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segunda-feira, 2 de abril de 2012

Argentina faz guerrinha diplomática pelas Malvinas

Trinta anos depois da invasão ordenada pelo ditador Leopoldo Fortunato Galtieri, a Argentina lembrou hoje a Guerra das Malvinas (Falklands, para os ingleses) em meio a uma ofensiva diplomática da presidente Cristina Kirchner para negociar com o Reino Unido a soberania das ilhas.

A guerra acabou com uma ditadura militar sanguinária (1976-83) acusada pela morte e o desaparecimento de 30 mil pessoas. Apesar de ter sido travada sob o comando de militares assassinos que torturaram seus próprios soldados no campo de batalha, deixou uma cicatriz profunda no orgulho argentino.

Quando invadiu as Malvinas, em 2 de abril de 1982, Galtieri não acreditava que a Grã-Bretanha iria à guerra "por umas ilhotas". Também contava com o apoio dos Estados Unidos, depois de fazer a guerra suja para o governo Ronald Reagan na América Central quando o presidente americano estava proibido pelo Congresso de ajudar as ditaduras da Guatemala, Honduras e El Salvador, e os contrarrevolucionários da Nicarágua.

A ditadura argentina treinava exércitos e rebeldes para a luta contra o comunismo na
América Central. Como comandante do Exército, Galtieri assumiu um papel de destaque nessas guerras sujas.

 Para dar um golpe dentro do golpe, derrubar o general Roberto Eduardo Viola e assumir a Presidência da Argentina, o general Galtieri teria oferecido a ocupação das ilhas como um presente à Marinha, a mais poderosa das três armas do país vizinho. Ou talvez quisesse apenas desviar a atenção da opinião pública da ruína econômica e da tragédia social.

As grandes potências não costumam se curvar diante de agressões de países menores. Deixariam de ser grandes potências se fizessem isso. A então primeira-ministra Margaret Thatcher enviou logo uma força-tarefa que retomou as Malvinas, as Ilhas Sanduíche e as Geórgias do Sul em 14 de junho de 1982, no fim de uma guerra em que morreram 649 argentinos e 258 britânicos.

Muitos argentinos, recrutados à força, sob o risco de pena de morte por deserção, sem treinamento, roupas adequadas ao frio polar e comida, se entregaram aos britânicos. Era esse o Exército poderoso que matava seu povo pelas costas, mas botou meninos despreparados para defender o país numa aventura inconsequente e irresponsável.

Havia uma negociação em curso, nos moldes da devolução de Hong Kong à China, acertada em 1984 e concretizada em 1997. Diante dos crimes da ditadura militar que tomou o poder na Argentina em 1976, a negociação foi abandonada. Era politicamente impossível fazer concessões para aquelas juntas militares ensandecidas.

Isso não impediu que Thatcher recusasse os pedidos de extradição do capitão Alfredo Astiz. Como Anjo da Morte da ditadura militar, ele matara pelas costas uma adolescente sueco-argentina e, em outra ocasião, duas freiras francesas. Na verdadeira guerra, nomeado comandante militar das Ilhas Geórgias do Sul, Astiz se rendeu sem disparar um tiro. Agora foi finalmente condenado pelos crimes da ditadura.

Até hoje, os veteranos das Malvinas acampam no centro de Buenos Aires para cobrar as promessas jamais cumpridas. Galtieri caiu dias depois do fim da guerra, como principal responsável por uma derrota humilhante.

O Brasil adotou uma posição de neutralidade durante o conflito. Apoiava e apoia e reivindicação argentina de soberania sobre as ilhas, mas rejeita o uso da força. Esta é hoje a posição comum da América do Sul.

Como representante do Brasil em Londres e porta-voz da Argentina, o embaixador e ex-ministro do Planejamento Roberto Campos teria aconselhado Thatcher a reassentar os cerca de 1,2 mil kelpers que moravam nas ilhas antes da invasão no Norte da Escócia, numa região de clima semelhante ao das Malvinas. Mas não era um problema econômico. Era - e ainda é - uma questão de soberania.

Por isso, a atual ofensiva diplomática de Cristina Kirchner é meramente retórica. Não é acusando o Reino Unido de militarizar o Atlântico Sul que a Argentina vai recuperar as Malvinas. Se empresas britânicas encontrarem petróleo nas ilhas, a discussão fará sentido.

No momento, é mais uma jogada de esperteza política da presidente argentina, que enfrenta uma séria crise econômica, com desabastecimento por causa das políticas protecionistas, tentativas desesperadas de manter um saldo comercial positivo para se autofinanciar.

Trinta anos depois do fim de duas tragédias argentinas, a Guerra das Malvinas e a ditadura militar, o país ainda não se livrou de sua crise política permanente, de sua crise de governabilidade.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Durão Barroso acusa Cameron de exigir o inaceitável

Depois da Alemanha, da França e do próprio vice-primeiro-ministro britânico, Nick Clegg, ontem foi a vez do presidente da Comissão Europeia, o ex-primeiro-ministro conservador português José Manuel Durão Barroso, atacar o veto do primeiro-ministro David Cameron a uma reforma dos tratados constitutivos da União Europeia.

Na reunião de cúpula de quinta e sexta-feira passadas em Bruxelas, na Bélgica, o chefe de governo do Reino Unido teria feito exigências inaceitáveis, capazes de destruir o mercado único europeu, afirmou Durão Barroso em discurso no Parlamento Europeu.

Ao prestar contas ao Parlamento Britânico, Cameron alegou ter vetado a mudança para proteger os interesses do país, especialmente do centro financeiro de Londres. Foi criticado pelo líder da oposição, Ed Miliband, por não ter impedido o acordo para salvar o euro ao mesmo tempo em que excluiu o Reino Unido da mesa onde serão tomadas as grandes decisões econômicas da União Europeia.

Cameron não tem condições de submeter qualquer legislação europeia à Câmara dos Comuns sem enfrentar uma revolta de sua própria bancada conservadora. Com a crise do euro, cresce o eurocetismo na Grã-Bretanha. Vários conservadores querem realizar um plebiscito para tirar o país da UE.

O governo britânico negou hoje que as propostas do primeiro-ministro representassem qualquer ameaça ao mercado único, o maior interesse do Reino Unido no processo de integração da Europa. Mas o mal-estar é o pior desde a era Margaret Thatcher (1979-90).

Um eurodeputado francês sugeriu que seja revisto o acordo que dá uma devolução ao Reino Unido porque o país pouco ganha com a política comum de subsídios agrícolas, que beneficia mais a França, a Alemanha, a Itália e a Espanha.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Margaret Thatcher esnoba Sarah Palin

Frágil e doente, a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher (1979-90) não aparece em público e não deve receber a ex-governadora do Alasca Sarah Palin e possível candidata à Casa Branca em 2012, afirma o jornal inglês The Guardian.

Aos 86 anos, a Baronesa Thatcher está proibida de discursar pelos médicos. Não vai nem às convenções do Partido Conservador, onde ainda seria a maior estrela.

Seus assessores entendem que Sarah Palin não merece a honra de um encontro com a mulher que deflagrou a revolução ou contrarrevolução conservadora. Ao lado do presidente americano Ronald Reagan (1981-89), eleito depois dela, Thatcher promoveu o neoliberalismo econômico e o conservadorismo político por todo o planeta.

"Lady Thatcher não vai se encontrar com Sarah Palin", declarou um assessor da ex-primeira-ministra ao Guardian. "Isso diminuiria Margaret. Sarah Palin é uma idiota."

terça-feira, 22 de junho de 2010

Reino Unido anuncia plano de ajuste de contas

O novo governo britânico anuncia cortes orçamentários de 17 bilhões de libras, cerca de US$ 25 bilhões ou R$ 44 bilhões, o congelamento dos salários do setor público por dois anos e meio, um imposto sobre transações financeiras e o lucro dos bancos, e o aumento do imposto sobre consumo de 17,5% para 20%.

São os maiores cortes de gastos públicos no Reino Unido desde os governos de Margaret Thatcher (1979-90).

A meta é reduzir o déficit de 10% para 1% do PIB em cinco anos. A libra caiu para US$ 1,47.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Reino Unido pede desculpas pelo Domingo Sangrento

Depois de 12 anos e de gastos de 300 milhões de libras, o inquérito oficial do governo britânico sobre o Domingo Sangrento, em Londonderry, na Irlanda do Norte, concluiu que soldados britânicos atiraram desnecessariamente em uma multidão desarmada, matando 14 civis inocentes da comunicade católica de forma “injustificável”, há 38 anos.

O Domingo Sangrento foi um dos momentos mais traumaticos da guerra civil na Irlanda do Norte. Parentes das vítimas fizeram hoje uma marcha silenciosa em protesto.

Em 30 de janeiro de 1972, comandos de paraquedistas do Exército Real britânico tomaram posição no alto de prédios na cidade de Londonderry, na Irlanda do Norte. Haveria uma manifestação do movimento de defesa dos direitos da minoria católica.

A Irlanda do Norte estava em guerra civil desde 1969, com a volta à luta armada do Exército Republicano Irlandês (IRA), que lutava pela unificação da Irlanda, e a intervenção do Exército Real britânico para manter a integridade territorial do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte.

Havia o temor de que o IRA estivesse infiltrado na manifestação em Derry, como chamam os católicos e nacionalistas irlandeses. Além dos paraquedistas instalados no alto de prédio, havia soldados britânicos também na rua, em meio a multidão. Só que eles não estavam em contato entre si.

Quando foi disparado o primeiro tiro pelos britânicos, seus próprios companheiros acreditaram que era um ataque do IRA e atiraram contra a multidão, matando 14 civis inocentes e desarmados.

O Domingo Sangrento, imortalizado na música da banda de rock irlandesa U2 Sunday Bloody Sunday, foi um dos momentos mais trágicos da guerra civil irlandesa. Ajudou a radicalizar o conflito e adiar a possibilidade de uma negociação de paz.

Em 1981, no governo Margaret Thatcher, Bobby Sands, ex-comandante do IRA, morreu no 66º dia de uma greve de fome de protesto para exigir que os rebeldes presos fossem reconhecidos como presos políticos.

Thatcher foi alvo de um atentado do IRA contra a convenção anual do Partido Conservador de 1984, em Brighton, no Sul da Inglaterra.

Mesmo assim, a partir de 1988, começa uma negociação secreta que levaria ao primeiro cessar-fogo do IRA em 1994 e ao início do processo de paz na Irlanda do Norte, que culminou com o Acordo da Sexta-Feira Santa, em 9 de abril de 1998.

Para fechar o acordo, o então primeiro-ministro Tony Blair decidiu abrir um novo inquérito para apurar os acontecimentos de 30 de janeiro de 1972.

Hoje, finalmente a verdade foi revelada e o atual primeiro-ministro, David Cameron, pediu desculpas.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Argentina ameaça empresas que explorem Malvinas

A Argentina ameaçou aplicar sanções contra empresas que explorem petróleo e gás nas Ilhas Malvinas e o mar territorial a seu redor. Aproveita a oportunidade para exigir a reabertura das negociações sobre a soberania sobre as ilhas.

O conflito, que provocou uma guerra contra o Reino Unido em 1982, voltou agora com a decisão britânica de procurar petróleo e gás na região.

Há quatro dias, a presidente Cristina Kirchner proibiu que navios a caminho das ilhas façam escala em portos argentinos, numa tentativa de impedir que os equipamentos para prospecção cheguem às Malvinas.

Ontem, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, declarou estar confiante numa solução diplomática para aliviar a tensão, mas reafirmou o que considera o direito de explorar as ilhas, que os britânicos chamam de Faklands.

As Ilhas Malvinas foram descobertas por navegadores europeus no fim do século 17. Fazem parte de um arquipélago situado no Sul do Oceano Atlântico, com duas grande ilhas que ficam a cerca de 480 quilômetros da Patagônia argentina.

Em 1764, os franceses iniciaram a primeira tentativa de colonização, estabelecendo uma base na ilha que os argentinos chamam de Grande Malvina e os ingleses de Falkland Oriental. Em 1765, os britânicos ocuparam a ilha de Soledad ou Falkland Ocidental.

Cinco anos depois, em 1770, a Espanha comprou a possessão francesa e expulsou os britânicos, mas eles voltaram no ano seguinte.

Diante do custo elevado de manter uma colônia a 10 mil quilômetros de distância da metrópole, o Império Britânico abandonou as Falklands, mas não sua reivindicação de soberania sobre as ilhas.

Em 1820, depois que a Argentina se tornou independente da Espanha, ocupou as Malvinas, retomadas pelo Império Britânico em 1833.

Desde então, a Argentina exige a devolução das ilhas, consideradas um enclave colonialista na América do Sul. Nas escolas argentinas, as crianças do país aprendem caligrafia escrevendo "Las Malvinas son argentinas" e "Son argentinas las Malvinas".

Nos anos 70 do século passado, o Reino Unido, querendo se livrar do fardo de colônias de custo elevado, começou uma negociação diplomata discreta no mesmo modelo que seria usado no acordo de 1984 que devolveu Hong Kong à China em 1º de julho de 1997. Mas o golpe militar de 24 de março de 1976 e o regime sanguinário que tomou o poder, acusado pelo desaparecimento de 30 mil pessoas, fizeram o governo britânico congelar as negociações.

Em 2 de abril de 1982, a Argentina invadiu as ilhas. O assalto seria fruto de um acordo do ditador Leopoldo Fortunato Galtieri com a Marinha argentina. Para obter o apoio da mais poderosa das três armas argentinas para sua ambição de passar do comando do Exército para a Presidência, Galtieri teria oferecido as Malvinas.

O ditador estaria convencido de que "os ingleses não iriam lutar por uma ilhazinhas". Mas a primeira-ministra britânica conservadora Margaret Thatcher não aceitou a humilhação. Afinal, grandes potências não costumam aceitar a conquista de seus territórios.

Depois de muita discussão no Parlamento Britânico, uma força expedicionária foi enviada para retomar as ilhas. Em missões heroicas, pilotos da Marinha argentina fizeram voos rasantes, a cinco a dez metros acima da superfície do Atlântico para iludir os radares e atacar a frota inimiga com mísseis franceses Exocet.

Se tivessem afundado mais navios britânicos, talvez a opinião pública do Reino Unido tivesse mudado de ideia e passado a rejeitar a ação militar. Mas, quando a força expedicionária chegou às ilhas, obteve uma vitória fácil.

Os primeiros comandos britânicos desembarcaram nas Malvinas em 21 de abril. Sob pressão do clima rigoroso do outono no Sul do Atlântico, se retiraram no dia seguinte.

Em 1º de maio, as forças britânicas lançaram a operação terrestre. No dia seguinte, o submarino nuclear britânico Conqueror afundou o cruzador argentino General Belgrano, matando 323 argentinos fora da zona de exclusão imposta pelos britânicos ao redor das ilhas, o que provocou uma reação internacional negativa para Thatcher.

Mais de 700 marinheiros foram salvos das águas geladas. Acuada, a ditadura militar argentina radicalizou ainda mais sua posição, mas a ameaça da Marinha estava neutralizada.

Dois dias depois, um Exocet atingiu o contratorpedeiro britânico Sheffield, que foi abandonado e queimou durante seis dias. Foi um dos episódios que poderiam ter virado a opinião pública na Grã-Bretanha.

Por causa da eficiência dos aviões franceses Etendart e dos mísseis Exocet, os britânicos chegaram a fazer plano para ataque sua base, em Rio Grande, na Terra do Fogo. Seria um ataque ao território continental da Argentina, numa ampliação significativa da guerra.

Para o comando das forças de elite das Forças Armadas britânicas, seria uma operação suicida.

Em 21 de maio, a força-tarefa britânica lançou uma operação de assalto anfíbio nas praias próximas da Baía de São Carlos, na costa noroeste da Grande Malvina.

Sem treinamento, armas adequadas e roupas para resistir ao frio e ao exército profissional do Reino Unido, os reservistas argentinos, convocados sob a ameaça de pena de morte por deserção, se entregaram em alguns casos em troca de abrigo e comida.

A última batalha da guerra, para tomada da capital, que os britânicos chamam de Porto Stanley e os argentinos de Porto Argentino, começou em 11 de junho.

Em 14 de junho, depois de 74 dias de guerra, a Argentina se rendeu. Ao todo, 907 pessoas morreram na Guerra das Malvinas: 649 argentinos, 255 militares britânicos e três mulheres civis residentes nas ilhas.

A derrota vergonhosa completou a desmoralização da ditadura militar argentina e apressou a volta de democracia, com impacto sobre toda a América Latina.

O capitão Alfredo Astiz era conhecido como Anjo da Morte por suas atividades terroristas nos esqudrões da morte da Escola de Mecânica da Armada (ESMA) contra grupos esquerdistas, inclusive o assassinato de uma garota sueco-argentina de 17 anos, Dagmar Hagelin, com um tiro pelas costas. Nomeado governador das Ilhas Geórgias do Sul, se entregou sem disparar um tiro.

Vários grupos de defesa dos direitos humanos e o governo da Suécia pressionaram o governo Thatcher a entregar Astiz. Thatcher, que apoiara a ditadura no seu confronto com grupos de esquerda, assim como sempre apoiou a ditadura do general Augusto Pinochet no Chile, preferiu devolvê-lo à Argentina.

Galtieri e sua junta militar caíram, sendo substituídos pelo general Reinaldo Bignone, que convocaria eleições diretas em 1983, vencidas por Raúl Alfonsín, marco da redemocratização do país.

Se a Guerra das Malvinas serviu para algo na Argentina, foi para acabar com a ditadura.

No Reino Unido, fortalecida politicamente pela vitória, Margaret Thatcher obteve sua maior vitória eleitoral nas eleições parlamentares de 1983. Consolidou o poder, ampliou o programa de privatizações e partiu para o enfrentamento com os sindicatos.

A prova de fogo foi uma greve de mineiros de carvão que durou 11 meses, em 1984 e 1985. Thatcher venceu, reduzindo o poder do sindicalismo britânico.

Desde 1994, a Constituição da Argentina obriga o presidente a lutar pela soberania sobre as Ilhas Malvinas. Caso contrário, pode ser alvo de processo de impedimento por crime de responsabilidade. Mas será preciso um governo menos oportunista do que o do casal Kirchner em Buenos Aires para que as negociações diplomáticas avancem.

Na posição do governo britânico, qualquer mudança de status nas últimas colônias do império depende da aprovação dos moradores do território. Isso impede as negociações com a Espanha sobre Gibraltar, já que os habitantes, na maioria britânicos, são contra.

Pouco mais de 3 mil kelpers vivem nas Malvinas e não aceitam viver sob domínio argentino.

Durante a guerra, o embaixador do Brasil em Londres, Roberto Campos, argumentou junto ao governo Thatcher que seria muito mais barato reassentar os kelpers na Escócia, que tem um clima semelhante ao das Malvinas. Mas impérios, mesmo decadentes, não aceitam ser humilhados.

O Brasil apoiava a reivindicação argentina de soberania sobre as ilhas, mas rejeitava o uso da força. Mantém essa posição até hoje.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Indústria britânica declina sob o trabalhismo

A participação da indústria na economia do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte caiu mais durante os governos trabalhistas de Tony Blair e Gordon Brown do que nos governos conservadores que os antecederam, de Margaret Thatcher e John Major, revelou o jornal londrino Financial Times.

O neoconservadorismo político e o neoliberalismo econômico de Thatcher nos anos 80 geralmente é acusado pelo declínio da indústria manufatureira do país. Na Era Thatcher, de maio de 1979 a novembro de 1990, a participação da indústria do produto interno bruto britânico caiu de 25,8% para 22,8%.

Quando Tony Blair derrotou John Major (1990-97), acabando com 18 anos de conservadorismo no poder, o setor manufatureiro ainda respondia por mais de 20% do PIB. No fim de 2007, antes do agravamento da crise econômica global, sua participação tinha caído para 12,7%.

sábado, 3 de maio de 2008

Boris Johnson é eleito prefeito de Londres

É uma surpresa e uma grande derrota para o Partido Trabalhista e o primeiro-ministro Gordon Brown. O candidato conservador Boris Johnson venceu a eleição para prefeito de Londres, derrotando Ken Livingstone, o Vermelho, da ala mais à esquerda do Partido Trabalhista.

Ken, o Vermelho, era o líder da Câmara da Grande Londres, extinta por Margaret Thatcher em 1986 por ser dominada pela esquerda. Desde que os trabalhistas, sob Tony Blair, introduziram a eleição direta para prefeito de Londres, em 2000, Ken tinha ganho as duas eleições. Era considerado quase imbatível.

Boris é um jovem jornalista conservador com fama de extravagante e trapalhão. Foi diretor da conceituada revista conservadora The Spectator. Já foi cogitado como líder do Partido Conservador, mas parecia tresloucado demais para a função.

É um cara incapaz de arrumar seus cabelos louros. O trânsito de Londres é um pouco mais difícil. Mas é uma figura. Na era do espetáculo, Londres, um dos principais centros desta sociedade do espetáculo, só poderia ter um prefeito midiático, exótico e extravagante.

O jornal conservador britânico Daily Telegraph sugere que, sem cargo, Ken pode se tornar um espinho para o primeiro-ministro Brown. Eles são adversários dentro do Partido Trabalhista desde que ambos eram jovens deputados ambiciosos na Câmara dos Comuns, nos anos 80.

sábado, 8 de março de 2008

Dama de Ferro é hospitalizada no Reino Unido

A Baronesa Margaret Thatcher, primeira mulher a se tornar primeira-ministra do Reino Unido, foi internada para exames aos 82 anos. Seu estado de saúde é considerado estável.

Thatcher ganhou o apelido de Dama de Ferro da imprensa soviética por causa de um discurso anticomunista em 1976, quando era líder da oposição conservadora.

No poder, de 1979 a 1990, honrou a alcunha aplicando a linha dura contra sindicalistas para impor uma política econômica neoliberal destinada a fazer "recuar as fronteiras do Estado". Ela cortou impostos e gastos públicos, privatizou empresas estatais e exigiu uma dedução do dinheiro britânico dado à Comunidade Européia.

Sua política econômica aumentou o desemprego que a ajudara a se eleger em 4 de maio de 1979 de 1 para 3 milhões de trabalhadores. Thatcher enfrentou um ano de uma greve dos mineiros de carvão que prejudicou a geração de energia na Grã-Bretanha.

Também adotou a linha dura contra o Exército Republicano Irlandês (IRA), que lutava contra o domínio britânico sobre a Irlanda do Norte. Uma greve de fome matou em 1981 o lendário Bobby Sands, um dos líderes do grupo terrorista que desafiou a determinação da Dama de Ferro.

Em 1984, um atentado do IRA contra um hotel em Brighton onde se realizava a convenção anual do Partido Conservador quase a matou.

Antes disso, em 1982, Thatcher foi inflexível diante da invasão argentina às Ilhas Malvinas, que os ingleses chamam de Falklands. Depois de uma guerra curta em que quase mil pessoas foram mortas, os argentinos foram expulsos das ilhas do Sul do Oceano Atlântico.

A derrota nas Malvinas desmoralizou a junta militar argentina liderada pelo general Leopoldo Fortunato Galtieri, um dos grandes delinqüentes da história recente do país, acelerando o fim da ditadura militar, que viria em 1983, com a eleição de Raúl Alfonsín.

Só então, Thatcher obteve a segunda vitória eleitoral, em 1983, conquistando uma ampla maioria na Câmara dos Comuns do Parlamento Britânico que permitiu a aplicação de seu programa radical de privatização. A economia britânica, sufocada por uma carga fiscal com alíquotas de até 89%, reagiu.

Hoje, o Reino Unido tem a quinta maior economia do mundo. Superou a França mas foi ultrapassado pela China.

Em agosto de 1990, quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait e o anexou ao Iraque, Thatcher teria sido decisiva para convencer o então presidente dos Estados Unidos, George Bush, pai, a enviar tropas para proteger a Arábia Saudita, na Operação Escudo no Deserto. Ela teria dito: "Não é hora de amolecer, George".

Durante a Operação Tempestade no Deserto, que expulsou os iraquianos do Kuwait, de 17 de janeiro a 28 de fevereiro de 1991, ela tinha deixado a residência oficial de 10 Downing Street.

O thatcherismo sobreviveu ao governo Thatcher. Em outubro de 1990, por causa de sua tenaz oposição à maior integração européia e da proposta de introdução de um imposto predial e territorial baseado no número de moradores de uma propriedade imobiliária e não no seu valor, a Dama de Ferro foi derrubada por seu próprio partido.

Esse regicídio até hoje dilacera o Partido Conservador britânico, que se considerava o mais bem-sucedido da História do Ocidente.

Sucessor de Thatcher, o moderado John Major completou seu mandato e conquistou mais um, em 1992, contrariando as pesquisas de opinião. Mas jamais conseguiu unir o partido, sendo fragorosamente derrotado por Tony Blair em 1º de maio de 1997.

Ao prometer durante a campanha não aumentar as alíquotas do imposto de renda, entre outras medidas copiadas da plataforma conservadora, Blair incorporou políticas da Dama de Ferro a seu Neotrabalhismo, além da eliminar a Cláusula 4 do estatuto do Partido Trabalhista, que falava em estatização dos meios de produção. Foi uma ruptura com o socialismo que ajudou a levar o partido de volta ao poder depois de 18 anos.

Com essas propostas, o Neotrabalhismo chegou a ser definido como "o thatcherismo com face humana", por causa dos investimentos em serviços públicos como educação, saúde e transportes, talvez a principal razão das três vitórias consecutivas de Blair, que cairia em 2007 devido à sua participação na invasão do Iraque.

Só agora, no governo Gordon Brown, depois de uma sucessão de líderes fracassados, sob a liderança do jovem David Cameron, os conservadores voltaram a estar na frente dos trabalhistas nas pesquisas de opinião. Daí até retomarem o poder vai uma grande distância.

Lady Thatcher ainda é a figura dominante do conservadorismo britânico, tendo inspirado líderes direitistas do mundo inteiro, de Ronald Reagan, nos EUA, a Václav Klaus, reeleito presidente da República Tcheca.

domingo, 14 de outubro de 2007

Oposição britânica tem maior apoio em 15 anos

O Partido Conservador britânico festeja hoje sua melhor pesquisa eleitoral dos últimos 15 anos. Depois de uma lua-de-mel de 100 dias em que o novo primeiro-ministro Gordon Brown chegou a ter uma confortável vantagem de 11 pontos percentuais, o recuo em convocar eleições antecipadas e uma ofensiva política conservadora reverteram a situação.

Uma pesquisa divulgada hoje no jornal conservador The Sunday Telegraph dá 43% das preferências aos conservadores contra 36% para os trabalhistas e 14% para o Partido Liberal-Democrata.

Além de não convocar eleições para legitimar seu mandato, Brown está sendo acusado de roubar propostas de cortes de impostos anunciadas pela oposição.

O jovem líder conservador, David Cameron, que já estava sendo atacado pela ala mais direitista do partido, renovou suas credenciais ao atacar a União Européia, acusada pelos conservadores de querer de transformar num superestado nacional que acabaria com a soberania nacional do Reino Unido.

Cameron está cobrando a realização de um plebiscito sobre o projeto de Constituição da Europa, uma promessa do ex-primeiro-ministro Tony Blair retirada depois que a França e a Holanda votaram contra a constituição em 2005.

Blair tornou-se o mais bem-sucedido líder trabalhista britânico da História ao vencer as últimas três eleições nacionais no Reino Unido. Em 1997, conquistou uma ampla vitória, acabando com 18 anos de conservadorismo iniciado por três vitórias conservadoras sob a liderança de Margaret Thatcher (1979-1990).

Seu apoio incondicional ao presidente dos Estados Unidos, George Walker Bush, na guerra do Iraque, extremamente impopular na Grã-Bretanha, levou a uma perda de cerca de 100 cadeiras na Câmara dos Comuns do Parlamento Britânico nas eleições de 2005. Foi uma vitória com gosto de derrota.

Desde então, aumentou a pressão pela renúncia de Blair, que deixou a liderança do governo e da chefia do partido em junho.

Pelo sistema eleitoral britânico, o novo líder do partido majoritário ascendeu ao cargo de primeiro-ministro sem necessidade de novas eleições. Brown é mais duro, menos carismático e menos midiático do que Blair. Por isso, perdeu a disputa pela liderança do partido em 1994.

Assim, só agora conseguiu realizar o sonho de sua vida: governar a Grã-Bretanha. Precisa agora reafirmar sua liderança e tentar recuperar a iniciativa política, que, de acordo com as pesquisas, passou para a oposição.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Sarkozy propõe reforma previdenciária

O novo presidente da França, Nicolas Sarkozy, apresentou hoje sua proposta de reforma da Previdência, alegando que o atual sistema "não é sustentável financeiramente" e que há necessidade de "um novo contrato social".

Como o projeto reduz direitos e benefícios, espera-se uma forte reação dos sindicatos. A TV pública britânica BBC disse que a França corre o risco de viver um "inverno do descontentamento", como aconteceu na Grã-Bretanha em 1978-9, quando uma onda de greves acabou com o prestígio do governo trabalhista, levando à vitória de Margaret Thatcher e a 18 anos de governos conservadores.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Gordon Brown já é primeiro-ministro britânico

Depois de dez anos de espera e de uma luta surda pelo poder com primeiro-ministro que sai, Tony Blair, Gordon Brown assumiu hoje a chefia do governo do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte. Depois de pedir autorização oficial à rainha Elizabeth II para formar o próximo Governo de Sua Majestade, entrou na residência oficial de 10e Downing Street prometendo "trabalhar pela mudança".

Não foi uma entrada triunfal como a de Blair chegou em 2 de maio de 1997, com o povo nas ruas festejando a derrota dos conservadores. Com apenas 43 anos, levava o Partido Trabalhista à vitória depois de 18 anos de thatcherismo. Era o mais jovem primeiro-ministro britânico desde Lorde Liverpool, em 1812, na época das guerras napoleônicas.

Blair deixa como legado uma economia estável e em crescimento sustentado, graças ao ex-ministro das Finanças e agora primeiro-ministro Gordon Brown, uma certa recuperação dos serviços públicos e a paz na Irlanda do Norte, acabando com um conflito de 800 anos entre Inglaterra e Irlanda.

Em 11 de setembro de 2001, percebendo a importância dos atentados terroristas contra Nova Iorque e Washington, tratou de consolidar a "relação especial" com os Estados Unidos, dando apoio incondicional ao presidente George W. Bush. Sua "herança maldita" será a guerra no Iraque, causa de sua queda prematura.

Na sua terceira vitória eleitoral consecutiva, algo inédito para um líder trabalhista britânico, Blair perdeu mais de 100 deputados na Câmara dos Comuns do Parlamento Britânico por causa da rejeição da opinião pública à intervenção no Iraque. Desde então, sua queda está anunciada. Ele teve o direito de marcar a data.

Brown, preterido na disputa pela liderança do partido depois da morte de John Smith, em 1994, é mais sizudo e mais carruncudo, menos midiático. Sorri pouco. Fala pouco. É frio e calculista. Como ministro das Finanças de Blair, foi um excelente gestor do mais longo período de expansão da história econômica da Grã-Bretanha. Agora, é a sua vez.

A exemplo da ex-primeira-ministra Margaret Thatcher (1979-90), Blair adotou um estilo de governo quase presidencialista, centralizado nele. Sempre tomou decisões com um pequeno grupo do qual participavam assessores sem mandato eletivo, como seu diretor de comunicações, Alastair Campbell, a "face antipática" do governo Blair.

Campbell era tão influente que caiu depois do suicídio de um cientista do Ministério da Defesa que dissera em sigilo à BBC que a alegação de que Saddam Hussein poderia contra-atacar com armas de destruição em massa em 45 minutos era uma fabricada pelo governo. Nenhum cientista previra essa possibilidade.

Se era responsável, em primeiro lugar, o primeiro-ministro sabia e concordou com a mentira apresentada ao Parlamento e à opinião pública; em segundo lugar, Campbell tinha poder demais. Desde o início, o governo Blair notabilizou-se por manipular as notícias, dando um 'efeito especial' (spin), a tal ponto que no dia 11 de setembro de 2001 uma assessora do Ministério do Meio Ambiente, Transportes e Cidades sugeriu que era "um bom dia para divulgarmos notícias que quisermos enterrar", debaixo das Torres Gêmeas do World Trade Center, com quase mil cadáveres. Pegou mal.

No fim, o governo Blair foi vítima do seu próprio veneno.

Gordon Brown prometeu governar com todo o gabinete e o Parlamento, fortalecer as instituições e fazer um governo menos personalista. Blair virou uma celebridade midiática internacional ao chamar Lady Diana, a Princesa de Gales, de "princesa do povo", no dia de sua morte. Teria sido uma idéia de Campbell. Brown sabe que não tem a mesma naturalidade e desenvoltura diante das câmeras.

Sintomaticamente, o último encontro de Blair como primeiro-ministro foi com o governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, um astro de Hollywood. Os repórteres brincaram que Blair poderia dizer "Hasta la vista, baby!" (Até a vista, baby!), uma das frases do Exterminador do Futuro, papel que celebrizou Arnie no cinema, mas não "I'll be back!" (Eu voltarei!)

Sua carreira de deputado do Parlamento Britânico também chegou ao fim. Blair renunciou ao mandato para se dedicar à função de enviado especial do Quarteto (EUA, Nações Unidas, União Européia e Rússia) para negociar a paz no Oriente Médio.

Já há comentaristas árabes protestando, por causa da participação de Blair na ocupação do Iraque. Mas se houvesse um mínimo de concordância no Oriente Médio, a paz não estaria tão distante.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Kirchner responde a Thatcher sobre Malvinas

Um tiroteio verbal marcou o 25º aniversário da vitória britânica sobre a Argentina na Guerra das Malvinas, que os ingleses chamam de Ilhas Falklands.

Na Grã-Bretanha, a ex-primeira-ministra Margaret Thatcher defendeu ontem a decisão de ir à guerra, afirmando que foi "uma grande vitória por uma causa nobre".

O presidente argentino, Néstor Kirchner, que não perde a oportunidade para comprar uma briga, deu o troco prometendo lutar pela "soberania das Ilhas Malvinas até o último momento": "Quero dizer à senhora Thatcher que pode nos ter ganho uma batalha, mas nunca vai nos tirar a razão de justiça de que as Malvinas são argentinas e que pela paz voltarão a ser argentinas".

Thatcher, de 81 anos enviou ontem uma mensagem de rádio saudando os habitantes, conhecidos como 'kelpers', das ilhas do Sul do Atlântico, tomadas pelo Império Britânico em 1833. Desde então, a Argentina reivindica a soberania sobre as Malvinas.

A "experiência intensa" da guerra "une em espírito" todos os britânicos, declarou Thatcher, que aproveitou a oportunidade para justificar o apelido de Dama de Ferro, consolidou seu poder, conquistou uma ampla vitória nas eleições de 1983 e pôde então aplicar seu programa de reformas econômicas neoliberais.

"Vocês estão em meus pensamentos e minhas preces. Há 25 anos, as forças britânicas garantiram uma grande vitória, por uma causa nobre. A nação inteira se encheu de júbilo e deveríamos seguir cheios de alegria. A agressão foi derrotada", disse a ex-líder conservadora e agora Baronesa Thatcher. "Os desejos dos habitantes das ilhas foram respeitados e defendidos. A honra e os interesses da Grã-Bretanha prevaleceram".

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Gordon Brown sai da sombra de Tony Blair

O Partido Trabalhista britânico reage nas pesquisas. Desde o anúncio oficial da saída do primeiro-ministro Tony Blair e do lançamento da candidatura do ministro das Finanças, Gordon Brown, como sucessor na liderança trabalhista e do governo, o partido subiu quatro pontos percentuais. Com 33% das preferências contra 37% da oposição conservadora, está praticamente empatado, considerando-se a margem de erro da pesquisa.

Pelo sistema político do Reino Unido, como os trabalhistas tem ampla maioria, 354 dos 645 deputados da Câmara dos Comuns do Parlamento Britânico, Brown não precisa convocar eleições gerais para assumir a chefia do governo. Dias depois de Blair pedir demissão à rainha, em 27 de junho, Elizabeth II deve pedir ao novo líder trabalhista que forme um governo.

Numa escala de 0 a 10, os eleitores entrevistados na pesquisa deram nota 5 para Brown, logo acima de Cameron, com 4,95, mas abaixo de Blair, que ficou em primeiro com 5,22.

Seu desafio é reconquistar o eleitorado para dar legitimidade a seu governo e retomar a liderança nas pesquisas sobre as próximas eleições gerais. Sua tendência seria convocar eleições antecipadas para 2009, um ano antes do final do mandato dos atuais deputados.

Primeiro, ele se dedica à disputa interna trabalhista. Até o momento, não tem oposição. Brown recebeu o apoio de 282 dos 354 deputados do partidos. O esquerdista John McDonell tem 27 indicações. Precisa de pelo menos 45 para entrar na cédula.

Como as candidaturas precisam ser registradas até quinta-feira, 17 de maio, Brown pode ser coroado sucessor de Blair ainda nesta semana.

Na disputa pela vice-liderança, o ministro da Educação, Alan Johnson, tem 64 indicações, seguido pela secretária de Justiça, Harriet Harman, com 60, o secretário para a Irlanda do Norte, Peter Hain, com 49, e o presidente do partido, Hazel Bleares, com 48. Com 44, John Cruddas só precisa de mais um deputado, enquanto o secretário para o Desenvolvimento Internacional, Hillary Benn, tido inicialmente como favorito, tinha apenas 34 votos.

James Gordon Brown, o futuro primeiro-ministro britânico, nasceu na Escócia em 20 de janeiro de 1951. Seu pai era ministro da Igreja da Escócia. Aos 16 anos, foi aceito para estudar História na Universidade de Edimburgo. Um descolamento da retina, provavelmente causado por um jogo de rúgbi, o deixou cego do olho esquerdo, apesar de várias cirurgias.

Brown graduou-se com distinção e louvor e ficou na faculdade até completar seu doutorado, com tese sobre O Partido Trabalhista e a Mudança Política na Escócia de 1918-29. Seu plano inicial era falar do movimento trabalhista desde o século 17 mas moderou suas ambições.

Antes de entrar na política, Brown foi professor universitário e jornalista de televisão. Em 1979, perdeu a eleição para Michael Ancram. Em 1983, chegou ao Palácio de Westminster, onde dividia o gabinete com o jovem Tony Blair.

Leia a íntegra na minha coluna internacional no Baguete.

domingo, 6 de maio de 2007

Sarkozy: "Ganhei um mandato para a mudança"

Ao agradecer à vitória, o presidente eleito da França, Nicolas Sarkozy, declarou: "O povo francês pediu a mudança. Vou realizar esta mudança porque este é o mandato que recebi do povo francês."

Conservador, Sarkozy pretende reformar a legislação trabalhista na França para reduzir o desemprego e usá-lo como arma para integrar os excluídos da sociedade francesa.

As palavras-chaves de seu discurso foram:
• trabalho,
• autoridade,
• moral,
• respeito e
• mérito.

O novo presidente propõe reformas liberalizantes para a economia francesa, como cortes de impostos e facilitação de contratações e demissões, sem abrir mão do nacionalismo econômico, da proteção a grandes empresas do país e à agricultura. Aproximar-se dos Estados Unidos em política externa. E adotar a linha dura em questões domésticas, como segurança pública, imigração ilegal e direito de greve.

Como fez a primeira-ministra Margaret Thatcher na Grã-Bretanha, terá de enfrentar o poder dos sindicatos. Por isso, sua adversária, a socialista Ségolène Royal, advertiu na antevéspera da eleição que sua vitória acirraria os conflitos sociais.

Ségolène pediu a seus eleitores que "continuem mobilizados", tendo em vista as eleições legislativas de 10 e 17 de junho, que darão ou não maioria parlamentar ao novo presidente.

Por outro lado, a França precisa mudar. Os dois candidatos finalistas expressavam esse desejo de mudança. Ségolène teria mais dificuldades em propor reformas por causa da divisão interna do Partido Socialista. Mas Sarkozy também deve enfrentar sérias resistências.

domingo, 1 de abril de 2007

Argentina veta empresas que operam nas Malvinas

Às vésperas do 25º quinto aniversário da invasão das Ilhas Malvinas, a Argentina anunciou que empresas que operam nas ilhas serão proibidas de atuar no continente. Uma das empresas que podem ser atingidas é a transnacional petrolífera anglo-holandesa Shell.

O governo britânico reagiu dizendo que a decisão é arbitrária e não ajuda em nada a reclamação argentina de soberania sobre as ilhas, ocupadas pela Grã-Bretanha em 1833. Em 2 de abril de 1982, durante a última ditadura militar argentina, as Malvinas, que os britânicos chamam de Falklands, foram invadidas, assim como as ilhas Sanduíche e as Geórgias do Sul, outras possessões britânicas.

Apesar da condenação internacional, com exceção da América Latina, a Argentina não recuou. A primeira-ministra Margaret Thatcher enviou, então, uma força tarefa para retomar as ilhas. Depois de uma série de batalhas aeronavais, os britânicos chegaram às ilhas em 21 de maio de 1982, e os argentinos renderam-se em 14 de julho.

Ao todo, 649 argentinos e 258 britânicos foram mortos.

Na verdade, a decisão de tomar as ilhas parece ter sido tomada como resultado de um golpe dentro do golpe na sangrenta ditadura militar argentina de 1976-83, acusada por 30 mil mortes.

Havia uma negociação em curso para devolução das Malvinas, a exemplo do que aconteceu com Hong Kong. O governo Thatcher chegou a um acordo com o regime comunista chinês, em 1984, e a última jóia do Império Britânico foi devolvida à China em 2 de julho de 1997. Mas os britânicos não entregariam as ilhas a uma ditadura sanguinária.

Para derrubar o general-presidente Roberto Viola, o comandante do Exército, general Leopoldo Galtieri, teria feito uma aliança com a poderosa Marinha argentina, comprometendo-se a reconquistar as Malvinas.

De um dia para o outro, o odiado regime militar tornou-se popular. Os argentinos foram para a Praça de Maio festejar a retomada das ilhas diante da Casa Rosada, a sede de governo, ocupada por um ditador sanguinário e irresponsável, um delinqüente que chegou a acreditar nas suas próprias ilusões, dizendo que "os ingleses não brigar por umas ilhotas".

Mas uma potência mundial não pode ceder à chantagem de um governo criminoso. Seria uma desmoralização. No final, a humilhada ditadura militar argentina acabou caindo. Logo a junta militar foi substituída pelo general Reinaldo Bignone, que convocou eleições presidenciais diretas para 1983, vencidas por Raúl Alfonsín (1983-89).

Ao desmoralizar a ditadura argentina, a Guerra das Malvinas foi um marco na redemocratização da América Latina. Os argentinos mantêm sua reivindicação de soberania sobre as ilhas. Como no caso de Gibraltar, reclamado pela Espanha, o governo britânico insiste em que qualquer solução depende da concordância democrática das moradores.

Os cerca de 3 mil habitantes das Malvinas podem ser reassentados no Reino Unido. Jamais concordarão em ser governados pela Argentina.

Durante a guerra, o Brasil apoiou a reivindicação argentina mas rejeitou o uso da força. Chegou a intermediar as negociações. Ajudou a Argentina mas permitiu pousos de reabastecimento de aviões britânicos a caminho das ilhas. Hoje os historiadores entendem que a posição brasileira reforçou os laços com o vizinho, abrindo caminho para a integração econômica do Cone Sul da América Latina após a queda das ditaduras militares nos dois países.

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Morre guru do neoliberalismo

Um dos economista mais influentes do século 20, o americano Milton Friedman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1976, morreu do coração hoje aos 94 anos em São Francisco da Califórnia, nos Estados Unidos.

Guru e fundador, em 1948, da Escola de Chicago e do monetarismo, Friedman defendia a redução do papel do Estado na economia, com cortes nos impostos e nos gastos públicos, e menos regulamentação, para liberar as forças do setor privado, na sua opinião muito mais eficiente do que o setor público.

Suas idéias foram a base da revolução neoconservadora impulsionada pelos governos Margaret Thatcher (1979-1990), no Reino Unido, e Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e por ditadores latino-americanos como o general Augusto Pinochet, no Chile.

Sob Thatcher, a Grã-Bretanha se tornou um laboratório para as idéias de Friedman. A economia britânica voltou a crescer. Hoje é a quinta do mundo. Mas o desemprego chegou a níveis antes considerados inaceitáveis e o país se desindustrializou. O legado da era Thatcher ainda é ferozmente discutido.

"Milton Friedman reviveu a economia da liberdade quando ela estava quase esquecida. Era um combatente intelectual pela liberdade. Nunca houve um praticamente menos sombrio da 'ciência sombria' (economia)", declarou Thatcher em nota distribuída à imprensa.

Libertário, era a favor da legalização das drogas para que a sociedade e cada indivíduo assumisse a responsabilidade pelos seus atos, com menos interferência do Estado no que considerava uma questão privada.

Em Capitalismo e Liberdade, escreveu: "A liberdade política significa a ausência de coerção de um homem por seu semelhante. A ameaça fundamental à liberdade é o poder de coagir, esteja nas mãos de um monarca, ditador, uma oligarquia ou uma maioria momentânea. A preservação da liberdade exige a eliminação desta concentração poder na maior extensão possível e a dispersão e distribuição de qualquer poder capaz de ser eliminado - num sistema de controles. Ao tirar a organização da atividade econômica do controle da autoridade política, o mercado elimina a fonte do poder coercitivo. Habilita o poder econômico a ser uma limitação em vez de um reforço do poder político".

Seus antípodas marxistas diriam que no sistema capitalista há um conluio entre o poder político e o grande capital. Os políticos, cujas campanhas são financiadas por empresas, seriam leais a este poder econômico, representariam majoritariamente os interesses do capital, o que manteria a concentração de poder.

De qualquer maneira, a democracia é a melhor maneira de controlar tanto o poder político quanto o poder econômico. Em liberdade, pode-se lutar para mudar o mundo ou qualquer outra coisa.