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domingo, 2 de dezembro de 2018

Trump pretende retirar os EUA do Nafta

A bordo do avião presidencial Air Force One, na volta da reunião de cúpula do Grupo dos 20 em Buenos Aires, o presidente Donald Trump manifestou a intenção de retirar os Estados Unidos do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta). 

Isto dará seis meses para o Congresso aprovar o Acordo EUA-México-Canadá assinado na Argentina em 30 de novembro por Trump, o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, e o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau.

Com a manobra, o presidente americano pressiona o novo Congresso, com maioria da oposição democrata na Câmara de Representantes a aprovar o novo acordo. Se for rejeitado, não haverá mais o Nafta como alternativa.

Isto poderia criar um vácuo legislativo. Os EUA estariam fora da zona de livre comércio da América do Norte enquanto as leis que implementam o acordo continuariam em vigor. Como tem autoridade para regulamentar o comércio exterior do país, o Congresso poderia ignorar a decisão de Trump, mas corre o risco de ter de derrubar um veto presidencial.

Quando o presidente dos EUA consegue a chamada autoridade para promoção comercial, os acordos de comércio exterior passam por um processo de tramitação rápida no Congresso, que tem apenas 90 dias para aprovar ou rejeitar as propostas, sem a opção de emendar o texto acordado com outros países. Caso contrário, o acordo teria de ser renegociado indefinidamente.

 Ao sair do Nafta, Trump pressiona não só o Congresso dos EUA, mas também o Canadá e o México a ratificar o novo acordo. Nos três parlamentos, pode haver resistência.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Trump e Xi jantam juntos e anunciam trégua na guerra comercial

No último tango da reunião de cúpula do Grupo dos 20 em Buenos Aires, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o ditador da China, Xi Jinping, jantaram juntos e prometeram evitar uma escalada na guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo, não impondo novas tarifas a partir de 1º de janeiro, noticiou a televisão estatal chinesa. Em troca, a China ficou de aumentar "substancialmente as importações de produtos agrícolas, energéticos e industrias dos EUA, informou o jornal The Washington Post.

A guerra comercial entre os EUA e a China inquieta os investidores, que temem uma recessão mundial se o conflito se agravar. Antes da partida da delegação americana da Argentina, o principal assessor econômico da Casa Branca, Larry Kudlow, comentou que o encontrou foi "muito bem".

Os dois países concordaram em não impor novas tarifas por 90 dias e reiniciar "imediatamente" as negociações sobre a política industrial chinesa, inclusive licenciamento de tecnologia americana, roubo de segredos industriais e barreiras não tarifárias.

Em tom otimista, no começo do jantar, que durou mais de duas horas, Trump declarou que a relação que mantém com Xi é "muito especial", enquanto fotógrafos e cinegrafistas registravam imagens do encontro mais esperado da reunião do G-20: "Esta é a principal razão por que provavelmente vamos terminar conseguindo algo que será bom para a China e bom para os EUA."

A bordo do avião presidencial Air Force One, Trump declarou: "Este foi um encontro surpreendente e positivo com possibilidades ilimitadas para os EUA e a China. É uma grande honra trabalhar com o presidente Xi."

Os objetivos do governo Trump são reduzir um déficit no comércio bilateral que atingiu US$ 375,5 bilhões em 2017 e conter o o desenvolvimento chinês em setores de alta tecnologia capazes de minar a supremacia militar dos EUA. Entre as exigências do governo Trump, estão o fim de um suposto roubo de propriedade intelectual de empresas americanas e da obrigação de transferir tecnologia à China.

A partir de 6 de julho de 2018, os EUA impuseram tarifas de 25% sobre 1.300 produtos importados da China, num valor anual de US$ 34 bilhões. Em 23 de agosto, entraram em vigor tarifas de 25% sobre uma lista adicional de 279 produtos chineses, que representam US$ 16 bilhões por ano em importações.

O governo chinês reagiu na mesma medida. Sobretaxou importações americanas num valor anual de US$ 50 bilhões. A China recorreu em agosto à Organização Mundial do Comércio (OMC) com duas reclamações: uma acusando as tarifas americanas sobre painéis de captação de energia solar de abalarem o mercado internacional do setor; outra, protestando contra as tarifas adicionais.

Em 24 de setembro, os EUA passaram a cobrar tarifas de 10% sobre mais US$ 200 bilhões em importações anuais da China, ameaçando aumentar para 25% no fim do ano, se não houver acordo. Trump advertiu que imporia tarifas sobre outros produtos chineses importados, no valor anual de US$ 267 bilhões, se a China retaliasse mais uma vez.

Isto cobriria todas as importações chinesas dos EUA, num total de US$ 505,5 bilhões em 2017. Se a versão da TV chinesa sobre o jantar estiver correta, esse aumento de tarifas sobre os US$ 200 bilhões e as novas tarifas sobre US$ 267 bilhões em produtos importados da China estariam suspensas.

A China respondeu com um tarifaço na mesma porcentagem sobre produtos americanos importados no valor US$ 60 bilhões. Não pôde retaliar no mesmo valor porque o total importado pelos chineses dos EUA no ano passado ficou em US$ 130 bilhões.

O encontro dos líderes em Buenos Aires foi o primeiro em mais de um ano, o primeiro desde o início da guerra tarifária. Se não houver acerto, Trump ameaça levar adiante a ameaça de sobretaxar todas as importações da China.

Na delegação americana na Argentina, estava o linha-dura Peter Navarro, autor do livro Morte pela China, principal assessor da Casa Branca para política comercial. Na última vez que se reuniu com chineses, em Beijim, Navarro discutiu aos berros com o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, que também participou do jantar.

Mnuchin e Kudlow defendem uma postura mais conciliatória com a China.

Trump prometeu ainda manifestar sua preocupação com as exportações chinesas do opióide sintético fentanil e outras drogas, responsáveis por uma epidemia sem precedentes de mortes por doses excessivas de opiáceos nos EUA, mais de 72 mil em 2017, cerca de 200 por dia. Os popstars Michael Jackson, Prince e Tom Petty morreram de overdoses de fentanil.

Antes da reunião, o diretor-geral do Departamento de Assuntos Econômicos Internacionais do Ministério do Exterior chinês, Wang Xiaolong, mostrou um otimismo cauteloso: "Espero e acredito que este encontro, nas atuais circunstâncias, tenha um efeito importante e positivo nas relações bilaterais. Desde que cada um adote uma atitude de respeito mútuo e igualdade, um diálogo construtivo será capaz de reduzir nossas diferenças."

Também foram ao jantar o secretário de Estado, Mike Pompeo; o assessor de Segurança Nacional, John Bolton; o representante comercial dos EUA, Robert Lighthizer; e o genro e assessor especial de Trump, Jared Kushner.

O cardápio incluiu especialidades argentinas. A entrada foi uma salada de legumes com maionese de basílico e o prato principal, contra-filé com cebolas vermelhas. De sobremesa, panquecas de caramelo com chocolate e creme. Para beber, vinhos Catena Zapata Chardonnay e Malbec.

Qualquer alívio de tensão na guerra comercial das duas superpotências econômicas deve beneficiar ativos de risco, melhorando as cotações das moedas e das bolsas de valores de mercados emergentes como o Brasil. Mas as divergências entre China e EUA envolvem questões de longo prazo que não podem ser resolvidas num jantar, por melhores que sejam a carne e os vinhos argentinos.

domingo, 22 de outubro de 2017

Aliados do presidente Macri vencem eleições na Argentina

Sem concorrer, o presidente Mauricio Macri foi o grande vencedor das eleições legislativas de hoje na Argentina para renovar um terço do Senado e a metade da Câmara de Deputados. Ao vencer em 13 das 23 províncias argentinas e nos cinco maiores centros urbanos, o macrismo não terá maioria absoluta, mas terá a maior bancada no Congresso.

Os primeiros números divulgados já apontavam a derrota da presidente Cristina Kirchner na província de Buenos Aires para Esteban Bullrich, da aliança Cambiemos (Mudemos), liderada por Macri. Ela foi eleita para o Senado.

Com 99% das urnas apuradas, Bullrich (41,39%) leva uma vantagem de 388 mil votos sobre a ex-presidente Cristina Kirchner (37,24%), que fica com a segunda das três vagas em jogo. Sem admitir a derrota, Cristina afirmou que sua Unidade Cidadã é a maior força de oposição hoje na Argentina.

Na cidade de Buenos Aires, a deputada Elisa Carrió, do Cambiemos, lidera com 50,93% dos votos, muito à frente do candidato kirchnerista, Daniel Filmus (21,74%), e do ex-ministro da Economia Martín Lousteau (12,33%).

Na província de Santa Fé, Cambiemos tinha 38% contra 25% do kirchnerista Agustín Rossi, da Frente Justicialista. Em Córdoba, Cambiemos ganhava com 48% contra 30% para a União por Córdoba, do governador Juan Schiaretti, peronista que se refugiou no Brasil durante a última ditadura militar argentina (1976-83) e chegou a ser subdiretor da Fiat.

Em Mendoza, a província dos vinhos finos argentinos, junto à Cordilheira dos Andres, o oficialismo batia o peronismo por 45% a 25%. Na província de Entre Ríos, na chamada Mesopotâmia argentina, Cambiemos liderava com 53%. Na vizinha Corrientes, o macrismo tinha 55%.

Até mesmo na província de Santa Cruz, principal reduto do kirchnerismo, com 43% dos votos, Cambiemos superava por mais de dez pontos percentuais a Frente para a Vitória, da governadora Alicia Kirchner, irmã mais velha do falecido presidente Néstor Kirchner, marido de Cristina. Os candidatos de Macri também ganharam no Chaco.

Em San Luis, o peronismo venceu com os irmãos Alberto e Adolfo Rodríguez Saá, que dominam a política da província desde a redemocratização, em 1983. Os peronistas também ganharam em Tucumán, Catamarca, Río Negro e San Juan. Em La Rioja, o ex-presidente Carlos Menem estava em segundo lugar.

Quando assumiu o poder, há pouco menos de dois meses, Macri encontrou uma economia arrasada pelo populismo econômico de Cristina Kirchner, com recessão, inflação e déficit público elevados. Ele liberou o câmbio e reduziu os subsídios a serviços públicos.

No primeiro momento, esse ajuste fiscal gerou uma inflação de 40% ao ano e uma recessão de 2,3% em 2016. Mas a economia cresce desde o terceiro trimestre ao ano passado e isso se refletiu nas urnas. A expectativa para 2017 é de um avanço de 2,45% no produto interno bruto.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Testemunha involuntária sofre ameaça no caso Nisman na Argentina

Uma testemunha importante na investigação sobre a morte do promotor Alberto Nisman, que denunciou a presidente Cristina Kirchner e assessores por acobertar o pior atentado terrorista da história da Argentina, está sob proteção policial.

Natalia Fernández é garçonete de um restaurante em Porto Madero, o bairro elegante onde morava o promotor Nisman. Quando saíam do trabalho, por volta da 1h na madrugada de segunda-feira, 19 de janeiro, ela e uma colega foram abordadas para que servissem de testemunhas da primeira operação pericial no apartamento, a cena do crime. Seriam apenas 15 minutos.

No 13º andar, ela ficou esperando na entrada do apartamento, onde disse haver visto o corpo do promotor envolto num saco plástico ser removido numa maca. Também contou ter ouvido um ruído forte como se fosse de um aspirador em pó e assistido à retirada de um volume "grande".

Lá dentro, Natalia viu que classificavam os documentos do procurador, mas eles estavam espalhados por uma mesa, cadeiras e pufes, com um aparente descaso pelas provas. Sem luvas, uma perita pegou o telefone celular do promotor e viu a lista de ligações não atendida.

Mais importante: a testemunha disse ainda que a promotora encarregada de investigar o assassinato, Viviana Fein teria encontrado cinco cápsulas de balas disparadas, contrariando a versão oficial de que Nisman foi morto com um único tiro.

Os 15 minutos se estenderam até quase nove da manhã, quando "tomaram mate e pediram medialunas". Nesse período, a deixaram ir ao banheiro e lhe ofereceram café feita na cafeteira de Nisman, sem maior cuidado em isolar a cena do crime. No fim, a fizeram assinar documentos que não leu.

Dias depois, dois homens de cerca de 40 anos estiveram no restaurante onde Natalia Fernández trabalha, na Av. Alicia Moreau de Justo, perguntando se ela era testemunha no Caso Nisman.

Outra pessoa lhe prometeu proteção em nome da organização de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional, que negou ter feito isso. Também lhe ofereceram os serviços do advogado Fernando Burlando, que defende Fernando Esteche, do grupo de ultraesquerda Quebracho.

Esteche é um dos denunciados pelo promotor Nisman e agora por seu sucessor, Gerardo Pollicita, ao lado da presidente Cristina Kirchner; do ministro do Exterior, Héctor Timerman; do deputado Andrés Larroque, líder da ala jovem do kirchnerismo, La Cámpora; e do líder do movimento social dos piqueteiros, Luis D'Elia.

Eles são acusados de negociar um acordo com o Irã mediado pela Venezuela de Hugo Chávez para inocentar os iranianos denunciadas pelo atentado terrorista contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), que matou 85 pessoas e feriu outras 300 em 18 de julho de 1994, em Buenos Aires. Em troca, a Argentina receberia ajuda do Irã para enfrentar a crise econômica.

Nesta Quarta-Feira de Cinzas, haverá uma passeata de promotores e procuradores de Justiça na capital argentina para cobrar do governo proteção e o esclarecimento da morte de Alberto Nisman, a 86ª vítima do atentado contra a AMIA. O governo é acusado de, no mínimo, tumultuar a investigação. As filhas e a ex-mulher do promotor participam da manifestação.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Deputada acusa Cristina Kirchner e auxiliares de encobrir morte do promotor

A deputada Elisa Carrió, pré-candidata da Coalizão Cívica à Presidência da Argentina, vai denunciar criminalmente amanhã a presidente Cristina Kirchner e vários assessores por "acobertar" a morte do promotor Alberto Nisman, noticia o jornal argentino Clarín. O governador da província de Córdoba, José Manuel de la Sota, também entende que o Poder Executivo está interferindo indevidamente no Poder Judiciário.

Além de Cristina, a deputada acusa o secretário-geral da Casa Rosada, Aníbal Fernández; a procuradora-geral da República, Alejandra Gils Carbó; e o general Cesar Milani por "encobrimento da morte do promotor; inteligência ilegal; atentado à autoridade por estorvo de ato funcional; abuso de autoridade; omissão de denúncia; intromissões graves na atividade do Poder Judiciário; violação da divisão de poderes e associação ilícita para cometer todos estes crimes."

Hoje à tarde, Carrió escreveu no Twitter: "...está cada vez mais próxima a hipótese de assassinato numa operação de inteligência do governo".

A grande novidade do dia no caso é o desaparecimento de Antonio Stiuso, o agente secreto renegado que Cristina acusa de ter passado a Nisman as informações que constavam da denúncia do promotor contra a presidente por encobrir o pior atentado terrorista da história da Argentina.

Stiuso foi arrolado para depor. O governo retirou a proteção ao sigilo profissional como ex-agente secreto. Ele sumiu. Seu advogado disse que ele não apareceu para depor por não ter sido intimado.

"A partir do Poder Executivo, ignorou-se a ordem constitucional mediante a implantação de pistas falsas na investigação", alega a deputada. Para Carrió, "deve-se investigar a participação no crime do promotor Nisman de uma ala da Polícia Federal, a cargo de Fernández, a produção de possíveis pistas falsas pelos investigadores e a existência de uma 'zona liberada' propícia ao homicídio do promotor".

Nisman foi morto no domingo, 18 de janeiro de 2015. Na segunda-feira, apresentaria à Comissão de Legislação Penal da Câmara dos Deputados suas provas e conclusões contra Cristina Kirchner e assessores, que denunciou por acobertar a responsabilidade do Irã pelo atentando contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), que matou 85 pessoas e feriu outras 300 em 18 de julho de 1994.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Marchas e panelaços pressionam governo argentino por morte de promotor

Com cartazes de "Eu sou Nisman", milhares de pessoas protestaram hoje à noite com marchas e panelaços contra a morte do promotor de Justiça Alberto Nisman. Houve manifestações na Praça de Maio, no centro de Buenos Aires, diante da residência oficial da Presidência em Olivos, em vários bairros da capital e no interior, em Córdoba, Mendoza e outras grandes cidades da Argentina, informa o jornal Clarín.

Na semana passada, Nisman acusou a presidente Cristina Kirchner e o ministro das Relações Exteriores, Héctor Timerman, de encobrir o caso sobre o atentado que matou 85 pessoas em 1994 na AMIA, uma associação cultural israelita de Buenos Aires para acobertar o Irã. No domingo, horas antes de apresentar as provas, foi encontrado morto em seu apartamento no bairro de Porto Madero, em Buenos Aires.

A polícia declarou que inicialmente está tratando do caso como suicídio, mas a multidão nas ruas não acredita nessa versão.

O inquérito oficial sobre o atentado terrorista apontou a responsabilidade da milícia fundamentalista xiita libanesa Hesbolá, a serviço do regime teocrático iraniano. Seria uma vingança porque o então presidente Carlos Menem, um muçulmano convertido ao catolicismo, pedira dinheiro a países árabes durante a campanha eleitoral e, no poder, fazia o jogo dos Estados Unidos e de Israel.

A operação teria sido conduzida por terroristas infiltrados através da Tríplice Fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai, na Foz do Iguaçu, concluiu Nisman.

Várias autoridades iranianas foram denunciadas, inclusive o então presidente Ali Akbar Hachemi Rafsanjani, até hoje um importante líder do regime dos aiatolás, e o comandante da Guarda Revolucionária Iraniana e ex-ministro da Defesa Ahmad Vahidi.

Com a aproximação entre os governos argentinos do casal Kirchner e a Venezuela, o falecido presidente Hugo Chávez, aliado do Irã por ter petróleo e ser antiamericano, tentou melhorar as relações entre Argentina e Irã. Os maiores obstáculos eram os atentados contra a Embaixada de Israel, em 1992, e contra a AMIA, em 1994.

O governo Cristina Kirchner chegou a criar uma comissão bilateral com o Irã. Daí partem as denúncias de acobertamento.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Suspeitos de ataque terrorista disputam presidência do Irã

Dois suspeitos do atentado a bomba contra um centro cultural israelita que matou 85 pessoas e feriu outras 300 em Buenos Aires em 1994 são candidatos à Presidência do Irã na eleição de 14 de junho de 2013.

O ex-ministro do Exterior Ali Akbar Velayati e o ex-comandante da Guarda Revolucionária Mohsen Rezai são acusados de planejar o ataque, que teria sido cometido por membros da milícia fundamentalista xiita libanesa Hesbolá (Partido de Deus). O ex-presidente Ali Akbar Hachemi Rafsanjani, denunciado pela Justiça da Argentina, teve sua candidatura barrada pelo Conselho dos Guardiães da Revolução Islâmica.

Há uma ordem internacional de prisão contra Rezai em poder da Interpol (Polícia Internacional). Desde 2007, seis iranianos estão na lista de procurados da Interpol por causa do ataque contra a AMIA, inclusive o atual ministro da Defesa, Ahmad Vahidi.

Mesmo assim, provavelmente a pedido do falecido presidente venezuelano Hugo Chávez, que fez uma aliança com o Irã baseada no antiamericanismo, a Argentina fez um acordo com o Irã para realizar uma investigação conjunta do atentado. O governo Cristina Kirchner ainda não recebeu nenhuma "notificação formal" do regime fundamentalista iraniano confirmando a aprovação do acordo em Teerã.

O Irã também é suspeito do ataque com carro-bomba contra a Embaixada de Israel em Buenos Aires, em 1992, quando 29 pessoas morreram e outras 242 saíram feridas. A comunidade judaica argentina ficou revoltada com os acordos.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Israel adverte Argentina a não fazer acordo com Irã

Em reação a contatos entre a Argentina e o Irã para discutir atentados terroristas contra alvos judaicos em Buenos Aires nos anos 90, uma delegação do Ministério do Exterior de Israel visitou a cidade para alertar o governo Cristina Kirchner a não fazer acordos sobre o ataque a uma associação israelita, em 1994, em que 85 pessoas morreram e outras 300 saíram feridas.

O atentado com carro-bomba foi realizado por libaneses e atribuído à milícia fundamentalista xiita libanesa Hesbolá (Partido de Deus). Vários altos funcionários iranianos foram denunciados criminalmente na Argentina, inclusive o ex-presidente Hachemi Rafasanjani e o atual ministro da Defesa, Ahmad Vahidi.

Israel teme que a Argentina faça um acordo desistindo dos pedidos de extradição dos acusados e das indenizações às famílias das vítimas.

"Não somos ingênuos. Dissemos aos argentinos que estamos alertas e não vamos deixar a questão desaparecer", declarou ao jornal liberal Haaretz um alto funcionário da chancelaria israelense.

O ministro do Exterior de Israel, o linha-dura Avigdor Lieberman, pressionou diretamente seu colega argentino, Héctor Timerman, que teria garantido que o processo não será arquivado porque os mortos eram cidadãos argentinos que merecem justiça.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Falha de freios causou acidente na Argentina

O maquinista do trem que se chocou com a barreira de contenção final da plataforma 2 da estação de Once, em Buenos Aires, matando 51 pessoas e ferindo outras 703, declarou que tentou frear duas vezes sem sucesso e ainda acionou o freio de emergência, mas não conseguiu evitar o terceiro pior acidente ferroviário da História da Argentina.

Marcos Antonio Córdoba, de 28 anos, é acusado de negligência. Ele também afirmou que os problemas nos freios eram comuns. Depois de depor, foi posto em liberdade.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Acidente de trem mata 50 em Buenos Aires

Um trem que vinha de Sarmiento ficou sem freios e bateu ontem na barreira de contenção final da plataforma 2 da estação de Once, em Buenos Aires, matando 50 pessoas e ferindo outras 676. Cerca de 200 vítimas estão internadas em 13 hospitais da capital  da Argentina. Foi o terceiro acidente ferroviário mais greve da história do país.

Os mortos foram retirados em sacos plásticos pela porta dos fundos da estação.

Sem explicações convincentes diante da decadência da infraestrutura argentina, o secretário nacional de Transportes, Juan Pablo Schiavi, negou que o trem tivesse problemas mecânicos. Tentou se esquivar alegando que este tipo de acidente acontece em todo o mundo, na Alemanha, Espanha, Estados Unidos, Itália e Ucrânia.

Schiavi declarou que o trem de Sarmiento circula 320 vezes por dia e que todas as composições estão equipadas com GPS. Afirmou que o trem entrou na estação a 26 quilômetros por hora, mas "não sabemos o que aconteceu nos últimos 40 metros", citou o jornal argentino Clarín.

terça-feira, 29 de março de 2011

Israel exige explicações da Argentina

O Ministério do Exterior de Israel pediu esclarecimentos à Argentina sobre uma notícia publicada sábado no jornal oposicionista Perfil. A reportagem sugere que o governo Cristina Kirchner está mais interessado em melhorar as relações com o Irã do que em fazer justiça às vítimas de dois atentados terroristas contra a comunidade judaica que mataram 114 pessoas nos anos 90, em Buenos Aires, informa a BBC.

Em 1992, 28 pessoas morreram num ataque contra a Embaixada de Israel. Dois anos depois, em 18 de julho de 1994, 85 pessoas foram mortas num atentado contra um centro cultural israelita na capital argentina.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Plácido Domingo canta para 120 mil pessoas no obelisco em Buenos Aires

BUENOS AIRES - Em uma noite linda, de céu descoberto e temperatura agradável, sob o Cruzeiro do Sul, o tenor espanhol Plácido Domingo cantou durante mais duas horas ontem à noite num palco armado diante do obelisco para cerca de 120 mil pessoas que se espalharam pela Avenida 9 de Julho, no centro de Buenos Aires.

O repertório foi variado, da ópera ao tango. Em companhia da orquestra sinfônica do Teatro Colón, onde começou a cantar há 40 anos, Plácido Domingo encantou argentinos com trechos de Rigoletto e Aída, de Verdi, zarzuelas e tangos como Corrientes 348.

Para encerrar, o grand finale foi Mi Buenos Aires Querido.

Não houve tumulto. Foi fácil de chegar e também de deixar o local e até mesmo de pegar um táxi, em contraste com o que costuma acontecer em grandes espetáculos no Brasil, e as filas nos banheiros públicos colocados pela Prefeitura de Buenos Aires eram pequenas.

Quem enfrentou dias e dias de cheiro de urina nas ruas do Rio de Janeiro depois do carnaval fica a impressão de que é possível, sim, fazer festa sem sujar a cidade desde que as pessoas sejam educadas e as autoridades públicas eficientes.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Falha técnica fecha aeroportos de Buenos Aires

Uma suposta falha técnica causou hoje o fechamento dos aeroportos Ezeiza e Jorge Newbarry, em Buenos Aires, a partir das 13h, causando atrasos e cancelamentos em mais de 120 voos com origem ou destino na capital da Argentina. A presidente Cristina Kirchner cancelou um evento em Salta, no interior do país.

Pouco depois das 20h, o primeiro voo internacional decolou de Ezeiza com destino à Itália, mas o Aeroparque Jorge Newberry continuava fechado. A expectativa das autoridades argentinas é realizar uma decolagem a cada 20 minutos para normalizar a situação.

Mais cedo, houve boatos de que haveria uma greve ou operação-tartaruga dos controladores de voo em apoio a uma paralisação do setor de transportes convocada pelo secretário-geral da CGT (Confederação Geral do Trabalho), Hugo Moyano, que está sendo investigado pela Justiça da Suíça por lavagem de dinheiro.

Moyano, um dos aliados do kirchnerismo, pressiona a Justiça da Argentina a não dar as informações pedidas pela Suíça.

O problema com os computadores do sistema de controle aéreo teria ocorrido às 12h53, mas até 15h30 a Agência Nacional de Aviação Civil argentina não havia divulgado nenhum comunicado oficial.

sábado, 22 de agosto de 2009

Argentina protesta contra ministro iraniano

A Argentina protestou contra a nomeação de Ahmad Vahidi para ministro da Defesa do Irã pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad. Vahidi é um dos principais acusados pelo atentado contra um clube da comunidade judaica em Buenos Aires em 18 de julho de 1994 em que 85 pessoas morreram e outras 200 ficaram feridas.

Para o Ministério das Relações Exteriores da Argentina, a indicação "constitui uma afronta à Justiça argentina e às vítimas daquele ataque terrorista brutal".

Em nota, a associação das entidades judaicas argentinas deplorou "a decisão tomada pelo presidente iraniano, que sistematicamente nega o Holocausto e pede a desruição do Estado de Israel", considerando-a "um insulto sem qualificação contra as vítimas do massacre e suas famílias, a comunidade judaica argentina, a República Argentina e seu Poder Judiciário, que merece a condenação categórica do governo nacional e da comunidade das nações democráticas".

O governo argentino "exige mais uma vez que a República Islâmica do Irã coopera plenamento com a Justiça argentina, permitindo que os acusados de participação no ataque sejam julgados pelos tribunais competentes".

A Justiça argentina denunciou diversos dirigentes do regime fundamentalista iraniano, inclusive o ex-presidente Ali Akbar Hachemi Rafsanjani.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Argentina queimam trem na Grande Buenos Aires

Diante dos atrasos sucessivos e da quebra de trens, passageiros atacaram três estações da província de Buenos Aires e tocando fogo em um trem na estação de Castelar, em Morón, na periferia da capital argentina.

Eram seis da manhã quando o trem começou a ter problemas. Ele parou totalmente perto da estação de Castelar, já atrasado, por volta de 8h, quando foi incendiado e atacado a pedradas. A polícia tentou proteger o trem, mas teve de se proteger das pedras com escudos. Sete vagões foram totalmente destruídos pelas chamas.

Um secretário municipal de Morón considerou o protesto violento mas espontâneo, provocado pelo péssimo serviço oferecido para companhia de trens. Já o governo federal argentino alegou que a ação foi orquestrada por um grupo radical de esquerda chamado de Pólo Operário.

Em declaração à imprensa argentina, o Pólo Operário afirmou que não esteve lá mas gostaria de ter estado.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Governo argentino ameaça prender grevistas

Na mais dura ameaça até agora, o chefe da Casa Civil do governo da Argentina, o poderoso Anibal Fernández, que ocupa o cargo desde o governo Néstor Kirchner, deu um ultimato para que os produtores rurais em greve suspendam o bloqueio das estradas: "Quem não liberar as estradas será preso."

No final da tarde de ontem, a presidente Cristina Kirchner adotou um tom mais conciliatório, prometendo abrir diálogo assim que as rodovias sejam reabertas.

A proposta partiu do governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli. O governo recorreu aos governadores para intermediar a crise provocada pela imposição de impostos de exportação sobre as vendas de grãos ao exterior, com o objetivo de controlar os preços internos.

Os ruralistas ficaram de dar uma resposta hoje, quando o movimento completa 15 dias.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Morre homem que expulsou os EUA do Líbano

A explosão de uma bomba em seu carro matou em Damasco, na Síria, nesta quarta-feira Imad Mughnia, o mais procurado dos comandantes da milícia fundamentalista libanesa Hesbolá, o Partido de Deus xiita.

Entre outros atentados terroristas, Mughnia era acusado de ser o responsável pela expulsão dos Estados Unidos do Líbano em 1983, acabando com uma intervenção militar na guerra civil libanesa ordenada pelo então presidente Ronald Reagan.

Um caminhão-bomba enviado por ele destruiu o quartel-general dos fuzileiros navais americanos em Beirute, matando 241 soldados americanos. Reagan chamou os sobreviventes de volta para casa.

Também atacou a Legião Estrangeira da França, matando 58 militares. E a França caiu fora.

Foi denunciado pela Argentina pelos atentados contra a embaixada israelense em Buenos Aires, matando 29 pessoas em 1992, e contra AMIA, a sociedade israelita argentina, que deixou 84 mortos, em 1994.

Seus partidários o descreveram como mártir e acusaram Israel. Em entrevista, um ex-diretor do Mossad, o serviço secretro israelense, que virou deputado declarou que esse é um bom dia para a humanidade.

As maiores suspeitas recaem sobre o Mossad. Mughnia estava na lista. Um dia foi encontrado e executado. O assassinato seletivo é uma das técnicas usadas por Israel na guerra contra seus inimigos árabes.

O assassinato político é uma das formas de terrorismo ou intimidação. As principais formas de ação terrorista são o assassinato seletivo, o seqüestro e a explosão de bombas, o assassinato em massa. Mas a questão central é a legitimidade do alvo.

Atacar o quartel-general de uma força de intervenção estrangeira pode ser considerado um ato de guerra legítimo, de autodefesa. Mas atentados contra transportes públicos, bares e restaurantes e quaisquer civis inocentes são claramente contrários a qualquer princípio de direito. É o terror.

Mughnia era um guerreiro feroz e morre como herói. Usava o terror como arma e ontem chegou sua vez.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

À Sombra de Perón e Evita

(Reproduzo abaixo um artigo que escrevi em 24 de outubro de 2005, quando Cristina Kirchner foi eleita senadora pela província de Buenos Aires. A comparação com Perón e Evita é inevitável. É um dos capítulos do meu livro Bush 2: A Missão)

Só na província de Buenos Aires, 56 partidos e movimentos diferentes disputaram as eleições parlamentares de domingo, 23 de outubro de 2005, na Argentina. Foram eleitos 127 dos 257 deputados na Câmara Federal, 24 senadores, um terço do Senado, 400 parlamentares das assembléias provinciais e 1.957 vereadores. Mas o que estava em jogo mesmo é a legitimação do presidente Néstor Kirchner e sua luta para controlar a força política dominante na Argentina: o peronismo.

Kirchner sai fortalecido.

Nesta batalha decisiva para controlar o partido e o Congresso, preparando a reeleição em 2007, Kirchner convocou sua mulher, a já senadora Cristina Fernández de Kirchner. Ela foi a candidata da Frente para a Vitória ao Senado na província de Buenos Aires, onde se concentram 40% da população e 35% do produto nacional bruto argentinos. Sua principal adversária na campanha foi a ex-primeira-dama Hilda Chiche Duhalde, mulher do ex-presidente Eduardo Duhalde, que controla o Partido Justicialista na província.

Como a luta é pela herança do general Juan Domingo Perón e inclui uma guerra de primeiras-damas, a onipresença dos fantasmas del Viejo e de Evita revela uma característica peculiar da política da Argentina, um país ainda hoje fascinado pelo carisma do casal que é também símbolo de um passado de opulência. Entre 1946 e 1949, os salários reais para o operário da indústria argentina cresceram em média 53% e a participação da massa salarial no PIB passou de 40,1% para 49%.

Estavam aptos a votar no domingo 26.098.099 argentinos. O voto é obrigatório mas houve abstenção de 35%.

Primeira-dama vencedora
A grande vitoriosa foi Cristina Kirchner. Com 90% das urnas apuradas ela tinha 46% dos votos na disputa pelo Senado na província de Buenos Aires. Em segundo, Chiche Duhalde tinha 19,5%. Na briga pela terceira vaga, Marta Maffei, da Afirmação por uma República Igualitária (ARI), batia o ex-ministro da Economia Ricardo López Murphy, da Proposta Republicana, e Luis Brandoni, da União Cívica Radical.

Na capital federal, com 99% das urnas apuradas, a lista de Mauricio Macri, empresário e presidente do Boca Juniors, clube mais popular do país, aliado de López Murphy, tinha 34% dos votos. Era seguida pela ARI, da deputada esquerdista Elisa Carrió, com 22%. Os candidatos de Kirchner, com o ministro das Relações Exteriores, Rafael Bielsa, abrindo a lista, estavam em terceiro lugar com 20,3%.

Eleito em abril de 2003 com apenas 22% dos votos no primeiro turno, porque seu principal adversário, o ex-presidente Carlos Saúl Menem, um peronista de direita, desistiu de disputar o segundo turno, Kirchner ficou com o estigma de não ter sido consagrado nas urnas.

Nesta luta pela legitimidade, Kirchner transformou uma eleição parlamentar de meio de mandato num plebiscito sobre seu governo. Ele chegou à Casa Rosada depois da pior crise econômica da história argentina.

Em dezembro de 2001, houve o colapso da paridade cambial entre o dólar e o peso e o fim da conversibilidade introduzida na era Menem (1989-99). O país decretou moratória de uma dívida de US$ 100 bilhões e a poupança depositada nos bancos ficou presa no corralito, jogando 58% dos argentinos abaixo da linha pobreza, contra 24% em 1999 e 38% hoje.

Tudo isso levou à renúncia do presidente Fernando de la Rúa (1999-2001), da União Cívica Radical, partido do ex-presidente Raúl Alfonsín. Depois de alguns interinos, o peronista derrotado por De la Rúa em 1999, Eduardo Alberto Duhalde Maldonado assumiu para completar o mandato evitando a convocação de eleições presidenciais antecipadas em meio à pior crise econômica da história do país.

Duhalde fora vice-presidente de Menem. Eles romperam por causa das políticas econômicas liberais do menemismo. Apesar da rejeição nas urnas, Duhalde chegou ao poder como cacique da máquina partidária do peronismo na província de Buenos Aires. Para impedir a volta de Menem ao poder, lançou Kirchner para sucedê-lo em 2003.

Kirchner x Duhalde
Assim que assumiu a presidência, com o estigma de não ter sido consagrado nas ruas, Kirchner procurou consolidar a sua própria base de poder, usando a máquina do Estado para cooptar os chamados peronistas e radicais do K. Foi duro nas negociações com o FMI e obteve um desconto de até 75% na renegociação da dívida. A Argentina está crescendo a uma taxa de 8,9% ao ano, com inflação hoje em 11% anuais. Já atingiu o nível de 1998 mas tem problemas para negociar os empréstimos e investimentos necessários à recuperação em bases permanentes.

O conflito entre criador e criatura era inevitável. Desde setembro do ano passado, os dois estão oficialmente rompidos e as eleições de 23 de outubro foram uma batalha importante nesta guerra. Kirchner pretende eleger 60 a 65 deputados leais, o que lhe permitiria criar um bloco de 100 a 110 deputados. Os deputados peronistas leais a Duhalde seriam cerca de 30 e a UCR teria uns 40.

Com uma ampla vitória sobre o duhaldismo, Kirchner é o grande vencedor desta eleição. Deve tentar atrair os rivais duhaldistas para o oficialismo. Afinal, pertencem aos setores mais à esquerda do peronismo. Não há uma incompatibilidade ideológica, como no caso do menemismo.

O Pingüim, como é chamado pelo nariz adunco e sua origem na Patagônia, é um presidente caracterizado pelo estilo agressivo. Já comprou brigas com o Fundo Monetário Internacional, empresas estrangeiras, os credores da dívida argentina, a Igreja Católica, o presidente Lula, o embaixador da França, a Federação das Indústrias de S. Paulo (Fiesp), os supermercadistas argentinos e quem se atravesse no caminho de suas ambições.

De olho na reeleição em 2007, Kirchner quer facilidade para aprovar suas propostas no Congresso para poder se dedicar de corpo e alma a uma campanha presidencial que promete ser dura como reza a tradição argentina.

A maior disputa mais uma vez será pela alma do general Perón. Depois dos fracassos econômicos dos governos radicais de Alfonsín e De la Rúa, a grande batalha deve ser travada dentro das hostes peronistas. O duelo entre Chiche e Cristina é apenas um trêiler.

O General Perón
Juan Domingo Perón era um oficial do Grupo de Oficiais Unidos, simpatizantes do nazifascismo que derrubaram o presidente civil Ramón Castillo no golpe de 4 de junho de 1943. De secretário do Trabalho e Bem-Estar Social, ele passou a ministro da Guerra e vice-presidente. Preso em 9 de outubro de 1945, foi solto por força grandes manifestações de massa em 17 de outubro do mesmo ano, data comemorada com entusiasmo por Kirchner durante a campanha. Ele lançou, na data, um programa educacional “para que os argentinos do futuro possam ter a mesma educação de qualidade que tínhamos no passado”.

O peronismo é um fenômeno típico do que se chama de populismo latino-americano, na definição do cientista político argentino Torcuatto di Tella, “uma aliança de parte da elite, incluindo industriais e militares nacionalistas, e trabalhadores, para enfrentar outro segmento da elite”, o mais conservador.

Para os militares argentinos, que alimentavam um sonho de hegemonia na América do Sul, o inimigo era o Brasil. Eles sabiam que a potência realmente hegemônica no continente, os Estados Unidos, não armaria a Argentina para atacar o Brasil, que adotava uma política de aliança automática com Washington. A Argentina precisava então do seu desenvolvimento industrial autônomo.

Daí nasce uma aliança entre militares, industriais, trabalhadores e setores da Igreja Católica contra uma elite fundiária que teria de pagar pelo protecionismo necessário ao nascimento de uma indústria nacional. Inspirado pelo ditador italiano Benito Mussolini e por Getúlio Vargas, a partir do golpe de 1943, Perón promoveu reformas sociais e fortaleceu os sindicatos como sua base de poder.

De 1930-35 a 1945-49, a produção industrial dobrou. Em 1944, as importações, que em 1925 consumiam 30% do PIB argentina, representavam apenas 6%. O número de fábricas passou de 38 mil em 1935 para 86 mil em 1946. No mesmo período, o operariado industrial passou de 436 mil para mais de 1 milhão de trabalhadores. Até 1947, chegaram à Grande Buenos Aires 1,368 milhão de migrantes vindos do campo atraídos pela rápida expansão industrial. Eram os descamisados que se tornariam massa de manobra para o peronismo. Seu discurso prometia plena cidadania para todos.

Isso levou Perón à sua primeira vitória eleitoral nas eleições presidenciais de 24 de fevereiro de 1946, com 56% dos votos, contra a União Democrática, que reunia desde os radicais, representantes da classe média antiperonista, até socialistas e comunistas, que na época, não sem alguma razão, descreviam Perón como fascista. Mas as massas argentinas já estavam seduzidas por este oficial e por sua segunda mulher, Maria Eva Duarte de Perón, com quem ele se casara quatro dias depois da libertação e da consagradora reaparição nos balcões da Casa Rosa, de onde pronunciaria seus discursos para empolgar a Argentina.

Filha ilegítima de uma cozinheira, cantora e atriz de radioteatro, Evita já era amante do general Perón. Eles formaram um casal sem paralelo na História nem no imaginário político latino-americano. Sua morte prematura, aos 33 anos, de câncer, em 1952, a transformou numa semideusa amada e odiada, uma personagem perene e insuperável da política argentina, mesmo que as primeiras-damas de hoje busquem a legitimidade no voto.

A ‘terceira via’
Defensor de uma “terceira via” entre o capitalismo e o comunismo, uma idéia originalmente mussolinista, Perón adotou uma atitude antiimperialista, nacionalizando empresas americanas e européias. Promoveu o tango como autêntica cultura popular argentina e legalizou a prostituição. Incentivou os sindicatos mas os manteve atrelados à máquina do Estado e do partido, esmagando quaisquer competidores interessados na luta dos trabalhadores.

Uma década de governos peronistas (1946-55) traria profundas mudanças para a classe trabalhadora argentina. Houve uma grande expansão do movimento sindical. O índice de sindicalização cresceu de 30,5% em 1948 para 42,5% em 1954, chegando a 70% na maioria dos setores industriais. O total de sindicalizados passou entre 1946 e 1951 de 520 mil para 2,333 milhões.

Pela primeira vez, foi introduzido em mecanismo de negociação coletiva, com escala móvel de salários, auxílio-doença, licença-maternidade, férias e outros direitos sociais. A Lei das Associações Profissionais, de outubro de 1945, estabeleceu a unidade, a imunidade dos dirigentes e o imposto sindical, garantindo uma arrecadação compulsória. Ao mesmo tempo em que garantia o financiamento dos benefícios previdenciários o Estado tentava assegurar seu controle sobre o movimento.

Havia sindicalistas no Congresso. Eles eram consultados oficialmente em decisões de governo. Operavam o sistema de previdência e assistência social através do Ministério do Trabalho e Bem-Estar Social e da Fundação Eva Perón. Logo as noções de autonomia política e organizacional do movimento operário começaram a se chocar com as ambições de Perón e dos outros participantes da aliança corporativista e nacionalista que as sustentava.

Perón foi reeleito em 1951, com ajuda importante do voto feminino pelo qual Evita lutara. Mas o autoritarismo, a corrupção e o conflito interno das diferentes forças componentes do peronismo, alinhadas à direita e à esquerda, inclusive uma ruptura com a Igreja Católica, levaram à chamada Revolução Libertadora ou, dependendo do ponto de vista, ao golpe de 16 de setembro de 1955. Desde então, todos os golpes de Estado na Argentina foram marcados pelo confronto entre peronistas de direita e de esquerda.

Amargo regresso
Perón ficou 18 anos no exílio. Quando voltou, em 20 de junho de 1973, foi recebido com a Batalha de Ezeiza, uma briga entre a direita peronista, que incluía a Aliança Anticomunista Argentina, liderada por José López Rega, que seria ministro do Bem-Estar Social do último governo Perón, e a extrema esquerda, onde estavam os Montoneros.

Em 23 de setembro de 1973, o velho caudilho é eleito presidente da Argentina pela terceira vez, com 62% dos votos, agora com sua nova mulher, María Estela Martínez de Perón, a Isabelita, como vice. Só que Isabelita não era Evita. Com a morte do general em 1º de julho de 1974, a crise do peronismo vai se agravando até o golpe de 24 de março de 1976 e a violenta ditadura que o seguiu, responsável por cerca de 30 mil mortes.

A democracia só voltou à Argentina em 1983, um ano depois da derrota para a Grã-Bretanha na Guerra das Malvinas, que desmoralizou as juntas militares. Desde então, dois mandatos foram encurtados por crises agudas, a hiperinflação de 1989 sob Alfonsín e o colapso do peso com De la Rúa em 2001. Desde 1930, Menem foi o único civil a ser eleito democraticamente a concluir o mandato.

Como o peronismo é aparentemente a única força política capaz de governar a Argentina, a grande batalha é mais uma vez pela hegemonia interna no Partido Justicialista. Para alguns argentinos, o peronismo é o “fenômeno incorrigível”, definição do escritor Jorge Luis Borges. Nesta visão, o golpe de 1943 marca o início de uma guerra civil que arrasou a Argentina, comprometendo uma situação econômica que a colocava entre os países mais ricos do mundo no início do século passado.

Para o professor Di Tella, “a guerra civil argentina termina em 1989, quando Carlos Menem, um peronista, convida o maior grupo empresarial do país a indicar o ministro da Economia”. Menem já era da direita peronista. Deu naquela época sua guinada definitiva para um liberalismo e um pró-americanismo que nada tem a ver com as idéias nacionalistas e antiimperialistas do caudilho.

Um dos países mais férteis do mundo, com população relativamente pequena, de 36 milhões de habitantes, uma renda média por habitante bem acima da brasileira e, apesar da crise, 34º melhor país do mundo no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, não há razões para a Argentina ter dificuldades econômicas. Foi o país que mais se subdesenvolveu no século 20, deixando de ser um dos mais ricos do mundo, em grande parte por causa de seus conflitos políticos.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Kirchner recebe quarta prefeito eleito de Buenos Aires

O presidente da Argentina, Néstor Kirchner, recebe nesta quarta-feira na Casa Rosada o prefeito eleito de Buenos Aires, o empresário Mauricio Macri, presidente do Boca Juniors, time mais popular do país.

Eleito ontem, em segundo turno, com 61% dos votos válidos, contra 39% para o ministro da Educação, David Filmus, candidato de Kirchner, Macri foi logo dizendo: "Trabalharemos para construir uma alternativa em outubro", quando serão realizadas eleições presidenciais na Argentina.

Leia mais no jornal argentino La Nación.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Macri é novo líder da oposição na Argentina

Ao vencer o primeiro turno da eleição para prefeito de Buenos Aires com mais de 20 pontos de vantagem sobre o candidato peronista Daniel Filmus, apoiado pelo presidente Néstor Kirchner, o empresário Mauricio Macri, presidente do Boca Juniors, clube mais popular da Argentina, torna-se o principal líder da centro-direita argentina.

Com 46,52% dos votos, Macri esteve perto de garantir a vitória no primeiro turno. Mas voltará a enfrentar Filmus em 24 de junho. Os meios de comunicação argentinos comentam que nunca na História da América Latina um candidato perdeu tendo uma votação dessas no primeiro turno.

Macri, um engenheiro de 48 anos, é um magnata, dono de empresas de construção e transportes.