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segunda-feira, 11 de março de 2013

Chávez tinha "visão binária do mundo"

O ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez "tinha uma visão binária do mundo", observa o escritor e historiador mexicano Enrique Krause. Via o mundo dividido entre amigos e inimigos, chavistas e pityankees, pobres e elites, patriotas e traidores". Sua vocação para a reforma social foi comprometida por "uma anacrônica admiração do modelo cubano e pela cega veneração ao caudilho eterno [Fidel Castro], a quem muitas vezes chamou de pai".

Em artigo publicado no jornal espanhol El País, Um amanhecer diferente para a Venezuela, Krause acrescentou: "Nenhuma democracia prospera onde há um homem absolutamente necessário, imprescindível, único e providencial, que reclama para si a propriedade privada dos recursos públicos, das instituições públicas, do discurso público, da verdade pública".

"O povo que tolera ou aplaude essa delegação absoluta de poder a uma pessoa", prossegue o raciocínio do escritor mexicano, "abdica de sua liberdade e condena a si mesmo a uma adolescência cívica porque essa delegação supõe a renúncia à responsabilidade sobre seu próprio destino".

Para Krauze, "o dano maior é a discórdia dentro da família venezuelana". Ele cita como exemplo "o ódio induzido do microfone do poder contra um amplo setor da população que dissentia desse poder. O ódio dos discursos, das faixas e cartazes, dos punhos cerrados, o ódio dos arrogante porta-vozes do regime em programas de rádio e televisão. O ódio das redes sociais infestadas por insultos, calúnias, mentiras, teorias conspiratórias, desqualificações e preconceitos. O ódio do fanatismo ideológico e do rancor social. O ódio que se fecha à razão e é impermeável à tolerância. Essa é a chaga histórica que deixa o chavismo".

Com a tradição caudilhista e a religiosidade da venezuela, o historiador acredita que a "santificação" de Chávez possa ser mais profunda e permanente do que a de Evita Perón na Argentina.

Ao morrer prematuramente aos 58 anos, Hugo Chávez alcançou a imortalidade, comenta Krauze: "Na alma de muitos de seus compatriotas (e de não poucos simpatizantes na América Latina) vai dividir a glória com o Libertador" Simón Bolívar.

Quando o longo funeral terminar e passar a eleição presidencial de 14 de abril, chavistas e não chavistas terão de enfrentar a situação econômica da Venezuela. Apesar de receber US$ 800 bilhões com petróleo na era Chávez, o crescimento foi um dos mais baixos do continente.

O déficit público chega a US$ 70 bilhões. Um dólar vale 6,30 bolívares no câmbio oficial e 23 no mercado negro. Há escassez de divisas (moedas fortes) e racionamento de energia no país com as maiores reservas mundiais de petróleo. A inflação estava acima de 20% ao ano antes da recente macrodesvalorização da moeda. Deve passar de 30%.

"Há desabastecimento de 20% dos produtos nos supermercados por causa da queda na capacidade produtiva, êxodo de profissionais de classe média e crônica falta de investimentos", nota Krauze.

Talvez a explicação esteja no setor de petróleo. Em 1998, quando os preços internacionais caíram para cerca de US$ 10 o barril por causa da crise econômica asiática e Chávez foi eleito presidente pela primeira vez, a Venezuela produzia 3,3 milhões de barris diários e exportava 2,7 milhões.

Agora, a produção caiu para 2,4 milhões de barris e, pelos dados citados pelo mexicano, só os 900 mil barris diários exportados para os Estados Unidos, o "odiado Império", seriam efetivamente pagos.

Cerca de 800 mil barris são reservados ao consumo interno. A Venezuela tem a gasolina mais barata do mundo. Custa R$ 0,03 por litro. Outros 100 mil servem para pagar a importação de gasolina por falta de capacidade de refino; 300 mil pagam créditos e produtos importados da China; 300 mil vão para países da América Central e do Caribe através da Petrocaribe, subsidiária da PdVSA (Petróleos de Venezuela); e 100 mil vão para Cuba em troca do envio de médicos, professores e policiais cubanos.

Sem sombra do carisma do presidente morto, Maduro precisa apresentar resultados na economia. Caso contrário, logo será acusado de não estar à altura do líder. "Com Chávez, não seria assim", "Chávez já teria resolvido" e outras frases nesse sentido serão um teste permanente.

Otimista, Krauze aposta na reconciliação da Venezuela pós-Chávez e na mudança do regime cubano para que todos os países da América Latina oscilem então entre "regimes de esquerda social-democrata e governos a favor de economia mais aberta e liberal".

Talvez, conclui, o século 21 enterre o "caudilhismo militarista" e o "redencionismo iluminado" para que a América Latina possa viver "um amanhecer plenamente democrático".

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Começa a era do chavismo sem Chávez

Ao adiar a posse do presidente Hugo Chávez para mais um mandato de seis anos que dificilmente ele terá condições de cumprir, o Supremo Tribunal da Venezuela, dominado por aliados do caudilho, inaugura a era do chavismo sem Chávez.

Depois de ser submetido, em Cuba, à quarta operação para combater um câncer, o presidente venezuelano teve uma infecção respiratória. Desde a descoberta da doença, a saúde de Chávez é um segredo de Estado.

Para o tribunal, a ausência do presidente do país no dia marcado para a posse, 10 de janeiro, não é um impedimento constitucional, mas juristas independentes e ligados à oposição consideram a medida um golpe de Estado branco.

A Constituição da República Bolivarista da Venezuela prevê a realização de nova eleição presidencial se o presidente não puder tomar posse ou não tiver condições de governar durante os primeiros quatro anos de mandato. Mas a lei da Venezuela nos últimos anos é a vontade de Chávez. Seu regime se considera revolucionário e, portanto, acima da lei.

Como na Argentina, onde a sombra o coronel Juan Domingo Perón paira sobre a política 39 anos depois de sua morte, o chavismo vai sobreviver a Chávez como uma força radical e divisiva na política venezuelana. A exemplo da Argentina, a Venezuela pode ser governada por um cadáver.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Chávez vence referendo sobre reeleição ilimitada

A Comissão Nacional Eleitoral da Venezuela acaba de anunciar que o sim venceu o referendo sobre a reeleição sem limites do presidente da República e de outros cargos eletivos. Com 54% dos votos apurados até agora, o sim teria uma vantagem irreversível.

É uma vitória do presidente Hugo Chávez, que já manifestou a intenção de ficar no poder até 2030 para levar adiante sua revolução bolivarista e implantar o que chama de "socialismo do século 21".

O caudilho venezuelano acaba de conquistar o direito de continuar na presidência, desde que continue ganhando eleições. Em 10 anos de governo, Chávez só perdeu o referendo constitucional do final de 2007, que previa a reeleição sem limites e mudava o regime de propriedade, na marcha para o socialismo.

Chávez é um político caciquista e autoritário, com todas as características do cesarismo ou bonapartismo: um chefe militar com indiscutível apelo popular, um líder de massas carismático, mas com um viés claramente autoritário e militarista. Não tolera a dissidência. Trata adversários políticos como inimigos. E alimenta um culto da sua personalidade.

Suas políticas sociais promoveram a inclusão de milhões de venezuelanos, o que já é uma revolução. Mas, ao abalar as estruturas constitucionais do país, mudando repetidas vezes as regras do jogo, inclusive a Constituição de 1999, base das primeiras reformas chavistas, o caudilho não cria instituições que consolidem e tornem permanentes as reformas socializantes que propõem.

Com seu narcisismo exacerbado, Chávez acredita que a revolução bolivarista depende dele. É ele. O comandante fica.

sábado, 10 de novembro de 2007

Rei da Espanha manda Chávez calar a boca

O rei Juan Carlos, da Espanha, mandou o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, calar a boca no encerramento da 17ª Conferência de Cúpula Ibero-Americana, em Santiago do Chile.

Na última sessão plenária da reunião de cúpula, Chávez chamou o ex-primeiro-ministro conservador espanhol José María Aznar de fascista. Visivelmente irritado, o atual o primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, declarou que Aznar fora eleito democraticamente duas vezes para governar a Espanha.

Em seu pronunciamento, Chávez contou o diálogo travado com Aznar quando ele visitou a Venezuela em 2002, e concluiu: "Uma serpente é mais humana do que um fascista ou um racista; un tigre é mais humano do que um fascista ou um racista".

Ao responder, Rodríguez Zapatero exigiu respeito: "Pode-se estar em lados opostos de uma posição ideológica, e não serei eu que estarei perto das idéias de Aznar, mas foi eleito pelos espanhóis e exijo respeito".

Mesmo com o microfone fechado, o caudilho venezuelano continuou atacando Aznar, que não estava presente, provocando a ira real. Juan Carlos reagiu: "Por que não te calas?"

A presidente do Chile, Michelle Bachelet, interveio, pedindo que não houvesse discussões bilaterais.

Pouco depois, foi a vez do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, aliado de Chávez, de acusar o embaixador da Espanha e empresas espanholas de lutarem contra sua candidatura. Para manifestar seu desagrado, o rei se retirou da sessão, mas depois voltou.

Mais tarde, o vice-presidente de Cuba, Carlos Lage, apoiou o direito de Chávez de "se defender", alegando que Aznar atacou "a dignidade da Venezuela" em diversas ocasiões. Na sua opinião, não se deve interpretar "o direito da Venezuela de se defender como um ataque ao rei, ao governo da Espanha ou ao povo espanhol".

Depois da reunião, o primeiro-ministro espanhol considerou inaceitável o comportamento do presidente venezuelano: "Espero que seja a última vez; espero que seja a última vez, porque construir un diálogo democrático é, antes de tudo, construir o respeito".

Aznar telefonou ao rei e a Rodríguez Zapatero para agradecer por suas intervenções. Mas o coordenador-geral da Esquerda Unida, Gaspar Llamazares, lembrou que o ex-primeiro-ministro apoiou o golpe de abril de 2002 contra Chávez. Foi o único líder internacional, além de seu aliado, o presidente dos Estados Unidos, George Walker Bush, a reconhecer o governo golpista liderado pelo dirigente empresarial Pedro Carmona.

Confira aqui o bate-boca entre o rei e o caudilho.

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Argentina entre a civilização e a barbárie

BUENOS AIRES - O eterno dilema argentino entre a civilização e a barbárie é o tema de um novo livro. Mas em El Dilema Argentino, a socióloga Maristella Svampa tenta na verdade tentar fugir desta encruzilhada em que Domingo Faustino Sarmiento colocou a nação argentina no século 19 com o livro Civilización y Barbarie, escrito e publicado no exílio no Chile durante a guerra contra Rosas, em 1845.

Vinte anos depois, ele seria presidente. Seu livro mais famoso é Facundo, que descrevia um caudilho provinciano de La Rioja, Juan Facundo Quiroga. Na verdade, era uma crítica ao caudilho dos caudilhos, o ditador Juan Manuel de Rosas, e ao caudilhismo de modo geral. O ex-presidente Carlos Menem, que é de La Rioja, onde foi governador, usava suíças largas, imitando Facundo.

Sarmiento via os caudilhos provinciais, os 'federales' de Rosas, como um exemplo daquela barbárie que foi a conquista do Sul do país, em caravanas onde o capitão tinha direito de vida e morte sobre seu rebanho humano.

À noite, os carroções se organizavam em círculos, sempre temendo os ataques dos índios, o que impunha uma cultura militarista, onde valia a lei do mais forte. Estaria aí a origem do autoritarismo argentino, que levaria a mais de meio século de golpes e instabilidade, de 1930 a 1989, quando Menem, um peronista, convidou o maior grupo empresarial da Argentina a indicar o ministro da Economia.

Sarmiento era um liberal bonaerense de tradição européia. Sonhava com um país diferente. Criou um dilema que até hoje atormenta a alma argentina.

Agora, Maristella acredita que é preciso fugir do dilema sarmentiano, que sempre se renova, como recentemente, nos conflitos entre diferentes facções peronistas quando os restos mortais do general Juan Domingo Perón eram levados para um mausoléu nos arredores de Buenos Aires.

Do conflito entre os federais de Rosas e os unitários, que sonhavam em introduzir um liberalismo europeu na Argentina, à guerra suja de 1976-82 e aos conflitos entre peronistas e antiperonistas, e entre peronistas e peronistas, a tragédia argentina se renova. Mas Maristella Svampa acha que chegou a hora de quebrar o molde.