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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Entrevista aO Globo: não somos bolivarianos

Hoje fui citado na coluna de Eliane Oliveira, nO Globo, que discutia se o Brasil está se orientando no rumo da "revolução bolivarista", que eu prefiro chamar de chavista. Entendo que não corremos esse risco de deterioração da democracia para o velho caudilhismo latino-americano. Uma democracia forte depende de instituições e não de déspotas iluminados. 

Primeiro, é preciso definir o que é boliviariano. Quando fiz, no Jornal do Brasil, minha primeira matéria sobre boliviarismo, publicada 5 de fevereiro de 1992, no dia seguinte ao frustrado golpe liderado por Hugo Chávez contra o presidente Carlos Andrés Pérez, em 1992, um leitor intelectualizado (e o JB tinha muitos) foi até a redação conversar comigo e me convencer de que bolivariano não é construção da língua portuguesa. O correto seria bolivarismo.

Simón Bolívar, o mais famoso dos libertadores da América, foi um caudilho nacionalista, um general brilhante e um ditator. Nunca foi socialista nem antiamericano, as duas características do bolivarismo chavista. Admirava os EUA e era a favor da integração regional, da criação da uma espécie da Estados Unidos da América do Sul para contrabalançar o peso do Grande Irmão do Norte. Bolívar foi um pioneiro do pan-americanismo e da integração regional. Isso se reflete na ideologia chavista.

Karl Marx criticou Bolívar duramente como autoritário e bonapartista: "Tendo se proclamado ditador e libertador das províncias orientais da Venezuela, ele criou 'a ordem do libertador', criou um grupo militar de elite sob o comando de seu guarda-costas e cercou-se do aparato de uma corte."

O manifestado do Movimento Nacionalista Bolivariano divulgado por Chávez em 1992 era um nacionalismo militarista e anti-imperialista na linha do general e caudilho argentino Juan Domingo Perón, sem o "socialismo do século 21", que aparece depois, sendo fortalecido pelo golpe de 2002 contra Chávez, apoiado pelo governo de George W. Bush nos EUA. O documento citava explicitamente questões de fronteira com a Colômbia e a Guiana, inquietando os vizinhos, que viam Chávez como um Rambo de esquerda.

Assim, o bolivarismo, que prefiro chamar de chavismo, já que Bolívar nunca foi socialista, transformou-se numa ideologia revolucionária, mais pan-americana do que nacionalista, anti-imperialista, antiamericana, antiliberal e anticapitalista. Na prática, o modelo chavista propõe mobilizar as massas para reformar revolucionariamente os países refundando os Estados Nacionais através de Assembleias Nacionais Constituintes eleitas pelo voto popular.

De acordo com Ernesto Laclau, guru do kirchnerismo, a versão argentina do chavismo, recentemente falecido, as Constituições em vigor representam e cristalizam a dominação das oligarquias. A única maneira de romper esta ordem conservadora é reescrevendo as Constituições a partir de zero.
 
Isso remete ao discurso lulista de Ano Zero ("Nunca antes na história deste país..."), como se o país tivesse sido refundado desde a vitória do ex-presidente Lula, em 2002, mas o Brasil tem feito reformas sob a Constituição de 1988. Uma das principais críticas ao chavismo é nunca ter dado tempo de uma Constituição ser aplicada antes de apresentar uma série de emendas.

Na realidade, esse poder constituinte personalizado na figura do caudilho desinstitucionalizou os países onde foi adotado, Venezuela, Bolívia e Equador, colocando mais uma vez na História da América Latina o líder acima das instituições, um grande risco para a democracia. Isso se deve fundamentalmente ao fato de que as instituições eram frágeis e de que os países estavam em profundas crises.

Chávez foi eleito em 1998, quando, sob o efeito da Crise da Ásia, o preço do petróleo caíra para cerca de US$ 10. A esse preço, só o petróleo do Oriente Médio seria viável economicamente. Na Bolívia e no Equador, ninguém conseguia terminar o mandato.

O Brasil tem instituições fortes e consolidadas - e não enfrenta nenhuma crise séria. Assim, não vejo como possa se tornar bolivariano. No Mensalão, o governo Lula foi acusado de comprar o Congresso, especialmente sua maioria conservadora e fisiológica. Um amigo petista comentou na época: "Compraram deputados de direita para aprovar projetos de direita", entre eles parte da reforma da Previdência.

Não existe a menor perspectiva de qualquer partido, de direita ou de esquerda, de obter uma maioria qualificada para mudar a Constituição. Muita gente nas correntes mais à esquerda do PT, do PCdoB e do PSoL talvez sonhe com a regulamentação da mídia (necessária do ponto de vista econômico, mas usada na Argentina para dividir o grupo Clarín, que até a greve dos ruralistas, em 2008, apoiava o casal Kirchner), com uma Constituinte para fazer a reforma política e investimentos muito mais expressivos em programas sociais, como fez Chávez.

O maior problema para estas correntes de esquerda é o colapso do chavismo na Venezuela, com inflação acima de 70% e escassez de produtos básicos como papel higiênico, carne, arroz, farinha etc. num país que se orgulha de ter as maiores reservas mundiais de petróleo.

O bolivarianismo está em colapso por causa da desinstitucionalização promovida por Chávez. Desde 1999, a Venezuela vendeu cerca de US$ 1 trilhão em petróleo e não tem dinheiro para nada, o que ameaça os subsídios que dá a Cuba, Nicarágua e outros países do Caribe na Petrocaribe. Além de mediar o diálogo com a oposição, o Brasil deveria propor reformas econômicas a Maduro. Com a militarização do regime, a Venezuela marcha para a tragédia. É um exemplo a evitar.

Onde o chavismo está dando certo é na Bolívia e no Equador, que não tem riquezas abundantes como o petróleo venezuelano. O segredo dos presidentes boliviano, Evo Morales, e equatoriano, Rafael Correa, é uma administração rigorosa das contas públicas para poder financiar os programas sociais de combate à pobreza.

Então, na Bolívia e no Equador, há censura à imprensa, pressões sobre o Judiciário e outras características renitentes do autoritarismo latino-americano, mas o desenvolvimento social e a estabilidade são ganhos concretos em relação a um passado recente em que presidentes não conseguiam completar seus mandatos nos dois países. Ambos têm grandes populações indígenas antes excluídas. Correa e Morales trabalham para elas, o que os coloca em conflito com a elite branca.

Não há paralelo entre esses países pequenos e o Brasil.

Em economia, seguir o modelo chavista seria suicídio. De resto, o país tem instituições fortes e consolidadas. Não vejo no Brasil risco de que alguém consiga maioria absoluta para refundar o país via Constituinte ou reforma constitucional. Pelo contrário, o Congresso fragmentado é um bastião do conservadorismo. 
Outra questão é o Supremo Tribunal Federal. O PT terá o direito de nomear mais alguns ministros nos próximos anos. É o que acontece em qualquer democracia grande um partido fica muito tempo no poder. Desde o governo Ronald Reagan (1981-89), a Suprema Corte dos EUA passou de liberal a conservadora.

Existe no ar uma suspeita genérica de que os últimos ministros do Supremo Tribunal Federal foram escolhidos sob medida para absolver os mensaleiros de formação de quadrilha, mas o prestígio do STF aumentou com o julgamento do Mensalão. A Justiça brasileira tem muitos problemas, a começar pelo altíssimo índice de homicídios, mas a independência do Judiciário é garantida pela Constituição, cabendo aos ministros do Supremo honrá-la.

O debate sob controle ou regulamentação da mídia é uma proposta muito mais do partido do que do governo. Com 70 deputados num total de 513, não vejo como possa prosperar. A censura é inaceitável na sociedade brasileira. 
A regulamentação na era da Internet se dá por aqui numa queda de braço entre TV e telefônicas que exige a supervisão do Estado em defesa da liberdade de expressão e dos direitos dos usuários. De resto, o conteúdo está pulverizado na rede mundial de computadores. Ao contrário de países como a China, a Rússia e o Irã, ninguém vai censurar Internet no Brasil

Como observou o professor Alan Knight, especialista em América Latina na Universidade de Oxford, numa conferência sobre os 500 anos do Brasil, em 2000, "no Brasil, ninguém se assume como liberal, mas o país é uma democracia liberal e tem uma economia liberal". Isso não vai mudar.

Sob o PT, na minha opinião, o país avança no sentido de ampliar e universalizar direitos, ou seja, de ampliar os benefícios desta democracia liberal para construir uma sociedade mais justa e inclusiva. É esse projeto de reformas graduais e moderadas que vem da redemocratização e da Constituição de 1988 que tem apoio popular e ganha eleições.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Analista vê transição lenta e islamização na Tunísia

O resultado das primeiras eleições democráticas realizadas depois das revoluções da primavera árabe, no domingo, na Tunísia, indicam "uma vontade de mudar o sistema sem muita pressa", afirma o professor Vincent Geisser, pesquisador do Instituto de Estudos e Pesquisas sobre o Mundo Árabe e do Instituto Francês do Oriente Médio. Ele acaba de lançar o livro A Renascença Árabe: sete questões-chaves sobre as revoluções em marcha. Considera islamização inevitável.

Em entrevista ao jornal francês Libération, Geisser falou sobre o Partido da Renascença Islâmica (Nahda), vencedor das eleições para a Assembleia Constituinte da Tunísia, descrito na mídia ocidental como islamita moderado: "Liberal no plano econômico e político, ele reconhece a primazia do sistema pluralista, renuncia à teocracia" e é "profundamente conservador" em valores e moral.

Ao votar nele, na opinião do pesquisador, os eleitores tunisianos não estariam querendo a transformação do país numa república islâmica no modelo do Irã, mas "a volta da ordem anterior à efervescência revolucionária".

Diante da vitória do Nahda e das declarações do presidente do Conselho Nacional de Transição da Líbia, Mustafá Abdel Jalil, de que o direito islâmico será a base legal da nova Líbia, vários sinais de alerta foram acesos no Ocidente, que há uma década luta contra o terrorismo de extremista muçulmanos.

A tendência de votar em islamitas é inevitável, argumenta Geisser: "Eles fizeram uma revolução em nome da democracia e é em nome dessa aspiração democrática que votaram a favor de uma maioria islâmica. Pode parecer contraditório aos olhos de observadores ocidentais, mas é lógico para numerosos tunisianos. A reapropriação de sua islamicidade é vista como um avanço democrático".

Quando à evolução ideológica do Nahda, o orientalista considera que seu modelo político não se assemelha ao da revolução iraniana: "Não penso que este partido queira criar uma teocracia, mas um regime pluralista com fortes referências ao islamismo".

O professor confia na força que a sociedade civil da Tunísia mostrou ao acabar, em 14 de janeiro de 2011, com a ditadura de Zine ben Ali, que durava 23 anos: "Os islamistas não está sozinhos e não se de ve subestimar a força da sociedade civil. Os tunisianos não se livraram de um ditador barbeado para colocar no poder um ditador barbado. Se os islamitas forem tentados a instalar um novo regime autoritário, vão enfrentar resistência".

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Congresso da Bolívia convoca referendos

Depois de meses de conflito e negociações, e de 17 horas de debate parlamentar, o Congresso da Bolívia aprovou hoje a realização, em 25 de janeiro, de dois referendos: um sobre a nova Constituição e outro sobre a reforma agrária.

Dezenas de milhares de índios que marcharam 200 quilômetros durante oito dias e chegaram ontem a La Paz fizeram uma vigília durante toda a noite na Praça Murillo, diante do Congresso, ao lado do presidente Evo Morales, à espera da aprovação do projeto, o que só aconteceu no início da tarde de hoje.

O projeto de Constituição aprovado no final do ano passado em uma reunião da Assembléia Constituinte dentro de um quartel em Sucre, recebeu pelo menos 150 modificações e 1,2 mil correções. Morales terá direito a apenas uma reeleição e as autonomias regionais reivindicadas pela oposição foram incluídas na nova Carta.

"Uma parte substancial da Constituição apoiada pelo governo foi alterada", declarou o deputado oposicionista Alejandro Conlazi. "É imperfeita porque tem muitos artigos que o pessoal do MAS (Movimento ao Socialismo) colocou lá que na minha opinião são ruins para o país, mas a tentativa de abrir o caminho para a hegemonia do poder na Bolívia foi controlada".

Sob a presidência do vice-presidente Álvaro García Linera, o Congresso aprovou os dois referendos. Do lado de fora do parlamento, os manifestantes cantavam o Hino Nacional da Bolívia.

Imediatamente, García Linera levou o projeto para ser assinado em praça pública pelo presidente Morales. Emocionado, ele disse aos manifestantes, quase todos índios: "Missão cumprida, meus irmãos e irmãs!"

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Assembléia aprova nova Constituição do Equador

A Assembléia Constituinte do Equador, dominada por partidários do presidente Rafael Correa, aprovou ontem a nova Constituição do país, enquanto a oposição denunciava a instalação de um "hiperpresidencialismo" caracterizado pela hipertrofia dos poderes do Executivo e pelo direito de Correa de permanecer no cargo até 2017.

Pelas regras da Constituinte convocada pelo presidente logo depois de sua posse, a nova carta será submetida à aprovação popular em referendo a ser realizado no mês de setembro.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Maoístas elegem metade dos deputados no Nepal

Os ex-rebeldes maoístas elegeram 120 dos 240 deputados escolhidos diretamente pelo voto popular no Nepal, cerca de 40% do total da Assembléia Constituinte de 601 cadeiras que vai refundar o país como uma república.

Outros 335 deputados serão indicados ainda nesta semana com base na divisão proporcional do total de votos entre os partidos. Os 26 restantes foram nomeados pelo governo.

No final das contas, faltaram 70 deputados para os maoístas terem maioria absoluta na Constituinte.

Com a reviravolta política e a vitória dos rebeldes considerados um grupo terrorista pelos Estados Unidos, é certa a abolição da monarquia.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Morte de deputado pára negociação no Quênia

O assassinato do segundo deputado da oposição em três dias, nesta quinta-feira, acirrou ainda mais o conflito deflagrado pela fraude na eleição presidencial de 27 de dezembro passado. David Kimutai Too foi morto por um policial. Como teria um caso com a mulher do policial, a morte está sendo tratada inicialmente como crime passional.

Em a Etiópia, onde participou da abertura da reunião de cúpula da União Africana, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki Moon, advertiu os líderes quenianos de que o país está à beira de uma catástrofe.

Ban chega nesta sexta-feira a Nairóbi, a capital queniana, para tentar acelerar as negociações de paz entre o presidente Mwai Kibaki e o líder da oposição, Raila Odinga.

As questões centrais são a formação de um governo de união nacional para dividir o poder, uma reforma agrária para acabar com a infiltração da tribo do governante da vez nos territórios de seus adversários e a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte.