J - Quer dizer que os órgãos oficiais, as instituições, não estão dando a liberdade que você gostaria para os artistas fazerem, produzirem a identidade cultural brasileira, que é uma coisa tão importante.
T - Eu não acho que eles estejam dando ou não.
Depois a questão da identidade cultural não parece uma questão tão simples também. Eu acho que o Brasil deveria procurar mais a obra dos seus artistas, poetas, músicos naquilo que falam da identidade cultural do que tentar essa formulação de um projeto de identidade cultural.
Identidade cultural é um problema que me parece bastante europeu, quer dizer, eu vejo na modernidade o enunciado da vontade da dissolução da identidade. E isso é um enunciado que funda o Estado moderno e que dá cultura. Isso sempre foi muito claro para aqueles que fundaram a coisa moderna.
Curiosamente o Brasil pode levar adiante por condições adversas que são de flutuação da identidade que me interessa bastante e está refletida na obra de grandes autores como Oswald de Andrade, Flávio de Carvalho, como Hélio Oiticica etc.
Caberia uma reflexão maior do que é essa identidade, o que é a vontade de identidade, para não se cair num nacionalismo que, em geral, essa questão da identidade nos leva e que parece uma posição bastante retrógrada.
J - Na era da globalização, como há uma pressão enorme para homogeneizar diversos processos, o que diferencia um país do outro é a sua cultura, a diferença é a identidade cultural de um povo?
N - O que me interessa mais, nesse caso, é a dinâmica cultural. No Brasil se anunciou claramente a capacidade de ingestão da cultura do outro e eu acho que essa reflexão nos leva, no momento atual, a compreender que talvez a identidade brasileira seja a identidade da própria transformação contínua da identidade. E isso me parece ser muito mais um quadro progressista em relação a essa nossa noção de identidade, atual, do que a busca das diferenças.
Talvez seja a busca da dinâmica das possíveis diferenças e não da diferenças em si. Você se transformar a cada dia, você diz: você é igual a quem? É idêntico a quem?
Você é idêntico à própria dinâmica da transformação. Eu acho que esta é uma questão brasileira. Eu acho que esta é uma questão sugerida no manifesto do Oswald, é uma questão pensada claramente na obra do Hélio, eu acho que essa é uma questão que nos cabe.
Então a gente vai procurar se identificar como sendo o povo do futebol e do samba? É um equívoco. O povo da dinâmica da transformação de uma estrutura musical como o samba em outra coisa que não o samba, já é outro samba mais complexo etc etc etc. O que eu acho que é preciso pensar é na estrutura que nos permite ser idênticos e diferentes de si mesmos. Quer dizer, mutação contínua.
Este é o blog do jornalista Nelson Franco Jobim, Mestre em Relações Internacionais pela London School of Economics, ex-correspondente do Jornal do Brasil em Londres, ex-editor internacional do Jornal da Globo, do Jornal Nacional e da TV Brasil, ex-professor de jornalismo e de relações internacionais na UniverCidade, no Rio de Janeiro. Todos os comentários, críticas e sugestões são bem-vindos, mas não serão publicadas mensagens discriminatórias, racistas, sexistas ou com ofensas pessoais.
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quinta-feira, 8 de junho de 2006
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