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sábado, 15 de novembro de 2025

Hoje na História do Mundo: 15 de Novembro

SHERMAN ARRASA GEÓRGIA

    Em 1864, durante a Guerra da Secessão (1861-65), o general nortista William Sherman começa a destruir o distrito industrial Atlanta em sua Marcha para o Mar e, durante seis semanas, o Exército da União arrasa a maior parte do estado da Geórgia até capturar o porto de Savannah, que estava em poder dos Estados Confederados da América (Sul).

Sherman toma Atlanta em setembro de 1864. Com linhas de suprimento vulneráveis, teme perder o controle da Geórgia para as forças do Sul. Usa uma estratégia de terra arrasada, destruindo tudo o que possa ser útil ao inimigo, inclusive fontes de água e comida.

Como a linha de suprimento vai até Nashville, no Tennessee, Sherman divide o Exército do Norte. Fica com 60 mil homens e manda o general George Thomas de volta a Nashville, com as missões de proteger as estradas de ferro e os rios por onde passam as provisões para suas tropas e enfrentar o general sulista John Bell Hood, que Sherman vencera para tomar Atlanta.

Ao saber da reeleição do presidente Abraham Lincoln em 8 de novembro, Sherman pede permissão ao comandante em chefe da União, general Ulysses Grant, para marchar pela Geórgia "como prova de que o Norte pode prevalecer".

Em 15 de novembro, os homens de Sherman começam a deixar Atlanta. Na retirada, tocam fogo no distrito industrial da capital da Geórgia.

PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA

    Em 1889, o marechal Deodoro da Fonseca derruba o imperador Dom Pedro II e proclama a República no Brasil.

A Proclamação da República no Brasil foi tardia, mais de meio século depois de todos os outros países sul-americanos, que declaram suas independências e imediatamente abolem a escravidão e instauram a república, como observa o jornalista e escritor Eduardo Bueno.

Vem num golpe militar um ano e meio depois da Abolição da Escravatura, com a queda do gabinete do Visconde de Ouro Preto, último primeiro-ministro do Império. Como na independência, o povo fica alheio, "assiste a tudo bestializado".

Para legitimar o novo regime, os republicanos prometem convocar um plebiscito para que o povo decida se prefere monarquia ou república. A consulta popular é realizada mais de 100 anos mais tarde, em 1993, depois da Constituição de 1988. 

CLEMENCEAU NO PODER

    Em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18), Georges Clemenceau, o Tigre, é nomeado primeiro-ministro da França pela segunda vez.

O jovem Clemenceau entra no Parlamento em 1876, cinco anos depois da derrota para a Alemanha na Guerra Franco-Prussiana (1870-71). Acredita que a Alemanha unificada é uma ameaça. Considera uma nova guerra inevitável.

A Alemanha cresce no fim do século 19. Na virada do século, é a segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, superando o Reino Unido.

No primeiro mandato como primeiro-ministro (1906-9), Clemenceau mantém a postura antialemã. Defende a preparação para a guerra e o fortalecimento da aliança com o Reino Unido e a Rússia. Em 1904, a França e o Reino Unido superam uma rivalidade história de mais de 800 anos e formam a Entente Cordiale. Em 1907, no primeiro governo Clemenceau, com a entrada da Rússia, vira Tríplice Entente.

A guerra mostra que Clemenceau tinha razão. Depois de três primeiros-ministros, o presidente Raymond Poincaré esquece a rivalidade com o Tigre. Quando parte dos políticos e da opinião pública da França querem acabar com a guerra, os dois têm em comum a determinação de vencer a Alemanha.

Ao reassumir a chefia do governo, Clemenceau manda prender o pacifista Joseph Caillaux por traição. Até março de 1918, a Alemanha está vencendo a guerra. A entrada dos EUA em combate muda a história e garante a vitória.

Na Conferência de Paz de Versalhes, Clemenceau é um dos principais negociadores, ao lado do presidente norte-americano Woodrow Wilson, que considera idealista demais, e do primeiro-ministro britânico, David Lloyd George. Exige o desarmamento e indenizações da Alemanha e a devolução da Alsácia e da Lorena, tomadas pelos alemães na Guerra Franco-Prussiana.

Mesmo assim, considera a Paz de Versalhes leniente com a Alemanha. O eleitorado francês concorda. Clemenceau perde as eleições de janeiro de 1920. Deixa a vida pública e publica um livro de memórias, A Grandeza e a Miséria da Vitória, em que prevê uma nova guerra com a Alemanha em 1940. Ele morre em Paris em 24 de novembro de 1929.

ELVIS NO CINEMA

    Em 1956, estreia Love me Tender (Ama-me com Ternura), com Elvis Presley no papel principal, o primeiro filme de Hollywood do Rei do Rock.

Elvis nasce em Tupelo, no Mississípi, em 8 de janeiro de 1935. Motorista de caminhão, ele estreia como cantor em 1954 na gravadora Sun Records, em Memphis, no Tennessee. Seu primeiro álbum, Elvis Presley, chega ao topo das paradas de sucesso em 1956 e o projeta como um ídolo mundial.

Ele faz um teste para o filme The Rainmaker (Lágrimas do Céu, no Brasil), mas perde o papel para Burt Lancaster e vai fazer Love me Tender. 

Em 9 de setembro, Elvis faz a primeira de três apresentações no programa de televisão Ed Sullivan Show, que bate recordes de audiência. No terceiro programa, os censores da TV só permitem que ele seja mostrado da cintura para cima. O rebolado do Rei do Rock é sensual demais para os EUA moralistas dos anos 1950.

Ao todo, Elvis fez 30 filmes, gravou 23 álbuns e vendeu mais de 500 milhões de discos. Com problemas de saúde e abuso de álcool e drogas, Elvis morre aos 42 anos em 16 de agosto de 1977 na Mansão de Graceland, em Memphis, centro de peregrinação de seus milhões de fãs.

INDEPENDÊNCIA DA PALESTINA

    Em 1988, o presidente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, proclama a independência da Palestina e anuncia o reconhecimento do direito de existência de Israel.

A OLP é fundada em 1964 pelo então ditador do Egito, Gamal Abdel Nasser, líder do nacionalismo pan-árabe interessado em se apresentar como campeão da causa palestina. Depois da humilhante derrota dos países árabes para Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967, Arafat, fundador do partido Fatah (Luta) em 1959, assume a liderança da OLP em 1969 como um movimento guerrilheiro na luta contra Israel.

Em 1970, a OLP tenta dar um golpe contra o rei Hussein, da Jordânia, para transformar este país na pátria do povo palestino. As forças de Hussein massacram os palestinos no Setembro Negro. Arafat acusa a Jordânia de matar 25 mil palestinos, mas estimativas mais realistas falam em 2 mil a 3,4 mil palestinos mortos.

Os líderes da OLP fogem para o Líbano, de onde lançam invasões do território israelense através da fronteira entre os dois países. Isso leva à Guerra Civil Libanesa (1975-90), à invasão de Israel no Líbano em 1982, e ao massacre de cerca de 1,2 mil palestinos nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, em Beirute, em 1982, por falangistas cristãos apoiados por Israel.

Arafat e a OLP fogem para a Tunísia. A proclamação de independência tem poucos resultados práticos. Um ano antes, em 1987, os palestinos iniciam a Primeira Intifada, uma revolta contra a ocupação israelense da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, territórios onde pretendem construir seu Estado nacional e nasce o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), um grupo extremista muçulmano.

As negociações de paz começam na Conferência de Madri, em 30 e 31 de outubro de 1991, depois da Guerra do Golfo para expulsar o Iraque do Saddam Hussein do Kuwait, em janeiro e fevereiro daquele ano, quando Israel não caiu nas provocações iraquianas para não prejudicar a coalizão articulada pelos EUA, que tem países árabes e muçulmanos. Como Arafat e a OLP apoiaram Saddam, que em determinado momento condicionou a retirada do Kuwait ao fim da ocupação israelense, são excluídos do processo de paz.

Quando fica evidente que a delegação palestina não faz nada sem consultar a OLP, o grupo é incluído no processo de paz. O avanço só acontece com as negociações secretas realizadas em Oslo, na Noruega.

Em 13 de setembro de 1993, Israel e a OLP anunciam uma declaração de princípios e Arafat aperta a mão do primeiro-ministro israelense, Yitzhak Rabin, no jardim da Casa Branca. Os Acordos de Oslo, assinados em 1994, criam a Autoridade Nacional Palestina e dão à OLP inicialmente jurisdição sobre a Faixa de Gaza e Jericó.

O Hamas, que luta pela destruição de Israel, mina o processo de paz com ações terroristas. Depois do assassinato de Rabin por um extremista israelense em 4 de novembro de 1995, o direitista Benjamin Netanyahu é eleito primeiro-ministro pela primeira vez em 1996. Desde então, sabota o processo de paz para que nunca seja criado uma pátria para o povo palestino.

A última negociação consistente neste sentido é mediada pelo presidente dos EUA, Bill Clinton, no fim de seu governo, em 2000. Em mais um erro político, Arafat rejeita a proposta na expectativa de que o presidente George W. Bush, do Partido Republicano, seja mais favorável aos palestinos, já que o Partido Democrata tradicionalmente era mais favorável a Israel. Mas a aliança dos republicanos com a direita religiosa os torna tão favoráveis a Israel quanto os democratas.

O ataque terrorista do Hamas, em 7 de outubro do ano passado, é uma reação a 56 anos de ocupação israelense, 16 anos do cerco à Faixa de Gaza e às negociações para o reconhecimento mútuo de Israel e Arábia Saudita, o que marginalizaria mais uma vez o povo palestino. Agora, a Arábia Saudita exige a criação de uma Palestina independente para fechar acordo com Israel.

POPULAÇÃO DA TERRA PASSA DE 8 BILHÕES

    Em 2022, a população total do planeta ultrapassa a marca de 8 bilhões de seres humanos, de acordo com estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje a população mundial é estimada em 8,14 bilhões de pessoas. 

ESTE BLOG DEPENDE DE SEUS LEITORES. CONTRIBUIÇÕES VIA PIX PELO CNPJ 25.182.225/0001-37 

quarta-feira, 30 de julho de 2025

POR QUE SOU CONTRA A ANISTIA?

A História da República no Brasil registra uma longa série de golpes de Estado de iniciativa de militares. Os militares aumentam a participação na política com a Guerra do Paraguai (1864-70). A própria Proclamação da República foi um golpe do marechal Deodoro. O golpe do presidente Getúlio Vargas impõe a ditadura do Estado Novo (1937-45) e o golpe militar de 1964 uma ditadura de 21 anos.

Trinta e sete anos depois da redemocratização do país, depois de perder a eleição de 2022, o então presidente Jair Bolsonaro, de acordo com a denúncia do procurador-geral da República, liderou uma conspiração golpista para anular o resultado que prevista o assassinato de altas autoridades. Pela primeira vez, há uma chance concreta de punição dos golpistas. As sentenças devem sair em setembro.

Basta de impunidade!

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Hoje na História do Mundo: 15 de Novembro

SHERMAN ARRASA GEÓRGIA

    Em 1864, durante a Guerra da Secessão (1861-65), o general nortista William Sherman começa a destruir o distrito industrial Atlanta em sua Marcha para o Mar e, durante seis semanas, o Exército da União arrasa a maior parte do estado da Geórgia até capturar o porto de Savannah, que estava em poder dos Estados Confederados da América (Sul).

Sherman toma Atlanta em setembro de 1864. Com linhas de suprimento vulneráveis, teme perder o controle da Geórgia para as forças do Sul. Usa uma estratégia de terra arrasada, destruindo tudo o que possa ser útil ao inimigo, inclusive fontes de água e comida.

Como a linha de suprimento vai até Nashville, no Tennessee, Sherman divide o Exército do Norte. Fica com 60 mil homens e manda o general George Thomas de volta a Nashville, com as missões de proteger as estradas de ferro e os rios por onde passam as provisões para suas tropas e enfrentar o general sulista John Bell Hood, que Sherman vencera para tomar Atlanta.

Ao saber da reeleição do presidente Abraham Lincoln em 8 de novembro, Sherman pede permissão ao comandante em chefe da União, general Ulysses Grant, para marchar pela Geórgia "como prova de que o Norte pode prevalecer".

Em 15 de novembro, os homens de Sherman começam a deixar Atlanta. Na retirada, tocam fogo no distrito industrial da capital da Geórgia.

PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA

    Em 1889, o marechal Deodoro da Fonseca derruba o imperador Dom Pedro II e proclama a República no Brasil.

A Proclamação da República no Brasil foi tardia, mais de meio século depois de todos os outros países sul-americanos, que declaram suas independências e imediatamente abolem a escravidão e instauram a república, como observa o jornalista e escritor Eduardo Bueno.

Vem num golpe militar um ano e meio depois da Abolição da Escravatura, com a queda do gabinete do Visconde de Ouro Preto, último primeiro-ministro do Império. Como na independência, o povo fica alheio, "assiste a tudo bestializado".

Para legitimar o novo regime, os republicanos prometem convocar um plebiscito para que o povo decida se prefere monarquia ou república. A consulta popular é realizada mais de 100 anos mais tarde, em 1993, depois da Constituição de 1988. 

CLEMENCEAU NO PODER

    Em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18), Georges Clemenceau, o Tigre, é nomeado primeiro-ministro da França pela segunda vez.

O jovem Clemenceau entra no Parlamento em 1876, cinco anos depois da derrota para a Alemanha na Guerra Franco-Prussiana (1870-71). Acredita que a Alemanha unificada é uma ameaça. Considera uma nova guerra inevitável.

A Alemanha cresce no fim do século 19. Na virada do século, é a segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, superando o Reino Unido.

No primeiro mandato como primeiro-ministro (1906-9), Clemenceau mantém a postura antialemã. Defende a preparação para a guerra e o fortalecimento da aliança com o Reino Unido e a Rússia. Em 1904, a França e o Reino Unido superam uma rivalidade história de mais de 800 anos e formam a Entente Cordiale. Em 1907, no primeiro governo Clemenceau, com a entrada da Rússia, vira Tríplice Entente.

A guerra mostra que Clemenceau tinha razão. Depois de três primeiros-ministros, o presidente Raymond Poincaré esquece a rivalidade com o Tigre. Quando parte dos políticos e da opinião pública da França querem acabar com a guerra, os dois têm em comum a determinação de vencer a Alemanha.

Ao reassumir a chefia do governo, Clemenceau manda prender o pacifista Joseph Caillaux por traição. Até março de 1918, a Alemanha está vencendo a guerra. A entrada dos EUA em combate muda a história e garante a vitória.

Na Conferência de Paz de Versalhes, Clemenceau é um dos principais negociadores, ao lado do presidente norte-americano Woodrow Wilson, que considera idealista demais, e do primeiro-ministro britânico, David Lloyd George. Exige o desarmamento e indenizações da Alemanha e a devolução da Alsácia e da Lorena, tomadas pelos alemães na Guerra Franco-Prussiana.

Mesmo assim, considera a Paz de Versalhes leniente com a Alemanha. O eleitorado francês concorda. Clemenceau perde as eleições de janeiro de 1920. Deixa a vida pública e publica um livro de memórias, A Grandeza e a Miséria da Vitória, em que prevê uma nova guerra com a Alemanha em 1940. Ele morre em Paris em 24 de novembro de 1929.

ELVIS NO CINEMA

    Em 1956, estreia Love me Tender (Ama-me com Ternura), com Elvis Presley no papel principal, o primeiro filme de Hollywood do Rei do Rock.

Elvis nasce em Tupelo, no Mississípi, em 8 de janeiro de 1935. Motorista de caminhão, ele estreia como cantor em 1954 na gravadora Sun Records, em Memphis, no Tennessee. Seu primeiro álbum, Elvis Presley, chega ao topo das paradas de sucesso em 1956 e o projeta como um ídolo mundial.

Ele faz um teste para o filme The Rainmaker (Lágrimas do Céu, no Brasil), mas perde o papel para Burt Lancaster e vai fazer Love me Tender. 

Em 9 de setembro, Elvis faz a primeira de três apresentações no programa de televisão Ed Sullivan Show, que bate recordes de audiência. No terceiro programa, os censores da TV só permitem que ele seja mostrado da cintura para cima. O rebolado do Rei do Rock é sensual demais para os EUA moralistas dos anos 1950.

Ao todo, Elvis fez 30 filmes, gravou 23 álbuns e vendeu mais de 500 milhões de discos. Com problemas de saúde e abuso de álcool e drogas, Elvis morre aos 42 anos em 16 de agosto de 1977 na Mansão de Graceland, em Memphis, centro de peregrinação de seus milhões de fãs.

INDEPENDÊNCIA DA PALESTINA

    Em 1988, o presidente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, proclama da independência da Palestina e anunciou o reconhecimento do direito de existência de Israel.

A OLP é fundada em 1964 pelo então ditador do Egito, Gamal Abdel Nasser, interessado em se apresentar como campeão da causa palestina. Depois da humilhante derrota dos países árabes para Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967, Arafat, fundador do partido Fatah (Luta) em 1959, assume a liderança da OLP em 1969 como um movimento guerrilheiro na luta contra Israel.

Em 1970, a OLP tenta dar um golpe contra o rei Hussein, da Jordânia, para transformar este país na pátria do povo palestino. As forças de Hussein massacram os palestinos no Setembro Negro. Arafat acusa a Jordânia de matar 25 mil palestinos, mas estimativas mais realistas falam em 2 mil a 3,4 mil palestinos mortos.

Os líderes da OLP fogem para o Líbano, de onde lançam invasões do território israelense através da fronteira entre os dois países. Isso leva à invasão de Israel no Líbano e ao massacre de cerca de 1,2 mil palestinos nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, em Beirute, em 1982.

Arafat e a OLP fogem para a Tunísia. A proclamação de independência tem poucos resultados práticos. Um ano antes, em 1987, os palestinos iniciam a Primeira Intifada, uma revolta contra a ocupação israelense da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, territórios onde pretendem construir seu Estado nacional.

As negociações de paz começam na Conferência de Madri, em 30 e 31 de outubro de 1991, depois da Guerra do Golfo para expulsar o Iraque do Saddam Hussein do Kuwait, em janeiro e fevereiro daquele ano. Como Arafat e a OLP apoiaram Saddam, que em determinado momento condicionou a retirada do Kuwait ao fim da ocupação israelense, são excluídos do processo de paz.

Quando fica evidente que a delegação palestina não faz nada sem consultar a OLP, o grupo é incluído no processo de paz. O avanço só acontece com as negociações secretas realizadas em Oslo, na Noruega.

Em 13 de setembro de 1993, Israel e a OLP anunciam uma declaração de princípios e Arafat aperta a mão do primeiro-ministro israelense, Yitzhak Rabin, no jardim da Casa Branca. Os Acordos de Oslo, assinados em 1994, criam a Autoridade Nacional Palestina e dão à OLP inicialmente jurisdição sobre a Faixa de Gaza e Jericó.

O Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), que até hoje luta pela destruição de Israel, mina o processo de paz com ações terroristas. Depois do assassinato de Rabin por um extremista israelense em 4 de novembro de 1995, o direitista Benjamin Netanyahu é eleito primeiro-ministro pela primeira vez em 1996. Desde então, sabota o processo de paz para que nunca seja criado uma pátria para o povo palestino.

A última negociação consistente neste sentido é mediada pelo presidente dos EUA, Bill Clinton, no fim de seu governo, em 2000. Em mais um erro político, Arafat rejeita a proposta na expectativa de que o presidente George W. Bush, do Partido Republicano, seja mais favorável aos palestinos, já que o Partido Democrata tradicionalmente era mais favorável a Israel. Mas a aliança dos republicanos com a direita religiosa os torna tão favoráveis a Israel quanto os democratas.

O ataque terrorista do Hamas, em 7 de outubro do ano passado, é uma reação a 56 anos de ocupação israelense, 16 anos do cerco à Faixa de Gaza e às negociações para o reconhecimento mútuo de Israel e Arábia Saudita, o que marginalizaria mais uma vez o povo palestino. Agora, a Arábia Saudita exige a criação de uma Palestina independente para fechar acordo com Israel.

POPULAÇÃO DA TERRA PASSA DE 8 BILHÕES

    Em 2022, a população total do planeta ultrapassa a marca de 8 bilhões de seres humanos, de acordo com estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje a população mundial é estimada em 8,1 bilhão.

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Hoje na História do Mundo: 15 de Novembro

 SHERMAN ARRASA

    Em 1864, durante a Guerra da Secessão (1861-65), o general nortista William Sherman começa a destruir o distrito industrial Atlanta em sua Marcha para o Mar e, durante seis semanas, o Exército da União arrasa a maior parte do estado da Geórgia até capturar o porto de Savannah, que estava em poder dos Estados Confederados da América (Sul).

Sherman toma Atlanta em setembro de 1864. Com linhas de suprimento vulneráveis, teme perder o controle da Geórgia para as forças do Sul. Usa uma estratégia de terra arrasada, destruindo tudo o que possa ser útil ao inimigo, inclusive fontes de água e comida.

Como a linha de suprimento vai até Nashville, no Tennessee, Sherman divide o Exército do Norte. Fica com 60 mil homens e manda o general George Thomas de volta a Nashville, com as missões de proteger as estradas de ferro e os rios por onde passam as provisões para suas tropas e enfrentar o general sulista John Bell Hood, que Sherman vencera para tomar Atlanta.

Ao saber da reeleição do presidente Abraham Lincoln em 8 de novembro, Sherman pede permissão ao comandante em chefe da União, general Ulysses Grant, para marchar pela Geórgia "como prova de que o Norte pode prevalecer".

Em 15 de novembro, os homens de Sherman começam a deixar Atlanta. Na retirada, tocam fogo no distrito industrial da capital da Geórgia.

PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA

    Em 1889, o marechal Deodoro da Fonseca derruba o imperador Dom Pedro II e proclama a República no Brasil.

A Proclamação da República no Brasil foi tardia, mais de meio século depois de todos os outros países sul-americanos, que declaram suas independências e imediatamente abolem a escravidão e instauram a república, como observa o jornalista e escritor Eduardo Bueno.

Vem num golpe militar um ano e meio depois da Abolição da Escravatura, com a queda do gabinete do Visconde de Ouro Preto, último primeiro-ministro do Império. Como na independência, o povo fica alheio, "assiste a tudo bestializado".

Para legitimar o novo regime, os republicanos prometem convocar um plebiscito para que o povo decida que prefere monarquia ou república. A consulta popular é realizada mais de 100 anos mais tarde, em 1993, depois da Constituição de 1988. 

CLEMANCEAU NO PODER

    Em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18), Georges Clemenceau, o Tigre, é nomeado primeiro-ministro da França pela segunda vez.

O jovem Clemenceau entra no Parlamento em 1876, cinco anos depois da derrota para a Alemanha na Guerra Franco-Prussiana (1870-71). Acredita que a Alemanha unificada é uma ameaça. Considera uma nova guerra inevitável.

A Alemanha cresce no fim do século 19. Na virada do século, é a segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, superando o Reino Unido.

No primeiro mandato como primeiro-ministro (1906-9), Clemenceau mantém a postura antialemã. Defende a preparação para a guerra e o fortalecimento da aliança com o Reino Unido e a Rússia. Em 1904, a França e o Reino Unido superam uma rivalidade história de mais de 800 anos e formam a Entente Cordiale. Em 1907, no primeiro governo Clemenceau, com a entrada da Rússia, vira Tríplice Entente.

A guerra mostra que Clemenceau tinha razão. Depois de três primeiros-ministros, o presidente Raymond Poincaré esquece a rivalidade com o Tigre. Quando parte dos políticos e da opinião pública da França queriam acabar com a guerra, os dois tinham em comum a determinação de vencer a Alemanha.

Ao reassumir a chefia do governo, Clemenceau manda prender o pacifista Joseph Caillaux por traição. Até março de 1918, a Alemanha está vencendo a guerra. A entrada dos EUA em combate muda a história e garante a vitória.

Na Conferência de Paz de Versalhes, Clemenceau é um dos principais negociadores, ao lado do presidente norte-americano Woodrow Wilson, que considera idealista demais, e do primeiro-ministro britânico, David Lloyd George. Exige o desarmamento e indenizações da Alemanha e a devolução da Alsácia e da Lorena, tomadas pelos alemães na Guerra Franco-Prussiana.

Mesmo assim, considera a Paz de Versalhes leniente com a Alemanha. O eleitorado francês concorda. Clemenceau perde as eleições de janeiro de 1920. Deixa a vida pública e publica um livro de memórias, A Grandeza e a Miséria da Vitória, em que prevê uma nova guerra com a Alemanha em 1940. Ele morre em Paris em 24 de novembro de 1929.

ELVIS NO CINEMA

    Em 1956, estreia Love me Tender (Ama-me com Ternura), com Elvis Presley no papel principal, o primeiro filme de Hollywood do Rei do Rock.

Elvis nasce em Tupelo, no Mississípi, em 8 de janeiro de 1935. Motorista de caminhão, ele estreia como cantor em 1954 na gravadora Sun Records, em Memphis, no Tennessee. Seu primeiro álbum, Elvis Presley, chega ao topo das paradas de sucesso em 1956 e o projeta como um ídolo mundial.

Ele faz um teste para o filme The Rainmaker (Lágrimas do Céu, no Brasil), mas perde o papel para Burt Lancaster e vai fazer Love me Tender. 

Em 9 de setembro, Elvis faz a primeira de três apresentações no programa de televisão Ed Sullivan Show, que bate recordes de audiência. No terceiro programa, os censores da TV só permitem que ele seja mostrado da cintura para cima. O rebolado do Rei do Rock é sensual demais para os EUA moralistas dos anos 1950.

Ao todo, Elvis fez 30 filmes, gravou 23 álbuns e vendeu mais de 500 milhões de discos. Com problemas de saúde e abuso de álcool e drogas, Elvis morre aos 42 anos em 16 de agosto de 1977 na Mansão de Graceland, em Memphis, centro de peregrinação de seus milhões de fãs.

INDEPENDÊNCIA DA PALESTINA

    Em 1988, o presidente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, proclama da independência da Palestina e anunciou o reconhecimento do direito de existência de Israel.

POPULAÇÃO DA TERRA PASSA DE 8 BILHÕES

    Em 2022, a população total do planeta ultrapassa a marca de 8 bilhões de seres humanos, de acordo com estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU).

terça-feira, 15 de março de 2022

Hoje na História do Mundo: 15 de Março

ASSASSINATO DE CÉSAR

    Em 44 antes de Cristo, 60 conspiradores liderados por Caio Cássio Longinus e Marco Júnio Brutus matam a facadas, na escadaria do Senado da República Romana, Caio Júlio César, um dos maiores generais de todos os tempos, que se tornara um ditador. 

Ele agoniza e morre aos pés da estátua de seu inimigo Pompeu. Ao ser esfaqueado por Brutus, seu protegido por ser filho de uma de suas amantes, não esconde seu espanto

César nasce em 13 de julho de 100 AC na família Julii, de patrícios, mas sem uma posição de destaque na aristocracia romana. Começa a vida pública em 78 AC como promotor público do Partido Popular, que é contra o patriciado, e conquista apoio por causa das propostas reformistas e do talento como orador.

Em 78 AC, Júlio César organiza um exército particular para enfrente o rei de Pontus, um reino ao sul do Mar Negro. Ele se alia a Cneu Pompeu, o líder do Partido Popular, mas toma a liderança quando Pompeu sai de Roma para ser comandante das forças do Leste da República Romana, em 67 AC.

Quatro anos depois, em 63 AC, César é eleito Pontifex Maximus (Supremo Pontífice), possivelmente com muito suborno e compra de votos. Em 61 AC, é nomeado governador da Hispânia Ulterior. Volta a Roma em 60AC com a ambição de se tornar cônsul, o mais alto cargo da república, ocupado por dois políticos por períodos de um ano.

Os cônsules comandam o Exército, presidem o Senado, executam seus decretos e representam Roma nas relações exteriores. César forma então o Primeiro Triunvirato, uma aliança com Pompeu e Marco Licínio Crasso, o homem mais rico de Roma. Em 59 AC, é eleito cônsul.

Em 58 AC, César assume o comando de quatro legiões romanas na Gália Cisalpina e na Ilíria. Conquista toda a Gália, que incluía o que hoje é a França, a Bélgica, a Suíça e partes da Alemanha e da Itália, mas não consegue invadir o que hoje é a Inglaterra.

O sucesso militar provoca o rompimento da aliança. Sob pressão de Pompeu, o Senado manda César dissolver seu exército. Ele se nega a fazer isso. Ao cruzar o Rio Rubicão, na fronteira da Gália Cisalpina com a Itália, declara guerra a Pompeu.

César vence na Espanha e na Itália, mas é obrigado a fugir para a Grécia. Em agosto de 48 AC, com exército menos numeroso, arma uma emboscada para as forças do Senado Romano sob o comando de Pompeu, que foge para o Egito, onde é assassinado por um agente do rei.

Depois de alguns anos percorrendo os domínios romanos para consolidar o poder, César volta a Roma em 45 AC. É proclamado ditador perpétuo e anuncia uma série de reformas. A mais duradoura é o Calendário Juliano, o primeiro baseado no ano solar e não nas fases da Lua, substituído a partir do século 16 pelo Calendário Gregoriano. Também planeja expansão do império pela Europa Central e Oriental.

Os conspiradores acreditam que a morte de César vai restaurar a República Romana. Mas há uma nova guerra civil. Marco Antônio, Otávio e Lépido formam o Segundo Triunvirato na guerra contra os assassinos de Júlio César. 

Depois da vitória, eles brigam entre si. Lépido vai para o exílio e Marco Antônio se suicida com a derrota na Batalha de Ácio, em 31 AC.

Caio Júlio César Otávio é proclamado primeiro imperador romano em 16 de janeiro de 27 AC e acrescenta o nome de Augusto. É o fim da República. 

Augusto governa até a morte, em 19 de agosto de 14 depois de Cristo. Quando Jesus nasceu, Otávio César Augusto era o imperador romano. Apesar das guerras expansionistas nas fronteiras do império, Roma em si vive um período de 200 anos de paz, a Pax Romana, quebrada em 68 e 69 DC por uma guerra civil em torno da sucessão.

EXPOSIÇÃO DE VAN GOGH

    Em 1901, onze anos depois de sua morte por suicídio, 71 pinturas do genial holandês Vincent Van Gogh são expostas na Galeria Bernheim-jeune, em Paris, e com sua riqueza de cores e estilo causam sensação no meio artístico.

Van Gogh nasce em Zundert, na Holanda, em 1853. Trabalha como vendedor em galeria de arte, professor, vendedor de livros e pregador entre os mineiros da Bélgica antes de descobrir sua vocação artística.

Sua década produtiva começa em 1880. Ele estuda desenho na Academia de Bruxelas e vai para a Holanda em busca do contato com a terra e a natureza. Pinta Os Comedores de Batata, um quadro sombrio sobre a vida dura dos camponeses, considerado sua primeira grande obra.

Em 1886, vai viver com o irmão, Theo, em Paris, onde conhece grandes pintores pós-impressionistas, Henri de Toulouse-Latrec, Paul Gauguin, Camille Pissarro e Georges Seurat. A conselho de Pissarro, passa a usar uma palheta multicolorida que provoca uma explosão de cores nas duas telas.

A toxicidade das tintas coloridas contribuiu para os problemas mentais que o abalaram. Em 1888, Van Gogh vai para Arles, no Sudeste da França, onde tem um ano de extraordinária criatividade, quando pinta sua série Girassóis.

Van Gogh quer formar uma comunidade de artistas. Convida Gauguin para ir para Arles. No fim de dois meses de convivência difícil, num gesto de loucura, Van Gogh ameaça Gauguin com uma navalha e corta um pedaço da própria orelha.

Depois de dois meses no hospital de Arles, Van Gogh vai para um asilo em Saint-Remy-de-Provence, onde fica 12 meses e continua produzindo entre surtos da doença mental. A Noite Estrelada (1889) é desta época.

Em maio de 1890, deixa o asilo. Vai para Paris e depois se muda para a casa do Dr. Ferdinand Gachet, um médico homeopata amigo de Pissarro, em Auvers-sur-Oise. Ainda trabalha, mas a saúde mental se deteriora. 

Deprimido, Van Gogh se considera um peso para um irmão, se dá um tiro em 27 de julho de 1890 e morreu dois depois, nos braços de Theo.

Ao longo da carreira, criou 2,5 mil obras de artesAntes de se matar, só vende um único quadro, A Vinha Encarnada, por 400 francos, na Bélgica. Em 1990, o Retrato do Dr. Gachet é leiloado em Nova York por US$ 82,5 milhões.

A exposição em Paris foi a primeira a reconhecer sua genialidade.

VOTO PARA OS NEGROS

    Em 1965, diante de uma sessão conjunta do Congresso dos Estados Unidos, o presidente Lyndon Johnson (1963-69) defende a aprovação de uma lei para garantir o direito de voto para todos e usa o lema do movimento negro: "Nós devemos superar."

A 15ª Emenda à Constituição dos EUA, aprovada depois da Guerra da Secessão (1861-65), dá o direito de votos a todos, mas vários criam legislações contra o voto dos negros, com exigências como alfabetização ou testes de caráter a que os eleitores brancos não são submetidos.

O discurso é feito dias depois da violenta repressão policial a uma marcha de protesto contra o racismo em Selma, no Alabama, um dos estados mais conservadores do Sul dos EUA.

Em 6 de agosto, Johnson sanciona a Lei dos Direitos de Voto, que torna ilegal qualquer medida para impor restrições aos direitos de votos. O presidente Richard Nixon (1969-74) amplia os direitos e reduz a idade mínima para votar para 18 anos em todo o país.

sábado, 23 de outubro de 2021

Hoje na História do Mundo: 23 de Outubro

 BRUTUS SE SUICIDA

    Em 42 antes de Cristo, Marco Júnio Brutus, um dos assassinos de Caio Júlio César, se mata depois da derrota na Batalha de Filipos, na Macedônia, para um exército comandado por Marco Antônio, Otávio e Marco Emílio Lépido, outro general de César, que desde 43 AC formam com Lépido o segundo triunvirato da República Romana.

Dois anos antes, Brutus se junta à conspiração de seu cunhado, o senador Caio Cássio Longino, contra Júlio César, acusado de se tornar um ditador e ameaçar a república. O assassinato de César, em 44 AC, deflagra uma nova série de guerras civis e acaba com a república.

Primeiro, Antônio e Otávio vencem os republicanos Brutus e Cássio, que também se suicida. Lépido é afastado em 36 AC. Três anos depois, Antônio e Otávio rompem. Acaba o segundo triunvirato.

Em 31 AC, por articulação de Otávio, o Senado declara guerra a Cleópatra, rainha do Egito, ex-amante de César e amante de Marco Antônio, acusado de traição. Em 2 de setembro, Otávio vence a Batalha de Ácio, na Grécia. Antônio e Cleópatra fogem para o Egito e se suicidam, embora exista uma versão de que ela foi morta por Otávio.

Vitorioso, Otávio é coroado imperador em 27 AC com o nome de Otávio César Augusto. É o fim da República Romana, que é imperialista desde as Guerras Púnicas (264-143 AC), quando derrota Cartago a assume a hegemonia sobre o Mar Mediterrâneo.

NASCIMENTO DE PELÉ

    Em 1940, nasce em Três Corações, no estado de Minas Gerais, Edson Arantes do Nascimento, o Rei Pelé, maior jogador de futebol de todos os tempos.

A família se muda para Bauru, de onde Pelé é levado para o Santos pelo ex-jogador Valdemar de Brito. Pelé estreia na seleção brasileira em 1956, numa derrota por 2-1 para a Argentina, e ganha a primeira Copa do Mundo aos 17 anos, em 29 de junho de 1958.

Pelé é três vezes campeão do mundo pelo Brasil e duas vezes pelo Santos. Até hoje, é o maior artilheiro da seleção masculina. Ao todo, marcou 1.283 gols, 0,85 gol por jogo, acima dos atuais supercraques Lionel Messi (0,8) e Cristiano Ronaldo (0,73). É o único jogador com mais de mil gols.

REVOLTA CONTRA O STALINISMO

    Em 1956, uma manifestação estudantil reúne milhares de pessoas no Centro de Budapeste, marcha até o Parlamento e um grupo invade a Rádio Europa Livre para divulgar sua mensagem contra o regime comunista linha-dura e é atacado pela Autoridade de Proteção do Estado, a polícia política, o que deflagra uma revolta popular contra o regime stalinista de Matyas Rakosi e as tropas da União Soviética estacionadas na Hungria.

Depois da morte do ditador Josef Stalin, em 5 de março de 1953, o novo líder soviético, Nikita Kruschev, denuncia os crimes de stalinismo no 20º Congresso do Partido Comunista da URSS, realizado de 14 a 26 de fevereiro de 1956.

Em consequência, surgem alas liberalizantes e reformistas nos PCs. Com o levante, o reformista Imre Nagy assume a liderança do partido na Hungria em 24 de outubro. A ala reformista toma o poder, admite não comunistas no governo, promete reformas democráticas, dissolve a polícia política e retira a Hungria unilateralmente do Pacto de Varsóvia, a aliança militar liderada pela URSS.

Uma grande invasão soviética, em 4 de novembro, com 31.550 soldados e 1.130 tanques, derruba Nagy e restaura o regime stalinista sob a chefia de Janos Kadar, que fica no poder até 1988. Pelo menos 772 soldados da URSS e dos stalinistas húngaros e de 2,5 e 3 mil rebeldes morrem na revolta, que termina em 11 de novembro. Cerca de 200 mil pessoas fogem da Hungria.

Nagy se refugia na Embaixada da Iugoslávia, mas é preso e executado em 16 de junho de 1958. Com a queda do comunismo, em 1989, Nagy e seus aliados na revolta de 1956 são reabilitados e reenterrados com honras de heróis.

TERROR NO LÍBANO

    Em 1983, um terrorista suicida explode um caminhão-bomba no quartel-general dos fuzileiros navais dos Estados Unidos em Beirute, no Líbano, matando 241 soldados, e um ataque semelhante mata 58 soldados. O grupo extremista muçulmano Jihad Islâmica (Guerra Santa Islâmica) reivindicou a autoria dos atentados, que causaram a retirada das forças internacionais do Líbano.

Depois da dissolução do Império Otomano, no fim da Segunda Guerra Mundial (1939-45), a França obtém um mandato da Liga das Nações para administrar a Síria e o Líbano.

O Líbano se torna independente em 1943 com um frágil equilíbrio entre os grupos étnicos e um acordo pelo qual o presidente é cristão, o primeiro-ministro muçulmano sunita e o presidente do Parlamento muçulmano xiita.

Quando Israel vence a Guerra dos Seis das, em 1967, e ocupa territórios árabes, os palestinos fogem, principalmente para a Jordânia, tentam dar um golpe contra o rei Hussein e são massacrados no Setembro Negro, em 1970.

Muitos palestinos se refugiam no Líbano, rompendo o frágil equilíbrio entre cristãos e muçulmanos, o que leva à Guerra Civil Libanesa (1975-90). 

As tropas das potências estão no país desde agosto de 1982. Em tese, são uma força de paz para proteger a saída dos palestinos do Líbano, que Israel invade em 6 de junho para atacar a Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

Com a invasão israelense, sem poder enfrentar uma força superior, a resistência libanesa recorre ao terrorismo suicida.

TERROR NO TEATRO EM MOSCOU

    Em 2002, cerca de 50 rebeldes chechenos invadem um teatro lotado em Moscou e fazem 800 reféns. 

O segundo ato de um musical está começando, quando os terroristas entram no palco do Paláco da Cultura e disparam rajadas de metralhadora para o ar. Entre eles, há mulheres com explosivos presos junto ao corpo.

Ao se apresentar como soldados do Exército da Chechênia, os terroristas apresentam sua exigência: a retirada total das forças militares da Rússia da Chechênia, uma república da Federação Russa da região do Norte do Cáucaso.

A Primeira Guerra da Chechênia vai de 11 de novembro de 1994 a 31 de agosto de 1996. Mais de 100 ml pessoas morrem e a Rússia perde.  

A Segunda Guerra da Chechênia é iniciada em 26 de agosto de 1999 pelo então primeiro-ministro Vladimir Putin para firmar sua liderança como herdeiro político do presidente Boris Yeltsin com uma política de terra arrasada. Vai até 16 de abril de 2009. Mais de 23 mil pessoas morrem.

Depois de 57 horas e da morte de dois reféns, forças especiais da Rússia atacam os terroristas em 26 de outubro. Usam um gás narcótico dentro do teatro que deixou quase todos os que estavam lá dentro inconscientes.

A maioria dos guerrilheiros e 120 reféns no ataque. As forças especiais se defendem alegando que sem a surpresa os terroristas teriam detonado os explosivos.

Putin endurece ainda mais na Chechênia. Os rebeldes fazem novos ataques terroristas, em 6 de fevereiro de 2004 contra o metrô de Moscou, com 41 mortes, e  tomam, em em 1º de setembro, uma escola em Beslan, na Ossétia do Norte, onde pelo menos 334 morreram, inclusive 156 crianças.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

João Francisco Pereira de Souza, o Coronel Degola, a Hiena do Cati*

Uma época de violência e terror. Tortura e morte. De cabeças cortadas - degolas. Inimigo derrotado não sobrevivia. Os uniformes encharcados depois das batalhas, tingidos de vermelho vivo, de sangue ainda quente. Terminara no Rio Grande do Sul a Revolução Federalista (1893-95), a mais sangrenta das guerras civis brasileiras. Mais de 12 mil mortos. Mas a fronteira não estava "pacificada". Os revolucionários exilados no Uruguai eram ameaça aos republicanos. Era preciso manter a ordem. Manter o poder. "A ordem por base e o progresso por fim." A filosofia positivista de Augusto Comte justificava o autoritarismo de Júlio de Castilhos. 

Para policiar a fronteira, foram criados "corpos provisórios" civis. O mais famoso deles ficava no Cati - numa elevação às margens de um arroio, em Santana do Livramento. Ali mandava, absoluto, o coronel João Francisco Pereira de Souza. A Hiena do Cati. O Louco do Cati. O Coronel Degola, comandante de um regimento de 1.400 homens espalhados desde as Missões até Livramento. 600 homens montados em cavalos tordilhos. Eram os soldados do Cati. 

Em nome da República, da ordem e do progresso, do fim do contrabando e do banditismo, implantou-se um terror medieval. Nem as mulheres eram respeitadas... E os irmãos, pais e maridos é que pagavam. Castrados. Degolados. Acabavam no fundo de valas. Apodrecendo...

As batalhas naquele tempo eram corpo a corpo - com lança, facão, espada e algumas pistolas. Havia pouca munição. Por entre as colinas levemente onduladas (coxilhas) do pampa gaúcho, os combates eram rápidos e violentos. Em duas horas, cidades eram varridas com sangue. Depois vinha a pilhagem. Os campos ficavam manchados de sangue, de cadáveres, com cruzes aqui e ali, fossas onde corpos apodreciam e muitos crânios perdidos pelo chão. Enterros em covas rasas. Aos vencidos, só restavam duas opções: aderir ou morrer.

Era um tempo de degolas. Os homens eram mortos como animais - de joelhos, as mãos amarradas às costas, a cabeça presa entre as pernas do carrasco. Um golpe seco de facão... Nenhum respeito pela pessoa humana. Coisas de uma sociedade recém-saída da escravidão que passara os últimos 200 anos lutando. (Desde que os portugueses, ampliando seus domínios na América, fundaram em 1680 a Colônia do Sacramento, no Rio da Prata, do outro lado de Buenos Aires, o Rio Grande do Sul e o Uruguai foram palco de sucessivas guerras.)

A Revolução Federalista de 1893 criou uma triste imagem de violência do Rio Grande do Sul. Até hoje permanecem ressentimentos. Em cidades de fronteira como Santana do Livramento, ou se é chimango ou maragato. O historiador Sérgio da Costa Franco, autor de Júlio de Castilhos e Sua Época, recebe cartas de castilhistas indignados com as homenagens prestadas anualmente ao líder maragato Gaspar Silveira Martins.

A análise histórica desse período de paixões violentas apenas começa. E a figura do coronel João Francisco Pereira de Souza - caudilho, chefe militar, disciplinador, bandido, segundo seus inimigos - é particularmente controvertida. Um mito.

Em quase todo o Brasil, a passagem do Império para a República foi pacífica. Com a abolição da escravatura, grandes líderes contrariados aderiram ao Partido Republicano, que assim pôde tomar o poder solidamente das mesmas elites dominantes no Segundo Império.

No Rio Grande do Sul, que havia proclamado a República de Piratini durante a Revolução Farroupilha (1835-45), a situação era outra. O Partido Liberal, de Silveira Martins, tinha amplo controle político. Nas eleições de 1889, fez grande maioria de deputados na Assembleia Legislativa do estado.

Quando o marechal Deodoro da Fonseca derrubou o imperador, em 15 de novembro de 1889, Silveira Martins foi preso. Abriu-se o caminho para o Partido Republicano Rio-Grandense, de Júlio de Castilhos. Quatro dias depois, o jornal A Reforma afirmava que "o Partido Liberal constitui a maioria da província; é uma força e como tal deve ser respeitado."

Castilhos respondeu, através de A Federação, que os monarquistas deveriam deixar o governo da República aos republicanos: "Não podemos dizer o que será maior: se a nossa tolerância de hoje, se a cólera irreprimível com que castigaremos os criminosos, sejam eles quais forem. Neste instante supremo, só há lugar para um partido - o partido da consolidação da República. A única coisa que resta aos nossos adversários é uma razoável." Positivista fanático, fiel seguidor do lema Ordem e Progresso, tratou de criar a Brigada Militar do Estado.

Mas logo depois de Deodoro fechar o Congresso, em 12 de novembro de 1891, Júlio de Castilhos foi deposto. Veio o período do governicho, que durou sete meses. Os republicanos exilados no Uruguai preparavam a retomada do poder, que se deu pelas armas em 17 de junho de 1892. Esse foi o primeiro combate no qual o jovem João Francisco - filho de fazendeiros, nascido em 12 de abril de 1866 - participou.

Não era uma força regular. Eram civis, recrutados às vezes à força de baioneta - camponeses, marginais, contrabandistas. João Francisco, que também estava no exílio, destacou-se por sua bravura e coragem.

Novamente no poder, Castilhos terminou seu trabalho de desmontar a máquina política do Partido Liberal. Destituiu delegados de polícia, chefes da Guarda Nacional e todos os funcionários públicos de cargos importantes. Fez do Rio Grande do Sul uma república positivista. Uma monocracia. Controlava pessoalmente o Estado.

"Partido fraco, sem contar com a força dos caudilhos locais manipuladores do voto popular", observa Sérgio da Costa Franco, "o Partido Republicano, ao atingir o poder, não poderia mostrar-se, como não se mostrou, liberal e tolerante. A sua própria debilidade explica sua dureza de conduta e o antiliberalismo da Constituição de 14 de julho de 1891."

O Poder Executivo legislava diretamente através de decretos-leis. Foi nela que Getúlio Vargas se baseou para fazer a Constituição do Estado Novo, em 1937. O mesmo fizeram os governos ditatoriais depois do golpe militar de 1964. Com a democratização, os decretos-leis foram substituídos pelas medidas provisórias, que entram em vigor imediatamente, mas precisam de aprovação do Congresso.

Em fevereiro de 1893, eram os maragatos que estavam no Uruguai. Com a invasão de Bagé, começou a Revolução Federalista. Em Santana do Livramento, houve um violento choque de duas horas na Rua Tamandaré. Os uruguaios puderam assistir tudo da cidade vizinha de Rivera (a fronteira ali é apenas uma avenida).

A derrota dos rebeldes em Inhanduí, em 3 de maio, estimulou o apoio do presidente da República, marechal Floriano Peixoto, decisivo para a vitória republicana. Depois do combate de Sociedade, no município de Santana do Livramento, em 1894, João Francisco passou a comandar o corpo explorador - uma vanguarda de cavalaria, tropa de choque das forças do general Hipólito Ribeiro. A guerra estava decidida.

Em 24 de junho de 1895, o que sobrava do exército federalista, sob o comando do almirante Luís Felipe de Saldanha da Gama, foi atacado em Campo Osório pelos soldados de João Francisco e Cândido Azambuja. Vendo-se perdido, Saldanha da Gama fugiu e foi morto por um lançaço do major Salvador Silva, oficial de João Francisco. Aí começaram as acusações ao caudilho.

Foi o fim da revolução. Os federalistas voltaram para o Uruguai. João Francisco permaneceu acampado junto ao arroio do Cati, entre Quaraí e Santana do Livramento. O governo Castilhos, temendo novas invasões, criou em 31 de dezembro de 1895 os "corpos provisórios" civis para defesa da fronteira.

O 2º Corpo Provisório ficava no Cati - ponto estratégico perto de vários municípios e das fronteiras com o Uruguai e a Argentina -, sob o comando do tenente-coronel João Francisco Pereira de Souza. No local, comprado pelo governo, construiu-se um quartel. Em torno, surgiu uma povoação: o Cati.

Longo muro de pedra. 800 metros de frente. Quatro mil metros quadrados de construção. Água encanada e luz a gás de acetileno. As casas dos oficiais logo à frente. Hoje o Cati está em ruínas. Restam um pedaço do muro da frente - dos portões do Cati, onde tantos entraram para jamais saírem - uma caixa d'água ainda de pé e o poço - o poço do pátio interno, de águas escuras, em que muitos foram jogados e assassinados.

Alguns velhos umbus, sem folhas, se elevam acima dos muros corroídos pelo tempo. Ainda se podem ver, olhado para o chão, entre os caraguatás e espinhentos japecãs que ocupam o terreno, as plantas das casas dos oficiais e das cadeias do Cati, desenhadas por seus alicerces. A grama alta, selvagem, vai conquistando espaço, enquanto raízes e trepadeiras escalam os muros num assalto final.

Nem parece que ali ficavam 600 homens de uma força total de 1.400 - os soldados montados em cavalos tordilhos, brancos, ágeis, bons nadadores, e os oficiais em cavalos alazões. Caprichos do coronel João Francisco - homem duro, austero, positivista convicto, disciplinador. Ele dormia pouco. Gostava de dar longas caminhadas durante a noite. Ao amanhecer, qualquer que fosse o temo, verão abafado ou frio inverno gaúcho, com os campos esbranquiçados pela geada, toda a soldadesca caía na água do arroio do Cati - com o coronel João Francisco à frente.

Foi também a época do fechamento das estâncias, com a chegada da indústria do frio, da carne congelada e do capitalismo ao campo. Camponeses sem terra foram expulsos das fazendas. Isso alimentou o banditismo, a marginalidade e o caudilhismo. Não faltavam elementos errantes, andarilhos e desocupados ao longo da fronteira. Eles atendiam a qualquer aceno de revolução, ambiente favorável a seu modo de vida bárbaro e seminômade.

Assim, não era difícil, tanto para rebeldes quanto para governistas, formar em pouco tempo numerosos corpos, brigadas e divisões. A guerra civil acabara e aqueles homens continuavam matando com suas ações violentas. Matavam por qualquer coisa. As menores questões eram resolvidas a faca ou bala. E o coronel João Francisco queria manter a ordem. De qualquer maneira.

O Cati se tornou famoso pelas atrocidades cometidas ali. João Francisco ficou conhecido como a Hiena do Cati, o Louco do Cati, o Coronel Degola. Esse terror chegou a inspirar o médico psiquiatra a escritor gaúcho Dyonélio Machado, nascido em Quaraí, a escrever O Louco do Cati - considerado pelo escritor e diplomata João Guimarães Rosa o segundo melhor romance brasileiro.

Embora não se prenda ao aspecto histórico, Dyonélio, deputado estadual comunista preso pelo Estado Novo, deixa no livro seu depoimento sobre João Francisco e o Cati: "Havia terminado a revolução com a vitória do governo. Era um fim de século - século 19. Fim de mundo... A campanha, principalmente a fronteira - ninho de revolucionários - não estava ainda "pacificada". Fazia-se necessário isso que depois as guerras iriam chamar de "operações de limpeza". Bem: essa limpeza se inaugurou, se consolidou, se prolongou. Tornou-se coisa regular. - Uma espécie da banditismo legal, entronizado naquele Castelo sobre uma elevação às margens dum arroio, nas caldas dum dos rios que têm mudado de pronúncia com a mudança de fronteira de dois povos inquietos. - Mas, é claro, uma tarefa de tal ordem ("Ordem pública! Ordem pública!") punha nas mãos dos homens do Cati uma enorme soma de poder: poder pessoal, poder político, poder!...

"Já não se fazia mais nada naquela vasta zona sem consulta ao Cati. O Cati era um Subestado. Era o Estado para aquela região. Não raro entrava em conflito com o verdadeiro Estado, e o vencia. Polvo, estendia tentáculos, atava, arrastava, triturava. A simples companhia de volantins que demandava Livramento, vinda do oeste, fazia a travessia pelo outro lado da linha, pelo estrangeiro, para não ter de passar pelo Cati. (- Passar pelo portão do Cati era obrigatório -). Por causa das mulheres... Não respeitavam nem as mulheres... E os pais e irmãos é que pagavam, atirados nos poços medievais. Daí, quando saíam, eram quase sempre degolados. Todos os que caíram eram degolados: por motivos pessoais, por motivos políticos, comerciais, por qualquer motivo... Altivo e frio, o Cati apertava, arrastava, triturava. E durante anos, anos. Fez-se uma legenda real, verdadeira, de sangue, de morte e de terror feudal. - Nós ficamos um pouco célebres, respeitados, admirados, por essa legenda."

"É um livro todo peculiar, em que tudo se move, tudo passa e tudo se desfaz, mas nada faz nenhum sentido" - como observou o escritor Moisés Velhinho em Letras da Província. O personagem central, um maluco cujo nome é sonegado, vai até um fim de linha de bonde em Porto Alegre. Lá se junta a um grupo e começa uma viagem de carro em que nada acontece - interrompida por uma prisão em Florianópolis, de onde são levados para o Rio. Carrega-se o maculo, simplesmente. Lá vai ele sem se saber por quê. E os outros também não sabem - só Norberto, que foge da polícia.

O autor coloca muita coisa miúda, do dia a dia. Após uma estada inconsequente no Rio, o louco é despachado de volta como um pacote que chegou em endereço errado. Pelo caminho, não falta almas caridosas com pena dele.

O fim da viagem, feita de avião, é um pouso forçado precisamente no Cati - onde o maluco confronta a realidade em ruínas com suas alucinações, talvez lembranças de terror de seus tempos de menino. Não há referências ao tempo em que se desenrola a ação, nem se a doença mental do personagem se deve a traumas do reino de terror de João Francisco no Cati.

Dyonélio reduz a importância dessas cenas reais para dar à obra dimensão universal. As angústias, sensações e esperanças do infeliz Louco do Cati se confundem com as de todos nós.

Com a morte de Júlio de Castilhos, em 1903, o comando politico do Partido Republicano passou para Antônio Augusto Borges de Medeiros, presidente do Rio Grande do Sul por 25 anos. João Francisco, que obedecia cegamente a Castilhos, ficou mais livre. Desafiou o Estado. Tornou-se um poder paralelo e absoluto. Agiu também no Uruguai. Aliado a seu ex-inimigo maragato Aparício Saraiva, interveio na revolução uruguaia de 1904 apoiando os blancos contra os colorados.

Borges tinha medo do Cati. Somente em dezembro de 1908, o governador Carlos Barbosa, considerando que "a paz está instalada", extinguiu por decreto-lei os "corpos provisórios". Foi o fim do Cati. Seus soldados foram transferidos para o regimento da Brigada Militar em Santa Maria.

"O velho poderia ter resistido, mas entregou as armas" - conta seu neto Imaero Pereira de Souza, preocupado em desfazer a imagem desfavorável do avô. O quartel foi abandonado, serviu de abrigo a camponeses sem terra. Nas duas quadras de sesmaria a seu redor, o governo passou a criar cavalos.

Hoje o Exército não tem mais cavalos em Livramento. As terras estão arrendadas para Hamilton Couto. Mas ninguém quer morar no Cati. As pessoas têm medo. Dizem que o sobrenatural do coronel João Francisco caminha por ali à noite, como fazia quando comandante. Vive ali só um rapaz de 15 anos, Válter Fernandes Trindade. Ele e cinco cavalos - dois são potros negros selvagens (como os cavalos chucros que os gaúchos domavam às pressas para formar suas brigadas).

A liderança política do coronel João Francisco na região se manteve até 1910, quando os Flores da Cunha entraram na disputa pelo controle do Partido Republicano na região da fronteira. Em 29 de setembro de 1910, os dois irmãos de João Francisco foram assassinados durante um tiroteio em Santana do Livramento. Briga provocada por comentários em jornais.

O coronel acusou os irmãos Flores. José Antônio Flores da Cunha, futuro governador do estado, respondeu pelo jornal Correio do Povo numa séria de artigos - Perfídias de um Bandido. Estavam revelados os crimes de João Francisco. Mais do que isso, eram admitidos pelos próprios republicanos.

Parece contraditório. João Francisco só teve força para praticar as arbitrariedades que cometeu por delegação direta do grande chefe republicano. Júlio de Castilhos aprovava pessoalmente todos os seus atos - como se pode ver na correspondência publicada no número 20 da revista Província de São Pedro.

Por outro lado, embora tenha sido cognominado Coronel Degola, não foi responsável pelas grandes degolas da Revolução Federalista - ordenadas pelo general maragato Joca Tavares, em Rio Negro, e pelo general castilhista Firmino de Paula, em Boi Preto.

O vereador, jornalista e historiador santanense Ivo Caggiani entende que o coronel João Francisco não pode ser julgado pelos padrões éticos e morais de hoje. Aquele era um tempo de lutas, de caudilhos, de violências de ambos os lados, de execuções sumárias.

Nos relatórios militares da época, citados pelo major Miguel José Pereira no Esboço Histórico da Brigada Militar, ele aparece como um comandante dedicado e responsável , com "suas bem instaladas oficinas, invernadas, mangueiras, lavouras de forragens - sem despender o Estado mais do que o vencimento, o fardamento e o armamento".

O certo é que João Francisco não se confunde com a figura típica do coronel na História do Brasil. Não é o grande fazendeiro cercado de capangas e jagunços, com um exército particular, mas o militar que vai ganhando força do chefe político de um governo centralizado e autoritário. Até mesmo o "liberal" Silveira Martins chamou de ingênuos aqueles que o abandonaram revoltados com as matanças da Revolução Federalista, como o médico Angelo Dourado, autor de Voluntários do Martírio, o que foi registrado pelo brazilianista americano George Love em Regionalismo Gaúcho: As Origens da Revolução de 30.

Júlio de Castilhos, Silveira Martins, Flores da Cunha e outros passaram à história como heróis; João Francisco, como bandido.

Desde a polêmica com Flores da Cunha, João Francisco foi cuidar de charqueadas em São Borja. Em 1914, foi para Caçapava, no estado de São Paulo, onde fundou uma charqueada. Ficou lá até a Revolução de 1923. Quando chegou ao Sul, a luta terminara.

De volta a São Paulo, articulou a Revolução de 1924 ao lado de Isidoro Dias Lopes e Siqueira Campos. Após 20 dias de cerco sob fogo cerrado de 19 canhões enviados por ordem do presidente Artur Bernardes, não conseguindo derrotar o governo, o caudilho teve uma ideia: um trem blindado com metralhadoras em cada janela.

O tem foi virado a canhonaços. Apesar dos ferimentos e dos seus 58 anos, João Francisco reagiu a bala contra aqueles que vinham matando os sobreviventes. Salvo por uma ambulância, fugiu do hospital a tempo de comandar a retirada da tropa para o Mato Grosso, Paraguai e Argentina. Outra vez o exílio. Mudou-se para Montevidéu e de lá para Rivera.

Com a Revolução de 1930, cruzou a fronteira para assumir o comando de Santana do Livramento como general nomeado por Getúlio Vargas, herdeiro de Castilhos. Novamente morando em São Paulo, lutou contra a Revolução Constitucionalista de 1932.

João Francisco Pereira de Souza morreu em 4 de maio de 1953. Anos antes, em 1939, quando estourou a Segunda Guerra Mundial, fez um plano de defesa contra um possível ataque da Alemanha à costa brasileira. E se apresentou para lutar na Europa. Com 73 anos, o velho caudilho ainda queria combater.

* (Texto publicado no CooJornal, da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, em fevereiro de 1982)

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Rei pede a novo governo que respeite "pluralidade" da Catalunha

Em seu discurso de Natal, o rei Felipe VI pediu ao Parlament da Catalunha que forme um novo govern que respeite a pluralidade da região, a segunda mais rica da Espanha, onde um movimento nacionalista luta pela independência, noticiou o jornal La Vanguardia, de Barcelona.

O rei havia se pronunciado em 3 de outubro, dois dias depois do plebiscito ilegal e inconstitucional sobre a independência convocado pelo governo regional dissolvido pelo primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, ao suspender a autonomia regional e intervir na região.

Na véspera do Natal, Felipe VI insistiu em que "respeitar e preservar os princípios e valores de nosso Estado de Direito é imprescindível para garantir uma convivência que assegure a liberdade, a igualdade, a justiça e o pluralismo político."

O discurso de Natal do rei é o único feito totalmente no Palácio da Zarzuela, residência oficial dos reis da Espanha, com a revisão final no Palácio da Moncloa, sede do governo. Assim, foi menos imperativo e mais conciliador.

Felipe VI lembrou que, nos últimos 40 anos, depois da morte do ditador Francisco Franco, em 1975, "conseguimos tornar realidade um país novo e moderno, um país dos mais avançados do mundo" e "comprovado o compromisso muito sentido, firme e sincero dos espanhóis com uma Espanha democrática que construímos juntos".

Desta maneira, "implantamos definitivamente a democracia, inclusive superando há décadas a tentativa de involução de nossas liberdades e direitos", afirmou, numa referência à ditadura franquista (1936-75). Ele citou a adesão à União Europeia e a luta contra o terrorismo como uma "amostra da força de nossas convicções democráticas" - e mudanças "na educação e na cultura, na saúde e nos serviços sociais, na infraestrutura e nas comunicações, ou na defesa e na segurança do cidadão".

Em todos esses anos, "a convivência democrática, os direitos e as liberdades, o progresso e a modernização da Espanha, e também sua relevância e progresso internacionais andaram lado a lado." O rei descreveu esses avanços como "um triunfo de todos os espanhóis" e alertou para o risco da radicalização política.

"Como sabemos, o enfrentamento e a discórdia, incerteza, desânimo e empobrecimento moral, cívico e econômico de toda a sociedade", advertiu o rei, num apelo para que "renasçam a confiança, o prestígio e a melhor imagem da Catalunha".

 E concluiu: "A Espanha hoje é uma democracia madura, onde qualquer cidadão pode pensar, defender a contrastar livre e democraticamente suas ideias; mas não impor suas próprias ideias ante os direitos dos outros."

O movimento pela independência quer criar a República da Catalunha. Nas eleições de 21 de dezembro, os independentistas conquistaram uma maioria absoluta de 70 das 135 cadeiras do Parlament, mas ainda não formaram o novo govern. 

Seu principal líder, o ex-governador Carles Puigdemont, da aliança Juntos pela Catalunha, está refugiado na Bélgica e ameaçado de prisão se voltar à Espanha. O vice-governador Oriol Junqueras, da Esquerda Revolucionária da Catalunha (ERC), está preso em Madri. Ambos foram denunciados por "sedição, rebelião e traição à pátria".

sábado, 29 de novembro de 2014

China acaba com monopólio estatal do sal após 2 mil anos

A China anunciou nesta semana que vai acabar com o monopólio estatal na compra e venda de sal como parte da "progressiva conclusão da transição para a economia de mercado".

O monopólio do sal sobreviveu a 23 dinastias imperiais, 37 anos de república e 65 anos de regime comunista.