Este é o blog do jornalista Nelson Franco Jobim, Mestre em Relações Internacionais pela London School of Economics, ex-correspondente do Jornal do Brasil em Londres, ex-editor internacional do Jornal da Globo, do Jornal Nacional e da TV Brasil, ex-professor de jornalismo e de relações internacionais na UniverCidade, no Rio de Janeiro. Todos os comentários, críticas e sugestões são bem-vindos, mas não serão publicadas mensagens discriminatórias, racistas, sexistas ou com ofensas pessoais.
domingo, 23 de fevereiro de 2025
Direita vence e extrema direita avança nas eleições na Alemanha
sexta-feira, 27 de dezembro de 2024
Alemanha dissolve Parlamento e antecipa eleições em plena crise
O presidente Frank-Walter Steinmeier dissolveu hoje o Parlamento Federal da Alemanha. As eleições gerais foram antecipadas em sete meses depois da queda do chanceler (primeiro-ministro) social-democrata Olaf Scholz. Serão realizadas em 23 de fevereiro de 2025, em meio a uma crise do modelo econômico alemão e de ascensão da extrema direita. A favorita é a União Democrata-Cristão (CDU), o partido tradicional da direita conservadora, liderado por Friedrich Merz, que deve ser o próximo chefe de governo.
sexta-feira, 1 de março de 2024
Putin renova chantagem atômica ao Ocidente
No discurso anual ao Parlamento da Rússia, o ditador Vladimir Putin ameaçou usar armas nucleares se os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a aliança militar ocidental, enviarem tropas à Ucrânia como admitiu o presidente da França, Emmanuel Macron.
Macron alertou os europeus de que precisam se preparar para a guerra, especialmente se Donald Trump for reeleito presidente dos Estados Unidos. Pressionou o Congresso norte-americano a aprovar uma ajuda militar de US$ 61 bilhões à Ucrânia. Cutucou Putin. Respondeu às críticas da Alemanha de que a França pouco contribui com o esforço de guerra da Ucrânia. E mobilizou seu partido para as eleições para o Parlamento Europeu, em junho.
Outros líderes ocidentais, como o presidente norte-americano, Joe Biden, e o chanceler (primeiro-ministro) alemão, Olaf Scholz, descartaram a possibilidade de enviar tropas. A Alemanha não fornece nem mísseis com alcance de 500 quilômetros, que podem ser usados para atacar o território russo.
segunda-feira, 16 de outubro de 2023
Joe Biden vai a Israel na quarta-feira levar apoio à guerra
terça-feira, 7 de março de 2023
Guerra termina quando Putin entender que não tem como ganhar, afirma Scholz
sábado, 4 de março de 2023
EUA e Alemanha prometem apoiar Ucrânia até fim da guerra
O presidente Joe Biden recebeu ontem na Casa Branca o primeiro-ministro Olaf Scholz. Ambos reafirmaram o compromisso dos Estados Unidos e da Alemanha com a defesa da Ucrânia enquanto durar a guerra com a Rússia.
Em Nova Déli, durante reunião ministerial do Grupo dos 20, o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, teve o primeiro encontro com o ministro do Exterior russo, Serguei Lavrov, desde o início da guerra há pouco mais de um ano.
À margem da reunião do G-20, o grupo Quad (EUA, Índia, Japão e Austrália) manifestou "extrema preocupação" com a militarização do Mar do Sul da China pelo regime comunista chinês.
Israel vive uma crise dupla: uma revolta popular contra uma reforma judiciária que favorece a impunidade dos políticos e uma onda de violência entre colonos israelenses e palestinos na Cisjordânia ocupada.
A Índia cresceu 6,8% no ano passado e ultrapassou a antiga potência imperial, o Reino Unido, para se tornar a quinta maior economia do mundo. Meu comentário:
domingo, 26 de setembro de 2021
Social-democracia vence na Alemanha por margem estreita
A Era Angela Merkel termina com o pior resultado nas urnas da direita conservadora da Alemanha no pós-guerra. A aliança da União Democrata-Cristã (CDU) com a União Social-Cristã (CSU), de Merkel, conquistou apenas 24,1% dos votos nas eleições parlamentares deste domingo contra 25,7% do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD). Os extremistas perderam.
Os líderes dos dois grandes partidos, Olaf Scholz (SPD) e Armin Laschet (CDU), se declararam vencedores e prontos para formar o novo governo. Como a lei alemã permite, ambos tentarão articular uma coalizão.
Seus partidos recebiam 90% dos votos no passado. Hoje, ficam com 50%. Vão precisar do apoio de mais dois partidos, Os Verdes, que receberam 14,8% dos votos e o Partido Liberal-Democrata (FDP), que teve 11,5%. Os ecologistas querem mais impostos e mais gastos públicos. Os liberais-democratas defendem o liberalismo econômico. As negociações podem se arrastar por semanas por semanas ou até meses.
Com o SPD na chefia do governo, seria a coalizão sinal de trânsito: vermelha (SPD), amarela (FDP) e verde (Verdes). A alternativa é a coalizão Jamaica: preta (CDU-CSU), amarela (FDP) e verde (Verdes). Mas não se pode descartar a chance de uma grande coalizão entre CDU-CSU e SPD, como a do atual governo Merkel.
Scholz argumentou que a maioria relativa votou no SPD porque "quer uma mudança no governo", embora seja vice-primeiro-ministro e ministro das Finanças desde 14 de março de 2018 na grande aliança entre CDU-CSU e SPD. Os alemães votaram para mudar, mas não muito. O próprio Scholz acenou com uma certa continuidade.
Apesar da derrota, Laschet reivindica o direito de tentar formar um governo. Enquanto os partidos não se entendem, Angela Merkel (2005-21) continua no poder como chanceler (primeira-ministra) interina.
ESTADISTA
Num mundo carente de líderes internacionais visionários, a chanceler alemã deixa o poder depois de 16 anos exaltada, com ampla aprovação dentro e fora da Alemanha como a "última estadista", a "mulher mais poderosa do mundo" (é mesmo) e elegias do gênero. Foi uma líder racional, forte e decidida numa era de populistas inconsequentes e temerários como o ex-presidente americano Donald Trump e o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson.
A menina criada sob o regime comunista da Alemanha Oriental se destacou depois da queda do Muro de Berlim. Chamou a atenção do chanceler Helmut Kohl, que a nomeou para ministra da Família e da Mulher em 1991 e ministra do Meio Ambiente em 1994.
Líder da CDU desde o ano 2000, Merkel comandou a oposição na Bundestag (Câmara Federal) ao governo Gerhard Schröder (1998-2005), que derrotou nas eleições de 2005.
Doutora em química, Merkel soube enfrentar a pandemia com a ciência. Teve um sucesso inicial ao impor o confinamento. Sob pressão de governadores estaduais e empresários, reabriu a economia cedo demais. A Alemanha soma 4,2 milhões de casos confirmados e pouco menos de 94 mil mortes na pandemia. É o 14º país do mundo em número absoluto de mortes e 52º em mortes por habitante.
Sob Merkel, a Alemanha cresceu 34%, mais do que o dobro do Reino Unido e da França, firmando o país como maior economia da Europa e a quarta do mundo, com um produto interno bruto de US$ 4,3 trilhões, quase R$ 23 trilhões.
REFUGIADOS
Quando os refugiados das guerras no Grande Oriente Médio correram para as fronteiras da União Europeia (UE), Merkel honrou o compromisso histórico da Alemanha no pós-guerra para purgar os crimes do passado nazista. Acolheu mais de 1 milhão de refugiados, uma medida correta, mas que levou ao ressurgimento da extrema direita no partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que conquistou 10,5% dos votos hoje, enquanto a Esquerda radical ficou com 4,9%.
A votação do AfD explica o pior resultado da aliança da direita conservadora CDU-CSU. Para evitar a presença de comunistas e nazistas no Parlamento no pós-guerra, a então Alemanha Ocidental introduziu uma cláusula de barreira. Para ter representação na Câmara Federal, um partido precisa de no mínimo 5% dos votos.
Até 2017, quando a crise dos refugiados estourou nas urnas e tornou a AfD o terceiro maior partido no Parlamento, com 12,6% dos votos, a direita republicana da CDU-CSU ia o suficiente para a direita para evitar o crescimento de partidos neonazistas. A crise dos refugiados rompeu esta barreira. A extrema direita voltou ao Parlamento da Alemanha pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-45).
LEGADO
Depois de Adolf Hitler (1933-45), os alemães preferem líderes chatos e metódicos com o estilo de governanta alemã de Angela Merkel, sem drama nem estridência. Ela soube desdramatizar crises como na anexação da Crimeia pela Rússia e na intervenção militar russa no Leste da Ucrânia, em 2014, quando foi uma ponte entre o presidente americano, Barack Obama, e o ditador russo, Vladimir Putin. Também enquadrou o Reino Unido nas negociações para a saída da UE de modo a preservar o bloco.
Só Otto von Bismarck (1871-90), o Marechal de Ferro, chanceler da unificação da Alemanha, em 1871, e Helmut Kohl (1982-98), o chanceler da reunificação, em 1990, governaram mais tempo do que ela. Se o novo governo não tomar posse até 17 de dezembro, Merkel ultrapassa seu padrinho.
Bismarck fundou um império e criou o primeiro sistema de previdência social da Europa. É o pioneiro do modelo social-democrata europeu, adotado nos países com o maior índice de desenvolvimento humano.
Kohl reunificou o país, liderou a criação da União Europeia e concordou com a substituição do marco alemão, símbolo da estabilidade econômica do pós-guerra, na união monetária que criou o euro.
ORDOLIBERALISMO
As realizações de Merkel são bem mais modestas, comenta a revista inglesa The Economist. Faltou uma visão estratégica para construir o futuro da Alemanha e da Europa. O ordoliberalismo, o neoliberalismo alemão, e sua obsessão com o equilíbrio fiscal levou à aprovação de uma lei, em 2009, para zerar o déficit orçamentário, quando o governo poderia aproveitar os juros historicamente baixos para investir.
Isto não só impediu investimentos públicos em infraestrutura em geral e, em especial, para acelerar a transição digital e a descarbonização da economia para mitigar o aquecimento global. Prejudicou o projeto europeu reduzindo os ganhos da Alemanha com a integração econômica.
Na questão do clima, apesar da alta consciência ecológica do povo alemão, com o fechamento das usinas nucleares depois do acidente nuclear de Fukushima, no Japão, em 11 de março de 2011, a Alemanha tem o maior consumo de combustíveis fósseis por habitante entre as grandes economias da Europa. Com 44% da energia elétrica gerada por carvão, gás ou petróleo, está atrasada na descarbonização e na construção da economia do futuro.
CRISE DO EURO
Quando a Grande Recessão (2008-9) se transformou na Crise do Euro (2009-14), a Grécia, a Irlanda, Portugal, a Espanha e Chipre não conseguiram honrar suas dívidas e precisaram de ajuda do Grupo do Euro, do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). A Itália, terceira maior economia da Zona do Euro, correu risco de dar calote.
A Alemanha foi inflexível ao rejeitar a mutualização da dívida, a emissão de bônus lastreados por todos os países da Eurozona, o que só aceitou agora para enfrentar a pandemia do novo coronavírus. Na Grécia, submetida a uma austeridade fiscal punitiva, Merkel chegou a ser pintada na imprensa com o bigodinho de Hitler.
Para o contribuinte alemão, não cabe a si bancar as dívidas de povos do Sul da Europa que considera indisciplinados, como gregos, português, espanhóis e italianos. Faltou uma visão estratégia para entender que a economia alemã é a maior beneficiária da integração econômica do continente no mercado comum europeu.
Merkel foi uma líder indispensável para debelar as crises da UE. Mas deixa um vácuo de liderança, não avançou na construção da arquitetura do bloco europeu, é acusada de ser leniente com o autoritarismo da China e da Rússia, com que prefere conseguir negócios para as empresas alemãs, e até mesmo com o autoritarismo interno da Hungria e da Polônia na UE.
O mundo precisa muito mais do que uma governanta alemã.

