Temos dados consistentes para mostrar que a situação é muito mais grave do que se imaginava", afirmou o professor Russell Mittermeier, especialista da IUCN.
Há cinco anos, usando critérios diferentes, os cientistas estimaram que 39% dos primatas estariam com a sobrevivência ameaçada.
A ameaça vem principalmente da destruição ao ambiente natural dos primatas, com as queimadas e o o desmatamento das florestas tropicais, e também da caça para comer sua carne. Algumas espécies estariam sendo "literalmente devoradas rumo à extinção", alerta a IUCN.
Em algumas regiões da África, observou Mittermeier, "a carne de gorilas, chimpanzé e outros macacos vale mais do que carne de gado, aves ou pescado".
O desmatamento abre caminho para os caçadores. Assim, as duas ameaças se reforçam.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Usinas européias terão de absorver carbono
Dentro de dois anos, todas as novas usinas geradoras de energia que usarem combustíveis fósseis na União Européia serão obrigadas a ter mecanismos de absorção e armazenagem de dióxido de carbono, propõe a Comissão Européia, órgão executivo da UE.
A nova diretriz, a ser anunciada na próxima semana, exigirá que os projetos reservem espaço para controlar as emissões dos gases que agravam o efeito estufa, causando o aquecimento da Terra.
Confira na revista científica Nature.
A nova diretriz, a ser anunciada na próxima semana, exigirá que os projetos reservem espaço para controlar as emissões dos gases que agravam o efeito estufa, causando o aquecimento da Terra.
Confira na revista científica Nature.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
Roedor de uma tonelada viveu no Uruguai
Os restos de um crânio encontrado no litoral do Uruguai indicam que ali viveu o maior de todos os roedores conhecidos, um ratão com peso de uma tonelada.
Para comparar, o maior roeder existente hoje, a capivara, atinge cerca de 60 quilos. O ratão pré-histórico uruguaio tinha dois a três metros de comprimento.
Confira na revista científica Nature.
Para comparar, o maior roeder existente hoje, a capivara, atinge cerca de 60 quilos. O ratão pré-histórico uruguaio tinha dois a três metros de comprimento.
Confira na revista científica Nature.
quinta-feira, 8 de junho de 2006
"O nu nunca foi transgressor"
Jobim - E aquela performance dos bailarinos, o pessoal nu. O nu ainda é transgressor?
Tunga - Não, de jeito nenhum. O nu nunca foi transgressor. Eu acho que essa nudez aí é apenas um signo de uma postura talvez limpa, ideal com outro corpo. Essa obra fala do corpo e a presença dessa nudez denota um tipo de corpo, um tipo de atitude, a ser assumida pelo olhar da obra, pela presença da obra.
Eu acho que, a rigor, todos nós ficamos nus frente a alguma coisa que nos deixa perplexos. É dessa nudez que se estava sendo explícita ali e talvez também desse contato com o corpo mais direto, essa experiência tátil que o corpo nu imprime à diferença de um corpo vestido.
Mas, curiosamente, trata-se exatamente num dos temas presentes, dessa mudança de pele, essa reencarnação, essa superfície a que se pode atribuir uma transformação do sujeito, a superfície da pele que pode ser uma roupa, que pode ser a pele, que pode ser a própria pele fantasmática aqui presente como essas peles de rãs aumentadas. Rãs gigantes.
Quer dizer, eu acho que essa pele dessa nudez falou diretamente a quem a viu, de um modo diferente da nudez habitual nos outdoors da vida, nas playboys da vida, né? Eu acho que é outro tipo de nudez. Não é uma nudez cujo erotismo seja codificado. Não é uma nudez casta tampouco. Enfim, é uma nudez bastante peculiar, particular e que se constrói, se constitui junto com a obra.
Quer dizer, você observando a presença desses bailarinos nessa primeira sala, o corpo deles, cada um deles era como se fosse uma das partes de cada um desses elementos que constituem uma das peças. Então, eles ali estavam se integrando a essas peças, o corpo dele se integrava nas peças para formar um terceiro corpo, que era o corpo constituído do corpo deles, desse corpo aí presente, e o terceiro era essa mistura dessas coisas. Era um metamorfose nova, um novo sujeito,um novo, nova espécie ali colocada.
J - Agora você tinha as moscas, os girinos, as rãs. Tem essa idéia da cadeia alimentar. Até alguém falou que iria fazer um jantar de rãs depois. Para os homens comerem as rãs e fecharem o ciclo.
T – (Riso) Espero que o tempero não seja mosca...
Há uma intenção no uso dessas duas espécies, pelo fato de ter uma cadeia alimentar, de ter uma pulsão, um impulso animal de um em direção ao outro. Já a fase de metamorfose realizada nos dois, quer dizer, a rigor a rã não comia a mosca, sequer, ela comia a larva da mosca. Quer dizer, existia a larva e o girino, a mosca e a rã. Mas enfim, o negócio da fantasia infantil e no conhecimento geral parece que o antagonista da mosca é a rã.
Então acho que é essa coisa polar, essa estrutura espectral que está aqui presente, mais patológica na medida em que um dos lados que se expele é complementar ao outro, diz mais alguma coisa dessa estrutura. O fato de haver uma simetria, haver uma dupla simetria, e nessa simetria um dos lados não-simétrico é complementar ao outro, acho que diz respeito a gente, diz respeito a essa obra.
N - Por que aqui no Jardim Botânico? Tem a ver com a natureza? Ou é um espaço alternativo?
T - Para a natureza é melhor a gente ler Virgílio, antes de qualquer coisa. A minha noção de natureza não é tão simplória de achar que a natureza no Jardim Botânico é tudo menos natureza. Quer dizer, há de ser uma natureza mas quando você olhar há uma árvore, uma planta, um inseto. Mas evidentemente é uma construção um jardim botânico, uma coisa cultural, uma construção marcada com todos os signos de uma cultura, de uma sociedade. E é lógico que essa inscrição leva em conta isso.
Assim como o museu tem todo um conjunto de signos da sociedade, o Jardim Botânico também os tem acho que são várias...
Essa atitude, essa escolha, essa opção, carrega vários sentidos, várias significações.
Por um lado há – óbvio – um desconforto em relação ao campo das instituições culturais voltadas àquilo que tradicionalmente a gente chama cultura em artes plásticas. Estão os museus em geral.
Eu acho que há uma certa... um certo desejo de mostrar a coisa de um jeito diferente, mostrar essa obra de um jeito diferente. É evidente que eu não acredito que uma inscrição seja uma crítica negativa.
Acho que era necessário agregar a esse desejo de não estar presente no museu aqui no Brasil a uma outra postura positiva que era a de aproximar essa obra a essa situação que é a de um jardim botânico, que é um lugar de cultura, que é uma construção cultural mas que leva para um lado diverso e que, pelo que eu sei, me parece uma instituição exemplar aqui no Rio de Janeiro. Se não é exemplar, se eu estiver equivocado por desinformação, pelo menos no meu imaginário e na minha trajetória, na minha existência, tem sido um lugar de grande importância. O Jardim Botânico... Então eu acho que tem um lado até afetivo se você quiser considerar .
Tunga - Não, de jeito nenhum. O nu nunca foi transgressor. Eu acho que essa nudez aí é apenas um signo de uma postura talvez limpa, ideal com outro corpo. Essa obra fala do corpo e a presença dessa nudez denota um tipo de corpo, um tipo de atitude, a ser assumida pelo olhar da obra, pela presença da obra.
Eu acho que, a rigor, todos nós ficamos nus frente a alguma coisa que nos deixa perplexos. É dessa nudez que se estava sendo explícita ali e talvez também desse contato com o corpo mais direto, essa experiência tátil que o corpo nu imprime à diferença de um corpo vestido.
Mas, curiosamente, trata-se exatamente num dos temas presentes, dessa mudança de pele, essa reencarnação, essa superfície a que se pode atribuir uma transformação do sujeito, a superfície da pele que pode ser uma roupa, que pode ser a pele, que pode ser a própria pele fantasmática aqui presente como essas peles de rãs aumentadas. Rãs gigantes.
Quer dizer, eu acho que essa pele dessa nudez falou diretamente a quem a viu, de um modo diferente da nudez habitual nos outdoors da vida, nas playboys da vida, né? Eu acho que é outro tipo de nudez. Não é uma nudez cujo erotismo seja codificado. Não é uma nudez casta tampouco. Enfim, é uma nudez bastante peculiar, particular e que se constrói, se constitui junto com a obra.
Quer dizer, você observando a presença desses bailarinos nessa primeira sala, o corpo deles, cada um deles era como se fosse uma das partes de cada um desses elementos que constituem uma das peças. Então, eles ali estavam se integrando a essas peças, o corpo dele se integrava nas peças para formar um terceiro corpo, que era o corpo constituído do corpo deles, desse corpo aí presente, e o terceiro era essa mistura dessas coisas. Era um metamorfose nova, um novo sujeito,um novo, nova espécie ali colocada.
J - Agora você tinha as moscas, os girinos, as rãs. Tem essa idéia da cadeia alimentar. Até alguém falou que iria fazer um jantar de rãs depois. Para os homens comerem as rãs e fecharem o ciclo.
T – (Riso) Espero que o tempero não seja mosca...
Há uma intenção no uso dessas duas espécies, pelo fato de ter uma cadeia alimentar, de ter uma pulsão, um impulso animal de um em direção ao outro. Já a fase de metamorfose realizada nos dois, quer dizer, a rigor a rã não comia a mosca, sequer, ela comia a larva da mosca. Quer dizer, existia a larva e o girino, a mosca e a rã. Mas enfim, o negócio da fantasia infantil e no conhecimento geral parece que o antagonista da mosca é a rã.
Então acho que é essa coisa polar, essa estrutura espectral que está aqui presente, mais patológica na medida em que um dos lados que se expele é complementar ao outro, diz mais alguma coisa dessa estrutura. O fato de haver uma simetria, haver uma dupla simetria, e nessa simetria um dos lados não-simétrico é complementar ao outro, acho que diz respeito a gente, diz respeito a essa obra.
N - Por que aqui no Jardim Botânico? Tem a ver com a natureza? Ou é um espaço alternativo?
T - Para a natureza é melhor a gente ler Virgílio, antes de qualquer coisa. A minha noção de natureza não é tão simplória de achar que a natureza no Jardim Botânico é tudo menos natureza. Quer dizer, há de ser uma natureza mas quando você olhar há uma árvore, uma planta, um inseto. Mas evidentemente é uma construção um jardim botânico, uma coisa cultural, uma construção marcada com todos os signos de uma cultura, de uma sociedade. E é lógico que essa inscrição leva em conta isso.
Assim como o museu tem todo um conjunto de signos da sociedade, o Jardim Botânico também os tem acho que são várias...
Essa atitude, essa escolha, essa opção, carrega vários sentidos, várias significações.
Por um lado há – óbvio – um desconforto em relação ao campo das instituições culturais voltadas àquilo que tradicionalmente a gente chama cultura em artes plásticas. Estão os museus em geral.
Eu acho que há uma certa... um certo desejo de mostrar a coisa de um jeito diferente, mostrar essa obra de um jeito diferente. É evidente que eu não acredito que uma inscrição seja uma crítica negativa.
Acho que era necessário agregar a esse desejo de não estar presente no museu aqui no Brasil a uma outra postura positiva que era a de aproximar essa obra a essa situação que é a de um jardim botânico, que é um lugar de cultura, que é uma construção cultural mas que leva para um lado diverso e que, pelo que eu sei, me parece uma instituição exemplar aqui no Rio de Janeiro. Se não é exemplar, se eu estiver equivocado por desinformação, pelo menos no meu imaginário e na minha trajetória, na minha existência, tem sido um lugar de grande importância. O Jardim Botânico... Então eu acho que tem um lado até afetivo se você quiser considerar .
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