domingo, 29 de outubro de 2006

Amorim: relações com EUA nunca foram tão boas

Apesar de não ter havido acordo para criar a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), as relações do Brasil com os Estados Unidos nunca foram tão boas, afirma o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, candidatíssimo a permanecer no cargo no segundo governo Lula.

Em entrevista ao jornal O Globo deste domingo, o chanceler declarou que "a Alca realmente acabou. A Alca, como foi concebida, acabou. Isso não significa um fracasso. Se fosse do jeito que estava, a indústria naval brasileira não estaria produzindo plataformas de petróleo, as indústrias farmacêuticas brasileiras estariam sofrendo mais pressão do que ainda sofrem, por causa da lei de patentes, os subsídios continuariam e seríamos obrigados a comprar produtos americanos subsidiados como aconteceu no TLC (Tratado de Livre Comércio) firmado entre os EUA e a Colômbia. Esta Alca não servia. Os prejuízos de uma Alca, tal como estava concebida, eram infinitamente maiores do que os benefícios. O Brasil não pode perder a prerrogativa de usar o seu mercado e as compras do Estado como instrumento de política industrial".

O chanceler negou que o Brasil esteja ficando isolado, ao lado da Argentina e da Venezuela. Seriam os três países que não fariam acordos bilaterais de comércio com os EUA, afirmando que as exportações cresceram, no primeiro semestre de 2006, em comparação com o primeiro semestre de 2002, 258% para a América do Sul, 220% para o conjunto da América Latina e 332% para o Mercosul: "Um país que fez um acordo com os EUA, como o Peru, importou 139% mais do Brasil este ano. No caso da Colômbia, que é muito ligada aos americanos, o aumento foi de 95%. É claro que não estamos ficando isolados. Ao contrário."

Outro argumento do embaixador Celso Amorim: "Vocês já viram alguma vez tantas autoridades americanas vindo ao Brasil? Somente a representante comercial dos EUA, Susan Schwab, esteve aqui duas vezes em cinco semanas. Temos boas relações com o presidente George W. Bush, pragmáticas e diretas. Falo com [a secretária de Estado americana] Condoleezza Rice com grande freqüência. Em diversas ocasiões, é ela quem me telefona e não é para falar de abobrinha. Conversamos sobre Haiti, américa do sul, Coréia do Norte, Líbano".

Celso Amorim confia numa conclusão da Rodada Doha de negociações de liberalização comercial da Organização Mundial do Comércio (OMC), mesmo que demore: "Conseguimos, por exemplo, uma data final para os subsídios à exportação agrícola, em 2013. Além disso, está consagrado o princípio de que os subsídios internos têm de cair em termos reais".

Ele admite que é preciso "aprofundar" as relações com os EUA, e uma das principais críticas à política externa do primeiro governo Lula era o antiamericanismo, uma certa ideologização para reforçar as credenciais de esquerda de um governo conservador em política econômica: "É preciso aprofundar as relações com os EUA mas nunca de forma unidirecional, é com todo o mundo. Vivemos em um mundo multipolar e temos que aproveitar esta multipolaridade tanto econômica como politicamente".

Entre os novos parceiros de quem o Brasil pretende se aproximar, Amorim citou o Sudeste da Ásia, o Pacífico, a Austrália e a Europa Oriental. Entre as áreas prioritárias para cooperação internacional, biocombustíveis, defesa e eletroeletrônica.

O ministro admitiu que há problemas no Mercosul e na região: "Com exceção da Bolívia, por causa do gás, o Brasil tem superávit com todos os países da América do Sul." E defendeu o reconhecimento da China como uma economia de mercado: "Não teríamos vendido aviões da Embraer se não tivéssemos reconhecido a China como uma economia de mercado. Também não teríamos resolvido o problema da soja. (...) Você não pode esperar vender US$ 8 bilhões para a China e fechar totalmente o nosso mercado."

Um comentário:

cristiano fagundes disse...

Porque afastar Samuel Pinheiro e Marco Aurélio se as relações com os EUA estão ótimas?