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domingo, 12 de agosto de 2018

Intelectuais se mobilizam para salvar cineasta ucraniano preso na Rússia

Um grupo de cineastas e intelectuais, entre eles a ministra da Cultura da França, Françoise Nyssen, e os diretores Jean-Luc Godard, David Cronenberg e Ken Loach, fez hoje um apelo pela libertação e para salvar a vida do cineasta ucraniano Oleg Sentsov. Condenado a 20 anos de prisão na Rússia, ele está em greve de fome há três meses. Sua vida corre perigo.


Sentsov foi detido em sua casa na península da Crimeia em maio de 2014, dois meses depois da anexação ilegal da região pela Rússia, e denunciado por terrorismo e suposta cumplicidade com o grupo paramilitar neonazista ucraniano Setor de Direita, organização de grupo terrorista e tráfico de armas, acusações forjadas para justificar a prisão. Veja abaixo a nota dos intelectuais:

"Artesãos da imagem e do imaginário, os cineastas nos movem e nos maravilham, capturam nossa época e nos cativam", declarou em nota o grupo. "Através de suas obras, eles compartilham suas visões e despertam as nossas. Eles fazem ouvir suas vozes - vozes às vezes dissidentes: em todo o mundo, constituem contrapesos essenciais ao poder e constroem novos pensamentos. A diversidade de opiniões, os debates, desacordos e discussões que os artistas alimentam são uma chance para a democracia, a liberdade e o progresso.

"Porque a arte não conhece fronteiras, porque a arte é universal, os direitos daqueles que lhe dão vida deve ser igualmente. A liberdade de expressão e a liberdade de criação não devem parar onde começa a dissidência. No entanto, hoje, um cineasta está à morte porque é um dissidente. Ameaçado por causa de suas ideias, como Vassili Grossman, Alexander Soljenitsyn e outros sob o regime comunista.

"Oleg Sentsov está preso na Rússia há mais de quatro anos. Sua condenação a 20 anos de reclusão por um tribunal militar russo, no fim de um processo que manifestamente não respeitou o direito de defesa, é uma violação do direito internacional e das regras fundamentais da justiça. Seu único "erro" real não seria ter exercido sua liberdade de expressão? Seu único crime não seria poder exprimir seu engajamento político através da arte?

"Enfermo, no Norte da Sibéria, em condições horríveis e desumanas, ele perdeu mais de 30 quilos desde o início da greve de fome que faz há quase três meses. Como seu estado de saúde parece se degradar perigosamente dia após dia, é preciso agir. E é preciso agir com rapidez.

"Não agir seria deixar Oleg Sentsov morrer. Seria renunciar a nossos valores e princípios, renunciar ao que defendemos e ao que somos. Seria tolerar que alguém possa ser morto por suas ideias, suas opiniões, suas tomadas de posição. O tratamento de que é objeto é um atentado à liberdade de pensamento e à liberdade de criação.

"Não podemos aceitar. É urgente e necessário que a Rússia encontre uma solução não só humanitária mas política para esta situação. Não somente a França - o presidente Emmanuel Macron fez vários apelos ao presidente Vladimir Putin -, mas o conjunto da comunidade internacional, da União Europeia à ONU, devem se mobilizar por Oleg Sentsov e para obter respostas.

"Os artistas do mundo inteiro sabem que o presidente russo tem o poder de parar com esta tragédia humana e democrática. Em todo o mundo, no mundo do cinema, da cultura e muito além, uma mobilização internacional deve se fazer ouvir em defesa do cineasta. Em nome da liberdade artística e de expressão, nós apelamos de novo pela libertação imediata de Oleg Sentsov", conclui o comunicado.

O texto é assinado pela Sociedade dos Autores e Compositores Dramáticos, a Sociedade Civil dos Autores Multimídia, a Sociedade Civil dos Autores, Realizadores e Produtores, a Sociedade dos Realizadores de Filmes, a Associação dos Realizadores e Realizadoras Francófonos e o Théâtre du Soleil.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Ex-inimigos formam governo na Irlanda do Norte

Sem aperto de mãos, os quase ex-arquiinimigos Partido Unionista Democrático (PUD), protestante, e Sinn Féin, católico e ligado ao agora desarmado Exército Republicano Irlandês (IRA), acabam de formar um novo governo semi-autônomo da Irlanda do Norte, rompendo com anos de impasse. A decisão do IRA de entregar as armas, anunciada em 2005, foi decisiva.

O primeiro-ministro será o reverendo protestante Ian Paisley e seu vice, com poderes iguais, Martin McGuinness, ex-comandante militar do IRA.

A posse do goveno formado pelos ex-inimigos mais radicais marca o fim de 800 anos de conflito entre Inglaterra e Irlanda, e de uma guerra civil em que mais de 3,6 mil pessoas morreram desde 1969.

O acordo de paz foi firmado em 9 de abril de 1998. Para evitar o domínio da maioria protestante, favorável à união com a Grã-Bretanha no Reino Unido, sobre a minoria católica e republicana, a favor da unificação da Irlanda, há um poder de veto para quem conseguir 40% dos votos na Assembléia da Irlanda do Norte.

Desde então, diversas tentativas de formar um governo semi-autônomo de união fracassaram porque os protestantes insistiam no total desarmamento do IRA, finalmente anunciado em 2005, depois que o impacto dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos secou o financiamento que o grupo recebia de americanos de origem irlandesa.

Outro fator importante para a paz foi a integração européia, que promoveu o desenvolvimento da Irlanda, hoje o país com a maior renda per capita na União Européia depois de Luxemburgo, e a tornou uma aliada da Grã-Bretanha, ajudando-a a superar os ressentimentos históricos até evidentes na Irlanda do Norte.

O filme Ventos de Liberdade, de Ken Loach, que está em cartaz, conta a história da divisão do movimento nacionalista irlandês diante da proposta de paz oferecida pelos britânicos quando da independência da Irlanda em 1921. Desta vez, a História se repete.

Para a linha dura do IRA, entregar as armas antes do fim do domínio britânico e da unificação da irlanda equivalia a uma rendição. Felizmente agora os dois lados entenderam que a democracia é a melhor maneira de atingir seus objetivos políticos.

Os nacionalistas irlandeses continuam sonhando com a reunificação de sua pequena ilha. Mas sabem que isso só será possível quando seus antigos inimigos tiveram confiança de que não serão discriminados numa Irlanda unida.

A paz na Irlanda traz esperança de solução de outros conflitos. Um editorial do jornal libanês Daily Star argumenta que, se a paz é possível na Irlanda do Norte, é possível também no Oriente Médio.