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domingo, 23 de outubro de 2011

Oposição reconhece reeleição de Cristina Kirchner

A presidente Cristina Fernández de Kirchner, viúva do ex-presidente Néstor Kirchner, foi releeita hoje presidente da Argentina no primeiro turno, com mais de 50% dos votos para um segundo mandato de quatro anos. É a maior vitória desde a redemocratização do país, em 1983. Os candidatos oposicionistas Ricardo Alfonsín, Eduardo Duhalde e Elisa Carrió foram os primeiros a reconhecer sua vitória.

Em segundo lugar, ficou o governador socialista da província de Santa Fé, Hermes Binner, com 17% dos votos, seguido pelo deputado Ricardo Alfonsín, candidato da União Cívica Radical e filho do ex-presidente Raúl Alfonsín, com 13%.

"Queremos celebrar e felicitar os argentinos por mais uma jornada democrática, queremos cumprimentar todos os partidos políticos que participaram destas eleições, e em particular queremos saudar e curimentar a presidente Cristina Kirchner", declarou Alfonsín.

O ex-presidente Duhalde, um dissidente do peronismo, líder da Frente Popular, também se apressou a cumprimentar Cristina pela vitória da Frente para a Vitória, a coligação governista.

Como presidente interino depois do colapso da dolarização do presidente Carlos Menem (1989-99), em 2001, foi Duhalde que indicou Néstor Kirchner como candidato da esquerda peronista na eleição de 2003. Abriu caminho para o casal que dominou a política argentina na primeira década do século 21 e foi atropelado por ele já nas eleições intermediárias de 2005, quando Cristina foi eleita senadora por Buenos aires, preparando sua ascensão a Presidência.

A vitória do kirchnerismo deve ser atribuída ao forte crescimento econômico do país desde a crise de 2001 e às políticas sociais adotadas para combater as consequências daquele colapso econômico, um dos piores de qualquer país moderno até hoje.

O governo argentino é acusado de:
• aumentar os gastos públicos, gerando uma inflação escondida sob estatísticas manipuladas;
• sobretaxar as exportações e congelar tarifas, inibindo o investimento em setores importantes;
• discriminar os meios de comunicação independentes, usando a Receita Federal para pressioná-los e apoiando bloqueios de sindicalistas amigos que impediram a circulação de grandes jornais;
• estatizar as transmissões de futebol do Campeonato Argentino por motivos políticos; e
• adotar um protecionismo econômico que abala suas relações com os países vizinhos, inclusive o Brasil, para proteger indústria obsoletas e os empregos ferozmente defendidos pelos sindicatos peronistas, aliados de Cristina.

Mas ela vai fortalecida para o segundo mandato.

Com a vitória esmagadora, é improvável que Cristina mude este estilo personalista de fazer política característico da Argentina, em que o líder se confunde com o país e o pessoal se torna político. A composição do ministério deve dar os primeiros sinais do que a presidente pretende.

É certo que, na onda de uma economia em forte crescimento, Cristina deu a volta por cima depois de ser considerada desamparada e perdida com a morte do marido, há um ano.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Cristina vence eleição primária na Argentina

A presidente Cristina Kirchner obteve mais da metade dos votos válidos numa prévia inédita para a eleição presidencial de outubro na Argentina. Ficou mais de 30 pontos percentuais à frente de seus adversários, o deputado Ricardo Alfonsín, que teve 12,5% dos votos, e o ex-presidente Eduardo Duhalde, com 12%.

O resultado confirma a fragilidade da oposição argentina e consolida Cristina como a grande líder argentina depois da inesperada morte de seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, quando este preparava sua candidatura para voltar à Casa Rosada.

Pelas regras eleitorais argentinas, um candidato a presidente ganha no primeiro turno se tiver 40% dos votos e dez pontos percentuais de vantagem sobre o segundo colocado.

A primária deveria incentivar os outros candidatos a se unir em torno de uma única candidatura oposicionista. Resta ver se isso é possível.

sábado, 30 de outubro de 2010

Cristina vetou adversários no funeral de Kirchner

Em uma amostra do que está por vir, a presidente Cristina Kirchner proibiu a presença do vice-presidente Julio Cobos e do ex-presidente Eduardo Duhalde e do ex-ministro Anibal Fernández nos funerais do ex-presidente Néstor Kirchner.

Isso foi interpretado como uma tentativa de se fechar em torno do círculo restrito do kirchnerismo, dos aliados mais próximos do casal. Pode dificultar a manutenção do controle do Partido Justicialista (peronista), onde está abertura a luta pelo poder.

Duhalde, presidente interino depois do colapso econômico de 2001, foi o homem que indicou Kirchner como candidato da esquerda peronista contra o ex-presidente Carlos Menem na eleição presidencial de 2003. Depois de consolidar seu poder, no pior estilo da política argentina, Kirchner apunhalou Duhalde pelas costas para assumir o controle da máquina peronista.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Morte de Kirchner abre luta sucessória

A morte súbita do ex-presidente Néstor Kirchner (2003-07) abre a campanha eleitoral na Argentina. Sua viúva, a presidente Cristina Kirchner, pode ser candidata à reeleição se for capaz de manter o kirchnerismo sem Kirchner, como uma nova Evita, reinventando-se como viúva de um herói nacional.

Há uma dúvida se ela vai abrir um diálogo para ampliar alianças ou se fechar no pequeno núcleo kirchnerista, onde se destacam líderes truculentos como o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, e o secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), Hugo Moyano.

Caso se feche no clã kirchnerista, terá dificuldade de manter o controle sobre a máquina do Partido Judicialista, uma das maiores burocracias do país.

O governador de Buenos Aires, Daniel Scioli, vice-presidente de Néstor Kirchner, já fala como candidato do Partido Justicialista (peronista). Também estão na parada o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, aliado da ala direita do peronismo, que derrotou a Frente pela Vitória, liderada por Néstor Kirchner, nas eleições parlamentares de 2009; o ex-corredor de Fórmula 1 Carlos Reuteman; e o próprio articulador da eleição de Kirchner, o ex-presidente Eduardo Duhalde, que já tem sítio de Internet Duhalde 2011.

Pela União Cívica Radical, são pré-candidatos Ricardo Alfonsín, filho do falecido presidente Raúl Alfonsín, muito respeitado por ter mantido a dignidade do cargo, ao contrário de Menem e Kirchner, e o vice-presidente Julio Cobos.

Por mais uma ironia da política argentina, desde que rompeu com o casal Kirchner durante a crise do campo, o vice-presidente é o líder da oposição.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Ex-ministros veem recessão na Argentina

Dois ex-ministros de Economia, Roberto Lavagna e Martín Lousteau, entendem que a economia da Argentina está em recessão, tendo em vista o que acontece com a produção, o consumo, o investimento e o emprego.

"Não se criam empregos, não há investimento, há fuga de capital", observa Lavagna. "Claramente, a Argentina está em recessão desde o princípio de 2008".

Como ministro dos presidentes Eduardo Duhalde e Néstor Kirchner, depois do colapso da dolarização do peso de era Menem (1989-99) em 2001, Lavagna renegociou a dívida externa caloteada pela Argentina, conquistando grande prestígio.

O ex-ministro questionou as medidas tomadas pela presidente Cristina Kirchner para combater a crise: "Em vez de anunciar todos esses planozinhos, casas, casinhas, em que a burocracia vai atrasar tudo, seria melhor reduzir o IVA [Imposto sobre Valor Agregado, equivalente no Brasil ao ICMS, Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] da cesta básica e oferecer empréstimos diretamente às pequenas e médias empresas."

Horas depois, foi a vez de Lousteau fazer sua análise sobre a economia argentina: "Quando você olha para o último trimestre do ano passado, a queda em relação ao anterior não foi inferior a 1%. Neste primeiro trimestre, também há uma queda e isto é recessão."

Lousteau foi ministro no início do governo Cristina Kirchner e foi uma espécie de bode expiatório no longo conflito entre a Casa Rosada ou o casal Kirchner e os produtores rurais argentinos, que durou mais de 100 dias no ano passado. Foi marcado por diversas paralisações da comercialização de produtos agropecuários, em protesto contra a sobretaxa imposta por decreto nas exportações de grãos.

Esse conflito continua, acirrado pela crise financeira internacional, deixa o governo argentino, chamuscado pelo calote de 2001-02, sem opções de financiamento externo nem interno.

Os ruralistas, por sua vez, estão ganhando muito menos com a queda dos preços dos produtos primários do que ganhavam quando o imposto foi introduzido e enfrentam a pior seca em 49 anos no pampa úmido argentino.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Cristina manda projeto sobre imposto ao Congresso

Para reconquistar a credibilidade abalada pela longa crise com os produtores rurais, a presidente Cristina Kirchner prometeu enviar ao Congresso da Argentina um projeto de lei com a escala móvel do imposto sobre exportações agrícolas, que faz as alíquotas subirem junto com a alta no mercado internacional.

Mas o governo tem ampla maioria no Congresso. Os ruralistas ainda não sabem se terão algo a ganhar com isso. O governo quer transformar o protesto nas ruas e estradas em debate parlamentar. Quer retomar seu direito de governar.

Em cinco anos de governo Kirchner - primeiro de Néstor Kirchner e, desde dezembro do ano passado, de sua mulher Cristina Kirchner - raramente o Executivo recorreu ao Congresso para aprovar as medidas, observam analistas como Jorge Castro, do grupo mais liberal da direita peronista ligada ao ex-presidente Carlos Menem.

Castro, que sria ministro das Relações Exteriores se Menem derrotasse Kirchner em 2003, vê no recurso ao Congresso um primeiro sinal de fraqueza política do casal.

A realidade é que caciques peronistas, especialmente o ex-presidente Eduardo Duhalde, que indicou Kirchner e foi atropelado por ele, estão gostando do desgaste do casal Kirchner depois de 98 dias de crise no campo.

Duhalde foi vice no primeiro governo Menem (1989-95) mas rompeu com Carlitos. Foi o candidato peronista em 1999 e perdeu para Fernando de la Rúa, derrubado pela revolta popular com o colapso, em 2001, da dolarização que De la Rúa herdara de Menem.

Na convulsão em que a Argentina teve vários presidentes em poucos dias, o nome de Duhalde surgiu como o mais indicado para governar por um mandato-tampão, na verdade, para concluir o mandato interrompido de De la Rúa. Duhalde iniciou o processo de estabilização da Argentina.

Em plena crise, seria impossível organizar eleições. Duhalde foi o homem da transição e indicou ao Partido Justicialista o então governador da província de Santa Cruz, na Patagônia, Néstor Kirchner como candidato à Casa Rosa para impedir a volta de Menem.

Com o colapso da União Cívica Radical depois dos governos incompletos de Raúl Alfonsín (1983-89) e De la Rúa (1999-2001), o peronismo voltou a ter a hegemonia da política argentina.

A luta é entre peronistas de diversas correntes, como Kirchner x Menem. Mas na briga Duhalde x Kirchner, aí a luta já é pelo controle da ala mais à esquerda do movimento peronista, um quer ocupar o lugar do outro. Não há um debate ideológico. É uma luta pelo controle da máquina do partido.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Ruralistas argentinos ameaçam prorrogar a greve

Os produtores rurais de Argentina ameaçam prorrogar a quarta greve em quase cem dias de protesto contra o aumento, em 11 de março, do imposto sobre exportações de grãos.

A paralisão começou à zero hora de domingo e terminaria à meia-noite de quarta-feira, dia em que os ruralistas pretendem fazer uma grande jornada nacional de protesto contra a repressão e a prisão de grevistas no sábado.

Na Praça de Maio, haverá uma manifestação concorrente do casal Kirchner e sua ala do movimento peronista. Inimigos de Néstor e Cristina Kirchner dentro do partido, entre eles o ex-presidente Eduardo Duhalde, estariam aproveitando a crise para minar o poder do casal.

Foi Duhalde que indicou Kirchner como o candidato peronista anti-Menem em 2003. Depois, Kirchner atropelou o padrinho para assumir o controle total do partido. Duhalde dominava a máquina do partido na Província de Buenos Aires. Precisava ser esmagado.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Néstor Kirchner presidirá partido peronista

Depois da muitas negativas, o ex-presidente argentino Néstor Kirchner decidiu finalmente que será o novo líder do Partido Justicialista.

A partir da próxima semana, ele receberá os líderes das diversas correntes peronistas em seu escrtório em Puerto Madero, no centro de Buenos Aires para fazer um "calendário de normalização" do partido, que está sob intervenção federal.

Dois adversários internos de Kirchner, o ex-presidente Eduardo Duhalde e o governador de San Luis, Alberto Rodríguez de Saá, prometem ficar atentos para tentar evitar uma concentração ainda maior de poderes no casal Kirchner, agora que Cristina Fernández de Kircher tornou-se presidente.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

À Sombra de Perón e Evita

(Reproduzo abaixo um artigo que escrevi em 24 de outubro de 2005, quando Cristina Kirchner foi eleita senadora pela província de Buenos Aires. A comparação com Perón e Evita é inevitável. É um dos capítulos do meu livro Bush 2: A Missão)

Só na província de Buenos Aires, 56 partidos e movimentos diferentes disputaram as eleições parlamentares de domingo, 23 de outubro de 2005, na Argentina. Foram eleitos 127 dos 257 deputados na Câmara Federal, 24 senadores, um terço do Senado, 400 parlamentares das assembléias provinciais e 1.957 vereadores. Mas o que estava em jogo mesmo é a legitimação do presidente Néstor Kirchner e sua luta para controlar a força política dominante na Argentina: o peronismo.

Kirchner sai fortalecido.

Nesta batalha decisiva para controlar o partido e o Congresso, preparando a reeleição em 2007, Kirchner convocou sua mulher, a já senadora Cristina Fernández de Kirchner. Ela foi a candidata da Frente para a Vitória ao Senado na província de Buenos Aires, onde se concentram 40% da população e 35% do produto nacional bruto argentinos. Sua principal adversária na campanha foi a ex-primeira-dama Hilda Chiche Duhalde, mulher do ex-presidente Eduardo Duhalde, que controla o Partido Justicialista na província.

Como a luta é pela herança do general Juan Domingo Perón e inclui uma guerra de primeiras-damas, a onipresença dos fantasmas del Viejo e de Evita revela uma característica peculiar da política da Argentina, um país ainda hoje fascinado pelo carisma do casal que é também símbolo de um passado de opulência. Entre 1946 e 1949, os salários reais para o operário da indústria argentina cresceram em média 53% e a participação da massa salarial no PIB passou de 40,1% para 49%.

Estavam aptos a votar no domingo 26.098.099 argentinos. O voto é obrigatório mas houve abstenção de 35%.

Primeira-dama vencedora
A grande vitoriosa foi Cristina Kirchner. Com 90% das urnas apuradas ela tinha 46% dos votos na disputa pelo Senado na província de Buenos Aires. Em segundo, Chiche Duhalde tinha 19,5%. Na briga pela terceira vaga, Marta Maffei, da Afirmação por uma República Igualitária (ARI), batia o ex-ministro da Economia Ricardo López Murphy, da Proposta Republicana, e Luis Brandoni, da União Cívica Radical.

Na capital federal, com 99% das urnas apuradas, a lista de Mauricio Macri, empresário e presidente do Boca Juniors, clube mais popular do país, aliado de López Murphy, tinha 34% dos votos. Era seguida pela ARI, da deputada esquerdista Elisa Carrió, com 22%. Os candidatos de Kirchner, com o ministro das Relações Exteriores, Rafael Bielsa, abrindo a lista, estavam em terceiro lugar com 20,3%.

Eleito em abril de 2003 com apenas 22% dos votos no primeiro turno, porque seu principal adversário, o ex-presidente Carlos Saúl Menem, um peronista de direita, desistiu de disputar o segundo turno, Kirchner ficou com o estigma de não ter sido consagrado nas urnas.

Nesta luta pela legitimidade, Kirchner transformou uma eleição parlamentar de meio de mandato num plebiscito sobre seu governo. Ele chegou à Casa Rosada depois da pior crise econômica da história argentina.

Em dezembro de 2001, houve o colapso da paridade cambial entre o dólar e o peso e o fim da conversibilidade introduzida na era Menem (1989-99). O país decretou moratória de uma dívida de US$ 100 bilhões e a poupança depositada nos bancos ficou presa no corralito, jogando 58% dos argentinos abaixo da linha pobreza, contra 24% em 1999 e 38% hoje.

Tudo isso levou à renúncia do presidente Fernando de la Rúa (1999-2001), da União Cívica Radical, partido do ex-presidente Raúl Alfonsín. Depois de alguns interinos, o peronista derrotado por De la Rúa em 1999, Eduardo Alberto Duhalde Maldonado assumiu para completar o mandato evitando a convocação de eleições presidenciais antecipadas em meio à pior crise econômica da história do país.

Duhalde fora vice-presidente de Menem. Eles romperam por causa das políticas econômicas liberais do menemismo. Apesar da rejeição nas urnas, Duhalde chegou ao poder como cacique da máquina partidária do peronismo na província de Buenos Aires. Para impedir a volta de Menem ao poder, lançou Kirchner para sucedê-lo em 2003.

Kirchner x Duhalde
Assim que assumiu a presidência, com o estigma de não ter sido consagrado nas ruas, Kirchner procurou consolidar a sua própria base de poder, usando a máquina do Estado para cooptar os chamados peronistas e radicais do K. Foi duro nas negociações com o FMI e obteve um desconto de até 75% na renegociação da dívida. A Argentina está crescendo a uma taxa de 8,9% ao ano, com inflação hoje em 11% anuais. Já atingiu o nível de 1998 mas tem problemas para negociar os empréstimos e investimentos necessários à recuperação em bases permanentes.

O conflito entre criador e criatura era inevitável. Desde setembro do ano passado, os dois estão oficialmente rompidos e as eleições de 23 de outubro foram uma batalha importante nesta guerra. Kirchner pretende eleger 60 a 65 deputados leais, o que lhe permitiria criar um bloco de 100 a 110 deputados. Os deputados peronistas leais a Duhalde seriam cerca de 30 e a UCR teria uns 40.

Com uma ampla vitória sobre o duhaldismo, Kirchner é o grande vencedor desta eleição. Deve tentar atrair os rivais duhaldistas para o oficialismo. Afinal, pertencem aos setores mais à esquerda do peronismo. Não há uma incompatibilidade ideológica, como no caso do menemismo.

O Pingüim, como é chamado pelo nariz adunco e sua origem na Patagônia, é um presidente caracterizado pelo estilo agressivo. Já comprou brigas com o Fundo Monetário Internacional, empresas estrangeiras, os credores da dívida argentina, a Igreja Católica, o presidente Lula, o embaixador da França, a Federação das Indústrias de S. Paulo (Fiesp), os supermercadistas argentinos e quem se atravesse no caminho de suas ambições.

De olho na reeleição em 2007, Kirchner quer facilidade para aprovar suas propostas no Congresso para poder se dedicar de corpo e alma a uma campanha presidencial que promete ser dura como reza a tradição argentina.

A maior disputa mais uma vez será pela alma do general Perón. Depois dos fracassos econômicos dos governos radicais de Alfonsín e De la Rúa, a grande batalha deve ser travada dentro das hostes peronistas. O duelo entre Chiche e Cristina é apenas um trêiler.

O General Perón
Juan Domingo Perón era um oficial do Grupo de Oficiais Unidos, simpatizantes do nazifascismo que derrubaram o presidente civil Ramón Castillo no golpe de 4 de junho de 1943. De secretário do Trabalho e Bem-Estar Social, ele passou a ministro da Guerra e vice-presidente. Preso em 9 de outubro de 1945, foi solto por força grandes manifestações de massa em 17 de outubro do mesmo ano, data comemorada com entusiasmo por Kirchner durante a campanha. Ele lançou, na data, um programa educacional “para que os argentinos do futuro possam ter a mesma educação de qualidade que tínhamos no passado”.

O peronismo é um fenômeno típico do que se chama de populismo latino-americano, na definição do cientista político argentino Torcuatto di Tella, “uma aliança de parte da elite, incluindo industriais e militares nacionalistas, e trabalhadores, para enfrentar outro segmento da elite”, o mais conservador.

Para os militares argentinos, que alimentavam um sonho de hegemonia na América do Sul, o inimigo era o Brasil. Eles sabiam que a potência realmente hegemônica no continente, os Estados Unidos, não armaria a Argentina para atacar o Brasil, que adotava uma política de aliança automática com Washington. A Argentina precisava então do seu desenvolvimento industrial autônomo.

Daí nasce uma aliança entre militares, industriais, trabalhadores e setores da Igreja Católica contra uma elite fundiária que teria de pagar pelo protecionismo necessário ao nascimento de uma indústria nacional. Inspirado pelo ditador italiano Benito Mussolini e por Getúlio Vargas, a partir do golpe de 1943, Perón promoveu reformas sociais e fortaleceu os sindicatos como sua base de poder.

De 1930-35 a 1945-49, a produção industrial dobrou. Em 1944, as importações, que em 1925 consumiam 30% do PIB argentina, representavam apenas 6%. O número de fábricas passou de 38 mil em 1935 para 86 mil em 1946. No mesmo período, o operariado industrial passou de 436 mil para mais de 1 milhão de trabalhadores. Até 1947, chegaram à Grande Buenos Aires 1,368 milhão de migrantes vindos do campo atraídos pela rápida expansão industrial. Eram os descamisados que se tornariam massa de manobra para o peronismo. Seu discurso prometia plena cidadania para todos.

Isso levou Perón à sua primeira vitória eleitoral nas eleições presidenciais de 24 de fevereiro de 1946, com 56% dos votos, contra a União Democrática, que reunia desde os radicais, representantes da classe média antiperonista, até socialistas e comunistas, que na época, não sem alguma razão, descreviam Perón como fascista. Mas as massas argentinas já estavam seduzidas por este oficial e por sua segunda mulher, Maria Eva Duarte de Perón, com quem ele se casara quatro dias depois da libertação e da consagradora reaparição nos balcões da Casa Rosa, de onde pronunciaria seus discursos para empolgar a Argentina.

Filha ilegítima de uma cozinheira, cantora e atriz de radioteatro, Evita já era amante do general Perón. Eles formaram um casal sem paralelo na História nem no imaginário político latino-americano. Sua morte prematura, aos 33 anos, de câncer, em 1952, a transformou numa semideusa amada e odiada, uma personagem perene e insuperável da política argentina, mesmo que as primeiras-damas de hoje busquem a legitimidade no voto.

A ‘terceira via’
Defensor de uma “terceira via” entre o capitalismo e o comunismo, uma idéia originalmente mussolinista, Perón adotou uma atitude antiimperialista, nacionalizando empresas americanas e européias. Promoveu o tango como autêntica cultura popular argentina e legalizou a prostituição. Incentivou os sindicatos mas os manteve atrelados à máquina do Estado e do partido, esmagando quaisquer competidores interessados na luta dos trabalhadores.

Uma década de governos peronistas (1946-55) traria profundas mudanças para a classe trabalhadora argentina. Houve uma grande expansão do movimento sindical. O índice de sindicalização cresceu de 30,5% em 1948 para 42,5% em 1954, chegando a 70% na maioria dos setores industriais. O total de sindicalizados passou entre 1946 e 1951 de 520 mil para 2,333 milhões.

Pela primeira vez, foi introduzido em mecanismo de negociação coletiva, com escala móvel de salários, auxílio-doença, licença-maternidade, férias e outros direitos sociais. A Lei das Associações Profissionais, de outubro de 1945, estabeleceu a unidade, a imunidade dos dirigentes e o imposto sindical, garantindo uma arrecadação compulsória. Ao mesmo tempo em que garantia o financiamento dos benefícios previdenciários o Estado tentava assegurar seu controle sobre o movimento.

Havia sindicalistas no Congresso. Eles eram consultados oficialmente em decisões de governo. Operavam o sistema de previdência e assistência social através do Ministério do Trabalho e Bem-Estar Social e da Fundação Eva Perón. Logo as noções de autonomia política e organizacional do movimento operário começaram a se chocar com as ambições de Perón e dos outros participantes da aliança corporativista e nacionalista que as sustentava.

Perón foi reeleito em 1951, com ajuda importante do voto feminino pelo qual Evita lutara. Mas o autoritarismo, a corrupção e o conflito interno das diferentes forças componentes do peronismo, alinhadas à direita e à esquerda, inclusive uma ruptura com a Igreja Católica, levaram à chamada Revolução Libertadora ou, dependendo do ponto de vista, ao golpe de 16 de setembro de 1955. Desde então, todos os golpes de Estado na Argentina foram marcados pelo confronto entre peronistas de direita e de esquerda.

Amargo regresso
Perón ficou 18 anos no exílio. Quando voltou, em 20 de junho de 1973, foi recebido com a Batalha de Ezeiza, uma briga entre a direita peronista, que incluía a Aliança Anticomunista Argentina, liderada por José López Rega, que seria ministro do Bem-Estar Social do último governo Perón, e a extrema esquerda, onde estavam os Montoneros.

Em 23 de setembro de 1973, o velho caudilho é eleito presidente da Argentina pela terceira vez, com 62% dos votos, agora com sua nova mulher, María Estela Martínez de Perón, a Isabelita, como vice. Só que Isabelita não era Evita. Com a morte do general em 1º de julho de 1974, a crise do peronismo vai se agravando até o golpe de 24 de março de 1976 e a violenta ditadura que o seguiu, responsável por cerca de 30 mil mortes.

A democracia só voltou à Argentina em 1983, um ano depois da derrota para a Grã-Bretanha na Guerra das Malvinas, que desmoralizou as juntas militares. Desde então, dois mandatos foram encurtados por crises agudas, a hiperinflação de 1989 sob Alfonsín e o colapso do peso com De la Rúa em 2001. Desde 1930, Menem foi o único civil a ser eleito democraticamente a concluir o mandato.

Como o peronismo é aparentemente a única força política capaz de governar a Argentina, a grande batalha é mais uma vez pela hegemonia interna no Partido Justicialista. Para alguns argentinos, o peronismo é o “fenômeno incorrigível”, definição do escritor Jorge Luis Borges. Nesta visão, o golpe de 1943 marca o início de uma guerra civil que arrasou a Argentina, comprometendo uma situação econômica que a colocava entre os países mais ricos do mundo no início do século passado.

Para o professor Di Tella, “a guerra civil argentina termina em 1989, quando Carlos Menem, um peronista, convida o maior grupo empresarial do país a indicar o ministro da Economia”. Menem já era da direita peronista. Deu naquela época sua guinada definitiva para um liberalismo e um pró-americanismo que nada tem a ver com as idéias nacionalistas e antiimperialistas do caudilho.

Um dos países mais férteis do mundo, com população relativamente pequena, de 36 milhões de habitantes, uma renda média por habitante bem acima da brasileira e, apesar da crise, 34º melhor país do mundo no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, não há razões para a Argentina ter dificuldades econômicas. Foi o país que mais se subdesenvolveu no século 20, deixando de ser um dos mais ricos do mundo, em grande parte por causa de seus conflitos políticos.

sábado, 4 de novembro de 2006

Argentina não terá segunda reeleição

BUENOS AIRES - Só ontem o presidente Néstor Kirchner se manifestou mas a derrota de uma proposta que permitiria a reeleição indefinidamente do governador da província de Misiones (Missões), que faz fronteira com o Brasil, enterra também suas chances de re-reeleição, como brincou o jornal Página 12.

"As reeleições não devem servir para gerar falsos dilemas e dividir os argentinos", declarou Kirchner, num recado aos governadores das províncias de Jujuy, Eduardo Fellner, e de Buenos Aires, Felipe Solá, que também sonhavam com a reeleição.

Até domingo passado, o presidente apoiava claramente a proposta do governador Carlos Rovira, de Misiones. E desde então, poucos representantes do oficialismo haviam se manifestado, entre eles os governadores de Chubut, Mario das Neves, e o de Santa Fé, Jorge Obeid, e apenas para dizer que a derrota não afeta os planos de reeleição do presidente em 2007.

Embora muito fragmentadas, as oposições viram no plebiscito de Misiones um sinal de que Kirchner pode ser derrotado no próximo ano. O principal candidato antiKirchner até agora é o ex-ministro da Economia Roberto Lavagna, que renegociou a dívida argentina depois de moratória de 2001 conseguindo um desconto de até 75% mas foi demitido pelo presidente depois das eleições legislativas do ano passado por ter sido indicado pelo presidente interino Eduardo Duhalde (2002-03).

Duhalde bancou a candidatura Kirchner para barrar nova reeleição de Carlos Menem (1989-99). Como Menem fugiu do segundo turno, Kirchner acabou sendo eleito apenas com os 22% que conquistou no primeiro turno.

Na busca da legitimidade negada por Menem, Kirchner partiu então para disputar com seu padrinho o controle da máquina do Partido Justicialista (peronista), que disputou as eleições de 2005 dividido entre as correntes peronistas kirchnerista, duhaldista e menemista.

Com sua vitória em outubro do ano passado, Kirchner reformou o governo já pensando na reeleição em 2007. A derrota em Misiones o levará a rever seus planos. O presidente argentino é o favorito para a eleição. Mas não é imbatível.