Com 53,7% dos votos válidos, o ex-prefeito de San Salvador Nayib Bukele, de 37 anos, foi eleito ontem no primeiro turno presidente de El Salvador, um país pequeno da América Central.
Acaba assim o duopólio da conservadora Aliança Republicana Nacionalista (Arena) e da esquerdista Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), que se alternavam no poder desde o fim da Guerra Civil Salvadorenha (1980-92).
Em segundo lugar, ficou Carlos Calleja (Arena), com 31,6%. O candidato do governo, Hugo Martínez (FMLN), foi o terceiro, com 13,7%. Seus partidos representam os dois lados da guerra civil, em que mais de 80 mil morreram e mais de 1 milhão fugiram de casa.
Bukele foi prefeito da capital (2015-18) eleito pela FMLN. Ganhou fama de bom gestor ao recuperar o sinistro e tenebroso centro de San Salvador, tomado por gangues e criminosos. Em 2017 foi expulso do antigo movimento guerrilheiro sob a acusação de dividir e difamar o partido.
Para viabilizar sua candidatura, entrou para a Grande Aliança pela Unidade Nacional (Gana), um partido marcado por denúncias de corrupção. Em seus duelos com os partidos tradicionais e a mídia salvadorenha, conseguiu manter sua imagem impoluta. Ele é fã do presidente esquerdista do México, Andrés Manuel López Obrador.
"Fizemos história e viramos a página do pós-guerra", declarou Bukele ao festejar a vitória com seus eleitores. "Ganhamos no primeiro turno e somamos mais votos do que Arena e FMLN juntos. Ganhamos nos 14 departamentos do país."
Sua campanha se concentrou nas redes sociais. Teve como alvo sobretudo o eleitorado jovem que como ele, nascido em 1981, se tornou adulto depois do fim da guerra civil. Prometeu combater a violência e a miséria, os maiores problemas salvadorenhos.
Depois de dez anos no governo, pesaram contra a FMLN a corrupção, o fracasso no combate à criminalidade e o abandono das bandeiras tradicionais da esquerda como a luta contra o desemprego e a desigualdade social.
Com os três últimos presidentes sendo processados por corrupção, Bukele encarnou a mudança e a esperança de um governo mais digno e mais ativo. A esperança da Arena era que sua inimiga histórica, a FMLN, não fosse tão mal e forçasse a realização de um segundo turno, em março.
A derrota de Salvador Sánchez Cerén e da FMLN, apoiada pelo PT, isola ainda mais o ditador Nicolás Maduro. Sánchez Cerén foi um dos quatro chefes de Estado a participar em 10 de janeiro da posse de Maduro, contestada pelos Estados Unidos, 10 países da Europa e a maioria da América do Sul. Os outros foram os ditadores de Cuba, Miguel Díaz Canel, e da Nicarágua, Daniel Ortega, e o presidente da Bolívia, Evo Morales.
Ao comentar a crise na vizinha Nicarágua, onde o governo enfrenta desde abril uma revolta popular com mais de 400 mortes, Bukele comparou Ortega ao ditador Anastasio Somoza, deposto em 1979 pela Revolução Sandinista. Ortega era um dos nove comandantes da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), que tomou o poder naquela época.
Com apenas 11 deputados na Assembleia Nacional, de 82 cadeiras, o novo presidente terá de negociar com a Arena e a FMLN pelo menos até as eleições parlamentares de 2021. Na campanha, Bukele prometeu grandes obras de infraestrutura, uma ferrovia, um novo porto e um aeroporto, mas não disse como pretende financiá-los.
El Salvador tem um déficit orçamentário previsto pela agência de classificação de risco Stardard & Poor's para ficar em 2,7% do produto interno bruto neste ano, com a dívida pública em 66% do PIB, estimado pelo Fundo Monetário Internacional em US$ 25,8 bilhões no ano passado.
Este é o blog do jornalista Nelson Franco Jobim, Mestre em Relações Internacionais pela London School of Economics, ex-correspondente do Jornal do Brasil em Londres, ex-editor internacional do Jornal da Globo, do Jornal Nacional e da TV Brasil, ex-professor de jornalismo e de relações internacionais na UniverCidade, no Rio de Janeiro. Todos os comentários, críticas e sugestões são bem-vindos, mas não serão publicadas mensagens discriminatórias, racistas, sexistas ou com ofensas pessoais.
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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019
domingo, 3 de fevereiro de 2019
Ex-prefeito da capital deve acabar com 30 anos de duopólio em El Salvador
O ex-prefeito de San Salvador Nayib Bukele, de 37 anos, é o favorito na eleição presidencial de hoje em El Salvador, um país pobre da América Central. Sua vitória deve marcar o fim do duopólio entre a direitista Aliança Republicana Nacionalista (Arena) e a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN).
A Arena e a FMLN se alternam no poder desde o fim de uma guerra civil de 12 anos (1980-92) que matou mais de 80 mil pessoas e obrigou mais de 1 milhão a fugir de suas casas, com 500 mil refugiados e 550 deslocados internamente.
Cerca de 2,2 milhões de pessoas devem votar em mais de 1,5 mil seções eleitorais. Bukele representa a conservadora Grande Aliança pela Unidade Nacional (Gana). Seu maior adversário é Carlos Calleja, da Arena, um magnata de 42 anos dono de uma rede de supermercados.
Nayib Armando Bukele Ortez é político e empresário, representante da fábrica japonesa Yahama no país. Foi presidente da Câmara de Vereadores e prefeito de San Salvador, eleito pela FMLN, de onde foi expulso em outubro de 2017 sob a acusação de promover a divisão interna e difamar o partido.
Se as urnas confirmarem as pesquisas eleitorais, Bukele terá de fazer uma aliança com a Arena. Seu partido tem apenas 11 dos 84 deputados da Assembleia Nacional.
Seus desafios serão enormes: acabar com a miséria, que atinge pouco mais de 30% de seus 6,6 milhões de habitantes, e combater a violência de criminosos que importaram a guerra de gangues de grandes cidades americanas como Los Angeles.
El Salvador tem uma dívida externa superior a US$ 9,5 bilhões, uma renda média de US$ 4,8 mil por anos e um salário mínimo de US$ 300 por mês.
No ano passado, houve pelo menos 3.340 assassinatos em El Salvador, a maioria atribuída a gangues, que teriam 70 mil membros, 17 mil dos quais estão presos. Com um índice de homicídios de 51 mortes para cada 100 mil habitantes por ano, é um dos países mais violentos do mundo.
"O novo presidente precisa propor soluções ousadas para a segurança pública", comentou o professor Carlos Carcach, da Escola Superior de Economia e Negócios.
Outro desafio será reduzir a imigração ilegal para os Estados Unidos. O presidente Donald Trump ameaça cortar a ajuda se o fluxo de migrantes não diminuir. Em 2018, mais de 3 mil salvadorenhos se juntaram às caravanas que marcham a pé até os EUA.
A Arena e a FMLN se alternam no poder desde o fim de uma guerra civil de 12 anos (1980-92) que matou mais de 80 mil pessoas e obrigou mais de 1 milhão a fugir de suas casas, com 500 mil refugiados e 550 deslocados internamente.
Cerca de 2,2 milhões de pessoas devem votar em mais de 1,5 mil seções eleitorais. Bukele representa a conservadora Grande Aliança pela Unidade Nacional (Gana). Seu maior adversário é Carlos Calleja, da Arena, um magnata de 42 anos dono de uma rede de supermercados.
Nayib Armando Bukele Ortez é político e empresário, representante da fábrica japonesa Yahama no país. Foi presidente da Câmara de Vereadores e prefeito de San Salvador, eleito pela FMLN, de onde foi expulso em outubro de 2017 sob a acusação de promover a divisão interna e difamar o partido.
Se as urnas confirmarem as pesquisas eleitorais, Bukele terá de fazer uma aliança com a Arena. Seu partido tem apenas 11 dos 84 deputados da Assembleia Nacional.
Seus desafios serão enormes: acabar com a miséria, que atinge pouco mais de 30% de seus 6,6 milhões de habitantes, e combater a violência de criminosos que importaram a guerra de gangues de grandes cidades americanas como Los Angeles.
El Salvador tem uma dívida externa superior a US$ 9,5 bilhões, uma renda média de US$ 4,8 mil por anos e um salário mínimo de US$ 300 por mês.
No ano passado, houve pelo menos 3.340 assassinatos em El Salvador, a maioria atribuída a gangues, que teriam 70 mil membros, 17 mil dos quais estão presos. Com um índice de homicídios de 51 mortes para cada 100 mil habitantes por ano, é um dos países mais violentos do mundo.
"O novo presidente precisa propor soluções ousadas para a segurança pública", comentou o professor Carlos Carcach, da Escola Superior de Economia e Negócios.
Outro desafio será reduzir a imigração ilegal para os Estados Unidos. O presidente Donald Trump ameaça cortar a ajuda se o fluxo de migrantes não diminuir. Em 2018, mais de 3 mil salvadorenhos se juntaram às caravanas que marcham a pé até os EUA.
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sábado, 7 de novembro de 2009
El Salvador admite culpa pela morte de Dom Romero
Numa reviravolta histórica, o governo do presidente Mauricio Funes reconheceu a responsabilidade do Estado no assassinato do arcebispo de San Salvador, Dom Oscar Arnulfo Romero, por esquadrãos da morte durante a missa de domingo, em 24 de março de 1980.
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos recomendou ao governo salvadorenho que faça uma investigação policial completa, imparcial e efetiva para identificar, julgar e punir os responsáveis.
Na época, o principal suspeito era o grupo terrorista do major Roberto D'Abuisson, o principal líder dos grupos paramilitares e esquadrões da morte antes e durante a guerra civil salvadorenha.
Dom Romero fazia sermões em defesa dos direitos humanos quando aumentava a ação de grupos paramilitares de direita. Seu assassinato foi o estopim da guerra civil salvadorenha.
Até o acordo de paz patrocinado pelas Nações Unidas no fim da Guerra Fria, em 1992, cerca de 75 mil salvadorenhos foram mortos.
O atual presidente, Mauricio Funes, é o primeiro eleito pela Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN). Esse grupo guerrilheiro desafiou o Exército de El Salvador, que tinha o apoio dos Estados Unidos, na época sob a presidência de Ronald Reagan (1981-89).
Funes era jornalista, nunca pegou em armas e entrou para o partido há poucos anos, depois do acordo de paz.
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos recomendou ao governo salvadorenho que faça uma investigação policial completa, imparcial e efetiva para identificar, julgar e punir os responsáveis.
Na época, o principal suspeito era o grupo terrorista do major Roberto D'Abuisson, o principal líder dos grupos paramilitares e esquadrões da morte antes e durante a guerra civil salvadorenha.
Dom Romero fazia sermões em defesa dos direitos humanos quando aumentava a ação de grupos paramilitares de direita. Seu assassinato foi o estopim da guerra civil salvadorenha.
Até o acordo de paz patrocinado pelas Nações Unidas no fim da Guerra Fria, em 1992, cerca de 75 mil salvadorenhos foram mortos.
O atual presidente, Mauricio Funes, é o primeiro eleito pela Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN). Esse grupo guerrilheiro desafiou o Exército de El Salvador, que tinha o apoio dos Estados Unidos, na época sob a presidência de Ronald Reagan (1981-89).
Funes era jornalista, nunca pegou em armas e entrou para o partido há poucos anos, depois do acordo de paz.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
El Salvador enfrenta desafios da globalização
O primeiro presidente de esquerda a governar El Salvador, o jornalista Mauricio Funes, da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, que de 1980 a 1992 travou uma guerra civil contra os governos da época, tomou posse no dia 1º de junho, diante da presença do presidente Luiz Inacio Lula da Silva e de outros líderes latino-americanos.
Menor país da América Central (ou do istmo centro-americano, se as ilhas do Caribe foram consideradas parte do subcontinente) e único sem saída para o Atlântico, El Salvador tem a maior densidade populacional. É o segundo país mais industrializado da região, depois da Guatemala.
El Salvador é uma sociedade oligárquica e violenta, como é a regra na América Central, com a exceção da Costa Rica, que tem a melhor distribuição de renda da região e a mais longa tradição democrática da América Latina, que vem desde 1949, quando o coronel José Figueres aboliu as Forças Armadas depois de uma sangrenta guerra civil no ano anterior.
Essa sociedade oligárquica e violenta, com seu profundo fosso social, foi enquadrada na Guerra Fria. As revoluções nas vizinhas Nicarágua e Guatemala, nos anos 70, e a reação dos EUA armando ditaduras sanguinárias, levaram a uma intensificação do confito social, com forte atuação de esquadrões da morte da extrema direita, liderada pelo major Roberto d’Aubuisson.
A guerra civil salvadorenha explode em 24 de março de 1980, quando o arcebispo de San Salvador, dom Oscar Romero, é assassinado durante a missa de domingo. Nos sermões, ele costumava denunciar os esquadrões da morte e as violações dos direitos humanos.
Em 1981, os grupos armados de esquerda se unem na Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional. Mas essa era uma guerra que eles não podiam vencer. Ronald Reagan assumira a presidência dos EUA em janeiro de 1981 prometendo não ceder mais nenhuma polegada de terra do planeta ao Império do Mal, depois da vitória da Revolução Sandinista, na Nicarágua, em 1979, no governo Jimmy Carter.
Honduras foi transformada no porta-aviões dos EUA no que os historiadores chamam de Segunda Guerra Fria, que vai da invasão soviética no Afeganistão, em 1979, até o degelo na era Gorbachev, que assumiu o poder em 1985.
Na América Central, um dos quintais do mundo, a Guerra Fria foi quente. Foram 75 mil mortos em El Salvador, outros 75 mil na Nicarágua e 200 mil na Guatemala, muito mais gente do que na América do Sul, onde a guerra suja matou 30 mil na Argentina, com uma população muito maior.
A rádio rebelde Venceremos dizia: “Se Nicarágua venció, El Salvador vencerá.” Mas a guerrilha não venceu. A FMLN chegou a ocupar 30%-40% do território salvadorenho. Bloqueava a Rodovia Pan-Americana e cobrava pedágio de guerra. Não passei lá, na minha longa viagem pela América Latina, em 1982. Fui até San Pedro de Sula, no Norte de Honduras, e de lá entrei na Guatemala.
Com o degelo na Guerra Fria, houve uma série de negociações e processos de paz apoiados pela ONU, os EUA e a URSS na Guatemala e em El Salvador, na Namíbia, no Marrocos e no Saara ocupado, no Camboja, em Angola e Moçambique.
A guerra civil salvadorenha termina em 1992. Uma comissão concluiu que os militares e paramilitares de direita foram responsáveis por 85% dos crimes, mas foi adotada uma anista ampla, geral e irrestrita.
Ao mesmo tempo, em paz, a América Central perdeu a importância geopolítica dos tempos da Guerra Fria e foi abandonada à sua própria miséria. As promessas de crédito, terra e emprego feitas no acordo de paz foram rapidamente substituídas por políticas de austeridade econômica inspiradas pelo Consenso de Washington. Desde 2001, a economia está dolarizada.
Como é característica dos processos de paz, deles resultam sociedades divididas, com uma casta de jovens endurecidos pela guerra que se acostumaram a viver na luta armada e uma grande quantidade de armas em circulação.
O resultado é o aumento da criminalidade e da violência sem objetivos políticos, com a formação de gangues e um intenso tráfico de armas. As Maras, as gangues que aterrorizam San Salvador, são famosas. Teriam mais de 150 mil membros e tentáculos que vão até os EUA. Confiram no YouTube.
A FMLN já tinha governado a capital, mas só chegou ao poder nacional agora, com o jornalista Mauricio Funes, que não pertenceu à guerrilha e tomou posse na última segunda-feira. Foi repórter durante a guerra civil e depois tinha um programa de televisão. É casado com uma brasileira.
Menor país da América Central (ou do istmo centro-americano, se as ilhas do Caribe foram consideradas parte do subcontinente) e único sem saída para o Atlântico, El Salvador tem a maior densidade populacional. É o segundo país mais industrializado da região, depois da Guatemala.
El Salvador é uma sociedade oligárquica e violenta, como é a regra na América Central, com a exceção da Costa Rica, que tem a melhor distribuição de renda da região e a mais longa tradição democrática da América Latina, que vem desde 1949, quando o coronel José Figueres aboliu as Forças Armadas depois de uma sangrenta guerra civil no ano anterior.
Essa sociedade oligárquica e violenta, com seu profundo fosso social, foi enquadrada na Guerra Fria. As revoluções nas vizinhas Nicarágua e Guatemala, nos anos 70, e a reação dos EUA armando ditaduras sanguinárias, levaram a uma intensificação do confito social, com forte atuação de esquadrões da morte da extrema direita, liderada pelo major Roberto d’Aubuisson.
A guerra civil salvadorenha explode em 24 de março de 1980, quando o arcebispo de San Salvador, dom Oscar Romero, é assassinado durante a missa de domingo. Nos sermões, ele costumava denunciar os esquadrões da morte e as violações dos direitos humanos.
Em 1981, os grupos armados de esquerda se unem na Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional. Mas essa era uma guerra que eles não podiam vencer. Ronald Reagan assumira a presidência dos EUA em janeiro de 1981 prometendo não ceder mais nenhuma polegada de terra do planeta ao Império do Mal, depois da vitória da Revolução Sandinista, na Nicarágua, em 1979, no governo Jimmy Carter.
Honduras foi transformada no porta-aviões dos EUA no que os historiadores chamam de Segunda Guerra Fria, que vai da invasão soviética no Afeganistão, em 1979, até o degelo na era Gorbachev, que assumiu o poder em 1985.
Na América Central, um dos quintais do mundo, a Guerra Fria foi quente. Foram 75 mil mortos em El Salvador, outros 75 mil na Nicarágua e 200 mil na Guatemala, muito mais gente do que na América do Sul, onde a guerra suja matou 30 mil na Argentina, com uma população muito maior.
A rádio rebelde Venceremos dizia: “Se Nicarágua venció, El Salvador vencerá.” Mas a guerrilha não venceu. A FMLN chegou a ocupar 30%-40% do território salvadorenho. Bloqueava a Rodovia Pan-Americana e cobrava pedágio de guerra. Não passei lá, na minha longa viagem pela América Latina, em 1982. Fui até San Pedro de Sula, no Norte de Honduras, e de lá entrei na Guatemala.
Com o degelo na Guerra Fria, houve uma série de negociações e processos de paz apoiados pela ONU, os EUA e a URSS na Guatemala e em El Salvador, na Namíbia, no Marrocos e no Saara ocupado, no Camboja, em Angola e Moçambique.
A guerra civil salvadorenha termina em 1992. Uma comissão concluiu que os militares e paramilitares de direita foram responsáveis por 85% dos crimes, mas foi adotada uma anista ampla, geral e irrestrita.
Ao mesmo tempo, em paz, a América Central perdeu a importância geopolítica dos tempos da Guerra Fria e foi abandonada à sua própria miséria. As promessas de crédito, terra e emprego feitas no acordo de paz foram rapidamente substituídas por políticas de austeridade econômica inspiradas pelo Consenso de Washington. Desde 2001, a economia está dolarizada.
Como é característica dos processos de paz, deles resultam sociedades divididas, com uma casta de jovens endurecidos pela guerra que se acostumaram a viver na luta armada e uma grande quantidade de armas em circulação.
O resultado é o aumento da criminalidade e da violência sem objetivos políticos, com a formação de gangues e um intenso tráfico de armas. As Maras, as gangues que aterrorizam San Salvador, são famosas. Teriam mais de 150 mil membros e tentáculos que vão até os EUA. Confiram no YouTube.
A FMLN já tinha governado a capital, mas só chegou ao poder nacional agora, com o jornalista Mauricio Funes, que não pertenceu à guerrilha e tomou posse na última segunda-feira. Foi repórter durante a guerra civil e depois tinha um programa de televisão. É casado com uma brasileira.
segunda-feira, 16 de março de 2009
Esquerda ganha eleição em El Salvador
Dezessete anos depois do fim de uma guerra civil em que 75 mil pessoas morreram, a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional chegou ao poder pelo voto. O presidente eleito, Mauricio Funes, é um jornalista de televisão sem passado de luta armada. Ele recebeu 51,6% dos votos contra 48,4% para a oposição.
Ao reconhecer a derrota, seu rival, Rodrigo Ávila, da Aliança Republica Nacionalista (Arena), que apoiava os governos militares nos tempos da Guerra Fria, acusou Funes de esconder na campanha suas ligações com Hugo Chávez e com o projeto bolivarista e socialista do presidente da Venezuela, que levaria El Salvador ao comunismo.
A Guerra Fria ainda reluta para morrer em algumas regiões mais atrasadas da América Latina. El Salvador herdou da guerra civil uma juventude sem esperança e uma geração acostumada a resolver problemas com base nas armas.
Os índices de criminalidade e violência de San Salvador estão entre os piores do continente.
Ao reconhecer a derrota, seu rival, Rodrigo Ávila, da Aliança Republica Nacionalista (Arena), que apoiava os governos militares nos tempos da Guerra Fria, acusou Funes de esconder na campanha suas ligações com Hugo Chávez e com o projeto bolivarista e socialista do presidente da Venezuela, que levaria El Salvador ao comunismo.
A Guerra Fria ainda reluta para morrer em algumas regiões mais atrasadas da América Latina. El Salvador herdou da guerra civil uma juventude sem esperança e uma geração acostumada a resolver problemas com base nas armas.
Os índices de criminalidade e violência de San Salvador estão entre os piores do continente.
terça-feira, 17 de abril de 2007
Cidadãos classe A x homens-bomba classe Z
Mais do que nunca, as guerras hoje criam situações políticas e sociais complexas. Só podem ser vencidas com um misto de tecnologia e sociologia, adverte um grande especialista, o ex-comandante guerrilheiro da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), Joaquín Villalobos, que lutou nos anos 70 e 80 contra ditaduras militares em El Salvador, na América Central.
No artigo Guerreiros sem Causa, publicado hoje no jornal espanhol El País, Villalobos afirma que "a guerra do Iraque se converteu num cenário dramático onde cidadãos classe A do mundo desenvolvido combatem homens-bomba classe Z de países pobres."
Seis anos depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, o ex-guerrilheiro salvadorenho acredita que os Estados Unidos caíram numa armadilha: "Não perceberam que era uma provocação para levar a uma reação desproporcional e agora estão presos numa guerra que não sabem como lutar e menos ainda como ganhar".
"Por mais tecnologia que se tenha", observa Villalobos, "no final, a infantaria deve ocupar o terreno". Os Rambos, que acabam cometendo ações criminosas, e soldados equipados para uma guerra entre galáxias não servem para atuar num cenário de miséria e fanatismo religioso.
Assim, além da tecnologia, os Exércitos modernos precisam da sociologia. "Para capturar bandidos isolados se necessita de uma investigação científica mas, quando a violência assume uma dimensão social, a batalha se trava sobretudo na arena política", acrescenta o ex-comandante da FMLN.
Na sua opinião, "a infantaria moderna requer trabalhadores sociais armados que saibam combater mas que sobretudo sejam capazes de interagir com o entorno social, político e cultural de seu teatro de operações. Só assim podem isolar o inimigo, só assim saberão como fazer sentir que sua presença é uma proteção e não uma ameaça, e só assim poderão se sentir lutando por uma causa pela qual valha a pena serem heróis."
No artigo Guerreiros sem Causa, publicado hoje no jornal espanhol El País, Villalobos afirma que "a guerra do Iraque se converteu num cenário dramático onde cidadãos classe A do mundo desenvolvido combatem homens-bomba classe Z de países pobres."
Seis anos depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, o ex-guerrilheiro salvadorenho acredita que os Estados Unidos caíram numa armadilha: "Não perceberam que era uma provocação para levar a uma reação desproporcional e agora estão presos numa guerra que não sabem como lutar e menos ainda como ganhar".
"Por mais tecnologia que se tenha", observa Villalobos, "no final, a infantaria deve ocupar o terreno". Os Rambos, que acabam cometendo ações criminosas, e soldados equipados para uma guerra entre galáxias não servem para atuar num cenário de miséria e fanatismo religioso.
Assim, além da tecnologia, os Exércitos modernos precisam da sociologia. "Para capturar bandidos isolados se necessita de uma investigação científica mas, quando a violência assume uma dimensão social, a batalha se trava sobretudo na arena política", acrescenta o ex-comandante da FMLN.
Na sua opinião, "a infantaria moderna requer trabalhadores sociais armados que saibam combater mas que sobretudo sejam capazes de interagir com o entorno social, político e cultural de seu teatro de operações. Só assim podem isolar o inimigo, só assim saberão como fazer sentir que sua presença é uma proteção e não uma ameaça, e só assim poderão se sentir lutando por uma causa pela qual valha a pena serem heróis."
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