O maior grupo guerrilheiro colombiano, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), pediram ao governo a inclusão do Exército de Libertação Nacional (ELN) nas negociações de paz em andamento em Havana há dois anos e meio, informa a televisão pública britânica BBC. Para os críticos do processo de paz, é mais uma jogada para ganhar tempo.
Na segunda-feira, o presidente Juan Manuel Santos revelou ter facilitado o contato entre os dois maiores grupos guerrilheiros do continente. O governo negocia secretamente com o ELN há mais de um ano, sob pressão do ex-presidente Álvaro Uribe, que acusa o sucessor de "rendição".
"Acreditamos que não apenas para nós como movimento revolucionário é necessário e urgente que o ELN seja trazido para as negociações de paz. Também é necessário para o governo e o povo colombianos. É uma medida prática e correta a tomar", declarou em carta o comandante em chefe das FARC, Rodrigo Londoño Echeverri, que usa os nomes de guerra Timoleón Jiménez ou Timochenko.
Para o líder do ELN, Nicolás Rodríguez Bautista, de nome de guerra Gabino, "temos acordo em cerca de 80% da agenda, faltam uns 20% que ainda não foram colocados na mesa".
Uma questão central que emperra o processo de paz é se os guerrilheiros receberão uma anistia ampla ou terão de responder pelos crimes cometidos. "É um absurdo pensar que teremos de cumprir sentenças de prisão por buscar uma solução política para o conflito", argumentou Gabino em entrevista à agência de notícias Reuters.
Tanto as FARC como o ELN foram criados oficialmente em 1964, depois de um período da história da Colômbia conhecido como La Violencia, deflagrado pelo assassinato do candidato liberal à Presidência Jorge Eliécer Gaitán, em 9 de abril de 1948. Entre 200 a 300 mil pessoas foram mortas e a esquerda foi para a clandestinidade. As FARC eram o braço armado do proscrito Partido Comunista Colombiano, de orientação soviética, enquanto o ELN foi inspirado pela revolução cubana.
Depois do ataque das FARC que matou 11 soldados colombianos na província de Cauca, em 15 de abril de 2015, o ex-comandante da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), de El Salvador, Joaquín Villalobos publicou artigo no jornal espanhol El País deplorando a ação da guerrilha colombiana como um "autogolpe".
"O ataque a Cauca foi militarmente covarde e politicamente torpe. Foi na realidade um autogolpe. O rechaço da opinião pública colombiana às FARC é enorme, a ponto de tornar extremamente difícil para o governo negociar em Havana. Com esse tipo de ataques, a insurgência põe em risco o único caminho para sair da guerra e entrar na política", adverte Villalobos.
Outro erro grave, na sua opinião, foi o momento escolhido para o ataque: "Como ocorreu às FARC realizar esse ataque poucas horas depois de Obama anunciar a intenção de tirar Cuba da lista de países que apoiam o terrorismo? Como não pensaram nas implicações políticas, quando 40 de seus dirigentes vivem abertamente em Havana?"
O ex-comandante da FMLN insiste em que a guerrilha só perdeu com o ataque: "Matar 11 militares a esta altura do processo de paz, rompendo com a própria palavra empenhada [num cessar-fogo unilateral declarado em dezembro de 2014], não modifica a correlação de forças em seu favor, pelo contrário, os debilita, diminui sua credibilidade, aumenta a impopularidade, trai o apoio de Cuba à paz, os isola mais internacionalmente, complica os esforços do governo colombiano para inibir ações no Tribunal Penal Internacional (TPI) e dificulta o cenário político, que é agora infinitamente mais importante do que os tiros. O futuro é da política e na política contam credibilidade, apoio popular, alianças e capacidade de comunicação."
Não há alternativa, alerta o ex-comandante salvadorenho: "Por acaso, as FARC e o ELN acreditam que se continuarem a guerra haverá uma revolução na Colômbia? Creem que poderão formar um exército que derrotará as Forças Armadas? Milhões de latino-americanos votaram em governos e forças de esquerda em todos os países, enquanto os Estados Unidos e Cuba estão encerrando o conflito." A Guerra Fria na América Latina acabou.
"Neste contexto", conclui Villalobos, hoje estrategista político, "a persistência das guerrilhas colombianas em continuar a luta armada as converte em forças reacionárias que ajudam a encarnar o medo da esquerda e no principal obstáculo para que ela avance na Colômbia. Nenhuma barbaridade sofrida ou ocorrida no passado justifica ser politicamente tão torpe e continuar armado e matando. Barbaridades iguais ou piores aconteceram em países onde hoje governam as esquerdas. O processo de paz a esta altura é um caminho sem retorno, pretender voltar ao conflito é um suicídio, o sensato é acelerá-lo. Tanto as FARC como o ELN deveriam se dar conta de que agora matar ou morrer já não lhes serve para nada."
Este é o blog do jornalista Nelson Franco Jobim, Mestre em Relações Internacionais pela London School of Economics, ex-correspondente do Jornal do Brasil em Londres, ex-editor internacional do Jornal da Globo, do Jornal Nacional e da TV Brasil, ex-professor de jornalismo e de relações internacionais na UniverCidade, no Rio de Janeiro. Todos os comentários, críticas e sugestões são bem-vindos, mas não serão publicadas mensagens discriminatórias, racistas, sexistas ou com ofensas pessoais.
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quinta-feira, 14 de maio de 2015
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
"FARC são clube de bandidos e traficantes"
As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) são um grupo guerrilheiro decadente que não passa hoje de "um clube de bandidos e traficantes", acusa um dos principais líderes guerrilheiros da América Latina, Joaquín Villalobos, ex-comandante da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), de El Salvador.
Leia o artigo publicado no jornal argentino La Nación.
Leia o artigo publicado no jornal argentino La Nación.
sábado, 29 de setembro de 2007
América Latina enfrenta desafio da criminalidade
A maior ameaça à segurança da América Latina vem de uma subclasse social de marginais que travam uma guerra difusa, de baixa intensidade, mas cada vez mais violenta, contra qualquer tentativa do Estado de enquadrá-los.
Durante a Guerra Fria, observa o ex-comandante da guerrilha salvadorenha Joaquín Villalobos em artigo no jornal espanhol El País, haviana região um conflito com o terrorismo de Estados ditadoriais, de um lado, e a violência revolucionária da guerrilha, do outro.
Para entender o conflito atual, Villalobos recorre ao livro New and Old Wars (Novas e Velhas Guerras), da socióloga Mary Kaldor, professora da London School of Economics. Os novos conflitos no mundo pós-Guerra Fria são uma "mistura de guerra, crime e violações de direitos humanos".
O conceito serve para as guerras na antiga Iugoslávia, em Ruanda, no Congo, no Afeganistão, no Iraque, na Al Caeda e nos conflitos sociais latino-americanos. Nessa guerra pós-moderna, a violência é fragmentada, multidirecional, sem regras nem propósito claro, e sustentada por uma economia informal e criminosa, constata o ex-comandante da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), de El Salvador, na América Central.
É algo assim como a guerra de todos contra, o mundo anárquico descrito por Thomas Hobbes no clássico Leviatã, em que a vida seria "detestável, brutal e curta".
Como resultado, não há a vitória de um grupo, acrescenta Villalobos, "mas a fragmentação da sociedade e a privatização da violência, com a perda do monopólio da violência pelo Estado. É uma luta entre o mundo cosmopolita da tolerância e do civismo contra extremismos violentos movidos por interesses religiosos, étnicos, nacionalistas ou simplesmente delinqüente".
Na América Latina, não há conflitos étnicos e religiosos, prossegue o ex-líder guerrilheiro salvadorenho, mas há o que pode ser descrito como "uma guerra civil continental contra o crime organizado, as gangues urbanas, a delinqüência e a violência social. A produção e o tráfico de drogas estão ligados à globalização cosmopolita, mas nos nossos países geram uma fragumentação social. Diversos grupos armados tentam cooptar e corromper as instituições, dominar territórios e controlar a população, os mercados e as estradas. Este fenômeno supera en extensão às insurgências políticas do tempo da Guerra Fria e, em distintas proporções, afeta a todos os países".
Esse conflito se desenvolve em terra, mar e ar, "tentando recuperar o controle de fronteiras, mares, instituições, costas, cidades e selvas que tenham caído nas mãos dos delinqüentes", nota o ex-guerrilheiro, que hoje assessora o governo mexicano no combate ao tráfico de drogas.
"O Brasil está em guerra contra quadrilhas que dominam grandes zonas urbanas. Guatemala e Honduras estão fragmentadas por máfias poderosas. A costa atlântica da Nicarágua é um narcoterritório. A Colômbia enfrenta guerrilheiros de esquerda e paramilitares de direita que agora são narcotraficantes. Em El Salvador as gangues superam em número a guerrilha dos anos 80. O México tem seis estados em situação de emergência, sob intervenção de forças federais. E o maior perigo da transição cubana não é uma guerra civil mas impedir que o crime organizado tome o controle da ilha", adverte Villalobos.
A violência política era um instrumento da transformação social, da luta por liberdades duramente conquistadas. Hoje a lumpenização da violência tira a legitimidade do uso da força na luta política, entende o ex-guerrilheiro. Restam alguns grupos em que, na opinião de Villalobos, "velhos e frustrados ideólogos de esquerda" promovem uma violência executada por jovens ativistas que atuam com a violência dos criminosos.
Ao estimular a violência nas ruas e deslegitimar as democracias nascentes, essa esquerda pseudo-revolucionária multiplica e impunidade e a insegurança. A desordem generalizada ajuda as gangues de criminosos e coloca o clamor por segurança acima das reivindicações sociais. É a receita, teme Villalobos, para a volta dos autoritarismos linha-dura.
"A esquerda necessita hoje mais do que nunca de paciência, paz e legalidade", conclui o ex-comandante da FMLN. "O romantismo guerrilheiro da velha esquerda agora é reacionário. O maior perigo para os novos 'combatentes' da esquerda não é morrer como mártires ou heróis, é acabar como mafiosos ou terroristas."
Durante a Guerra Fria, observa o ex-comandante da guerrilha salvadorenha Joaquín Villalobos em artigo no jornal espanhol El País, haviana região um conflito com o terrorismo de Estados ditadoriais, de um lado, e a violência revolucionária da guerrilha, do outro.
Para entender o conflito atual, Villalobos recorre ao livro New and Old Wars (Novas e Velhas Guerras), da socióloga Mary Kaldor, professora da London School of Economics. Os novos conflitos no mundo pós-Guerra Fria são uma "mistura de guerra, crime e violações de direitos humanos".
O conceito serve para as guerras na antiga Iugoslávia, em Ruanda, no Congo, no Afeganistão, no Iraque, na Al Caeda e nos conflitos sociais latino-americanos. Nessa guerra pós-moderna, a violência é fragmentada, multidirecional, sem regras nem propósito claro, e sustentada por uma economia informal e criminosa, constata o ex-comandante da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), de El Salvador, na América Central.
É algo assim como a guerra de todos contra, o mundo anárquico descrito por Thomas Hobbes no clássico Leviatã, em que a vida seria "detestável, brutal e curta".
Como resultado, não há a vitória de um grupo, acrescenta Villalobos, "mas a fragmentação da sociedade e a privatização da violência, com a perda do monopólio da violência pelo Estado. É uma luta entre o mundo cosmopolita da tolerância e do civismo contra extremismos violentos movidos por interesses religiosos, étnicos, nacionalistas ou simplesmente delinqüente".
Na América Latina, não há conflitos étnicos e religiosos, prossegue o ex-líder guerrilheiro salvadorenho, mas há o que pode ser descrito como "uma guerra civil continental contra o crime organizado, as gangues urbanas, a delinqüência e a violência social. A produção e o tráfico de drogas estão ligados à globalização cosmopolita, mas nos nossos países geram uma fragumentação social. Diversos grupos armados tentam cooptar e corromper as instituições, dominar territórios e controlar a população, os mercados e as estradas. Este fenômeno supera en extensão às insurgências políticas do tempo da Guerra Fria e, em distintas proporções, afeta a todos os países".
Esse conflito se desenvolve em terra, mar e ar, "tentando recuperar o controle de fronteiras, mares, instituições, costas, cidades e selvas que tenham caído nas mãos dos delinqüentes", nota o ex-guerrilheiro, que hoje assessora o governo mexicano no combate ao tráfico de drogas.
"O Brasil está em guerra contra quadrilhas que dominam grandes zonas urbanas. Guatemala e Honduras estão fragmentadas por máfias poderosas. A costa atlântica da Nicarágua é um narcoterritório. A Colômbia enfrenta guerrilheiros de esquerda e paramilitares de direita que agora são narcotraficantes. Em El Salvador as gangues superam em número a guerrilha dos anos 80. O México tem seis estados em situação de emergência, sob intervenção de forças federais. E o maior perigo da transição cubana não é uma guerra civil mas impedir que o crime organizado tome o controle da ilha", adverte Villalobos.
A violência política era um instrumento da transformação social, da luta por liberdades duramente conquistadas. Hoje a lumpenização da violência tira a legitimidade do uso da força na luta política, entende o ex-guerrilheiro. Restam alguns grupos em que, na opinião de Villalobos, "velhos e frustrados ideólogos de esquerda" promovem uma violência executada por jovens ativistas que atuam com a violência dos criminosos.
Ao estimular a violência nas ruas e deslegitimar as democracias nascentes, essa esquerda pseudo-revolucionária multiplica e impunidade e a insegurança. A desordem generalizada ajuda as gangues de criminosos e coloca o clamor por segurança acima das reivindicações sociais. É a receita, teme Villalobos, para a volta dos autoritarismos linha-dura.
"A esquerda necessita hoje mais do que nunca de paciência, paz e legalidade", conclui o ex-comandante da FMLN. "O romantismo guerrilheiro da velha esquerda agora é reacionário. O maior perigo para os novos 'combatentes' da esquerda não é morrer como mártires ou heróis, é acabar como mafiosos ou terroristas."
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terça-feira, 5 de junho de 2007
Villalobos: "Chávez quer comprar uma revolução"
Os pais costumam castigar seus filhos proibindo-os de ver televisão mas, em Cuba, ameaçam obrigar os filhos a assistir à TV estatal. Ao fechar a Radio Caracas Televisión (RCTV), o canal mais popular da Venezuela, e colocar em seu lugar a Televisora Venezolana Social (Teves), seguiu os dois exemplos, sugere o ex-comandante guerrilheiro salvadorenho Joaquín Villalobos, da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), hoje consultor para solução de conflitos internacionais.
Para Villalobos, "Chávez cometeu um grave erro ao fechar um canal de oposição estava no ar há meio século. Goste ou não, este não foi um ataque ao poder da mídia capitalista mas um golpe na identidade cultural venezuelana que terá severas implicações para seu governo. Pretender substituir as telenovelas e o entretenimento dos pobres por uma patética programação 'revolucionária' é tão grave quanto deixá-los sem comida".
A origem do problema de Chávez, entende o ex-comandante, "é crer que fez uma revolução, quando simplesmente ganhou algumas eleições, e isto não ocorreu por acertos próprios mas sim pelos erros e a soberba de uma oposição que tem muitas jóias e pouco povo. Esta o ajudou a fazer uma maioria eleitoral que lhe permitiu controlar as instituições e mudar algumas regras, mas não lhe dá uma correlação suficiente para impor uma virada ideológica drástica como a que está pretendendo".
Na Venezuela, acrescenta Villalobos em artigo no jornal espanhol El País, não houve uma ruptura revolucionária como em Cuba e na Nicarágua, onde a democracia não tinha antecedentes: "Em Cuba, a mudança foi violenta e total, todas as instituições foram refundadas e até hoje não há oposição nem eleições nem liberdade de imprensa nem propriedade privada. Na Nicarágua, a mudança foi igualmente violenta mas ainda que maltratadas sobreviveram a liberdade de imprensa, a propriedade privada, as eleições e a oposição. A Venezuela poderá ter uma crise de polarização extrema ou um período prolongado de agitação social, mas não uma revolução. Quando isto ocorre, a violência política toma preeminência primeiro como rebelião e logo como contra-revolução."
Há quem suspeite que o maior risco é para a democracia na Venezuela. Quando Chávez deixará o poder? Sairá pacificamente? Já fala em ficar na presidência até 2031.
Mas a Venezuela é uma democracia desde 1958. Os golpistas que tentaram derrubar Chávez em abril de 2002 ignoraram isso, observa Villalobos: "Derrubar governos não é fácil e tampouco o é modificar radicalmente e a frio os pilares do sistema preexistente. Uma ruptura revolucionária cria uma situação de grande exaltação social que, para o bem ou para o mal, abre espaços para mudar muitas coisas, inclusive questões ideológicas e culturais muito sensíveis na sociedade; no entanto, isso é o mais difícil de modificar".
Essa é uma questão central: as revoluções não produzem um novo homem e reproduzem os vícios e privilégios do antigo regime. Na Rússia, a burocracia e a polícia política vêm do tempo dos czares, e deram no presidente Vladimir Putin, outro autocrata que usa o nacionalismo energético para recuperar o status de potência mundial perdido com o colapso da União Soviética, em 1991.
Villalobos nota ainda que "as revoluções anticapitalistas emergiram mais de ditaduras do que da pobreza. Na Venezuela, não havia ditadura e a pobreza não foi importante na ascensão de Chávez, embora agora o seja na sua defesa. Toda revolução é austera e isto os venezuelanos não conhecem nem de direita nem de esquerda. A Venezuela não é um país capitalista industrial e industrioso, é rentista e consumista. Chávez está fortalecendo o papel econômico do Estado, redistribuindo a renda do petróleo e formando novas elites via populismo, oportunidades de negócios e corrupção. Tudo isso não é novo, nem é revolução, nem é socialismo".
Em sua análise, o ex-comandante da guerrilha de El Salvador comenta ainda que "Chávez não tem um partido revolucionário mas uma estrutura política fragmentada composta por uma mescla ideológica diversa. À sua direita estão os militares, à esquerda uns intelectuais e em baixo uma base multicolorida". Transformar isto num partido político implica enfrentar a disputa interna dos dirigentes pela máquina, uma luta intestina que consumiu tantos movimentos populares.
"O chavismo fez algo positivo ao dar poder e identidade a milhões de venezuelanos que estavam excluídos, mas a coesão de sua estrutura política não está na ideologia nem na História, mas na renda do petróleo. Chávez tampouco tem um exército revolucionário, ao contrário, o Exército o derrotou duas vezes (1992 e 2002). A cumplicidade atual do Exército depende de compras de armamento que não são preparação para o combate mas corrupção lucrativa, e são precisamente esses privilégios que fecham a porta para as idéias revolucionárias.
"O Exército da Venezuela não matará nem morrerá por Chávez. Fidel Castro sobreviveu a incontáveis atentados, Ortega dirigiu uma insurreição triunfante e Evo Morales saltou das barricadas para a presidência da Bolívia. Chávez, pelo contrário, vende petróleo aos americanos, em duas ocasiões se rendeu sem combater e dorme com um exército inimigo. Isto o impulsiona a realizar provocações que lhe permitam obter uma credencial revolucionária, pelo menos com um insulto de Bush. Os ataques o fortalecem e a tolerância o debilita.
"Urge que seus inimigos externos o ajudem a ocultar a corrupção de seus funcionários, a incompetência de seu governo, a divisão em suas filas e a insegurança nas ruas de seu país. Com o fechamento da Radio Caracas Televisión, reverte contra si o processo de acumulação de forças e revitaliza uma oposição que estava desmoralizada. Quem sabe Chávez possa fazer mais mudanças na Venezuela, mas nunca poderá eliminar as eleições, e nestas não existem nem as maiorias inamovíveis, nem alianças eternas, nem fraudes insuperáveis. O dinheiro do petróleo pode servir para Chávez fazer muitas coisas, mas jamais poderá comprar uma revolução", conclui Villalobos, negando assim as pretensões revolucionárias de Chávez.
Villalobos é o guerrilheiro heróico que se refugiou em matas e montanhas, e sobreviveu a uma ditadura militar fascista. Essa glória o caudilho venezuelano não tem para reivindicar, como faz, a herança de Fidel Castro. Mas Chávez quer fazer uma revolução social. O dinheiro do petróleo ajuda a universalizar os direitos fundamentais da cidadania, mas vai não mudar a cultura nem a estrutura social venezuelana, não sem um modelo de desenvolvimento, um projeto, um partido político ou movimento organizado.
Como observou o jornalista britânico Richard Bourne, autor de uma biografia do presidente Lula, é provável que, "como Perón, Chávez deixe depois de si um movimento".
Para Villalobos, "Chávez cometeu um grave erro ao fechar um canal de oposição estava no ar há meio século. Goste ou não, este não foi um ataque ao poder da mídia capitalista mas um golpe na identidade cultural venezuelana que terá severas implicações para seu governo. Pretender substituir as telenovelas e o entretenimento dos pobres por uma patética programação 'revolucionária' é tão grave quanto deixá-los sem comida".
A origem do problema de Chávez, entende o ex-comandante, "é crer que fez uma revolução, quando simplesmente ganhou algumas eleições, e isto não ocorreu por acertos próprios mas sim pelos erros e a soberba de uma oposição que tem muitas jóias e pouco povo. Esta o ajudou a fazer uma maioria eleitoral que lhe permitiu controlar as instituições e mudar algumas regras, mas não lhe dá uma correlação suficiente para impor uma virada ideológica drástica como a que está pretendendo".
Na Venezuela, acrescenta Villalobos em artigo no jornal espanhol El País, não houve uma ruptura revolucionária como em Cuba e na Nicarágua, onde a democracia não tinha antecedentes: "Em Cuba, a mudança foi violenta e total, todas as instituições foram refundadas e até hoje não há oposição nem eleições nem liberdade de imprensa nem propriedade privada. Na Nicarágua, a mudança foi igualmente violenta mas ainda que maltratadas sobreviveram a liberdade de imprensa, a propriedade privada, as eleições e a oposição. A Venezuela poderá ter uma crise de polarização extrema ou um período prolongado de agitação social, mas não uma revolução. Quando isto ocorre, a violência política toma preeminência primeiro como rebelião e logo como contra-revolução."
Há quem suspeite que o maior risco é para a democracia na Venezuela. Quando Chávez deixará o poder? Sairá pacificamente? Já fala em ficar na presidência até 2031.
Mas a Venezuela é uma democracia desde 1958. Os golpistas que tentaram derrubar Chávez em abril de 2002 ignoraram isso, observa Villalobos: "Derrubar governos não é fácil e tampouco o é modificar radicalmente e a frio os pilares do sistema preexistente. Uma ruptura revolucionária cria uma situação de grande exaltação social que, para o bem ou para o mal, abre espaços para mudar muitas coisas, inclusive questões ideológicas e culturais muito sensíveis na sociedade; no entanto, isso é o mais difícil de modificar".
Essa é uma questão central: as revoluções não produzem um novo homem e reproduzem os vícios e privilégios do antigo regime. Na Rússia, a burocracia e a polícia política vêm do tempo dos czares, e deram no presidente Vladimir Putin, outro autocrata que usa o nacionalismo energético para recuperar o status de potência mundial perdido com o colapso da União Soviética, em 1991.
Villalobos nota ainda que "as revoluções anticapitalistas emergiram mais de ditaduras do que da pobreza. Na Venezuela, não havia ditadura e a pobreza não foi importante na ascensão de Chávez, embora agora o seja na sua defesa. Toda revolução é austera e isto os venezuelanos não conhecem nem de direita nem de esquerda. A Venezuela não é um país capitalista industrial e industrioso, é rentista e consumista. Chávez está fortalecendo o papel econômico do Estado, redistribuindo a renda do petróleo e formando novas elites via populismo, oportunidades de negócios e corrupção. Tudo isso não é novo, nem é revolução, nem é socialismo".
Em sua análise, o ex-comandante da guerrilha de El Salvador comenta ainda que "Chávez não tem um partido revolucionário mas uma estrutura política fragmentada composta por uma mescla ideológica diversa. À sua direita estão os militares, à esquerda uns intelectuais e em baixo uma base multicolorida". Transformar isto num partido político implica enfrentar a disputa interna dos dirigentes pela máquina, uma luta intestina que consumiu tantos movimentos populares.
"O chavismo fez algo positivo ao dar poder e identidade a milhões de venezuelanos que estavam excluídos, mas a coesão de sua estrutura política não está na ideologia nem na História, mas na renda do petróleo. Chávez tampouco tem um exército revolucionário, ao contrário, o Exército o derrotou duas vezes (1992 e 2002). A cumplicidade atual do Exército depende de compras de armamento que não são preparação para o combate mas corrupção lucrativa, e são precisamente esses privilégios que fecham a porta para as idéias revolucionárias.
"O Exército da Venezuela não matará nem morrerá por Chávez. Fidel Castro sobreviveu a incontáveis atentados, Ortega dirigiu uma insurreição triunfante e Evo Morales saltou das barricadas para a presidência da Bolívia. Chávez, pelo contrário, vende petróleo aos americanos, em duas ocasiões se rendeu sem combater e dorme com um exército inimigo. Isto o impulsiona a realizar provocações que lhe permitam obter uma credencial revolucionária, pelo menos com um insulto de Bush. Os ataques o fortalecem e a tolerância o debilita.
"Urge que seus inimigos externos o ajudem a ocultar a corrupção de seus funcionários, a incompetência de seu governo, a divisão em suas filas e a insegurança nas ruas de seu país. Com o fechamento da Radio Caracas Televisión, reverte contra si o processo de acumulação de forças e revitaliza uma oposição que estava desmoralizada. Quem sabe Chávez possa fazer mais mudanças na Venezuela, mas nunca poderá eliminar as eleições, e nestas não existem nem as maiorias inamovíveis, nem alianças eternas, nem fraudes insuperáveis. O dinheiro do petróleo pode servir para Chávez fazer muitas coisas, mas jamais poderá comprar uma revolução", conclui Villalobos, negando assim as pretensões revolucionárias de Chávez.
Villalobos é o guerrilheiro heróico que se refugiou em matas e montanhas, e sobreviveu a uma ditadura militar fascista. Essa glória o caudilho venezuelano não tem para reivindicar, como faz, a herança de Fidel Castro. Mas Chávez quer fazer uma revolução social. O dinheiro do petróleo ajuda a universalizar os direitos fundamentais da cidadania, mas vai não mudar a cultura nem a estrutura social venezuelana, não sem um modelo de desenvolvimento, um projeto, um partido político ou movimento organizado.
Como observou o jornalista britânico Richard Bourne, autor de uma biografia do presidente Lula, é provável que, "como Perón, Chávez deixe depois de si um movimento".
terça-feira, 17 de abril de 2007
Cidadãos classe A x homens-bomba classe Z
Mais do que nunca, as guerras hoje criam situações políticas e sociais complexas. Só podem ser vencidas com um misto de tecnologia e sociologia, adverte um grande especialista, o ex-comandante guerrilheiro da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), Joaquín Villalobos, que lutou nos anos 70 e 80 contra ditaduras militares em El Salvador, na América Central.
No artigo Guerreiros sem Causa, publicado hoje no jornal espanhol El País, Villalobos afirma que "a guerra do Iraque se converteu num cenário dramático onde cidadãos classe A do mundo desenvolvido combatem homens-bomba classe Z de países pobres."
Seis anos depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, o ex-guerrilheiro salvadorenho acredita que os Estados Unidos caíram numa armadilha: "Não perceberam que era uma provocação para levar a uma reação desproporcional e agora estão presos numa guerra que não sabem como lutar e menos ainda como ganhar".
"Por mais tecnologia que se tenha", observa Villalobos, "no final, a infantaria deve ocupar o terreno". Os Rambos, que acabam cometendo ações criminosas, e soldados equipados para uma guerra entre galáxias não servem para atuar num cenário de miséria e fanatismo religioso.
Assim, além da tecnologia, os Exércitos modernos precisam da sociologia. "Para capturar bandidos isolados se necessita de uma investigação científica mas, quando a violência assume uma dimensão social, a batalha se trava sobretudo na arena política", acrescenta o ex-comandante da FMLN.
Na sua opinião, "a infantaria moderna requer trabalhadores sociais armados que saibam combater mas que sobretudo sejam capazes de interagir com o entorno social, político e cultural de seu teatro de operações. Só assim podem isolar o inimigo, só assim saberão como fazer sentir que sua presença é uma proteção e não uma ameaça, e só assim poderão se sentir lutando por uma causa pela qual valha a pena serem heróis."
No artigo Guerreiros sem Causa, publicado hoje no jornal espanhol El País, Villalobos afirma que "a guerra do Iraque se converteu num cenário dramático onde cidadãos classe A do mundo desenvolvido combatem homens-bomba classe Z de países pobres."
Seis anos depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, o ex-guerrilheiro salvadorenho acredita que os Estados Unidos caíram numa armadilha: "Não perceberam que era uma provocação para levar a uma reação desproporcional e agora estão presos numa guerra que não sabem como lutar e menos ainda como ganhar".
"Por mais tecnologia que se tenha", observa Villalobos, "no final, a infantaria deve ocupar o terreno". Os Rambos, que acabam cometendo ações criminosas, e soldados equipados para uma guerra entre galáxias não servem para atuar num cenário de miséria e fanatismo religioso.
Assim, além da tecnologia, os Exércitos modernos precisam da sociologia. "Para capturar bandidos isolados se necessita de uma investigação científica mas, quando a violência assume uma dimensão social, a batalha se trava sobretudo na arena política", acrescenta o ex-comandante da FMLN.
Na sua opinião, "a infantaria moderna requer trabalhadores sociais armados que saibam combater mas que sobretudo sejam capazes de interagir com o entorno social, político e cultural de seu teatro de operações. Só assim podem isolar o inimigo, só assim saberão como fazer sentir que sua presença é uma proteção e não uma ameaça, e só assim poderão se sentir lutando por uma causa pela qual valha a pena serem heróis."
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