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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Década será marcada pela volta do multipolarismo

Com a irresistível ascensão da China e o declínio relativo dos Estados Unidos, esta década será marcada pela volta do multipolarismo. Depois do sistema internacional bipolar da Guerra Fria e do unipolarismo com a vitória do Ocidente e do capitalismo, o mundo terá muitos polos de poder.

Por causa de seu poder econômico, político e militar, os Estados Unidos e a China serão os polos mais fortes, com a Europa e a Rússia num plano abaixo. Deve surgir um grande número de alianças menores, regionais ou focadas em tópicos, com países menos poderosos buscando aglutinar seus esforços para negociar com as grandes potências. 

A previsão é da empresa americana de consultoria e análise estratégica Stratfor, que apresenta suas expectativas a cada cinco anos. Meu comentário:

terça-feira, 17 de maio de 2011

Seis emergentes terão metade do crescimento mundial

O Brasil e outros cinco países emergentes – China, Índia, Rússia, Indonésia e Coreia do Sul – serão responsáveis por mais da metade do crescimento da economia mundial até 2025, afirma um relatório do Banco Mundial divulgado hoje em Washington, nos Estados Unidos. A notícia é do sítio Portugal Digital.

No relatório Horizontes do Desenvolvimento Global 2011 – Multipolaridade, a Nova Economia Global, a expectativa de crescimento dos emergentes é estimada em 4,7% ao ano, enquanto os países ricos devem crescer apenas 2,3% ao ano no mesmo período.

“A ascensão rápida das economias emergentes conduziu uma mudança pela qual agora os centros de crescimento econômico estão divididos entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento”, declarou o vice-presidente do Banco Mundial para economia do desenvolvimento, Justin Yifu Lin.

Ele concluiu: “Estamos realmente num mundo multipolar.”

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Índia: com 60 anos e cada vez mais sexy

A Índia festeja hoje 60 anos de independência do Império Britânico - e a separação do Paquistão até hoje é uma ferida aberta - como uma superpotência emergente no século 21.

Ao celebrar, o primeiro-ministro Manmohan Singh declarou que "o país só será independente quando erradicar a miséria".

É a 10ª economia do mundo. Cresce 9% ao ano. Tem mais de 1,1 bilhão de habitantes, sendo 800 milhões de pobres vivendo com menos de um dólar por dia. Mas a classe média se aproxima de 300 milhões.

A Índia adota o inglês e herdou da dominação colonial a própria idéia de Índia, a língua nacional, o sistema educacional, o funcionalismo público e o sistema jurídico.

Com o seu próprio Vale do Silício, ao redor de Bangalore, a Índia é uma superpotência mundial em software. Não fica atrás de ninguém.

Vítima da exploração colonial, a Índia independente sob a liderança do Mahatma Gandhi e de Jawaharlar Nehru tornou-se um país não-alinhado. Não queria se submeter. Sem aderir ao socialismo, virou aliada da União Soviética. Tinha uma economia fortemente protegida em nome da soberania nacional.

A derrota para a China numa guerra de fronteira em 1962 levou a Índia a desenvolver a bomba atômica, que teria conseguido em 1974, no governo de Indira Gandhi. O país nunca aceitou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, que cria dois tipos de países, os que têm a bomba e os que não podem ter armas atômicas.

Foi o filho de Indira, Rajiv Gandhi, que iniciou o processo de abertura econômica da Índia, em 1991, antes de ser assassinado por um extremista, não por convicção política mas, como no Brasil, por falência do modelo anterior.

Em maio de 1998, o governo do Partido Bharatiya Janata cumpriu uma de suas promessas de campanha: realizou um teste nuclear, colocando o país oficialmente como parte do seleto grupo que têm a bomba atômica. O arquirrival Paquistão fez o mesmo em seguida, neutralizando a superioridade estratégica que as armas nucleares dariam à Índia.

Os dois países travaram três guerras entre si desde a independência da Grã-Bretanha, há 60 anos, em 1947, 1965 e 1971, quando o antigo Paquistão Oriental se tornou independente como Bangladesh.

Na verdade, a bomba atômica é o instrumento de dissuasão para o Paquistão, que é mais fraco, está em crise política, sob ditadura militar e não surfa na onda de prosperidade econômica da Índia. O pai da bomba paquistanesa, Abdul Kadir Kahn, é responsabilizado por difundir tecnologia de enriquecimento de urânio entre países do Terceiro Mundo.

Apesar dos protestos iniciais, sobretudo dos Estados Unidos, a Índia ascendeu de status internacionalmente com a explosão nuclear. Passou a ser vista mais ainda por Washington como uma aliada estratégica para equilibrar o crescente poderio chinês.

Apesar do crescimento econômico e do status de potência nuclear, o governo nacionalista hindu perdeu as eleições para o Partido do Congresso de Gandhi, Nehru, Indira e Rajiv, que historicamente lutou por uma Índia unida.

Superpotência emergente, com uma população enorme, uma economia em crescimento acelerado sustentável e uma cultura multimilenar, a Índia é um dos países mais importantes do mundo do século 21.

Por mais formidável que seja a ascensão da China, nenhum país dominará o mundo globalizado, que tende a ser mais pluralista do que hegemônico. A tendência é para um multipolarismo com várias grandes potências cuja articulação será fundamental para enfrentar os desafios do futuro: EUA, China, Japão, Europa, Rússia, Índia e Brasil.

Alguns analistas incluem a Indonésia, por seu tamanho e população, e certamente África do Sul, Nigéria, Egito, Arábia Saudita e Irã são potências regionais. Mas potências mundiais são aquelas ali. E a Índia e a estrela em ascensão.

(O título acima é tirado da manchete de um jornal conservador, The Times of India.)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Eixo do mal torna Doutrina Bush irrelevante

(Palestra de lançamento do livro Bush 2: A Missão)

A Doutrina Bush é a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, encaminhada pelo presidente George Walker Bush ao Congresso em setembro de 2002, sob o impacto dos atentados de 11 de setembro de 2001, e revista no segundo mandato, em março de 2006.

Tem dois pilares:
- as guerras preventivas, como maneira de evitar atentados terroristas, já que eles não declaram guerra antes de atacar;
- e a democratização, especialmente do Oriente Médio, para que a oposição política seja exercida publicamente, sem recurso à violência e ao terrorismo, de modo a isolar os extremistas.

É impossível construir uma ordem internacional baseada no Direito com base numa doutrina de guerras preventivas. O uso da força só é admissível em legítima defesa. Nas relações internacionais, isto inclui o princípio de autodeterminação dos povos, o que tem dado origem a muitas guerras civis no mundo pós-Guerra Fria.

Um aspecto central das relações internacionais, como destacou Hedley Bull, é que a sociedade internacional é uma sociedade anárquica, não por que não tenha ordem mas por que não tem governo. Não há governo mundial, os cidadãos do mundo não querem um mega-Estado. Há mecanismos de governança global, como as organizações internacionais.

Em seu livro A Sociedade Anárquica, Bull identificou cinco instituições da sociedade internacional:
1. A Guerra: sempre foi vista como a maneira natural e inevitável de resolver os conflitos entre os povos. A idéia de paz é recente. Começa com o Projeto para uma Paz Perpétua (1713), do Abade Saint-Pierre e com o Tratado para uma Paz Perpétua (1795), do filósofo alemão Emanuel Kant.
2. O Equilíbrio de Poder: como a humanidade, em sua diversidade, reage contra um governo mundial ou uma monarquia universal, como sonhava Carlos V, sempre que um país se torna poderoso demais os outros tendem a se aliar para contrabalançar este poderio. No momento, a total supremacia militar dos Estados Unidos parece desmentir isto. Mas se os EUA forem muito agressivos, a China e outros países se armarão e farão alianças para fazer frente ao desafio.
3. As Grandes Potências: na ausência de um governo mundial, as grandes potências impõem suas normas às relações internacionais, podendo exercer um papel positivo. Há até uma Teoria da Estabilidade Hegemônica que afirma que a existência de uma potência hegemônica garante a ordem do sistema. O Conselho de Segurança das Nações Unidas é um condomínio de grandes potências.
4. A Diplomacia: existe formalmente como a conhecemos hoje pelo menos desde as cidades-Estado italianas do Renascimento. Os representantes estrangeiros devem ter imunidade para serem intermediários nos negócios de Estado.
5. O Direito Internacional: é uma série de tratados, convenções, acordos e regimes que dão maior estabilidade e previsibilidade às relações internacionais. Refletem os interesses dos países que os propõem. Como não existe um governo mundial, quem aplica estas normais são as potências mundiais ou regionais e as organizações internacionais, dependentes destas mesmas potências.

PAZ É IDÉIA RECENTE
A paz é, então, sobretudo uma idéia do século 20, depois do terror de duas guerras mundiais e da ameaça de um holocausto nuclear durante a Guerra Fria, que pode ser considerada a terceira guerra mundial.

Só no século 20 surgiram as primeiras organizações internacionais universais dedicadas à paz mundial, a Liga das Nações e a Organização das Nações Unidas.

Sua origem remonta ao Concerto Europeu, criado pelo Congresso de Viena, que reuniu em 1815 as potências européias que haviam derrotado Napoleão e queriam restaurar a velha ordem monárquica.

A internacionalização do processo se dá com as conferências de Haia. Numa delas, já no século 20, brilhou Rui Barbosa.

Mas foi a Primeira Guerra Mundial que abalou a Europa, até então o centro do mundo, atraindo para os campos de batalha europeus os EUA, que desde sua fundação tinham como princípio não se envolver em guerras na Europa.

Para vender a guerra ao povo americano, o presidente Woodrow Wilson, um liberal internacionalista, disse que “era a guerra para acabar com todas as guerras”. Ele achava que o problema estava na monarquia e na falta de democracia plena.

Os EUA entraram na guerra em 1917, mesmo ano da Revolução Russa. Era a entrada no cenário internacional das duas superpotências que dominariam o planeta na segunda metade do século 20.

Wilson apresentou um plano de 14 pontos na Conferência de Versalhes, em 1919, que seria descrita como “a paz para acabar com todas as pazes”. Entre eles, estava a criação da Liga das Nações (1919), a primeira organização internacional dedicada à paz universal.

Mas o Senado dos EUA, que precisa aprovar os acordos internacionais, rejeitou o tratado que criava a Liga das Nações, sob o argumento de que limitaria a soberania nacional do país.

Sem seu membro mais poderoso, a Liga foi inoperante diante das agressões que provocaram a Segunda Guerra Mundial, como a invasão da Manchúria (1931) e do resto da China (1937) pelo Japão; da Etiópia (1935-6) pela Itália fascista, de Benito Mussolini; e da anexação da Áustria (1938) e da região dos Sudetos (1938), na Tcheco-Eslováquia, pela Alemanha nazista, de Adolf Hitler.

A Liga conversava mas não tinha força real. Estava armado o caminho para a Segunda Guerra Mundial.

Os EUA entram na Segunda Guerra Mundial em 7 de dezembro de 1941, quando os japoneses lançam um ataque sem declarar guerra à frota americana em Pearl Harbor, no Havaí, matando 2.403 americanos, no Dia da Infâmia. Depois, eles destruiriam a maioria das grandes cidades japonesas, mas esta é outra história.

AS NAÇÕES UNIDAS
Mesmo antes de entrar na guerra, o presidente americano, Franklin Delano Roosevelt, tinha assinado uma declaração conjunta com o primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, a Carta do Atlântico, estabelecendo os princípios para o mundo do pós-guerra.

Na Declaração das Nações Unidas, de 1º de janeiro de 1942, os aliados assumem os compromissos da Carta do Atlântico. Este é o embrião da ONU.

Para não repetir o erro da Liga, Roosevelt criou o Conselho de Segurança, um condomínio de grandes potências, já que seriam elas que teriam de garantir os princípios da Carta das Nações Unidas, assinada em 26 de junho de 1945.

Hoje a constituição do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Rússia, China, França e Reino Unido) é obsoleta mas não há uma ruptura da ordem internacional que permita uma mudança, sobretudo porque a ampliação do Conselho, por exemplo, com a entrada da Alemanha, do Japão, do Brasil e da Índia, diluiria o poder dos EUA e tornaria muito mais difícil articular o consenso necessário entre as grandes potências com direito de veto.

Sem o direito de veto, os novos membros permanentes seriam sócios de segunda classe, sem o maior privilégio das verdadeiras potências.

Cabe assinalar que o veto paralisou a ONU durante a Guerra Fria. Desde 1945, somente três guerras foram autorizadas pela ONU.

Na Guerra da Coréia, a União Soviética estava boicotando a organização porque a China comunista não tinha sido admitida. Até hoje, as forças lideradas pelos EUA ao Sul do Paralelo 38 Norte têm um mandato das Nações Unidas.

Em 1991, na guerra para expulsar os iraquianos do Kuwait, o dirigente soviético Mikhail Gorbachev votou a favor e a China se absteve, abrindo o caminho para uma guerra liderada pelos EUA.

Depois dos atentados de 11 de novembro, os EUA receberam uma carta branca e, em seguida, com seus aliados, invadiram o Afeganistão.

Os EUA têm a supremacia militar. Se você acredita que no final de contas o que vale é a lei da força, tenta se armar cada vez mais. Se acredita numa ordem internacional baseada no Direito, aproveita sua hegemonia para construir uma ordem internacional liberal, como tentaram Wilson e Roosevelt, com resultados muito distintos.

Os EUA têm a maior economia do mundo, US$ 13,3 trilhões anuais. Ganharam todos os prêmios Nobel de ciências este ano. Investem US$ 330 bilihões por ano em pesquisa científica e desenvolvimento tecnológica, bem à frente da China, com US$ 136 bilhões, que acaba de passar o Japão, com US$ 130 bilhões anuais.

Então, qualquer profecia sobre a decadência americana, apesar de problemas econômicos estruturais como o déficit comercial de US$ 850 bilhões e o déficit público que Bush criou, são prematuras, na minha opinião.

FUTURO MULTIPOLAR
Mas o unipolarismo é insustentável. Nenhum tem condições de dominar o mundo globalizado. No mundo do futuro, lá entre 2030 e 2050, é provável que tenhamos diversos centros de poder, os EUA, talvez ainda em primeiro, a China, o Japão, a Europa, a Rússia, a Índia e o Brasil – se o Brasil crescer a uma taxa média de pelos 3,7% ao ano até lá.

O fracasso da invasão do Iraque revelou as limitações do uso da força nas relações internacionais. Como disse o professor Joseph Nye jr., ex-subsecretário para política de defesa no governo Clinton, autor de O Poder Suave, os EUA ganharam a Guerra Fria sem disparar um tiro, com Hollywood, a economia e o estilo de vida americano, mais com idéias como a democracia liberal do que com balas.

Este seria o segundo pilar da Doutrina Bush: a democracia liberal como forma de permitir a livre expressão de idéias, de fazer política abertamente e não um grupos clandestinos e terroristas.

Mas a democracia é um processo, é uma cultura. É fruto de uma sociedade que chegou a um consenso para resolver seus conflitos pacificamente, através do diálogo e
da negociação. Está claro que o Iraque não estava maduro como diziam os neoconservadores que convenceram Bush a realizar a aventura militar.

O fracasso da ocupação do Iraque tornará a política externa americana menos ativista, pelo menos por um período, porque há uma rejeição da opinião pública. O segundo pilar da Doutrina Bush, que ele prometeu priorizar no discurso de posse do segundo governo e que deu o titulo ao livro, Bush 2: A Missão, também desmoronou.

Leia a íntegra na minha coluna em www.baguete.com.br