sábado, 26 de novembro de 2016

Fidel Castro morre aos 90 anos

O ditador cubano Fidel Castro morreu ontem aos 90 anos, seis anos depois de transferir o poder ao irmão Raúl Castro e 57 anos depois da vitória da Revolução Cubana. O governo decretou luto oficial por nove dias. Fidel será cremado e as cinzas levadas para Santiago de Cuba, fazendo o caminho inverso ao dos guerrilheiros quando tomaram o poder.

Grande herói da esquerda latino-americana durante a Guerra Fria, seu regime comunista, instalado a 144 quilômetros da Flórida, foi um desafio aos Estados Unidos, fomentou guerrilhas anticapitalistas e gerou a maior ameaça de guerra nuclear da história.

Em 14 de outubro de 1962, um avião espião U-2, dos EUA, fotografou a construção de instalações para abrigar mísseis nucleares soviéticos em Cuba. Isso neutralizaria a superioridade americana em mísseis de longo alcance e daria à União Soviética a capacidade de lançar um primeiro ataque.

O presidente John Kennedy impôs um bloqueio naval a Cuba e ameaçou abordar os navios soviéticos que entrassem na área. Em 27 de outubro, quando os EUA se preparavam para invadir a ilha, a URSS recuou e concordou em retirar os mísseis nucleares de Cuba. Em troca, os EUA retiraram mísseis de curto alcance já obsoletos da Turquia e assumiram o compromisso informal de não invadir Cuba.

Fidel começou a entrar para a história anos antes, com o assalto ao Quartel de Moncada, em Santiago de Cuba, em 26 de julho de 1953, início de sua luta contra a ditadura de Fulgêncio Batista. A operação fracassou. Fidel foi preso e condenado.

Durante o julgamento, ao fazer sua própria defesa, Fidel proferiu uma de suas frases célebres: "A história me absolverá." Não foi original. Adolf Hitler disse isso em sua defesa no julgamento do putsch de 1923 na Alemanha.

Depois de um ano e 10 meses de prisão, Fidel foi beneficiado por uma anistia geral em maio de 1955. Meses depois, ele se asilou nos EUA e depois no México, onde conheceu o médico argentino Ernesto Guevara, que já tinha ideias marxistas.

Em 2 de dezembro de 1956, com 83 homens, o Movimento 26 de Julho desembarcou em Cuba para retomar seu projeto revolucionário. Surpreendido dias depois, foi dizimado pelo Exército. Os 18 sobreviventes, entre eles os irmãos Castro e Che Guevara, se refugiaram na Sierra Maestra e iniciaram uma guerra de guerrilhas contra a ditadura de Batista, que tinha 40 mil homens nas forças de segurança.

No ano seguinte, Fidel divulgou o Manifesto da Sierra Maestra, prometendo convocar eleições diretas depois da vitória da revolução e entregar o poder ao eleito. Jamais cumpriu a promessa. Mas conseguiu formar um exército rebelde de 800 homens.

Com o avanço dos guerrilheiros, o general Eulogio Cantillo propôs uma aliança aos rebeldes para dar um golpe de Estado contra Batista. Fidel imaginou que era apenas um pretexto para a fuga de Batista. O golpe foi dado em 30 de dezembro de 1958. Batista fugiu, mas Fidel não abandonou a luta.

Em 1º de janeiro de 1959, os revolucionários tomaram Havana. Fidel entrou triunfante na capital cubana em 8 de janeiro e declarou: "A tirania foi derrotada. A alegria é imensa. E, no entanto, ainda há muito a fazer. Não nos enganamos em acreditar que adiante tudo será fácil; quem sabe tudo seja mais difícil. Dizer a verdade é o primeiro dever de todo revolucionário. Enganar o povo, despertar-lhe ilusões enganosas, sempre trará as piores consequência. E estimo que há que alertar o povo para o excesso de otimismo."

Fidel foi nomeado primeiro-ministro em 16 de fevereiro de 1959, rompeu com os revolucionários mais liberais, fuzilou os inimigos no paredón e impôs um regime autoritário, acusado pela morte de pelo menos 8,2 mil pessoas pelo Arquivo de Cuba, nos EUA.

Em 3 de dezembro de 1976, Fidel Castro foi eleito presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros  acumulando os cargos de presidente, primeiro-ministro e líder do Partido Comunista até 24 de fevereiro de 2008. Na prática, depois de uma hemorragia intestinal que quase o matou, passou o poder a Raúl em 31 de julho de 2006, mantendo apenas a liderança do partido.

O conflito com os EUA começou com a aprovação da primeira Lei de Reforma Agrária, estatizando as propriedades de americanos na ilha. Em outubro de 1959, o presidente Dwight Eisenhower ordenou as primeiras ações secretas dos EUA contra o regime revolucionário cubano.

Em fevereiro de 1960, a União Soviética deu um crédito de US$ 100 milhões a Cuba e fechou contratos para comprar açúcar e vender petróleo à ilha. Em junho daquele ano, a revolução confiscou as refinarias das companhias de petróleo Esso, Shell e Texaco.

Durante a reunião da Assembleia Geral das Nações Unidas de setembro de 1960, Fidel foi a Nova York, onde se encontrou com o primeiro-ministro soviético, Nikita Kruschev; o presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser; o primeiro-minisro da Índia, Jawaharlal Nehru; e o líder negro americano Malcolm X.

Quando perguntaram a Kruschev se Fidel era comunista, o líder soviético respondeu:  "Não sei se Fidel é comunista. Eu sou fidelista."

De volta a Cuba, Fidel criou os Comitês de Defesa da Revolução, em 28 de setembro de 1960. Em 15 de outubro, confiscou as propriedades urbanas dos americanos em Cuba.

Quatro dias depois, começa o embargo econômico dos EUA. Washington proíbe as exportações a Cuba, com a exceção de alimentos, medicamentos e alguns suprimentos médicos. Em 16 de dezembro, Eisenhower zerou a cota de açúcar importado da ilha.

Em 3 de janeiro de 1961, 17 dias antes da posse de Kennedy, os EUA romperam as relações diplomáticas com Cuba, reatadas pelo presidente Barack Obama em 2014. Esse reatamento está ameaçado pela eleição de Donald Trump.

Kennedy herdou um plano de invasão de Cuba preparado pelo vice-presidente de Eisenhower, Richard Nixon, um notório anticomunista. Em 15 de abril de 1961, oito aviões americanos bombardeiam aeroportos militares em Cuba.

No discurso em homenagem às vítimas, no dia seguinte, Fidel proclamou o caráter socialista da revolução cubana: "Isso é o que não podem perdoar, que estejamos aqui em seus narizes e tenhamos feito uma revolução socialista."

Na madrugada de 17 de abril, cerca de 1,5 mil homens desembarcaram na Baía dos Porcos. A contraofensiva cubana é dirigida pessoalmente pelo comandante. A invasão fracassou em 72 horas; 1.197 invasores foram presos, condenados e devolvidos aos EUA em troca de remédios e alimentos. O episódio ficou conhecido como a troca de "compotas por mercenários".

Em 30 de novembro de 1961, Kennedy autorizou um programa de guerra subversiva contra a revolução cubana. A partir de 7 de fevereiro de 1962, os EUA impuseram um embargo comercial, econômico e financeiro total a Cuba.

Desde 1992, o embargo é lei aprovada pelo Congresso dos EUA. Assim, só pode ser revogada pelo Poder Legislativo. Obama defendeu o fim do embargo, mas a maioria do Partido Republicano na Câmara e no Senado inviabiliza isso.

A Lei Helms-Burton, de 1996, endureceu ainda mais o embargo. Para acabar com as sanções, exige a dissolução dos serviços secretos, a libertação de todos os presos políticos, a realização de eleições livres, democráticas e multipartidárias, e proíbe o reconhecimento de qualquer governo com a participação dos irmãos Castro.

Depois da invasão da Baía dos Porcos, Fidel pediu garantias de segurança à URSS, que decidiu instalar mísseis nucleares em Cuba. O projeto fracassou por causa de erros da burocracia soviética.

Quando a URSS lançou o primeiro satélite artificial da Terra, o Sputnik, em 4 de outubro de 1957, os EUA ficaram alarmados com o risco de um ataque nuclear com foguete. Em 1962, os EUA tinham ampla superioridade em mísseis nucleares de longo alcance, capazes de atacar diretamente o inimigo.

A URSS perdeu a supremacia prometida pelo Sputnik porque as Forças de Foguetes Estratégicos estavam ligadas ao Exército Vermelho, mais preocupado com uma guerra na Europa, mas mais eficiente que outros setores da burocracia soviética.

Antes de construir os silos que abrigariam os mísseis, os soviéticos deveriam ter instalado mísseis antiaéreos. Como não fizeram isso, porque o Exército Vermelho foi mais eficiente que a defesa antiaérea, em 14 de outubro de 1962, um avião americano fotografou os mísseis.

Durante o bloqueio, um oficial soviético chegou a preparar um ataque para romper o cerco americano à ilha. Ao não ordenar o disparo, evitou uma guerra nuclear.

Os EUA estavam prestes a invadir Cuba quando um jornalista dublê de agente secreto estranhou a falta de colegas americanos na cafeteria do Congresso. Um funcionário desavisado revelou que estavam todos indo para Cuba cobrir a invasão americana. O agente ligou para o Kremlin, Kruschev recuou e o mundo foi poupado de uma guerra potenciamente devastadora.

Em 27 de outubro de 1962, as baterias antiaéreas derrubaram um avião espião U-2, mas naquele momento a solução estava negociada. Um erro da burocracia soviética levou a um recuo humilhante. Dois anos depois, Kruschev cairia sendo substituído por Leonid Brejnev (1964-82), que liderou uma era de estagnação da economia soviética abrindo caminho para as reformas de Mikhail Gorbachev.

Se os EUA assumiram um compromisso informal de não invadir Cuba, intensificaram as ações secretas para tentar matar o ditador cubano. Foram 638 tentativas até 2007, a maioria em governos de presidentes conservadores como Nixon e Ronald Reagan. Fidel sempre viajava com seu próprio cozinheiro e sua própria comida. Até de charutos envenenados foi alvo.

Sob o cerco dos EUA, do embargo e com a aliança com a URSS como boia de salvação do regime, a revolução cubana tornou-se cada vez mais uma ditadura. Vendo o que aconteceu com o governo socialista de Salvador Allende, eleito democraticamente no Chile, dá para supor que a revolução cubana não sobreviveria a uma abertura democrática durante a Guerra Fria.

O regime comunista cubano treinou e financiou movimentos guerrilheiros de esquerda na América Latina, inclusive no Brasil. Em novembro de 1975, interveio na guerra civil que se seguiu à independência de Angola em favor do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), no poder até hoje, em resposta a uma intervenção militar do regime segregacionista branco da África do Sul em apoio aos grupos direitistas Frente Nacional de Libertação de Angola (FPLA) e União Nacional pela Independência Total de Angola (Unita).

Em 1977, Cuba entrou na Guerra de Ogaden, na Etiópia, em apoio a um governo africano aliado da URSS.

Durante uma crise econômica grave, em 1980, depois do segundo choque do petróleo com a Revolução Islâmica no Irã em 1979, para pressionar os EUA e sua política de receber exilados cubanos, Fidel liberou a emigração através de Porto Mariel. Mais de 120 mil marielitos fugiram do país.

Com a ascensão de Mikhail Gorbachev a líder do Partido Comunista da URSS e sua abertura política e econômica, a partir de 1985, o regime comunista cubano, fiel à tradição stalinista, começou a perder o apoio de seu patrocinador histórico.

O colapso do comunismo a partir da queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, e do fim da URSS, em dezembro de 1991, provocou a pior crise do regime comunista, levando ao "período especial", de um racionamento extremo. Apesar do sol, da água e do solo fértil, o paraíso comunista de Fidel nunca foi capaz de produzir comida farta.

Uma nova boia de salvação seria lançada com a ascensão de Hugo Chávez à Presidência da Venezuela, em 1999. Cuba voltou a receber petróleo subsidiado em troca de uma ajuda com médicos, professores, assessores militares e de segurança.

Quando a doença o abateu, em 2006, Fidel teve a cara de pau de dizer, depois de 47 anos no poder, que não se apegaria a cargos. Seu irmão, Raúl, promoveu uma abertura econômica moderada, autorizando a criação de pequenas empresas para combater o desemprego crônico na ilha e tentar manter o regime.

Esta brecha estimulou o presidente Obama a reatar as relações entre os EUA e Cuba, com a ajuda do Vaticano e do papa Francisco. Em dezembro de 2014, Obama e Raúl anunciaram o reatamento simultaneamente. O embargo permanece, mas a abertura para diários e remessas de dinheiro levarão mais cedo ou mais tarde a força revolucionária do dólar para subverter o que resta da revolução castrista.

Fidel disputa com o Che a posição de maior líder revolucionário da América Latina no século 20. Foi o maior símbolo da resistência da região ao imperialismo americano, mas a revolução fracassou. em criar uma nação independente.

A economia estatizada nunca funcionou. Sempre dependeu de ajuda externa. Mas a vida em Cuba para o cidadão comum era muito melhor do que em outros países da América Central e do Caribe. Quando os europeus-orientais olhavam para o mundo do outro lado do Muro de Berlim, viam a prosperidade da Europa Ocidental. Os cubanos viam miséria e exploração a seu redor.

As grandes conquistas da revolução foram os avanços em saúde e educação, oferecidos gratuitamente. Mas uma sociedade onde um garçom e uma prostituta ganham num dia, em dólares, mais do que um médico ou professor é uma sociedade doente e inviável.

A morte de Fidel enterra mais uma vez o comunismo e a Guerra Fria. Livre do caudilho, Cuba pode entrar no século 21 e construir seu caminho rumo ao futuro.

Um comentário:

Helyana Moraes disse...

Obrigada pela aula, Amigo Mestre!