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domingo, 27 de setembro de 2026

Encontro de cúpula entre Xi e Trump não tem grandes avanços

O presidente Donald Trump estendeu o tapete vermelho para o ditador chinês, Xi Jinping, foi buscá-lo no aeroporto e proclamou uma "grande e verdadeira amizade" entre os dois líderes das superpotência. Mas o encontro de cúpula entre China e Estados Unidos realizado em 23 e 24 de setembro em Washington teve poucos resultados concretos.

Houve uma extensão de dois meses na trégua na guerra comercial deflagrada por Trump no ano passado, um período muito curto, aquém da expectativa, promessas de manter o diálogo sobre inteligência artificial e nenhuma novidade em relação a Taiwan e às guerras na Ucrânia e no Oriente Médio. A China enviou dois ursos pandas-gigantes para o Jardim Zoológico de Atlanta, na Geórgia.

O grande desafio das relações internacionais neste século é acomodar a ascensão da China e o declínio relativo dos EUA para evitar que caiam na Armadilha de Tucídides, o risco de guerra entre grandes potências em momentos de transição hegemônica. 

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terça-feira, 8 de outubro de 2024

Pioneiros da inteligência artificial ganham Nobel de Física

 O cientista norte-americano John Hopfield, de 91 anos, professor da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, e o britânico Geoffrey Hinton, de 76 anos, professor da Universidade de Toronto, no Canadá, ganharam o Prêmio Nobel de Física de 2024 pelo pioneirismo de suas experiências com inteligência artificial, anunciou hoje em Estocolmo a Academia Real de Ciências da Suécia.

Ao trabalhar com redes neurais artificiais e o aprendizado de máquinas, os laureados fizeram "descobertas e invenções fundamentais permitiram o aprendizado de máquinas com redes neurais artificiais" e "mostraram uma maneira totalmente nova de usar computadores", declarou o Comitê do Nobel. Foram muito além da física.

Há muito tempo, as máquinas que pensam são "um instrumento importante de pesquisa para classificar e analisar grandes quantidades de dados", acrescentou o comitê. "Hopfield e Hinton usaram a física para criar métodos que ajudaram a lançar as bases para a poderosa aprendizagem de máquinas de hoje. A aprendizagem de máquinas com base em redes neurais artificiais está revolucionando a ciência, a engenharia e a vida cotidiana."

As redes neurais artificiais são sistemas que aprendem analisando dados e recebem nomes com base nas redes neurais do cérebro humano. Fazem parte de serviços da Internet, de mecanismos de busca como o Google e mais recentemente o ChatGPT da OpenAI.

"Hopfield criou uma estrutura capaz de armazenar e reconstruir a informação. Hinton inventou um método capaz de descobrir independentemente propriedades de dados, o que se tornou importante para as grandes redes neurais usadas hoje", disse o comunicado oficial da academia sueca.

Hinton, conhecido como o padrinho da inteligência artificial, começou a pesquisar as redes neurais nos anos 1970, quando era estudante de graduação na Universidade de Edimburgo, na Escócia. Em 1985, ele e colegas criaram uma rede neural chamada Máquina de Boltzmann, batizada em homenagem ao física Ludwig Boltzmann.

Em 1982, Dr. Hopfield desenvolveu um modelo de redes neurais conhecida hoje como Rede de Hopfield para estudar como o cérebro resgata memórias quando recebe informações parciais, de forma semelhante ao cérebro humano.

Essa habilidade é conhecida como memória associativa. Na época, o cientista não imaginava que seu trabalho seria útil para o aprendizado das máquinas. Foi o marco zero para a era moderna das redes neurais. Criou um novo campo de estudos para a ciência.

"Se houvesse um Prêmio Nobel para ciências da computação, seria mais adequado", comentou Hinton em entrevista ao jornal The New York Times. No ano passado, ele deixou seu emprego como pesquisador do Google para ficar livre para discutir suas preocupações sobre o possível impacto negativo da inteligência artificial.

Em telefonema durante o anúncio da premiação, Hinton afirmou que "será comparável à Revolução Industrial. Em vez de sobrepujar as pessoas em força física, vai superar as pessoas em capacidade intelectual. Não temos experiência de como será ter coisas mais inteligentes do que nós."

Entre os benefícios da inteligência artificial, Hinton citou os avanços na medicina: "Trará enormes ganhos de produtividade, mas temos de nos preocupar com um número de más consequências possíveis." Ele acredita que o Prêmio Nobel contribui para atrair a atenção sobre o futuro da tecnologia e seus riscos.

Hopfield comparou o avanço na inteligência artificial à fissão do átomo, que criou a bomba atômica e o uso da energia nuclear para fins pacíficos. "Estamos acostumados com tecnologias que não são só boas nem só ruins, têm capacidades nos dois sentidos," E emendou: "Você quer ter alguma ideia sobre como controlar o sistema e como prevenir desastres."

Os dois laureados vão dividir o prêmio de 11 milhões de coroas suecas, cerca de R$ 5,9 milhões pela cotação de hoje.

Amanhã, sai o resultado do Prêmio Nobel de Química. Na quinta-feira, será a vez do Prêmio Nobel de Literatura. Na sexta-feira, será o dia do Prêmio Nobel da Paz, o único anunciado pelo comitê norueguês do Nobel. O Prêmio Nobel de Economia sai na segunda-feira que vem.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

2023 foi ano da guerra e tudo indica que 2024 será também

Depois da invasão da Ucrânia pela Rússia em 2002, que acabou com os dividendos da paz do mundo pós-Guerra Fria, a guerra de Israel contra o grupo terrorista Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) perturbou em 2023 ainda mais um mundo já conturbado, sem esquecer da guerra civil no Sudão e na epidemia de golpes militares na região do Sahel, ao sul do Deserto do Saara, na África. Na América Latina, uma zona de paz internacional, o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, ameaça anexar a maior parte do território da vizinha Guiana.

Tanto o ditador da Rússia, Vladimir Putin, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, têm interesse em prolongar as guerras para enfraquecer o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e auxiliar a volta à Casa Branca do ex-presidente Donald Trump, golpista, corrupto e fascista, aliado incondicional de Netanyahu e quase aliado de Putin.

Será um ano de eleições importantes, a começar em 13 de janeiro por Taiwan, a ilha que a China considera uma província rebelde e ameaça invadir se proclamar a independência. Na Rússia, Putin sobreviveu ao maior desafio em 23 anos no poder com a rebelião do mercenário Yevgueni Progojin, que morreu na explosão de um avião a mando do ditador, deve ser reeleito sem problemas em março.

As três maiores democracias do mundo realizam eleições em 2024. Na Indonésia, que vota em 14 de fevereiro, não há muita diferença programática entre os principais candidatos. Com 950 milhões de eleitores, a Índia divide a votação em vários dias. Deve reeleger o primeiro-ministro Narendra Modi, um extremista de direita e ultranacionalista hindu que persegue muçulmanos e cristãos, numa ameaça à maior democracia do mundo.

A eleição mais importante será em 5 de novembro nos EUA, uma reedição da disputa entre Biden e Trump, o que a maioria do eleitorado não quer. Apesar de quatro processos criminais com um total de 91 acusações, Trump é o franco favorito nas eleições primárias do Partido Republicano. 

Aos 81 anos, Biden é considerado velho demais e perdeu prestígio em setores importantes do eleitorado do Partido Democrata pelo apoio incondicional a Israel. A eleição deve ser decidida pela economia, que está crescendo, com desemprego de apenas 3,7%, mas a inflação pós-pandemia reduziu o poder aquisitivo.

Na América Latina, o México deve eleger a primeira mulher para a Presidência em 2 de junho. A favorita é a ex-prefeita da Cidade do México, Claudia Sheinbaum. Na Argentina, o ultradireitista Javier Milei baixou um "decreto de necessidade e urgência" com mais de 600 medidas que tiram a proteção do Estado e entregam a economia ao setor privado, além de uma reforma política que nada tem a ver com o combate à inflação, que promete debelar em dois anos. Vai enfrentar uma forte resistência, com uma greve geral convocada para 24 de janeiro.

2023 foi um ano de catástrofes climáticas que deixaram evidentes as consequência do aquecimento global causado pelo homem. A 28ª Conferência da ONU sobre mudança do clima aprovou medidas importantes mas insuficientes para conter o aumento da temperatura em até dois graus centígrados.

Talvez a novidade mais importante do ano tenha sido a popularização da inteligência artificial, que suscita debates sobre implicações e se as máquinas um dia vão suplantar os seres humanos e dominar o mundo como alertaram obras de ficção científica.

domingo, 18 de junho de 2023

Inteligência artificial aumenta risco de guerra por erro ou acidente

Um grande risco da inteligência artificial é que a guerra está cada vez mais mecanizada e automatizada. Outro dia um soldado russo se rendeu a um drone que o perseguia. Um ataque nuclear exige uma resposta rápida. Aí mora o perigo.

Depois do fim da Guerra Fria, houve em 1992 uma conferência sobre a Crise dos Mísseis Soviéticos em Cuba, de outubro de 1962, com a participação de russos, americanos e cubanos. Ficamos sabendo que Vassili Alexandrovich Arkhipov, um subcomandante de submarino, impediu um ataque com míssil nuclear contra navios dos EUA que o cercavam. 

Em 27 de outubro de 1962, o dia em que o ditador Nikita Kruschev concordou em retirar os mísseis e a crise acabou, um porta-aviões e 11 contratorpedeiros norte-americanos acossavam o submarino soviético B-59. Com baterias fracas e problemas no ar-condicionado, o submarino tinha superaquecimento e elevados níveis de gás carbônico. Precisava ir à tona. 

O ataque foi preparado. O comandante Valentin Grigoryevich Savitsky acreditava que a guerra havia começado. Queria disparar um torpedo nuclear. O míssil estava pronto para ser disparado. Houve uma discussão entre o comandante e os dois subcomandantes. A doutrina nuclear da União Soviética exigia o consentimento dos três altos oficiais a bordo.
Vassili Arkhipov já era considerado um herói pela atuação num vazamento no sistema de resfriamento do reator do submarino K-19 em julho de 1961 na costa sudeste da Groenlândia, quando toda a tripulação foi contaminada pela radiação. Todos os engenheiros de bordo morreram dentro de um mês. Em dois anos, outros 15 marinheiros morreram. 

O prestígio de Arkhipov foi decisivo. Ele convenceu o comandante Savitsky e o comissário político Ivan Semionovich Maslennikov a subir à superfície e aguardar as ordens de Moscou. Ao persuadir os outros a não atacar, Arkhipov livrou o mundo de uma guerra nuclear. 

Quando o submarino emergiu, um avião de guerra dos EUA disparou tiros de advertência várias, mas a intenção não era atingir o submarino. O K-59 entrou em contato com um contratorpedeiro norte-americano e depois recebeu ordens da frota soviética de voltar para a URSS. 

“Estivemos muito, muito mais perto [de uma guerra nuclear] do que soubemos na época”, reconheceu o Robert McNamara, secretário da Defesa na época da Crise dos Mísseis, ao saber da história. Para Arthur Schlesinger Jr., assessor do governo John Kennedy (1961-63) e historiador, “esse foi não apenas o momento mais perigoso da Guerra Fria. Foi o momento mais perigoso da história da humanidade.” 

Comecei a trabalhar com noticiário internacional em 1º de setembro de 1983, meu primeiro dia na Rádio Globo. A notícia era que a URSS havia derrubado um Boeing 747 da companhia aérea sul-coreana Korean Air com um deputado dos EUA, Larry McDonald, vice-presidente da conservadora Sociedade John Birch, a bordo. 

Os senadores Jesse Helms e Steve Symms e o deputado Carroll Hubbard tinham reserva no mesmo voo, mas mudaram na última hora para um voo que saiu 15 minutos depois. Todos iam a uma cerimônia para celebrar os 30 anos do Tratado de Defesa Mútua entre EUA e Coreia do Sul. 

O Jumbo abatido ia de Nova York para Seul, na Coreia do Sul, via Anchorage, no Alasca. Suspeitava-se que a versão militar do Boeing, um avião-espião, às vezes ia no rastro de voos comerciais para enganar os radares inimigos. 

Quando o avião sobrevoava a Ilha Sakhalina, a defesa antiaérea soviética o tomou por um avião-espião, fez contato com Moscou e não conseguiu resposta. O piloto perguntou o que fazer. A resposta foi: “Na dúvida, siga o manual.” 

Um míssil ar-ar abateu o avião perto da Ilha Moneron. Todas as 269 pessoas a bordo morreram. 

Na época, o Politburo do Comitê Central do Partido Comunista da URSS declarou que era uma provocação dos EUA para testar as defesas e a preparação soviética para a guerra. Os EUA acusaram a URSS de obstruir a operação de busca. A URSS não cooperou com a investigação da Organização da Aviação Civil Internacional. As gravações de bordo só foram liberadas 10 anos mais tarde, depois da dissolução da URSS. 

Foi outro momento de grande tensão na chamada Segunda Guerra Fria, iniciada com a invasão do Afeganistão pela União Soviética, em 24 de dezembro de 1979, após a détente, um degelo parcial na confrontação estratégica e capitalismo e comunismo com as visitas do presidente Richard Nixon à China e à URSS, em 1972. 

O presidente linha-dura Ronald Reagan tomara posse em janeiro de 1981 e anunciara, em 23 de março de 1983, a Iniciativa de Defesa Estratégica, mais conhecida como projeto Guerra nas Estrelas. A ideia era instalar no espaço um sistema de defesa antimísseis, que era proibido pelo Tratado de Mísseis Antibalísticos (ABM), de 1972, também conhecido pela sigla MAD (mutually assured destruction, destruição mutuamente assegurada), palavra que também significa louco em inglês. Era a garantia do equilíbrio do terror nuclear. 

Em 1º de novembro de 1983, os EUA começariam a instalar mísseis nucleares de curto e médio alcances na Europa Ocidental. 

O manual mandava o piloto do avião de caça soviético Sukhoi Su-15 abater o avião inimigo. A diferença nos dois casos foi a intervenção humana de Arkhipov. Hoje, com a crescente automatização da guerra e o tempo escasso para tomar uma decisão, o risco é que fique a cargo da inteligência artificial, que provavelmente vai seguir o manual. O controle humano é fundamental.

quinta-feira, 30 de março de 2023

Carta aberta pede pausa no desenvolvimento da inteligência artificial

Mais de mil especialistas em informática, o bilionário Elon Musk, um dos homens mais ricos do mundo, o historiador Yuval Harari, que escreveu uma história do homem, Steve Wozniak, cofundador da Apple, querem uma pausa de seis meses no desenvolvimento da inteligência artificial – e alertam para “grandes riscos para a humanidade” em razão das “dramáticas perturbações econômicas e políticas” que a inteligência artificial vai causar, “especialmente para a democracia”.

A história do desenvolvimento tecnológico indica que não haverá pausa alguma porque tecnologia é poder. A inteligência artificial é estratégica hoje para empresas e países, que não querem dar vantagens a concorrentes ou possíveis inimigos.

No 400º dia de guerra na Ucrânia, o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, visitou a maior usina nuclear da Europa, que está em área de intensa atividade militar. O presidente Volodymyr Zelensky convidou o ditador da China, Xi Jinping, a visitar a Ucrânia e a Alemanha aprovou uma ajuda de 12 bilhões de euros, cerca de 67 bilhões de reais, ao governo ucraniano.

O ex-presidente Mauricio Macri anunciou que não será candidato à Presidência da Argentina na eleição deste ano, em que a oposição é favorita por causa de uma inflação 102,5% ao ano.

Com dores no peito e infecção respiratória, o Papa Francisco, de 86 anos, foi hospitalizado em Roma. Ao completar 10 anos de pontificado, em 13 de março, o papa admitiu se aposentar se sentir que não tem condições de saúde para cumprir sua missão, que inclui viajar pelo mundo. Talvez Francisco não tenha condições de participar das cerimônias da Páscoa. Meu boletim:

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Só 8% vivem em democracias plenas

Se nos anos 1990, pela primeira vez na história, a maior parte da humanidade vivia em democracias, sob governos eleitos em eleições competitivas com um mínimo de respeito pelos direitos humanos, hoje só 8% da humanidade vivem em democracias plenas, de acordo com a Unidade de Inteligência da revista inglesa The Economist.

A empresa Starlink, do bilionário Elon Musk, um dos homens mais ricos do mundo, foi fundamental para a resistência da Ucrânia diante da invasão russa, ao manter a Internet funcionando, mas a concentração de poder num homem só cria problemas.

O gelo da calota polar da Antártica que fica sobre o oceano registrou uma queda recorde. O Ártico perde ainda mais gelo, o que significa que o nível dos oceanos vai continuar a subir e a ameaçar a população que mora em regiões costeiras.

O último boletim da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a pandemia registra uma queda de 92% nos casos novos e de 47% nas mortes nas quatro semanas de 16 de janeiro a 12 de fevereiro. E a bizarrice da semana: um repórter do jornal The New York Times foi testar a última novidade da inteligência artificial e recebeu uma declaração de amor de um... programa de computador. Meu comentário:

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Mundo entra em era de espionagem sem precedentes

Foi-se o tempo em que os espiões se encontravam no Parque Gorki, em Moscou, ou deixavam dossiês em insuspeitas latas de lixo. Depois de uma trégua no fim da Guerra Fria, a competição estratégica está de volta e é cada vez maior entre os Estados Unidos, a China e a Rússia.

Com a proliferação de instrumentos como a Internet e os aparelhos móveis, a espionagem cresce na mesma medida e a ameaça não vem apenas das grandes potências. Entre os principais alvos, estão as grandes empresas ocidentais e seus segredos industriais.

As novas tecnologias permitem invadir à distância os sistemas de computadores de empresas e piratear quantidades de dados formidáveis. Os avanços tecnológicos deixaram as empresas muito mais vulneráveis. 

Mesmo funcionários de baixo escalão podem ter motivos e acesso a meios capazes de roubar informações em grande escala. Hoje em dia, se um agente estiver interessado em obter dados específicos, deve-se presumir que pode ter condições de fazer isso. Meu comentário:

domingo, 17 de março de 2019

Acidentes com Boeing 737 MAX 8 têm "semelhanças claras"

Os dados da caixa-preta do avião da Ethiopian Airlines que caiu há uma semana matando as 157 pessoas a bordo mostram "semelhanças claras" com os do acidente com o mesmo modelo da Boeing que caiu no Mar de Java, na Indonésia, em outubro do ano passado, matando 189 pessoas, revelou hoje o ministro dos Transportes da Etiópia.

"Foram notadas semelhanças claras entre o voo 302 da Ethiopian Airlines e o voo 610 da companhia indonésia Lion Air que serão objeto de mais exames durante a investigação", declarou o ministro Dagmawit Moges.

A constatação aumenta a pressão sobre a Boeing. O Boeing 737 é um dos aviões mais bem-sucedidos da história da aviação. Havia mais de 300 737 MAX 800 em operação, de um total de cerca de 5 mil encomendados.

Os dois acidentes fatais com o novo modelo indicam que os pilotos tiveram problemas com o computador de bordo e não conseguiram assumir o controle sobre o aparelho pouco depois da decolagem, um dos momentos mais críticos da aviação porque a aeronave ainda não ganhou altitude que permita fazer manobras.

Um mecanismo para impedir a paralisação dos motores faria o avião baixar o nariz para ganhar velocidade causando o impacto com o solo ou, no caso da Indonésia, com o mar.

Os dados iniciais sobre o voo da Ethiopian Airlines indicam que o Boeing 737 MAX 8 fez um voo errático. Subiu, desceu e subiu de novo, a uma velocidade excessiva para a decolagem. O piloto era experiente. Tinha mais de 8 ml horas de voo.

Nesta era em que cada vez as máquinas fazem o trabalho do homem, a dificuldade em superar o computador mostra os problemas da inteligência artificial. A Boeing insiste que o avião é seguro, mas admitiu fazer mudanças no programa do computador.

Hoje, em Adis Abeba, a capital da Etiópia, de onde o voo saiu, houve uma série de enterros simbólicos com caixões vazios. A maioria das vítimas foi totalmente incinerada pelo incêndio causado pelo acidente. A identificação dos restos mortais podem levar cinco a seis meses.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Soros denuncia ameaça do autoritarismo chinês na era da inteligência artificial

O megainvestidor George Soros atacou a ditadura de Xi Jinping na China, advertindo que o avanço das pesquisas sobre inteligência artificial sob o controle de regime repressivos é hoje uma "ameaça mortal" para as sociedades abertas, noticiou o jornal inglês Financial Times.

Em palestra no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, o bilionário húngaro naturalizado americano destacou ontem que a China não é o único regime autoritário do mundo, mas é o mais rico, mais forte e o mais avançado tecnologicamente.

"Isto torna Xi Jinping no oponente mais perigoso das sociedades abertas", alertou.

Soros citou o sistema de crédito social chinês, que coleta dados pessoais de indivíduos para avaliar a confiabilidade de cada um. Uma base de dados dessas "dá a Xi o controle total sobre o povo".

Aos 88 anos, depois de fazer fortuna no setor financeiro, Soros se dedica a defender a liberdade e a democracia. Através da Fundação Sociedade Aberta, promoveu a democracia liberal nos países da Europa Oriental antes dominados pelo comunismo. Isto o levou a ser apresentado como vilão por regimes nacionalistas de ultradireita como o do neofascista Viktor Orbán na Hungria.

Em suas participações no Fórum de Davos, costuma falar das ameaças à democracia. Na quinta-feira à noite, seu alvo foi a ameaça de uma China cada vez mais poderosa e mais autoritária.

Crítico do presidente Donald Trump e do neopopulismo de extrema direita em ascensão no mundo de hoje, Soros elogiou a identificação da China pelos EUA como um rival estratégico e cobrou uma resposta ao megaprojeto de investimentos chineses Um Cinturão Uma Estrada, que pretende recriar a Rota da Seda, como planejado para servir os interesses chineses e não dos países que tomarão grandes empréstimos.

A suspeita é que estes investimentos submetam os países recipientes ao controle chinês. Soros citou o Paquistão, a Malásia e o Sri Lanka. Só o Paquistão, deve contrair dívidas de US$ 60 bilhões. Como o país tem problemas financeiros crônicos, tendo recorrido mais de 20 vezes ao Fundo Monetário Internacional (FMI), o endividamento seria uma forma de controle.

No caso do Sri Lanka, as dificuldades de pagamento levaram o governo a ceder um porto ao controle chinês.

"Os ambiciosos projetos de infraestrutura [chineses] são financiados principalmente por empréstimos custosos, não por ajuda, e vários funcionários estrangeiros foram subornados para aceitá-los. Muitos desses projetos são antieconômicos", avaliou.

Ele apelou aos EUA para enfrentar a ameaça do autoritarismo chinês, tomando medidas concretas, por exemplo, contra empresas de equipamentos de telecomunicações como Huawei e ZTE, que podem representar, na sua opinião, um risco inaceitável para a segurança nacional de vários países por sua capacidade de espionagem.

"A China é um ator global importante. Uma política efetiva em relação à China não pode se limitar a slogans. Precisa ser muito mais sofisticada, detalhada e prática. Deve incluir uma resposta econômica americana à Iniciativa um Cinturão uma Estrada", acrescentou.

O bilionário defendeu fomentar uma oposição doméstica à ditadura de Xi Jinping: "Como Xi é o maior inimigo da sociedade aberta, precisamos depositar nossas esperanças no povo chinês, especialmente na comunidade empresarial e na elite política interessada em manter a tradição confucionista."

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Google aceita censura para entrar na China

O Google pretende lançar uma versão de seu mecanismo de busca especial para a China com censura a certos endereços e palavras. Com outras empresas americanas de alta tecnologia, está disposto a aceitar a censura prévia do regime comunista para ter acesso ao lucrativo mercado chinês.

A China bloqueia há muitos anos o acesso a mecanismos de busca e conteúdo produzido por companhias dos Estados Unidos e do Ocidente, como o YouTube. É o único país onde estive em que não pude atualizar meu blog.

Em dezembro de 2017, o Google anunciou a intenção de abrir um centro de pesquisas sobre inteligência artificial na China, que disputa com os EUA a liderança tecnológica do setor.

Ao aceitar a censura, o Google recua em seu compromisso com a liberdade de expressão. Em 2010, saiu da China citando preocupações com a censura e a vigilância do Estado sobre o cidadão. O co-fundador da empresa Sergey Brin, que passou os primeiros seis anos de vida na União Soviética e teria apreço pelas liberdades democráticas, teria influído na decisão. Agora, o dinheiro falou mais alto.

domingo, 8 de julho de 2018

Corrida tecnológica alimenta guerra comercial entre EUA e China

Depois de meses de ameaças, desde sexta-feira, os Estados Unidos e a China estão impondo tarifas de 25% sobre produtos importados no valor anual equivalente a US$ 34 bilhões em importações do outro. Enquanto carros e produtos agrícolas são sobretaxados, há uma corrida tecnológica com implicações não só econômicas, mas de segurança nacional.

Nesta disputa pela supremacia mundial, está sendo travada uma batalha em torno do desenvolvimento da tecnologia 5G, a quinta geração da telefonia celular, que será o futuro da Internet móvel. Será possível baixar filmes em segundos e ir muito além da banda larga de alta velocidade, informa o canal americano de notícias econômicas CNBC.

A tecnologia 5G será a infraestrutura capaz de sustentar a Internet das coisas, ligando bilhões de equipamentos eletroeletrônicos entre si no mundo inteiro, as cidades inteligentes e os veículos sem motorista. Em 2035, deve gerar uma riqueza de US$ 12,3 trilhões.

Na análise da CNBC, a tecnologia 5G é central tanto para o projeto do presidente Donald Trump de "fazer os EUA grandes de novo" quanto para a meta do ditador Xi Jinping de tornar a China em líder mundial em inteligência artificial.

A Internet móvel exige padrões universais. As especificações foram acertadas em dezembro de 2017. Agora, começa a corrida entre empresas como as chinesas ZTE e Huawei, as europeias Ericsson e Nokia e grupos americanos para desenvolver os equipamentos. Os fabricantes americanos de microchips, como Intel e Qualcomm, também entram nesta batalha, parte da guerra comercial.

É uma luta para ver "quem vai definir e controlar o modelo, a arquitetura e a agenda da tecnologia 5G", observou Declan Ganley, diretor-geral da empresa telecomunicações Rivada Networks. "É importante porque 5G é o oceano azul de águas profundas do domínio cibernético", que é "um dos mais importantes do mundo."

Ganley é crítico da maneira como o espectro eletromagnético é alocado. Nos EUA, as empresas de telecomunicações disputam espaço em leilões realizados pela Comissão Federal de Comunicações, órgão do governo. Em outros países, o órgão regulador distribui as concessões como quiser.

Esse modelo autoritário e centralizado, de cima para baixo, tende a criar grandes empresas, que têm mais dinheiro para investir, enquanto as companhias da Europa e dos EUA competem entre si pelos consumidores. Na sua opinião, isso matou a inovação, principalmente das empresas europeias que dominavam a telefonia celular.

"Por causa da maneira como o espectro é alocado, adotamos um modelo de cima para baixo como não se via desde o feudalismo. Recriamos uma estrutura de cima para baixo que se tornou uma parte fundamental de nossa economia", criticou o diretor da Rivada.

A organização de cima para baixo é a mesma do regime comunista chinês, que controla o mercado com poucas grandes empresas que têm assim muito mais capital para investir na corrida tecnológica e podem assumir a liderança na tecnologia 5G. Ele entende que é preciso mudar o sistema, autorizando as empresas a atender à demanda onde e quando houver.

A China está na frente e Ganley acredita que os EUA têm pouco mais de um ano para equilibrar o jogo.

sábado, 5 de maio de 2018

Câmara dos Lordes propõe Carta Magna para a era digital

Depois de seis meses de trabalho, a Comissão Especial para Inteligência Artificial da Câmara dos Lordes do Parlamento Britânico propôs a elaboração de uma Carta Magna para regulamentar internacionalmente as grandes empresas da Internet e a inteligência artificial, informou o jornal digital americano The Huffington Post.

"Em 1215, a Inglaterra adotou a Magna Carta para impedir os reis de abusarem de seus poderes. Hoje os novos reis são as grandes empresas de alta tecnologia e, como séculos atrás, precisamos de uma carta para governá-los", escreveu o sociólogo e lorde Anthony Giddens, ex-diretor da London School of Economics e membro do comitê que estudou o assunto.

A carta estabeleceria princípios para o desenvolvimento da inteligência artificial no mundo inteiro. Os pontos principais seriam:

• Deve ser desenvolvimento para o bem comum.
• Operar de acordo com os princípios de inteligibilidade e transparência: os usuários devem ser capazes de entender facilmente os termos nos quais seus dados pessoais serão usados.
• Respeitar o direito à privacidade.
• Ser baseada em mudanças profundas na educação. O ensino exige reformas para utilizar os recursos digitais, e os estudantes devem aprender não apenas as habilidades digitais, mas também como desenvolver uma perspectiva crítica on-line.
• Nunca ter o poder autônomo para ferir, destruir ou enganar seres humanos.

Giddens entende que "a revolução digital é a força mais dinâmica hoje no mundo. Afeta tudo, das intimidades da vida cotidiana aos conflitos geopolíticos e uniu o mundo como nunca antes. Mas, ao mesmo tempo, fratura e divide. A inteligência artificial e a Internet são as duas forças gêmeas que dirigem estas mudanças."

O sociólogo vê a inteligência artificial entrando numa terceira fase. Na primeira, dos esforços de Alan Turing para decifrar os códigos secretos da Alemanha na Segunda Guerra Mundial até o fim dos anos 1980s, o domínio foi dos governos e da academia.

Na segunda fase, o mercado toma conta do processo com a ascensão das empresas do Vale do Silício, na Califórnia, com a máxima de "mova-se rapidamente e quebre coisas". As novas empresas de Internet fazem novos bilionários.

Nesta terceira fase, o ex-diretor da LSE acredita ser fundamental maior participação do Estado e do público em geral: "Por um momento, os avanços positivos das tecnologias digitais - maior conexão entre amigos ou acadêmicos, a análise de uma massa de dados sobre o código genético, a conveniência de comprar on-line - tomaram o palco principal."

A ilusão de que não haveria problemas fez parte da euforia inicial com a revolução tecnológica: "Mas os aspectos negativos provaram ser profundos, mesmo que tomem tempo para aflorar", pondera Giddens. "Eles incluem ameaçam ao próprio tecido da nossa democracia - movimentos on-line que desafiam ou até mesmo substituem. Estão emergindo ao mesmo tempo em que há dramáticos avanços na inteligência das máquinas."

O desafio, acrescenta, é corrigir os erros preservando o dinamismo e a inovação.

A tarefa de negociar um acordo internacional para regulamentar o desenvolvimento da inteligência artificial em bases éticas é gigantesca. "As notícias falsas não são apenas um problema estrutura profundo da era digital; foram transformadas diretamente em armas pela Rússia e outros países", observa Giddens.

Como a China também tem um regime ditatorial que usa a Internet para vigiar e policiar seus cidadãos, tem a maior capacidade em supercomputadores do mundo e deve assumir a liderança tecnológica em inteligência artificial, um acordo global é ainda mais difícil.

A corrida tecnológica é a parte central do conflito geoestratégico e da luta pela liderança internacional entre os Estados Unidos e a China.

"As vantagens da revolução são enormes e remodelaram nossas vidas, em muitos aspectos para melhor. Como nas revoluções tecnológicas anteriores, as sociedades precisam encontrar uma maneira de colher os benefícios da inovação enquanto contêm seus problemas e riscos", concluiu Giddens. "Uma carta que proteja os direitos e liberdades dos cidadãos - uma Carta Magna para a era digital - é um bom começo."