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terça-feira, 21 de maio de 2013

Guatemala anula condenação de ex-ditador por genocídio

O Tribunal Supremo da Guatemala anulou ontem a condenação por genocídio do ex-ditador Efraín Ríos Montt, alegando irregularidades no processo. Aos 86 anos, Ríos Montt foi sentenciado a 80 anos de prisão como responsável pela morte de 1.771 índios de tribo ixil, do grupo maia, quando presidiu o país, em 1982 e 1983.

A decisão obriga à realização de novo julgamento.

Com 200 mil mortes, a guerra civil guatemalteca foi a mais violenta da Guerra Fria na América Latina.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Ex-ditador da Guatemala é julgado por genocídio

No primeiro depoimento no processo do general Efraín Ríos Montt, um índio maia contou ontem como sua aldeia foi arrasada em 1982 por militares que empilharam os corações arrancados de suas vítimas em cima de uma mesa e incendiaram suas casas, no interior da Guatemala. É o primeiro ex-ditador latino-americano julgado por genocídio.

A Guatemala viveu a mais sangrenta guerra civil da Guerra Fria na América Latina, que começou em 1954,  com o golpe contra o presidente Jacobo Arbenz, articulado pelos Estados Unidos depois que ele iniciou uma reforma agrária em fazendas da companhia United Fruit. Em 1960, grupos de esquerda iniciaram uma luta armada que perdeu a força com a volta da democracia à Guatemala em 1986 e a assinatura de um acordo de paz em 1992, depois de cerca de 200 mil mortes.

Ríos Montt aterrorizou o país mais rico e mais populoso da América Central durante um ano e meio, do golpe de 23 de marco de 1982 até ser derrubado por outro general, Oscar Mejía Víctores, em 8 de agosto de 1983.

"Muitas mulheres morreram porque estavam preparando a massa para fazer tortilhas quando os soldados chegaram e não puderam correr", testemunhou Nicolás Brito, da tribo ixil lembrando o ataque contra a aldeia Canaque, no município de Santa María Nebaja. "Os soldados arrancaram os corações das vítimas, os colocaram em cima de uma pequena mesa e os empilharam".

A defesa rejeitou as alegações: "Ninguém jamais ouviu um pronunciamento dele dizendo: 'Matem os ixils! Exterminem os ixils!' José Efraín Ríos Montt nunca deu uma ordem verbal ou escrita mandando exterminar os ixils neste país", afirmou o advogado Francisco García Gudiel pouco antes de ser expulso do tribunal por discutir com o juiz.

Momentos antes do início da primeira audiência, Ríos Montt trocou sua equipe de defesa. O novo advogado entrou com uma série de recursos tentando suspender o julgamento por supostos erros processuais, informa a agência Associated Press.

Sem prova material de que o ditador teria ordenado os massacres da população indígena guatemalteca, a promotoria está apelando para a teoria do "domínio do fato". Tentam mostrar, analisando a cadeia de comando do Exército da Guatemala na época, que o general Ríos Montt não podia ignorar os crimes cometidos por seu governo.

Estive na Guatemala em 1982, durante o governo Ríos Montt. Quase todos os dias havia notícias em jornais sobre desaparecimento de pessoas. Um americano que dava aulas de inglês falava no assunto com um representante comercial guatemalteco que se hospedava no mesmo hotel:

- De onde vêm esses sequestradores? De outro planeta?

- Deve ser, Max - respondia o guatemalteco sem confirmar explicitamente para não se comprometer. Todos associavam as atrocidades a Ríos Montt. Seu julgamento por genocídio é um momento histórico.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Ex-ditador da Guatemala vai a julgamento

Em uma vitória na luta pela defesa dos direitos humanos na América Latina, um juiz da Guatemala rejeitou 13 recursos que tentavam impedir o julgamento do ex-ditador Efraín Ríos Montt por genocídio e crimes contra a humanidade no período mais duro da pior guerra civil do continente durante a Guerra Fria.

Da queda do presidente Jacobo Árbenz, em 1954, no primeiro golpe de Estado patrocinado pela CIA na região durante a Guerra Fria, até o acordo de paz de 1996, estima-se que mais de 200 mil pessoas foram mortas na Guatemala.

O general Ríos Montt governou o país num dos períodos mais sangrentos, em 1982 e 1983. Por causa da Guerra das Malvinas, a ditadura guatemalteca perdera a ajuda militar dos Estados Unidos, enviada ilegalmente pelo governo Ronald Reagan através da Argentina.

A morte de um jornalista americano executado friamente pelas forças do ditador Anastasio Somoza no fim da revolução sandinista na Nicarágua levara o Congresso dos EUA a proibir a ajuda do governo a ditaduras latino-americanas. Para driblar a lei, o governo Reagan contava com a ajuda das sanguinárias juntas militares da Argentina, que faziam o jogo sujo para Washington na América Central.

Como os EUA apoiaram o Reino Unido na Guerra das Malvinas, a Argentina suspendeu a ajuda em 1982. A ditadura da Guatemala, que tinha uma disputa histórica com o Império Britânico em torno de Belize, a antiga Honduras Britânica, chegou a oferecer ajuda militar a Buenos Aires. Acabou lutando com ferocidade ainda maior contra seu próprio povo.

Neste processo, Ríos Montt é acusado pela morte de mais de 1,7 mil índios de origem maia, herdeiros de uma das três grandes civilizações pré-colombianas da América.

Há um ano, a promotoria denunciou o general, que governou a Guatemala por um ano e cinco meses, de permitir o uso de tortura, violência sexual e incêndios criminosos numa campanha de "terra arrasada" contra rebeldes esquerdistas e aldeias indígenas de regiões sublevadas. Sua defesa conseguiu retardar o julgamento alegando que nunca houve genocídio na Guatemala e que o ditador não tinha controle sobre o que acontecia no "campo de batalha".

Agora, o juiz Miguel Ángel Galvez conclui que "há indícios graves suficientes para submeter as partes envolvidas a um julgamento público". Além do general, é réu o chefe da inteligência militar na época, José Mauricio Rodríguez, reporta a agência de notícias Reuters.