sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Nobel da Paz vai para ativistas de direitos humanos anti-Putin

 O advogado bielorrusso Ales Bialiatski, preso sem julgamento desde julho de 2021, a organização de defesa dos direitos humanos russa Memorial e o Centro de Liberdades Civis ucraniano vão dividir o Prêmio Nobel da Paz de 2022, anunciou hoje em Oslo o Comitê Norueguês do Nobel, descrevendo-os como “três destacados campeões dos direitos humanos, democracia e a coexistência pacífica.” 

Todos são adversários do imperialismo da Rússia e do ditador Vladimir Putin, que completou 70 anos hoje, aniversário de 16 anos da morte da jornalista Anna Politkovoskaya, que denunciava os crimes de seu governo.

“Os laureados representam a sociedade civil em seus países”, declarou a presidente do comitê do Nobel, Berit Reiss Andersen. “Há muitos anos, promovem o direito de criticar o poder e protegem os direitos fundamentais dos cidadãos. Fazem um esforço excepcional para documentar crimes de guerra, abusos dos direitos humanos e abusos de poder. Juntos, demonstraram o significado da sociedade civil para a paz e a democracia.”

Em nota no Twitter, Kenneth Roth, ex-diretor-executivo da organização não governamental Human Rights Watch (Observatório dos Direitos Humanos), escreveu: “No 70º aniversário de Putin, o Prêmio Nobel da Paz é concedido a um grupo de defesa dos direitos humanos da Rússia que ele fechou, um grupo de defesa dos direitos humanos ucraniano que está documentando seus crimes de guerra e um ativista bielorrusso preso por seu aliado Lukachenko.” 

BIELORRÚSSIA

Bialiatski foi um dos pioneiros do movimento democrático que surgiu na Bielorrúsia nos anos 1980, com a glasnost, a abertura política promovida na União Soviética pelo líder comunista Mikhail Gorbachev.

Em 1996, ele fundou a organização não governamental Viasna (Primavera) para denunciar uma reforma constitucional que deu poderes ditatoriais ao presidente Alexander Lukachenko e reagir com protestos de rua. A ONG apoiou os manifestantes presos e suas famílias.

O laureado foi preso de 2011 a 2014 e de novo em julho de 2021, durante uma onda de manifestações contra mais uma reeleição fraudulenta de Lukachenko, em agosto 2020. Está preso até hoje, sem julgamento.

A abertura de Gorbachev também permitiu que ativistas dos direitos humanos criassem, em 1987, a ONG Memorial para documentar a história das vítimas do regime comunista soviético. O físico dissidente Andrei Sakharov, ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1975 foi um dos fundadores.

MEMÓRIA

Com o colapso da URSS, no Natal de 1991, Memorial se tornou a maior organização de defesa dos direitos humanos da Rússia. Além das vítimas do comunismo, passou a compilar informações sobre as violações dos direitos humanos no país. Tornou-se a principal fonte de notícias sobre presos politicos detidos nas prisões russas e está na linha de frente da luta contra o militarismo e pelo Estado de Direito, justificou o comitê do Nobel.

Durante as Guerras da Chechênia, investigou os crimes cometidos. A chefe do escritório da Memorial na Chechênia, Natalia Estemirova, foi assassinada em 2009. Como parte da repressão da ditadura de Putin, a ONG foi declarada “agente estrangeiro” e, em 2021, foi fechada, mas os ativistas resistem.

“Ninguém planeja desistir”, afirmou o presidente da Memorial, Yan Rachinsky.

UCRÂNIA

Desde o início da invasão da Rússia pela Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022, o Centro pelas Liberdades Civis identifica e documenta os crimes cometidos contra a população civil, em colaboração com investigações internacionais. Foi fundado em 2007 para promover a democracia na Ucrânia.

No ano passado, os ganhadores do Nobel da Paz foram os jornalistas russo Dimitri Muratov, editor-chefe do jornal Novaïa Gazeta, fechado depois do início da guerra na Ucrânia, e filipina Maria Ressa, pela luta pela liberdade de imprensa contra regimes autoritários.

O governo Putin descreveu na mídia oficial o prêmio como um instrumento a serviço de uma agressão de inimigos “russófobos”. Os mesmos meios de comunicação reportavam orgulhosamente indicações do ditador do Kremlin como candidato ao Nobel da Paz. Meu comentário: 


AMEAÇA NUCLEAR

A premiação acontece num momento de agravamento da Guerra da Ucrânia. Diante de sucessivas derrotas do Exército da Rússia no campo de batalha, Moscou forjou plebiscitos ilegais para anexar quatro províncias ucranianas que não domina totalmente. Putin voltou a ameaçar usar armas nucleares para defender o que afirma agora ser “território russo”.

Ontem, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, advertiu para o risco de um “armagedon nuclear”, dizendo que a ameaça de um conflito com armas atômicas é o maior desde a Crise dos Mísseis em Cuba, 60 anos atrás.

Foi muito criticado por reproduzir a ameaça de Putin e pela comparação com o momento mais tenso da Guerra Fria. 

Há um temor de que a Rússia use armas nucleares táticas. O historiador Timothy Snyder, professor da Universidade de Yale, não acredita nisso. Estas armas só seriam úteis se houvesse grande concentração de tropas de Ucrânia num local sem a presença de militar russos.

CRISE DOS MÍSSEIS

Em 14 de outubro de 1962, um avião espião U-2 fotografou silos e mísseis nucleares que a URSS estava instalando na ilha governada por Fidel Castro, que exilados cubanos haviam tentado invadir, com o apoio dos EUA, em abril de 1961. Cuba estava sob um duro boicote econômico de Washington, que dura até hoje, desde 7 de fevereiro de 1962.

Dois dias depois, as fotos e os relatórios de inteligência concluindo que os mísseis dariam aos soviéticos condições de realizar um primeiro ataque foram entregues ao presidente John Kennedy. 

Logo, Kennedy convocou um gabinete de guerra, o Comitê Executivo do Conselho de Segurança Nacional. Os partidários de uma abordagem diplomática ficaram conhecidos como pombas e os defensores de uma invasão de Cuba eram os falcões. O Estado-Maior Conjunto concluiu por unanimidade que a única solução era uma invasão de Cuba em grande escala para destruir os mísseis e depor Fidel.

Em 22 de outubro daquele ano, às 19h, Kennedy fez um pronunciamento na televisão revelando a ameaça ao povo norte-americano. Ele impôs um bloqueio aeronaval a Cuba, que chamou de “quarentena” para dourar a pílula. Exigiu a retirada imediata e incondicional dos mísseis, e ameaçou interceptar e revistar qualquer navio com destino à ilha. Todo navio transportando armas teria de dar meia volta.

O líder soviético, Nikita Kruschev, advertiu em carta de 24 de outubro de 1962, quando alguns navios soviéticos deram meia volta, que o bloqueio “à navegação no espaço aéreo e em águas internacionais” era “um ato de agressão que está empurrando a espécie humana para o abismo de uma guerra mundial com mísseis nucleares”.

Na China, o Diário do Povo, órgão oficial do regime comunista, alardeou que 650 milhões de chineses estavam ao lado de Cuba.

ATAQUE ABORTADO

Ao mesmo tempo em que Kruschev falava grosso e navios soviéticos tentavam furar o bloqueio, a ponto de norte-americanos darem tiros de advertência, começavam negociações secretas. No momento mais tenso, um submarino soviético armado com mísseis nucleares de 15 quilotons foi cercado por navios de guerra dos EUA. 

Como se soube depois, numa conferência com veteranos dos dois lados, em 1992, os três mais altos oficiais do submarino discutiram se atacavam ou não. O capitão Valentin Savitsky mandou preparar o torpedo nuclear. Foi dissuadido pelo subcomandante.

Para o diretor do Arquivo de Segurança Nacional dos EUA Thomas Blanton, “um cara chamado Vassili Arkhipov salvou o mundo”.

Também não se sabia que os assessores militares soviéticos baseados em Cuba tinham na época 100 armas nucleares táticas (pequenas) que poderiam ser usadas para defender a ilha de uma invasão norte-americana.

A invasão quase ocorreu. Na noite de 26 de outubro, um jornalista e dublê de espião soviético estranhou que a cantina e a sala de imprensa do Congresso estivessem praticamente vazias. Um funcionário lhe disse: “Está todo o mundo indo para Cuba porque vai haver uma invasão.” O agente soviético avisou Moscou imediatamente.

ACORDO

Na manhã seguinte, às 9h, a Rádio Moscou anunciou que a URSS removeria os mísseis de Cuba em troca de retirada de mísseis norte-americanos de curto alcance baseados na Itália e na Turquia. Às 11h03, chegou à Casa Branca uma mensagem de Kruschev confirmando a proposta.

Kennedy concordou. Os mísseis baseados na Turquia eram obsoletos e seriam removidos de qualquer maneira. Serviram para livrar a cara de Kruschev, que cairia dois anos depois por outros motivos, pela luta interna pelo poder dentro da URSS. Os EUA prometeram não invadir a ilha.

Ao meio-dia, um míssil antiaéreo derrubou um avião norte-americano U-2 no espaço aéreo de Cuba. Os EUA hesitaram em concluir o acordo, mas o Kremlin os convenceu de que o alto comando não sabia do ataque. No dia seguinte, Kruschev disse ao filho Serguei que a ordem de abate partiu de “militares cubanos sob o comando de Raúl Castro”.

O bloqueio a Cuba dura até 20 de novembro. Para desarmar futuras crises, foi instalada uma linha direta entre a Casa Branca e o Kremlin, o telefone vermelho. Aparentemente, neste momento, está mudo, mas os altos comandos militares estão em contato.

Na segunda-feira, a Academia Real de Ciência da Suécia anuncia o vencedor do Prêmio Nobel de Economia.

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