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terça-feira, 13 de maio de 2025

Morre Mujica, ex-guerrilheiro que modernizou a esquerda

 O ex-presidente do Uruguai José Pepe Mujica morreu hoje aos 89 de um câncer no esôfago diagnosticado no ano passado. Ex-guerrilheiro que abraçou plenamente a democracia, foi um exemplo de humildade, honestidade e coerência para a modernização da esquerda na América Latina. Criticou os regimes ditatoriais da Nicarágua e da Venezuela. Legalizou o aborto, a maconha e o casamento gay.

José Alberto Mujica Cordano nasceu em Montevidéu em 20 de maio de 1935 numa família de pequenos agricultores. Nos anos 1960, aderiu ao grupo guerrilheiro Movimento de Libertação Nacional os Tupamaros, inspirado pela Revolução Cubana. Foi o único presidente latino-americano que se envolveu diretamente em combate. 

Em 8 de outubro de 1969, participou da Tomada de Pando, quando os tupamaros assumiram o controle da delegacia de polícia, do quartel dos bombeiros e de vários bancos da cidade, situada a cerca de 30 quilômetros da capital.

Mujica foi preso em 1972 como a maioria dos tupamaros, ferozmente perseguidos pela ditadura cívico-militar instalada em 1973. Foi ferido por seis tiros, preso quatro vezes e torturado. Conseguiu fugir duas vezes da prisão de Punta Carretas. Passou 13 anos preso, sete numa solitária. Em entrevista a Pedro Bial, disse que não enlouqueceu na solitária porque "já era um tanto louco". Nunca foi julgado.

Com a redemocratização do Uruguai em 1985, Mujica foi eleito senador em 1989. No primeiro governo da Frente Ampla, de esquerda, de Tabaré Vázquez (2005-10), foi ministro da Pecuária, Agricultura e Pesca (2005-8). Eleito presidente em 2009, governou o país de 2010 a 2015, tornando-se um exemplo para o mundo.

Como presidente, ganhava 230 mil pesos uruguaios, pouco mais de R$ 22 mil, e doava quase 70% para o partido e para obras sociais, a ponto de ser chamado de "presidente mais pobre do mundo". Não quis morar no palácio. Viveu sempre na sua granja no Rincón del Cerro, na zona rural de Montevidéu, onde cultivava flores e hortaliças. Andava sempre no seu fusquinha.

"Por sorte tenho uma esposa que banca das despesas", declarou na época, num agradecimento à ex-militante e senadora Lucía Topolanski, sua companheira desde os anos 1970.

Depois da Presidência, foi eleito senador por dois mandatos. Deixou o Congresso durante a pandemia da covid-19.

Durante entrevista em 9 de janeiro deste ano, Mujica revelou que mesmo depois de 32 sessões de radioterapia o câncer atingira o fígado, estava morrendo e não daria mais entrevistas. E concluiu: "O guerreiro tem direito a seu descanso."

Algumas frases resumem o pensamento político deste herói da esquerda latino-americana:

"Quando você vai comprar algo, não paga com dinheiro, paga com um tempo de sua vida que teve que gastar para ter esse dinheiro." 

 "O deus mercado organiza a economia, a vida e financia a aparência de felicidade. Parece que nascemos só para consumir e consumir. E quando não podemos, carregamos frustração, pobreza e autoexclusão." 

"Os que comem bem, acham que se gasta demasiado em política social." 

"Os setores proprietários dizem que não se deve dar o peixe, mas ensinar as pessoas a pescar. Mas quando destroçamos seu barco, roubamos sua vara e tiramos seus anzóis, é preciso começar dando-lhes o peixe." 

"A Humanidade precisa trabalhar menos, ter mais tempo livre e ser mais pé no chão."

"Pensávamos que era só chegar ao governo e construir uma sociedade mais justa. Descobrimos que isso é impossível. A verdadeira transformação política deve acontecer de baixo para cima, com a democracia."  ⁠

"Ser de esquerda é ter uma posição filosófica perante a vida onde a solidariedade prevalece sobre o egoísmo." 

"O casamento gay é mais velho do que o mundo. Tivemos de Júlio César a Alexandre, o Grande. Dizem que é moderno e é mais antigo do que todos nós. É uma realidade objetiva. Existe. E não legalizar seria torturar as pessoas desnecessariamente". 

"Me chamam de o presidente mais pobre do mundo, mas eu não sou um presidente pobre. Pessoas pobres são aquelas que sempre precisam de mais, aqueles que nunca têm o suficiente, porque estão num ciclo infinito. Escolhi esse estilo de vida austero, escolhi não ter muitas coisas, para que eu tenha tempo de viver como quero viver." 

"O que uns chamam de crise ecológica é consequência da ambição humana, este é nosso triunfo e nossa derrota." 

⁠"Havia 40 milhões de probabilidades de nascer outro e foi você. Esse é o único milagre que existe lá em cima. Provavelmente viemos do nada e vamos para o nada. É preciso se comprometer com a vida." 

"[A morte] é uma senhora de quem não gostamos, e que não queremos, mas que inevitavelmente vai chegar em algum momento. Portanto, temos que nos resignar. Todos os seres vivos são feitos para lutar pela vida: desde uma erva daninha, um sapo e até nós. Chega-se à conclusão de que isso serve para dar sabor à vida, pois, como dizia o velho Aristóteles: tudo o que a natureza faz é bem feito."

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Onda verde nas eleições municipais na França

Ao ganhar as eleições municipais em Lyon, Bordéus, Estrasburgo, Poitiers, Besançon, Annecy e Grenoble, e apoiar os candidatos vencedores em Paris, Marselha e Montpellier, os verdes se impõem como uma grande força política na França de oposição ao presidente Emmanuel Macron, noticiou o jornal Le Monde.

O partido Europa Ecologia-Os Verdes (EELV), fundado em 2010 por Daniel Cohn-Bendit, Dani le Rouge, líder da Revolução dos Estudantes de Maio de 1968, sem deputados na Assembleia Nacional, foi o grande vitorioso das eleições municipais francesas, cujo segundo turno foi disputado ontem. Em Paris, apoiou a reeleição da prefeita socialista Anne Hidalgo, com 49% dos votos.

Foi uma derrota para A República em Marcha (LREM), o partido do presidente Macron. Uma aliança de esquerda se reconstitui, pressionando o presidente, que foi ministro das Finanças do presidente socialista François Hollande (2012-17), a se alinhar à centro-direita.

O primeiro-ministro Edouard Philippe, que veio do partido gaullista Os Republicanos (LR), salvou a honra do governo ganhando em Le Havre. Com vitórias em Nice e Toulouse, LR se firma como o partido dominante nas cidades de médio porte, com mais de 9 mil habitantes.

A Reunião Nacional, de extrema direita, conquistou em Perpignan, na fronteira com a Espanha, sua segunda vitória numa grande cidade, de mais de 100 mil habitantes, depois de vencer em Toulon em 1995. No primeiro turno, havia confirmado o controle sobre 7 das 11 cidades onde venceu em 2014. Ganhou mais duas e perdeu duas no domingo.

Havia rumores de que Macron poderia demiti-lo em caso de derrota do governo, mas Philippe se tornou mais popular do que o presidente, considerado arrogante e elitista, durante a quarentena. Se for afastado, pode desafiar Macron na eleição presidencial de 2022. Em pesquisa do jornal direitista Le Figaro, 75% apoiam a manutenção de Philippe na chefia do governo.

"Isto lembra as eleições municipais de 1977", quando a esquerda ganhou, antecipando a vitória do socialista François Mitterrand na eleição presidencial de 1981, festejou o secretário-geral do partido, Julian Bayou.

"Apesar das coalizões anticlima, apesar dos insultos na campanha, os prefeitos ecologistas foram reeleitos e novas vitórias permitem à ecologia se ancorar duradouramente em numerosas cidades e grandes metrópoles - e também em numerosas vilas e bairros populares", acrescentou.

Para o eurodeputado verde Yannick Jadot, uma das estrelas do partido, "é uma virada política em nosso país. A paisagem se recompõe ao redor da ecologia, de um projeto rico. É uma reação à impotência e à falta de escolhas do governo nas questões ecológicas e sociais, à verticalidade de seu poder."

Mesmo com uma abstenção recorde (60%) e um grande intervalo desde o primeiro turno, em 15 de março, o adiamento por causa do confinamento imposto pela pandemia do novo coronavírus não tirou o ímpeto do movimento verde. 

Ao contrário. "A leitura da pandemia se fez ao redor da ecologia, com o questionamento dos estilos de vida e de consumo que metem à prova nossos ecossistemas", analisou o diretor do Departamento de Opnião do Instituto Francês de Opinião Pública (IFOP), Jérôme Fourquet, coautor do livro Em Imersão: uma pesquisa sobre uma sociedade confinada.

Na sua opinião, "o confinamento foi um acelerador. As pessoas querem mais localismo e uma baixa do consumo frenético. Esse período reforçou os temas do EELV."

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Valls é o favorito da eleição primária da esquerda na França

O ex-primeiro-ministro Manuel Valls desponta como favorito para a eleição primária para escolher o candidato da centro-esquerda à Presidência da França em 2017, seguido pelo ex-ministro da Economia Arnaud Montebourg.

Em pesquisa do instituto Harris Interactive para a televisão francesa, Valls teve 45% das preferências e Montebourg, 28%. Depois, vieram Benoît Hamon (11%), Gérard Filoche (6%), Marie-Noëlle Lieneman (5%), Pierre Larrouturou (3%), Jean-Luc Bennahmias (1%) e François de Rugy (1%).

A eleição primária do Partido Socialista será realizada em dois turnos, em 22 e 29 de janeiro. Até lá, mais candidatos podem se inscrever.

Antes da desistência do presidente François Hollande de concorrer à reeleição, o presidente da Assembleia Nacional da França, o deputado socialista Claude Bortolone, pediu a Hollande, Valls, ao ex-ministro da Economia Emmanuel Macron e o líder da Frente de Esquerda, Jean-Luc Mélenchon, participem da primária socialista para que a esquerda tenha um candidato forte no próximo ano.

No momento, por causa da baixíssima popularidade do presidente, que caiu a 4%, as pesquisas indicam que a esquerda não passa do primeiro turno, marcado para 23 de abril. O segundo turno, em 7 de maio, seria disputado pelo candidato de centro-direita, François Fillon, do partido Os Republicanos, e a líder da neofascista Frente Nacional.

domingo, 27 de novembro de 2016

Líder do PS quer Hollande, Valls e Macron na primária da esquerda

O presidente da Assembleia Nacional da França, o deputado socialista Claude Bartolone, defendeu no fim de semana a participação do presidente François Holande, do primeiro-ministro Manuel Valls, do ex-ministro da Economia Emmanuel Macron e do líder da Frente de Esquerda, Jean-Luc Mélenchon, na eleição primária da esquerda, marcada para 22 e 29 de janeiro. O objetivo é ter uma candidatura forte, capaz de chegar ao segundo turno.

Com a impopularidade de Hollande pouco acima de 10%, as pesquisas indicam que o Partido Socialista pode perder a eleição presidencial de 2017 no primeiro turno, marcado para 23 de abril. Marine Le Pen, da neofascista Frente Nacional, disputaria o Palácio Eliseu com o ex-primeiro-ministro François Fillon, consagrado ontem como o candidato de centro-direita.

Em condições normais, não haveria uma eleição primária do PS. O presidente seria candidato natural à reeleição, mas a expectativa de uma derrota esmagadora assusta o partido. Com um debate entre presidente e primeiro-ministro, argumentou Bortolone, haveria um "eletrochoque" numa esquerda que parece aceitar a derrota como inevitável.

"Eu não sei em que votar, mas sei uma coisa: não será uma pequena primária que pode nos salvar", declarou no sábado o presidente da Assembleia Nacional. "Gostaria que Macron participasse da primária, que Valls participasse da primária, que Hollande participasse da primária, que Mélenchon venha exprimir suas diferenças no seio da primária."

Hollande prometeu anunciar sua decisão até 15 de dezembro. Ele apostava numa queda do desemprego para turbinar sua candidatura. O anúncio do primeiro-ministro Valls de que vai participar da primária da esquerda é de certa forma uma traição ao chefe, mas dá um alívio ao partido, que pode assim ter um candidato mais competitivo.

Dificilmente Mélenchon vai se aproximar de um PS que usou um mecanismo excepcional para reformar a lei do trabalho sem votação na Assembleia Nacional, reduzindo direitos, algo inaceitável para a ultraesquerda. No fim de semana, 54% do Partido Comunista Francês (PCF) preferiram apoiar Mélenchon e sua Frente de Esquerda em vez de lançar seu próprio candidato ao Palácio do Eliseu.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Governo de Portugal perde maioria em eleições parlamentares

A coalizão de centro-direita do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho venceu as eleições parlamentares de domingo, mas elegeu apenas 104 dos 230 deputados, perdendo a maioria na Assembleia da República.

Sob a liderança do ex-prefeito de Lisboa António Costa, o Partido Socialista (PS) elegeu 85 deputados com uma campanha denunciado o programa de ajuste fiscal imposto pelos credores em troca de um empréstimo de 78 bilhões de euros. A liderança de Costa pode ser desafiada, noticiou o jornal português Público, que observou um avanço de alianças mais à esquerda.

O Bloco de Esquerda e a Coligação Democrática Unitária (CDU), formada pelo Partido Comunista Português (PCP) e os Verdes, conquistaram 36 cadeiras. Se as esquerdas se unirem, podem barrar a coalizão de Passos Coelho, entre o Partido Social-Democrata (PSD) e o Centro Democrático-Social (CDS).

No fim da noite de ontem, o primeiro-ministro anunciou que pretende chegar a um acordo com o PS para formar um governo minoritário e obter apoio da oposição mais moderada para ajudar Portugal a sair da crise.

"Nossas obrigações como governo nos obrigam a deixar de lado as bandeiras partidárias e nos unir a todos que querem construir um país melhor", declarou Passos Coelho.

Depois do acordo com os credores, em 2011, Portugal voltou a crescer, mas ainda não chegou ao nível anterior à crise. A economia avança hoje num ritmo de 1,5% ao ano. O desemprego caiu de 17,5% para 11,9%.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Dois atentados terroristas deixam cinco mortos em Istambul

A explosão de um carro-bomba em frente a uma delegacia de polícia seguida de uma tentativa de atacá-la terminou com a morte de um policial e dois terroristas no distrito de Sultanbeili, em Istambul. Em seguida, os rebeldes atacaram a cena do crime, matando o chefe da equipe de desarme de bombas.

Pouco depois do segundo ataque contra a polícia, outro grupo de terroristas atacou o Consulado dos Estados Unidos em Istambul. Nenhum grupo reivindicou a autoria do atentado. Pelos métodos de ação e os alvos escolhidos, as autoridades suspeitam do Frente-Partido de Libertação Popular Revolucionário (DHKP-C), uma organização extremista de esquerda da Turquia.

Ao entrar na guerra contra a milícia terrorista Estado Islâmico do Iraque e do Levante, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, aproveitou a oportunidade para atacar o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

Na luta contra os curdos Erdogan tem  dois objetivos:
• impedir a união da região autônoma curda no Iraque com as áreas dominadas pelos curdos na Síria, junto à fronteira da Turquia;
• e minar o apoio interno ao Partido Democrático Popular (HDP), curdo, que obteve 13% dos votos nas últimas eleições tirando.

Entre as centenas de presos, além de ativistas curdos e do Estado Islâmico, há membros do DHKP-C. O grupo radical de esquerda ressurgiu durante as manifestações de massa contra Erdogan em 2013 em Istambul, quando o então primeiro-ministro quis construir numa as principais áreas verdes da maior cidade do país.

Em fevereiro de 2013, o DHKP-C fez um atentado suicida contra a Embaixada dos EUA em Ancara. Em março de 2015, dois militantes invadiram o Tribunal de Justiça de Istambul e tomaram o procurador Mehmet Selim Kiraz como refém. Depois de seis horas de cerco, a polícia invadiu o prédio, matou os terroristas e o procurador.

A Turquia enfrenta múltiplas ameaças terroristas. Ontem, militantes do PKK mataram quatro policiais quando seu veículo blindado passou sobre uma mina na província de Sirnak, no Sudeste do país.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Governo da França sobrevive a moção de desconfiança

O governo do primeiro-ministro socialista Manuel Valls sobreviveu hoje a um voto de desconfiança da Assembleia Nacional da França por ter aprovado uma reforma trabalhista por decreto..

A moção precisava de 289 votos. Teve 234. Foi proposta porque o governo aprovou por decreto a chamada Lei Macron, que autoriza a abertura do comércio aos domingos em certas áreas e traz benefícios a empresa na expectativa de reduzir o desemprego.

Com a derrota da moção de desconfiança, a Lei do Crescimento, da Atividade e da Igualdade de Oportunidades está aprovada em primeira votação. É mais conhecida como Lei Macron, por ter sido apresentada pelo atual ministro da Economia, Emmanuel Macron, considerado liberal demais pela esquerda do Partido Socialista.

O projeto semeou a discórdia no PS entre centristas como o presidente François Hollande e o primeiro-ministro Valls e a esquerda. É uma amostra de como é difícil reformar o pesado Estado francês, especialmente as relações trabalhistas.

Durante o debate na Assembleia Nacional, Macron acusou a ala mais esquerdista de ser a favor da situação atual, em que o índice de desemprego está em 10% e, entre os jovens, em 25%. O projeto segue agora para o Senado.

domingo, 14 de setembro de 2014

Esquerda volta ao poder na Suécia

Apuradas mais da metade das urnas nas eleições parlamentares da Suécia, as projeções indicam a vitória do Partido Social-Democrata e seus aliados, com 43,7% dos votos.

O novo primeiro-ministro deve ser o líder do partido, Stefan Lofven. Depois de oito anos de governos conservadores, ele promete combater o desemprego e o declínio dos níveis de educação: "Estamos numa situação difícil, com milhares de desempregados e desempenho escolar declinando mais do que em qualquer outro país da OCDE" (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico).

Os Democratas de Suécia, de extrema direita, com origem no movimento neonazista, ficaram em terceiro lugar, com 13%.

sábado, 2 de novembro de 2013

Governos estão perdidos diante dos black blocs

É por causa da atitude dúbia, pusilânime e covarde do ministro Gilberto Carvalho, ao querer dialogar com os black blocs, acobertada por ideólogos petistas com ideias confusas como as do sociólogo André Singer, professor da Universidade de S. Paulo e ex-porta-voz do presidente Lula, na Folha de S. Paulo de hoje, que, sete meses depois que as manifestações de rua começaram, em abril, em Porto Alegre, onde os preços das passagens de ônibus caíram primeiro, as autoridades não sabem separar manifestantes democráticos de violentos.

Se é para dialogar com criminosos, por que não o Marcola e o Fernandinho Beira-Mar?

Ontem, a presidente Dilma Rousseff disse claramente o que são esses mascarados que promovem quebra-quebras: fascistas. Suas palavras precisam se transformar em prisões, processos e punições.

Quem pratica a violência, só aceitável numa sociedade democrática em legítima defesa, deve ser preso, processado e enjaulado. Se a Folha acha que réus que não cometeram crimes violentos, como os do Mensalão, não merecem ir para a cadeia, o mesmo não se pode falar dos black blocs.

A Grécia, por exemplo, se nega a acobertar os crimes da nova extrema direita europeia, no seu caso, o partido Aurora Dourada, que teve vários dirigentes e parlamentares presos por incitar à violência.

É simples. Não precisa mistificar. Todos sabem que o Brasil tem profundos problemas sociais que os governos petistas tangenciaram até agora, exatamente os que a população cobra nas ruas: mais educação, mais saúde, hospitais públicos que funcionem, transporte de massa nas grandes cidades e combate à corrupção.

Sinceramente, em qual desses setores alguém é capaz de apontar avanços sob os governos petistas? Lula chegou a dizer que o SUS funcionava bem. É o mesmo que Dilma dizendo que a miséria acabou. A quem querem enganar? Por quanto tempo?

Quem está fechando os espaços de manifestação pública são justamente os anarquistas de Internet: não têm propostas, não têm ideologia, a não ser um vago anticapitalismo inconsequente que se limita a atacar símbolos do poder, mas ganharam a batalha das ruas, expulsando os manifestantes com reivindicações legítimas.

É lamentável que intelectuais passem a mão na cabeça de quem comete crimes e expulsou os democratas da rua para travar suas batalhas campais com a polícia, extremamente violenta e incompetente. Foram necessários sete meses para o ministro da Justiça e os secretários de Segurança tomarem uma atitude conjunta.

É muita incompetência de alto a baixo, além de incorporar uma visão messiânica, mística e religiosa segundo a qual "a História marcha para o socialismo", embora tudo aponte noutra direção desde a queda do Muro de Berlim.

Em artigo sobre a reeleição de Angela Merkel, lamentando a vitória conservadora na Alemanha, Singer pressupôs há duas semanas que a esquerda tem o monopólio da bondade. Se o objetivo de qualquer governo é promover o bem-estar social, na Ásia, o capitalismo tirou 800 milhões de pessoas da miséria nas últimas décadas, sobretudo na China, na Índia, na Indonésia e no Vietnã.

O que a esquerda latino-americana tem a contrapor? Dezenas de milhões saíram da miséria com programas de transferência de renda que avassalam as pobres sem emancipá-los, ensinando-os a se sustentar com seus próprios meios. A crise econômica causada pela incompetência da esquerda atrasada latino-americana em promover o crescimento econômico ameaça esses logros, que não são conquistas porque não se sustentam.

Se o projeto da esquerda é a emancipação humana, o capitalismo está ganhando a parada.

Basta ver a Venezuela, onde o patético presidente Nicolás Maduro está vendo a imagem de Hugo Chávez se formar por milagre nas paredes do metrô em obras. A idiotia latino-americana não tem limites. É deste lado que os governos petistas se colocaram por opção.

Mais desanimador ainda para a esquerda é a incapacidade do presidente socialista François Hollande de tomar qualquer medida capaz de tirar a França da crise e da decadência. Onde estão as ideias esquerdistas do único país europeu que tentou sair da crise pela esquerda? 

Só uma social-democracia moderada que aceite a economia de mercado, como no governo de Gerhard Schröder, na Alemanha, será capaz de preservar modelo europeu, a chamada economia social de mercado, diante da concorrência dos asiáticos.

Em vez de seguir esse caminho, no Brasil uma esquerda sem rumo sonha numa relação estratégica com a China, na prática uma relação neocolonialista em que vendemos produtos primários e compramos industrializados, bajula ditadores e flerta com o bolivarismo, que está em colapso na Venezuela.

A grande questão da esquerda pós-muro é se a democracia é um valor fundamental ou se é apenas uma etapa para a tomada do poder. Parece-me evidente que o PT e a esquerda latino-americana de modo geral ainda não resolveram esta questão.

domingo, 22 de setembro de 2013

Merkel vence eleições na Alemanha

A conservadora União Democrata-Cristã (CDU), da chanceler (primeira-ministra) Angela Merkel, e sua aliada na Baviera, a União Social-Cristã (CSU), ganharam as eleições parlamentares deste domingo na Alemanha com 41,5% dos votos.

Foi o segundo melhor resultado da aliança desde a reunificação do país, em 1990, oito pontos percentuais acima das eleições de 2009. Dá a Merkel um terceiro mandato consecutivo de quatro anos para governar o país mais rico da Europa e liderar a União Europeia, que ainda não saiu da crise econômica.

Em segundo lugar, com 25,7%, ficou o Partido Social-Democrata (SPD), seguido por A Esquerda (8,5%) e Os Verdes (8%). Os liberais-democratas do FDP, aliados de Merkel no atual governo, e o partido antieuropeu Alternativa para a Alemanha (AfD) lutam para chegar aos 5% mínimos para conseguir representação na Câmara Federal.

Com os problemas do FDP, que está com apenas 4,7% dos votos, não está certo se a coligação de centro-direita terá condições de formar o novo governo ou se Merkel terá de se aliar ao SPD, refazendo a grande coalizão que comandou a Alemanha em seu primeiro governo, de 2005 a 2009.

Os sociais-democratas exigem a introdução de um salário mínimo para aderir ao governo. Mas algumas projeções indicam que Merkel poderia ter maioria absoluta sem o FDP. Desde 1945, só o democrata-cristão Konrad Adenauer conseguiu maioria absoluta, em 1957.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Presidente manda Bersani formar governo na Itália

O presidente Giorgio Napolitano pediu hoje formalmente ao líder da aliança de esquerda, Pier Luigi Bersani, para tentar formar um novo governo na Itália.

A esquerda venceu as eleições parlamentares de 24 e 25 de fevereiro para a Câmara, mas o Senado ficou dividido. Como o Movimento 5 Estrelas, do comediante Beppe Grillo, que obteve 25% dos votos, se negou a fazer alianças com os partidos tradicionais, criou-se um impasse político.

Na atual situação, os analistas preveem que a Itália terá de fazer novas eleições em curto prazo. A convocação de Bersani é provavelmente a última tentativa.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Direita só elege metade do Parlamento em Israel

Com 99% dos votos apurados, faltando apenas contar os de soldados e prisioneiros, as eleições parlamentares realizadas ontem em Israel resultaram num virtual empate entre direita e esquerda. Os partidos conservadores e religiosos terão 60 deputados na Knesset (Parlamento), enquanto o centro-esquerda e os partidos árabes terão a outra metade.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que pretende liderar o próximo governo apesar da perda de espaco, declarou que a prioridade deve ser a ameaça do programa nuclear do Irã, suspeito de desenvolver armas atômicas.

Confira o resultado no jornal liberal israelense Haaretz.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Boca de urna aponta resultado apertado em Israel

Ao contrário do previsto, as pesquisas de boca de urna indicam uma disputa apertada em Israel. Os partidos de direita teriam conquistado 61 cadeiras e a esquerda, 59. A coalizão Likud-Yisrael Beitenu, liderada pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, elegeria 31 deputados. Ele fica no poder, mas sai enfraquecido. Talvez tenha de formar uma ampla coalizão com partidos favoráveis à paz com os palestinos.

Em seguida, ficou um novo partido centrista favorável ao processo de paz, Yesh Atid (Existe Futuro), com 19 deputados, seguido do Partido Trabalhista com 17 e do ultranacionalista Habayit Hayehudi (Lar Judaico), com 12. Os partidos religiosos ultraortodoxos devem eleger 18 deputados. Confira a apuração no jornal liberal israelense Haaretz.

De certa forma, o resultado significa uma rejeição das políticas de ultradireita de Netanyahu e de seu boicote sistemático ao processo de paz com os palestinos, um tema praticamente ausente da campanha. A esquerda concentrou suas críticas ao governo em problemas sociais como desemprego, desigualdade social, falta de moradia popular.

Mais fraco, o primeiro-ministro não recebeu carta branca para atacar o programa nuclear do Irã sozinho e quando quiser, uma decisão que pretendia tomar neste ano. A maioria do Estado-Maior  e dos serviços secretos israelenses não quer ir à guerra se os Estados Unidos não forem junto.

A nomeação do senador John Kerry para secretário de Estado do segundo governo Barack Obama indica a decisão de optar pela diplomacia, recorrendo ao uso da força apenas em última instância, em contraste com o neoconservadorismo dos governos George W. Bush.

Ontem, em seu discurso de posse, Obama descreveu uns EUA como um país de possibilidades ilimitadas quando se livrar das guerras e da crise econômica herdadas do governo anterior. Não tem a intenção de entrar em novas guerras, como mostrou na Líbia, na Síria e agora no Máli.

O eleitorado israelense marchou para o centro em busca da paz.

domingo, 17 de junho de 2012

Esquerda conquista maioria no parlamento na França

O Partido Socialista e seus aliados terão maioria absoluta na Assembleia Nacional da França.  De um total de 577 deputados, a bancada de esquerda terá de 312 a 326, indicam as pesquisas divulgadas assim que fecharam as urnas do segundo turno das eleições legislativas, às 20 horas desde domingo em Paris (15h em Brasília).

A direita deve ficar com 220 a 230 cadeiras. A Frente Nacional, de extrema direita, deve eleger pelo menos dois deputados, voltando ao parlamento, onde não tinha representantes desde os anos 80. Os Verdes e a Europa Ecologie devem ter 19 cadeiras.

Ícones do PS francês como ex-candidata a presidente Ségolène Royal, ex-mulher do presidente Franbçois Hollande, que foi alfinetada pela atual, Valérie Trierweiler, e o ex-ministro da Cultura, Jack Lang, foram derrotados.

Também ficaram fora da Assembleia Nacional a líder da extrema direita, Marine Le Pen, o candidato centrista à Presidência François Bayrou e a ex-ministra da Justiça Michelle Alliot-Marie, que caiu por ser amiga, tirar férias e pegar carona em jatinhos do ex-ditador da Tunísia Zinedine ben Ali, informa o jornal francês Le Monde.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Hollande deve ter maioria absoluta no parlamento

O Partido Socialista e seus aliados de esquerda devem obter maioria absoluta na Assembleia Nacional da França no segundo turno das eleições legislativas, a ser realizado neste domingo, garantindo o apoio parlamentar ao presidente François Hollande, eleito em 6 de maio.

Pelas últimas pesquisas, a esquerda deve eleger entre 324 e 364 deputados na Assembleia, de 577 cadeiras. A maioria é de 289.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

UMP não fará alianças com esquerda e ultradireita

A União por um Movimento Popular (UMP), partido do ex-presidente Nicolas Sarkozy, declarou hoje que não vai apoiar candidatos nas disputas do segundo turno das eleições legislativas da França entre a esquerda e a Frente Nacional, de extrema direita.

Os resultados do primeiro turno, realizado ontem, com 47% dos votos para partidos de esquerda e 35% para os de centro-direita e 13,6% para a FN, indicam que o presidente socialista François Hollande, eleito em 6 de maio de 2012, terá maioria na futura Assembleia Nacional.

O segundo turno será realizado no próximo domingo, 17 de junho.

domingo, 10 de junho de 2012

Esquerda vence 1º turno na França com 47%

Com cerca de 47% dos votos, os partidos de esquerda venceram o primeiro turno das eleições legislativas da França, realizada neste domingo, anunciou a televisão francesa TV5 Monde assim que a votação foi encerrada. Isso consolida o poder do presidente socialista François Hollande, eleito em 6 de maio com uma plataforma de vencer a crise com crescimento econômico.

Pelas pesquisas de boca de urna, os partidos de centro-direita receberam 34% da votação e a Frente Nacional, de extrema direita, 13,6%. A abstenção de 42,77% de um total de 46 milhões de eleitores inscritos foi um recorde para a 5ª República, fundada pelo general Charles de Gaulle em 1958 para substituir o parlamentarismo por um semipresidencialismo.

Os resultados são apresentados desta maneira porque as esquerdas devem se unir sob a liderança do Partido Socialista no segundo turno, no próximo domingo, enquanto os partidos de centro-direita podem fazer alianças à esquerda para barrar candidatos da Frente Nacional e evitar que a extrema direita tenha representantes na Assembleia Nacional da França.

No sistema eleitoral francês, de voto distrital em dois turnos, esses percentuais devem garantir maioria parlamentar para o presidente socialista François Hollande. O primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault foi reeleito no primeiro turno. Já o líder da Frente de Esquerda, Jean-Luc Mélenchon, foi derrotado pela líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, e não vai para o segundo turno.

As projeções do jornal Le Monde e da Rádio France dão à esquerda de 305 a 353 deputados na nova Assembleia Nacional, contra 227 a 266 para a centro-direita e de zero a duas cadeiras, no máximo, para a ultradireita. A maioria absoluta exige pelo menos 289 deputados.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Esquerda lidera pesquisa sobre eleições na França

A cinco dias do primeiro turno das eleições parlamentares na França, uma pesquisa aponta a vitória da esquerda, mas o Partido Socialista terá de formar uma coalizão para ter maioria na Assembleia Nacional.

No primeiro turno, neste domingo, a aliança de centro-direita liderada pela União por um Movimento Popular (UMP), do ex-presidente Nicolas Sarkozy, ganharia com 34% dos votos contra 32,5% para a coligação chefiada pelo PS, indica a sondagem realizada pelo instituto Ipsos e a empresa Logica Business Consulting para a Radio France.

Se foram somados os 7% da Frente de Esquerda e os 6% dos Verdes, que devem apoiar os candidatos socialistas no segundo turno, a esquerda passa à frente com 45,5%. Já a coligação de centro-direita não deve fazer acordo com a Frente Nacional, de extrema direita, que deve receber 14% dos votos.

Assim, a nova Assembleia Nacional, de 577 cadeiras, deve ter uma bancada esquerdista de 303 a 357 deputados, enquanto a direita elegeria de 227 a 270 parlamentares. Na pesquisa anterior, realizada em 25 e 26 de maio, a esquerda liderava por 45% a 35%, noticia o jornal Le Monde.

As eleições parlamentares francesas são realizadas sob o sistema de voto distrital com dois turnos. O país e suas colônias ultramarinas são divididos em 577 distritos. Em cada um deles, é realizada uma eleição diferente, em dois turnos. Se ninguém obtiver maioria absoluta no primeiro turno, os dois mais votados se enfrentam num segundo turno. Isso permite a formação de coalizões entre os dois turnos.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Alemanha tem pior recessão desde 1945

O governo da Alemanha, quarta maior economia do mundo, previu hoje uma queda de 2,25% no produto interno bruto deste ano de 2009, depois de um crescimento de 1,3% no ano passado.

Com a crise, o total de desempregados chegou a 3,1 milhões. A expectativa é que 500 mil pessoas percam o emprego em 2009. A taxa de desemprego deve subir de 7,8% da população economicamente ativa no fim do ano passado para 8,4%.

A crise será o foco da campanha para as eleições parlamentares de 27 de setembro, que devem escolher os partidos para formar um novo governo.

No momento, há uma grande aliança dos dois maiores partidos alemães, a União Democrata-Cristã (CDU) da primeira-ministra Angela Merkel e o Partido Social-Democrata (SPD) do ministro do Exterior Frank-Walter Steinmeier.

A conservadora CDU gostaria de formar o governo com os liberais-democratas do FDP, mas talvez a coalizão não consiga maioria na Câmara Federal da Alemanha. O parceiro ideal do SPD é Os Verdes, o partido ecologista, na chamada coligação verde-vermelha.

Há um partido novo na jogada, A Esquerda, que reúne a dissidência da social-democracia liderada pelo ex-ministro das Finanças Oskar Lafontaine e o antigo Partido Comunista da Alemanha Oriental, reformado para se adaptar aos tempos modernos.

Assim, no momento, o mais provável parece uma reedição da grande aliança. A crise vai pesar na Alemanha e isso vai se refletir nas urnas quando chegar o outono no Hemisfério Norte.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Chávez critica Amorim e ameaça deixar Mercosul

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, considerou hoje "impertinentes" as declarações do ministro das Relações Exteriores do Brasil, embaixador Celso Amorim. O chanceler pediu um "gesto positivo" do caudilho venezuelano em relação ao Senado, que o ex-coronel golpista chamou de "papagaio dos Estados Unidos", depois que os senadores lhe pediram que reconsiderasse o fechamento da Radio Caracas Televisión (RCTV).

Mais uma vez, Chávez ameaçou retirar a proposta de associação da Venezuela como membro pleno do Mercosul se os parlamentos do Brasil e do Paraguai não aprovarem a adesão em três meses. Ele atribuiu as dificuldades a setores de "direita" no Brasil e no Paraguai.

"A Venezuela não tem nada de que se desculpar. É o Congresso do Brasil que tem que se desculpar por imiscuir-se nos assuntos internos da Venezuela. O chanceler Amorim via o mundo ao contrário", disse Chávez num discurso. "Se o governo ou o Congresso do Brasil insistem em que a Venezuela tem de apresentar uma desculpa, então não entraríamos no Mercosul", ameaçou Chávez.

Ao dar um ultimato ao Congresso Nacional, o caudilho torna praticamente impossível um recuo do Senado: "Se dentro de uns três meses [a adesão da Venezuela] não for aprovada, nos retiraremos por dignidade porque consideramos isso uma falta de respeito. Não há nenhuma razão para que o Congresso do Brasil bloqueie", argumentou Chávez. Ele não conhece o Congresso Nacional.

A diplomacia brasileira certamente sabia que Chávez não é de pedir desculpas. O governo Lula mudou o tom em relação ao líder venezuelano: de companheiro a caudilho. Se o chanceler Celso Amorim falou grosso, deveria esperar uma resposta dura de Chávez.

Uma explicação dos analistas é que a Venezuela estaria relutando em adotar a tarifa externa comum da união aduaneira imperfeita do Mercosul. Numa união aduaneira, os países-membros cobram as mesmas tarifas sobre importações de fora do bloco.

Os industriais venezuelanos, temendo a concorrência do Brasil e da Argentina, que têm economias muito mais desenvolvida, estariam pressionando Chávez. No mesmo discurso em que atacou o Brasil, o presidente da Venezuela prometeu proteger a economia de seu país.

Em comentário na manhã desta quarta-feira na rádio CBN, a jornalista Míriam Leitão assinalou que o maior problema hoje é que a Venezuela não cumpre mais a cláusula democrática do Mercosul. Na sua opinião, esta é uma questão muito mais séria do que o bate-boca entre Chávez e o Senado.

Apesar de ter vencido todas as eleições desde 1998, Chávez domina todas as instituições venezuelas, está reescrevendo a Constituição da República Bolivarista da Venezuela e violou a liberdade de expressão, ao não renovar a licença da principal televisão venezuelana, a RCTV.

Como diz a máxima do filósofo liberal francês do século 18 Jean-Baptiste Voltaire - "Discordo de tudo o que dizes, mas defenderei até a morte o direito de que o digas" -, a liberdade de expressão é uma pedra fundamental da democracia liberal. E já que Chávez se declara socialista, deve conhecer a máxima da militante comunista polonesa Rosa de Luxemburgo: "Liberdade é o direito que damos aos outros de fazer aquilo com o que não concordamos". Caso contrário, não é liberdade. Mas o caudilho venezuelano não gosta de ser contrariado.

Há também uma competição evidente entre Lula, o retirante e operário que chegou ao poder no maior país da América do Sul, e Chávez, o coronel golpista com idéias nacionalistas e e agora socialistas, pela liderança da esquerda na América Latina. Os projetos são incompatíveis.

O Brasil de Lula busca uma inserção competitiva na economia globalizada; Chávez quer construir o "socialismo do século 21. Sua pregação antiliberal, antiamericana e anticapitalista é um peso para o Mercosul, capaz de ofuscar a importância da Venezuela na América do Sul.

A União Européia sinalizou claramente, ao propor uma "parceria estratégica" com o Brasil, que a negociação bloco a bloco com o Mercosul de Chávez não avança.