segunda-feira, 16 de agosto de 2021

EUA fogem do cemitério dos impérios

O Afeganistão é o “cemitério dos impérios”. Desde Alexandre, o Grande, da Macedônia, um dos maiores generais de todos os tempos, que morreu aos 33 anos em 323 antes de Cristo, ninguém conquista o Afeganistão. 

O Império Mongol, de Gêngis Khan, tomou a metade do país do Império Corásmio (persa) numa guerra brutal de 1219 a 1221. Na cidade de Herat, onde o sobrinho favorito do Grande Khan foi morto, de 150 mil habitantes, sobreviveram 60. A brutalidade e as políticas de extermínio dos mongóis são comparáveis ao nazismo. 

GRANDE JOGO 
No século 19, o Afeganistão é enquadrado no Grande Jogo entre o Império Britânico, que dominava a Índia, e o Império Russo, na disputa geopolítica por influência na Ásia Central. O país era um Estado-tampão entre os dois impérios. 

A Linha Durand, a fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, foi traçada por Sir Mortimer Durand, secretário de Estado do governo colonial britânico na Índia, em 1893. Divide artificialmente as tribos pastós, que são 42% da população do Afeganistão e a etnia da maioria dos talebã, e são 15% da população do Paquistão, com a mesma cultura, o mesmo idioma e a mesma organização social dos dois lados da fronteira. 

Depois da Terceira Guerra Anglo-Afegã, em 1919, o Afeganistão recupera a independência como uma monarquia até a queda do rei Zahrir Shah, em 17 de julho de 1973, quando um golpe branco do ex-primeiro-ministro Mohamed Daud Khan, primo e cunhado do rei, proclama a República. Daud Khan governa cinco anos até a Revolução de Saur, o segundo mês do calendário persa. 

INVASÃO SOVIÉTICA 
Num golpe sangrento, em 27 e 28 de abril de 1978, os comunistas do Partido Popular Democrático tomam o poder, instalam um regime soviético sob a liderança do secretário-geral Nur Muhamad Taraki e iniciam uma série de reformas que enfrentam forte oposição em zonas rurais do interior do país. 

Em setembro de 1979, um golpe dentro do regime mata Taraki. O primeiro-ministro Hafizullah Amin assume a Secretaria-Geral do partido. A União Soviética não aceita o golpe e invade o Afeganistão em 26 de dezembro de 1979. Amin é deposto e morto. Babrak Karmal é o novo líder. Começa a Segunda Guerra Fria, depois da détente do início da década, quando o presidente americano Richard Nixon foi à China e à URSS, em 1972. 

Logo se forma uma aliança para fazer do Afeganistão o Vietnã da URSS: os EUA, governados por Ronald Reagan (1981-89); o Paquistão, dominado pelo ditador Zia ul-Haq, aliado americano na Guerra Fria e maior responsável pelo extremismo muçulmano no país; a China, inimiga da URSS no mundo comunista; e a Arábia Saudita, rica em petrodólares, exportadora do wahabismo, sua versão ortodoxa, ultraconservadora, extremista, austera, fundamentalista e puritana do islamismo. 

Os EUA dão armas e treinamento, a Arábia Saudita entra com dinheiro e voluntários, o Paquistão com os centros de treinamento e a China, aliada do Paquistão, com apoio político e diplomático. Ossama ben Laden é um dos enviados pela monarquia saudita para a guerra de guerrilhas contra o Exército Vermelho. É um dos ‘árabes afegãos’. 

As armas decisivas são os mísseis antiaéreos portáteis Stinger, disparados com apoio no ombro, lançados pelos EUA em 1981. Ao derrubar os aviões inimigos, acabam com a superioridade aérea dos soviéticos, que, como os americanos, nunca controlaram o interior de um país inóspito e montanhoso, próprio para a resistência de quem conhece o terreno. 

A invasão soviética dura nove anos e um mês. Mata de 562 mil a 2 milhões de afegãos e mais de 25 mil soldados soviéticos. Seis milhões fogem de casa, 2 a 3 milhões vão para o Paquistão e cerca de 1 milhão para o Irã. Deixa o país arrasado e em situação de anarquia, com os diferentes grupos armados que expulsaram os soviéticos brigando entre si. 

O último líder instalado pelo soviéticos, Mohamed Najibullah, é deposto em 16 de abril 1992, quando o Afeganistão cai num estado de anarquia geral.Vira uma terra sem lei onde vale a lei do mais forte e existe todo tipo de abuso. 

MILÍCIA DOS ESTUDANTES 
Neste ambiente selvagem de anarquia e guerra civil, a Milícia dos Talebã (Estudantes), nasce em setembro de 1994, fundada em Kandahar pelo mulá Mohamed Omar e 50 estudantes, todos oriundos das madraças, as escolas religiosas do Paquistão só para homens e que só ensinam o Corão, o livro sagrado do islamismo. 

Com financiamento saudita para difundir o wahabismo, elas se multiplicaram no governo Zia e foram importantes para os refugiados afegãos porque oferecem casa e comida para os alunos. Hoje, são 30 mil no Paquistão, com mais de 2,5 milhões de alunos. 

Omar estava insatisfeito porque o comunismo soviético não fora substituído pela lei corânica. Estava decidido a impor o deobandismo, sua corrente radical do Islã, como fonte de todo o poder no país. Começou dando enterro digno a menores vítimas de abuso sexual para conquistar a confiança da comunidade. 

Como a anarquia no Afeganistão criava insegurança e roubos e assaltos constantemente nas rotas de comércio que passavam pelo país, o poderoso serviço secreto militar do Paquistão, então governado pela primeira-ministra Benazir Bhutto, apoiou o movimento. De acordo com o jornalista Ahmed Rashid, de 1994 a 1999, 80 a 100 mil paquistaneses lutaram ao lado dos talebã no Afeganistão. 

Além do Paquistão, a milícia fundamentalista recebeu ajuda da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, e um apoio discreto dos EUA, que chegaram a dar dinheiro ao governo dos Talebã para combater a produção e o tráfico de opiáceos. 

EMIRADO ISLÂMICO 
No início de 1995, os talebã iniciam a marcha rumo a Cabul, mas sofrem uma grande derrota para as forças do governo sob o comando de Ahmed Shah Massoud. Mas, em 5 de setembro de 1995, conquistam Herat, a terceira maior cidade do país, na região de maioria xiita próxima ao Irã. Em 27 de setembro de 1996, tomam Cabul e fundam o Emirado Islâmico do Afeganistão. Massoud continua a luta como líder da Aliança do Norte. 

Num país arrasado por quase duas décadas de guerra, faltam água e energia. Poucos telefones funcionam. Poucas estradas são transitáveis. Os laços de clã e família estão desgastados pela guerra sem fim. A mortalidade infantil é a maior do mundo. Um quarto das crianças não chega aos 5 anos. 

O Afeganistão depende da ajuda de organizações internacionais, mas o regime talebânico vê com suspeita as atividades de organizações não governamentais e o trabalho de mulheres. A ONU sai do país em setembro de 1997, depois que o mulá Omar decide que as mulheres só viagem no país acompanhadas de um homem com que tenham laços familiares. 

Sob a ditadura teocrática dos talebã, eram proibidos: 
• a homossexualidade, passível de pena de morte; 
• toda forma de sexo que não entre pessoas casadas; 
• televisão, considerada um insulto ao Islã por reproduzir a figura humana; 
• fazer a barba, porque estaria no Corão e nos ditos do profeta Maomé, que também usaria barba; 
• ouvir música; 
• ter pássaros em gaiola, que eram mortos em vez de libertados; 
• ler livros suspeitos: literatura considera anti-islâmica dava até pena de morte; 
• a Internet, para afegãos e estrangeiros; • mulheres saírem de casa sozinhas, mesmo num país há décadas em guerra; e 
• o Dia do Trabalho, visto como um feriado comunista. 

DETRITO DA GUERRA FRIA 
Depois de vencer a URSS, os ‘árabes afegãos’ fundam em 1988 a rede terrorista Al Caeda (A Base), sob a liderança de Ben Laden e do médico egípcio Ayman al-Zawahiri, envolvido no assassinato do presidente egípcio Anuar Sadat, em 1981. A rede Al Caeda é assim um detrito da Guerra Fria, um instrumento usado para combater a URSS que se volta contra os EUA. 

Quando os EUA mandam forças para a Arábia Saudita após a invasão do Kuwait pelo Iraque de Saddam Hussein, em agosto de 1990, com mulheres dirigindo caminhões no solo sagrado do Islã, os jihadistas encontram um novo inimigo, com quem já tinha diferenças pela questão de Israel e das intervenções militares ocidentais no Oriente Médio. 

Em 7 de agosto de 1998, dois atentados terroristas com caminhões-bomba contra as embaixadas dos EUA no Quênia e na Tanzânia matam 224 pessoas, entre elas 12 americanos. O presidente Bill Clinton retália. Manda bombardear uma companhia farmacêutica no Sudão e centros de treinamento da Caeda no Afeganistão, mas fica nisso. Não leva à frente as consequências de suas ações. 

GLOBALIZAÇÃO DO TERRORISMO 
A resposta fulminante vem em 11 de setembro de 2001, surpreende o mundo e muda a história. Ben Laden é considerado o homem que mais influenciou o mundo no início do século 21. Numa globalização do terrorismo, leva as guerras do Oriente Médio para dentro do território dos EUA. Nem ele esperava que as Torres Gêmeas desabassem, com a estrutura amolecida pelo fogo. 

O pior ataque da história ao território dos EUA matou 2.977 pessoas, mais do que as 2.403 mortes do bombardeio japonês a Pearl Harbor, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941, que levou os EUA à Segunda Guerra Mundial (1939-45). O território continental dos EUA não era atacado desde a Batalha do Álamo, de 23 de fevereiro a 6 de março de 1836, um cerco de 13 dias do Exército do México sob o comando do presidente, general Antonio López de Santa Anna, que combatia a Revolução do Texas, em que todos os texanos morreram. E o Texas ainda não era parte dos EUA. Só adere em 1845.

Como o regime afegão se nega a entregar Ben Laden e Al Caeda, em 7 de outubro de 2001, começa a Guerra do Afeganistão com um bombardeio aéreo, a autorização do Conselho de Segurança da ONU e o apoio dos aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), com base no princípio de que um ataque contra um é um ataque contra todos. 

Três semanas depois, cai o regime extremista dos talebã. Os EUA e aliados chegam a cercar Ben Laden e a cúpula da rede terrorista nas cavernas do Nordeste do Afeganistão na Batalha de Tora Bora (Caverna Negra na língua pastó), de 6 a 17 de dezembro de 2001. Duzentos jihadistas morrem e 60 são presos. Ben Laden escapa pelas Montanhas Brancas e se refugia em regiões tribais do Paquistão, perto de Abotabade, onde é localizado e morto em 2 de maio de 2011. 

Depois da frustração em Tora Bora, o governo George W. Bush abandona o Afeganistão e muda o foco da “guerra contra o terror” (uma contradição, porque o terror é uma tática de guerra, não um inimigo) para a invasão do Iraque, que não tinha relação alguma com os atentados de 11 de setembro e se tornaria em novo celeiro de jihadistas. 

EIXO DO MAL 
Em 29 de janeiro de 2002, Bush faz no Congresso o Discurso sobre o Estado da União e fala num “eixo do mal” formado por Irã, Iraque e Coreia do Norte. Logo, manifesta a intenção de invadir o Iraque. Os outros países dois aceleram seus programas nucleares. Como observou o ministro da Defesa da Índia que explodiu a bomba atômica em maio de 1998, Jaswant Singh, para enfrentar os EUA é preciso ter armas nucleares. 

A invasão do Iraque divide a aliança militar ocidental. A França e a Alemanha estão prontas a votar contra no Conselho de Segurança da ONU, mas a questão não é colocada em votação. Ao alienar a minoria sunita, que estava no poder há séculos, desde que a região passou a ser dominada pelo Império Otomano no século 16, e dissolver as forças de segurança, os EUA jogaram na clandestinidade e no desemprego centenas de milhares de homens com formação militar, alguns armados, porque Saddam Hussein não enfrentou os EUA e os sunitas guardaram as armas. 

A revolta sunita é dominada pelo que viria a ser a rede Al Caeda no Iraque, que ataca o complexo da ONU em Bagdá em 19 de agosto de 2003 e mata 22 pessoas, inclusive o embaixador brasileiro Sérgio Vieira de Mello, enviado especial do secretário-geral da ONU ao país. Em 15 de outubro de 2006, Al Caeda no Iraque forma com outros grupos jihadistas o Estado Islâmico do Iraque. Em 2007, Bush envia reforço de tropas negligenciando ainda mais o Afeganistão. 

Se o objetivo maior era caçar Ben Laden, foi atingido em 2 de maio de 2011. O cemitério dos impérios vira uma pedra na bota imperial dos EUA, uma guerra sem fim numa terra estranha e desconhecida sem ameaça direta ao país. Os talebã sempre estiveram presentes e atacaram nos verões. 

GUERRAS SEM FIM 
As “guerras eternas” do Iraque e do Afeganistão deixam uma lição: não basta ganhar a guerra, é preciso conquistar a paz, construir ou reconstruir o Estado e a nação. Caso contrário, o esforço costuma ser inútil porque as causas do conflito continuam lá. 

Os governos-fantoches afegãos foram minados pela corrupção. As forças de segurança nunca foram capazes de defender o país. Nos últimos dias, abandonaram a luta. Os EUA e o fracasso Exército afegão deixaram armas, equipamentos e munições para o inimigo, que tem hoje 66 helicópteros de combate, mais do que a Austrália. 

Os EUA reconstruíram Estados e nações no Plano Marshall, quando investiram US$ 13 bilhões (US$ 114 bilhões de 2020) na recuperação da Europa Ocidental depois da Segunda Guerra Mundial (1939-45). Estavam preocupados com a influência da URSS na Guerra Fria. Era parte de uma nova guerra.

RENDIÇÃO E TRAIÇÃO 
Ao entregar o Afeganistão a quem o aterrorizava 20 anos atrás, o presidente Joe Biden comete seu primeiro grande erro de política externa. Trai a confiança de quem cooperou com os EUA e aliados todos estes anos, as mulheres, os LGBTs, as minorias étnicas e religiosas, os artistas e intelectuais... 

Há mais de 1,4 milhão de refugiados afegãos no Paquistão e 800 mil no Irã, e meio milhão de deslocados internamente. Estes números só tendem a aumentar. 

As cenas no aeroporto de Cabul, onde sete pessoas morreram, lembram a fuga desesperada da Embaixada Americana em Saigon, hoje Cidade de Ho Chi Minh, no fim da Guerra do Vietnã, em 30 de abril de 1975, são dantescas. Centenas de civis queriam parar um gigantesco avião dos EUA como se pudessem pegar uma carona, com alguns que se agarraram do lado de fora caindo logo depois da decolagem.  

Em entrevista nesta segunda-feira, o presidente Biden declarou que os EUA não estavam no Afeganistão para construir a nação. Era exatamente o que deveriam ter feito: derrotar os talebã e reconstruir o país arrasado por décadas de guerra. Se "a guerra é a continuação da política por outros meios", como definiu o estrategista alemão Carl von Clausewitz, quando acaba a guerra é necessária uma solução política. 

Os jihadistas costumam documentar suas atrocidades e podem começar a divulgar em breve os julgamentos sumários e execuções com base no direito corânico. São imagens que vão atormentar Biden e manchar seu governo, desmoralizar sua campanha de promoção da democracia e o suposto compromisso dos EUA com os direitos fundamentais do homem.

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2 comentários:

Unknown disse...

Três quartos da população americana está favorável à retirada do Afeganistão. Excelente sumário Nelson. Noto que em geral os americanos não têm a capacidade de pensar pelo lado dos cidadãos nos países em que marcam presença. Transplante artificial de culturas não funciona.

Unknown disse...

Carlos von Mühlen.